Por falar em “golden shower”, e porque tão poucas vezes
se vêem, lêem, ouvem por aí referências à obra inigualável de Frank Zappa,
lembrei-me deste Joe’s Garage (1979). A edição em CD é dupla, mas lá nos idos da
década de 1970 os três actos desta ópera rock, com laivos de musical satírico, foram
repartidos por dois álbuns: Joe’s Garage: Act I e Joe’s Garage: Acts II &
III. Zappa tinha-se libertado das restrições impostas por uma editora
discográfica que lhe impunha limites à edição, avançando por conta própria num
ritmo que lhe permitiu colocar na rua meia dúzia de álbuns num só ano. O génio
equivalia ao ímpeto criativo, reconhecido, aliás, por pares de diversas
latitudes, do rock à música erudita. Compositor multifacetado, construiu uma
obra heterodoxa tanto em termos estéticos como éticos. Sátiro por excelência,
enveredando sem açames pelos territórios da sexualidade explícita, da crítica
de costumes, da irrisão, Frank Zappa concebeu um universo próprio onde a ironia
foi sempre uma aliada da complexidade musical. Só ele poderia escrever uma
canção intitulada Why Does It Hurt When I Pee?, com um refrão do tipo “My balls
feel like a pair of maracas”, sem parecer ridículo. Em Joe’s Garage, o universo
da indústria musical é o alvo do escárnio. Com uma narrativa introduzida e pautada
por um Central Scrutinizer em registo robótico, à maneira de diácono futurista,
a saga do músico Joe num tempo em que a música foi banida socialmente por se
revelar péssima influência, com direito a groupies dispostas a todo o tipo de
serviços, resulta num manifesto onde se tornam evidentes a crença na música
enquanto contrapoder e a fé na criação artística enquanto máquina libertária.
Atravessando géneros, sem barreiras nem obstáculos, Zappa concebe uma divertida
digressão pelos costumes de uma América em mudança mas mais conservadora do que aparenta. Não
é o único dos seus registos onde encontramos referências ao “golden shower” e
outras práticas de índole sexual menos convencionais, mas é um dos mais
consistentes e divertidos.
domingo, 15 de janeiro de 2017
PESQUEIRO 25
Tenho o péssimo hábito de não ligar a preços quando a intenção é divertir-me, mas tudo tem os seus limites. Paguei hoje €29,25 por uma garrafa de vinho num restaurante banal em São Martinho do Porto. Exactamente este vinho, à venda na Garrafeira Estado Líquido por €8,75. Como é óbvio, nunca mais hei-de pôr os pés no Pesqueiro 25. Mordi o isco uma vez, mas não me enganam uma segunda. Puta que os pariu.
sábado, 14 de janeiro de 2017
CARTAS CONTRA O FIRMAMENTO
Confiando em informações disponíveis na Wikipédia, o
inglês Sean Bonney (n. 1969) começou a publicar em 2002. Letters Against the
Firmament surgiu em 2015, com edição da Enitharmon Press, depois de vários “panfletos,
plaquetes e ensaios”, onde se incluem abordagens às obras de Baudelaire e de
Rimbaud. Com tradução de Miguel Cardoso, a Douda Correria publicou entre nós
Cartas Contra o Firmamento (Junho de 2016), reunião heteróclita de textos em
prosa, com alguns versos pelo meio, ilustrados com indiscutível pertinência por
Pedro Pousada.
De carácter abertamente contestatário, estas epístolas
enviam-nos tanto para o tom de inúmeros manifestos vindos a lume ao longo do
séc. XX como para a poesia beat que mais se focou na intervenção cívica. Não
percamos de vista, no entanto, o rasto deixado pelo próprio autor no decorrer
de textos onde se incluem referências ao “surrealista da negritude” Aimé
Césaire, ao Beatnik Amiri Baraka, ao comunista heterodoxo Pier Paolo Pasolini,
a músicos de free jazz ou aos grandes cultores da canção de protesto.
Reflectindo sobre o seu tempo, Sean Bonney propõe uma poética conflituosa, beligerante,
que não enjeite a realidade, mas que a ela se aponha como um acto terrorista à
maneira de Hakim Bey. Numa anárquica dispersão de conjecturas, o eu lírico mistura-se
na confusão de motins e de tumultos para sabotar uma ideia de poético que
resiste à violência como quem volta o rosto à realidade. Reaproximando a poesia
da intervenção cívica musculada, estes textos denotam uma vontade obsidiada
pela raiva e pela fúria do discurso. «Proibido afixar milagres» —
diz-se a determinada altura, com ironia, como quem pressente no romantismo dos
ideais a falência das utopias, do discurso político consagrado pela história,
da poesia obediente à retórica desse mesmo discurso.
Há porém uma fragilidade nesta postura que não deve
iludir-nos. A linguagem é ainda a que conhecemos das mais variadas formas de
intervenção cívica, com os seus clichés consolidados por uma total incapacidade
de fazer implodir a lógica das convenções. O tom libertário não chega a ser
libertador, ainda que inquiete o pensamento e agite as águas da sensibilidade.
De resto, o próprio autor parece estar ciente das suas limitações quando, a
páginas tantas, reconhece: «Às vezes o meu próprio vocabulário faz-me contorcer
de embaraço». Esse embaraço surge do reconhecimento de uma impotência face ao
discurso oficial e oficioso. Fazendo uso das mesmas palavras, a poesia
facilmente fica refém de um código que determina e possibilita a comunicação. O
facto de estarmos perante uma forma de expressão, a carta, onde a comunicabilidade
é central, e aceitando que, para todos os efeitos, o emissor das missivas é um
sujeito indefinido, não liberta estes poemas em prosa dos constrangimentos instaurados
pelo uso comum de uma língua que permita fazer circular uma mensagem. E a
mensagem volta a estar aqui no núcleo mais central do poema.
