quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

#92


Tinha 12 anos quando José Afonso faleceu. Lá por casa não havia discos do Zeca, como todos quantos o ouviam se lhe referiam. O meu pai cantava amiúde uma versão de Vampiros com letra alterada. Reminiscências da Guerra do Ultramar. Já no tempo dos CDs, chegou-me às mãos uma compilação de baladas e fados de Coimbra cantados por José Afonso. Vampiros era, estranhamente, uma das canções incluídas. Não me parecia balada nem fado de Coimbra. Mas era possível que fosse. O célebre concerto de 1983, que mais tarde vim a adquirir em CD duplo, abriu porém as portas para o universo de José Afonso. Canções de protesto, canções líricas, são meros conceitos como baladas ou fados de Coimbra. Já antes disse que me soam sempre bem, mesmo quando são mal interpretadas. Basta ouvir os Filhos da Madrugada (1994). Tenho pela música de José Afonso uma devoção que dedico a poucas coisas, pelo que me é impossível escolher um álbum. Mantenho o que escrevi há cinco anos, adiantando que considero Era um Redondo Vocábulo a beleza transformada em canção, a canção de uma vida. Por razões bem diversas, o álbum Com as Minhas Tamanquinhas (1976) acabou por me marcar pelo que nele se mistura de espírito revolucionário com desilusão. A participação de Quim Barreiros é o elemento caricato, numa música de tal forma inclusiva e rica que percorria não apenas os sons nacionais como os de toda a lusofonia. Por exemplo, na canção que ofereceu título ao álbum é nítida a aproximação entre África e o Brasil. Com as minhas tamanquinhas não tem tempo, apesar dos temas situados e das alusões históricas explícitas. Trespassa a situação com inteligência, falando do que a todos importa. Ora vamos lá descansar:


40 ANOS-LUZ

O post abaixo é deste mundo, procura entender a relação entre 1,4 milhões de crianças subnutridas, à beira de morrerem com fome, e 1,4 milhões ou mais de páginas vindas a lume com todo o tipo de dietas, algumas inimagináveis, praticadas num mundo que teimamos em dizer civilizado. Também me fascinam as possibilidades de vida extraterrestre, comovo-me com a descoberta de novos planetas, fico a sonhar com os sete novos irmãos a 40 anos-luz de distância. Espero, porém, e muito honestamente, que em nenhum desses planetas existam 1,4 milhões de crianças à beira de morrerem com fome. Espero que só neste mundo, o meu, sejam possíveis tais contrastes e tamanha insensibilidade. Não se trata de demagogia esperar que os homens olhem um pouco mais para o que têm à frente do nariz, não pode ninguém ser acusado de demagogia por esperar que com tantas práticas saudáveis ao nosso alcance, com tantas dietas para todos os gostos, haja pelo menos uma que livre de morrerem com fome 1,4 milhões de crianças neste planeta a que demos o nome de Terra. Às vezes acho que isto não é bem a Terra, isto deve ser o fundo de qualquer coisa a que por engano, a que por ilusão, demos o nome de Terra. 1,4 milhões de crianças a 40 anos-luz do nosso interesse e das nossas preocupações. E nem um nutricionista capaz de descobrir a dieta mágica para tanta fome, para tanta morte. Porquê? 

1,4 MILHÕES


Yoga, reiki, feng shui, mindfulness, coaching, parenting, ho’oponopono, Iémen, Sudão, Nigéria, Somália. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"RESPEITAR A VERDADE"

(...)

É bem possível que não valha hoje a pena discutir a veracidade de Fátima, como não vale a pena discutir a existência de Jesus enquanto figura histórica, pela falta de elementos, pela natureza do debate, que será sempre inconclusivo, pois é muito difícil provar formalmente que algo não existiu e há uma grande predisposição para acreditar em milagres, e ainda pelas enormes construções - um culto e uma religião - que se ergueram a partir de alegados factos. O cristianismo há muitos séculos e muito provavelmente também já Fátima têm uma existência que não depende de provas materiais.  Nesse sentido, sim, vale a pena avançar para outros planos, mas sem que o arquivamento do debate sobre a veracidade do milagre venha acompanhado por uma série de argumentos ofuscadores e seja interpretado como uma desistência por parte dos cépticos. Um ateu não praticante pode aceitar o arquivamento e ser sensível à sofisticação teológica de Ratzinger e Bento Domingues, que privilegiam a "perspectiva do vidente" e enquadram as visões como estando sujeitas às “possibilidades e limitações do sujeito que as apreende”, mas só por ingenuidade não veria tais interpretações como uma forma de legitimar testemunhos.

(...)
Eremita, aqui.

& etc


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A VIDA EM TRÊS SONETOS

QUE ELA VOLTASSE. DIZ AO RAPAZINHO
Que lhe sinto a falta, ah, espada tão tíbia
Que ao rádio obriga, a tez diz-lhe tão nívea
Que lhe guardo p'ra sempre o retratinho.
Que já morreu eu sei o que vivia;
Que só por ter morrido lhe só espero
Que a vida bem lhe vá (tão mal lhe quero).
Que amei, diz-lhe, sim, mais do que devia,
Que eu sei o tarde que é diz-lhe hoje cedo,
Que só agora a quero, à coisa que era,
Que antes não sabia - ah se o soubera! -
Que é póstuma a paixão e prévio o medo.
   Que a vida vem da esquina, é um quiosque,
   Que triste que é, que vã, que asco, que, que...

***

FALEMOS POIS SOBRE ISSO TU E EU.
Que razões aduzir ao concluído?
E entendo, se me deste por vencido
Que mais há a perder p'ra quem perdeu?
Ninguém perdeu, concluis, ganhou-se a dor.
Arbitras e pelejas ao que vejo,
E neste pugilato diz-me o pejo
Que a desistência assiste ao vencedor.
De igual doença um dia enfermávamos
E igual com seu igual iguais curávamos
Até que em seu contrário se derroga
E agora seu contrário é sua droga.
   Contrárias costas peitos gémeos curam
   Até que os pleitos cessem p'lo que duram.

