terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

CITAÇÕES





Eurídice, a quem não salvou a incompetência de Orfeu; Orfeu, que não se salvou nem com a clemência de Hades; Inês, morta pelo amor de Pedro; Layla, assassinada de desgosto às mãos do louco Majnun; Sherazade, vítima de violência doméstica de Shariar; Ofélia, afogada pelo desprezo de Hamlet; Teresa e Mariana, que se perderam por Simão; Romeu, tombado por Julieta e Julieta, vítima do equívoco de Romeu; Anna Karenine, que por Vronsky ofereceu o pescoço ao peso do comboio; Medeia, a quem o abandono de Jasão transformou em assassina; Madame Butterfly, forçada ao haraquiri depois de ter sido atraiçoada por um americano da marinha cuja indignidade é condenada com o constante olvido do seu nome; Páris, duas gerações de guerreiros destruídos por uma rameira chamada Helena.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

[sic]

O meu namorado é obsessivo-compulsivo, está sempre a lavar as mãos e tem nojo de tudo. Quero oferecer-lhe um livro que o ajude a fazer limpezas

30 DIAS

Visitou-nos durante 30 exactos dias, dirigindo-se invariavelmente para a área dos dicionários onde repetia, sem excepções, o mesmo gesto de agarrar num livro amarelo e permanecer por cerca de uma hora a estudá-lo compenetradamente. Sempre lhe oferecemos ajuda, sempre a recusou. Era ele e o seu livro amarelo, durante 30 exactos dias. Até hoje. Aproximou-se do balcão e pediu o livro de reclamações. Há 30 dias que ando a estudar aquele livro com o título Aprenda Alemão em 30 dias, e nada, não percebo nada, não entendo nada, o livro é um logro, quero reclamar. Disse.

DIA DOS NAMORADOS

Era para escrever sobre o Dia dos Namorados, coito interrompido pela falta de. Nunca tive namorada, nunca namorei, casei-me logo e divorciei-me no mesmo dia e voltei a casar-me com a mulher que deixei viúva e aqui estamos unidos para a morte. Lembrei-me, no entanto, de quando éramos jovens e gostávamos de música e líamos o Blitz. Só permanece a melomania. Guerras entre metálicos e curistas, nós sem coutada a desesperarmos por algo que oferecesse sentido à depressão. Veio com o grunge, chegou com o trip-hop, acercou-se com a neo-country e congéneres. Coleccionei pilhas de edições do Blitz. Queimei tudo, não sei por quê. Inclinação doukhobor. Também perdi noites sintonizado na MTV, a ouvir a Polly Jean e os sons oriundos da Bélgica no caudal de dEUS. Já viram no que se transformou a MTV? Há dias, passei por lá e vi um tipo a explodir bombinhas de Carnaval enfiadas no cu. Lembrei-me dos putos no Nine ½ Weeks a tocar uns quaisquer primeiros acordes, salvo erro, de Beethoven. O mundo transformou-se numa piada de mau gosto que o Blitz não quis desrespeitar. De vez em quando recebo publicidade com teaseres de bradar aos céus: homem faz várias cirurgias plásticas para ficar parecido com Britney Spears, que música ouvem os consumidores de pornografia? Tudo isto tem que ver com música, claro, tal como as indumentárias escolhidas a dedo para exibir na cerimónia dos Grammy Awards. Tudo isto terá mais interesse, desconfio, do que a música produzida por aquela gente tão tecnicamente problemática. Ouvia ontem o Júlio Isidro e a Fátima Campos Ferreira dizerem, na RTP Memória, que hoje é preciso muita coragem para se ser jornalista. Desconfio que no passado tenha sido preciso coragem, hoje parece-me que um estômago resiliente é mais adequado às circunstâncias. Ia escrever sobre o dia dos namorados. Fica para a próxima. 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Clique na imagem para ver melhor:


Hans Holbein o Novo (1497-1543)

Holbein opted to represent Christ in all his humanity here: Christ's dead body is so realistic that it is said to have been painted from de corpse of a drowned merchant. It is hard to believe that Holbein could have inventend that cadaverous stiffness, that gaping mouth baring its teeth, that greenish hue, or even that half-closed eye.