Cartas Contra o Firmamento é, apesar das suas naturais
limitações, um livro inquietante, com uma extraordinária capacidade de reintegrar
o político na poesia, assumindo como poéticos temas eminentemente sociológicos
como sejam os da gentrificação, do desemprego, ou das formas de luta e de
protesto cívicos. Assumindo em si mesmos uma poética da violência —
«em vez de ‘amo-te’ diz que se foda a polícia» —, estes textos são eles
próprios uma insurreição no interior do lirismo. Não fazem o elogio do ódio nem
cantam a crueldade, invadem os territórios onde o ódio e a crueldade
medram para deles retirarem coléricas manifestações de consciência: «A poesia é
estúpida, mas, por outro lado, a estupidez não é a ausência de capacidade
intelectual, é antes a cicatriz da sua mutilação». Portanto, é como uma espécie
de cicatriz da poesia mutilada que as Cartas chegam ao seu
natural receptor, o leitor para quem a realidade ainda não se reduziu definitiva
e estupidamente ao mundo lá fora. Porque afinal, é bem dentro dele que tudo opera.
CAMPISMO SELVAGEM
Em inédito publicado num opúsculo dividido com Inês Dias,
Manuel de Freitas remata a prosa do poema constatando que a sua poesia «passou
do campismo selvagem a um longo corredor vazio onde já não espero encontrar
ninguém». Pergunto-me se não será sempre assim.
Por vezes, tendo a pensar que
toda a poesia devia ser escrita num breve período de vida, exprimindo o fulgor
de uma circunstância indomável. De preferência, toda a poesia devia ser da
juventude, do rasgo sem freios que a língua aceita quando ainda não fomos
condenados pelo peso dos deveres e das obrigações. Manter-se numa tenda no meio
da floresta incógnita, sem refeitórios por perto nem paredes, muito menos
aquecimento central. Atravessada pelos insectos inoportunos, exposta a
intempéries e ao desconforto de climas adversos. Assim devia ser, mas não é.
Os
poetas anseiam por obras completas, supondo porventura que no peso dos volumes reside
a providencial justiça que o reconhecimento consagra. Depois arrastam-se por versos intermináveis condenados à partida por uma acomodação contrária à própria poesia. Rimbaud desmente-os,
tal como Cesário ou Pessanha e tantos outros que, interrompidos por razões
diversas, outorgaram versos cheios desse fulgor que o passar dos anos não
apaga. Começaram e acabaram no campismo selvagem, mesmo cumprindo-se, como Cesário, na mais convencional das existências.
Em prosa, o poema completo:
SÍTIO DA NAZARÉ, 1979
Não tenho a certeza do nome da senhora (que talvez se
chamasse Maria Augusta) a quem os meus avós alugavam casa no Sítio, mas sei que
era inequivocamente cigana e que a casa ficava mesmo ao lado da praça de
touros. Eu dormia no corredor, numa cama minúscula escondida por reposteiros.
Os avós entretanto morreram, e a minha mãe optou pelo campismo selvagem nos
pinhais em volta, antes de se render ao fascínio terapêutico da praia da
Consolação.
Desconheço se devo a estas remotas experiências a
tristeza que ainda hoje associo ao Sítio. Mas parece-me evidente que a minha
poesia evoluiu (se é que evoluiu) num sentido exactamente contrário: passou do
campismo selvagem a um longo corredor vazio onde já não espero encontrar
ninguém.
Manuel de Freitas, Inês Dias, in Sítio, Volta D’Mar, Maio
de 2016, p. 14. Fotografia respigada aqui.
UM POEMA DE ARAM SAROYAN
PARIS
1
F. Scott Fitzgerald precisava de um mentor
que é como eu apareço no retrato.
2
Picasso ficou calado
quando chamei a atenção
para o Cubismo ser um passo em falso.
3
Enquanto adolescente
Gertrude Stein preferia
a ópera ao teatro.
4
Dora Maar era uma mulher linda
que não conseguia esquecer Picasso.
5
O apartamento era do tamanho
de um selo de correio.
Arrendámo-lo logo e
saímos 36 dias mais tarde, rescindindo o contrato,
para regressar ao Kentucky.
Aram Saroyan (n. 25 de Setembro de 1943, Nova Iorque, EUA), traduzido por Francisco José Craveiro de Carvalho, in Eufeme - magazine de poesia, n.º 2, p. 15, Janeiro/Março de 2017.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
A NOSSA HORA
Os weblogs dantes eram um espectáculo, isto foi antes de
passarem a ser blogues, éramos só nós e os nossos amigos, discutíamos
civilizadamente todo o tipo de assuntos e tínhamos caixas de comentários
abertas, depois começou a chegar muita gente desconhecida, tanta gente, fizemos
amigos novos, cortámos relações com velhos amigos, fechámos as caixas de
comentários até que zarpámos para jornais, revistas, televisões, cargos
públicos, não suportávamos o anonimato de quem se nos opunha, mas precisávamos
de qualquer coisa que nos mantivesse na crista da onda, qualquer coisa com
rosto e família, precisamos das nossas confrarias e de sociedades secretas em
rede semiaberta, descobrimos as redes sociais, as redes sociais eram um
espectáculo até terem chegado todo o tipo de pessoas às redes sociais, até serem sociais, e os
nossos velhos amigos a discutirem tudo incivilizadamente, é um espanto ver como
as pessoas conseguem ser grunhas, isto é, pessoas, nas redes sociais, o pior
delas revela-se ampliado a uma escala inimaginável, tipos que nós considerávamos
acabam por se revelar xenófobos, racistas, homofóbicos, enfim, execráveis, isto
é, humanos, eu não gosto das redes sociais mas ando por lá para ver como é,
preciso daquele ódio para efeitos de trabalho, sou um observador das massas, as
massas são observadoras das massas, dantes as pessoas tinham comportamentos
filtrados pela moral, pelos bons costumes, pela ética, pela deontologia, agora
os filtros desapareceram e as pessoas comportam-se nas redes sociais como
autênticos bichos, sem filtros, parecem homens das cavernas, sim, o homem
moderno nunca se assemelhou tanto ao homem das cavernas, e eu estou aqui no meu
casulo a observar as cavernas onde os outros se reúnem para assar a presa que
acabaram de capturar com mais um comentário odioso, às vezes penso que passo
demasiado tempo dentro de uma cuspideira, mas não pode ser assim tão mau, até
de facto verificar que é mesmo assim mau, o mundo devia ser só eu e tu, meu
amigo, eu e tu, as redes sociais não deviam ser sociais, deviam ser redes, num
mundo perfeito as pessoas não seriam pessoas, seriam cidadãos do mundo, mas o
mundo tem este defeito de ser feito por pessoas, tantas delas odiosas no fundo
das suas frustrações e vulgares no dia-a-dia do bairro, ai, passassem vocês a
vida atrás desse observatório do mundo que se chama balcão ou fossem às
reuniões de condomínio, talvez não se espantassem tanto com o espectáculo da
boçalidade. Feitas as contas, somos todos homens e mulheres. Feitas as contas,
somos todos brutos e parvos. Só temo pelos vermes que hão-de sofrer terríveis
congestões quando chegar a nossa hora.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
ÁLVARO FEIJÓ A BOMBAR
Acreditando nas contas apresentadas, ontem mais de 2000 pessoas andaram por aqui a esgaravatar em busca de Álvaro Feijó. Não era caso para tanto. Depois do episódio do Cherne, que voltou a colocar a poesia de Alexandre O'Neill na panela das massas, Feijó segue on fire. Afinal "gosta-se" de poesia em Portugal, não se gosta muito é de comprar livros.
