quarta-feira, 19 de abril de 2017

CANÍCULA

Aceitemos a advertência inicial, não como desculpa pelo desarranjo, seria desnecessária, mas como declaração de princípio. O método é a ausência de método. Nas palavras de Daniel Jonas (n. 1973), uma escrita currente calamo, isto é, ao correr da pena, sem cuidar do estilo. Nesse sentido, Canícula (Língua Morta, Janeiro de 2017) é um livro diferente dos anteriores livros de Jonas. Se havia marca que o definia era precisamente o cuidado colocado na arrumação dos versos, a definição de um estilo a partir da recuperação de formas clássicas como o soneto, assente numa desconstrução sintáctica capaz de oferecer ao discurso uma musicalidade distinta. 
Os poemas de Canícula surgiram no contexto de uma residência artística, não têm título, são como que fogachos instantâneos consequentes de uma experiência específica. Paradoxalmente, raramente estes poemas não induzem uma espécie de encenação. Lisboa é o pano de fundo num palco que coloca bem no centro a figura do flâneur, aturdido com a balbúrdia de estímulos que o provocam a ponto de se voltar para si próprio como o caracol que se protege no interior da concha que carrega pelo mundo. 
A imagem da casa é recorrente ao longo do livro, mais forte nos poemas iniciais. O poeta tenta abandonar a casa e embrenhar-se na cidade. Mas a relação que mantém com o mundo à sua volta é conflituosa, impele-o a voltar-se para dentro de si próprio: «Eu sou o que vejo fora de mim. / Eu sou o desejo e para mim / de mim mesmo caminho… / Eu sou o destino se o destino / não fosse lá no passado… / Eu cá em casa comigo mesmo. / Eu cá em casa dupla / eu em mim mim em casa / a casa na grande paisagem de nada / cebola metafísica roca bolbosa / fiando o seu rebobinar de lágrimas / até ser de novo limpo o nosso passado» (pp. 24-25). Mais à frente, já num dos poemas finais, esta forma de ensimesmamento repete-se e como que atinge um ponto de saturação: «Eu simpaticamente penso nos outros. / Eu dou-lhes o benefício de os pensar. / Eu dou-lhes o cumprimento de os olhar. / Eu estendo-lhes a mão do pensamento. / Eu sendo o bode afio na barbicha / a fonte de onde o sangue brotará de fontanário / para dessedentar o turista engalanado de olhos / e jorrar hemofílico sobre o baile dos vampiros / como uma bomba de água que explodisse na ciranda dos putos / entontecendo juntos como tribos austrais / na joeira da cidade estrangulada» (pp. 88-89). 
Mais estimulantes são, pois, os momentos em que o eu parece pretender libertar-se de si próprio, ensaiando uma linguagem enfática, fortemente imagética, de estilo barroco, expressiva, exclamativa, transfigurando a realidade com um raro sentido plástico das palavras. De resto, se nos poemas de Daniel Jonas reconhecemos uma ampla arqueologia da língua portuguesa, isso deve-se também à desmesura da linguagem que pratica. Abundantes em jogos fonéticos e polissémicos, por vezes em favor de um sentido de humor nem sempre conseguido — «Este pato foi-me sacrificado. / Este pato não grasna no meu prato. / Este pato é arroz com ele. / Este pato é pathos. / Este prato é uma pena. / Vou dar de comer à dor…» (p. 70) —, os poemas de Canícula tornam-se bem mais interessantes quando exprimem em imagens deformadas, até grotescas, a vida urbana, o que resta de vida numa cidade desviada das suas gentes. 
O poema longo que vai da página 44 à página 52 é exemplo do que melhor encontramos neste livro. O flâneur metamorfoseia-se numa espécie de caracol que sobe e desce vagarosamente as colinas da cidade, cruzando-se com turistas, estátuas, «um lagarto radiador de lentura» (p. 45), velhos e velhas, moçoilas, uma procissão de lojas e construções, para a si mesmo regressar com a consciência de nunca de si mesmo ter saído. Nas entrelinhas desta noção de um lirismo tirânico surge, então, a possibilidade demiúrgica da poesia: «Que eu seja em vez de vós, mediador, / o vosso sítio, o meio de chegardes / a sítio e já nenhum e todos comigo» (p. 52). 
Talvez esteja implícita uma interrogação acerca das possibilidades da poesia enquanto transfiguração do real na perscrutação do eu lírico aqui levada a cabo, oferecendo Daniel Jonas aos seus poemas a retórica do delírio enquanto forma do eu e o outro se fundirem num só discurso. Podemos, desta forma, ler Canícula como um diálogo implícito com os nossos modernistas, nomeadamente com Álvaro de Campos e certo Almada, na medida em que também neles a cidade instigava a uma histeria que fortalecia o contraste entre um discurso intimista e a transgressão desse intimismo a partir da expressão excessiva das sensações assimiladas na relação com o outro. Fechemos com um poema breve onde tal contraste parece perceptível:

Eu choro os transístores, a melopeia da cidade.
Exsudo como um boxeur combatendo na sauna
sentado a um canto do gongo
do eléctrico passando a ferro
as rugas de ferro do empedrado

adopto uma política isolacionista
como um códice adormecido numa torre

entretanto amo-te
mas sou tão inútil quanto um bote
engomando o talco do lago
onde patos como chávenas de um serviço
deslizam, planando os silêncios
e a filosofia botânica das coisas.

Vou passando de embaraço em embaraço;
desembocarei nas docas
olhando o meu rosto no espelho
como um epitáfio tipo-passe.



Daniel Jonas, Canícula, Língua Morta, Janeiro de 2017, p. 90.

terça-feira, 18 de abril de 2017

BRUCE LANGHORNE (1938-2017)


Porventura mais conhecido pelas diversas participações em álbuns de Bob Dylan, acompanhou também Joan Baez, Judy Collins, Richie Havens, entre muitos outros. Com um estilo que aproximava a folk do rock, Langhorne foi uma forte influência na inflexão eléctrica levada a cabo por Dylan ainda nos anos 60. Inspirou a letra de Mr. Tambourine Man, nas palavras do próprio Dylan. Mais tarde, participou na banda sonora de Pat Garrett & Billy the Kid e escreveu ele próprio os temas para um western de Peter Fonda intitulado The Hired Hand (1970). O disco foi publicado apenas 35 anos depois do filme ter sido exibido. 