SINUSITE

Para uns, Putin pretende destruir a União Europeia. Outros temem pela desintegração da Rússia. Há ainda aqueles para quem Trump é uma séria ameaça ao mundo, não por ser Trump, mas por estar nas mãos de Putin. Diz-se também que a Rússia anda a manipular as eleições em França. O próprio Assange estará ao serviço dos interesses russos. Deus meu, tanta gente tão informada. Eu só queria encontrar uma solução para a sinusite.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

ALGUMA COISA NEGRO

Jacques Roubaud (n. 1932) não é totalmente desconhecido dos leitores de poesia portugueses. Em 1993, alguns poemas do mais celebrado dos seus livros foram incluídos na antologia Sud-Express – Poesia Francesa de Hoje (Relógio D’Água) com tradução de Urbano Tavares Rodrigues. Quelque chose noir, originalmente publicado em 1986, aparece agora integralmente traduzido por José Mário Silva, e com prefácio de Gonçalo M. Tavares, na colecção de poesia da Tinta-da-China. Talvez não seja descabido recordarmos algumas palavras que lhe foram dedicadas na Introdução de Etienne Rabaté a Sud-Express: «Quelque chose noir, de que propomos aqui um excerto, representa o êxito de um raro equilíbrio entre a composição sábia e a perfeita lisibilidade, entre a discrição e a violência da emoção, entre o trabalho formal da página, ritmo e disposição gráfica, e a continuidade do livro onde cada pormenor tem o seu lugar».
A síntese de Rabaté é perfeita, desanuvia-nos a interpretação e permite-nos fruir o que há nesta poesia de mais intenso. A estrutura rígida não deve iludir-nos, sobretudo quando sabemos ter o autor estudado matemática. O aspecto geral da distribuição dos textos, em nove secções compostas por nove poemas, é devedor das premissas fundadoras de OuLiPo, a corrente literária a que Roubaud pertenceu ao lado de escritores como Georges Perec e Raymond Queneau. Defendia-se então a vantagem dos constrangimentos técnicos enquanto accionadores de uma libertação literária. Mas em boa verdade, os poemas deste livro encontram-se atravessados por uma fortíssima tensão existencial que pouco tem que ver com forma. Está antes na origem de toda a literatura, senão de toda a arte, e de algum modo pode representar-se colocando lado a lado as figuras do amor e da morte.
Alix Cleo Roubaud, nome próprio transformado em verso, é já uma substância indefinida que se mistura com toda a obra como a neblina a tomar conta do espaço. Faleceu aos 31 anos, deixando nas mãos do seu amante um conjunto vasto de fotografias a partir das quais muitos destes poemas foram escritos. O sentimento de perda redunda aqui numa experiência afásica de índole depressiva, estando latente - na forma como as palavras se articulam entre si no corredor dos versos - o esforço da lógica face ao desespero. O grande combate travado neste livro é, pois, entre a razão que subjaz à linguagem e a emoção que de algum modo sustenta a poesia. As imagens convocadas surgem afectadas pelo negrume, embora invoquem elas mesmas momentos de luz. Assim sendo, a mais paradoxal das relações aqui estabelecidas exerce-se entre o olhar da fotógrafa falecida e o que nesse olhar pode ser observado pelo olhar turvo do amante que a recorda, alucina, nega, desespera.   
É também este um percurso catártico, no decurso do qual o autor tenta compreender-se a si próprio organizando a sua arte: «Insisto em circunscrever o nada-tu com exactidão, esses dois pólos impossíveis, a andar à volta disso com estas frases novas a que chamo poemas» (137). Estamos num limbo interior desafiador da sintaxe e do sentido, provocador de paradoxos e de absurdos, num limbo onde o princípio da não-contradição perde validade por já não ser suficiente para delimitar os graus de manifestação de um conceito. A amada é e não é ao mesmo tempo, vive e não vive, a morte ainda não foi porque ele ainda é, ainda a sente dentro dele, a morte dela começou no corpo dela, mas ainda não acabou no corpo dele, portanto é ainda uma não-morte, uma morte inacabada. Parece um jogo, talvez seja um jogo.
Tendendo tudo para um nada precedido de dúvida, a poesia surge neste livro como a voz escutada a partir do gravador, o rosto contemplado a partir da fotografia. Não é o verdadeiro, não é o falso, é qualquer coisa de intermédio, crepuscular, cinzento, uma sombria luminosidade, a luz de uma sombra. Não por acaso, alguns dos mais belos poemas deste livro são altamente elípticos. O silêncio que se intromete entre as palavras captura o leitor para um labirinto de sentidos não referenciados, justamente sugeridos pela ausência, pela aproximação a um não-ser vivo, tão vivo quanto as coisas materiais. Uma aproximação pela meditação:

Meditação da indistinção, da heresia

a Jean Claude Milner

Há três suposições. a primeira, não é demais dar-lhes uma ordem, é que já não existe. não a nomearei.

Uma segunda suposição é a de que nada poderia ser dito.

Uma outra suposição, por fim, é que nada a partir de agora lhe é semelhante. esta suposição destitui tudo o que estabelecia uma ligação.

