domingo, 14 de maio de 2017

F. F. F.


Fátima – Pela manhã, um enjoo de papa levou-me ao vómito. Lucas, a criança milagre, veio do Brasil, está bem e sem sequelas, asseguram os pais enquanto garantem: foi Nossa Senhora. A Igreja acolhe o milagre, promove-o, os fiéis esvaem-se em lágrimas, peregrinam até ao santuário e exultam com o terço coxo (diz que lhe falta uma conta) da Vasconcelos. A República desce ao beija-mão com o mesmo oportunismo de 1917. Olha-se para aquilo tudo com a sensação de que não passaram 100 anos por nós, nenhuma ciência, nenhuma História, nenhuma tecnologia, nenhum progresso, nada, absolutamente nada aconteceu. Leia-se ou releia-se Na Cova dos Leões, de Tomás da Fonseca. 

Futebol – Sportinguista que se preze não pode senão reconhecer mérito a este tetra. Com as televisões invadidas pelos festejos, recolho-me em reflexão com alguma ansiedade. Roubaram-me os lenitivos preferidos, sejam o Governo Sombra ou o Eixo do Mal. Seria difícil adormecer, não me puxassem os festejos para uma conversa de aqui há tempos com o meu amigo Ferreira. Com o Jorge Jesus vais ter espectáculo garantido, dizia-me ele. Eu, relativamente chateado com o afastamento do bom Marco Silva, mostrava-me céptico. É uma mania minha, pautada pela evidência: Jesus não quer nada comigo. Nem o outro, nem este. The show mus go off, camarada Ferreira.


Festival – O trabalho impediu-me o directo, mas lá fui espreitando pelo sítio da RTP o que ia acontecendo. Já com a porta fechada, fiquei na companhia de uma colega e dois seguranças a assistir à consagração final. A vitória portuguesa é-me especialmente querida por várias razões. Primeira, adoro a canção. Já o tinha dito aquando da audição inaugural. Segunda, simpatizo com a postura do Sobral. Gosto do timbre, dos tiques, do inegável bom gosto, do aspecto algo freak. Terceira, a canção impôs-se por aquilo que é, sem gajas boas nem fogo de artifício, sem coreografias pirosas nem lantejoulas, sem mulheres com barba nem tranças de três metros, sem pirotecnia. Simples, sóbria, directa ao coração. Em suma, é um sinal de esperança, ainda que ténue, como sempre sucede com estas coisas, que aquele despojamento tenha tocado as pessoas. O Sobral foi mesmo o salvador de um dia amargo. Agradecido

sábado, 13 de maio de 2017

FÁTIMA KITSCH


Foi em 2006 que surgiu a ideia de escrever o livro sobre o imaginário iconográfico kitsch associado aos fenómenos religiosos de Fátima. “Queria compreender o porquê daquele esparrame de lojas e quinquilharia na cidade de Fátima e como é que a imagem de Nossa Senhora de Fátima era aproveitada do ponto de vista comercial.” Ondina começou a levantar várias questões aos comerciantes e lojistas, mas para as quais não conseguia respostas. “Por que é que numas peças apareciam as três pombas? Por que é que a Nossa Senhora aparece sem coroa e outras vezes com uma auréola? O que é que está por detrás destas representações comerciais?”

Notícia aqui.

Entrementes:

I - COMPANHIA


1.

   Um homem tão frágil quanto uma flor. Profissão: tudo o que convier no momento, quando precisa de conversar. Coxeia de mesa em mesa, aproxima-se dos outros com cuidado, chupa cego pedacinhos de nada que lhe atiram, vai pedinchando a esmola da atenção, com o olhar fere o sorriso ainda plano das crianças

   a correria ruidosa em volta do seu lugar — amarra-lhe o corpo, o disparo na respiração limpa de uma das crianças, marca-a com o dedo, a sedução em silêncio —

   retomam o riso, a respiração ofegante, a correria. Procura nos bolsos. Uma sede que lhe torce a língua, come-lhe o estômago, fede à distância, dá-lhe náuseas
   Regresso ao escuro.

*

   Tão frágil quanto uma flor. Como pegar nela, espremer o seu nervo escanzelado de vida, golpe azul que se deita espesso até ao fundo pela palma da mão —
   dedos caridosos salpicam o derrame lento sobre o focinho do artista, dão-lhe a provar o cúmulo negro das unhas — dá voltas sobre a sua sombra, não consegue lamber — nenhuma palavra, nenhum fôlego, gane alto sem vergonha — de nada lhe servirá a vontade de falar

*

   Frágil como uma flor. Mudá-la de sítio —
   passa inclinado, despercebido, vaidoso nas suas pétalas rasgadas, a boca espera numa vontade de chuva, não se ouve — entra o sol, extingue o seu círculo branco de pétalas, desce certeiro até às raízes
   — vê, estão podres.


Frederico Pedreira (n. 1983), in O Artista Está Sozinho (2013). Estreou-se com um volume de poemas intitulado Breve Passagem pelo Fogo (2011), denotando logo aí uma tendência narrativa que volumes posteriores consolidaram. Ensaísta e contista, Frederico Pedreira é doutorando em Teoria da Literatura. À formação académica responde com textos por vezes fragmentários e assumidamente inóspitos, mal-educados. Da sua poesia retemos uma vivência atribulada que coloca a personagem algo dúbia do artista/poeta/escritor num lugar de desentendimento com o mundo, desacordo transfigurado por um discurso elíptico, parcelar, num ritmo aos solavancos por vezes difícil de acompanhar. Oscilações de humor oferecem-lhe um tom emocional inquieto, adquirindo o texto amiúde a forma catártica de um intimismo destroçado.  

QUATRO PARES DE ÓCULOS

Nunca chegaste e no entanto todos os dias espero que partas. Todos os dias me despeço. Todos os dias aguardo. Todos os dias me habituo à tua ausência. Todos os dias lhe digo, a ela, que te conserve.
É extenuante viver o que não existe.

eu.a.outra, aqui.