***

NÃO SEI, DE TANTO LADO VEM O APELO,
Esta urgência de estar em toda a parte
Vem das cidades, chama-me, ouço: Parte
E eu queria, mas não hei-de, não o anelo.
Sou lento, sou lentura, sou um gelo,
Dilato-me por mim, é tudo, arte
De Ártemis que não soube, quis, caçar-te
E em natureza morta pôs desvelo.
Fico-me aqui co'a minha própria pena.
É pena, tanta pena e não me voo,
É triste, tanta tinta e não me escrevo,
Fico-me escravo aqui do meu enjoo.
   Mais tarde quando ouvires a cantilena
   Destrói a carta que eu por mim não devo.


Daniel Jonas, in Sonótono, Edições Cotovia, Maio de 2007.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

STAGECOACH (1966)

Com uma vastíssima carreira em variadíssimas áreas associadas ao cinema, Gordon Douglas (n. 1907 – m. 1993) assinou praticamente uma centena de filmes em múltiplos géneros. O western não foi excepção. Jean Tulard coloca-o mesmo entre os melhores neste domínio, considerando Rio Conchos (1964) uma obra-prima e referindo-se de forma assaz entusiástica a filmes tais como Fort Dobbs (1958), Yellowstone Kelly/O Gigante do Oeste (1959) e Gold of the Seven Saints (1961), todos protagonizados pelo actor Clint Walker. A pedra no sapato é Stagecoach/Cavalgada de Paixões (1966), remake de um dos mais icónicos filmes de John Ford e, para muitos, o western dos westerns
O original Stagecoach/Cavalgada Heróica (1939) chegou a arrecadar dois Oscars, colocando-se numa posição que dificilmente livraria da heresia qualquer tentativa de reprodução. Douglas empenhou-se em desconstruir a intensidade dramática do filme de Ford, oferecendo à sua versão uma faceta cómica que tem na interpretação de Bing Crosby um dos pontos de interesse. A paisagem é desinteressante, as cenas de perseguição e conflito perdem fulgor, mas o filme acaba por não ser tão mau quanto o pintam graças a esse elemento redentor do riso que humaniza personagens deveras teatrais num ambiente hostil e desconfortável. 
A comandar a diligência encontramos um Van Heflin mais velho e pesado do que aquele que tanto havíamos apreciado em Wings of the Hawk/As Asas do Gavião (1953), mas no interior da carruagem mantém-se uma vivacidade social capaz de condensar num pequeno espaço as divergências de uma comunidade. Ann-Margret é a prostituta excomungada, Red Buttons o ingénuo vendedor ambulante, Mike Connors o descaminhado filho de boas famílias, Alex Cord o fora-da-lei de bom coração, Bing Crosby o médico alcoólico de uma sociedade falida, Robert Cummings o banqueiro vigarista e Stefanie Powers a dedicada mulher de um militar. A cada uma destas personagens podíamos fazer corresponder cada um dos sete pecados mortais, não se desse o caso de ser muito mais interessante olhar para elas enquanto partes integrantes de uma comunidade a desintegrar-se. 
O foco não é, deste modo, colocado nas personalidades individuais, mas sim nas formas de interacção que aproximam e afastam cada um dos elementos desta diligência à beira do abismo. A caminho de Cheyenne, os segredos que cada um carrega tornam-se irrelevantes face à necessidade de conjugar esforços perante o fogo cruzado do inimigo. 
Já na década de 1980, Ted Post, o de Hang ‘Em High (1968), também se aventurou sem sucesso numa reconstrução do clássico de Ford. O problema é nada ser possível melhorar numa obra já de si perfeita. Ainda assim, o filme de Doulgas tem o mérito da heresia. Muito dado a remakes, o western é um género onde quase sempre uma excessiva reverência ao original atraiçoa as expectativas. Artifícios tecnológicos novos não são quanto basta para a reinvenção de um clássico. Gordon Douglas não só foi parcimonioso no uso de tais artifícios como parece desinteressado de copiar a aura trágica do original, recolorindo com tons de comédia cenas que roubam tensão ao todo mas descomprimem cada uma das personagens em acção. O resultado é claramente popular, numa tentativa de reaproximar das massas um género que havia perdido fôlego nos últimos anos e quase parecia estar morto na década de 1960. 
Compreende-se, pois, que tenha havido quem considerasse desastrosos tais esforços, mas passados cinquenta anos a cavalgada de paixões guiada por Van Heflin tem um outro impacto. Tornou-se um objecto de colecção que nos permite pensar como é que ao longo de 100 anos foi possível ir realizando “filmes de cowboys” sem que o género se esgotasse nos seus inevitáveis clichés.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

#91


Quando Will Toledo (n. 1992) nasceu, estava eu a caminho da universidade. Entusiasta do rock, levava na mochila boas razões para ser feliz. A corrente grunge, surgida lá nas bandas de Seattle, onde outrora Jimi Hendrix havia visto a luz do dia, garantia a sobrevivência das guitarras numa era dominada por sintetizadores. Bandas como os Nirvana ou os Pearl Jam dominavam o panorama, desbravando caminho para um recrudescimento do rock que em breve teria no álbum de estreia dos Radiohead fortes motivos para acreditar ser possível não esvaziar de conteúdo emocional a música de massas. Foi precisamente em 1992 que os Sonic Youth afirmaram a sua vertente de resistência com Dirty. Vinham dos anos 80. Will Toledo há-de ter nascido ao som de 100%. Já na segunda metade da década de 1990, fomos apanhados de surpresa com o potencial criativo de um Stephen Jones. A notícia era a concepção de inúmeras canções num período reduzidíssimo, fazendo uso de recursos escassos tais como um gravador de quatro pistas no conforto do lar. Toledo assimilou a lição. Conta-se que concebeu 11 álbuns caseiros em apenas dois anos, utilizando um computador e as suas virtudes, gravando todos os instrumentos, escrevendo, cantando. A atitude do it yourself, que tanto tem contribuído para a sobrevivência das bandas de guitarras, é a que mais se destaca na carreira deste jovem oriundo de Leesburg, Virginia. Teens of Denial (2016) pode ser um segundo álbum para a famigerada Matador, porém marca um ponto de viragem na forma de conceber o todo. Percebemos haver ao longo dos 12 temas uma história para contar: um pós-adolescente problemático no centro de uma narrativa pautada por depressões, bebedeiras, solipsismo, referências a Van Gogh, Beach Boys, William Onyeabor, com uma linguagem desbragada onde o consumo de drogas se alia a pensamentos autodestrutivos que transformam uma guitarra catártica no melhor dos medicamentos. Teens of Denial smells like teen spirit na era da pós-verdade, da pós-pós-modernidade, do pós-humano, de um mundo graduado pela psicose do sucesso e delimitado por tecnocratas falidos na sua humanidade. É a entrada à bruta na vida adulta. Escutem esta:



