Porventura mais conhecido pelas diversas participações em
álbuns de Bob Dylan, acompanhou também Joan Baez, Judy Collins, Richie Havens,
entre muitos outros. Com um estilo que aproximava a folk do rock, Langhorne foi
uma forte influência na inflexão eléctrica levada a cabo por Dylan ainda nos
anos 60. Inspirou a letra de Mr. Tambourine Man, nas palavras do próprio Dylan.
Mais tarde, participou na banda sonora de Pat Garrett & Billy the Kid e
escreveu ele próprio os temas para um western de Peter Fonda intitulado The
Hired Hand (1970). O disco foi publicado apenas 35 anos depois do filme ter
sido exibido.
terça-feira, 18 de abril de 2017
ACERCA DE "A GRUA"
Paulo José Miranda escreve sobre A Grua. Abra a imagem num novo separador para ver melhor ou siga para a edição on-line: aqui. Um excerto:
Mas há alguma coisa boa neste livro? De outro modo, há
alguma coisa boa que este livro nos mostre, para além da consciência cortante
do estado miserável do mundo e dos homens? Há! Mostrar-nos que precisamos de
ver. Não é urgente o amor. É urgente ver. É urgente a consciência da existência
do fora de nós. Impossibilitados que estamos de nos olhar a nós mesmos, neste
mundo que nos pisa, neste mundo em que o emprego nos suga as horas e a alegria
e a possibilidade de pensar, e nos empanturra de entretenimento, é urgente
olhar as coisas como se nos olhássemos a nós. Uma grua, um sapato, uma árvore
que resiste nos baldios, podem despertar-nos para a nossa vida. Ver lá fora é
preciso, diz-nos este livro. Talvez o diabo tenha criado o ecrán de televisão,
o ecrán de computador, o ecrán, para nos impedir de ver o mundo, de ver as
coisas, de ver os outros. Porque o mundo que nos aparece nos ecráns não é o
mundo, mas um filtro do mesmo. No ecrán o que nos aparece é a distancia, uma
distância em relação ao mundo. O mundo é o que nos é próximo. Embriagados de
distância, afastamo-nos de nós e do mundo.
segunda-feira, 17 de abril de 2017
LITTLE BIG MAN (1970)
Raramente encontramos actores de ascendência índia nas
fileiras de Hollywood. Sem me ter dado ao trabalho de pesquisar, lembro-me de
dois casos de relativo sucesso. Graham Greene, com um currículo vasto em papéis
secundários, mereceu nomeação para um Oscar pelo desempenho em Dances With
Wolves/Danças com Lobos (1990). Outro exemplo de relativo sucesso, embora com uma
cinematografia muito mais restrita, é o de Chief Dan George. Clint Eastwood
requisitou-o para o magnífico The Outlaw Josey Wales/O Rebelde do Kansas
(1976), seis anos depois de ter sido nomeado para um Oscar pela participação em
Little Big Man/O Pequeno Grande Homem (1970).
Dustin Hoffman é o actor principal neste estranho western
de Arthur Penn (n. 1922 – m. 2010), a quem devemos, como já tive oportunidade
de sublinhar, uma obra-prima intitulada The Left Handed Gun/Vício de Matar
(1958). A estranheza de Little Big Man vem não só da sua estrutura incaracterística,
mas da própria envolvência algo picaresca que Penn ofereceu a um filme onde a
tragédia se equilibra com a comédia sem cair para nenhum dos lados.
Hoffman é Jack Crabb, um centenário que recorda para um
gravador as suas aventuras e desventuras depois de aos dez anos ter perdido a
família durante a travessia das grandes planícies do Oeste e de ter sido
adoptado por uma tribo da comunidade cheyenne. Parábola da América, como, de
resto, pretende ser toda a obra de Arthur Penn, Little Big Man transporta-nos
para o centro de um conflito entre duas formas bem distintas de olhar o mundo.
Fá-lo apoiando-se numa personagem que passa a vida a saltar de um lado para o
outro até ao extermínio de um dos lados. Sabemos qual.
A perspectiva sobre o dito mundo civilizado é
assumidamente cínica, destacando, especialmente, a hipocrisia bárbara dos
intervenientes. Entre eles, um reverendo que procurará educar catolicamente o
nosso pequeno grande homem enquanto enfarda comida e é traído pela mulher.
