sábado, 20 de maio de 2017
COIMBRA, 19 DE MAIO DE 2017
Para o Miguel de Carvalho.
Em memória do Carlos.
*
«Onde se lê taberna deve ler-se salvação. / Onde se lê
taberna deve ler-se perdição».
*
Palavras como salvação e perdição são-me estranhas.
Salvação de quê? Perdição de quê? Julgo-as manifestamente exageradas.
*
No meu caso a errata poderia incluir um sentimento que nem
me é especialmente querido: onde se lê taberna deve ler-se nostalgia.
*
A primeira profissão do meu pai, com 11 anos mal contados
e o primeiro par de sapatos, convenientemente rotos nas solas, foi a de
taberneiro no Cartaxo.
*
Em 2009 passaram na televisão uma reportagem sobre o
último taberneiro do Cartaxo. Sobre isso, e embalado por um livro de poesia de
Vítor Nogueira intitulado “Comércio Tradicional”, escrevi então:
«Preso ao passado, sem esperança no futuro, o último
taberneiro do Cartaxo já não serve a quantidade de cartolas de vinho que servia
noutros tempos. Vai ficando atrás do balcão, entretendo-se com quem passa, e
explica agora para a TV, transformado numa raridade, as três medidas de vinho
que ainda hoje serve a quem lhe frequenta a casa. Ao bater com o vidro dos
copos no mármore do balcão, gesto insignificante para uma imensa maioria de
pessoas habituadas a coca-colas de pressão servidas em copos de papel, o último
taberneiro do Cartaxo desperta-nos do sonambulismo provocado por uma
contemporaneidade alheia ao serviço afectuoso do chamado comércio tradicional.
(…) Perdeu-se o conforto de uma relação marcada pela familiaridade, ganhou-se
em agitação, alvoroço, claustrofobia, pressa».
*
Em suma, não se ganhou nada.
*
Ocorre-me a taberna da Dona Ilda, no Bairro da
Serradinha, em Rio Maior, onde comprei os primeiros definitivos (ou seriam
Kentucky?) e bebi as primeiras ginjas, com menos primaveras contadas que as de
meu pai quando começou a trabalhar.
*
Parece mentira, mas era possível ter-se 10 anos e beber
uma ginja ao balcão. Um tipo começava a fingir-se homem desde cedo, enquanto
mirava os velhos a jogar o dominó dos dias contados.
*
Portanto, para mim taberna começa por querer dizer
nostalgia. E a nostalgia, como bem mostrou Andrei Tarkovsky, é altamente
poética.
*
Já adolescente, dividi-me pelo Escritório, taberna a
escassos metros da escola que então frequentava, e pela Taverna da Raposa (com
um “v” no lugar do “b”, evolução linguística que não me sinto apto a discutir).
Ao vinho a retalho, preferíamos litrosas de cerveja Sagres e aquilo a que os
irlandeses chamam “a pint of Guinness”. Para nós eram canudos de preta.
*
Canudo de preta é uma expressão que ainda hoje me soa
erótica, apesar de a guardar associada ao saudoso Carlos que nos servia tais
regalos. Enforcou-se para espanto de todos, precisamente na sala onde tantas
vezes nos sentávamos dando corda a intermináveis discussões.
*
Suponho que desde então as tabernas tenham perdido
qualquer significado na minha vida, substituídas por cafés de passagem com os
quais procuro não gerar afinidades. Não-lugares, nada que se compare ao Cheers
da deliciosa série televisiva dos anos 80.
*
Só mais tarde vim dar com Fernando Pessoa no Martinho da
Arcada, com os poetas do Café Gelo, com as deambulações alcoólicas do Al Berto.
Houve, de facto, um tempo em que muita poesia saía dos cafés, das tabernas, da
pastelaria. Os poetas andavam na rua, frequentavam-se. Agora sai directamente
das academias e da sala de estar, com as devidas e muito estimáveis excepções.
*
Mantenho-me fiel ao Três Arquinhos, no Rogil, sempre que
por lá passo ligeiros dias de Verão. Agrada-me o cheiro a bagaço pela manhã, o
medronho que acompanha o café, as conversas de circunstância com que se ocupam
os vazios da existência. E passo por lá horas a ler, a escrever, a desenhar. Foi
lá que li “As Cantinas e Outros Poemas do Álcool”, de Malcolm Lowry. Suponho
que as tabernas do poema de Manuel de Freitas devam qualquer coisa às cantinas
de Malcolm Lowry, lugares de desolação e desesperança onde homens destroçados
pelo medo e pela solidão afogam as mágoas em tequila. As tabernas surgem aí
elevadas ao estatuto de santuários onde esperança alguma se ilude e realiza.
*
Igualmente devedoras desta ética do vício são as minhas “Mesas
Privadas, e De Vítima”, título, aliás, respigado num poema de Jorge Falllorca
justamente intitulado “Café”. Publiquei essa sequência de 30 poemas em prosa em
2006, num livro cujo título contrasta com a assumida face selvagem e espontânea
dos textos. O livro chama-se “Estórias Domésticas”.
*
Os cafés, as tascas, os bares, as tabernas desses textos
são palcos para um ambiente de suspensão da vida doméstica. São lugares de
observação do outro, o “eu” neles exposto é absolutamente artificial. Só o
outro ali importa, um outro tão concreto que, em certos casos, facilmente
identificável, como o senhor Alexandre dos matraquilhos, antigo colega de
carteira de Ruy Belo, ou o Noel da “Mesa 7”.