CÃO CELESTE #10


Cão Celeste #10
Direcção de Inês Dias e Manuel de Freitas
Coordenação gráfica de Luís Henriques
Desenho da capa: Daniela Gomes


Lançamento, pp. 125-127.

UMA FOTOGRAFIA


Em tempos não tão extintos como tenderíamos a julgar, Hans Holbein foi criticado por ter oferecido a Cristo o realismo de um cadáver, a Veronese censuraram a satisfação patenteada numa recriação da Última Ceia e Doménikos Theotokópoulos viu-se excomungado por pintar santos pelos quais não apetecia rezar. Ao autor da fotografia recentemente premiada pelo World Press Photo caberá uma outra forma de excomunhão, entre pares e massas indignadas pela suposta premiação de um momento de celebração terrorista. Remete-me esta imagem para uma outra, igualmente representativa do terrorismo tal como hoje o vivenciamos. Refiro-me à célebre fotografia que ficou conhecida como The Falling Man, captada aquando dos ataques ao World Trade Center em 2001. Há, no entanto, uma diferença substancial entre essa imagem e a fotografia recentemente premiada: a identidade da vítima. Na fotografia de Burhan Ozbilici sabemos quem é a vítima em concreto, sabemos que se trata de Andrey Karlov, embaixador russo na Turquia assassinado numa galaria de arte durante a inauguração de uma exposição. Conhecemos também a identidade do assassino, ao passo que na imagem de Richard Drew a identidade dos intervenientes é desconhecida, o momento guarda um grau de abstracção que nos distancia da realidade. A fotografia de Ozbilici produz um efeito perverso, aproxima-nos da realidade demonstrando-nos o imponderável. Assassination in Turkey parece uma encenação, mas não é. As figuras podiam ser bonecos de cera, mas não são. O enquadramento da galeria oferece à cena central um ambiente dúbio, inquietante, desafiador. Mas é tudo claro, objectivo, patente. Em era de pós-verdade, esta fotografia questiona-nos sobre o autêntico, mostra-nos quão absurda é a realidade. Nada há no aspecto do homem armado que nos faça desconfiar dele, nada há que nos leve a supor tratar-se de um terrorista. O que há de comum entre todas as obras aqui aludidas é a capacidade de nos interpelarem acerca dos modos de representação da realidade, da relação que estabelecemos entre o olhar e o objecto de observação. Cristo não estava à frente de Holbein quando ele o pintou. Mas como pintá-lo senão representando um cadáver? Seria possível uma Última Ceia sem o contentamento que Veronese lhe associou? Não terá El Greco sido o mais realista possível ao oferecer à santidade uma dimensão feérica? Tanto The Falling Man como Assassination in Turkey representam o terrorismo de formas diversas, mas em ambos os casos conseguimos entender a congruência dos modos de representação. A primeira fotografia é uma imagem de espanto, a segunda surge já num tempo em que ao espanto foi usurpado todo o potencial exegético. É a fotografia certa num tempo em que entre a verdade e a mentira se esbateram os filtros. Acusá-la de celebrar o terrorismo equivale a nada. Melhor, vale tanto quanto acusar Doménikos Theotokópoulos de ter pintado santos que não estimulam a oração. 

TROCAR OS MAPAS


EMPÉDOCLES POR BRECHT


A SANDÁLIA DE EMPÉDOCLES

1

Quando Empédocles de Agrigento
Ganhara a veneração dos seus concidadãos juntamente
Com os achaques da velhice,
Resolveu morrer. Mas, como ele
Amava alguns, de quem por sua vez era amado,
Não desejava definhar em frente deles, mas antes
Desfazer-se em nada.
Convidou-os para uma excursão, não a todos,
Omitiu um ou outro, para assim na escolha
E na empresa comum
Misturar o acaso.
Escalaram o Etna.
A canseira da subida
Trouxe consigo o silêncio. Ninguém deu pela falta
De palavras sábias. No cimo
Tomaram fôlego, pra recuperar o pulso costumado,
Ocupados com as vistas, contentes de chegarem à meta.
Sem que o notassem, o Mestre abandonou-os.
Quando de novo começaram a falar, ainda não
Notaram nada, apenas mais tarde
Deram por falta aqui e além duma palavra, e olharam em volta em busca dele.
Mas ele ultrapassara há muito já o cume do monte,
Sem grandes pressas. Uma vez
Parou, e ouviu
Como ao longe, lá para trás do cume,
A conversa recomeçava. As palavras isoladas
Já se não compreendiam: o morrer começara.
Em pé junto à cratera,
De face voltada, sem querer saber mais daquilo
Que já lhe não dizia respeito, o velho inclinou-se devagar,
Desatou com cuidado a sandália dum dos pés e atirou-a sorrindo
Pra o lado a uns passos de distância, de forma a não ser achada
Depressa de mais, mas ainda a tempo, isto é:
Antes de apodrecer. Só então
Foi para a cratera. Quando os seus amigos
Sem ele e buscando-o ainda, tinham voltado,
Começou gradualmente, através das semanas próximas e dos meses,
A sua morte, como ele tinha desejado. Havia ainda alguns
Que esperavam por ele, enquanto outros já
O davam por morto. Inda alguns retinham
As suas perguntas até ao seu regresso, enquanto outros
Buscavam eles mesmos a solução. Devagar, como as nuvens
Se afastam no céu, imutáveis, apenas mais pequenas
E mais recuadas, quando se não olha para elas, mais
Longínquas quando de novo se procuram, talvez já confundidas
Com outras, assim ele se afastava dos costumes deles, costumadamente.
Então levantou-se um boato:
Ele não morreu, porque não era mortal — dizia-se.
O mistério envolvia-o. Considerava-se possível
Que além do terreno houvesse outra coisa, que o curso do humano
Se modificasse para o indivíduo: tal o falatório que correu.
Mas nesta altura achou-se a sandália, de couro,
Tangível, usada, terrena! Deixada para aqueles
Que, quando não vêem, começam logo a acreditar.
O fim dos seus dias
Foi de novo natural. Morrera como qualquer outro.