De algumas destas suposições deduzem-se, sem pertinência, proposições em cadeia.

De que nada a partir de agora lhe é semelhante concluiremos que só há dissemelhança e dessa conclusão deduziremos que não há qualquer relação, que nenhuma relação é definível.

Concluiremos pela improcedência.

Tudo se suspende no ponto em que surge uma dissemelhança. e a partir daí alguma coisa, mas alguma coisa negro.

Pela simples reiteração, já não existe, os todos desfazem-se no seu tecido abominável: a realidade.

Alguma coisa negro que se fecha. e se tranca. uma deposição pura, inacabada.



Jacques Roubaud, in Alguma Coisa Negro, tradução de José Mário Silva, Edições Tinta-da-china, Fevereiro de 2017.

NOÇÃO DE RIGOR

Para a SIC, rigor é: isto. Não me espanta tanto quanto anda espantado o Ferrão. Ferrou-se. O jornalismo da pós-verdade foi rigorosamente desmontado pelo Truques da Imprensa Portuguesa: aqui.

O "fact check" ao "fact check" que a SIC fez a João Ferreira

Ontem à noite, Bernardo Ferrão (sub-director da SIC e, nos tempos livres, líder da oposição), num espaço de comentário em que tinha a seu lado José Gomes Ferreira, referindo-se ao caso que envolve o Ministro das Finanças e a administração da Caixa, disse que “PCP e Bloco de Esquerda, noutras situações tão graves como esta, teriam pedido a cabeça [do ministro] e estavam na praça pública a exigir demissões e estão neste momento completamente caladinhos.”
A linguagem era totalmente imprópria para um jornalista, até para os padrões de um jornalista que toma o lugar de líder da oposição. Mas o problema não era só a linguagem. Como, uma hora depois, João Ferreira sublinhou, o PCP não pede demissões de ministros, nem agora, nem antes. Este critério do partido é inequívoco e do conhecimento de qualquer pessoa que acompanhe a política portuguesa há alguns anos. A acusação de Bernardo Ferrão não tinha fundamento e o eurodeputado desafiou a SIC a procurar imagens de arquivo em que uma demissão de um ministro tivesse sido pedida pelo seu partido.
Sentindo-se desafiada, a SIC lá fez o seu "fact check" e saiu com as imagens: “Não se resolve o problema à peça. Não se resolve o problema substituindo este ou aquele ministro.”, disse Jerónimo de Sousa. “Para lá de exigirmos a demissão do ministro da Educação nós temos vindo a exigir a demissão de todo o governo”, disse João Oliveira. “Os Senhores já encontraram razões para pedir a demissão de dois membros do governo (…) e se pensarmos melhor encontramos razões para demitir os outros membros de governo que ainda não foram citados esta tarde”, disse, por fim, António Filipe.
“Já o embatucámos!” - deve ter pensado Bernardo Ferrão, que terminou a peça a “sambar na cara” do PCP e por pouco não mandou “beijinho no ombro.” Mas há um problema. É que neste "fact check", tal como os outros, aparentemente tão isento e tão neutro, reside um truque gravíssimo.
As imagens de João Ferreira apresentadas nesta peça estão editadas. Às suas declarações foram extraídas partes fundamentais. João Ferreira referiu-se a “comunicados do PCP” e afirmou que “o PCP nunca fez pedidos de demissão à peça, sempre identificou o conjunto do governo e procurou que as responsabilidades fossem assacadas ao conjunto do governo e quanto sinalizou a importância de pôr fim a uma determinada política fez isso mesmo, nomeadamente com o governo anterior do PSD e do CDS, em que aquilo que sinalizou era a necessidade para o país de pôr fim àquela política e isso não se resolvia com demissões à peça deste ou daquele ministro.”
Ou seja, as declarações de João Ferreira, ontem à noite, são absolutamente coerentes (não podiam ser mais) com as imagens que o fact check da SIC recuperou. “O PCP não pede demissões de ministros à peça, pede demissões de Governos inteiros. O problema do PCP não são este ou aquele ministro, são as políticas.”
Hoje de manhã, publicámos uma reflexão sobre o perigo que “fact check” podem representar. Quando mal usados, podem tornar-se verdadeiras armadilhas contra a opinião pública. Aqui fica - nem de propósito - um exemplo categórico.



Em suma: sempre que sintonizar a SIC, lembre-se de quão rigoroso é o Ferrão... a fazer mau jornalismo. 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

[Levamos os cigarros à boca da medula]


Levamos os cigarros à boca da medula
e é por ela que fumamos o ruído das nossas
vidas de cinza digo agora que também eu
recomecei a fumar.