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
FORMIGAS
Notei a ausência de pássaros, aves de grandes asas e bico
pontiagudo. Há dias parei o carro para dar passagem a um pássaro. Acabou atropelado
do outro lado da estrada. Por cima de nós, ouvia-se um bando de gaivotas aflitas debatendo o sentido da vida dos répteis e de todas as espécies de rastejantes que sob elas circulavam. É curioso como lhes tendo fobia sinto tantas vezes sua falta. Dá-se
comigo esta coisa de geralmente amar o que me mata. O frio, por exemplo. Esta
humidade do poema:
VIDAS
Há em certas florestas tropicais um tipo de fungo que
escolhe as formigas como hospedeiras. Os seus esporos penetram o corpo da
formiga até se instalarem na sua cabeça. A formiga atacada por este fungo em
breve dá sinais de desorientação e acaba por ser levada pelas outras para longe
do grupo. A formiga hospedeira finalmente imobiliza-se e da sua cabeça nasce
uma haste de fungo que cresce vertical e magnífica, como uma flor, sobre o
corpo morto da formiga.
António Amaral Tavares, in Animais Incluídos, Medula,
Setembro de 2016.
1967
A propósito dos 50 anos que passaram sobre a edição do
primeiro álbum dos The Doors, fui dar uma volta pelos arquivos cá de casa e
fiquei nostálgico. Ao tentar confirmar alguns dados, dei com esta página na
Wikipédia: 1967 na música. Olha-se para a lista de álbuns editados nesse ano e percebe-se que da nostalgia à perda fôlego é um instantinho.
FELICIDADE
Este ano caberá aos dinamarqueses a ingrata tarefa de nos desbravarem os caminhos
da felicidade. Já folheei o livro do Hygge e garanto que é infalível, senti-me logo mais alegre. Até fui
comprar um trenó. Dedico-me agora à obra completa de Carl Theodor Dreyer rezando para que neve ou tombem euros na conta da alegria. Não sei se a integral de Dreyer
chegará para preencher o tempo de espera. Se calhar é melhor precaver-me com os
tipos do Dogma 95.
NECESSIDADE
Ao contrário de muitos e bons amigos, nunca tive jeito
para as mulheres. Talvez por isso seja dos únicos que se mantém com uma relação
estável vai para 25 anos. Tenho 42, façam as contas. Na verdade, nunca tive
paciência para bater couros e os jogos de sedução enfastiam-me. Sou o mais novo
de três irmãos, tenho duas irmãs mais velhas, facto que me subtraiu logo a
conversa do “tu és a irmã que nunca tive”. A expressão “dar um tempo”
irrita-me, a conversa do “desde a primeira hora” inquieta-me e amores à
primeira vista são para cegos. Pelo menos, é assim que penso estas coisas. De resto, não gosto assim tanto, tanto, tanto de mulheres que julgue valer a pena perder grande parte da minha vida a inventar-lhes histórias. Bem vejo
que à minha volta nada se passa assim, o mundo está repleto de paixões ardentes
e as novas tecnologias vieram trazer a todos a fortíssima possibilidade de um
encantamento. Dantes chamavam-se esquentamentos. Nada a opor. O que me encaniça,
por assim dizer, é esta coisa das paixões à telenovela que não deixa de estar na moda e, com os reality shows (também os das redes sociais), acabam exibidas nas capas de revistas com um despudor que julgávamos ultrapassado pela desenganada evolução das espécies. A conversa é sempre tão
obviamente fiada que rapidamente se desfia. Por que é que as pessoas não dizem
logo que, no limite, a única coisa que esperam umas das outras é a fantasia de
jantares à luz de velas seguidos de massagens eróticas e fodas bem dadas? Já
que não estão para se aturar, a paciência é pouca e os dramas amorosos estão
pela hora da morte (olhem para as facturas da luz, do gás, da água), mais valia expurgarmos das relações todo o tipo de ralações
que o romantismo pífio arrasta. Pinar por pinar, sem segundas ou terceiras
intenções, sem subterfúgios, com a natural honestidade de um animal que sacia a
sede. Para depois cada um poder seguir a sua vida sem o falso remorso do que
poderia ter sido, ai, se amor houvesse, ai, onde apenas, ai, necessidade houve.
Ui.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
O VAZIO AINDA NÃO TOMOU CONTA DE TUDO
Isto devia vir com legendas e passar nos intervalos das telenovelas e dos reality shows e dos telejornais: “Este instinto para humilhar quando é moldado por alguém
que está numa plataforma pública, por alguém poderoso, consegue infiltrar-se na
vida de toda a gente. Desrespeito convida ao desrespeito. Violência incita à
violência”. É um raciocínio básico do mais básico que pode haver. Não seria
necessário exprimi-lo e reforçá-lo se no mundo não houvesse pessoas ainda mais
básicas do que o mais básico dos raciocínios. Precisamente porque pior é sempre
possível, convém ir fazendo a manutenção dos pilares fundamentais de uma
sociedade civilizada.
RUMO
As mulheres caminham pela cidade transportando
um segredo incólume,
alheio à espessura das casas.
Esgueiram-se inteiras pelas vielas brancas,
a sombra fina do corpo cruzando o labirinto pardo
dos prédios.
As plantas, queimadas pelo mapa da cidade,
erguem-se pelo trânsito ardente com uma
memória ancestral colhida nos pés.
E o rumo dos seus passos é o traçado do segredo.