ESCUTADO NO CAFÉ

Estou farto deste país. Qualquer dia emigro para o interior alentejano

sexta-feira, 12 de maio de 2017

QUEM FOI HENRI MICHAUX?


— Nós outros 


Na nossa vida nunca nada esteve certo.
Certo como destinado a nós próprios.
Nada na nossa vida se consumou profundamente.
O triunfo, a perfeição,
Não, não, isso não nos é concedido.

Mas agarrar nas mãos o vazio,
Caçar a lebre, deparar com o urso,
Corajosamente atacar o urso, tocar no rinoceronte.
Ficar despido de tudo, suando o seu próprio coração.
Atirados para o deserto, obrigados a refazer o rebanho,
Um osso aqui, um dente acolá, um corno além.
Isto sim, isto é nosso.

Dizer que nascem neste momento as sete vacas gordas.
Nascem, mas não somos nós quem as há-de ordenhar.
Acabaram de nascer os quatro cavalos alados.
Nasceram. Só pensam em voar.
É difícil refreá-los. Irão quase até aos astros, estes cavalos alados.
Mas não somos nós quem os cavalgará.
Caminhos de toupeira, isso é nosso, caminhos de ralo.
Chegámos às portas da Cidade.
Da Cidade-que-interessa.
Não há dúvida, cá estamos. É ela. É mesmo ela.
Quanto penámos para chegar... para partir.
Arrancar-se lentamente, clandestinamente, arrancar os braços que ficaram lá atrás...

Mas não seremos nós quem há-de entrar.
Serão jovens com muita pinta, jovens muito jovens, muito violentos, muito orgulhosos, sim, esses é que hão-de entrar.
Mas nós, não, nós não entraremos.
Não passaremos daqui. Stop. Nem mais um passo.
Entrar, cantar, triunfar, não, não, isso não é nosso.


Henri Michaux (n. 24 de Maio de 1899, Namur, Bélgica - m. 19 de Outubro de 1984, Paris, França), in Doze Nós Numa Corda - Poemas Mudados Para Português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Dezembro de 1997, pp. 129-130. Nota: do nada, pediram-me que explicasse quem foi Michaux. Preenchi o vazio com meia dúzia de banalidades, que nasceu belga, viajou muito, pintou, consumiu drogas com intuitos criativos. Podia ter sido padre, mas acabou a coleccionar caligrafias. Quem foi Henri Michaux? Responda quem souber. 

NÃO-PESSOAS

Vai para nove anos que trabalho numa loja instalada numa grande superfície. O percurso entre casa e o centro comercial repete-se aproximadamente 242 dias por ano, descontando férias, folgas e duas interrupções fixas: dias de natal e ano novo. São pelo menos 8 horas de trabalho diárias, o que me leva a concluir ser aquele edifício um dos “lugares” onde passo mais tempo por ano. Isso mesmo teria de concluir se fosse um lugar o local de trabalho para onde me dirijo monótona e repetidamente. Faço-o contratualmente, por dever, obrigação e necessidade. Uma necessidade relativa, é certo. Ainda assim, necessidade.
Reconheço-lhe o privilégio da observação. O centro comercial é um óptimo observatório social, por ali transitam diariamente centenas de pessoas com comportamentos e atitudes similares mas histórias pessoais diversas. Reduzidas à condição de clientes, essas pessoas procuram responder às expectativas sobre elas colocadas adoptando comportamentos estereotipados. Na relação que estabelecem com os funcionários, fazem-se valer dos seus direitos de consumidor. Estão numa posição de poder. O poder que exercem, a forma como o exercem, é revelador da moral que têm (ou não têm).
Uns arrogantes, outros modestos, uns discretos, outros exuberantes, mas quase todos obedientes a um código geral cujo cumprimento é garantido pela observação dos seguranças colocados em locais estratégicos e da sinalética disseminada pelo edifício. Há indivíduos que aparecem ocasionalmente, reconhecemos-lhes o rosto. Outros são presença assídua, diária. Mas o que mais os aproxima é o anonimato, o mesmo anonimato instalado entre as pessoas que ali trabalham e diariamente se cruzam sem sequer saberem o nome umas das outras.
Os centros comerciais fazem parte desse conjunto de instalações a que Marc Augé chamou de «não-lugares», espaços definidores de uma sobremodernidade que se caracteriza pela «superabundância de acontecimentos, a superabundância espacial e a individualização das referências» (p. 40). O lugar enquanto fronteira postulada como que foi suprimido na sobremodernidade pelo «não-lugar», local de trânsito e transitório, ideal da efemeridade contemporânea sem qualquer singularidade, espaço neutro ao serviço dos indivíduos, organizado em função dos indivíduos e dos seus vazios.
O lugar antropológico enquanto investido de sentido histórico, identitário e relacional como que se extinguiu nestes «não-lugares» onde não se vive a história, onde tudo é transitório, onde a identidade se abrevia nos dados fornecidos para adesão a um cartão de cliente, onde as relações entre os indivíduos se exercem com o compromisso da insciência (por assim dizer). Daí que ao cumprimentar um cliente o funcionário não esteja a cumprimentar uma pessoa, pois fora daquele espaço circunstancial essa pessoa não irá reconhecê-lo nem será reconhecida senão enquanto pólos de uma relação cliente-funcionário. 
Tudo isto procura disfarçar-se com guiões pautados pela simpatia de um acolhimento personalizado, o qual, em si mesmo, ludibria o mais básico procedimento das relações interpessoais: perguntar a alguém como tem passado não pressupõe um real interesse acerca do bem-estar do interrogado. O dia-a-dia é cada vez mais este exercício fútil de perguntar a alguém se está tudo bem sem sequer diminuir a marcha para ouvir uma reposta, presumindo-se, desde logo, que a resposta seja “tudo bem”. Mesmo que esteja tudo mal.
Marc Augé afirma que «O lugar e o não-lugar são antes polaridades fugidias: o primeiro nunca é completamente apagado e o segundo nunca se consuma totalmente – palimpsestos nos quais se reinscreve sem cessar o jogo misto da identidade e da relação» (p. 70). Mas e se passarmos a maior parte da nossa vida num não-lugar? Será que ele se torna um lugar para nós? Tais dúvidas, em si mesmas, estão respondidas, pois a sobremodernidade é precisamente esta época em que a maior parte do nosso tempo se passa em não-lugares, sendo o efeito mais visível dessa situação a experiência de «uma forma muito particular e muito moderna de solidão» (p. 80).