E é falso dizeres
que esse silêncio que teces é o mesmo
dos teus dezanove anos parece-me a mim
que arranho o meu até à ferida.

Encostas o corpo à matemática do mundo
eu encosto o corpo ao nada que me assiste
e procuramos na noite qualquer coisa
que já nem nos pertence é provável

delapidações pedras mansas
esta forma tão doente de viver.

Ainda que sustemos a escuridão apenas
com cafés e ginger ale's e cigarros
que se apagam de um minuto para o outro
tão barato e mau é o tabaco

e ainda que acabemos por desistir
do último cigarro que nunca fumaremos

esse que nos traria a explicação da noite
da luz das palavras do silêncio do ardor do desejo
com a certeza de que o dia seguinte começará 
muito próximo do fim.


António Amaral Tavares (n. 1964), in Movimento de Terras (2016). Reuniu os primeiros livros e alguns inéditos ulteriores em Movimento de Terras (Língua Morta). A doença e a morte são obsessões temáticas que percorrem o volume, num registo que tanto entra em diálogo com obra alheia (pintura, música, cinema) como parece denotar elementos biográficos dispersos. De um complexo lexical recorrente sobressaem vocábulos tais como vidro, cão, domingo, em relações sinonímicas bastante abertas, oferecendo aos poemas uma inegável consistência imagética ao mesmo tempo que indicam universos íntimos de difícil interpretação. Raramente linear, a poesia de António Amaral Tavares surge de um lugar onde a realidade se perspectiva entre sombras. Solidão e medo, enquanto núcleos emocionais determinantes, surgem assim acompanhados de substâncias capazes de solidificar a dimensão mental dos conceitos. Já não importa o sentido das palavras, mas sim a expressão do modo como elas são sentidas num corpo castigado pela desordem. 

#90


Parece que os Black Sabbath estão preparados para o purgatório, mesmo à beira de comemorarem 50 anos de carreira. O fim merecido merece aplauso. Nos meus tempos de adolescente problemático passei algumas boas horas a ouvir Vol. 4 (1972). Ao longo dos tempos, fui-me desfazendo de muito vinil. Este é dos que guardo religiosamente. A mais pirosa das baladas está aqui: Changes. Ainda hoje me arrepio a ouvi-la. Estão também riffs de guitarra inesquecíveis, lirismo distópico, muitas drogas, os fundamentos daquilo a que deram o nome de heavy metal. Nunca fui adepto do rótulo, mas as inclinações góticas de Ozzy Osbourne fascinavam-me. Ainda fascinam. Voltei a ouvir hoje Vol. 4. Não sei porquê, ocorreram-me imensas imagens percorridas por um fio que podia ser o separador invisível da loucura e da lucidez. Voltei a ver-me de cabelo comprido, vestido de preto dos pés à cabeça, botas da tropa, um copo de cerveja ordinária na mão. Sempre a olhar para o chão - nunca o céu me surgiu apelativo -, onde o futuro tem a distância de um passo. Às vezes, confesso, ainda esmago palavras com os dentes, cuspo-as e piso-as como se fossem beatas de cigarros. Se algum dia enlouquecer, por favor não me levem a sério. Sinto apenas saudades de ser um adolescente parvo. Voltasse atrás, olharia mais par ao céu.


"Cornucopia"


Too much in the truth they say
Keep it 'till another day
Let them have their little game
Illusion helps to keep them sane

Let them have their little toys
Fast sports cars and motor noise
Exciting in their plastic place
Frozen food in a concrete maze

You're gonna go insane
I'm trying to save your brain

I don't know what's happening
My head's all torn inside
People say I'm heavy
They don't know what I hide

Take a life, it's going cheap
Kill someone, no one will weep
Freedom's yours, just pay your dues
We just want your soul to use

You're gonna go insane
I'm trying to save your brain



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

ANTÓNIO PEDRO

O Eremita refere-se a António Pedro aqui. Os surrealistas de Lisboa não gostavam dele, convencidos que andavam de que o surrealismo era guerrilha urbana. Acontece que o Protopoema da Serra S'Arga (1948), partilhado em tempos aqui, garantiu-lhe o lugar de "primeiro português definitivamente surrealista" nas páginas dos senhores historiadores. Não se resumindo a poesia de Pedro a um só poema, podemos perceber a sua relevância indo por aqui. No Youtube apanha-se um documentário que convém rever, mais que não seja para perceber as múltiplas facetas de um autor imerecidamente caído no esquecimento. Sobre Apenas Uma Narrativa, também evocada aqui, basta citar Jorge de Sena: «obra-prima do romance surrealista». Conto regressar a António Pedro ainda este mês, por causa de uma 1.ª edição que adquiri há tempos e me deixou com uma dúvida atravessada na garganta: a quem devemos mais o nosso enterro?