As mulheres transportam segredos como
cântaros,
inderramáveis no equilíbrio da cabeça,
o barro suportado pela coluna antiga da memória.
São andanças longínquas sem rastro na calçada,
uma certeza inquieta arrastada pelas ruas.
Segue a passagem esquecida rumo ao beco
parado.
As mulheres cantam cântaros no silêncio do
barro,
estranhamento do segredo na cabeça seguro e
salvo.
No colo a sabedoria surda,
salva pelo andar pressentido entre os muros.
Escuta:
o saber cego desses pés!
Escuta:
a integridade do barro e o seu silêncio!
Ana Horta (n. 1975), in Ínfimo Vento (2015). Autora discreta, Ana Horta tem livros publicados em pequenas
editoras de poesia tais como Black Sun Editores (Inventa uma voz no rodopio
do corpo, 2002) e Volta d’Mar (Ínfimo Vento, 2015). Cultiva uma poesia focada
no feminino e na sua condição, conjugando um vitalismo luminoso com referências
metafísicas de ordem diversa. Apesar de não estarem de todo ausentes, os temas
quotidianos acabam secundarizados por uma manifesta obsessão pelo conflito
ontológico que apõe a vida à morte. Nota-se, de igual modo, uma inclinação para
paisagens naturais de onde surdem, por vezes como sombras indecifráveis,
figuras de uma outra dimensão mais espiritual. A figura do anjo é, entre todas,
a mais persistente.
domingo, 8 de janeiro de 2017
YELLOW SKY (1948)
Não é de todo exagerado colocar Yellow Sky/A Cidade
Abandonada (1948) entre as obras-primas do género western. Tal como acontecia
em The Ox-Bow Incident (1943), Lamar Trotti escreveu o argumento, a partir de
um romance inacabado de W. R. Burnett, e William A. Wellman (n. 1896 – m. 1975)
realizou. Há quem refira aproximações à peça The Tempest, de William
Shakespeare, mas são mais evidentes as referências bíblicas, desde a épica
travessia do deserto logo no início do filme à redenção final dos salteadores
em fuga. O filme começa com o assalto a um banco por uma quadrilha onde
encontramos alguns rostos familiares. Gregory Peck é o
líder, secundado por um Richard Widmark bem mais traiçoeiro do que noutras
ocasiões. Mas há ainda, entre outros, o imponente John Russell e o discreto Harry Morgan.
Perseguido no seguimento
do assalto, o bando segue por um deserto de sal que os homens da lei não se
atrevem a penetrar. A sequência da travessia é magistral, com os cavalos a
enterrarem-se no terreno, o calor pressentido nos lábios gretados dos actores,
a falta de água manifestando-se no discurso e nos gestos arrastados, alguns instantes de
delírio travados por uma absoluta necessidade de autocontrolo, acompanhados de
um desespero crescente que a obstinação do líder insiste em renunciar. Quando o
grupo ali entra, só sabemos que pode nunca mais dali sair. Até ao momento em
que no horizonte surge a miragem de uma cidade, e com ela a possibilidade de se
encontrar o mais precioso dos bens: água.
Yellow Sky é a cidade, ou, mais
literalmente, é a miragem de cidade. William A. Wellman oferece-nos neste filme
um dos cenários míticos do antigo Oeste, o das cidades fantasma. Aparecem em
inúmeros westerns ao longo dos tempos, mas em poucos com a estética da
desolação que Yellow Sky ressalta. Edifícios abandonados, sombras, letreiros
caídos, muito pó e vento, claro, uma desarrumação e ruína inconciliáveis com os
dois últimos e resistentes dos seus habitantes. São precisamente estes dois
últimos habitantes quem torna mais consistente a ruína do local, na medida em
que guardam na sua memória um passado que nos será acessível aos fogachos como
quem descobre a lógica de uma queda.
O primeiro a aparecer em cena é uma jovem
e belíssima Anne Baxter, de caçadeira nas mãos a abordar um bando de bandidos,
mais mortos do que vivos, desesperando por uma água que ela não lhes negará. A
jovem “Mike” vive isolada em Yellow Sky com o avô, velho mineiro com uma
história para contar sobre os tempos da corrida ao ouro. Passado e futuro
coabitam como fantasmas numa cidade abandonada que será uma espécie de
purgatório para o bando de sequiosos ali chegados. Com a alma vendida ao
demónio, a prova a que estarão sujeitos será a de honrarem a mão que os livrou
da morte certa ou traírem-na com uma ilimitada avidez.
Entre a água que lhes
matou a sede e o ouro que os torna de novo sedentos intromete-se, no entanto, a
luminosa “Mike”. Para onde penderá o coração de cada um será o rumo natural
desta história, pautada pela velha moral de que cada um tem o castigo que
procura. Ao longo do filme, é evidente a alternância de cenas nocturnas com
sequências à luz do dia. O percurso que leva a personagem de Gregory Peck das
trevas à luz é o de uma caminhada purificadora do homem ao encontro da sua
essência, redimido pela redescoberta do amor e do valor da palavra.
Embora os
temas morais sejam evidentemente privilegiados por Wellman, neste filme eles
conjugam-se com uma estética da desolação que não pode ser negligenciada. É
como se todo o filme tivesse sido rodado sobre cinzas, para que destas seja
mais evidente o renascimento operado na personagem principal. James ‘Stretch’
Dawson chegou a Yellow Sky mais morto do que vivo. Na realidade, não temos
sequer a certeza de que tenha chegado vivo. Tudo o que se passará em A Cidade
Abandonada é tão improvável em terra que não terá sido por acaso darem o nome de Sky ao local, um céu amarelo como o do purgatório. O paraíso será o destino final.
Chama-se Constance Mae, mais conhecida por ‘Mike’.
PARABOLANOS
Há coisa de 2000 anos (talvez nem tanto), quando o
cristianismo tentava impor-se no mundo, havia uns tipos com mentalidade
justiceira que impunham a moral à lei da pedra. Andavam literalmente com sacos
de pedras pendurados à cintura, atirando sobre quem blasfemasse ou de algum
modo se opusesse a uma concepção moral que tinha em Jesus na Terra a sua figura
honorífica. O filho de Deus, que andara a apregoar o amor entre os homens,
assistia assim a uma paradoxal defesa da sua mensagem: apedreje-se aquele que não
amar seu semelhante. Enfim, são as contradições naturais de qualquer idolatria.