Esta, numa soberba personificação de Faye Dunaway, acabará os seus dias num bordel
como amante predilecta do pistoleiro Wild Bill Peacock. Mais efémera é a
aparição de Buffalo Bill, apontamento que sublinha o extermínio de um mundo
selvagem sob os olhos gananciosos de vendedores de banha da cobra e empresários
corruptos. Um caricato Gen. George Armstrong Custer é outra das figuras
proeminentes nesta história, num papel onde é difícil destrinçar os momentos de
lucidez de uma ambição alienante. A sequência que recria a célebre Batalha de
Little Bighorn é hilariante, com Custer tomado por uma loucura que faz dele a
mais lunática das personagens entre os grandes heróis que a história americana
celebra.
Igualmente singular é a perspectiva desenhada sobre as
comunidades índias. Geralmente secundarizadas nos westerns, ocupando o papel de
uma força ameaçadora do progresso, ou ridiculamente elevadas a uma
espiritualidade estéril, aqui e acolá interrompida por aguerridas acções de
resistência à aniquilação final, as comunidades índias surgem enquadradas neste
filme com inusitado grau de razoabilidade. Inédita é a aparição, por exemplo,
de um dois espíritos (índio homossexual), mas também a evocação de modos de
organização social diversos com interpretações abertas da própria noção de
família. A qual, refira-se, era muito mais do que um núcleo restrito de pessoas
distribuídas por um tipi, mas antes toda a tribo entendida como comunidade de
irmãos no seio de uma mesma mãe: a Terra.
Por todas estas razões, Little Big Man é um objecto
cinematográfico sui generis. Se o tom picaresco de várias sequências pode
levar-nos a desconfiar da autenticidade dos intervenientes, não deixa de ser um
facto que por detrás da farsa quase sempre vislumbramos uma mensagem de
verdade. E essa verdade é a de que na raiz de um fresco histórico reside o ácido
burlesco da humanidade, conjunto inumerável de seres que tendem a olhar para si
e para a sua história com uma seriedade tantas vezes adúltera. Talvez a
explicação para a longevidade de Jack Crabb, depois de tantas peripécias,
esteja precisamente na essência indefinida da sua existência. Nem branco, nem
índio, um pouco de ambos sem ser apenas um dos dois.
domingo, 16 de abril de 2017
#96
Talvez desde Dead Inside (1996), dos The Golden
Palominos, que não ouvia um álbum de spoken word tão perturbador. Let Them Eat
Chaos (2016) surge marcado pela urgência, como também em 1996 Pre-Millennium
Tension, assinado por Tricky, testemunhava o ambiente e as circunstâncias de um
determinado tempo histórico. Kate Tempest recupera para a spoken word,
apoiando-se no hip hop, e na sua variante downtempo, a ponta afiada de uma
lança que acusa, denuncia, atinge os cenários domesticados de um mundo em
colapso. Empenhada socialmente, retrata a sociedade em que vivemos sem
contemporizações. Os podres, a hipocrisia, as contradições, os vícios vão sendo
diagnosticados ao mesmo tempo que se autopsiam os valores de uma humanidade em
vias de extinção. Perfect Coffee bem que podia ser a banda sonora ideal para estes tempos. À semelhança do que Ursula Rucker produziu em Supa Sista
(2001), o discurso é poético sem enjeitar o groove das estruturas musicais minimalistas
que apoiam as palavras. Em alguns temas chegamos a pressentir uma vontade
de dançar sobre destroços, numa encenação do caos aludido em título que acaba
por se revelar mais catártica do que panfletária. E essa é, precisamente, a sua
força principal, uma força accionadora de raivas e de paixões, nevrótica,
furiosa, mas sem que exerça qualquer tipo de violência sobre o outro. Neste
caso, neste caos, a revelação do mal é em si mesma uma forma de redenção. O ideal seria
escutar todo o álbum, cuja narrativa não deixa de sofrer danos ao ser
fragmentada. Ainda assim,
sábado, 15 de abril de 2017
AXIOMÁTICA ACIDENTAL
Não exijas dos outros metade do que deves exigir a ti
próprio, pois deles não sabes nem metade do que tens obrigação de saber acerca
de ti mesmo.
SERVIÇO PÚBLICO
O poeta manuel a. domingos tem vindo a partilhar no meia-noite todo o dia versões suas para poemas de e. e. cummings, Philip Larkin, Charles Bukowski, William Carlos Williams, Wallace Stevens. Sugiro este, de cummings, este, de Bukowski, este, de Williams, este, de Stevens, enquanto aperitivos de um extraordinário gesto de partilha pelo qual devemos ficar agradecidos.
sexta-feira, 14 de abril de 2017
ONDE ESTÁ A LOUCURA?