Adenda: a editora Cosmorama publicou em 2016 uma reunião da poesia de António Pedro. Pode ser encomendado através do sítio do editor: aqui

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

TILT

Inspirado pelo João Lisboa, fui levado a pensar nas coisas da minha vida que não foram por mim solicitadas. E logo me surgiram dezenas de axiomas em catadupa. Por exemplo:
- Não pedi para respirar, logo também não tenho a obrigação de ser asmático;
- Não pedi para andar, logo também não tenho o direito de permanecer sentado;
- Não pedi para ter fome, logo também não tenho que comer;
- Não pedi para trabalhar, logo também não tenho o direito a ficar desempregado;
- Não pedi para ser parvo, logo tenho todo o direito se ser estúpido;
- Não pedi para ser mamífero, logo também não tenho o direito a mamar;
- Não pedi para ser sportinguista, logo hei-de sofrer a vida inteira;
- Não pedi o mundo em que vivo, logo aguenta aguenta;
- Se não pedi para me vir também não devias ter parado;
- Se não pedi para cagar também não tenho o direito de determinar quando vou comer;
- Se não pedi para ser escravo também não tenho o direito de determinar quando vou ser senhor;
- Se não pedi para ser livre também não tenho o direito de determinar quando vou ser escravo;
- Se não pedi para olhai os lírios do campo também não tenho o direito de determinar batem leve levemente;
- Se não pedi para sofrer também não tenho o direito de determinar quando vou ter prazer;
- Se não pedi para ter prazer também não tenho o direito de determinar quando vou ter paz e silêncio.
Em suma, se não pedimos para nascer devem os outros ter o direito de determinar quando vamos morrer?
Etc.
Desliga a máquina.
Deu tilt.

Bancarrota.

"MISE-EN-SCÈNE DE UMA TEMPESTADE INEXISTENTE"

As minhas particulares circunstâncias fazem com que assista, durante alguns minutos, à emissão de um noticiário da manhã numa estação televisiva enquanto tomo o café num estabelecimento. O conteúdo e a sucessão das notícias orienta-se no sentido da instilação do medo, da fragilidade, da impotência e, nestes sentimentos induzidos onde a vontade não deve existir, do lugar protector, porque informativo, do meio de comunicação. A televisão está aqui, é nossa amiga, dá voz à nossa miséria, alguém nos virá proteger. Mas a televisão não está naquele lugar com intuitos profilácticos ou altruístas; a televisão está naquele lugar para fazer dinheiro, porque a sua presença é injustificada, dado que a repórter alerta para uma tempestade marítima que não existe, para a violência do vento que não se verifica. Nada mais para além das condições vulgares do Inverno nesta localização geográfica do Mundo. Esta dramatização ridícula atinge o ponto culminante quando a emissão “cai” sem condições meteorológicas tão adversas que o justifiquem. O bordel “informativo” apoderou-se dos Elementos enquanto arma de arremesso no prostíbulo geral da domesticação. Concluída esta mise-en-scène de uma tempestade inexistente, concluída com a interrupção provavelmente forjada da emissão, transporta-se a ópera-bufa para outro lugar onde também se sente a adversidade do Inverno. É natural: vigora o Inverno no Hemisfério Norte.


Jorge Muchagato, aqui.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

THE CHEYENNE SOCIAL CLUB (1970)