*
Mesa 7
Sempre que o Noel entra no café, olham-no como se ele
fosse um cancro. Uns chamam-lhe Pai Natal, outros chamam-lhe prémio. Ele
senta-se, trauteia uma cantiga francesa, bebe o vinho de um só trago. É um
cancro benigno.
*
Em suma, acerca de tabernas posso constatar haver muita
virtude em certos vícios, saudáveis vícios saudosos. Diria antes, talvez, que
nos salvam do desespero na medida em que nos fazem crer não estarmos sós em
matéria de perdições.
*
quinta-feira, 18 de maio de 2017
SACA ORELHAS
Dia 19 de Maio, sexta-feira, estarei em Coimbra, na Livraria Miguel de Carvalho - livreiro antiquário, à conversa com Fernando Alves, Manuel A. Domingos e Luís Quintais. O mote da conversa são dois versos de Manuel de Freitas: «Onde se lê taberna deve ler-se salvação. / Onde se lê taberna deve ler-se perdição». Clique nas imagens para ver melhor.
“Um Estranho Amor”
O primeiro livro de Elena Ferrante apareceu por cá no ano
de 2005, numa tradução de Maria do Carmo Abreu que a Dom Quixote publicou sem
que recebesse grande interesse de crítica e público. Mais tarde integrado nas
Crónicas do Mal de Amor (Relógio D’Água, 2014), acabou por se revelar uma boa
porta de entrada para o universo da misteriosa autora italiana. Regresso a ele
impelido por um post no Ouriquense intitulado Violência doméstica: dar a outra
face, onde encontro uma afirmação polémica como todas as que nos levam a
pensar: «A mulher pode dar uma chapada. Ao homem resta oferecer a outra face ou
abortar a discussão e fugir».
Quem leia o post entenderá não haver no texto qualquer legitimação do agressor, mas pode resvalar para certos equívocos. Como qualquer assunto complexo, a violência
doméstica presta-se a diversos. O mais recorrente é o de julgar a
gravidade da violência exercida segundo o género do agressor. Outro, igualmente
frequente, é o de partir de um princípio diferenciador das formas de violência
praticadas. A psicológica é sempre muito mais difícil de provar do que a
física, que deixa marcas detectáveis a olho nu.
Um dos temas abordados em Um
Estranho Amor é precisamente a violência doméstica. Quem tenha lido a obra sabe
que a história é narrada pela filha de uma mulher que supostamente se suicidou,
constituindo toda a narrativa um regresso às origens motivado pelo funeral dessa
mulher. Supostamente, porque Delia, a filha de Amalia e narradora participativa,
nunca chega a ser conclusiva sobre os factos. Num processo que se revelará
característico em Ferrante, Delia tenta reviver a vida da sua mãe,
obrigando-se a uma confusão de identidades exposta em comentários tais como
«Fingia não ser eu. Não queria ser «eu», se não era o eu de Amalia» ou «não conseguia
ser «eu» no prazer dela» ou ainda «Era eu e era ela. Eu-ela encontrávamo-nos
com Caserta».
Caserta é a alcunha de um amante da mãe, pai de uma personagem
com quem Delia também terá uma relação, mais uma vez como que procurando
reproduzir a vida da progenitora. Este esforço de se colocar no papel do outro não o
faz Delia relativamente a seu pai, humilde pintor que oprimira e agredia a
mulher. Amalia é perspectivada enquanto vítima, o pai como perpetrador
da violência doméstica que tingiu a infância e a adolescência da narradora.
Amalia encontra-se secretamente com o amante, aceita os presentes de Caserta
deixando furibundo o marido, ao qual restaria apenas dar a outra face se
quisesse evitar transformar-se numa personagem execrável aos olhos da filha. No
limite, divorciava-se. Sabemos o quanto pesava o divórcio no
tempo em que a história decorre, um peso hoje relativizado pela facilidade da
desunião. Se consegue ser complacente para com certos tiques abjectos dos
Caserta, Delia não manifesta qualquer tipo de empatia para com o pai: «O meu
pai não suportava que ela risse. Considerava o riso dela um som de ocasião,
visivelmente falso. (…) Devia ter-lhe sido difícil escolher o riso, a voz, os
gestos que o marido pudesse tolerar». À imagem de uma mãe infeliz contrapõe a
figura de um pai intolerante.
O reencontro revelar-se-á desastroso: «Era apenas
um homem velho privado de qualquer humanidade pela insatisfação e pela
crueldade». Esta implacabilidade no julgamento do pai, sem qualquer tipo de
contextualização que não seja a de lhe traçar um perfil desumano, como é o de
qualquer perpetrador de violência doméstica, leva-nos a questionar qual devia
ter sido o comportamento deste homem face à traição. A determinada altura conta-se que em vez de ter assassinado o rival, o pai dava-lhe ouvidos para
depois espiar a mulher e espancá-la - como se precisasse de uma justificação
para o exercício de uma maldade que lhe era inerente.
Recordo-me, porém, do caso real
de um homem que era reiteradamente traído pela mulher, a qual o humilhava telefonando-lhe
quando estava a ter relações com o amante. O desespero levou a que tal forma de
violência descambasse num crime passional. A determinada altura, de cabeça
perdida, o marido traído apanhou em flagrante delito os infiéis e disparou
sobre ambos. Acabou preso.
O que censura Delia ao pai é pois a questão que aqui
se coloca. Censura-lhe, obviamente, a violência exercida sobre a mulher.
