segunda-feira, 13 de março de 2017

ALGUÉM QUE ME COMPREENDA


   Subi e tomei o meu banho. Durante uma hora, fiquei deitado na água apaziguadora, a dormitar mas sem dormir. Para mim, um banho não era tanto a limpeza do corpo, era mais um refrescar da mente. Os meus pensamentos tornaram-se um céu de Verão, com imagens alegres a atravessarem-me a ideia como nuvens brancas: os veleiros de Newport Beach, a beleza pungente de Valli, o terceiro fairway no Fox Hills Golf Club, a prosa de Willa Cather. Juntamente com o meu banho vinham todas as coisas deliciosas, todas as coisas sedutoras, esplêndidas, suaves

John Fante, in Cheio de vida, trad. Rita Canas Mendes, Alfaguara, Outubro de 2016, p. 82.

O VOTO DELE

Gosto quando um escritor não se inibe de manifestar publicamente as suas inclinações políticas, sobretudo quando as mesmas fogem ao politicamente correcto. É isso que J. Rentes de Carvalho, há muito radicado na Holanda, faz aqui. Eu seria incapaz de oferecer o meu voto, mesmo que de protesto, a um político condenado por discurso de ódio. Wilders não quer marroquinos na Holanda, ironiza com a condenação de racismo de que foi alvo dizendo que os marroquinos não são uma raça, compara o Islão ao Nazismo. Paradoxalmente, a ideia de “desislamizar a Holanda” é muito mais parecida com a outrora intenção de expurgar a Alemanha de judeus. Os judeus que Geert Wilders admira, por nele tudo ser anti-Islão. É filho de uma mãe que emigrou da Indonésia, antiga colónia holandesa, para a Holanda, “pinta o cabelo de louro oxigenado”, faz da islamofobia uma bandeira. Ora, repugna-me todo o discurso político fundamentado numa retórica do medo. As fobias são inimigas da política. J. Rentes de Carvalho vota nesta criatura desprezível como forma de protesto, talvez pelas mesmíssimas razões que levam tantos turcos a manifestarem-se por um poder absoluto que Erdoğan se prepara para conquistar. Admirável mundo este em que democraticamente tantos antidemocratas podem almejar o poder.

domingo, 12 de março de 2017

sábado, 11 de março de 2017

NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS

1. "Paulo Núncio mostrou uma grande elevação de carácter e o país deve muito ao doutor Paulo Núncio pelo trabalho de combate à fraude e à evasão fiscal", disse Assunção Cristas aos jornalistas.

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1. O antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, um dos nomes que está no centro da polémica sobre as declarações de transferências para offshores, foi advogado da petrolífera venezuelana PDVSA, responsável por uma boa parte dos 7,8 mil milhões que saíram do Banco Espírito Santo (BES) para o Panamá, noticia esta sexta-feira o Observador.

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2. Foi literalmente aos molhos que os funcionários da sede nacional do CDS-PP levaram nos últimos - dias de Dezembro de 2004 para o balcão do BES, na Rua do Comércio, em Lisboa, um total de 1.060.250 euros, para depositar na conta do partido. Em apenas quatro dias foram feitos 105 depósitos, todos em notas, de montantes sempre inferiores a 12.500 euros, quantia a partir da qual era obrigatória a comunicação às autoridades de combate à corrupção.
(…)
Frisando que os 105 depósitos do CDS no BES foram feitos entre os dias 27 e 30 de Dezembro de 2004, "muitos deles com intervalos de minutos e a grande maioria em parcelas de 10 mil euros", os investigadores da PJ descobriram também que os recibos para justificar a entrada daquelas verbas nos cofres do partido teriam sido todos passados em datas posteriores aos depósitos. Os próprios livros com os talões de recibos teriam sido encomendados já em Janeiro de 2005.