O sucesso das redes sociais não se compreende sem a percepção desta solidão intrínseca ao cidadão da sobremodernidade, o habitante dos não-lugares esvaziados de individualidade e de identidade. Saber-viver é hoje um processo de aprendizagem do não-lugar, na medida em que este define a nossa identidade pelas regras que impõe à aceitabilidade de um perfil de utilizador, de cliente, de consumidor. «Só, mas semelhante aos outros, o utilizador do não-lugar está com este (ou com as potências que o governam) numa relação contratual» (p. 87). Ora, serão pessoas estas entidades que habitam os não-lugares? Ou serão já uma outra coisa? Serão não-pessoas? Expropriadas de singularidade, que lhes resta senão repetirem-se na solidão generalizante de uma farda interior?


Marc Augé, Não-Lugares - Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade, trad. Miguel Serras Pereira, Letra Livre, 2012.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

LE RADEAU DE LA MÉDUSE


THÉODORE GÉRICAULT
Le Radeau de la Méduse
1819
óleo sobre tela
491 x 716 cm, Musée du Louvre, Paris
(clique na imagem para ver melhor)


   Em Junho de 1816, uma fragata baptizada de Medusa saiu de um porto francês em direcção ao Senegal. Com uma tripulação a rondar as quatro centenas de pessoas, capitaneada por um tal de Hugues du Roy de Chaumareys, a fragata acabou por naufragar algures entre as Canárias e Cabo Verde. Seis salva-vidas foram ocupados pelo capitão, oficiais e o futuro governador do Senegal. Para trás ficaram 150 almas à espera de ajuda. Restaram 15 para contar a história. 
   A luta pela sobrevivência a bordo de uma jangada levou a mortes várias, assassinatos, sendo famosos os relatos de canibalismo então assinados por Henri Savigny: "Aqueles que a morte tinha poupado atiravam-se raivosamente aos cadáveres que cobriam a jangada e cortavam-nos em fatias, que alguns quase instantaneamente devoravam. Um grande número de nós, ao princípio recusaram-se a tocar nessa horrível comida, mas por fim, cedendo a uma vontade mais urgente que a humanidade, vimos nesse terrível repasto o único e deplorável meio de prolongar a existência". 
   Obcecado com a catástrofe, o pintor Théodore Géricault (1791-1824) pintou Le Radeau de la Méduse (1819) e apresentou a obra no Salão de 1831. Géricault serviu-se de cadáveres para representar os corpos mortos sobre os quais resistem as figuras vivas. O elemento mais elevado é um preto acenando uma insígnia de esperança, o que então causou escândalo junto das mentes esclavagistas. Mas a violência do quadro foi o que gerou maior controvérsia, apesar de nada ele acrescentar aos relatos dos sobreviventes que Géricault ouviu. 
   Na Europa de 2017, o problema dos refugiados tem vindo a ser banalizado com a exibição persistente de imagens horrorosas. De corpos dados à costa a barcos de borracha atolados, já vimos um pouco de tudo. Figuras públicas aproveitam tempo de antena para denunciarem os factos como bem entendem, num esforço de consciencialização traído pela espectacularidade. Ouvem-se os discursos, comovem-se os corações, muda-se de canal. 
   O escândalo provocado pelo quadro de Théodore Géricault, representação visual de um facto histórico num tempo em que a imagem ainda não havia hegemonizado o pensamento, parece-nos hoje anacrónico. Lado a lado, a miséria dos refugiados e a miséria televisiva convivem pacificamente. O espectador, ou, se preferirem, o público, assiste a tudo com relativa indiferença, a relação que mantém com a realidade é de distância. A cada vez mais intensa virtualização da nossa relação com o mundo produz este efeito de distância face aos factos, uma distância protectora mas altamente nociva. 
   A foto chocante de um menino sírio morto numa praia da Turquia é o que mais se aproxima hoje da balsa de Medusa, o que leva a pensar na Europa como a tripulação no quadro de Géricault. Em certa medida, somos vítimas de um naufrágio moral e, por consequência, político. Procuramos sobreviver "comendo-nos" uns aos outros, cada vez mais encolhidos numa jangada deixada ao abandono por elites instaladas em porto seguro. Uns mortos, outros semimortos, todos desesperados. Ou como aquela figura absorta que, no lado esquerdo da jangada, ajoelhado entre dois corpos, oferece uma mão ao peso da consciência enquanto impede um cadáver de cair à água. 

UM POEMA COM 100 ANOS


A CONFRARIA DOS ESCRITORES

Sem dúvida jamais me habituarei
a instalar-me na esplanada do «Bristol»,
beber chá,
contar histórias verso a verso -
tenho vontade de entornar os copos
e de trepar às mesas.
Escutai,
confraria literária!

Estais aí sentados,
os olhos mergulhados na chávena de chá.
Os vossos cotovelos estão luzidios à força de escrevinhar.
Levantai os olhos dos vossos copos por terminar.
Libertai as vossas orelhas das guedelhas.

Vós
colados ao papel
das paredes,
meus caros,
que fazeis vós com o verbo?
Sabíeis
que quando não escrevia
François Villon
era bandido?

Vós
que sois prudentes
mesmo para agarrar numa faca de cortar papel,
pensar que é a vós que está confiada a beleza do mais magnífico dos séculos!

Escrever ainda?
Hoje
a vida
é cem vezes mais interessante
mesmo a do último ajudante de notário.

Senhores poetas,
não estais já fartos
das páginas,
dos palácios,
do amor,
dos bosques de lilás?
Se chamam
criadores 
a pessoas como vocês -
então quero lá saber da arte em geral.

Prefiro abrir uma loja.
Irei à Bolsa.
Os flancos eriçados com espessas toalhas.
Irei esvaziar a alma
berrando canções de bêbedo
num privado de cabaré.