Censurá-lo-ia se ele tivesse matado o amante da mulher? Censurá-lo-ia se ele
tivesse matado ambos? Censurá-lo-ia se ele tivesse dado a outra face?
SEM QUEIXA
Terminada a leitura de O Jantar, fui acossado pelas imagens
divulgadas no canal pasquim que tanta indignação geram de momento e momentaneamente (logo passa). Nem de propósito. Entre o que
agora se mostra e o que outrora se mostrou, aquando do casal em pleno acto nas belas
paisagens de Paredes de Coura, não há muito a acrescentar. É mais um caso de
intolerável paparazzização do mundo.
O mal está nos grunhos que filmam e se
divertem a partilhar o que filmaram com a típica atitude de burgessos. Estão ao nível dos
velhos rebarbados que frequentam dunas à cata de meninas em topless. A putativa
violação (até ver, a jovem não apresentou queixa) não é o acto sexual em si, que nada indicia de especialmente novo. Lembram-se
de Kids, o polémico filme de Larry Clark que em 1995 mostrava as coisas como
elas eram? Pois bem, acrescentem-lhe agora os telemóveis e o culto da devassa.
Acrescentem-lhe igualmente o jornalismo da mediocridade que pega nisto como quem espreme laranjas podres. Sai sumo podre imediatamente
consumido e ampliado por redes sociais e afins. Faz tudo parte de um mesmo jogo
em torno do sexo e dos excessos a ele aliados, num processo cada vez mais
intensificador de falsos moralismos. É o que vende.
Histórias de álcool e de sexo em queimas das
fitas, com parceiros embrulhados por batinas ao relento, são tão banais quanto tremoços.
Bêbados, disponíveis, fragilizados, porventura arrependidos no dia seguinte
mais pelas dores da ressaca do que da consciência, os implicados são parte integrante de um universo que é o nosso. Não estamos a falar de alienígenas. Só que agora filma-se.
A referência inicial ao livro do holandês Herman Koch
não é por acaso. O plot mete ao barulho o filho adolescente de um candidato a
primeiro-ministro e um seu primo que se divertem a humilhar vagabundos e
sem-abrigo. Há um homicídio pelo meio, involuntário como sempre são nestes casos. Tudo filmado e registado nos telemóveis como um pôr do sol em tarde
de Verão. Que grunhos são aqueles no autocarro do Porto? Que rapariga é aquela?
De onde vêm? De onde saíram? Com que educação terão sido formados? Onde estão
os pais? Terão feito o mesmo? E onde está a sociedade que os pariu e continua a gerar outros como
eles? Está a fazer os seus próprios vídeos, aposto.
EFEITO SERPICO
Adormeci no sofá enquanto revia Serpico num qualquer canal
de filmes do MEO. Não me recordo até onde consegui acompanhar as desventuras de
Al Pacino, polícia singular na New York dos anos 70. Contra o seu idealismo
juvenil, colegas corruptos e chefes manipuladores, insidiosos. Mais uma vez a
hipocrisia enquanto lei natural no domínio da corporação. Podemos passar a vida
a fingir que está tudo bem, cedendo aqui e acolá, compensando pela calada
abusos de poder que jamais alguém admitiria se confrontado em tribunal com os mesmos. A honestidade não é para aqui
chamada. Importa responder ao que é exigido segundo as regras de quem exige,
regras contrárias a uma lei que não protege nem da coacção nem do bullying
exercido por quem manda. No fundo, o sucesso exige capacidade de adaptação à
mentira. Viver em mentira, de acordo com o assédio de quem impõe as regras.
Cair nas boas graças é isto mesmo. E por mais que se lute contra isto, há
sempre uma “alma caridosa” qualquer que, ou não o percebendo, ou fazendo
orelhas moucas, cede ao assédio e quebra um elo entre os mais fracos que seria
indispensável ao combate. Esta cedência é imperdoável, diz muito da fraqueza
com que os idealistas têm de lidar. Esta cedência vampiriza a força da união,
quebrando-a, fracturando-a, legitimando os abusos, a hipocrisia, a mentira.
Adormeci a ver Serpico.
quarta-feira, 17 de maio de 2017
MOONFLEET
Baseado numa popular história escrita por J. Meade
Falkner, onde o gótico e a aventura se misturam, Moonfleet/O Tesouro do Barba
Ruiva (1955) é um dos filmes americanos de Fritz Lang menos considerados. No
entanto, é ainda o sentimento de culpa, tema maior na obra do cineasta alemão,
o que mais evidentemente atravessa a relação entre o trapaceiro Jeremy Fox e a
criança que foi entregue ao seu cuidado por uma ex-amante caída em desgraça.
Com a acção concentrada numa vila piscatória no sul de Inglaterra, o filme
balanceia uma humanidade separada por classes mas unida no crime.
Contrabandistas rústicos ao serviço de aristocratas corruptos, perseguidos por
um magistrado que ninguém respeita. A adaptação livre operada por
Lang coloca o foco na relação entre o inocente rapaz John Mohune e o ambíguo
Jeremy Fox, que tanto procura ver-se livre do rapaz como se aproveita dele em
benefício próprio, acabando por recuar nos seus intentos para nos servir um
final feliz. Cinema, portanto.
A questão que se me coloca é até que ponto seria
possível tal inversão moral. O cinema está cheio destes exemplos de conversão,
tipos de mau carácter que mudam o sentido das suas acções impelidos pela força
maior da consciência. Seria preciso maior prova de que o cinema não é uma
reprodução da realidade? Fazer-nos acreditar nesta possibilidade é um apelo aos
bons sentimentos, uma promoção artística dos valores verdadeiramente humanos. No
plano real, quotidiano, histórico, a maioria dos exemplos desmente a boa
vontade do artista.