Outros dados curiosos são os que se referem à identificação dos doadores. Os funcionários da sede nacional do CDS emitiram um total de 4216 recibos, neles anotando apenas o montante e o nome do doador, notando a PJ tratar-se provavelmente de dados fictícios, exemplificando com o "sonante e anedótico nome de doador "Jacinto Leite Capelo Rego", no valor de 300 euros".

sexta-feira, 10 de março de 2017

CONVERSÃO

Não me incomoda nada que as pessoas se convertam, que mudem de opinião, que dêem a volta ao mundo das utopias adoptando a cada dia uma nova, que voltem do avesso a consciência, até que se contradigam, que hoje digam uma coisa, amanhã outra, que ontem tenham sido fascistas e hoje se declarem comunistas, que ontem tenham sido maoístas e hoje se declarem católicos apostólicos romanos. A única coisa que me incomoda é que a conversão de nada lhes sirva. Podem apregoar os mais perfeitos ideais, podem advogar as mais beneméritas teses, podem bater-se pelo bem universal. Podem. No dia-a-dia, quotidianamente, rosto a rosto, continuam a ser umas bestas-quadradas, mesquinhas, hipócritas, insidiosas, maldosas. E nada fazem para o disfarçar. Que o bem lhes sirva para alguma coisa não é bem que nos seja dado a ver. Mantêm-se iguais a si próprias, de nada lhes serviu a luz do Senhor.


P.S.: há dias, colega de trabalho dizia em tom de desabafo: a mais frustrante das secções é a auto-ajuda, não há livro que valha a quem os procura. Daí que vendam tanto. Nem mais.

INSTANTÂNEO NA CIDADE TRANQUILA


   Com vento favorável, mesmo junto aos edifícios dos bancos e do grande escritório, pode sentir-se o cheiro do mar.
   Vem do cais, não é absoluto nem abafa as buzinas dos carros. Não leva o perdão aos sonhos dos homens curvados nos arquivos, nem é mesmo vigoroso como pensar de repente na morte, pensar na morte e trincar uma laranja.
   Mas com vento favorável boa vontade e raiva pode sentir-se, chega a sentir-se, o cheiro do mar


Jaime Salazar Sampaio (n. 1925 - m. 2010), in Poemas Propostos (1954). Embora tenha consolidado a sua produção literária essencialmente enquanto dramaturgo, começou por publicar poesia. O fascínio pelas vanguardas reflecte-se nas aproximações tanto à poesia experimental como ao teatro do absurdo. Autor de poemas breves, explorou com rigor as tensões entre o homem e a sociedade do seu tempo. Conseguiu com extrema simplicidade expressar a angústia e frustração do ser exilado em si mesmo, embora consciente da absurdez matricial da existência. 

ARQUIVOS

Declaro-me viciado nos arquivos da RTP. Temo onde o vício me levará. Senhoras e senhores, Joaquim Manuel Magalhães de bigode e muito sorridente. Aos 12 minutos: aqui. José Afonso é entrevistado na rua. O entrevistador dirige-se-lhe com "pás", fuma, despede-se com um abraço e "obrigadinho": aqui. Um programa de Alexandre O'Neill sobre A Encadernação de Arte: aqui. João César Monteiro, em 1971, no programa Ensaio: aqui

quinta-feira, 9 de março de 2017

"HANGAR DE DESPERDÍCIOS"

Também eu cultivei em parte o gosto pelos livros lendo o que outros sobre eles escreviam, quer em colectâneas de crítica literária, quer em ensaios ou nas recensões dispersas por jornais, suplementos, revistas. Durante anos, tive inclusivamente a prática de recortar artigos e arquivá-los para memória futura. Alguns textos sobre livros adquirem uma autonomia face ao objecto de análise que valem por si mesmos, outros cativam-nos pela informação que proporcionam, pela prática reflexiva e crítica, pelo exercício do pensamento através de uma disponibilidade para o saber e para o conhecer que vai escasseando nos nossos dias. Recuso a perspectiva nostálgica aliada a um saudosismo incapaz de compreender as novas regras do discurso, mas permaneço fiel à demora, ao tempo e, por consequência, às pausas sem as quais a lucidez do pensamento não vinga. Ou seja, creio que um dos grandes males do nosso tempo, porventura diagnosticado mas sem tratamento aparente, é a brutal aceleração da existência, a qual arrasta sem resistência a capacidade de concentração dos homens e, mais grave, a predisposição para o conflito intelectual, para o debate de ideias, para o espírito crítico. Em suma, à aceleração da existência corresponde a morte prematura do pensamento.