Será que uma pancada pode ter êxito sob os tufos de cabelo?
Um só pensamento
habita estes pêlos que nunca mais acabam:
«Pentear-se? Para quê?!
Por um momento não vale o esforço,
quanto a estar
eternamente bem penteado
é impossível».

1917

Vladimir Maiakovski (n. 19 de Julho de 1893, Baghdati, Geórgia - m. 14 de Abril de 1930, Moscovo, URSS), in 33 Poesias, tradução e prefácio de Adolfo Luxúria Canibal, Quasi Edições, Abril de 2008, pp. 61-62.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O SEGREDO, O MILAGRE, A DÚVIDA

Terá o Papa estudado português técnico na Universidade Independente ou na turma do Relvas?

UM PARVO QUALQUER

Um parvo qualquer pôs-se a filmar em directo uma deslocação ao balcão das finanças.
Outro parvo qualquer, militar da GNR à civil, resolveu impedi-lo de fazer as filmagens detendo-o e agredindo-o. 
O Jornal da Noite da SIC abriu com estes dois parvos. 
Segue-se a voz histérica de Montenegro e as 20 novas estações metropolitanas de Cristas na AR, a casa mãe dos parvos. 
Umas horas antes, na Antena 1, julgo que era a Flor, esqueceu-se do microfone aberto e comentou: "mas isto é uma pipa de massa". Podia ter dito coisas mais acertadas, tipo "isto é uma pipa de parvos a abrir o Jornal da Noite". 
Mas o Jornal da Noite ainda não tinha começado.

A. R. PENCK (1939-2017)


A. R. PENCK
Que peut-il résulter de ce qui est système I?
1981
acrílico/tela
100 x 150 cm

Penck (cujo nome real é Ralf Winkler) nasceu em Dresda em 1939. Tenta, em vão, entrar nas escolas de arte da sua cidade natal e de Berlim Oriental. Sempre conotado com o mundo "underground" de Dresda, a sua fonte de inspiração fulcral será o jazz. De facto, o conceito de improvisação e de liberdade criativa são comuns a este género musical e à sua pintura e escultura, de vincado cunho neo-primitivista e neo-expressionista. A construção do Muro de Berlim apanha-o no lado oriental da cidade, onde permanece até que as autoridades o "convidam" a emigrar para o ocidente. O seu reconhecimento aqui partiu principalmente da presença na Documenta 5 de Kassel (1972), embora já em 1969 tenha exposto na galeria Werner de Colónia. A sua atitude perante a arte, dessacralizante mas concomitantemente na senda de um arquétipo da criatividade, faz a ponte entre as culturas primitivas e os graffitis contemporâneos, sem deixar de lado a banda desenhada ou o expressionismo alemão do início do século. A crença numa criatividade por todos partilhável (no que se cruza com Joseph Beuys, embora as implicações metafóricas da obra deste artista sejam mais complexas) leva-o ao conceito de Standart (que interpenetra standard com art), uma espécie de resposta ao realismo socialista apreciado na antiga R.D.A. e que Penck antevia como "verdadeiro contributo à arte socialista". De facto, a simplicidade e o arcaísmo formal que caracterizam tanto a sua escultura como a pintura, para além da manipulação de uma expressividade não filtrada, resultam num sério convite a um "faça você mesmo", onde certamente ecoa a experiência autodidacta do artista e o seu efeito libertário.

Miguel von Hafe Pérez, in La Chambre du Collectionneur - arte estrangeira em colecções portuguesas, trad. Elizabeth Plaister, Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, Outubro de 1996, s/p. Sublinhados meus.

BANDA SONORA ESSENCIAL #3


De uma viagem à África Central, proposta pelo fotógrafo Guy Le Querrec, surgiu Carnet de Routes (1995), digressão de sonho guiada pela bateria de Aldo Romano, pelos clarinete e saxofone soprano de Louis Sclavis e pelo contrabaixo de Henri Texier. Paisagens do Chade, da República Centro-Africana, do Congo, do Gabão, de Camarões e da Guiné Equatorial em cerca de 48’ de pura magia. Só me apercebi de quão estimulantes são as referências africanas nesta música quando ouvi e vi o trio numa sala do Seixal, subitamente metamorfoseada num desses lugares que a Leica de Guy Le Querrec tão bem registaram. O “libreto” que acompanha o CD é um caderno de viagens onde o encontro acolhedor com o diverso afasta qualquer necessidade ou intenção de aculturar, mas é também um suporte que permite entender como neste exercício o jazz foi ao encontro das suas raízes africanas. Chatwin dizia que «A mudança é a única coisa pela qual vale a pena viver. Nunca passes a vida sentado a uma secretária. Seguir-se-ão úlceras e doenças cardíacas». Ora, os 9 temas deste CD apresentam-se como uma fonte de mudança, na medida em que imprimem no corpo de quem os percepcione a sensação de uma experiência singular, deslocam-nos do sedentarismo doentio deste quotidiano nosso para um ponto de nomadismo intelectual incomparavelmente mais saudável. Se algum dia vier a realizar um filme, Annobon será por certo o local de filmagens. Até lá:


ARTE DE ESCUTAR

A arte de escutar era uma das mais difíceis posturas humanas, por certo humanista, que podíamos aprender com Baptista-Bastos. Entenda-se: a capacidade de suspender o seu discurso para que o interlocutor pudesse explicitar o seu — mesmo que, no instante seguinte, ele avançasse com uma visão visceralmente diferente.