Uma resposta simples pode ser a que Penélope assina no weblog Aspirina B. A loucura está: aqui.
O TRAGICÓMICO DESTINO DOS HOMENS
Evito adjectivar o destino de quem quer que seja, muito
menos de uma classe. Tomemos de exemplo os escritores, assumindo a influência
desta prosa. O que de mais trágico possa haver no destino dos escritores é não
serem lidos. Vamos ignorá-lo? Quanto ao mais, estamos no domínio da biografia.
E se por detrás de um livro há sempre pelo menos uma biografia, seria
desavisado julgar o livro pelo que supomos saber acerca da vida ou das vidas
que por detrás dele se esconde ou se escondem.
Reparei recentemente numas
notícias sobre a relação entre Ted Hughes e Sylvia Plath, a que dediquei um
poema no meu livro A Dança das Feridas. Poderão ler o poema aqui. Mas que podemos
nós saber verdadeiramente sobre aquela relação? Tudo o que viermos a saber será
fruto de uma construção subjectiva que pouco tem que ver com as obras por ambos
produzidas. Talvez tendamos a simpatizar com Sylvia, antipatizando com Ted.
Imagine-se, porém, que Sylvia era obsessiva, manipuladora, paranóica, ciumenta,
um inferno de mulher que sufocava Ted, controlando-o, impedindo-o de ser feliz.
Acrescentemos à hipótese que terá sido numa dessas ocasiões em que se sentia
sufocado que Ted desabafou, esvaído em lágrimas
convulsas, o desejo de se ver livre de Sylvia: preferia que morresses. Enfim,
são hipóteses a considerar.
A Sylvia Plath dediquei igualmente um dos poemas em
prosa do meu livro Suicidas, começando assim: «Naquele tempo o amor era mais
simples». Sim, houve um tempo em que o amor era mais simples. Tal como a vida.
Esse tempo perdeu-se. Presumo que seja assim em todas as vidas.
O que me parece
claramente desapropriada é a generalização muito corrente de que a dor e o
sofrimento geram as melhores obras. São muitos os escritores que se mataram,
certo. Mas são em número infinitamente superior aqueles que não se mataram.
Nuns casos e noutros, há obras de interesse muito variável. Também não é certo
que todos os escritores suicidas tenham resolvido colocar termo à vida por
motivos deprimentes.
Crente no suicídio feliz, sugeriria que se comparasse esse
testemunho pungente de André Gorz em Carta a D com o mais famoso texto de Stig
Dagerman: A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer. Encontramos
motivações bastante diferentes nos dois textos. Também não fará sentido
comparar as decisões de pôr termo à vida de um René Crevel (ver aqui), que se
matou aos 34 anos, com as de um Gilles Deleuze, que pôs termo à vida com 70
anos por não suportar mais o cancro que lhe minara os pulmões. No poema em
prosa que o evoca no meu livro Suicidas, a frase final é: «Como seria bom, como
seria, ter algo pelo que valesse a pena continuar vivo num mundo de
mentirosos». Impedido, pela doença, de combater os mentirosos deste mundo, para
quê continuar vivo?
Mesmo nos casos portugueses mais conhecidos, de Mário de
Sá-Carneiro a Manuel Laranjeira, de Florbela Espanca a Antero de Quental, de
Cristóvam Pavia a Eduardo Guerra Carneiro, de Guilherme de Faria a Camilo
Castelo Branco, não é possível traçar um padrão. As obras e os estilos, os tons,
são muito dissemelhantes, na sua génese é difícil vislumbrar um denominador
comum que permita afirmar uma qualquer estatística puramente especulativa. Há
ainda os suicidados da sociedade, como se disse a propósito de Antonin Artaud.
Veja-se o caso de Pessoa, um homem comum com um emprego banal. Ou Cesário,
Pessanha, etc.