Outros porém descrevem o caso
De outra maneira: Este Empédocles
Tinha realmente tentado assegurar-se honras divinas
E por uma evasão misteriosa, por uma astuta
Queda no Etna sem testemunhas, quisera dar fundamento
À lenda de que não era de condição humana, nem sujeito
Às leis da dissolução. E nisto,
Eis que a sandália lhe pregara a partida de vir cair em mãos humanas.
(Alguns dizem até que a própria cratera, irritada
Por tal procedimento, tinha simplesmente cuspido
A sandália do degenerado.) Mas nós antes julgamos:
Se ele na verdade não descalçou a sandália, então antes se esquecera
Da nossa estupidez e não pensara quão depressa
Queremos fazer ainda mais escuro o que já é escuro e preferimos
Crer no absurdo a buscar uma razão suficiente. E então o monte —
Aliás não irritado por tal descuido ou por crer
Que ele nos quisesse enganar para embolsar honras divinas
(Pois o monte não crê nada e não se ocupa de nós)
Mas muito simplesmente a cuspir fogo como sempre — ter-nos-ia atirado
A sandália, e assim os discípulos —
Ocupados já a farejar um grande mistério,
A desenvolver profunda metafísica, ocupadíssimos! — de repente
Inquietos, tomaram a sandália do Mestre nas mãos, a sandália tangível,
Usada, de couro, terrena.


Bertolt Brecht (n. 10 de Fevereiro de 1898, Augsburgo, Alemanha - 14 de Agosto de 1956, Berlim Leste) in Poemas e Canções, trad. Paulo Quintela, Livraria Almedina, Outubro de 1975, pp. 212-214.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

POLITICAMENTE COISO

Enquanto em Portugal as hordas se inquietam com o caso Centeno, último reduto de uma oposição ao Governo sem ponta por onde pegar (teriam várias, interessados estivessem em política a sério), o mundo não pára para folclores inconsequentes. Prova disso é a catrefada de discursos políticos vindos a lume em tudo o que é entrega de prémios. Não há galardoado que não aproveite o tempo de antena concedido para fazer gosto à língua, proferindo meia dúzia de banalidades contra Trump & C.ª Lda. Um dia far-se-á história desses momentos em que a intervenção política se veste de gala e sobe ao palco de Grammys, Baftas, etc.. Reconheçamos que nos tempos que correm um fenómeno como os Homens da Luta dariam em caricatura bafienta, com penteado desactualizado e indumentária claramente ultrapassada. A luta, agora, aproveita para exibir a mais alta-costura, os penteados saem das mãos dos mais refinados cabeleireiros, a luta anda de salto alto. O meu sexto-sentido vaticina que a breve trecho a própria futura miss mundo venha a substituir a tradicional mensagem de paz e amor universais por uma qualquer charada política anti-Trump, soletrada directamente da cábula com pernil ao léu e peitoril saliente. Os tempos são de universalismo e de multiculturalismo obrigatórios, tudo contra a segregação racial... desde que estejamos todos limpinhos, lavados e perfumados ao preço de diamantes de sangue e outras minudências afins. 

UM POEMA DE AMOR POR JACQUES ROUBAUD


Diálogo

Nunca pensei num poema como sendo um monólogo saído algures da parte de trás da minha boca ou da minha mão

Um poema coloca-se sempre nas condições de um diálogo virtual

A hipótese de um encontro   a hipótese de uma resposta, a hipótese de alguém

Mesmo na página: a resposta sugerida pela linha, os deslocamentos, os formatos

Alguma coisa vai sair   do silêncio, da pontuação, do branco   subir até mim

Alguém vivo, nomeado:   um poema de amor

Mesmo quando a omissão, a indirecção, a colocação pronominal tornam possível esta translação: que um leitor esteja diante da página, diante da voz do poema, como no momento em que ele nasce

Ou da sua recepção: leitor leitor   ou   leitor autor

Este poema dirige-se a ti e não encontrará ninguém


Jacques Roubaud (n. 5 de Dezembro de 1932, Caluire-et-Cuire, França), in Alguma Coisa Negro, trad. José Mário Silva, Edições Tinta-da-china, Fevereiro de 2017, p. 207.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

AMOR MELANCÓLICO

É inevitável que, ao dia de hoje, venhamos a ouvir Je t’aime moi non plus. No entanto, durante muitos anos a minha canção de amor preferida tinha nome de mulher: Martha, por Tom Waits. Passados os tempos do erotismo e da nostalgia, restam-nos o pragmatismo do amor trágico e o realismo do amor melancólico. Apesar de tudo, acho que é mais saudável viver sem ilusões. Se é que pode haver saúde no amor.