João Lopes sobre Baptista-Bastos, aqui.

terça-feira, 9 de maio de 2017

BAPTISTA-BASTOS (1934-2017)


Um soco no estômago

   «O Inverno vai ser longo e áspero. Vou ter muito tempo para recordar.» Assim termina o último romance de Baptista-Bastos, Um Homem Parado no Inverno.
   Um soco no estômago. Isso mesmo: um soco no estômago. Acabei de ler o livro. Estou sentado numa mesa junto a uma janela de vidros reforçados e, lá fora, os carros cruzam-se na avenida. Não ouço o barulho do trânsito. Mas vejo um sol meigo e tímido - um sol de Janeiro - a pontuar uns casebres no topo de um morro. Olho para alguns plátanos, de ramos secos erguidos para o céu azul. É Inverno. Recordo. Mas, antes de deixar sair o fio da memória, penso na próxima Primavera, depois de ter lido o romance pela segunda ou terceira vez, com as folhas já verdes do plátano. A história continua.
   Recordo outros romances de Baptista-Bastos, onde se ouvia, com força, bater o vento da História e do Futuro. Recordo, juventude minha, o fascínio de Um Secreto Adeus. Recordo a sala grande da redacção do Diário Popular, conversas de afecto e companheirismo. Recordo, antes e depois, as palavras escritas, os pequenos papéis da solidariedade, o tique nervoso do acender um cigarro, o gesto de agarrar um copo para outra bebida.
   Agora: um soco no estômago. A crueza do vazio. A dolorosa sensação de um frio interior. A cidade cercada, os campos desolados, as conversas perdidas, as ruínas circulares de aldeias remotas envoltas em neblina.
   É como se caminhasse com o peso da memória de várias gerações traídas. Fantasmas entram no discurso e riem nas caveiras brancas de tanta ingenuidade. 
   Um Homem Parado no Inverno - Baptista-Bastos sereno no suplício. Mas, nas entrelinhas, sente-se o furor contido, a raiva em rastilho por entre alguns parágrafos. A vontade de cortar as pontes para novas pontes construir. Destruição necessária para novas construções. 
   Um Homem Parado no Inverno é o retrato de uma solidão que dói. Que dói por ser também a nossa, portuguesa, neste novelo que fomos enrodilhando, perdida a bússula, perdido o próprio Norte. Errantes, nómadas, assim vamos vivendo, enquanto não inventamos novos astrolábios. Enquanto novas caravelas não construirmos.
   Portugueses e suaves assim parecemos. É um rame-rame a que nos obrigaram. Entramos na rotina da desilusão. O nevoeiro oculta os grandes desejos e a vontade de saltar por cima e ir ainda mais além.
   Mas não se cale a voz, por mais solitária que pareça ser. Incomoda até, de tão sincera.
   Estas são as palavras do sentimento para que a usura não se instale e o Inverno não doa tanto. Estas são também as palavras da amizade. Não é, de forma alguma, Um Imenso Adeus. Recordo: «A Felicidade Ainda é Possível», como dizia o outro.

Eduardo Guerra Carneiro, in O Revólver do Repórter, Editorial Teorema, 1994, pp. 185-186.

O MUNDO DELAS


Um dos prazeres que tenho na vida é olhar o mundo através dos olhos das minhas filhas. Isso é possível, em certa medida, observando as fotografias que elas vão captando com a máquina cá de casa.
Dá para perceber, por exemplo, a preferência da Beatriz pelos pormenores. É também mais experimental do que a Matilde, denota uma forte tendência para planos inclinados, fragmentos de estruturas que rasgam a paisagem ou decompõem o todo do qual são parte integrante. Percebo-lhe um desrespeito pela forma que, curiosamente, tem pouco que ver com o perfeccionismo a que se propõe sempre que executa uma tarefa. Há uma encantadora autonomia no olhar da Beatriz.
A Matilde é mais meticulosa e apolínea, gosta de enquadrar os fenómenos como quem procura contar uma história. Tem um olhar narrativo. Busca amiúde espaços amplos, abertos, tentando vislumbrar-lhes equilíbrio e coerência. Por outro lado, os motivos que lhe reconheço são quase sempre românticos, líricos, poéticos, uma poética do deslumbramento que também me encanta pela candura com que constrói os mundos do mundo.
Tenho duas filhas muito diferentes uma da outra, mas tenho igualmente dentro de mim o que a ambas distingue. Apolíneo numas coisas, dionisíaco noutras, divido-me com a noção do desafio constante que é manter-me equilibrado.
A fotografia ao alto é da Beatriz. A de baixo é da Matilde. 


segunda-feira, 8 de maio de 2017

[MIÚDA CONTIGO NA RUA]


Miúda contigo na rua,
miúdo com cinismo de velho
- os dois todos coçados,
eu a chupar-te os cigarros e os olhos
como um peixe no prato,
a ordenar a minha boca desajeitada
ordenhar-te a glande detrás da carcela,
a abraçar-te a penumbra húmida,
porque se suares -

Pedes licença, trancas-te no lavabo,
tocas-te e é o dilúvio nos sanitários.
Sais com girinos e moreias numa enxurrada,
ordenas «escancara-te, temos de ir de viagem».
Não obedeço. De todo o modo,
frustrar-te-ia.
O que tenho para oferecer são
intuições penduradas da pestana da alma
onde conseguirás reservar florestas várias,
culturas esquecidas da grande Ásia,
novas estirpes da malária,
enxertos para preservar vinhas roxas hereditárias.
Esgotadas, fechar-se-á a pálpebra.

Em última instância, o fim não é estridente
- é franquear devagar a soleira e,
com delicadeza enfermeira,
fechar silenciosamente a porta,
silenciosamente como nos filmes,
silenciosamente num ardil de sonoplastia.
O fim, o irrepreensível sonoplasta.

Esquecer não é mudar de pele,
semear epiteliais no tapete,
pelos lençóis,
pelas almofadas,
na água que me lava,
não é passar um obsessivo pano
onde os teus dedos pousaram,
naquilo que pressionaram e vergastaram.
Esquecer é cirandar com erupções tapadas,
assustar memórias,
despejá-las como a uma família cigana em propriedade
alheia.
É negar dias,
negar filhas,
recusar víveres,
lacrar a vagina,
engolir idioma e língua,
fazer dos olhos salinas,
- ver nada,
ver-me agora nada.
Esquecer é largar casca até à seiva,
esquecer que,
naquela camada amachadada,
se foi uma possibilidade de copa
balouçante à brisa prateada,
ramos alquebrados de bagas,
antecipando a polinização.
Dispersos na manta morta.