ACERCA DE "A GRUA"


Paulo José Miranda escreve sobre A Grua. Abra a imagem num novo separador para ver melhor ou siga para a edição on-line: aqui. Um excerto: 


Mas há alguma coisa boa neste livro? De outro modo, há alguma coisa boa que este livro nos mostre, para além da consciência cortante do estado miserável do mundo e dos homens? Há! Mostrar-nos que precisamos de ver. Não é urgente o amor. É urgente ver. É urgente a consciência da existência do fora de nós. Impossibilitados que estamos de nos olhar a nós mesmos, neste mundo que nos pisa, neste mundo em que o emprego nos suga as horas e a alegria e a possibilidade de pensar, e nos empanturra de entretenimento, é urgente olhar as coisas como se nos olhássemos a nós. Uma grua, um sapato, uma árvore que resiste nos baldios, podem despertar-nos para a nossa vida. Ver lá fora é preciso, diz-nos este livro. Talvez o diabo tenha criado o ecrán de televisão, o ecrán de computador, o ecrán, para nos impedir de ver o mundo, de ver as coisas, de ver os outros. Porque o mundo que nos aparece nos ecráns não é o mundo, mas um filtro do mesmo. No ecrán o que nos aparece é a distancia, uma distância em relação ao mundo. O mundo é o que nos é próximo. Embriagados de distância, afastamo-nos de nós e do mundo.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

LITTLE BIG MAN (1970)



Raramente encontramos actores de ascendência índia nas fileiras de Hollywood. Sem me ter dado ao trabalho de pesquisar, lembro-me de dois casos de relativo sucesso. Graham Greene, com um currículo vasto em papéis secundários, mereceu nomeação para um Oscar pelo desempenho em Dances With Wolves/Danças com Lobos (1990). Outro exemplo de relativo sucesso, embora com uma cinematografia muito mais restrita, é o de Chief Dan George. Clint Eastwood requisitou-o para o magnífico The Outlaw Josey Wales/O Rebelde do Kansas (1976), seis anos depois de ter sido nomeado para um Oscar pela participação em Little Big Man/O Pequeno Grande Homem (1970).
Dustin Hoffman é o actor principal neste estranho western de Arthur Penn (n. 1922 – m. 2010), a quem devemos, como já tive oportunidade de sublinhar, uma obra-prima intitulada The Left Handed Gun/Vício de Matar (1958). A estranheza de Little Big Man vem não só da sua estrutura incaracterística, mas da própria envolvência algo picaresca que Penn ofereceu a um filme onde a tragédia se equilibra com a comédia sem cair para nenhum dos lados.
Hoffman é Jack Crabb, um centenário que recorda para um gravador as suas aventuras e desventuras depois de aos dez anos ter perdido a família durante a travessia das grandes planícies do Oeste e de ter sido adoptado por uma tribo da comunidade cheyenne. Parábola da América, como, de resto, pretende ser toda a obra de Arthur Penn, Little Big Man transporta-nos para o centro de um conflito entre duas formas bem distintas de olhar o mundo. Fá-lo apoiando-se numa personagem que passa a vida a saltar de um lado para o outro até ao extermínio de um dos lados. Sabemos qual.
A perspectiva sobre o dito mundo civilizado é assumidamente cínica, destacando, especialmente, a hipocrisia bárbara dos intervenientes. Entre eles, um reverendo que procurará educar catolicamente o nosso pequeno grande homem enquanto enfarda comida e é traído pela mulher. Esta, numa soberba personificação de Faye Dunaway, acabará os seus dias num bordel como amante predilecta do pistoleiro Wild Bill Peacock. Mais efémera é a aparição de Buffalo Bill, apontamento que sublinha o extermínio de um mundo selvagem sob os olhos gananciosos de vendedores de banha da cobra e empresários corruptos. Um caricato Gen. George Armstrong Custer é outra das figuras proeminentes nesta história, num papel onde é difícil destrinçar os momentos de lucidez de uma ambição alienante. A sequência que recria a célebre Batalha de Little Bighorn é hilariante, com Custer tomado por uma loucura que faz dele a mais lunática das personagens entre os grandes heróis que a história americana celebra.
Igualmente singular é a perspectiva desenhada sobre as comunidades índias. Geralmente secundarizadas nos westerns, ocupando o papel de uma força ameaçadora do progresso, ou ridiculamente elevadas a uma espiritualidade estéril, aqui e acolá interrompida por aguerridas acções de resistência à aniquilação final, as comunidades índias surgem enquadradas neste filme com inusitado grau de razoabilidade. Inédita é a aparição, por exemplo, de um dois espíritos (índio homossexual), mas também a evocação de modos de organização social diversos com interpretações abertas da própria noção de família. A qual, refira-se, era muito mais do que um núcleo restrito de pessoas distribuídas por um tipi, mas antes toda a tribo entendida como comunidade de irmãos no seio de uma mesma mãe: a Terra.

Por todas estas razões, Little Big Man é um objecto cinematográfico sui generis. Se o tom picaresco de várias sequências pode levar-nos a desconfiar da autenticidade dos intervenientes, não deixa de ser um facto que por detrás da farsa quase sempre vislumbramos uma mensagem de verdade. E essa verdade é a de que na raiz de um fresco histórico reside o ácido burlesco da humanidade, conjunto inumerável de seres que tendem a olhar para si e para a sua história com uma seriedade tantas vezes adúltera. Talvez a explicação para a longevidade de Jack Crabb, depois de tantas peripécias, esteja precisamente na essência indefinida da sua existência. Nem branco, nem índio, um pouco de ambos sem ser apenas um dos dois.

domingo, 16 de abril de 2017

#96




Talvez desde Dead Inside (1996), dos The Golden Palominos, que não ouvia um álbum de spoken word tão perturbador. Let Them Eat Chaos (2016) surge marcado pela urgência, como também em 1996 Pre-Millennium Tension, assinado por Tricky, testemunhava o ambiente e as circunstâncias de um determinado tempo histórico. Kate Tempest recupera para a spoken word, apoiando-se no hip hop, e na sua variante downtempo, a ponta afiada de uma lança que acusa, denuncia, atinge os cenários domesticados de um mundo em colapso. Empenhada socialmente, retrata a sociedade em que vivemos sem contemporizações. Os podres, a hipocrisia, as contradições, os vícios vão sendo diagnosticados ao mesmo tempo que se autopsiam os valores de uma humanidade em vias de extinção. Perfect Coffee bem que podia ser a banda sonora ideal para estes tempos. À semelhança do que Ursula Rucker produziu em Supa Sista (2001), o discurso é poético sem enjeitar o groove das estruturas musicais minimalistas que apoiam as palavras. Em alguns temas chegamos a pressentir uma vontade de dançar sobre destroços, numa encenação do caos aludido em título que acaba por se revelar mais catártica do que panfletária. E essa é, precisamente, a sua força principal, uma força accionadora de raivas e de paixões, nevrótica, furiosa, mas sem que exerça qualquer tipo de violência sobre o outro. Neste caso, neste caos, a revelação do mal é em si mesma uma forma de redenção. O ideal seria escutar todo o álbum, cuja narrativa não deixa de sofrer danos ao ser fragmentada. Ainda assim, 




sábado, 15 de abril de 2017

AXIOMÁTICA ACIDENTAL

Não exijas dos outros metade do que deves exigir a ti próprio, pois deles não sabes nem metade do que tens obrigação de saber acerca de ti mesmo. 