CITAÇÕES





Eurídice, a quem não salvou a incompetência de Orfeu; Orfeu, que não se salvou nem com a clemência de Hades; Inês, morta pelo amor de Pedro; Layla, assassinada de desgosto às mãos do louco Majnun; Sherazade, vítima de violência doméstica de Shariar; Ofélia, afogada pelo desprezo de Hamlet; Teresa e Mariana, que se perderam por Simão; Romeu, tombado por Julieta e Julieta, vítima do equívoco de Romeu; Anna Karenine, que por Vronsky ofereceu o pescoço ao peso do comboio; Medeia, a quem o abandono de Jasão transformou em assassina; Madame Butterfly, forçada ao haraquiri depois de ter sido atraiçoada por um americano da marinha cuja indignidade é condenada com o constante olvido do seu nome; Páris, duas gerações de guerreiros destruídos por uma rameira chamada Helena.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

[sic]

O meu namorado é obsessivo-compulsivo, está sempre a lavar as mãos e tem nojo de tudo. Quero oferecer-lhe um livro que o ajude a fazer limpezas

30 DIAS

Visitou-nos durante 30 exactos dias, dirigindo-se invariavelmente para a área dos dicionários onde repetia, sem excepções, o mesmo gesto de agarrar num livro amarelo e permanecer por cerca de uma hora a estudá-lo compenetradamente. Sempre lhe oferecemos ajuda, sempre a recusou. Era ele e o seu livro amarelo, durante 30 exactos dias. Até hoje. Aproximou-se do balcão e pediu o livro de reclamações. Há 30 dias que ando a estudar aquele livro com o título Aprenda Alemão em 30 dias, e nada, não percebo nada, não entendo nada, o livro é um logro, quero reclamar. Disse.

DIA DOS NAMORADOS

Era para escrever sobre o Dia dos Namorados, coito interrompido pela falta de. Nunca tive namorada, nunca namorei, casei-me logo e divorciei-me no mesmo dia e voltei a casar-me com a mulher que deixei viúva e aqui estamos unidos para a morte. Lembrei-me, no entanto, de quando éramos jovens e gostávamos de música e líamos o Blitz. Só permanece a melomania. Guerras entre metálicos e curistas, nós sem coutada a desesperarmos por algo que oferecesse sentido à depressão. Veio com o grunge, chegou com o trip-hop, acercou-se com a neo-country e congéneres. Coleccionei pilhas de edições do Blitz. Queimei tudo, não sei por quê. Inclinação doukhobor. Também perdi noites sintonizado na MTV, a ouvir a Polly Jean e os sons oriundos da Bélgica no caudal de dEUS. Já viram no que se transformou a MTV? Há dias, passei por lá e vi um tipo a explodir bombinhas de Carnaval enfiadas no cu. Lembrei-me dos putos no Nine ½ Weeks a tocar uns quaisquer primeiros acordes, salvo erro, de Beethoven. O mundo transformou-se numa piada de mau gosto que o Blitz não quis desrespeitar. De vez em quando recebo publicidade com teaseres de bradar aos céus: homem faz várias cirurgias plásticas para ficar parecido com Britney Spears, que música ouvem os consumidores de pornografia? Tudo isto tem que ver com música, claro, tal como as indumentárias escolhidas a dedo para exibir na cerimónia dos Grammy Awards. Tudo isto terá mais interesse, desconfio, do que a música produzida por aquela gente tão tecnicamente problemática. Ouvia ontem o Júlio Isidro e a Fátima Campos Ferreira dizerem, na RTP Memória, que hoje é preciso muita coragem para se ser jornalista. Desconfio que no passado tenha sido preciso coragem, hoje parece-me que um estômago resiliente é mais adequado às circunstâncias. Ia escrever sobre o dia dos namorados. Fica para a próxima. 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Clique na imagem para ver melhor:


Hans Holbein o Novo (1497-1543)

Holbein opted to represent Christ in all his humanity here: Christ's dead body is so realistic that it is said to have been painted from de corpse of a drowned merchant. It is hard to believe that Holbein could have inventend that cadaverous stiffness, that gaping mouth baring its teeth, that greenish hue, or even that half-closed eye.


SINUSITE

Para uns, Putin pretende destruir a União Europeia. Outros temem pela desintegração da Rússia. Há ainda aqueles para quem Trump é uma séria ameaça ao mundo, não por ser Trump, mas por estar nas mãos de Putin. Diz-se também que a Rússia anda a manipular as eleições em França. O próprio Assange estará ao serviço dos interesses russos. Deus meu, tanta gente tão informada. Eu só queria encontrar uma solução para a sinusite.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

ALGUMA COISA NEGRO

Jacques Roubaud (n. 1932) não é totalmente desconhecido dos leitores de poesia portugueses. Em 1993, alguns poemas do mais celebrado dos seus livros foram incluídos na antologia Sud-Express – Poesia Francesa de Hoje (Relógio D’Água) com tradução de Urbano Tavares Rodrigues. Quelque chose noir, originalmente publicado em 1986, aparece agora integralmente traduzido por José Mário Silva, e com prefácio de Gonçalo M. Tavares, na colecção de poesia da Tinta-da-China. Talvez não seja descabido recordarmos algumas palavras que lhe foram dedicadas na Introdução de Etienne Rabaté a Sud-Express: «Quelque chose noir, de que propomos aqui um excerto, representa o êxito de um raro equilíbrio entre a composição sábia e a perfeita lisibilidade, entre a discrição e a violência da emoção, entre o trabalho formal da página, ritmo e disposição gráfica, e a continuidade do livro onde cada pormenor tem o seu lugar».
A síntese de Rabaté é perfeita, desanuvia-nos a interpretação e permite-nos fruir o que há nesta poesia de mais intenso. A estrutura rígida não deve iludir-nos, sobretudo quando sabemos ter o autor estudado matemática. O aspecto geral da distribuição dos textos, em nove secções compostas por nove poemas, é devedor das premissas fundadoras de OuLiPo, a corrente literária a que Roubaud pertenceu ao lado de escritores como Georges Perec e Raymond Queneau. Defendia-se então a vantagem dos constrangimentos técnicos enquanto accionadores de uma libertação literária. Mas em boa verdade, os poemas deste livro encontram-se atravessados por uma fortíssima tensão existencial que pouco tem que ver com forma. Está antes na origem de toda a literatura, senão de toda a arte, e de algum modo pode representar-se colocando lado a lado as figuras do amor e da morte.
Alix Cleo Roubaud, nome próprio transformado em verso, é já uma substância indefinida que se mistura com toda a obra como a neblina a tomar conta do espaço. Faleceu aos 31 anos, deixando nas mãos do seu amante um conjunto vasto de fotografias a partir das quais muitos destes poemas foram escritos. O sentimento de perda redunda aqui numa experiência afásica de índole depressiva, estando latente - na forma como as palavras se articulam entre si no corredor dos versos - o esforço da lógica face ao desespero. O grande combate travado neste livro é, pois, entre a razão que subjaz à linguagem e a emoção que de algum modo sustenta a poesia. As imagens convocadas surgem afectadas pelo negrume, embora invoquem elas mesmas momentos de luz. Assim sendo, a mais paradoxal das relações aqui estabelecidas exerce-se entre o olhar da fotógrafa falecida e o que nesse olhar pode ser observado pelo olhar turvo do amante que a recorda, alucina, nega, desespera.   
É também este um percurso catártico, no decurso do qual o autor tenta compreender-se a si próprio organizando a sua arte: «Insisto em circunscrever o nada-tu com exactidão, esses dois pólos impossíveis, a andar à volta disso com estas frases novas a que chamo poemas» (137). Estamos num limbo interior desafiador da sintaxe e do sentido, provocador de paradoxos e de absurdos, num limbo onde o princípio da não-contradição perde validade por já não ser suficiente para delimitar os graus de manifestação de um conceito. A amada é e não é ao mesmo tempo, vive e não vive, a morte ainda não foi porque ele ainda é, ainda a sente dentro dele, a morte dela começou no corpo dela, mas ainda não acabou no corpo dele, portanto é ainda uma não-morte, uma morte inacabada. Parece um jogo, talvez seja um jogo.
Tendendo tudo para um nada precedido de dúvida, a poesia surge neste livro como a voz escutada a partir do gravador, o rosto contemplado a partir da fotografia. Não é o verdadeiro, não é o falso, é qualquer coisa de intermédio, crepuscular, cinzento, uma sombria luminosidade, a luz de uma sombra. Não por acaso, alguns dos mais belos poemas deste livro são altamente elípticos. O silêncio que se intromete entre as palavras captura o leitor para um labirinto de sentidos não referenciados, justamente sugeridos pela ausência, pela aproximação a um não-ser vivo, tão vivo quanto as coisas materiais. Uma aproximação pela meditação:

Meditação da indistinção, da heresia

a Jean Claude Milner

Há três suposições. a primeira, não é demais dar-lhes uma ordem, é que já não existe. não a nomearei.

Uma segunda suposição é a de que nada poderia ser dito.

Uma outra suposição, por fim, é que nada a partir de agora lhe é semelhante. esta suposição destitui tudo o que estabelecia uma ligação.

De algumas destas suposições deduzem-se, sem pertinência, proposições em cadeia.

De que nada a partir de agora lhe é semelhante concluiremos que só há dissemelhança e dessa conclusão deduziremos que não há qualquer relação, que nenhuma relação é definível.

Concluiremos pela improcedência.

Tudo se suspende no ponto em que surge uma dissemelhança. e a partir daí alguma coisa, mas alguma coisa negro.

Pela simples reiteração, já não existe, os todos desfazem-se no seu tecido abominável: a realidade.

Alguma coisa negro que se fecha. e se tranca. uma deposição pura, inacabada.



Jacques Roubaud, in Alguma Coisa Negro, tradução de José Mário Silva, Edições Tinta-da-china, Fevereiro de 2017.

NOÇÃO DE RIGOR

Para a SIC, rigor é: isto. Não me espanta tanto quanto anda espantado o Ferrão. Ferrou-se. O jornalismo da pós-verdade foi rigorosamente desmontado pelo Truques da Imprensa Portuguesa: aqui.

O "fact check" ao "fact check" que a SIC fez a João Ferreira

Ontem à noite, Bernardo Ferrão (sub-director da SIC e, nos tempos livres, líder da oposição), num espaço de comentário em que tinha a seu lado José Gomes Ferreira, referindo-se ao caso que envolve o Ministro das Finanças e a administração da Caixa, disse que “PCP e Bloco de Esquerda, noutras situações tão graves como esta, teriam pedido a cabeça [do ministro] e estavam na praça pública a exigir demissões e estão neste momento completamente caladinhos.”
A linguagem era totalmente imprópria para um jornalista, até para os padrões de um jornalista que toma o lugar de líder da oposição. Mas o problema não era só a linguagem. Como, uma hora depois, João Ferreira sublinhou, o PCP não pede demissões de ministros, nem agora, nem antes. Este critério do partido é inequívoco e do conhecimento de qualquer pessoa que acompanhe a política portuguesa há alguns anos. A acusação de Bernardo Ferrão não tinha fundamento e o eurodeputado desafiou a SIC a procurar imagens de arquivo em que uma demissão de um ministro tivesse sido pedida pelo seu partido.
Sentindo-se desafiada, a SIC lá fez o seu "fact check" e saiu com as imagens: “Não se resolve o problema à peça. Não se resolve o problema substituindo este ou aquele ministro.”, disse Jerónimo de Sousa. “Para lá de exigirmos a demissão do ministro da Educação nós temos vindo a exigir a demissão de todo o governo”, disse João Oliveira. “Os Senhores já encontraram razões para pedir a demissão de dois membros do governo (…) e se pensarmos melhor encontramos razões para demitir os outros membros de governo que ainda não foram citados esta tarde”, disse, por fim, António Filipe.
“Já o embatucámos!” - deve ter pensado Bernardo Ferrão, que terminou a peça a “sambar na cara” do PCP e por pouco não mandou “beijinho no ombro.” Mas há um problema. É que neste "fact check", tal como os outros, aparentemente tão isento e tão neutro, reside um truque gravíssimo.
As imagens de João Ferreira apresentadas nesta peça estão editadas. Às suas declarações foram extraídas partes fundamentais. João Ferreira referiu-se a “comunicados do PCP” e afirmou que “o PCP nunca fez pedidos de demissão à peça, sempre identificou o conjunto do governo e procurou que as responsabilidades fossem assacadas ao conjunto do governo e quanto sinalizou a importância de pôr fim a uma determinada política fez isso mesmo, nomeadamente com o governo anterior do PSD e do CDS, em que aquilo que sinalizou era a necessidade para o país de pôr fim àquela política e isso não se resolvia com demissões à peça deste ou daquele ministro.”
Ou seja, as declarações de João Ferreira, ontem à noite, são absolutamente coerentes (não podiam ser mais) com as imagens que o fact check da SIC recuperou. “O PCP não pede demissões de ministros à peça, pede demissões de Governos inteiros. O problema do PCP não são este ou aquele ministro, são as políticas.”
Hoje de manhã, publicámos uma reflexão sobre o perigo que “fact check” podem representar. Quando mal usados, podem tornar-se verdadeiras armadilhas contra a opinião pública. Aqui fica - nem de propósito - um exemplo categórico.