Esquecer-te é deixares de ser
mãos suadas,
nudez no parapeito,
cópula à janela,
língua por mim adentro,
falo a explodir-me no ânus,
invasão dos tecidos moles,
tornares-te um epitáfio sem lápide
garatujado num livro.
Este é o roteiro de despedida que prefiro.


Catarina Santiago Costa (n. 1975), in Tártaro (Maio de 2016). Dois livros breves publicados pela Douda Correria, ambos em 2016: Estufa e Tártaro. Com licenciatura em Filosofia, incorpora em poemas de enorme visceralidade elementos que nos enviam para latitudes onde a materialidade do corpo se impõe a qualquer hipótese metafísica. A linguagem impetuosa, a espaços lúbrica e despudorada, entremeia automatismos vários, sublinhados pela acumulação de substantivos justapostos, com versos sensíveis e fortemente sugestivos de um ponto de vista imagético. É uma poesia que dá lugar ao excesso e à crueldade, sem abdicar, porém, dos atalhos desbravados pelo sarcasmo e pela causticidade do discurso. Certos jogos de palavras talvez fossem desnecessários, na medida em que nada parecem favorecer o contraste instalado entre o discurso visceral e a sensualidade das imagens. 

sábado, 6 de maio de 2017

ENTRETANTO


DO INSUPORTÁVEL

Sou acusado de fundamentalismo por não pactuar com o circo montado em torno do centenário das aparições de Fátima, celebração de um logro por de mais desmontado e desmentido, uma patranha para ludibriar pessoas de fé. Não ando a apedrejar peregrinos nem os atropelo quando os vejo na berma da estrada, mas não esperem de mim que sinta a mínima simpatia pelos sacrifícios a que se propõem - quase sempre em troca de intervenções divinas para males pessoais. 
Fátima é um negócio que reduz a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) às práticas tão censuradas da Igreja Universal do Reino de Deus, com a diferença de que o negócio da ICAR é bem mais universalista e poderoso. O que se passa no santuário é do domínio da pornografia religiosa, nada tem que ver com a mensagem discutível, mas autêntica, do Cristo que expulsou vendilhões do templo. 
Sou censurado por me indignar contra isto como se ao indignar-me contra isto desrespeitasse a fé dos peregrinos, tendo a minha indignação, no seu íntimo, exactamente a intenção oposta. Caminhar faz bem, peregrinar é outra coisa — altamente criticável se motivado por uma fé milagreira. 
Que a imprensa se arraste de joelhos atrás disto, promovendo e exibindo o espectáculo sem critério que não seja o do puro sensacionalismo, que políticos da República laica se deixem também arrastar pela onda de populismo, são efeitos mais que previsíveis neste mundo em que tudo vale para se estar na crista das audiências. Tudo isto faz parte de um ambiente geral de alienação que só me deixa atónito com as contradições insanáveis do regime em que vivemos. 
Como convencer as pessoas dos benefícios da vacinação quando depois somos tão negligentes em matéria de racionalidade? Como esperar das populações progressos críticos e intelectuais quando depois aceitamos ser cúmplices deste medievalismo cultural? Como fugir ao sensacionalismo e à pornografia mediáticos quando depois nos instalamos pacificamente no meio do espectáculo com os braços cruzados?  É impossível ficar indiferente a tudo isto. No limite da indiferença surge a inevitabilidade do nojo. 

quinta-feira, 4 de maio de 2017

UM SENTIDO PARA O MUNDO


O que é novo não é que o mundo não tenha, ou tenha pouco, ou menos, sentido, é antes que experimentemos explícita e intensamente a necessidade quotidiana de lhe dar um: dar um sentido ao mundo, e não a certa aldeia ou a certa linhagem.

Marc Augé, in Não-Lugares - Introdução a uma antropologia da sobremodernidade, trad. Miguel Serras Pereira, Letra Livre, 2012, p. 31.

REMORSO

   Pouco importa: mora-se cada vez menos em Paris, se bem que aí se continue a trabalhar muito, e este movimento parece assinalar uma mutação mais geral no nosso país. A relação com a história que assombra as nossas paisagens talvez esteja em vias de se estetizar e, simultaneamente, de se dessocializar e de se artificializar. É certo que comemoraremos com o mesmo entusiasmo Hugo Capeto e a Revolução de 1789; continuamos a ser capazes de entrar em duros confrontos a partir de uma relação diferente com o nosso passado comum e de interpretações contrárias dos acontecimentos que o marcaram. Mas, desde Malraux, as nossas cidades estão a transformar-se em museus (monumentos rebocados, expostos, iluminados, sectores reservados e ruas pedonais), ao mesmo tempo que desvios, auto-estradas, comboios de grande velocidade e vias rápidas nos afastam delas.
   Este afastamento, todavia, não se faz sem remorso - como testemunham as numerosas indicações que nos convidam a que não ignoremos os esplendores dos solos natais e os traços da história. Contraste: é à entrada das cidades, no espaço monótono dos grandes conjuntos, das zonas industrializadas e dos supermercados, que vemos instalados os painéis que nos convidam a visitar os monumentos antigos; é ao longo das auto-estradas que se multiplicam as referências às curiosidades locais que deveriam reter-nos enquanto nos limitamos a passar como se a alusão ao tempo e aos lugares antigos, hoje, não fosse senão uma maneira de dizer espaço presente.

Marc Augé, in Não-Lugares - Introdução a uma antropologia da sobremodernidade, trad. Miguel Serras Pereira, Letra Livre, 2012, pp. 65-66.

QUESTÕES INDÍGENAS


Todos os eventos são de entrada livre, com excepção das sessões de teatro e workshops. O programa completo pode ser consultado no site do Teatro Maria Matos. É este mês e são dois fins- de-semana: 5 a 7 e 25 a 27 de Maio.