Gene Kelly (n. 1912 – m. 1996), carismático actor de Singin’ in the Rain/Serenata à Chuva (1952), também realizou filmes, o último dos quais um western. The Cheyenne Social Club/Um Clube só para Cavalheiros (1970) nunca granjeou aplausos, apesar de um elenco com James Stewart e Henry Fonda nos papéis principais. Cowboys de corpo e alma, afastam-se do gado bovino quando um deles recebe de herança um negócio na cidade. Sucede que o negócio é um bordel. Perdão, uma casa de passe. A mais fina e conceituada da região. Tanto que para alguns deve o edifício ser elevado a monumento nacional.
Em 1970, James Stewart andava pelos 60 anos. Henry Fonda idem. A energia não podia ser a mesma, mas a escolha para os papéis revelou-se a coisa mais acertada neste filme. Depois de terem trabalhado juntos em Firecreek/Hora da Fúria (1967), Stewart e Fonda voltam a encontrar-se num registo  mais ligeiro e vulgar. Seria incorrecto asseverar que estão como peixe na água, mas podem bem ser dois escorpiões estranhamente misericordiosos às cavalitas de um sapo.
Estamos na presença de dois burros velhos, pelo que não é inteligente esperar que tomem andadura. Gerir uma casa de meninas não é negócio para um velho cowboy, nem em idade de reforma. Mas a decisão de fechar revela-se igualmente desacertada, dadas as necessidades e privações das jovens desamparadas que ali haviam encontrado o conforto de um lar. Mais grave: a reacção da população masculina de Cheyenne, quando confrontada com a possibilidade de fecho do seu mais estimado monumento, equivale à reacção das populações quando perdem o mais importante dos serviços públicos da sua terra.
O protesto está instalado, restando a John O’Hanlan e ao seu fiel companheiro Harley Sullivan o caminho da desgraça. Um violento ataque sobre Jenny, a líder das meninas, leva o herdeiro do bordel a mudar de postura. Subitamente elas tornam-se suas protegidas e ele assume sem hesitar o papel de protector. O plot presta-se a vários embaraços e os diálogos revelam uma ligeireza que garante sorrisos do princípio ao fim, sendo certo que Gene Kelly nunca consegue fazer do filme a comédia que porventura almejava.
Numa das sequências finais, um tiroteio previsível parece evocar ironicamente os acontecimentos de O.K. Corral. Só que o corral foi substituído por um bordel e dentro dele estão os bons, que por acaso são velhos cowboys que mal sabem pegar numa arma de fogo. E as meninas, claro. Tudo isto tem o seu quê de hilariante, mas acaba por ser filmado com escusada ênfase dramática. Nem carne, nem peixe, salvando-se a situação do completo desastre por nela estarem dois exemplares intervenientes: Henry Fonda e James Stewart.
Não obstante, algo mais justifica uma passagem de olhos por este western comedy (off-color, li algures). Há uma moral nisto tudo que sugere uma leitura alternativa da fábula do sapo e do escorpião. Não se muda a natureza a um escorpião, pelo que não vale a pena julgar que para o sapo que o carregue às costas outro destino pode haver que não seja a morte. Neste caso, a natureza dos dois cowboys por momentos deslocados do seu destino também se revela imutável. Sucede que o bordel não é uma casa de sapos, mas tem por lá umas princesas capazes de demover os escorpiões das suas intenções mais fatalistas. Como o fazem… só elas sabem. 

APALACHES

Nunca estive nos Apalaches, onde me garantem ter Deus bebido chá na companhia de seus filhos. Entre eles, um de nome inventado que escrevia poemas. Sobrava-lhe uma mão, o bastante para desenhar o fim e o princípio de um mundo em contínua transformação. Afinal, o erro está na lógica com que delineamos mapas. À pergunta como começou deveríamos fazer prevalecer uma outra: terá havido começo? Para que querem os homens começos? Porque detestam fins. Há sempre a possibilidade de, como numa mesa de chá com pires redondos, bolos esféricos, tampos circulares, há sempre a possibilidade de tanto o espaço como o tempo não terem princípio nem fim, serem coisa sem princípio nem fim. Simplesmente coisa de si mesmo nascida em si mesma gerada. 
A grande parada das religiões, o grande cortejo, exibe aos ombros andores com respostas desnecessárias para perguntas inúteis. Logro, erro. Vejamos a morte, a alucinada morte num cálice de chá apalachiano. Deus recostado a contemplar o grande espectáculo humano das questões religiosas, dos métodos científicos, das promessas tecnológicas, o grande espectáculo humano das representações, da linguagem, da política, da história enquanto disciplina, das teorias e dos teoremas, dos escritos sagrados, das abluções, o magnífico espectáculo humano do desespero com mestres de ioga, xamãs, gurus, equilibrados na ponta das mitras, com bispos, cardeais e arcebispos segurando crucifixos produzidos com o mais fino material colhido das minas por índios famintos, eles próprios reverentes a suas divindades, tementes a seus altíssimos trovejantes, imãs, muezins, almocreves… Ele, o Senhor, entretido com todo este espectáculo humano no meio de dois mundos, o nosso e outro, distante o nosso, onde alguém coloca ao mesmo tempo que nós as mesmas perguntas que nós elaboramos acerca do princípio e do fim do universo. 
Desconheço se Blaise Cendrars, outrora invocado, andou pelos Apalaches. Mas era ele, garantem-me, que estava entre os filhos de Deus à hora do chá. E desse encontro terá escrito argumento para cinema jamais filmado, nunca exibido, reproduzindo fielmente o grandioso espectáculo humano da dúvida existencial. De onde vim? Quem sou? Para onde vou? A ordem das perguntas é aleatória. Pode ser filmada debaixo de água ou dentro de um cubo de gelo, onde melhor se conservaria o incrível espectáculo da dúvida. Metam coisas destas no Plano Nacional de Leitura, salvem as nossas crianças do erro. Não mais permitam que alguém lhes diga onde e como e quando tudo começou, pois nada começou em lugar algum, foi tudo sendo, vai tudo indo. A verdade está no gerúndio, o gerúndio é a verdade: que belo seria poder assistir ao fim, já que não foi possível estar no começo. E assim sucessivamente. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