Um canalha raramente deixa de ser um canalha, um cretino
raramente deixa de ser um cretino, uma mente corrupta raramente logra
transcender as fronteiras da corrupção. Não sou propriamente fatalista nem
fundamentalista nestas questões. Acredito que um tipo que faça algo de errado
possa tomar consciência desse erro e procurar melhorar enquanto pessoa,
acredito na boa vontade do ser humano e na sua capacidade de se transcender.
Mas o facto de acreditar não desmente os dados da observação, segundo os quais constatamos
haver muita gente ruim e malformada...
...gente sem qualquer sentido ético da
existência, gente arrivista, gente capaz de fintar a lei convencida de que a lei é
apenas um empecilho no seu direito ao sucesso, gente para quem tudo vale, gente
que não olha a meios para atingir fins, gente gentalha do mais cruel e
insensível que possamos imaginar, gente para quem o outro não é senão coisa ao
seu dispor, gente medíocre, interesseira, presunçosa que nem reconhece o mal
que faz aos outros quando esse mesmo mal a atinge, porque, como dizia o poeta,
é castigo do vício o próprio vício e, como diz o povo, há feitiços que se
voltam contra o feiticeiro.
terça-feira, 16 de maio de 2017
TEORIA DO UM
Uma leitura mais atenta de Teoria do Um, livro que a
Douda Correria publicou em dois volumes vindos a lume em Maio de 2015 e Setembro
de 2016, com tradução do hebraico por João Paulo Esteves da Silva, permite-nos
detectar na poesia de Mordechai Geldman uma dimensão whitmaniana de que o poema
Tora do Um (in Vol. II) é talvez o exemplo mais flagrante. Para o efeito,
convém ter em conta as palavras introdutórias do tradutor: «O poema “Tora do Um”
que agora se publica é, na versão original, o poema título e poderia (para não
dizer, deveria) intitular-se, simplesmente “Teoria do Um”; contudo, para não
desnaturar o tom especificamente religioso com que o termo é empregado neste
poema, optei por manter a palavra hebraica ‘tora’. E agora peço ao leitor que
tiver tido a paciência de ler esta nota, que sobreponha mentalmente a ‘tora’ as
letras ‘e’ e ‘i’ quando ler o poema em causa, e imagine a harmonia possível
entre ‘tora’ e ‘teoria’». A opção é válida, na medida em que a
unidade teorizada nestes poemas não tem a força de lei de uma escritura
sagrada. Assume, antes pelo contrário, o carácter herético de uma poesia aberta
à alteridade.
O problema da alteridade acaba por ser o mais interessantemente
exposto na ideia de unidade explorada nestes poemas. No Vol. I esse problema
surge implicitamente na utilização de um vocabulário revelador de desmultiplicações
do eu, quer quando confere à poesia a natureza reflexiva de um espelho capaz de
mostrar «a tua alma mais secreta», quer quando, inversamente, afirma que a
«nudez trai a verdade» por também ela ser um traje. Talvez mais prosaicamente,
no poema intitulado Karaoke é a questão da imitação que sublinha essa
desmultiplicação do eu. Na sua aparente simplicidade, os poemas de Mordechai
Geldman buscam uma verdade que escapa aos sentidos imediatos, uma verdade que desmente o princípio de não contradição ao acolher no seu
discurso as nuances crepusculares do ser. A segunda pessoa a que se dirigem
tantos destes poemas é, na realidade, uma pessoa absoluta onde cabem todos os géneros
e oposições, não é o outro infernal de uma moral materialista nem a figura
romântica de um tu ausente, não é um destinatário concreto, é todo aquele que,
em abstracto, possa identificar-se, na sua alteridade, com as palavras do poeta.
«Os poetas não escrevem / são prescritos e escritos / vacuidades embaraçadas /
desenham-lhes a poesia e o destino / poesia e destino sinonimizam / na pousada
do léxico / algo maior do que eles conduz-lhes a alma», afirma-se num poema do
Vol. II. Já no poema longo intitulado O Poeta e o devaneio este mesmo problema aparece
sumariado em dois versos importantíssimos: «são um só o poeta e o outro / são
um só o poeta e o não poeta». Numa poesia assim deixa de fazer sentido opor o
mesmo ao outro, a matriz simbólica do espelho leva a uma constatação: «um dia
hei-de ler os meus poemas / como se os tivesse escrito um estranho». O outro-eu não surge aqui de um qualquer tipo de fusão que geraria apenas confusão, pelo menos não tanto quanto parece surgir de uma consciência de si mesmo enquanto ser aberto ao mundo e, neste sentido, mais afirmado do que anulado pela diferença.
O tom
coloquial adoptado, em alguns poemas do Vol. II de um erotismo exacerbado
(vide, a título de exemplo, os poemas Porno 13 e Porno 14), gera entre o leitor
e o poema uma aproximação natural, sem que em nenhum momento resvalem as
palavras para a banalização de temas tão universais como sejam os do amor e
da morte. Antes pelo contrário, na sua tal aparente simplicidade esta é uma
poesia altamente problemática que apela a uma reflexão sobre os limites da
capacidade transfiguradora do discurso poético: «Vi que sonhava / e saí por um
momento do meu sonho / o que é que se revelou para lá do sonho / que dizer ou
que falar / já não me lembro / voltei a afundar-me no sono / e sonhei que ia a
sonhar / com a realidade perfeita / ou seja com um sonho / vou rezar ao meu
sonho / na lua de mel de luxo / do meu enlace com a noite».