BANDA SONORA ESSENCIAL #2



Deve ter sido pelos meus 17 que comecei a ouvir Tom Waits assiduamente, levado por um dos seus mais mórbidos registos: Bone Machine (1992). Canções tais como Earth Died Screaming, Jesus Gonna Be Here ou I Don’t Wanna Grow Up, da qual The Ramones fizeram uma belíssima versão de inclinação punk, estimularam o interesse por uma discografia iniciada em 1973 com um título algo irónico para quem está a começar: Closing Time. Os primeiros álbuns de Tom Waits eram bastante diferentes do que encontrei em Bone Machine e reencontrei em The Black Rider (1993), escrito para um drama musical em colaboração com Robert Wilson e William Burroughs. Dessa primeira fase, Nighthawks at the Diner (1975), gravado ao vivo, foi sempre o disco que mais me impressionou, por trazer para a linha da frente um grande escritor de canções em pose de entertainer, por vezes roçando a stand-up comedy, ao mesmo tempo que revelava um extraordinário poeta. Na realidade, a maioria das canções de Nighthawks at the Diner são autênticos poemas recitados sobre um fundo de música jazz. Com um formato de canção mais convencional, só mesmo Better Off Without a Wife, Warm Beer and Cold Women, Nobody e, talvez, Eggs & Sausage, canções ideais para o ambiente de clube nocturno aqui reproduzido. Os preâmbulos que antecedem alguns dos momentos musicais não são propriamente intróitos, são autênticos exercícios humorísticos magistralmente alinhados com a poesia de Tom Waits. The drinks are on me tonight


quarta-feira, 3 de maio de 2017

PERDOAI-LHES SENHOR

A música lá em cima é o Hino Fátima 2017 feito para a visita do Papa, com letra de José Tolentino Mendonça e música de João Gil.


Sigam o link: aqui. Leiam o texto e não percam a canção. Pela parte que me toca, já estou como tantas vezes ouvi o meu pai dizer: que atraso de vida

SUSPENÇÃO

Uma peregrinação a Fátima mudou para sempre a vida de Joana Vasconcelos, artista de bilros para quem os tachos vêm desde há muito sublimando talentos duvidosos. Vai daí, toca de erguer no santuário um gigantesco terço concebido a partir das bolhas nos pés dos peregrinos. A obra chama-se suspensão, mas poderia chamar-se suspensórios. Ninguém daria pela diferença. Marcelo, algures perdido entre o centenário do torriense e a inauguração de uma rotunda, já se pronunciou sobre mais este monumento nacional. Disse que estava chocado com a disparidade salarial no nosso país. Sobre o que tem uma coisa que ver com a outra, pode o caro leitor questionar-se. Pois que pergunte ao líder parlamentar do CDS-PP, especialista em “democracia simulada” e, se não me engano, devoto da nossa senhora dos milagres. 

terça-feira, 2 de maio de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #1



Há tempos, em cavaqueira com o amigo Godinho, questionávamos a possibilidade de reduzir as colecções de discos a um total de 100 exemplares. Porquê 100? Porque é um número redondo, porque transmite sensação de suficiência, porque 100 é 10 vezes 10, quanto basta para garantir o bem-estar de uma família inteira. Terei de fazer batota, seria incapaz de me desfazer de certas edições que trazem 1, 2, 3, 4, por vezes a integral dos talentos em questão. Considerá-los-ei unidade, uma unidade divisível como divisíveis são todas as unidades. Sucede que tal unidade vem desdobrada em partes distintas, mas não autónomas, de um mesmo corpo. Está justificada a batota. Dêmos início à selecção. Em Novembro de 1978, sete anos depois de ter sido declarada a morte de Jim Morrison em Paris, surge nas discotecas (lojas onde se vendiam discos) um objecto intitulado An American Prayer. Nele, James Douglas Morrison lia a sua poesia e contava histórias por cima da música dos The Doors. Spoken word, diríamos hoje, muito provavelmente, contaminados por uma poesia tão devedora do misticismo de Blake como do niilismo de Nietzsche. An American Prayer é um longo poema aqui extraordinariamente remisturado, uma homenagem dos sobreviventes ao guerreiro tombado no campo de guerra. Raro era atravessar incólume o caos representado no diagnóstico de Morrison:

RISK

As horas que passaram a jogar Risco garantem-lhes diploma em geoestratégia. Podem assim referir-se a países e continentes como se estes fossem entidades unívocas, relacionando-se uns com os outros como vizinhos num condomínio de bairro. 

Na infância, ficavam boquiabertos sempre que o Nuno Rogeiro aparecia no ecrã a perorar sobre tomahawks como se estivesse a falar de brinquedos de plástico. O entusiasmo que colocam numa perspectiva do mundo equivale à prática que têm do próprio mundo, é tudo manigância, arte da guerra, estratégia e bluff

Nem lhes passa pela cabeça que para lá da importância que se dão debatendo presumíveis posições políticas há toda uma realidade que escapa à própria realidade, intenções movediças que mobilizam decisões estranhas a todos quantos apenas tenham visto acontecer o mundo pelos filtros dos mass media

Perante a impossibilidade de frear tais representações, que nos resta senão cuidarmos do nosso jardim para que outros dele possam servir-se como exemplo de beleza?

segunda-feira, 1 de maio de 2017

I'M A-WONDERIN'

Em 1969, a morte do artista tinha sido declarada em várias ocasiões. Nashville Skyline foi mais um pretexto, com o tom country, ligeiro e agradável, a sobrepor-se às canções ditas de protesto. Nas rádios, Lay, Lady, Lay fazia sucesso, embora a voz de Bob Dylan se apresentasse irreconhecível. Para agravar a onda de indignação, Dylan convidou para um dueto, logo a abrir, o conservador Johnny Cash. A versão de Girl of the North Country, canção dos tempos de The Freewheelin’ Bob Dylan, seria a estocada final para aqueles que insistiam em fazer do autor de The Times They Are A-Changin’ um mero escritor de canções de intervenção, circunscrevendo, dessa forma, o vasto campo onde as palavras poderiam surtir efeito:

UM POEMA DE REMCO CAMPERT


CREDO

creio num rio
que corre do mar para a montanha
nada mais peço à poesia
do que pôr esse rio no mapa

não quero tirar água das rochas
às rochas quero levar água
tornar rocha negra seca
em rocha azul húmida

mas não é isso o que os jornais querem
querem parangonas negras e secas
constroem diques e obrigam
a dar meia volta e volver


Remco Campert (n. 29 de Julho de 1929, Haia, Holanda), in Voar é próprio dos pássaros (1951), com tradução de Ana Maria Carvalho, in DiVersos - Poesia e Tradução, n.º 23, Edições Sempre-Em-Pé, Dezembro de 2015, p. 123.