Associar a criação a tendências patológicas é tão pueril quanto julgar que do consumo de drogas retiramos maior proveito criativo. Os
estímulos à criação são os mais diversos. Reduzir o terreno da sua diversidade
seria prejudicial à própria criação. Pessoalmente, interessa-me muito mais
combater o preconceito da literatura enquanto salvação. Foi por isso que
assinei um livro intitulado Suicidas. Em suma, viver não faz bem a ninguém. Mais do que o tabaco, é mesmo a vida quem nos mata.
quarta-feira, 12 de abril de 2017
NORMAL
Fiz duas viagens de finalistas. Não porque tenha sido
repetente, mas porque os meus pais eram mãos largas. Nas duas ocasiões fui
inserido num grupo vasto de alunos tendo Benidorm como destino. Estamos a falar de
1991 e 1992. Fazíamos o que era suposto fazer. Bebíamos, fumávamos, tentávamos
engatar miúdas nas discotecas, alugávamos motas durante o dia, gastávamos
dinheiro nos kartings, íamos à praia. As chamadas drogas leves, haxixe e erva, eram
recorrentes. Nessa altura estava na moda o ecstasy, muito popular entre a malta
das raves. Como não gostava de música electrónica, e preferia o álcool a
comprimidos que obrigavam à ingestão de água, passei ao lado da grande aventura
alucinatória. Na realidade, era um anjinho se comparado com o que agora vejo.
Bebia muito, é certo, e descarregava raivas no mosh, ao som dos Nirvana. As
raparigas foram uma miragem. Acabava tudo invariavelmente estragado quando
começava a falar-lhes na poesia do Jim Morrison. Nunca tive jeito nem paciência
para coros.
Em suma, não posso dizer que seja exemplo para quem quer que seja.
Mas sirvo-me do meu exemplo para estranhar os novos conceitos de normalidade
que pululam a propósito de notícias recentes sobre viagens de finalistas.
Paredes riscadas, normal, beatas e garrafas espalhadas pelos corredores do Hotel, normal, um
tecto falso desfeito, normal, material de segurança vandalizado, normal. É tudo normal. Também parece que é normal festas
cujo objectivo é simplesmente distribuir álcool por rapazes e raparigas até que caiam para o
lado, bebendo com a normalidade de quem busca o excesso. Umas mamalhudas
seminuas a dançar em cima de colunas, mestres-de-cerimónias que organizam o
caos da bebedeira e piscinas atoladas de putos ébrios em amena normalidade são
o retrato do dia. Portanto, tudo normal.
Compreendo e aceito diversas formas de
diversão, mas sinto alguma dificuldade em atribuir o epíteto de normalidade
a muito do que vou vendo. Não me parecem nada normais os estilos exibidos em
programas de televisão cujo público é maioritariamente adolescente (veja-se a
MTV), para não falar das aberrações que a TV portuguesa consegue desencantar
para os chamados reality shows. Se aquilo é real, e presumo que alguma realidade
possam tais protótipos induzir, então o anormal serei eu. A verdade é que num mundo em que os
rapazes se parecem cada vez mais com uns grunhos sem classe que mal dariam para
porteiros de discoteca, e as raparigas circulam por casa (dos segredos ou das
revelações) com aspecto de putas em bordel de aldeia, torna-se difícil, muito
difícil, destrinçar o normal do anormal.
Acho normal que a violência excite burgessos, já não acho tão normal que divirta alunos do secundário. É de
violência que estamos a falar, não é? Violência sob várias formas, muita dela trasvestida
de entretenimento, socialmente admitida como se não fosse o que na realidade é.
Porque o problema é precisamente este. Sob pena de passarmos por retrógrados, conservadores
ou simplesmente anacrónicos, recusamos olhar a realidade e largamos as rédeas da
educação. Ficamos à espera que sejam os outros a fazer o que não estamos nós
para fazer. É tão cansativo educar um adolescente, prepará-lo para se divertir,
para ir de férias com os amigos e comportar-se humanamente, cometendo os
excessos que há-de cometer sem pisar o risco da violência. Um risco ténue,
inerente a cada um, mas impossível de incutir se os exemplos forem, enfim, os
que vêm sendo massificados por uma sociedade cada vez mais indiferente aos
mentecaptos que gera.
DOIS ESPÍRITOS
Um dos mais célebres dois espíritos de que há registo foi o guerreiro lakota adequadamente chamado Encontra-os e Mata-os. Osh-Tisch nasceu homem e casou-se com uma mulher, mas vestia-se com roupas de mulher e vivia o seu dia-a.dia como mulher. Em 17 de Junho de 1876, Encontra-os e Mata-os conquistou a sua fama ao socorrer um companheiro da sua tribo na batalha de Rosebud Creek, num acto de destemida bravura.
Pearson Mckinney, in Da Construção do Sexo entre os ameríndios, in Flauta de Luz, n.º4, Abril de 2017, p. 39.
Nota: Na imagem ao alto, Osh-Tisch é o da esquerda. A seu lado, a mulher com quem casou. Clique na imagem para ver melhor.
DARWIN E A EUGENIA
(...)