Há “poemas duplos” que se distinguem apenas
pelo género do sujeito a que se destinam, outros há que se retomam como um eco
(comparem-se Sozinho, do Vol. I, com Sozinho também esta manhã, do Vol. II),
produzindo assim um efeito de continuidade na diferença, uma espécie de cabala cujo
principal ensinamento é o de um encontro autêntico através da linguagem
poética. Sem negar a singularidade do indivíduo, esta "teoria do um" admite a
alteridade no indivíduo. O eu é já um todo onde cabe a diversidade, um pouco à
maneira do que Pessoa desenvolveu com a heteronímia e Walt Whitman semeou com
uma canção de si mesmo englobante da mundana pluralidade que afecta a pessoa humana.
Aponte-se apenas a repetição escusada nos dois volumes (terá sido lapso?) de um
mesmo ciclo de haiku intitulado Kyoto.
UM POEMA DE MORDECHAI GELDMAN
Tora do um
Desde o início que amei estrangeiros
será este o lado mais divino da minha alma
das crianças iemenitas com madeixas aos caracóis
com quem estudei regras e cânticos
o meu amor passou para os índios de Hollywood
e deles para os cidadãos tristonhos do governo militar
e deles para os palestinianos nos andaimes
e para os filipinos que ajudam velhos
e para os refugiados africanos belos
dormindo nos jardins numa nuvem de perfume estranho
e cozinhei lentilhas para o Michael da Eritreia
amei estrangeiros e estranhos e até doentes e aleijados
e as prostitutas e os prostitutos os criminosos e os agarrados
e percebi as cabeças dos reis dos anjos e dos jogadores de futebol
crânios feitos com diamantes
amei as línguas e as culturas
ainda que preferisse italiano e repuxos
e jardins de pedra e caligrafia japonesa
os cantos dos povos soavam-me por dentro com os pássaros da geografia
e todos os bichos da terra mugiam e uivavam
com os sinos das estrelas
e os murmúrios do vento no campo dos sapos
deuses alheios tomaram-me o coração
fiz sexo com os sacerdotes de todas as religiões
e beijei uma prostituta sagrada
nas nuvens de incenso dos seus templos
e amei à primeira vista
os monges jovens e as abas dos seus mantos
tive apenas deuses alheios
multidões de deuses alheios
e profetizei na praça principal
em nome de um deus inventado
ao som de tambores e gongos e flautas gritantes
que excitaram os meus olhos até às lágrimas
os escritos sagrados de todos os povos
foram sagrados aos meus olhos
e meteram-me electricidade metafísica nas mãos
mas isto é o sermão do herege
que ama qualquer tora
e não acredita em nenhuma
este é o canto do herege
que ama todos os deuses e os ídolos e o deus
mas não acredita na sua divindade
este é o canto do herege de si mesmo
que reza ao que está para lá do sagrado
ao que surge quando se perde
em desertos de areia na companhia de uma barata
e que não tem nome nem título nem imagem
e cuja tora é a tora do um
querubins copulando sobre a arca sagrada
Mordechai Geldman (n. 1946, num campo de refugiados em Munique, filho de pais polacos emigrados para Israel em 1949), in Teoria do Um - Vol. II, tradução de João Paulo Esteves da Silva, Douda Correria, Setembro de 2016, s/p.
O JANTAR
O Jantar (Alfaguara, Junho de 2015), de Herman Koch (n.
1953), não obteve em Portugal o sucesso que várias notas de imprensa
reproduzidas na badana e na contracapa da edição portuguesa indiciam. Recordo-me
de uma recensão no Público que resumia o romance numa palavra: incompetência. Nem
tão mau quanto uma estrela, em cinco, pode sintetizar com demasiada acidez, nem tão bom
quanto as citações respigadas na imprensa internacional ventilam, O Jantar tem
a capacidade de nos colocar contra o narrador, independentemente dos juízos
morais que possamos ser levados a fazer sobre a forma como lida com a dificuldade
em mãos.
Professor de História “no inactivo”, por razões de saúde nunca
explicitadas, Paul Lohman narra-nos um jantar de família percorrendo um roteiro
convencionalmente distribuído por seis fases: aperitivo, entradas, prato
principal, sobremesa, digestivo, gorjeta. Digamos que entre os seis momentos se
destaca uma certa fragilidade estilística, oscilando entre a comédia de costumes
inicial e um thriller psicológico que nunca chega bem a sê-lo, já que os
eventuais momentos de tensão acabam invariavelmente traídos pela recorrente inoperância
do narrador. Perdido em conjecturas supérfluas sobre o conceito de
família feliz, olha para o filho Michel com insuportável indulgência, remói-se
sempre que se compara com o irmão, político famoso em vias de se tornar
primeiro-ministro da Holanda, parece ter de si próprio uma imagem desfocada.
Não é figura com quem se simpatize, ainda que, enquanto personagem literária, não
seja essa a sua maior fraqueza.
O problema está na superficialidade com que
temáticas complexas aparecem emolduradas na consciência de Paul, do racismo ao
bullying, passando pelos comportamentos desviantes e pela criminalidade na
adolescência, problemas que parecem não merecer o mesmo grau de reflexão que
lhe merece, por exemplo, o jacto de mijo de um cliente na casa de banho de um
restaurante luxuoso. Mostra-se saturado com a verborreia e a conversa fiada à
mesa do restaurante, julga os gestos do irmão, da cunhada e da mulher que com
ele dividem a mesa, concentra-se nos tiques do gerente e das empregadas, na compostura
dos restantes clientes perante a presença de um político famoso, mas nenhuma
destas divagações lhe oferece um interesse que o resgate da banalidade.