ESTÓRIAS AÇORIANAS


É na insularidade que melhor observamos como à beleza da paisagem serve de contraponto uma fauna humana demarcada pela exiguidade do espaço físico, o qual apela a uma conservação de tradições que oferece ao meio características algo picarescas. Nas Novas Estórias Açorianas (Companhia das Ilhas, Novembro de 2016), Carlos Alberto Machado (n. 1954) dá continuidade a uma recolha iniciada com as Estórias Açorianas (idem, Maio de 2012, 7 edições). 
O arquipélago serve de laboratório observacional, surgindo a tal fauna humana enquanto objecto de observação. Intervindo o menos possível, o narrador chega-se à janela para perscrutar a vizinhança, reproduzindo-lhes boatos e memórias, captando-lhes tiques, fintando os ditames da literatura para que o texto resulte o mais humano possível. Todo o método parte do olhar para se concentrar na pessoa humana, quase sempre no contexto da interacção comunitária, mais raramente singularizada.
Emigrantes regressados à terra natal, o grupo da sueca, o típico sábio do Café Central, veteranos reformados da Capitania, mulheres de má fama, gente honrada e outra caída em desonra, o velho e o novo misturando-se para resultarem em algo ainda incerto, anciãos que são projecções humanas de vilas, de freguesias, cuja história é sobretudo a de quem as habita, o professor forasteiro, o Director da Biblioteca, mestres de artes perdidas, abandonadas, gente mexeriqueira, padres, autarcas, jovens arquitectos, sôtôres e respectivos acólitos, «moças que atravessaram o Atlântico em busca de cama, mesa e roupa lavada», proporcionam e motivam relatos que são fruto de um olhar intencionalmente situado à margem dos acontecimentos. 
Mas o que importa a estas “estórias” é precisamente o acontecimento, não é o modelo. O que interessa ao narrador, mais do que julgar o lugar social das suas personagens, é oferecer-lhes um nome próprio. Mesmo quando parecem descambar para uma dimensão onírica, as situações narradas caem à terra através de um nome humano, uma figura tipo facilmente reconhecível e porventura identificável num território que, afinal, extravasa as fronteiras do arquipélago, aplicando-se com justeza a todos os lugares onde aquilo a que chamamos modernidade ainda não aniquilou por completo velhos vícios e vetustas virtudes da vida em comunidade:

OLHOS DE FAZER MUNDOS

   É com os olhos que primeiro cultiva a terra. Não é coisa de agora, era ele pequeno e já a mãe o adivinhava, dizia ela para o seu homem: «o nosso filhinho sonha com os olhos abertos». Neles, sem mãe nem pai saberem, desenhava o menino as suas primeiras brincadeiras, os seus primeiros sonhos. Mas António não sabia, nunca soube que era isto que a mãe via nos seus olhos. Talvez ela lho quisesse dizer um dia, mas partiu antes de chegar a decidir-se. Talvez tenha sido melhor assim.
   Olhamos os olhos de António e vemos regos de água, árvores e animais, uma casa a abraçar uma árvore forte e frondosa, um cão atento. Cores quentes e um homem de olhos verdes que é ele a caminhar a passos largos sobre a terra. O homem que é ele e que se sonha, trabalha a terra com as suas próprias mãos. Mas o que suja, alarga e fortalece as suas mãos é mais que coisa orgânica, é o próprio mundo que ele faz nascer.
   António e os seus olhos de fazer-mundos já desenharam mundos de outras maneiras. Em pedaços de papel sensível, entre claros e escuros, linhas e ângulos e coisas por desvelar, descobriu ele outro modo de ser e de se ir fazendo homem – cada vez mais longe da mãe. Ou talvez não.
   No tempo em que o ódio ainda lhe aflorou os olhos e as mãos, como a qualquer homem  que neste mundo é feito, lutou contra os burocratas da educação oficial, contra os moldadores de consciências. Tentou, como “ensinador”, mostrar aos rapazes e raparigas que a reciprocidade era o único princípio, e primeiro. Falhou. A ignorância e a mediocridade, em defesa do bom senso e dos bons valores, cresceram e falaram mais alto. Por uns tempos, os olhos d’água de António turvaram-se de cinzento.
   Agora, com os cabelos a aclararem e a alma ainda em fogo, António realiza na terra o que os seus olhos tanto sonharam. Tal e qual. Só, a apontar o céu. Firme. A única maneira de se ser homem em terra madrasta.
   Da sua terra amada vê o oceano a transformar-se, a abraçar a terra e a engoli-la. Os homens de olhos turvos não sabem para que serve o olhar.