Em suma: sempre que sintonizar a SIC, lembre-se de quão rigoroso é o Ferrão... a fazer mau jornalismo. 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

[Levamos os cigarros à boca da medula]


Levamos os cigarros à boca da medula
e é por ela que fumamos o ruído das nossas
vidas de cinza digo agora que também eu
recomecei a fumar.

E é falso dizeres
que esse silêncio que teces é o mesmo
dos teus dezanove anos parece-me a mim
que arranho o meu até à ferida.

Encostas o corpo à matemática do mundo
eu encosto o corpo ao nada que me assiste
e procuramos na noite qualquer coisa
que já nem nos pertence é provável

delapidações pedras mansas
esta forma tão doente de viver.

Ainda que sustemos a escuridão apenas
com cafés e ginger ale's e cigarros
que se apagam de um minuto para o outro
tão barato e mau é o tabaco

e ainda que acabemos por desistir
do último cigarro que nunca fumaremos

esse que nos traria a explicação da noite
da luz das palavras do silêncio do ardor do desejo
com a certeza de que o dia seguinte começará 
muito próximo do fim.


António Amaral Tavares (n. 1964), in Movimento de Terras (2016). Reuniu os primeiros livros e alguns inéditos ulteriores em Movimento de Terras (Língua Morta). A doença e a morte são obsessões temáticas que percorrem o volume, num registo que tanto entra em diálogo com obra alheia (pintura, música, cinema) como parece denotar elementos biográficos dispersos. De um complexo lexical recorrente sobressaem vocábulos tais como vidro, cão, domingo, em relações sinonímicas bastante abertas, oferecendo aos poemas uma inegável consistência imagética ao mesmo tempo que indicam universos íntimos de difícil interpretação. Raramente linear, a poesia de António Amaral Tavares surge de um lugar onde a realidade se perspectiva entre sombras. Solidão e medo, enquanto núcleos emocionais determinantes, surgem assim acompanhados de substâncias capazes de solidificar a dimensão mental dos conceitos. Já não importa o sentido das palavras, mas sim a expressão do modo como elas são sentidas num corpo castigado pela desordem. 

#90


Parece que os Black Sabbath estão preparados para o purgatório, mesmo à beira de comemorarem 50 anos de carreira. O fim merecido merece aplauso. Nos meus tempos de adolescente problemático passei algumas boas horas a ouvir Vol. 4 (1972). Ao longo dos tempos, fui-me desfazendo de muito vinil. Este é dos que guardo religiosamente. A mais pirosa das baladas está aqui: Changes. Ainda hoje me arrepio a ouvi-la. Estão também riffs de guitarra inesquecíveis, lirismo distópico, muitas drogas, os fundamentos daquilo a que deram o nome de heavy metal. Nunca fui adepto do rótulo, mas as inclinações góticas de Ozzy Osbourne fascinavam-me. Ainda fascinam. Voltei a ouvir hoje Vol. 4. Não sei porquê, ocorreram-me imensas imagens percorridas por um fio que podia ser o separador invisível da loucura e da lucidez. Voltei a ver-me de cabelo comprido, vestido de preto dos pés à cabeça, botas da tropa, um copo de cerveja ordinária na mão. Sempre a olhar para o chão - nunca o céu me surgiu apelativo -, onde o futuro tem a distância de um passo. Às vezes, confesso, ainda esmago palavras com os dentes, cuspo-as e piso-as como se fossem beatas de cigarros. Se algum dia enlouquecer, por favor não me levem a sério. Sinto apenas saudades de ser um adolescente parvo. Voltasse atrás, olharia mais par ao céu.


"Cornucopia"


Too much in the truth they say
Keep it 'till another day
Let them have their little game
Illusion helps to keep them sane

Let them have their little toys
Fast sports cars and motor noise
Exciting in their plastic place
Frozen food in a concrete maze

You're gonna go insane
I'm trying to save your brain

I don't know what's happening
My head's all torn inside
People say I'm heavy
They don't know what I hide

Take a life, it's going cheap
Kill someone, no one will weep
Freedom's yours, just pay your dues
We just want your soul to use

You're gonna go insane
I'm trying to save your brain



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

ANTÓNIO PEDRO

O Eremita refere-se a António Pedro aqui. Os surrealistas de Lisboa não gostavam dele, convencidos que andavam de que o surrealismo era guerrilha urbana. Acontece que o Protopoema da Serra S'Arga (1948), partilhado em tempos aqui, garantiu-lhe o lugar de "primeiro português definitivamente surrealista" nas páginas dos senhores historiadores. Não se resumindo a poesia de Pedro a um só poema, podemos perceber a sua relevância indo por aqui. No Youtube apanha-se um documentário que convém rever, mais que não seja para perceber as múltiplas facetas de um autor imerecidamente caído no esquecimento. Sobre Apenas Uma Narrativa, também evocada aqui, basta citar Jorge de Sena: «obra-prima do romance surrealista». Conto regressar a António Pedro ainda este mês, por causa de uma 1.ª edição que adquiri há tempos e me deixou com uma dúvida atravessada na garganta: a quem devemos mais o nosso enterro?