Bombear preconceitos, destilando raivas e ódios de estimação, alardeando uma putativa liberdade de espírito que não passa de exibicionismo pacóvio, não entra nestas contas. O fora-da-lei não se afirma por andar num berreiro constante a dizer que o é, mas sim porque a lei lhe é estranha às convicções e à moral, porque não está de acordo com uma ética pessoal independente das cátedras em vigor, exercendo assim à margem do cânone ou paralelamente a este o seu modo de vida. Tal como, ao que parece, Jesus nunca se afirmou filho de Deus, também o condenado não reconhece o crime de que o acusam. Assim sendo, o que vai sobrando são sobras. Os jornais perdem público a cada dia que passa, desunham-se com sensacionalismos idiotas numa ânsia desesperada de captar atenções mínimas de quem não os lê. Os suplementos foram reduzidos em páginas e caracteres, oferecendo mais espaço às fotografias dos autores do que à leitura dos livros. As revistas resistem por carolice ou subsídio, circulando de mão em mão com borlas que garantem miolo a um nicho cada vez mais restrito de interessados.

Por onde andam os (des)interessados? Voltaram-se para as redes sociais e entretêm-se a partilhar anedotas, circunscrevendo o campo de acção à protecção asséptica da distância. Quando lêem um livro, com sorte respigam uma frase que partilham com o mundo à espera de likes. E ao like se reduz a avaliação crítica, como outrora vingavam as estrelas nos jornais. O futuro será o pó das estantes. Convencidos de que sobre um livro nada há a dizer a não ser citá-lo, acabam também por não pensá-lo. Furtam-se ao pensamento por não terem qualquer interesse na discussão, no debate, no conflito, saturados que andam de tantas emoções em polvorosa nas caixas de comentários do dia-a-dia. Quando me refiro à discussão, ao debate e ao conflito, nem sequer estou a pensar em mesas redondas ou, muito à maneira portuguesa, palcos dois degraus acima do público. Redundam invariavelmente numa berraria insuportável com anedotário especificamente preparado para não adormecer as massas. Refiro-me à discussão silenciosa, ao debate tranquilo, ao conflito desinteressado que a leitura dos outros proporciona. Se me dá gozo ler o que outros escrevem sobre um livro é precisamente pelo prazer que retiro do diálogo que estabeleço com essas leituras, às quais oporei ou não a minha conforme me seja ou não proveitoso fazê-lo. É impossível ler quem escreva aos berros.

Tomemos de exemplo duas colectâneas de textos provenientes de revistas e jornais, curiosamente de dois autores contemporâneos há muito desaparecidos da imprensa periódica. Por que será? Paulo da Costa Domingos (n. 1953) reuniu em A Morte dos Outros (Companhia das Ilhas, Novembro de 2014) um conjunto de textos anteriormente publicados na revista LER. Datados do início da década de 1990, liga-os a índole apócrifa como pretexto para um diálogo com os mestres. Uma carta de Vincent Van Gogh a Théo, um texto a partir de dois fotogramas apócrifos de Andrei Tarkovskii, um evangelho segundo Jorge Luis Borges, uma carta de Mikhail Bakunine a Richard Wagner, aproximações às obras de Carlos de Oliveira e Vitorino Nemésio, não sendo textos de crítica literária são exercícios onde a dimensão crítica surge implícita no gesto de apropriação literário levado a cabo a partir de singulares leituras dos autores citados. As versões de oito poemas assinados por Arsenii Tarkovskii acentuam esse gesto, na medida em que ao se incluírem neste conjunto assumem uma noção da tradução enquanto falsificação do original. Respeitam, deste modo, o elo apócrifo que une todos os textos.

A pergunta é: seriam hoje possíveis na revista em causa? Encontramos uma resposta possível num parágrafo roubado a Fátima Maldonado (n. 1941), a qual iniciou do modo que se verá um texto dedicado ao livro O Pé Esquerdo (1999), de João Miguel Fernandes Jorge:

Cada vez é mais difícil escrever sobre o que outros escrevem, cada dia é mais complicado apartar do monturo alguma coisa que possa ter ainda préstimo. A literatura é agora, como ciclicamente aconteceu noutras épocas, hangar de desperdícios onde se acumulam dejectos, miudezas, ossos podres. Atrás da cerca espreitam trapeiros na mira de seleccionarem o mais facilmente transaccionável. Tudo o que a maioria aplaude ou rejeita conforme o condicionamento. Coisas fáceis que poderão apreender sem investimento, o que traduz nenhuma suspeita ou interrogação sobre a ordem do mundo. Mensagens sempre mais pobres diluindo-se em fórmulas sempre mais básicas. Cultura de semi-analfabetos para semi-analfabetos batendo nas costas em sinistro jogo de espelhos. A pouco e pouco a rasura irá completar-se na ausência de escolhos, tesoura gigante aparando as desordens do medianíssimo contorno. Evita-se assim o perigo de rupturas ou derramamentos e poder-se.á depositar, sem temor, a desminada cultura nas mãos de audiências quase já sem cérebro. Nada disto tem qualquer importância, é apenas uma das leis que varrem periodicamente campos de tristes contendas. Depois há-de voltar a calma, devagarinho a poeira descerá. Recomeçando tudo mais tarde com novos actores que apenas se distinguirão com alguma subtil maneira de representar.


Era assim à saída do século passado, depois entrámos no nosso século e tem sido sempre a descer. Resgate (Averno, Janeiro de 2017) é, até pelo título, um acto de resistência. O que aqui se resgata é uma forma de escrever sobre livros. Nos textos seleccionados, todos eles provenientes do Expresso, entre 1987 e 2000, quando aí Fátima Maldonado exerceu crítica literária, vislumbramos um tempo que nos é hoje estranho. Sem entrar nos pormenores de estilo devidamente identificados por Manuel de Freitas no prefácio, a estranheza ao ler estes textos, maioritariamente dedicados a obras escritas por mulheres, advém da constatação de várias impossibilidades. Uma delas é a da ampla informação biográfica quando os textos se dedicam a analisar obras de autores com biografia, isto é, autores com passado que mereça ser revelado e relacionado com a obra produzida. Outra impossibilidade à luz dos dias correntes é a da conexão de um texto com o tempo em que foi escrito, apontando leituras desse tempo, mais ou menos testemunhais, cada vez mais vagas «nesta casa do mundo onde à degradação se chama agora divertimento» (p. 113). É sem dúvida um desafio ingrato procurar uma visão do mundo na generalidade dos escritores que preenchem a actualidade, tão arredados que andam desse mesmo mundo dando à luz obras com uma periodicidade matemática. Talvez o cenário seja passageiro, talvez tenha vindo para ficar. Certo é que não está só cada vez mais difícil escrever sobre os outros, está igualmente cada vez mais difícil ler alguém que escreva inteligentemente sobre os outros.

quarta-feira, 8 de março de 2017

#94


A década de 1990 foi fértil em tendências rockeiras, destacando-se entre as mais diversificadas o rock de gajas. Riot Grrrl é o termo para a coisa. Guitarras distorcidas, atitude punk, letras directas e libertárias, amiúde com conteúdos políticos, ofereceram a bandas tais como L7 ou mesmo as Hole uma posição nesse contexto específico. Escritoras de canções como P J Harvey e Stina Nordenstam (numa vertente estética obviamente diferenciada), ou as The Raincoats, que vinham dos oitentas, aproveitaram para impor o seu ideário feminista. Mais recentemente, as Savages revigoraram o que outrora foi tendência e agora é posição. O modo de colocar a voz praticado por Jehnny Beth é claramente devedor de Siouxsie Sioux, uma outra diva do rock no feminino. Porém, as autoras de Silence Yourself (2013) desviam-se das coordenadas góticas com um rock descarnado, muito mais directo, apoiado numa forte secção rítmica e em guitarras eléctricas noisy quanto baste. Adore Life (2015) é um álbum perturbador que manda às ortigas o romantismo melancólico das canções sobre amores desfeitos, concentrando energias numa raiva que reivindica renovação face à constatação do insucesso. O tema continua a ser o das relações humanas, mas observado de uma perspectiva repulsiva que não aceita subjugações nem se mostra minimamente complacente na hora de perdoar. A imagem da capa denota uma postura revolucionária que as canções não desrespeitam. Antes pelo contrário:


BALADA TRISTE


Timidamente o sonho espreita.
Esqueço o meu corpo
e a dimensão de me encontrar
na terra estreita.