Entretanto o mundo evoluiu, os homens passaram a
idolatrar-se a si próprios e colocaram-se no lugar
de deuses capazes de julgar os sentimentos dos outros (jamais os de si
próprios, esses são inquestionáveis). Há pessoas que continuam a adornar a
indumentária quotidiana com sacos de pedras, embora o façam lá na protecção das
suas redes internéticas à distância que a cobardia permite.
Tornou-se comum, por exemplo, quando alguém
manifesta pesar/indignação por um qualquer atentado, surgir de imediato uns seres prontos a
apedrejar a manifestação de pesar/indignação com evidências aterradoras: lamentas este mas não lamentaste aquele. Na cabeça destas pessoas, deveríamos
lamentar todos os atentados sem excepção como se fosse possível senti-los a
todos de igual modo.
Pessoas que pensam assim merecem-me respeito, devem
ter vidas verdadeiramente infelizes. É que a toda a hora, desde há muito, se
verificam inúmeros atentados pelos quatro cantos do mundo. Devem passar a vida
a lamentá-los, desconfio mesmo que não durmam. Ou se dormem, têm horríveis
pesadelos, deitam-se com lamentos, sonham com lamentos, acordam com lamentos.
De facto, como não sentir da mesma maneira um atentado em Sukhothai ou em
Paris? Só um hipócrita, na melhor das hipóteses um cínico, é que pode ser capaz
de lamentar mais a morte de um parisiense do que de um habitante no lugar
remoto de Sukhothai. Atiremos pedras ao cínico, apedrejemos o hipócrita, há que
denunciar a sua baixa moral.
Tornou-se também vulgar assistir a todo o tipo de
questionamentos face ao pesar pela morte de alguém. Quando alguém morre, é
natural que surjam reacções à sua morte. Maioritariamente de pesar. Quem não
gostou do defunto em vida, o mais que deve fazer à hora da morte do ser humano
em causa é calar-se. Por uma questão de respeito, digo eu. Mas não é bem isso
que sucede, os parabolanos do séc. XXI aí estão para nos denunciar todo o tipo
de contradições. O silêncio já não tem qualquer valor, o respeito deixou de ser
bonito. Quer-se tudo a conversar e a fazer muito ruído.
Morre um artista e surgem no ar inúmeras memórias e
partilhas da obra do artista. Tudo seria normal, não fosse vir logo um zelador da
coerência lembrar-nos que nunca antes, enquanto o artista foi vivo, partilhámos
o que quer que fosse desse mesmo artista ou sequer lhe fizemos a mais ínfima
menção. Então agora toda a gente gosta do Prince? Pergunta o zelador,
atirando-nos à cara a vergonha das nossas vidas.
A pessoas que deviam ter um
pingo de bom senso na cabeça, ouvi eu dizer aquando da notícia da morte de
George Michael: estou-me a cagar para o George Michael. Ninguém esperaria
o contrário, mas seria no mínimo desejável que, à hora da morte do indivíduo, pelo menos um mínimo respeito pela perda prevalecesse e se manifestasse num silêncio indiferente. Já
não chega a indiferença, é preciso fazer bandeira de si próprio: eu nunca gostei de
George Michael e digo-o, não sou hipócrita, não é agora que ele morreu que vou
dizer bem dele.
Ninguém esperava elogios, nem sequer ninguém estava minimamente interessado em saber se a obra de George Michael tinha alguma
relevância na vida do Zé da Esquina que quer dizer ao mundo que jamais sentiu
alguma coisa pelo autor de Wake me up before you go-go. Pela parte que me
toca, se o Zé da Esquina fosse suficientemente inteligente para se manter
calado, já seria uma bênção. Como não espero inteligência de um Zé da Esquina,
que fosse pelo menos suficientemente modesto para perceber que a sua opinião
não é relevante. É só mais ruído.
Veja-se o que está a suceder com Mário Soares, outra
espécie de artista. O homem acabou de morrer, já toda a gente o esperava. Teve influência no curso do país como poucos, foi
duas vezes Presidente da República, uma vez reeleito com enorme popularidade. O
mais normal e óbvio é haver quem lamente a sua perda. Eu, que nunca votei no
homem nem era especial fã, lamento a perda e reconheço-lhe o valor de ter
lutado contra o fascismo. Nada disto tem qualquer valor face à grande questão do parabolano moderno: então agora toda a gente gosta de
Mário Soares? E logo começa o parabolano a atirar as suas pedras, umas mais
consistentes do que outras, porque ou simplesmente ignorantes ou menos
simplesmente ideológicas, atirando-nos à cara eventuais malfeitorias, defeitos,
vícios do homem enquanto actor.
O parabolano tem pelo menos o mérito de nos
fazer pensar os ínvios caminhos do moralismo na actualidade, a
lógica rasteira, abstrusa e capciosa, diria mesmo burra do mais burro que pode
haver, dos detentores da pós-verdade, enfim a palermice, o infantilismo, a
patetice generalizada nas redes que proíbem maminhas ao léu mas aceitam todo o
tipo de dejectos que um esgoto aceita sem que se verifique grandes incómodos
com o estado da situação. De resto, são inúmeras as pessoas que tendem a aderir ao
esgoto com evidente gosto e falta de espírito crítico. O que as torna apenas
ainda mais coerentes com as suas práticas murídeas. Uma coisa é certa, quando morrerem ninguém o
lamentará.
sábado, 7 de janeiro de 2017
MÁRIO SOARES (1924-2017)
Cresci a ouvir dizer maravilhas de Mário Soares. Lá em casa,
toda a gente era soarista. Cheguei a andar às cavalitas de meu pai em campanhas
pelo Dr. Soares, recordo-me do episódio da Marinha Grande e de uma molha descomunal
em Lisboa a celebrar, salvo erro, a vitória do “Soares é Fixe”. À medida que o meu
pensamento político se foi autonomizando, o distanciamento tornou-se evidente.
A razão pendeu para outros ideais, para outras formas de estar na política. Hoje
nada disso interessa. Soares foi um lutador antifascista, político de uma safra
que já não existe. Daqueles que nos fazia sair de casa para ir a um comício,
porque era certo haver espontaneidade e entusiasmo nas palavras, nos discursos.