SERVIÇO PÚBLICO

O poeta manuel a. domingos tem vindo a partilhar no meia-noite todo o dia versões suas para poemas de e. e. cummings, Philip Larkin, Charles Bukowski, William Carlos Williams, Wallace Stevens. Sugiro este, de cummings, este, de Bukowski, este, de Williams,  este, de Stevens, enquanto aperitivos de um extraordinário gesto de partilha pelo qual devemos ficar agradecidos. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

ONDE ESTÁ A LOUCURA?

Uma resposta simples pode ser a que Penélope assina no weblog Aspirina B. A loucura está: aqui.

O TRAGICÓMICO DESTINO DOS HOMENS

Evito adjectivar o destino de quem quer que seja, muito menos de uma classe. Tomemos de exemplo os escritores, assumindo a influência desta prosa. O que de mais trágico possa haver no destino dos escritores é não serem lidos. Vamos ignorá-lo? Quanto ao mais, estamos no domínio da biografia. E se por detrás de um livro há sempre pelo menos uma biografia, seria desavisado julgar o livro pelo que supomos saber acerca da vida ou das vidas que por detrás dele se esconde ou se escondem. 
Reparei recentemente numas notícias sobre a relação entre Ted Hughes e Sylvia Plath, a que dediquei um poema no meu livro A Dança das Feridas. Poderão ler o poema aqui. Mas que podemos nós saber verdadeiramente sobre aquela relação? Tudo o que viermos a saber será fruto de uma construção subjectiva que pouco tem que ver com as obras por ambos produzidas. Talvez tendamos a simpatizar com Sylvia, antipatizando com Ted. Imagine-se, porém, que Sylvia era obsessiva, manipuladora, paranóica, ciumenta, um inferno de mulher que sufocava Ted, controlando-o, impedindo-o de ser feliz. Acrescentemos à hipótese que terá sido numa dessas ocasiões em que se sentia sufocado que Ted desabafou, esvaído em lágrimas convulsas, o desejo de se ver livre de Sylvia: preferia que morresses. Enfim, são hipóteses a considerar. 
A Sylvia Plath dediquei igualmente um dos poemas em prosa do meu livro Suicidas, começando assim: «Naquele tempo o amor era mais simples». Sim, houve um tempo em que o amor era mais simples. Tal como a vida. Esse tempo perdeu-se. Presumo que seja assim em todas as vidas. 
O que me parece claramente desapropriada é a generalização muito corrente de que a dor e o sofrimento geram as melhores obras. São muitos os escritores que se mataram, certo. Mas são em número infinitamente superior aqueles que não se mataram. Nuns casos e noutros, há obras de interesse muito variável. Também não é certo que todos os escritores suicidas tenham resolvido colocar termo à vida por motivos deprimentes. 
Crente no suicídio feliz, sugeriria que se comparasse esse testemunho pungente de André Gorz em Carta a D com o mais famoso texto de Stig Dagerman: A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer. Encontramos motivações bastante diferentes nos dois textos. Também não fará sentido comparar as decisões de pôr termo à vida de um René Crevel (ver aqui), que se matou aos 34 anos, com as de um Gilles Deleuze, que pôs termo à vida com 70 anos por não suportar mais o cancro que lhe minara os pulmões. No poema em prosa que o evoca no meu livro Suicidas, a frase final é: «Como seria bom, como seria, ter algo pelo que valesse a pena continuar vivo num mundo de mentirosos». Impedido, pela doença, de combater os mentirosos deste mundo, para quê continuar vivo? 
Mesmo nos casos portugueses mais conhecidos, de Mário de Sá-Carneiro a Manuel Laranjeira, de Florbela Espanca a Antero de Quental, de Cristóvam Pavia a Eduardo Guerra Carneiro, de Guilherme de Faria a Camilo Castelo Branco, não é possível traçar um padrão. As obras e os estilos, os tons, são muito dissemelhantes, na sua génese é difícil vislumbrar um denominador comum que permita afirmar uma qualquer estatística puramente especulativa. Há ainda os suicidados da sociedade, como se disse a propósito de Antonin Artaud. Veja-se o caso de Pessoa, um homem comum com um emprego banal. Ou Cesário, Pessanha, etc. 
Associar a criação a tendências patológicas é tão pueril quanto julgar que do consumo de drogas retiramos maior proveito criativo. Os estímulos à criação são os mais diversos. Reduzir o terreno da sua diversidade seria prejudicial à própria criação. Pessoalmente, interessa-me muito mais combater o preconceito da literatura enquanto salvação. Foi por isso que assinei um livro intitulado Suicidas. Em suma, viver não faz bem a ninguém. Mais do que o tabaco, é mesmo a vida quem nos mata.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

NORMAL

Fiz duas viagens de finalistas. Não porque tenha sido repetente, mas porque os meus pais eram mãos largas. Nas duas ocasiões fui inserido num grupo vasto de alunos tendo Benidorm como destino. Estamos a falar de 1991 e 1992. Fazíamos o que era suposto fazer. Bebíamos, fumávamos, tentávamos engatar miúdas nas discotecas, alugávamos motas durante o dia, gastávamos dinheiro nos kartings, íamos à praia. As chamadas drogas leves, haxixe e erva, eram recorrentes. Nessa altura estava na moda o ecstasy, muito popular entre a malta das raves. Como não gostava de música electrónica, e preferia o álcool a comprimidos que obrigavam à ingestão de água, passei ao lado da grande aventura alucinatória. Na realidade, era um anjinho se comparado com o que agora vejo. Bebia muito, é certo, e descarregava raivas no mosh, ao som dos Nirvana. As raparigas foram uma miragem. Acabava tudo invariavelmente estragado quando começava a falar-lhes na poesia do Jim Morrison. Nunca tive jeito nem paciência para coros. 
Em suma, não posso dizer que seja exemplo para quem quer que seja. Mas sirvo-me do meu exemplo para estranhar os novos conceitos de normalidade que pululam a propósito de notícias recentes sobre viagens de finalistas. Paredes riscadas, normal, beatas e garrafas espalhadas pelos corredores do Hotel, normal, um tecto falso desfeito, normal, material de segurança vandalizado, normal. É tudo normal. Também parece que é normal festas cujo objectivo é simplesmente distribuir álcool por rapazes e raparigas até que caiam para o lado, bebendo com a normalidade de quem busca o excesso. Umas mamalhudas seminuas a dançar em cima de colunas, mestres-de-cerimónias que organizam o caos da bebedeira e piscinas atoladas de putos ébrios em amena normalidade são o retrato do dia. Portanto, tudo normal. 
Compreendo e aceito diversas formas de diversão, mas sinto alguma dificuldade em atribuir o epíteto de normalidade a muito do que vou vendo. Não me parecem nada normais os estilos exibidos em programas de televisão cujo público é maioritariamente adolescente (veja-se a MTV), para não falar das aberrações que a TV portuguesa consegue desencantar para os chamados reality shows. Se aquilo é real, e presumo que alguma realidade possam tais protótipos induzir, então o anormal serei eu. A verdade é que num mundo em que os rapazes se parecem cada vez mais com uns grunhos sem classe que mal dariam para porteiros de discoteca, e as raparigas circulam por casa (dos segredos ou das revelações) com aspecto de putas em bordel de aldeia, torna-se difícil, muito difícil, destrinçar o normal do anormal. 
Acho normal que a violência excite burgessos, já não acho tão normal que divirta alunos do secundário. É de violência que estamos a falar, não é? Violência sob várias formas, muita dela trasvestida de entretenimento, socialmente admitida como se não fosse o que na realidade é. Porque o problema é precisamente este. Sob pena de passarmos por retrógrados, conservadores ou simplesmente anacrónicos, recusamos olhar a realidade e largamos as rédeas da educação. Ficamos à espera que sejam os outros a fazer o que não estamos nós para fazer. É tão cansativo educar um adolescente, prepará-lo para se divertir, para ir de férias com os amigos e comportar-se humanamente, cometendo os excessos que há-de cometer sem pisar o risco da violência. Um risco ténue, inerente a cada um, mas impossível de incutir se os exemplos forem, enfim, os que vêm sendo massificados por uma sociedade cada vez mais indiferente aos mentecaptos que gera.