É no
prato principal que a história inflecte para direcções mais contagiantes. O
motivo do jantar obriga o narrador a exercícios de memória que nos deslocam
para outras dimensões, como sejam a indiferença das classes abastadas relativamente aos desfavorecidos ou o paternalismo de um discurso doméstico que parece ter abdicado da formação moral exclusivamente em favor do proteccionismo parental. Herman Koch baseia-se parcialmente no homicídio de uma
sem-abrigo em Barcelona, espancada e queimada viva no interior da entrada de um
banco, junto às caixas multibanco, por três jovens que terão alegadamente agido
por diversão. O foco é colocado na consciência dos pais dos jovens envolvidos.
Como lidar, enquanto pais, com uma situação destas? Parece haver um fio de
hipocrisia a ligar o ambiente no restaurante luxuoso e a atitude dos pais,
protectores, cúmplices, negacionistas e desculpabilizadores.
Confrontado com as
imagens do crime, Paul questiona-se até que ponto o filho pode ser inocente. Repugnam-nos
as desculpas de que se serve para inocentá-lo, não pela inexistência de uma
consciência de culpabilidade mas por tudo aparecer confinado à simplicidade de uma lei natural: «Fiz aquilo que achava que devia
fazer como pai: pus-me no lugar do meu filho» (p. 149). Tivesse o autor feito
algo parecido, colocando-se no lugar do leitor, talvez este jantar ganhasse outro interesse. Não o tendo feito, por incapacidade ou desinteresse, como que
nos serve um daqueles pratos que tanto irritam o narrador, um prato onde o que
mais se destaca é o vazio.
«Nem todas as vítimas são automaticamente inocentes»
(p. 183) é a súmula moral aqui ensaiada, mas sem argumentação que a sustente e
nos convença. De resto, perante os factos aludidos, pouco importa a inocência
da vítima, mesmo considerando que pudesse atenuar a gravidade da pena. De um
mesmo modo poderíamos advogar que nem todos os criminosos são automaticamente
culpados, embora a sofisticação da premissa não legitime o facto mais evidente,
ou seja, o crime cometido. Em três frases, o carácter de Paul pode ser
resumido como resumida fica a leitura deste romance: «Às vezes, ouve-se falar
de pessoas que perderam o olfacto e o paladar: para elas um prato com a comida
mais deliciosa já não significa nada. Era assim que eu via às vezes a vida,
como um prato de comida a arrefecer. Sabia que tinha de comer, caso contrário
morria, mas tinha perdido o apetite» (p. 203).
Uma última referência à fraquíssima
revisão que empobrece bastante a leitura.
segunda-feira, 15 de maio de 2017
BANDA SONORA ESSENCIAL #4
O que é uma boa canção? Regresso a esta caixa à procura
de uma resposta. Billie Holiday cantou alguns dos que são hoje considerados entre
os melhores compositores de canções de todos os tempos: Irving Berlin, George
Gershwin, Cole Porter, Duke Ellington. Em todos eles encontramos as
tradicionais histórias de amor para a vida e para a morte, ora nostálgicas, ora
descontinuadas, quando não amaldiçoadas. Amores doentios, românticos e
trágicos, ligeiros como uma brisa em noite de Verão. Por vezes, o elogio da
vida simples. Noutras ocasiões, a dança, o álcool, a alegria nos clubes
nocturnos, um encontro fugaz e um copo para matar a tristeza, a nostalgia, a
melancolia. A lua é quase sempre mais cantada do que o sol, apesar de
Summertime.
No blues vislumbramos ainda as entrelinhas sociais e
políticas, o canto da libertação, o lamento, o protesto sofrido. Abel Meeropol
serviu-se do pseudónimo Lewis Allan para escrever Strange Fruit, canção que
viria a tornar-se icónica no reportório de Lady Day pela denúncia que fazia do
racismo em terras norte-americanas. Mas estes temas não são tão frequentes
quanto seria de esperar, assumindo até o papel de peças raras entre uma infinidade
de histórias de amor para “cocantar”. I’ve Got My Love To Keep Me Warm, de
Berlin (que importa se faz frio lá for a?), Let’s Call The Whole Thing Off, de
Gershwin (divertido jogo de palavras sobre desaguisados), Night and Day, de
Porter (a omnipresença da figura amada), são apenas exemplos de grandes canções
sobre temas… banais.
O que faz, então, uma boa canção? Há canções excelentes de
dois acordes (Lou Reed escreveu imensas em ré e sol), pelo que a complexidade da
composição não responde à nossa dúvida. Inúmeros blues são variações da
sequência clássica mi-lá-si. Melodia e harmonia, arranjos equilibrados, ajudam
a fazer uma boa canção. Talvez o que faça uma boa canção seja, em parte, o intérprete.
Interrogada sobre a prestação de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão,
Luísa Sobral disse que até podia ter dado ao irmão a canção do "parabéns a você". Ele
faria, por certo, algo de muito especial com ela. É, sem dúvida, um excelente
intérprete. Não obstante, bastará ser um excelente intérprete? A Luísa Sobral
estava a ser modesta.