Não se lhe negue a coragem. Quanto ao mais, a História fará seus julgamentos.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
MOTIM
Nos nossos dias, a violência passou a ser um elemento na
paisagem. Noutros tempos, um tipo podia passar o ano inteiro a cuidar das galinhas sem sequer se dar conta das guerras em curso no mundo. Não havia indiferença nem apatia, havia um desconhecimento que também não era saudável porque nos desprevenia. O que a banalização da violência gera é de outra ordem. Tal como sucede a qualquer elemento na paisagem, é elevado o risco de
passar despercebido. De tão habituados à sua presença, damos por ele quando nos
falta. Muitas vezes nem chegamos a dar por ele. Acontece hoje o mesmo com a
violência. Tende a tornar-se indiferente por ser indiferenciável. Não há dia que escape a cenas violentas, quase sempre exibidas num terror envolto em cinematográfica mediatização. O facto de, por cá, ainda
nos chegarem por meio de, ou seja, haver uma certa distância entre o espaço concreto
das nossas vidas e o espaço concreto dos acontecimentos, protege-nos
fisicamente de danos maiores. Olhamos para a violência como quem vai ao cinema, como quem abranda a marcha. Mas psicologicamente os danos são inevitáveis. E,
como sabemos, entre psyche & physis as pontes são inúmeras e de facílimo
acesso. Países relativamente pacíficos como o nosso tendem a
lidar com a violência de um modo infantil. Ficamos incrédulos quando nos
deparamos com uma cena violenta. Perguntamo-nos: como é possível? Ou, na versão
mais patética: como foi possível? Varremos para debaixo do tapete,
omitimos, escondemos. Aguardamos o levantamento da imunidade, ficamos atrás do
pretexto legal à espera que o assunto prescreva. A violência doméstica é um cancro indiscutível, mas
podíamos citar igualmente a violência nas estradas, no trabalho, nas escolas,
nesse mundo tão inexplorado da noite portuguesa, violência entre hierarquias,
etc. Alguém que seja agredido à nossa frente, seja lá por que razão for, se é
que existem razões para agredir, merece-nos quase sempre uma de duas reacções:
pena, compaixão. Mas tanto uma como outra podem ser de igual modo formas de agressão,
nomeadamente quando não defendem a vítima da violência que a atinge. Só às crianças deveríamos tolerar a pena e a compaixão. Aos
adultos exige-se algo mais. Exige-se o risco da acção, da intervenção, exige-se
a coragem de colocar-se entre a vítima e o agressor e dizer basta. Só isso o
inclinará para o lado da vítima. Caso contrário, manter-se-á à distância que
beneficia o infractor. Para como uma criança, consumados os actos, poder
manifestar a falsa bondade dos lamentos inúteis. De preferência numa rede social que o ensaboe com likes e emojis.
"Onde não há fim"
Para Catarina Galego & m. parissy
Ia dizer quando tudo recomeça, mas logo me sobreveio a
terrível constatação de nada ter findado. É num continuum vacilante que a treva
e a luz se vão rendendo, como no monitor prossegue a estabilizada arritmia do
coração.
Certo é que o tempo passa, a pele amarrotada não engana. Mas
passa sem rupturas radicais, apenas desvios, inflexões, nada de descontínuas e
abruptas separações.
Feitas as contas, não passamos de um grão de areia e nosso
todo tempo bem contado é mero instante, fracção de segundo, na história do
mundo.
Que nos caberá fazer senão esperar, ir andando, felicitar
cada novo dia com uma velha noite?
Tivesse eu Deus a quem dar graças, dá-las-ia pela folha
caída, pelas papoilas de vento, pelo animal selvagem à sombra, pelos altos
mares da nossa ínfima imaginação. Não tenho. Por não tê-lo contento-me com
gestos humanos que fazem valer mais que outros certos dias e todas as coisas
que neles perecem, mantendo-se à tona, vivas, nesse continuum vacilante de dia
e noite entrelaçados.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
2016: LIVROS
Repetem-se os tradicionais balanços de fim de ano, numa
monotonia sem graça que tende a olhar para a realidade sem lhe questionar as
lógicas de produção/consumo. No caso dos livros, a sensaboria é-me ainda mais
evidente. Trabalho rodeado desses objectos mitificados e mistificadores. Uma
análise ao ano que passou apenas permite reforçar a ideia de um total
alheamento do crítico face ao público. Assim sendo, num esforço redobrado de
diferenciação do objecto, volto a lançar-me nesta ingrata tarefa de olhar para
o livro através das suas componentes. Como quem desenha uma paisagem. Na lista
que se segue, não aparecem todos os livros que li durante o ano que passou.
Estão livros que ainda não li na íntegra. Até está um que não conto vir a ler.
Não está o melhor livro de ficção que li este ano, o livro de contos da Lucia
Berlin. Mas estão muitos livros que me acompanharam e sobre os quais fui escrevendo
neste espaço de partilha, novamente chamados à liça por aspectos que nem serão
dos mais relevantes. Ou são e a gente não se apercebe. Assim sendo,
Melhor cinta
Sofi Oksanen, “Norma”, Alfaguara, Outubro de 2016
Boa solução para a mais inútil das componentes de um livro. Num mundo perfeito, as cintas desapareceriam e ninguém daria pela falta. Raramente não prejudicam aquilo à volta do qual se encontram como plantas trepadeiras. Neste caso, nota-se o esforço para respeitar a bela imagem de capa.
Melhor sobrecapa
Carlos Ruiz Zafón, “O Jogo do Anjo”, Planeta, Agosto de
2016
Nunca li, nem está nos meus planos vir a ler, Carlos Ruiz Zafón. Não pude, no entanto, deixar de reparar nas reedições portuguesas dos seus livros pela Planeta. Dizem-me que não é inédito, mas gostei da sobrecapa plástica em diálogo com a capa rija. Uma imagem de fundo a preto e branco sobre a qual incidem nome do autor, título da obra, figura humana e logótipo do editor.
Melhor primeira orelha/badana
Bruce Springsteen, “Born To Run”, Elsinore, Setembro de
2016
Consta que foi o artista que mais facturou durante 2016, contribuindo para o resultado a edição mundial de uma inteligente autobiografia. Ao contrário do que tantas vezes sucede, a edição portuguesa respeitou o layout original evitando poluir a primeira badana com informações desnecessárias. Querem saber mais sobre Springsteen? Leiam o livro ou vão ao sítio do autor.