DOIS ESPÍRITOS


Um dos mais célebres dois espíritos de que há registo foi o guerreiro lakota adequadamente chamado Encontra-os e Mata-os. Osh-Tisch nasceu homem e casou-se com uma mulher, mas vestia-se com roupas de mulher e vivia o seu dia-a.dia como mulher. Em 17 de Junho de 1876, Encontra-os e Mata-os conquistou a sua fama ao socorrer um companheiro da sua tribo na batalha de Rosebud Creek, num acto de destemida bravura.

Pearson Mckinney, in Da Construção do Sexo entre os ameríndios, in Flauta de Luz, n.º4, Abril de 2017, p. 39.


Nota: Na imagem ao alto, Osh-Tisch é o da esquerda. A seu lado, a mulher com quem casou. Clique na imagem para ver melhor. 

DARWIN E A EUGENIA

(...)

Convém (...) ter presente  que os programas eugenistas e o holocausto nazi foram arquitectados por algumas das mentes de maior formação académica e que na sua época granjeavam o maior respeito. E também não são as pessoas simples que concebem as bombas atómicas ou quaisquer outras armas de destruição maciça; nem as que lucram com a indústria de guerra. Ironicamente, no início do século XX seria mais fácil encontrarmos opositores à eugenia entre os clérigos do que entre as hostes progressistas de intelectuais e cientistas. Abraham Lincoln (que, por curiosa coincidência, nasceu no mesmo dia e no mesmo ano que Charles Darwin) era assumidamente racista. Mas este presidente dos E.U.A. continua a posar para a posteridade como um herói dos negros (abolicionista), enquanto muitos pretendem que Darwin está na origem da eugenia e até da ideologia nazi. Os progressistas David Hume e inclusive Voltaire, ambos do século XVIII, fizeram comentários racistas que indignariam Frei Bartolomé de las Casas, que morreu em 1566. Não obstante, a teoria da evolução darwinista minou a eurocêntrica ideia duma suposta «superioridade divina» inerente à «raça branca». O próprio Hitler, à semelhança de outros ditadores, afirmava-se como arauto de Deus, propondo-se fazer o trabalho sujo deste último eliminando a «raça sub-humana» supostamente responsável pela crucificação de Jesus Cristo. Hitler nunca rejeitou a sua afiliação ao catolicismo apostólico romano. (Curiosamente, até hoje não foi excomungado, ao contrário, por exemplo, de raparigas adolescentes vítimas de violações e que em consequência disso optam por abortar, excomungações estas condizentes com uma doutrina abominável, pois logo no Deuteronómio 22:28-29 está explícito que basta violar uma virgem para o perpetrador poder casar-se com ela; de resto, como cantaram os Monty Python, todo o esperma é sagrado...)

(...)

Paulo Barreiros, in A Pior Herança de Darwin, in Flauta de Luz, n.º 4, Abril de 2017, p. 32.

FINALISTAS



                    Lá vão eles
                    os 
              alunos
  vão por turnos
                 são os 
                   hunos
   de Torremolinos

                      Ei-los           
                      unos
               gatunos 
             de tunos
          invasivos
          evasivos
        os hunos

de Torremolinos

terça-feira, 11 de abril de 2017

ALUCINAR O ESTRUME

Num catálogo de excelência, onde são tão raros os autores portugueses, encontrar dois livros assinados por Júlio Henriques (n. 1953) é por si só, mais que não seja, motivo de curiosidade. A curiosidade aumenta quando reconhecermos no autor um tradutor de mérito. Stig Dagerman, J. M. G. Le Clézio, Pierre Louys, Mikhail Bakunine, Benjamin Péret, Albert Cossery, Robert Bringhurst, Raoul Vaneigem, Aragon, são apenas alguns dos nomes que constam no inventário de traduções assinadas pelo autor de Deus Tem Caspa (Fenda, 1988). Mais recentemente, o nome de Júlio Henriques aparece associado, enquanto editor e coordenador, a uma das poucas revistas em língua portuguesa que vale a pena ler do princípio ao fim. A propósito, o n.º4 de Flauta da Luz já chegou às bancas com textos, só para dar alguns exemplos, de Henri Michaux, George Orwell, Rui Baião, Anselm Jappe, Stefan Zweig. Imperdível.
Igualmente imperdível é o segundo livro de Júlio Henriques publicado pela Antígona, depois da reedição em 2014, a 2.ª, de Deus Tem Caspa. Em Alucinar o Estrume (Antígona, Janeiro de 2017) somos introduzidos a Estêvão Vao, biólogo de formação, docente desalinhado que sobrevive de «trabalhos irregulares, de preferência no âmbito da botânica» (p. 87). A caracterização surge espontaneamente, não dispensando referências concretas a um mundo actual facilmente identificável, como sejam a que logo ali sucede à Livraria Utopia do «famoso livreiro Herculano Lapa» (p. 88). A ironia, recurso libertário por excelência, está em que o que de mais concreto nos oferece este livro é, por assim dizer, o que aparenta maior grau de alucinação.
Os desenhos de José Miguel Gervásio separam cerca de vinte histórias interligadas por uma personagem. Estêvão Vao será o nosso guia pelas sobras do mundo rural português. Caminheiro por vocação, realizaremos a seu lado uma viagem na nossa terra às portas do século XXI. A paisagem é uma comédia desoladora. As gentes ligam-se ao solo através de intermediários de ordem virtual, sejam o jogo social FarmVille ou as Quintas Pedagógicas para ensinar às criancinhas a origem do leite. O campo foi reduzido a uma fachada para entreter turistas, os quais seguem distraídos por entre abandono e desertificação. Com a agricultura convertida ao turismo pouco mais podemos esperar que brote das terras do que uma tremenda ignorância. Em causa está não só o retrato de um divórcio entre o homem e a natureza, mas também, e muito mais profundamente, a acusação de um advento de extinção.
O que podemos ler nas entrelinhas deste livro, e o título remete para isso mesmo, é a noção cabal de uma humanidade em vias de se perder, se não se perdeu já, pois do estrume que fertiliza as terras emerge apenas a figura alucinada do homem asséptico. Não há qualquer tipo de catastrofismo no diagnóstico. Na verdade, o que choca é precisamente a constatação de quão razoável é um retrato assim traçado. As causas há muito foram definidas. Do chamado capitalismo selvagem ao neoliberalismo financeiro, assimilou o homem a sua própria desumanização. Paradigma por de mais evidente: a Economia promovida a religião absoluta, com suas igrejas disseminadas pelo mundo, garante ao deus Mercado o bom comportamento dos povos, o qual se guia pela moral do consumismo e transforma a sociedade num espectáculo. Deplorável, acrescente-se.
Que fazer com esta herança? Entre as artes do restauro e da conservação, o mundo rural português tem vindo a encolher-se. Encolheu-se de tal modo que já deixou de se falar de mundo. Fala-se apenas de turismo. Sufoco insustentável. Com ele vêm as insónias e o fim dos sonhos. Ora, este turismo rural das “aldeias sem estrume”, das hortas urbanas, das “pequenas comunidades neo-rurais”, de zonas de caça para entreter doentes mentais, é o supra-sumo dessa ausência que tudo contamina com a urgência material do pragmatismo. Desconfiado dos entusiastas do «regresso ao campo», Estêvão Vao não se demite do sonho. «Não de um qualquer sonho terapêutico, mas daquilo que sonhava de facto quando o sono o acometia. Nisso era espontâneo herdeiro da primitiva dimensão humana que parece ter desaparecido das mentes forjadas pelo espírito industrioso e expansionista, desse que enfaticamente declara que não pode estar parado. Vinha de longe, de eras em grande medida ignoradas, o ensinamento de que sem tempo para a prática do sonho o ser humano não vive, só sobrevive» (p. 97).