Em 44 anos de vida, Billie Holiday legou à posteridade um
conjunto generoso de magníficas e impagáveis interpretações. Quando a escutamos percebemos
tanto o que significa feeling como o que quer dizer swing, entendemos os conceitos de blues e de soul, e compreendemos como nada disto tem tradução
literal para português, pois feeling não significa sentimento, nem soul quer
dizer alma, swing é algo mais do que balanço e blues, bem, blues não é de todo
uma cor plural. É costume ouvir aos fadistas falar do fado como um modo de vida.
Enfim, numa boa interpretação a gente pressente um modo de vida. Emoção talvez seja conceito relevante, talvez uma boa canção seja aquela que nos emociona.
Ora, haverá sempre um elevado grau de subjectividade
nestes domínios. Nem toda a gente se emociona da mesma maneira. Se muita gente,
e tão dissemelhante, se emociona com uma determinada canção, será no mínimo
escusado questionarmos a sua qualidade. Já não se trata de um problema de
minorias contra maiorias, de uma pretensa racionalidade de certas elites
esclarecidas contra a histeria colectiva das massas, não se trata de opor o
erudito ao popular. Não é uma questão de popularidade. É uma questão de agarrar
na canção e isolá-la, levá-la para a ilha deserta da nossa intimidade e tentar
perceber se ela nos emociona ou não, se nos toca ou não nesse lugar onde um
corpo dispensa outro corpo para se sentir tocado. Basta uma boa canção.
Foi Deus, na voz de Amália, jamais me tocará tanto como
Embraceable You, na voz de Billie Holiday, desde logo porque aquele simples
verso “Bring out the gypsy in me” me dirá sempre mais do que o tom oratório de
Deus a pôr no peito da fadista um rosário de penas. São duas grandes vozes, são duas belas canções, mas basta-me um verso para decidir. Contra isto, nada há a
fazer. Também ninguém espera que se faça o que quer que seja. São apenas
canções:
SANTUÁRIOS
A norte do Tejo, o panorama é este. Há bens, riqueza,
potencial. E uma memória que nos liga à terra e à natureza. Deveria ser este o
nosso santuário. Com uma operação simples, a troca e posterior ajuntamento das
terras de que somos proprietários, haveria um enorme aumento de riqueza.
Separadas não valem nada. Ou terão, quando muito, valor negativo. Constituem
acendalha no pico do Verão, perigo para os vizinhos, consumo desnecessário de
recursos. Se cada um prescindisse de cinco por cento da terra de que é proprietário
(disponibilizando-a para utilidade pública ou para distribuir a quem dela
fizesse uso) ficaria ainda a ganhar. Com um valor maior. Com possibilidade de
cultivar floresta, ou pomar, ou olival, ainda que em actividade de
fim-de-semana.
Âncoras e Nefelibatas, aqui.
domingo, 14 de maio de 2017
F. F. F.
Fátima – Pela manhã, um enjoo de papa levou-me ao vómito.
Lucas, a criança milagre, veio do Brasil, está bem e sem sequelas, asseguram os
pais enquanto garantem: foi Nossa Senhora. A Igreja acolhe o milagre,
promove-o, os fiéis esvaem-se em lágrimas, peregrinam até ao santuário e
exultam com o terço coxo (diz que lhe falta uma conta) da Vasconcelos. A
República desce ao beija-mão com o mesmo oportunismo de 1917. Olha-se para
aquilo tudo com a sensação de que não passaram 100 anos por nós, nenhuma ciência,
nenhuma História, nenhuma tecnologia, nenhum progresso, nada, absolutamente
nada aconteceu. Leia-se ou releia-se Na Cova dos Leões, de Tomás da Fonseca.
Futebol – Sportinguista que se preze não pode senão
reconhecer mérito a este tetra. Com as televisões invadidas pelos festejos,
recolho-me em reflexão com alguma ansiedade. Roubaram-me os lenitivos
preferidos, sejam o Governo Sombra ou o Eixo do Mal. Seria difícil adormecer,
não me puxassem os festejos para uma conversa de aqui há tempos com o meu amigo
Ferreira. Com o Jorge Jesus vais ter espectáculo garantido, dizia-me ele. Eu,
relativamente chateado com o afastamento do bom Marco Silva, mostrava-me
céptico. É uma mania minha, pautada pela evidência: Jesus não quer
nada comigo. Nem o outro, nem este. The show mus go off, camarada Ferreira.
Festival – O trabalho impediu-me o directo, mas lá fui
espreitando pelo sítio da RTP o que ia acontecendo. Já com a porta fechada,
fiquei na companhia de uma colega e dois seguranças a assistir à consagração
final. A vitória portuguesa é-me especialmente querida por várias razões.
Primeira, adoro a canção. Já o tinha dito aquando da audição inaugural.
Segunda, simpatizo com a postura do Sobral. Gosto do timbre, dos tiques, do
inegável bom gosto, do aspecto algo freak. Terceira, a canção impôs-se por
aquilo que é, sem gajas boas nem fogo de artifício, sem coreografias pirosas
nem lantejoulas, sem mulheres com barba nem tranças de três metros, sem
pirotecnia. Simples, sóbria, directa ao coração. Em suma, é um sinal de esperança,
ainda que ténue, como sempre sucede com estas coisas, que aquele despojamento
tenha tocado as pessoas. O Sobral foi mesmo o salvador de um dia amargo.