Adenda: a editora Cosmorama publicou em 2016 uma reunião da poesia de António Pedro. Pode ser encomendado através do sítio do editor: aqui

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

TILT

Inspirado pelo João Lisboa, fui levado a pensar nas coisas da minha vida que não foram por mim solicitadas. E logo me surgiram dezenas de axiomas em catadupa. Por exemplo:
- Não pedi para respirar, logo também não tenho a obrigação de ser asmático;
- Não pedi para andar, logo também não tenho o direito de permanecer sentado;
- Não pedi para ter fome, logo também não tenho que comer;
- Não pedi para trabalhar, logo também não tenho o direito a ficar desempregado;
- Não pedi para ser parvo, logo tenho todo o direito se ser estúpido;
- Não pedi para ser mamífero, logo também não tenho o direito a mamar;
- Não pedi para ser sportinguista, logo hei-de sofrer a vida inteira;
- Não pedi o mundo em que vivo, logo aguenta aguenta;
- Se não pedi para me vir também não devias ter parado;
- Se não pedi para cagar também não tenho o direito de determinar quando vou comer;
- Se não pedi para ser escravo também não tenho o direito de determinar quando vou ser senhor;
- Se não pedi para ser livre também não tenho o direito de determinar quando vou ser escravo;
- Se não pedi para olhai os lírios do campo também não tenho o direito de determinar batem leve levemente;
- Se não pedi para sofrer também não tenho o direito de determinar quando vou ter prazer;
- Se não pedi para ter prazer também não tenho o direito de determinar quando vou ter paz e silêncio.
Em suma, se não pedimos para nascer devem os outros ter o direito de determinar quando vamos morrer?
Etc.
Desliga a máquina.
Deu tilt.

Bancarrota.

"MISE-EN-SCÈNE DE UMA TEMPESTADE INEXISTENTE"

As minhas particulares circunstâncias fazem com que assista, durante alguns minutos, à emissão de um noticiário da manhã numa estação televisiva enquanto tomo o café num estabelecimento. O conteúdo e a sucessão das notícias orienta-se no sentido da instilação do medo, da fragilidade, da impotência e, nestes sentimentos induzidos onde a vontade não deve existir, do lugar protector, porque informativo, do meio de comunicação. A televisão está aqui, é nossa amiga, dá voz à nossa miséria, alguém nos virá proteger. Mas a televisão não está naquele lugar com intuitos profilácticos ou altruístas; a televisão está naquele lugar para fazer dinheiro, porque a sua presença é injustificada, dado que a repórter alerta para uma tempestade marítima que não existe, para a violência do vento que não se verifica. Nada mais para além das condições vulgares do Inverno nesta localização geográfica do Mundo. Esta dramatização ridícula atinge o ponto culminante quando a emissão “cai” sem condições meteorológicas tão adversas que o justifiquem. O bordel “informativo” apoderou-se dos Elementos enquanto arma de arremesso no prostíbulo geral da domesticação. Concluída esta mise-en-scène de uma tempestade inexistente, concluída com a interrupção provavelmente forjada da emissão, transporta-se a ópera-bufa para outro lugar onde também se sente a adversidade do Inverno. É natural: vigora o Inverno no Hemisfério Norte.


Jorge Muchagato, aqui.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

THE CHEYENNE SOCIAL CLUB (1970)


Gene Kelly (n. 1912 – m. 1996), carismático actor de Singin’ in the Rain/Serenata à Chuva (1952), também realizou filmes, o último dos quais um western. The Cheyenne Social Club/Um Clube só para Cavalheiros (1970) nunca granjeou aplausos, apesar de um elenco com James Stewart e Henry Fonda nos papéis principais. Cowboys de corpo e alma, afastam-se do gado bovino quando um deles recebe de herança um negócio na cidade. Sucede que o negócio é um bordel. Perdão, uma casa de passe. A mais fina e conceituada da região. Tanto que para alguns deve o edifício ser elevado a monumento nacional.
Em 1970, James Stewart andava pelos 60 anos. Henry Fonda idem. A energia não podia ser a mesma, mas a escolha para os papéis revelou-se a coisa mais acertada neste filme. Depois de terem trabalhado juntos em Firecreek/Hora da Fúria (1967), Stewart e Fonda voltam a encontrar-se num registo  mais ligeiro e vulgar. Seria incorrecto asseverar que estão como peixe na água, mas podem bem ser dois escorpiões estranhamente misericordiosos às cavalitas de um sapo.
Estamos na presença de dois burros velhos, pelo que não é inteligente esperar que tomem andadura. Gerir uma casa de meninas não é negócio para um velho cowboy, nem em idade de reforma. Mas a decisão de fechar revela-se igualmente desacertada, dadas as necessidades e privações das jovens desamparadas que ali haviam encontrado o conforto de um lar. Mais grave: a reacção da população masculina de Cheyenne, quando confrontada com a possibilidade de fecho do seu mais estimado monumento, equivale à reacção das populações quando perdem o mais importante dos serviços públicos da sua terra.
O protesto está instalado, restando a John O’Hanlan e ao seu fiel companheiro Harley Sullivan o caminho da desgraça. Um violento ataque sobre Jenny, a líder das meninas, leva o herdeiro do bordel a mudar de postura. Subitamente elas tornam-se suas protegidas e ele assume sem hesitar o papel de protector. O plot presta-se a vários embaraços e os diálogos revelam uma ligeireza que garante sorrisos do princípio ao fim, sendo certo que Gene Kelly nunca consegue fazer do filme a comédia que porventura almejava.
Numa das sequências finais, um tiroteio previsível parece evocar ironicamente os acontecimentos de O.K. Corral. Só que o corral foi substituído por um bordel e dentro dele estão os bons, que por acaso são velhos cowboys que mal sabem pegar numa arma de fogo. E as meninas, claro. Tudo isto tem o seu quê de hilariante, mas acaba por ser filmado com escusada ênfase dramática. Nem carne, nem peixe, salvando-se a situação do completo desastre por nela estarem dois exemplares intervenientes: Henry Fonda e James Stewart.
Não obstante, algo mais justifica uma passagem de olhos por este western comedy (off-color, li algures). Há uma moral nisto tudo que sugere uma leitura alternativa da fábula do sapo e do escorpião. Não se muda a natureza a um escorpião, pelo que não vale a pena julgar que para o sapo que o carregue às costas outro destino pode haver que não seja a morte. Neste caso, a natureza dos dois cowboys por momentos deslocados do seu destino também se revela imutável. Sucede que o bordel não é uma casa de sapos, mas tem por lá umas princesas capazes de demover os escorpiões das suas intenções mais fatalistas. Como o fazem… só elas sabem.