Alucinar o Estrume é um objecto raro na literatura portuguesa. Munido de uma crítica social solidamente fundamentada, consegue ao mesmo tempo divertir e perturbar o leitor. No fundo, usa a velha técnica do espelho para nos dar a ver quem somos no mundo em que vivemos. E a consciência disso é a mais perturbadora possível. Desengana-nos ao mostrar o avesso de uma ilusão, ou seja, a realidade ela mesma pelo crivo da ironia. Numa das histórias finais, a experiência regressiva aludida pode servir de mote aos métodos do pensamento aqui subjacentes. É procurando perspectivar e entender quem fomos em tempos primitivos, quais os elos que nos mantinham integrados no mundo natural e como os fomos quebrando, que melhor nos apercebemos da decadência progressiva de uma ideia de humano. Não porque tenhamos sido perfeitos e do paraíso tenhamos sido expulsos. Não por via de um qualquer saudosismo estéril, mas por via de uma constatação, como queria o racionalista francês, clara e indesmentível. Não foi esse quem nos definiu pela capacidade de pensar? Ao abdicarmos dessa capacidade, sobrepondo-lhe a capacidade de fazer, a técnica, a resposta imediata e automática, sem qualquer esforço de dúvida nem vestígios de espírito crítico, sem sonho, em suma, que homem nos resta? Uma manada de homens… onde não vislumbramos homem algum. 

MARIA HELENA DA ROCHA PEREIRA (1925-2017)


Tudo o que possa dizer será redundante. Reforço apenas o óbvio: é incomensurável o que este país lhe deve. Quem não souber porquê, procure A República, de Platão, publicada pela Gulbenkian. Defendeu uma aberração chamada Acordo Ortográfico? Enfim, nunca o sábio foi sinónimo de perfeição. 

domingo, 9 de abril de 2017

DOMINGOS

Os domingos são dias especiais. A plebe aproveita o sol para sair de casa e enfiar-se directamente na catedral do consumo. Vê-se de tudo, mormente falta de humor, frustração, irritabilidades. Sugere-se aos inventores deste país um protector solar para recintos fechados. Com mais ou menos paciência, vamos arquivando as chalaças dos domingos. Três exemplos inofensivos:

O bruto que entra de rompante e, sem mais nem quê, chuta do alto de um semblante assoberbado:
— Onde é que tem os livros que ensinem aos rapazes aquilo de que as mulheres gostam?
Ainda penso perguntar-lhe que mulheres, mas escuso-me a padecimentos com a dúvida clássica:
— Para que idades? — como se houvesse uma secção especializada no assunto, organizada por idade e ano escolar, como se soubesse do que falava.
— 25 anos. — Responde-me, e eu fico a pensar que é de facto cada vez mais comum rapazes de 25 anos com dúvidas acerca do que as mulheres gostam. Desconfio que nenhum livro os possa ajudar, embora a esperança seja a última a morrer.

A um mesmo nível de rusticidade, mas no feminino e contaminada por aquilo a que costumo chamar o vírus da ignorância arrogante. Há muito quem faça questão de o ostentar. Eis um exemplo. Solicitadas sugestões, resvalo no erro de referir o Nobel atribuído a determinado autor. Supunha eu, na minha ingenuidade, que pudesse ser factor convincente. Reacção imediata:
— Não gosto dessas pessoas que se julgam superiores aos outros.
Portanto, academias e “nobéis” deste mundo, sejam humildes. Nada de premiar o trabalho de um escritor, sob pena de o indivíduo passar a julgar-se superior aos outros que estão nesse lugar onde é possível censurar a superioridade dos demais segundo critérios que apenas a alguns felizes iluminados é dado conhecer. Se é que me faço entender. 

Por fim, o tradicional lapso com nomes de autores. Sempre bafejados pela graça, "aos molhos" e para todos os gostos. Fica este.


— Onde é que tem o último livro do Bruno Amaral Dias?

CALAR, CALAR COM FORÇA


No silvo do dia
inclina-se a cabeça para o pó.

Para além do sol, rente à vertigem,
os que ainda vivem buscam o contacto.
Tudo aqui está mudo,
na cacofonia onde a luz
martela.

É preciso dar pancadas no vazio
para se ser ouvido, desfazer
com a cabeça as portas todas.
A escuta é improvável,
o homem ressona alto
por dentro do progresso.

A geografia dispersa muito as vozes
que tentam não morrer de asfixia
na riqueza. Em
certos momentos,
no decorrer da guerra
em que veio a fixar-se a existência,
estas vozes irão vociferar
ante os olhos penosos,
bocas secas, inteiriçados
defuntos que agora
vão dormir.

Com base em seres sem peso,
escavados por esta iteração industrial,
o inexorável frio
encadeia-se na voz
e propaga um silêncio de metais.