Carlos Alberto Machado, in Novas Estórias Açorianas, Companhia das Ilhas, Novembro de 2016, pp. 77-78.

“PAPÁS AGASTADOS”

Presumo que Eduardo Pitta se refira aqui à polémica resumida por Ricardo António Alves nestes termos. Não fosse o post no Abencerragem, a polémica ter-me-ia escapado. Assim como me escaparia o conteúdo do livro aludido, pois não sou leitor do romancista em causa. Sucede que sou pai de duas filhas. E, se bem entendi, o que está em causa é a possibilidade de se discutirem em aulas de Língua Portuguesa (ou de Português, se preferirem) livros com cenas de sexo explícito. Na passagem transcrita pelo Ricardo temos uma tia que é puta, uma mulher que é porca porque fode com todos, uma mulher que deixa que lhe ponham a pila no cu. Eu jamais escreveria pila, sempre preferi o termo caralho, mas aceito que o autor visado tenho gostos mais apurados que o meu. Porque a questão não é essa, cabe-me perguntar às pessoas para quem pode ser normal discutirem-se textos com cenas de sexo explícito numa sala de aula, onde se encontram miúdos de diversas sensibilidades e proveniências distintas, com uma base cultural e contextos familiares diversos, se achariam aceitável um professor usar filmes com cenas de sexo explícito para ilustrar matérias programáticas? A questão colocou-se nos anos 90, se bem me lembro, por causa de Kids (1995), de Larry Clark. Que nem tinha cenas de sexo explícito, assim mesmo explícito, explícito como uma tia porca a levar no cu apesar de ter uma racha para foder. Independentemente da resposta, tenho igual curiosidade em perceber o que é que para certas pessoas pode ser hoje considerado desajustado a uma sala de aula. Ou será que nenhum conteúdo é desapropriado? São meras interrogações. Por mim, no limite, até podiam andar a interpretar o Cona d’aço. Só não vislumbro o interesse literário da coisa, mas posso estar equivocado.

EUTANÁSIA



Terei assistido a cinco minutos de debate. Depois desliguei a televisão. Mais do que qualquer questão filosófica, ética, deontológica, jurídica, não consigo entender o problema estético. É regra: os tipos que mais vivem obcecados com aquilo a que chamam direito à vida são todos feios. Gente tão feia, tão feia, tão feia, que me custa acreditar terem pela vida tamanha reverência. 

NÃO SEI O QUE SE PASSOU

Mas este post é muito bom. Excerto:

Conheço imensos reaças asneirentos, como progressistas de vocabulário ultrapuritano; ou gente como eu, que diz palavrões com gosto, mas não o faz diante dos filhos ou dos pais. "Hipocrisia", estou já a ouvir alguns. Não; decoro com os mais novos; respeito pelos mais velhos

[BATER A PEDRA, BATER]


BATER A PEDRA, BATER
o chão. Perpendicular

a perna do homem, fio-de-prumo,
constituindo medida e
sustento do gesto. O homem calça-terra

agora está de joelhos.
A gota do rosto
deslizando como
mínimo mar quase em queda.
Sua boca toca a lata precisa de cócacóla.

E os passantes desajeitados
acertam batentes tacões sobre o tosco fóssil desenhado.


Elisabete Marques (n. 1982), in Cisco (2014). «Não deverá ser indiferente para a compreensão das propostas de Elisabete Marques saber que a autora se doutorou com uma tese sobre Maurice Blanchot e Samuel Beckett. Nesse particular, seria especialmente proveitoso considerar a poesia do irlandês, no que esta tem de esfacelamento impiedoso da palavra, biselada até ao limite do concebível. (…) Esta poesia, entrecortada por uma utilização da pontuação adversa à norma, é percutida por ritmos de compasso apertado, e revolteada pelo sopro da ambiguidade. O rasto desse modo de dizer, pensadamente dúbio, pode advir da sobreposição de unidades frásicas, que conduzem a distintas possibilidades de significado; como é possível que resulte de opções lexicais menos vulgares, quando não abertamente disruptivas da estandardização verbal (…)» (Hugo Pinto Santos, Público, 27 de Março de 2015).