Estradas abertas, onde vão dar?
De madressilvas e rosas bravas
o cheiro ardente
são histórias verdes
que se entrelaçam
e sobrevoam
o sol poído de recordar.

Inverno, estio,
nova passagem outonal?
Já não importa.
Estradas, estradas
a algum lado hão-de levar
o meu cansaço.
Nem a dormir claro se mostra
o sonho.
Não me possui. Timidamente
é só aragem onde me deito.
Timidamente. Não há mais nada.


Maria da Graça Freire (n. 1911 - m. 1993), in Inventário (1980). «Uma poesia de anotações, sobretudo de durações de longos espaços interiores (entre a memória, a sensação do passado, a visão de um futuro). / Há, todavia, que salientar o tratamento de alguns temas ou vectores, porém timidamente explorados: é o caso de um desejo de aniquilamento pessoal (caro à poesia de Camilo Pessanha e de Natércia), presente em poemas como "Balada Triste", ou a procura de uma portugalidade universal, bem como a habitual intrusão do sobrenatural, o fascínio do distante, para citar talvez os mais conseguidos (Pedro Sena-Lino, in Só a Viagem Responde). «A leitura de "Inventário", onde reúne a sua obra poética, revela-se paradigma de uma escrita ao serviço de uma ideologia. (...) A ideologia que a motiva é uma ética que se apresenta intrinsecamente ligada à espiritualidade. Assim, encontramos nestes poemas uma linha retórica muito oscilante, não poucas vezes incoerente no ritmo pela presença aleatória da rima, no (des)esquilíbrio entre versos, frases e estrofes. O trabalho da palavra não foi desenvolvido com a intenção de dar vida ao texto e sim de consubstanciar um ideal, de exemplificar sem limite a sua esperança cosmológica» (Andreia Brites, ibidem).

MULHERES DO OESTE

Desde cedo habituados a discriminar o mundo sob uma perspectiva de género, vestimos os meninos de azul e as meninas de cor-de-rosa. O comércio organiza-se em função destas discriminações, orientando-se para o público com espaços diferenciados. Temos lojas de roupa para homem e lojas de roupa para mulher, os barbeiros e as cabeleireiras, a revista Maria e o jornal A Bola. A própria arte, lugar de fronteiras esbatidas, parece por vezes ser desenvolvida em vista de públicos definidos a partir de estereótipos de género. Os livros, que na minha pobre cabeça serão sempre como os anjos (não têm sexo), também sofrem de estratificações similares. Por isso as meninas começam por ler As Gémeas e os rapazes preferem Feras & Heróis. O western é um género cinematográfico vitimado pelos estigmas, embora em muitos dos seus melhores exemplares encontremos mulheres no centro das atenções. Eis alguns exemplos, com link para textos oferecidos a cada um dos filmes mencionados:


Marlene Dietrich (Frenchy)
in Destry Rides Again / A Cidade Turbulenta (1939)


Ella Raines (Arleta 'Arly' Harolday)
in Tall in the Saddle / A Indomável (1944)


Jennifer Jones (Pearl Chavez)
in Duel in the Sun / Duelo ao Sol (1946)


Anne Baxter (Constance Mae 'Mike')
in Yellow Sky / A Cidade Abandonada (1948)


Marie Windsor (Dakota Lil)
in Dakota Lil / O Buraco na Parede (1950)


Barbara Stanwyck (Vance Jeffords)
in The Furies / Almas em Fúria (1950)


Marlene Dietrich (Altar Keane)
in Rancho Notorious / O Rancho das Paixões (1952)


Marilyn Monroe (Kay Weston)
in River of No Return / Rio Sem Regresso (1954)


Joan Crawford (Vienna) e Mercedes McCambridge (Emma Small)
in Johnny Guitar (1954)


Jo Van Fleet (Ma McDade)
in The King and Four Queens / Um Rei e Quatro Rainhas (1956)


Barbara Stanwck (Jessica Drummond)
in Forty Guns / Quarenta Cavaleiros (1957)


Debbie Reynolds (Lilith Prescott) e Carroll Baker (Eve Prescott)
in How the West Was Won / A Conquista do Oeste (1962)


Kim Darby (Mattie Ross)
in True Grit / A Velha Raposa (1969)


Jean Seberg (Elizabeth)
in Paint Your Wagon / Os Maridos de Elizabeth (1969)