Ao nosso cadáver pediremos desculpa
- depois - no raro lance
em que a ausência do som
nos vai acompanhar até à campa.
A inclinar-se então para a poeira
erguida pelo bafo do futuro,
a cabeça vê: este pó
que o temor vai produzindo,
a organizar o mundo,
é a peçonha humana
a abrir mais estradas.


Alice Corinde (n. 1953), in Modas & Bordados d' Alice Corinde (1995). Presumível pseudónimo de Júlio Henriques, tradutor de méritos reconhecidos, autor de narrativas diversas e, mais recentemente, editor da revista Flauta de Luz. Os poemas coligidos de Alice Corinde, representada na antologia Sião (1987), reflectem uma voz crítica e acusatória dos absurdos da paisagem humana neste tempo de sociedades de consumo acossadas pela revolução tecnológica. A destruição do mundo rural, o abandono da terra e o afastamento no homem de tudo quanto o ligue à Natureza, são temas centrais numa obra onde à sátira e à ironia podemos ligar uma prática heterodoxa da linguagem e do pensamento. Embora não estejam isentas de uma disfarçada nostalgia, as “modas” de Alice Corinde manifestam de um modo mais claro certo desdém pelas tendências emotivas de um lirismo que esvazia a poesia de causas filosóficas e sociais. Incisivos no tom, derisórios na linguagem, sublevam, sem compromissos que não sejam exclusivamente poéticos, os problemas de um mundo que é o nosso.

sábado, 8 de abril de 2017

SUPERMENSCH



Shep Gordon é uma lenda no universo do showbiz. Começou a agenciar artistas por acaso, num ambiente de drogas, sexo e improvisações. Acreditando na versão encenada por Mike Myers em Supermensch, bem pode estar agradecido a Jimi Hendrix por "ter tido a vida que ainda tem". Nasceu em 1945 no seio de uma família judaica convencional. Estudou sociologia, envolveu-se nos movimentos de luta pelos direitos cívicos durante a década de 1960 e acabou a agenciar Alice Cooper, numa relação de décadas que supera tudo o que possamos imaginar ser possível num mundo de artes & negócios. Na lista dos artistas que representou encontramos nomes difíceis de conjugar, de Groucho Marx aos Gipsy Kings, dos Blondie aos Pink Floyd. Quando se reformou, manteve apenas uma indelével relação de trabalho com Alice Cooper. Passou pelo cinema, inovou ao agenciar chefs de cozinha, teve uma vida repleta de aventuras das quais a maior é poder sair disto tudo debaixo de um coro de elogios. Supermensch: The Legend of Shep Gordon (2013), realizado e produzido por Mike Myers, conta a história com uma agilidade impressionante. Divertido e emocionante, é um documentário que nos deixa a pensar nas partidas pregadas pela vida. A questão que nos coloca: como é que uma vida tão cheia pode, apesar de tudo, deixar no ar uma terrível sensação de vazio? Não há resposta que dispense uma visita a este documento imperdível. 




P.S.: e já agora, assista-se igualmente a esta pérola: aqui.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

QUEM PUDER, NÃO PERCA


Alucinar o Estrume é das melhores ficções em língua portuguesa que li nos últimos tempos. Muito em breve, deixarei nota de leitura. Flauta de Luz é uma revista imprescindível. 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

GULLANDER

(…)
A minha estrada é pavimentada a tinta. Escrevo a minha estrada, escrevo o meu mapa. Toda esta deambulação é uma mesma viagem.
(…)
Acho que a vida tem mais de ridículo do que de horroroso. As nossas maiores tragédias nascem daquilo que é mais cómico em nós: a nossa estupidez e paralela vontade de auto-engrandecimento.
(…)
Vivo com o desespero de quem está apaixonado e lhe querem roubar o amor. Aproveita agora, ou morre ridículo – relembro isto todo o tempo.
(…)
Não interessa a idade que temos, já todos perdemos tempo demais em coma, em relações podres, empregos da treta, ou a ver televisão! Esta é a urgência.
(…)

Em África apanham macacos usando uma técnica muito interessante: colocam pedrinhas (que chocalham) dentro de um coco que tem um orifício onde, a custo, entra a mão do macaco. O coco, claro, está preso. O macaco chocalha o coco, fica curioso com o que tem dentro e enfia a mão lá dentro. Depois de agarrar numa das pedrinhas tenta retirar a mão com a sua preciosa conquista… Mas o punho fechado em murro não lho permite. Vai ficar ali, preso, agarrado a uma inútil pedrinha, sem conseguir libertar-se. Obviamente comem-no. Nós também somos estes infelizes macaquinhos, de punhos cerrados envolta das nossas tretas. / As nossas ideias, desejos, certezas. Os nossos territórios, petróleos, igrejas, os nossos conceitos de felicidade. O nosso euzinho – essa é a principal das pedras a que nos agarramos. As nacionalidades, as fronteiras, as posses. Um pesadelo cómico em forma de donut, que se repete, sem parar, até que se abra os olhos e se veja algo novo, algo que nos muda, algo que está para lá da mortalha mental de ruído que consideramos ser a nossa identidade. Ou se morra sem ter visto nada. Precisamos de ver algo para lá, através. E largar as inutilidades, caso contrário somos mesmo comidos.


Miguel Gullander, autor de A Balada do Marinheiro-de-Estrada (Cavalo de Ferro, 2005), Perdido de Volta (Dom Quixote, 2008) e Através da Chuva (D. Quixote, 2014), em entrevista reproduzida aqui.

OS MISERÁVEIS

Dispenso elogios à frugalidade, sobretudo vindos de quem ostenta vidas sem qualquer tipo de privação.

ÁFRICA

E depois há uns tontos convencidos de que em África as crianças são felizes porque não têm telemóvel e não frequentam cadeias de comida rápida. O simples facto de falarem de África como se estivessem a referir-se a um país, e não a um continente vastíssimo, multicultural e dissemelhante, justificaria que os não quiséssemos ouvir. Mas porque falam alto, por vezes aos berros, é-nos difícil escapar-lhes. 
Na África feliz dessa gente, as crianças talvez sejam felizes entre palmeiras, a brincar na praia, passam a vida no meio de uma natureza selvagem estranhamente confortável. Enfim, talvez sonhem com umas solas, talvez gostassem de aprender a ler e a escrever, talvez não tenham de trabalhar horas infindas para indústrias poderosíssimas que produzem os analfabetos do ocidente convencidos de que em África as crianças são felizes porque não têm telemóvel e não frequentam cadeias de comida rápida. 
Bastaria fazerem uma pesquisa em vez de passarem o dia a tentar exibir uma cultura que não têm:
No Mundo há 215 milhões de crianças sujeitas a tarefas laborais…
Uma em cada quatro crianças trabalha na África Subsariana…
O fenómeno da escravidão e do trabalho infantil persiste em África…
No Benim, por exemplo, há tráfico de crianças com destino ao trabalho nas pedreiras… Relatório acusa Apple, Samsung e Sony de conivência com trabalho infantil…
Exploração infantil no Congo alimenta gigantes mundiais da tecnologia…

Minudências, se pensarmos na felicidade que há-de ser não ter telemóvel nem um McDonald's nas redondezas. 