Agradecido.
sábado, 13 de maio de 2017
FÁTIMA KITSCH
Foi em 2006 que surgiu a ideia de escrever o livro sobre
o imaginário iconográfico kitsch associado aos fenómenos religiosos
de Fátima. “Queria compreender o porquê daquele esparrame de lojas e
quinquilharia na cidade de Fátima e como é que a imagem de Nossa Senhora de
Fátima era aproveitada do ponto de vista comercial.” Ondina começou a levantar
várias questões aos comerciantes e lojistas, mas para as quais não conseguia
respostas. “Por que é que numas peças apareciam as três pombas? Por que é que a
Nossa Senhora aparece sem coroa e outras vezes com uma auréola? O que é que
está por detrás destas representações comerciais?”
Notícia aqui.
Entrementes:
I - COMPANHIA
1.
Um homem tão frágil quanto uma flor. Profissão: tudo o que convier no momento, quando precisa de conversar. Coxeia de mesa em mesa, aproxima-se dos outros com cuidado, chupa cego pedacinhos de nada que lhe atiram, vai pedinchando a esmola da atenção, com o olhar fere o sorriso ainda plano das crianças
a correria ruidosa em volta do seu lugar — amarra-lhe o corpo, o disparo na respiração limpa de uma das crianças, marca-a com o dedo, a sedução em silêncio —
retomam o riso, a respiração ofegante, a correria. Procura nos bolsos. Uma sede que lhe torce a língua, come-lhe o estômago, fede à distância, dá-lhe náuseas
Regresso ao escuro.
*
Tão frágil quanto uma flor. Como pegar nela, espremer o seu nervo escanzelado de vida, golpe azul que se deita espesso até ao fundo pela palma da mão —
dedos caridosos salpicam o derrame lento sobre o focinho do artista, dão-lhe a provar o cúmulo negro das unhas — dá voltas sobre a sua sombra, não consegue lamber — nenhuma palavra, nenhum fôlego, gane alto sem vergonha — de nada lhe servirá a vontade de falar
*
Frágil como uma flor. Mudá-la de sítio —
passa inclinado, despercebido, vaidoso nas suas pétalas rasgadas, a boca espera numa vontade de chuva, não se ouve — entra o sol, extingue o seu círculo branco de pétalas, desce certeiro até às raízes
— vê, estão podres.
Frederico Pedreira (n. 1983), in O Artista Está Sozinho (2013). Estreou-se com um volume de poemas intitulado Breve
Passagem pelo Fogo (2011), denotando logo aí uma tendência narrativa que volumes
posteriores consolidaram. Ensaísta e contista, Frederico Pedreira é doutorando
em Teoria da Literatura. À formação académica responde com textos por vezes
fragmentários e assumidamente inóspitos, mal-educados. Da sua poesia retemos
uma vivência atribulada que coloca a personagem algo dúbia do artista/poeta/escritor num lugar
de desentendimento com o mundo, desacordo transfigurado por um discurso
elíptico, parcelar, num ritmo aos solavancos por vezes difícil de acompanhar. Oscilações
de humor oferecem-lhe um tom emocional inquieto, adquirindo o texto amiúde a
forma catártica de um intimismo destroçado.
QUATRO PARES DE ÓCULOS
Nunca chegaste e no entanto todos os dias espero que
partas. Todos os dias me despeço. Todos os dias aguardo. Todos os dias me
habituo à tua ausência. Todos os dias lhe digo, a ela, que te conserve.
É extenuante viver o que não existe.
eu.a.outra, aqui.
sexta-feira, 12 de maio de 2017
QUEM FOI HENRI MICHAUX?
— Nós outros —
Na nossa vida nunca nada esteve certo.
Certo como destinado a nós próprios.
Nada na nossa vida se consumou profundamente.
O triunfo, a perfeição,
Não, não, isso não nos é concedido.
Mas agarrar nas mãos o vazio,
Caçar a lebre, deparar com o urso,
Corajosamente atacar o urso, tocar no rinoceronte.
Ficar despido de tudo, suando o seu próprio coração.
Atirados para o deserto, obrigados a refazer o rebanho,
Um osso aqui, um dente acolá, um corno além.
Isto sim, isto é nosso.
Dizer que nascem neste momento as sete vacas gordas.
Nascem, mas não somos nós quem as há-de ordenhar.
Acabaram de nascer os quatro cavalos alados.
Nasceram. Só pensam em voar.
É difícil refreá-los. Irão quase até aos astros, estes cavalos alados.
Mas não somos nós quem os cavalgará.
Caminhos de toupeira, isso é nosso, caminhos de ralo.
Chegámos às portas da Cidade.
Da Cidade-que-interessa.
Não há dúvida, cá estamos. É ela. É mesmo ela.
Quanto penámos para chegar... para partir.
Arrancar-se lentamente, clandestinamente, arrancar os braços que ficaram lá atrás...
Mas não seremos nós quem há-de entrar.
Serão jovens com muita pinta, jovens muito jovens, muito violentos, muito orgulhosos, sim, esses é que hão-de entrar.
Mas nós, não, nós não entraremos.
Não passaremos daqui. Stop. Nem mais um passo.
Entrar, cantar, triunfar, não, não, isso não é nosso.
Henri Michaux (n. 24 de Maio de 1899, Namur, Bélgica - m. 19 de Outubro de 1984, Paris, França), in Doze Nós Numa Corda - Poemas Mudados Para Português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Dezembro de 1997, pp. 129-130. Nota: do nada, pediram-me que explicasse quem foi Michaux. Preenchi o vazio com meia dúzia de banalidades, que nasceu belga, viajou muito, pintou, consumiu drogas com intuitos criativos. Podia ter sido padre, mas acabou a coleccionar caligrafias. Quem foi Henri Michaux? Responda quem souber.
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