Convém (...) ter presente que os programas eugenistas e o holocausto nazi foram arquitectados por algumas das mentes de maior formação académica e que na sua época granjeavam o maior respeito. E também não são as pessoas simples que concebem as bombas atómicas ou quaisquer outras armas de destruição maciça; nem as que lucram com a indústria de guerra. Ironicamente, no início do século XX seria mais fácil encontrarmos opositores à eugenia entre os clérigos do que entre as hostes progressistas de intelectuais e cientistas. Abraham Lincoln (que, por curiosa coincidência, nasceu no mesmo dia e no mesmo ano que Charles Darwin) era assumidamente racista. Mas este presidente dos E.U.A. continua a posar para a posteridade como um herói dos negros (abolicionista), enquanto muitos pretendem que Darwin está na origem da eugenia e até da ideologia nazi. Os progressistas David Hume e inclusive Voltaire, ambos do século XVIII, fizeram comentários racistas que indignariam Frei Bartolomé de las Casas, que morreu em 1566. Não obstante, a teoria da evolução darwinista minou a eurocêntrica ideia duma suposta «superioridade divina» inerente à «raça branca». O próprio Hitler, à semelhança de outros ditadores, afirmava-se como arauto de Deus, propondo-se fazer o trabalho sujo deste último eliminando a «raça sub-humana» supostamente responsável pela crucificação de Jesus Cristo. Hitler nunca rejeitou a sua afiliação ao catolicismo apostólico romano. (Curiosamente, até hoje não foi excomungado, ao contrário, por exemplo, de raparigas adolescentes vítimas de violações e que em consequência disso optam por abortar, excomungações estas condizentes com uma doutrina abominável, pois logo no Deuteronómio 22:28-29 está explícito que basta violar uma virgem para o perpetrador poder casar-se com ela; de resto, como cantaram os Monty Python, todo o esperma é sagrado...)
(...)
Paulo Barreiros, in A Pior Herança de Darwin, in Flauta de Luz, n.º 4, Abril de 2017, p. 32.
FINALISTAS
Lá vão eles
os
alunos
vão por turnos
são os
hunos
de Torremolinos
Ei-los
unos
gatunos
de tunos
invasivos
evasivos
os
hunos
de Torremolinos
terça-feira, 11 de abril de 2017
ALUCINAR O ESTRUME
Num catálogo de excelência, onde são tão raros os autores
portugueses, encontrar dois livros assinados por Júlio Henriques (n. 1953) é
por si só, mais que não seja, motivo de curiosidade. A curiosidade aumenta quando
reconhecermos no autor um tradutor de mérito. Stig Dagerman, J. M. G. Le
Clézio, Pierre Louys, Mikhail Bakunine, Benjamin Péret, Albert Cossery, Robert
Bringhurst, Raoul Vaneigem, Aragon, são apenas alguns dos nomes que constam no inventário
de traduções assinadas pelo autor de Deus Tem Caspa (Fenda, 1988). Mais
recentemente, o nome de Júlio Henriques aparece associado, enquanto editor e
coordenador, a uma das poucas revistas em língua portuguesa que vale a pena ler
do princípio ao fim. A propósito, o n.º4 de Flauta da Luz já chegou às bancas
com textos, só para dar alguns exemplos, de Henri Michaux, George Orwell, Rui
Baião, Anselm Jappe, Stefan Zweig. Imperdível.
Igualmente imperdível é o segundo livro de Júlio
Henriques publicado pela Antígona, depois da reedição em 2014, a 2.ª, de Deus
Tem Caspa. Em Alucinar o Estrume (Antígona, Janeiro de 2017) somos introduzidos
a Estêvão Vao, biólogo de formação, docente desalinhado que sobrevive de
«trabalhos irregulares, de preferência no âmbito da botânica» (p. 87). A
caracterização surge espontaneamente, não dispensando referências concretas a
um mundo actual facilmente identificável, como sejam a que logo ali sucede à
Livraria Utopia do «famoso livreiro Herculano Lapa» (p. 88). A ironia, recurso
libertário por excelência, está em que o que de mais concreto nos oferece este
livro é, por assim dizer, o que aparenta maior grau de alucinação.