Julie Christie (Constance Miller)
in McCabe & Mrs. Miller / A Noite Fez-se Para Amar (1971)


Hilary Swank (Mary Bee Cuddy)
in The Homesman / Uma Dívida de Honra (2014)


Jennifer Jason Leigh (Daisy Domergue)
in The Hateful Eight / Os Oito Odiados (2015)

terça-feira, 7 de março de 2017

URGENTE

Há qualquer coisa de semelhante entre as chamadas de urgência à Assembleia da República e uma ida às urgências no Hospital. Um tipo espera, espera, espera, espera ansiosamente. No fim, despede-se com uma prescrição de ben-u-ron. 

CLIMAS


Toda a tarde choveu e anoiteceu...

A vontade que tive de sair
pelo mundo fora... a passear... devagar...
ao sol, com força e alegria,
toda, tudo se amoleceu e se afundou...

Quando, em volta,
a sombra começou a esconder-me e a disfarçar,
fui só fechar a janela
para adormecer
ao som da chuva na vidraça...


Branquinho da Fonseca (n. 1905 - m. 1974), in Presença, n.º 22, 1929. Ao lado de José Régio, Gaspar Simões, Edmundo de Bettencourt, Fausto José e António de Navarro, foi um dos fundadores da revista Presença, vindo a revelar «(...) o seu virtuosismo de expressão verbal em Poemas (1926) e Mar Coalhado (1932) e o de efabulação em diversas tentativas dramáticas, mas a sua melhor obra reside nas colecções de contos, onde inicialmente se sentia o magistério de Raul Brandão» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa). «Romancista, contista, dramaturgo, poeta, Branquinho da Fonseca (durante algum tempo conhecido pelo pseudónimo de António Madeira) tem-se afirmado nesta última qualidade como lírico do mar e da serra, cheio de imaginação que não lhe ofusca a lucidez do espírito» (Cabral do Nascimento, Líricas Portuguesas).

DO RIDÍCULO

Por sermos, efectivamente, uma universidade onde a liberdade de pensamento e o pensamento crítico são promovidos, não compactuamos com eventos apresentados como debates sob a égide de propaganda ideológica dissimulada de cariz inconstitucional”.



Expliquem-me os visados em lógica aristotélica o que é que não bate certo no raciocínio supracitado. Vem isto a propósito de uma conferência cancelada. Jaime Nogueira Pinto, que gosto de ouvir à conversa com Ruben de Carvalho na Antena 1, ia à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa falar sobre “Populismo ou Democracia: O Brexit, Trump e Le Pen”. Ia, mas já não vai. A conferência foi cancelada por se temerem atentados como os de Paris, a acreditar nas comparações que Eduardo Pitta aqui alude. É uma pena que assim seja. Depois das ameaças alentejanas a Henrique Raposo, a esquerda radical aponta flechas a Nogueira Pinto. Como por cá é só fogaça, os atentados ficam sempre pelo tesão de mijo. E a direita a entreter-se com chuvas douradas. Cancelem-se os cancelamentos, por favor. Precisamos de mais sangue e de menos mijo.

Adenda: e sobre este assunto, Ricardo António Alves diz o que merece ser dito: aqui.

O POLACO

A poucos dias de se comemorar os direitos cívicos da mulher (é isso, não é?), o eurodeputado polaco Janusz Korwin-Mikke proferiu algumas verdades em parlamento e toda a gente lhe caiu em cima. Bem, não foi toda a gente. E talvez não tenha sido pelas verdades proferidas. De facto, como afirmou Korwin-Mikke as mulheres são, em geral e segundo médias cientificamente provadas, mais pequenas do que os homens. Talvez seja por isso que tendam a calçar saltos altos. Também são mais fracas, isto é, têm menos força. Os homens são por regra mais musculados, mais fortes, mais brutamontes. Portanto, são já duas verdades. Por outro lado, as mulheres têm mais peito e mais anca. O que faz delas seres verdadeiramente apetecíveis. Mas isso não vem ao caso. O problema está em que o alto e possante Janusz também disse que as mulheres são menos inteligentes do que os homens. Isto já não é provável. Não me parece que exista uma inteligência mensurável separada do objecto a que se aplica. As mulheres serão tão inteligentes quanto os homens, embora possam ter aspectos da inteligência mais ou menos apurados do que o género oposto. Por exemplo, as mulheres são deveras inteligentes a aturar eurodeputados grosseiros. Colocando a questão da inteligência de lado, o maior problema nas declarações de Janusz Korwin-Mikke reside na conclusão. Ora, o eurodeputado polaco deduz que as mulheres devam ganhar menos do que os homens por serem mais baixas e mais fracas. E se for um homem muito fraquinho e baixote? E os anões? E os magricelas? Se o critério para um vencimento for a força e a altura, deverá aquilo que os europeus pagam a um grunho como Janusz Korwin-Mikke servir de padrão para a distribuição da riqueza internacional? Qual será a altura do polaco? Tem músculo? Inteligência já percebemos que tem pouca, mas essa, como se verifica, é cada vez menos critério para o que quer que seja.