PATINAGEM

O fascínio exercido por Marcelo é um claro sinal de derrota. Não desta ou daquela facção política, mas da política ela mesma. 

Marcelo é omnipresente, tal como se espera de um Deus. E as massas, impelidas pelo servilismo dos media, seguem o seu caminho na direcção do abismo endeusando Marcelo.

Na realidade, o melhor que Marcelo tem é ser uma lufada de ar fresco depois de dez anos de mofo cavaquista. Mas com o ar fresco de Marcelo chegam-nos fragrâncias inebriantes contra as quais devemos proteger-nos (sob pena de endoidecermos). 

Marcelo é um teste à lucidez, um desafio à clarividência. No mesmo dia, senão numa mesma hora, é capaz de opinar sobre vendas de bancos e resultados futebolísticos; depois de distribuir sopa pelos pobres, aperalta-se para um desfile de moda; encarna a postura doutoral com a mesma facilidade com que veste as máscaras do povo. 

Sucede que entre ouvir Marcelo perorar sobre o estado do mundo e escutá-lo enaltecer a qualidade dos sabonetes produzidos em Portugal não há diferença alguma, faz tudo parte de um espectáculo cujo principal objectivo é o de todos os espectáculos que a política vai engendrando desde os coliseus romanos, ou seja, manter os níveis de ignorância do povo que garantem a perpetuação no poder de uma determinada classe. 

Marcelo aligeira-nos os dias, por assim dizer, demitindo-nos de exercer sobre eles o espírito crítico que exigiriam não andássemos tão arredados. 

Marcelo é um mestre da patinagem, uma patinagem que nada tem de artística. Ele é a imagem de um país a patinar na lama, como um veículo que patina e não sai do mesmo lugar.

Sentimo-nos protegidos pela sua agilidade e abdicamos de pensar, permitimos que nos substitua no espaço público porque, em boa verdade, nada teríamos a acrescentar. Vacuidades, futilidades, lugares comuns, são com ele. E nós com ele, colocando a fasquia a um nível que não seja custoso transpor. 

Vamos de patins com Marcelo para onde ele nos levar, mas o mais provável é, sem que dêmos por isso, estarmos já em queda quando ele, perdido de vista, regressa a pé para de onde veio. Olhando para trás os desgraçados que seguiam seu canto, olhando-os com lamento réptil.

Se todos fossem como ele, ouço por aí. Ouço, calo-me, desvio-me. Se todos fossem como ele, os processos continuariam como continuarão a prescrever. Ilibando os donos disto tudo, condenando quem trabalha para que tudo mude… ficando na mesma. 

POEMA NAUATLE


Agora que fitas com teus olhos,
encara e vê: aqui tudo é assim:
não há alegria,
ventura não há.

A terra é o lugar
do excessivo pranto,
lugar onde o ânimo se rende
e onde vivem
desdita e amargor.
Um vento de obsidiana
de lonjuras sopra
e sobre nós se abate.
De penosa alegria
é a terra morada,
de pungente alegria
é lugar.

Ainda porém que assim fosse,
ainda que verdade fora só sofrer,
ainda que fosse assim tudo na terra,
porquê ter sempre medo,
porquê sempre tremer,
porquê viver em pranto?

Para não padecermos,
para jamais a mágoa
nos sumir,
fez-nos o Espírito doação
do riso, deu-nos o sonho,
a força e o sustento,
e com o amor
que semeia outra gente
nos prendou.

Nauatle


Júlio Henriques, in Modas & Bordados d' Alice Corinde, Fenda, 1995, p. 140. «O náuatle (português brasileiro) ou nauatle (português europeu), também chamado de asteca ou mexicano em sua fase clássica, é uma língua pertencente à família uto-asteca, usada pelos povos de mesmo nome e falada no território atualmente correspondente à região central do México desde pelo menos o século VII. No final do século XX, era falada por pouco menos de um milhão e meio de pessoas» (aqui).

quarta-feira, 5 de abril de 2017

UM POEMA DE JÚLIO HENRIQUES

SHOPPING CENTER

Trabalho é morte: Work
means death. 
Por trás do pesadelo
que passa rente ao sono
e explode algures
consigo ver-te
a devorares-me o cérebro.

Trabalho é morte.

Da noite surda
às lâminas do dia
e vice-versa,
o aro ubíquo
da divindade à solta
enterrado na testa:

comprar, vender,
esfolar vivo.


Júlio Henriques, in Modas & Bordados d' Alice Corinde, Fenda, 1995, p. 73.

DA VARANDA O SOL INTEIRO

Cozinhei, bebi, esperei, li, comi, voltei a beber, fumei, li novamente, adormeci, acordei, bebi e fumei, voltei a ler, sentei-me na varanda a ver o pôr-do-sol, bebi, escrevi. Foi um dia bem passado. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