Os desenhos de José Miguel Gervásio separam cerca de vinte histórias interligadas por uma personagem. Estêvão Vao
será o nosso guia pelas sobras do mundo rural português. Caminheiro por vocação, realizaremos a seu lado uma viagem na nossa terra às portas
do século XXI. A paisagem é uma comédia desoladora. As gentes ligam-se ao solo através
de intermediários de ordem virtual, sejam o jogo social FarmVille ou as Quintas
Pedagógicas para ensinar às criancinhas a origem do leite. O campo foi reduzido
a uma fachada para entreter turistas, os quais seguem distraídos por entre abandono
e desertificação. Com a agricultura convertida ao turismo pouco mais podemos
esperar que brote das terras do que uma tremenda ignorância. Em causa está não
só o retrato de um divórcio entre o homem e a natureza, mas também, e muito
mais profundamente, a acusação de um advento de extinção.
O que podemos ler nas entrelinhas deste livro, e o título
remete para isso mesmo, é a noção cabal de uma humanidade em vias de se perder,
se não se perdeu já, pois do estrume que fertiliza as terras emerge apenas a
figura alucinada do homem asséptico. Não há qualquer tipo de catastrofismo no
diagnóstico. Na verdade, o que choca é precisamente a constatação de quão
razoável é um retrato assim traçado. As causas há muito foram definidas. Do
chamado capitalismo selvagem ao neoliberalismo financeiro, assimilou o homem a
sua própria desumanização. Paradigma por de mais evidente: a Economia promovida
a religião absoluta, com suas igrejas disseminadas pelo mundo, garante ao deus
Mercado o bom comportamento dos povos, o qual se guia pela moral do consumismo
e transforma a sociedade num espectáculo. Deplorável, acrescente-se.
Que fazer com esta herança? Entre as artes do restauro e
da conservação, o mundo rural português tem vindo a encolher-se. Encolheu-se de
tal modo que já deixou de se falar de mundo. Fala-se apenas de turismo. Sufoco insustentável. Com ele vêm as insónias e o fim dos
sonhos. Ora, este turismo rural das “aldeias sem estrume”, das hortas urbanas,
das “pequenas comunidades neo-rurais”, de zonas de caça para entreter doentes
mentais, é o supra-sumo dessa ausência que tudo contamina com a urgência
material do pragmatismo. Desconfiado dos entusiastas do «regresso ao campo»,
Estêvão Vao não se demite do sonho. «Não de um qualquer sonho terapêutico, mas
daquilo que sonhava de facto quando o sono o acometia. Nisso era espontâneo
herdeiro da primitiva dimensão humana que parece ter desaparecido das mentes
forjadas pelo espírito industrioso e expansionista, desse que enfaticamente
declara que não pode estar parado. Vinha de longe, de eras em grande medida
ignoradas, o ensinamento de que sem tempo para a prática do sonho o ser humano
não vive, só sobrevive» (p. 97).
Alucinar o Estrume é um objecto raro na literatura
portuguesa. Munido de uma crítica social solidamente fundamentada, consegue ao
mesmo tempo divertir e perturbar o leitor. No fundo, usa a velha técnica do
espelho para nos dar a ver quem somos no mundo em que vivemos. E a consciência
disso é a mais perturbadora possível. Desengana-nos ao mostrar o avesso de uma
ilusão, ou seja, a realidade ela mesma pelo crivo da ironia. Numa das histórias
finais, a experiência regressiva aludida pode servir de mote aos métodos do pensamento
aqui subjacentes. É procurando perspectivar e entender quem fomos em tempos
primitivos, quais os elos que nos mantinham integrados no mundo natural e como
os fomos quebrando, que melhor nos apercebemos da decadência progressiva de uma
ideia de humano. Não porque tenhamos sido perfeitos e do paraíso tenhamos sido
expulsos. Não por via de um qualquer saudosismo estéril, mas por via de uma
constatação, como queria o racionalista francês, clara e indesmentível. Não foi
esse quem nos definiu pela capacidade de pensar? Ao abdicarmos dessa
capacidade, sobrepondo-lhe a capacidade de fazer, a técnica, a resposta
imediata e automática, sem qualquer esforço de dúvida nem vestígios de espírito
crítico, sem sonho, em suma, que homem nos resta? Uma manada de homens… onde
não vislumbramos homem algum.