segunda-feira, 6 de março de 2017

SALVADOR

Há muito que não dedicava grama de entusiasmo ao Festival da Canção. Este ano, um novo modelo levou-me a ficar atento. Gosto de canções, gostei de algumas das que ouvi. Uma das que ficou para trás era das melhores, assinada por David Santos (Noiserv) e interpretada por uma tal de Inês Sousa. Maravilha. Remeteu-me para o universo da Hanne Hukkelberg. Mas só para conhecer o jovem Salvador Sobral já valeu a pena. Que cantor do caralho! A Luísa Sobral está de parabéns, porque escreveu uma grande canção. Podia ser cantada pela voz cavernosa do Tom Waits na fase Heartattack and Vine, mas a delicadeza do Salvador oferece-lhe um tom indescritível. Lembrei-me do João Gilberto e do Chet Baker e do Caetano enquanto o ouvia, arrepiado como uma galinha depenada e com as emoções a saírem-me dos olhos. É uma interpretação exemplar em qualquer parte do mundo:



P.S.: o aspecto desarranjado do intérprete fica mesmo bem a esta canção. Pode não ter sido de propósito, pode ser natural, mas é de uma felicidade incrível. É impor a simplicidade no circo espampanante das vaidades.  

RIR

Em Portugal as pessoas não riem com as outras, as pessoas riem das outras numa expressão viciosa de constante avilte. 

Marina Tadeu, aqui

domingo, 5 de março de 2017

O PIANISTA


Podia ser hoje numa cidade síria, mas é apenas o plano de um filme sobre a ocupação de Varsóvia durante a II Grande Guerra. Talvez um dia venhamos a saber de Władysław Szpilman sírios, também por lá devem existir sobreviventes com talentos inimitáveis. Revejo O Pianista com uma dúvida acerca da passividade judaica, dúvida ingénua a merecer logo recriminações. A passividade explica-se pelo respeito à lei. É irónico que tenha a lei surgido para proteger os fracos, acabando por se transformar numa arma que justifica a barbárie na consciência dos fortes. Já sabemos onde pode levar-nos a lei, a ordem, a regra, a norma, o dever, o respeito cego, a reverência, a absoluta adoração da palavra. A história admirável de Szpilman é de sobrevivência, antes de mais. Mas é também a de uma enorme e corajosa capacidade de fintar a lei, de não lhe ser subserviente questionando-a, exercendo sobre ela o teste moral da crítica. Tanto o pianista como o oficial alemão que o auxiliou, foram verdadeiramente humanos quando desobedeceram, quando entenderam haver na organização social então em vigor uma terrível atmosfera de insanidade. É provável que a música os tenha aproximado no que em cada um havia de essencialmente bondoso, a música tem esse poder transformador como nenhuma outra arte porque nos abstrai da palavra. A sua linguagem é outra, as suas regras são outras, a música é a palavra descansando do sentido. E só a isso devíamos chamar divino. Julgo que se em vez de falarmos cantássemos, se comunicássemos a cantar como os pássaros, voaríamos mais e rastejaríamos menos. Infelizmente, perco a esperança sempre que vejo um musical. Se comunicássemos a cantar seríamos ainda mais ridículos. Melhor permanecer calado, a saborear de olhos fechados a geleia oferecida pelo inimigo. 