Melhor guarda
Tiago Pereira, “O Povo Que Ainda Canta”, Tradisom, Julho
de 2016
Melhor folha de guarda
Os livros da Elsinore
Os livros da editora Elsinore têm esta particularidade de mesmo quando são maus, merecerem pelo menos uma visita à folha de guarda. É que todos eles aí reproduzem um dos grandes poemas de Mário Cesariny, ameaçando tornar "You Are Welcome To Elsinore" no poema mais imprensado do mundo. Não sei se é uma boa ou má solução, embora seja sempre agradável reler Cesariny.
Melhor folha de rosto
Alfred Jarry, “Messalina”, Sistema Solar, Janeiro de 2016
Persistindo na reedição de malditos clássicos malditos, a Sistema Solar tem muitas das melhores folhas de rosto alguma vez publicadas neste país. Porquê? Porque aí consta amiúde o nome de Aníbal Fernandes, cujas traduções e introduções são, sem excepção, impagáveis exemplos de amor à palavra escrita.
Melhor capa
Daniel Jonas, “Bisonte”, Assírio & Alvim, Abril de
2016
A quem me pergunte qual foi o melhor livro de poesia portuguesa contemporânea que li em 2016, eu terei de responder "Bisonte". Talvez me arrisque a ser mal interpretado, entendendo a pessoa a quem eu ofereça tal resposta que lhe estou a chamar um nome ofensivo. Mal entendido que seria facilmente desfeito, bastando para tal olhar com atenção a capa deste livro, passando os dedos pelo relevo do título, pressentindo na estranheza um inesperado hino à natureza selvagem. Também a da poesia.
Melhor dobra
Paulo José Miranda, “Auto-Retratos”, Abysmo, s/d.
Inteligente desconstrução do livro enquanto objecto, "Auto-Retratos" de Paulo José Miranda é o pesadelo dos livreiros convencionais. Merece ser lembrado pela excepção gráfica, mas também pelo jogo estabelecido entre essa excepção e o conteúdo dos poemas. Retratos que se definem pela perturbadora relação que a palavra estabelece entre autor e leitor.
Melhor segunda orelha
Raduan Nassar, “Lavoura Arcaica”, Companhia das Letras,
Setembro de 2016
Inesperado Prémio Camões, Raduan Nassar tem apenas três livros publicados. Um romance, uma novela e um volume de contos foi quanto lhe bastou para se afirmar como um dos mais relevantes autores da língua portuguesa. Na edição da Companhia das Letras, metade da segunda badana é destacável e converte-se em marcador de páginas. Pormenor gráfico deveras inteligente.
Melhor contracapa
Henry David Thoreau, “Maçãs Silvestres & Cores de
Outono”, Antígona, Junho de 2016
É a escolha do texto que torna as contracapas da Antígona tão especiais. Ignorando recortes de imprensa e elogios a granel, vai directamente ao autor respigar uma citação reveladora do contexto da obra em causa. Cada citação é um testemunho, uma espécie de axioma, um grafito, é um aforismo com a força de sentença moral. Clique na imagem para ver melhor.
Melhor lombada
Ruy Cinatti, “Obra Poética – volume I”, Assírio &
Alvim, Outubro de 2016
A mais aguardada das lombadas chegou em 2016. Só para poder ter este volume por perto, já valeu a pena o esforço de estar vivo. Ruy Cinatti é um dos mais relevantes poetas portugueses de sempre. Este volume, que nos há-de fazer muita companhia nos próximos tempos, é o primeiro de uma vastíssima obra. Não são folhas em papel de Bíblia, são folhas bíblicas.
Melhor formato
Colecção Gato Maltês
Kabir, “O Nome Daquele Que Não Tem Nome, Assírio &
Alvim, Março de 2016
Contrastando com "o tijolo" anterior, os livros da colecção Gato Maltês têm aquele formato de levar para qualquer lado. Este, traduzido por Jorge Sousa Braga, é dos melhores em verso internacional por cá publicados no ano de 2016. Num ano em que os extremos foram ainda mais extremados, adquirindo força o discurso da separação contra o da integração, ler Kabir foi o banho espiritual possível a um ateu irrecuperável.
Melhor impressão
José Manuel Simões, “Sobras Completas, Abysmo, Outubro de
2016
Há neste livro a força de um gesto amigável que a capa, em cartolina grossa, de certo modo reproduz. Nela recupera-se a grafia de um autor esquecido, replica-se o envelope onde ficaram guardadas as palavras derradeiras da testemunha de um tempo que nos deu grandes escritores no exílio. O editor fala em resgatar do esquecimento, fazendo também disso missão em papel e tinta ao dispor de todos quantos tenham interesse.
Melhor tradução
Eimear McBride, “Uma Rapariga é Uma Coisa Inacabada”, tradução
de Daniel Jonas, Elsinore, Março de 2016
Bis para Daniel Jonas. Ainda não li "Breve História de Sete Assassinatos", com tradução de José Miguel Silva, que me dizem ser um excelente trabalho, mas a tradução para o exigente romance de estreia da irlandesa Eimear McBride é, sem margem para dúvidas, um esforço pelo qual lhe devemos todos ficar agradecidos enquanto leitores.
Melhor miolo
Filipe Melo & Juan Cavia, “Os Vampiros”, Tinta da
China, Junho de 2016
Só folheando e sentindo o cheiro. Um regalo para os olhos que chega a todos os sentidos. Os desenhos de Juan Cavia para o argumento de Filipe Melo, surpreendente incursão pela guerra colonial portuguesa, são uma portentosa interpretação dos cenários de guerra e das relações humanas neles estabelecidas. O leitor é capturado para o interior das páginas como se estivesse a assistir a um filme. E está.
Melhores agradecimentos
Megan Bradbury, “Onde Todos Observam”, Elsinore, Julho de
2016
Num livro cuja personagem principal é uma cidade, Megan Bradbury não se contém na excitação dos agradecimentos. A frase dedicada a Don DeLillo é algo enigmática, restando-nos a incerteza de como seria a escritora antes de ter lido DeLillo. São várias páginas de agradecimentos com inúmeros destinatários. Subitamente, ocorre-me a possibilidade de todo um livro poder ser assim. Um agradecimento.