MÁRIO BOTAS

Quem sou eu? Dúvida clássica, diria iniciática, à qual procuramos responder sem sucesso. Não exige uma definição enquanto resposta, mas pede, ou porventura espera, a capacidade de delimitar fronteiras onde o ser se pense a si mesmo, autónoma e independentemente. Esforço inglório. Os adeptos da fenomenologia ensinaram-nos a impossibilidade de pensar o eu sem aceitarmos a sua condição existencial: eu sou um ser aberto ao mundo, eu sou alguém em relação com o outro. A isto acrescentaremos, então, a máxima heideggeriana segundo a qual os outros não são todos os demais além de mim, mas aqueles entre os quais também eu me encontro. Poderemos então socorrer-nos dos poetas, je est un autre, com Rimbaud, eu próprio o outro, com Mário de Sá-Carneiro, e assumiremos para sempre a imagem de si como um reflexo que o outro devolve. Falar do outro seria, então, falar de si próprio, na medida em que é no eu que tudo se concentra. 
Mas há um eu ensimesmado, obcecado pela primeira pessoa, que se distingue do eu em relação com o outro, voltado para a segunda e a terceira pessoas. Este último procura olhar o que o rodeia, volta-se para o exterior movido por uma vontade de descoberta, busca o diverso, busca ir ao encontro do diverso, mesmo quando consciente de que se carregará inevitavelmente a si próprio no meio desse diverso. O mais que logra, muitas vezes, é gerar processos de identificação. O diverso chega-nos sempre filtrado pelo eu, a percepção do diverso está limitada pelo eu. Mesmo um alto nível de abstracção implica essa limitação, chamemos-lhe assim. Contudo, vislumbro dissemelhanças entre um discurso que procura responder à dúvida supracitada recorrendo à memória, à confissão, à autópsia apriorística do ser, pela análise, pelas vias do autoconhecimento, e um discurso que permite a revelação do eu através de observações e de testemunhos inscritos sobre os outros a partir de uma percepção subjectiva do mundo.
Volto a reflectir nestas questões depois de na sexta-feira passada me ter vindo parar às mãos as Aventuras de um Crâneo e outros textos, de Mário Botas, publicado pela Averno a 23 de Dezembro de 2012 (a data assume a homenagem). Recolha fascinante, que me havia passado despercebida, a acrescentar ao documentário de Almeida Faria, justamente intitulado Eu, Mário Botas (ver aqui), incursões literárias, entrevistas e poemas do pintor nascido na Nazaré precisamente a 23 de Dezembro de 1952. Morreu novo, ainda não tinha 31 anos, mas deixou uma obra multímoda, intensamente concentrada no desenho e na sua potencialidade enquanto descoberta do eu. O epitáfio é revelador: «Só podemos falar verdade quando falamos de nós mesmos… / E a minha pintura / não é senão uma procura da verdade. / Posso falar de mim no céu de uma paisagem»
Já nas conversas com Almeida Faria aproveitadas para o documentário da RTP, podemos ouvi-lo dizer: «Considero que o verdadeiro acto criador implica necessariamente um despersonalização voluntária ou involuntária, despersonalização essa que abate os limites do Ser para simultaneamente os tornar mais fortes» (p. 118). Ora, como conciliar a busca de uma verdade localizada em nós mesmos com esse acto de despersonalização que ao mesmo tempo abate e fortalece os limites do Ser? Julgo que também aqui se subleva a relação com o outro enquanto momento de autodescoberta. Nenhum autoconhecimento se torna possível sem esse momento de suspensão do Ser, sem essa despersonalização que epistemologicamente podemos sintetizar na palavra crise. Uma resposta à pergunta «quem sou eu?» implica, pois, um esforço de abandono do eu, não no sentido místico ou sobrenatural de uma qualquer forma de nirvana ou de êxtase, mas no encontro com o outro, na relação com o outro
Na obra de Mário Botas este encontro surge-nos com especial relevância, nomeadamente, nos diálogos estabelecidos com obras literárias dos quais resultarão, por exemplo, as pinturas em relação com, e não a partir de, Le Spleen de Paris, de Charles Baudelaire. A própria narrativa que dá pelo título Aventuras de um Crâneo, na sua indisfarçável inclinação surrealista, coloca-nos perante um acto de autodescoberta repleto de elementos autobiográficos, porventura até confessionais, mascarados pelo aspecto onírico do discurso. Terrorismo lírico, seríamos levados a pensar, não estivesse nele implícito o lirismo de um olhar imagético. É ainda da descoberta do eu que falamos quando concluímos: «Encontrou pela frente um espelho e embateu nele vivamente. Pedaços de vidro escorreram-lhe pelo corpo e entravam-lhe nas veias, onde substituíam o sangue, dali em diante inútil… / No fim de contas morrer sozinho não era assim tão difícil. / E antes do aniquilamento definitivo sorriu de forma elegante para a Morte» (p. 30).


Mário Botas, Aventuras de um Crâneo e outros textos, organizado por Daniela Gomes, Inês Dias, Luis Manuel Gaspar e Manuel de Freitas, Averno, Dezembro de 2012. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

UM PAÍS

Os jornais de hoje são um fiel retrato do que tem sido a história deste país no último século. Ao alto, o atentado em São Petersburgo. Segue-se Portugal com suas emergências: violência no futebol. Não sei se desespere de nojo ou de alívio. 

IEVGUÊNI IEVTUCHENKO (1932-2017)


Soube agora desta morte, através de um post de João Lopes no Sound + Vision. Que outras fontes me restam se quiser saber da morte de quem me importa? Evoquei Ievtuchenko num poema de A Dança das Feridas: aqui. Sobre Bella Akhmadulina deixei nota aqui. Respigo a seguinte nota numa antologia organizada por Manuel de Seabra (esta):

Nasceu em 1933, em Stántsia Zimá (Sibéria). Começou a publicar em 1949, com 16 anos, no jornal Sovétski Sport, e em 1952 lançou o seu primeiro livro. É um dos poetas soviéticos mais conhecidos no estrangeiro pelas suas viagens e entrevistas, e pela sua Autobiographie Précoce, publicada em L'Express, Fevereiro 3 - Março 21, 1963. A sua poesia combina um naturalismo pormenorizado com um tom polémico e veemente. O poema Herdeiros de Estáline (Naslédniki Stálina), publicado no Pravda de 21 de Outubro de 1962, foi largamente utilizado durante a campanha anti-estalinista, o que certamente contribuiu para a popularidade de Yevtushenko.

Na mesma antologia, dois poemas seleccionados têm referências explícitas a Portugal. O primeiro intitula-se Amor à Portuguesa, o segundo é este:

FÁTIMA

Estive na festa de Fátima. Vendo como se empurravam nas bermas
cães, burros, jornalistas, embaixadores, turistas,
e ao longo das estradas, de joelhos ligados,
em todo o asfalto, de cabeça perdida o povo se arrastava.

Com imprecações, gritos, lágrimas, gemidos,
por poças, montes de esterco, cacos de vidro,
arrastava-se para que a bênção de Fátima
viesse ao povo e o pudesse ajudar.

Arrastam-se camponeses, amargura no rosto enrugado
como haveria na mãe de Jesus Cristo
quando lhe devolveram, por fim, o filho crucificado,
tocando-lhe ao descer o seu corpo branco da cruz.

Arrastavam-se Madalenas, torciam-se, gemiam, ofegavam,
e semeavam lágrimas, confiando nessa sementeira,
mas só sorriam anjos rubros e impertinentes
arrastando a sementeira às costas, como rapazes traquinas.

E nos automóveis pretos, louvados os Apóstolos,
com buzinas que passavam pelos saloios arrastando-se na poeira,
corriam, como para o futebol, os ideólogos do andar de rastos,
os polícias de casse-tête sendo super-indulgentes.

E no estádio, com a voz forte da Phillips,
o comércio da fé deixava cair a sua palavra quente
sobre o mar de cabeças confusas e chapéus de jornal,
oscilando trémulas como um prato de pudim.

Apelava o comércio, estendendo as mãos bem cuidadas, 
na altura em que nas estradas de Deus pejadas,
que se arrastavam ao longe sobre joelhos invisíveis,
o poente se mostrava através duma neblina como sangue através de ligaduras.

E o povo arrastava-se. E os tristes camponeses não sabiam
que os pastores de rebanho, de submissa e simples fé,
não só não podem — tudo podem os grandes no mundo! —
como não pensam tirar os seus filhos da cruz...


Yevgeny Yevtushenko, traduzido por Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Soviética, Editorial Futura, pp. 166-167, 1973.

sábado, 1 de abril de 2017

PLEONASMO

A imprensa a celebrar o dia das mentiras com uma notícia falsa.