5 ANOS

A gente desconfia sempre dos piratas até nos transformarmos em pernas de pau, depois abrimos os veios e deixamos escorrer pelas folhas o alimento da sede. O sono vai-se-nos e perguntamos: queres ser? 

sexta-feira, 3 de março de 2017

THE LEFT HANDED GUN (1958)



São poucos os filmes realizados por Arthur Penn (n. 1922 – m. 2010), apesar das 3 nomeações para Oscar de melhor realizador e da admiração declarada de vários cineastas europeus (Nouvelle Vague incluída). Estreou-se no cinema com um western admirável, catapultando para o estrelato o então jovem Paul Newman. O papel de Billy the Kid assenta-lhe que nem uma luva, não sendo improvável certa influência exercida sobre Kris Kristofferson no filme que Sam Peckinpah (n. 1926 – m. 1984) dedicou à mesma personagem. É certo que William Bonney, dito Billy the Kid, tem um lugar próprio na história do western, sendo inúmeras as abordagens cinematográficas a tal figura. Arthur Penn oferece-lhe uma dimensão psicológica nunca antes vista, baseando-se numa peça de Gore Vidal para televisão. 
O Billy the Kid que encontramos em The Left Handed Gun/Vício de Matar (1958) é um jovem desamparado, perseguido pela tragédia familiar e impelido para o crime por um desejo ambivalente de vingar aqueles que ama e que o amam. O primeiro plano é sintomático da reconfiguração levada a cabo ao longo do filme. Paul Newman surge só no meio do nada, carregando às costas a sela de um cavalo doente, ele próprio débil e fragilizado. Esta debilidade não desaparecerá no decorrer da acção, transformando-se numa febre que impele a personagem para uma zona de conflito pautada por diversas perturbações emocionais. Nunca sabemos muito bem até que ponto este Billy the Kid vive no mundo dos homens, apesar da inegável lucidez e de um pensamento tão rápido como a mão que saca o revólver. 
Adoptado por um criador de gado de trato nobre, gera com este uma empatia que poderíamos dizer de tipo familiar. Numa cena em que John Tunstall, o criador de gado a quem chamam “O Inglês”, ensina William Bonney a ler, uma citação dos Coríntios desperta a curiosidade de Kid. O vidro fosco da citação é como a personalidade deste, não lhe permite observar a realidade sem deformações. Todos os seus gestos, todas as acções que leva a cabo, mesmo quando parecem motivadas por um amor ao próximo, aparentam uma descompensação que talvez tenha na sua origem certa incapacidade para ver o mundo sem ser através de um vidro fosco. 
Billy the Kid ouve-se a si próprio, não ouve mais ninguém. Nisto, é a antítese de Pat Garrett. Olhar para os dois enquanto personificações da lei e do crime, da ordem e da desordem, da norma e da loucura, é muito menos interessante do que deixarmo-nos fascinar pelo que em William Bonney podemos descobrir de extraordinariamente humano. Hoje diríamos que foi uma vítima das circunstâncias, colocando-lhe o rótulo dos comportamentos desviantes. Um jovem transviado. Mas fará algum sentido olhá-lo desse modo? Repare-se no título original – The Left Handed Gun – que em si mesmo enuncia a singularidade da personagem ao atribuir-lhe uma anomalia muito mais estigmatizante à época do que nos tempos que correm. É como se nele o destino tivesse já traçado a marca da excepcionalidade. Doença? Talvez. Ou simplesmente: corpo indómito. 
Há nele um deslumbramento do tipo que reservamos a tudo quanto nos aparece desregrado, selvagem, fora dos eixos, bravio, a tudo quanto provoca espanto e nos ofende com o chicote da liberdade. Pat Garrett casa-se e constitui família, Kid mantém um caso com a mulher do homem que lhe dá abrigo. Não o faz por desprezo, mas porque nele a normalidade é tão sufocante como o calor no deserto. Homens assim carregam apenas a culpa de terem que se carregar a si próprios. Vivem com paixão sem chegarem a saber o que é o amor. E essa é talvez a maior ofensa que nos fazem. Por isso os condenamos, porque nos é insuportável admiti-los entre nós, os que amamos por dever, os que amamos por já não nos ser possível qualquer forma de paixão. Como podiam os realizadores da Nouvelle Vague ser indiferentes a um filme assim?