MARIA HELENA DA ROCHA PEREIRA (1925-2017)
Tudo o que possa dizer será redundante. Reforço apenas o
óbvio: é incomensurável o que este país lhe deve. Quem não souber porquê,
procure A República, de Platão, publicada pela Gulbenkian. Defendeu uma
aberração chamada Acordo Ortográfico? Enfim, nunca o sábio foi sinónimo de perfeição.
domingo, 9 de abril de 2017
DOMINGOS
Os domingos são dias especiais. A plebe aproveita o sol
para sair de casa e enfiar-se directamente na catedral do consumo. Vê-se de
tudo, mormente falta de humor, frustração, irritabilidades. Sugere-se aos
inventores deste país um protector solar para recintos fechados. Com mais ou
menos paciência, vamos arquivando as chalaças dos domingos. Três exemplos
inofensivos:
O bruto que entra de rompante e, sem mais nem quê, chuta
do alto de um semblante assoberbado:
— Onde é que tem os livros que ensinem aos rapazes aquilo
de que as mulheres gostam?
Ainda penso perguntar-lhe que mulheres, mas escuso-me a padecimentos
com a dúvida clássica:
— Para que idades? — como se houvesse uma secção
especializada no assunto, organizada por idade e ano escolar, como se soubesse
do que falava.
— 25 anos. — Responde-me, e eu fico a pensar que é
de facto cada vez mais comum rapazes de 25 anos com dúvidas acerca do que as
mulheres gostam. Desconfio que nenhum livro os possa ajudar, embora a esperança
seja a última a morrer.
A um mesmo nível de rusticidade, mas no feminino e
contaminada por aquilo a que costumo chamar o vírus da ignorância arrogante. Há
muito quem faça questão de o ostentar. Eis um exemplo. Solicitadas sugestões,
resvalo no erro de referir o Nobel atribuído a determinado autor. Supunha eu,
na minha ingenuidade, que pudesse ser factor convincente. Reacção imediata:
— Não gosto dessas pessoas que se julgam superiores aos
outros.
Portanto, academias e “nobéis” deste mundo, sejam humildes. Nada de premiar o trabalho de um escritor, sob pena de o indivíduo
passar a julgar-se superior aos outros que estão nesse lugar onde é possível censurar
a superioridade dos demais segundo critérios que apenas a alguns felizes
iluminados é dado conhecer. Se é que me faço entender.
Por fim, o tradicional lapso com nomes de autores. Sempre
bafejados pela graça, "aos molhos" e para todos os gostos. Fica este.
— Onde é que tem o último livro do Bruno Amaral Dias?
CALAR, CALAR COM FORÇA
No silvo do dia
inclina-se a cabeça para o pó.
Para além do sol, rente à vertigem,
os que ainda vivem buscam o contacto.
Tudo aqui está mudo,
na cacofonia onde a luz
martela.
É preciso dar pancadas no vazio
para se ser ouvido, desfazer
com a cabeça as portas todas.
A escuta é improvável,
o homem ressona alto
por dentro do progresso.
A geografia dispersa muito as vozes
que tentam não morrer de asfixia
na riqueza. Em
certos momentos,
no decorrer da guerra
em que veio a fixar-se a existência,
estas vozes irão vociferar
ante os olhos penosos,
bocas secas, inteiriçados
defuntos que agora
vão dormir.
Com base em seres sem peso,
escavados por esta iteração industrial,
o inexorável frio
encadeia-se na voz
e propaga um silêncio de metais.
Ao nosso cadáver pediremos desculpa
- depois - no raro lance
em que a ausência do som
nos vai acompanhar até à campa.
A inclinar-se então para a poeira
erguida pelo bafo do futuro,
a cabeça vê: este pó
que o temor vai produzindo,
a organizar o mundo,
é a peçonha humana
a abrir mais estradas.
Alice Corinde (n. 1953), in Modas & Bordados d' Alice Corinde (1995). Presumível pseudónimo de Júlio Henriques, tradutor de
méritos reconhecidos, autor de narrativas diversas e, mais recentemente, editor
da revista Flauta de Luz. Os poemas coligidos de Alice Corinde, representada na
antologia Sião (1987), reflectem uma voz crítica e acusatória dos absurdos da
paisagem humana neste tempo de sociedades de consumo acossadas pela revolução
tecnológica. A destruição do mundo rural, o abandono da terra e o afastamento
no homem de tudo quanto o ligue à Natureza, são temas centrais numa obra onde à
sátira e à ironia podemos ligar uma prática heterodoxa da linguagem e do pensamento.
Embora não estejam isentas de uma disfarçada nostalgia, as “modas” de Alice
Corinde manifestam de um modo mais claro certo desdém pelas tendências emotivas
de um lirismo que esvazia a poesia de causas filosóficas e sociais. Incisivos no
tom, derisórios na linguagem, sublevam, sem compromissos que não sejam exclusivamente
poéticos, os problemas de um mundo que é o nosso.
sábado, 8 de abril de 2017
SUPERMENSCH
Shep Gordon é uma lenda no universo do showbiz. Começou a
agenciar artistas por acaso, num ambiente de drogas, sexo e improvisações.