Melhor posfácio
Margarida Vale de Gato, “Lançamento”, Douda Correria,
Outubro de 2016
Melhor dedicatória
Miguel Cardoso, “Víveres”, Tinta da China, Julho de 2016
Num livro marcado por privações, as ruas e as pessoas dessas ruas onde o poema surge e ganha forma são maná para os dias. Mas sobretudo a dedicatória final: «Ao Xavier, onde moro.» Nem é preciso que saibamos quem é o Xavier, a dedicatória é, em si mesma, um dos mais belos poemas de um livro que também se chama vida.
Melhor epígrafe
Mariano Alejandro Ribeiro, “Antes da Iluminação”,
Mariposa Azual, Abril de 2016
Um provérbio Zen fica sempre bem, mesmo não tendo nós a certeza de que se trate de um provérbio ou que seja, de facto, Zen. A verdade é que estas duas linhas definem na sua cruel simplicidade a relação que temos com a luz e como, ao longo da vida, o ritual se vai sobrepondo à contemplação. Não nego que uma coisa leve à outra, apenas reafirmo que entre o pragmatismo dos afazeres e o instante da contemplação se instaurou um vazio. E esse é bem mais niilista do que Zen.
Melhor sumário
Nuno Moura, “Clube dos Haxixins”, Douda Correria, Outubro
de 2016
Desconfio que seja mesmo feitio. Nuno Moura gosta de subverter, de fazer ao contrário. Por isso deixa os sumários para o fim e dá-lhes o nome de Nota Prévia, reforçando mais ainda essa tendência intratável para a desconstrução. Sublinhe-se, igualmente, a honestidade do discurso quando a memória falha.
Karl Marx, “Do Suicídio”, Antígona, Junho de 2016
Não é um nem dois, são três os prefácios guardados para a edição portuguesa de "Do Suicídio", obra atribuída a Karl Marx que não é exactamente de Karl Marx. O primeiro dos prefácios intitula-se "Um Texto Insólito de Marx", e foi assinado por Michael Löwy. Breve, curto, mas incisivo ensaio que acaba por extravasar os trâmites da obra em análise.
Melhores notas de rodapé
Matsu Bashô, "O Eremita Viajante [haikus – obra completa]",
organização e versão portuguesa de Joaquim M. Palma, Assírio & Alvim,
Setembro de 2016
Imaginem um livro em que o leitor se deliciasse tanto a ler notas de rodapé como o conteúdo do próprio livro. É isso que sucede na reunião integral dos haikus de Bashô, muito por culpa de Joaquim M. Palma. As notas sobre os poemas não são apenas informações que esclarecem os poemas, são, muitas vezes, elas próprias um poema sob a forma de nota, na medida em que exploram possibilidades de interpretação inacessíveis ao leitor comum.
Melhor cólofon
José Luís Costa, “Canto da Alforreca”, Douda Correria,
Janeiro de 2016
Palavras para quê? É um poema visual.
Melhor colecção
Obras de José Martins Garcia, Companhia das Ilhas
Por razões que alguém conseguirá explicar, o esforço de uma pequena editora na recuperação de mais um escritor esquecido mereceu apenas, aqui e acolá, tímidos apontamentos. Estaremos atentos à continuação desta relevante colecção, certos de que o nome de José Martins Garcia merece uma atenção que ainda não lhe foi dedicada.
Melhor bibliografia
Mafalda Ivo Cruz, “Pequena Europa”, Mariposa Azual, Dezembro
de 2016
Começa a ser bastante frequente encontrarmos obras de ficção com referências bibliográficas. Ainda que pareça natural em romances históricos, ou próximos desse registo, parece-o menos quando a dimensão narrativa surge estilhaçada por uma intenção experimental que resiste à linearidade dos tempos. As referências declaradas por Mafalda Ivo Cruz apelam à leitura. Em breve, conto dedicar algumas linhas a este romance.
Melhor título
Nuno Costa Santos, “Céu Nublado com Boas Abertas”,
Quetzal, Fevereiro de 2016
A dificuldade de um bom título é semelhante à angústia do guarda-redes no momento do penálti. Peter Handke foi feliz ao percebê-lo, Nuno Costa Santos também ao fintar essa angústia com a mais evidente das soluções. Que outro título para um romance com os Açores em plano de fundo?
Melhor ilustração de capa (e de contracapa)
Raquel Nobre Guerra, "Senhor Roubado", Douda Correria,
Abril de 2016
No futuro será publicado um livro só com as ilustrações de capa para livros da Douda Correria. Devemos esta ao talento de Luís Henriques. Ocupa capa e contracapa, num desenho onde o realismo das formas não atraiçoa a poética distribuição dos elementos.
O livro do ano
Ruy Castro, “Chega de Saudade”, Tinta da China, Junho de
2016
Num ano em que o pior do Brasil esteve no centro das atenções, exibido como um espectáculo deplorável de degradação política, poder recordar o que de melhor o Brasil tem e terá foi uma bênção. "Chega de Saudade" não é, como disse, apenas um ensaio acerca do género musical bossa nova, ultrapassando em muito aquilo a que se propõe com extrema simplicidade. Enquanto objecto, é um livro perfeito. Praticamente tudo o que anteriormente elogiámos noutras obras podíamos elogiar nesta. Mas, além disso, é um testemunho desassombrado desse mundo aparentemente insular da arte e dos artistas. Dentro do mundo, mas com uma vontade imensa de existir fora do que nele se interpõe entre o direito à felicidade e a certeza da morte. É também um livro sobre música num ano em que a canção foi merecidamente elevada à condição de literatura com a atribuição do Nobel a Bob Dylan. Chega de saudade, o futuro está à porta.
POLITICAMENTE INCORRECTO
Estamos numa época em que ninguém raciocina profundamente
porque só lêem no Facebook, apanham tudo de ouvido. Raciocínio, escrita,
pensamento crítico, isso não há.
Numa breve entrevista à Sábado, o psiquiatra J. L. Pio
Abreu fala de feridas abertas entre homens e mulheres no mundo actual. Tudo o
que diz é discutível, mas não deveria ser achincalhado. Como é óbvio, pelas
razões que o próprio aponta, é isso que vai acontecer.
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