Acreditando na versão encenada por Mike Myers em Supermensch, bem pode
estar agradecido a Jimi Hendrix por "ter tido a vida que ainda tem". Nasceu em
1945 no seio de uma família judaica convencional. Estudou sociologia,
envolveu-se nos movimentos de luta pelos direitos cívicos durante a década de
1960 e acabou a agenciar Alice Cooper, numa relação de décadas que supera tudo
o que possamos imaginar ser possível num mundo de artes & negócios. Na lista
dos artistas que representou encontramos nomes difíceis de conjugar, de Groucho
Marx aos Gipsy Kings, dos Blondie aos Pink Floyd. Quando se reformou, manteve
apenas uma indelével relação de trabalho com Alice Cooper. Passou pelo cinema,
inovou ao agenciar chefs de cozinha, teve uma vida repleta de aventuras das quais
a maior é poder sair disto tudo debaixo de um coro de elogios. Supermensch: The Legend of Shep Gordon (2013), realizado e produzido por Mike Myers, conta a história com uma agilidade impressionante. Divertido e emocionante, é um
documentário que nos deixa a pensar nas partidas pregadas pela vida. A questão
que nos coloca: como é que uma vida tão cheia pode, apesar de tudo, deixar
no ar uma terrível sensação de vazio? Não há resposta que dispense uma visita a
este documento imperdível.
P.S.: e já agora, assista-se igualmente a esta pérola: aqui.
P.S.: e já agora, assista-se igualmente a esta pérola: aqui.
sexta-feira, 7 de abril de 2017
QUEM PUDER, NÃO PERCA
Alucinar o Estrume é das melhores ficções em língua portuguesa que li nos últimos tempos. Muito em breve, deixarei nota de leitura. Flauta de Luz é uma revista imprescindível.
quinta-feira, 6 de abril de 2017
GULLANDER
(…)
A minha estrada é pavimentada a tinta. Escrevo a minha
estrada, escrevo o meu mapa. Toda esta deambulação é uma mesma viagem.
(…)
Acho que a vida tem mais de ridículo do que de horroroso.
As nossas maiores tragédias nascem daquilo que é mais cómico em nós: a nossa
estupidez e paralela vontade de auto-engrandecimento.
(…)
Vivo com o desespero de quem está apaixonado e lhe querem
roubar o amor. Aproveita agora, ou morre ridículo – relembro isto todo o tempo.
(…)
Não interessa a idade que temos, já todos perdemos tempo
demais em coma, em relações podres, empregos da treta, ou a ver televisão! Esta
é a urgência.
(…)
Em África apanham macacos usando uma técnica muito
interessante: colocam pedrinhas (que chocalham) dentro de um coco que tem um
orifício onde, a custo, entra a mão do macaco. O coco, claro, está preso. O
macaco chocalha o coco, fica curioso com o que tem dentro e enfia a mão lá
dentro. Depois de agarrar numa das pedrinhas tenta retirar a mão com a sua
preciosa conquista… Mas o punho fechado em murro não lho permite. Vai ficar
ali, preso, agarrado a uma inútil pedrinha, sem conseguir libertar-se.
Obviamente comem-no. Nós também somos estes infelizes macaquinhos, de punhos
cerrados envolta das nossas tretas. / As nossas ideias, desejos, certezas.
Os nossos territórios, petróleos, igrejas, os nossos conceitos de felicidade. O
nosso euzinho – essa é a principal das pedras a que nos agarramos. As
nacionalidades, as fronteiras, as posses. Um pesadelo cómico em forma de donut,
que se repete, sem parar, até que se abra os olhos e se veja algo novo, algo
que nos muda, algo que está para lá da mortalha mental de ruído que
consideramos ser a nossa identidade. Ou se morra sem ter visto nada. Precisamos
de ver algo para lá, através. E largar as inutilidades, caso contrário somos
mesmo comidos.
Miguel Gullander, autor de A Balada do Marinheiro-de-Estrada (Cavalo de Ferro, 2005), Perdido de Volta (Dom Quixote, 2008) e Através da Chuva (D. Quixote, 2014), em entrevista reproduzida aqui.
OS MISERÁVEIS
Dispenso elogios à frugalidade, sobretudo vindos de quem
ostenta vidas sem qualquer tipo de privação.
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