A FOME

Não é fácil encontrar nos anais da literatura portuguesa algumas linhas dedicadas ao sacerdote António Cordeiro (1641-1722), autor de uma História Insulana datada de 1717. É Amândio Augusto Coxito quem nos informa, numa entrada da Logos — Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, ter este professor jesuíta ficado como «exemplo de inconformismo perante as ideias estabelecidas». Nascido em Angra, partiu para Lisboa com quinze anos de idade. O resto faz parte de uma aventura de vida que não cabe aqui explorar. Se a ele nos referimos é porque José Martins Garcia (1941-2002) o recuperou para o seu romance A Fome (Companhia das Ilhas, Maio de 2016), publicado originalmente em 1977 pelas Edições Afrodite, com ele estabelecendo uma espécie de paralelismo transtemporal sobre a solitária condição dos povos insulares. Também Garcia se deslocou com apenas quinze anos de idade para Lisboa, aí acabando por se licenciar em Filologia Românica. A infância passou-a na ilha do Pico, dela guardando uma «saudade amarga» envolta em brumas de religiosidade renegada e fantasias travadas pelo realismo da miséria: «Reescrevo esta condição — a que os eruditos chamam insularidade — na memória da escassa vaga que me alimentou a infância entristecida e esperançada por esse gesto de apanhar na minha mão sem idade uma porção de espuma, sabendo-a da mesma natural bondade daquela água salgada com que meus avós cozeram o dentabrum, soca na linguagem de quem não frequentou seminário, lenda da bruma da minha caligrafia obstinada» (p. 26). 
No romance A Fome como que nos é oferecido um olhar sobre esses tempos da infância resumida a capítulo inicial, seguido de outros quatro que percorrem a deslocação lisboeta, passando pela "desventurada" vida de estudante até à mobilização para a Guiné, experiência de guerra colonial retratada num extraordinário romance de estreia intitulado Lugar de Massacre (Afrodite, 1975). Há, pois, um indisfarçável nexo biográfico que nos acompanha do embarque no Carvalho Araújo, no Outono de 1956, até à mobilização para a Guiné em meados da década de 1960. Mas mais do que relato autobiográfico, este livro é um impiedoso retrato, muito à maneira de José Martins Garcia, do ambiente social português vivido nesses anos por um membro da classe dos “portugueses de segunda”. Assim sendo, a fome aqui perscrutada é tanto física quanto moral, é uma fome de viver traída a priori, como se nos afigura quando o herói da narrativa parte para Lisboa a sonhar com Nova Iorque. 
Esta condição açoriana da fuga, perseguida por uma religiosidade lendária e delimitada por delírios sentimentais sobre vidas de sonho, as de quantos partiram para um mundo melhor, começa a desfazer-se ainda a bordo do Carvalho Araújo, quando se torna evidente a miséria humana ali dividida por classes apenas ultrapassadas quando a todos toca a força do vómito provocado pela náusea. E é então que, fumando para enganar a fome, o nosso jovem, atracado em São Miguel, confessa: «Sabia que Antero de Quental se havia suicidado ali perto. Não soube exactamente onde. Sentia-me num país estrangeiro» (p. 54). Antero, o poeta suicida de todas as desilusões, será neste livro a figura icástica de uma nação (então o era, pelo menos em papel) desmoronando-se, enquanto o povo assiste à derribação de costas voltadas para si mesmo, procurando fintar o desamparo e a indigência delatando-se, traindo-se, explorando-se, vigarizando-se. 
Lisboa, capital de um país onde «os explorados exploram os explorados» (p. 77), aparece assim desenhada como um antro de privação física e moral onde, por ironia, só mesmo as putas ou o suicídio podem livrar um jovem de perenes e insuportáveis tormentos: «Sentei-me num café imundo, um daqueles covis que, por esses anos, pululavam na estrumeira lisboeta. Havia espelhos profusos, velhinhos deitando contas a um resto de tarde, prostitutas em começo de faina, empregados orgulhosos como lacaios, cauteleiros, engraxadores e seres de sexo duvidoso. O país dos delatores, miseráveis informadores políticos e quejandos, agredia-me a velha e filosofante atenção, quase despegada, na véspera, do fedor circundante, por uma geometria toda íntima, consequentemente sonho, espaço, forma, lira, morte adiada e prole assassinada antes de, assassina, me cravar no sexo, como se de um mamilo se tratasse, aquele amplexo sugador e venenoso que os meus desesperados compatriotas, os ilhéus, saldavam a estricnina ou corda de forca» (p. 142). Apesar de tudo, que é muito, esses são também tempos de fúria, uma fúria de viver contida pela realidade, tempos de consciencialização política (ou desconsciencialização), tempos de autodescoberta, tempos de afronta e de paixões reprimidas por ruas impossíveis de atravessar. O outro lado da rua é sempre de uma distância incomensurável. 
A linguagem, ainda que poética, não engana o naturalismo da expressão: «Lisboa era-me então uma colmeia bêbada e o halo das suas noites, mistura de álcool, perfume e esperma, fazia-me ranger os dentes na espera da guerra civil» (p. 113). Raivas contidas geram textos explosivos. Assim sucede com este A Fome, onde a própria existência doméstica é um drama sentimental de misérias, abortos clandestinos, violência, incestos calados. Enfim o Portugal, a tal nação, que todos sabíamos (sabemos?), mas poucos se dão ao esforço de denunciar com a acutilância e a franqueza que vislumbramos neste livro. Surpreendentes são igualmente as cenas de uma sexualidade violenta, como que último reduto de frustrações que o sono não apaga. Fome e frio aumentam a gula do sexo, mais como escape à solidão do que necessidade de amor. Como conclusão retém-se um profundo desprezo pelas filosofias que sustentaram, durante décadas intermináveis, um “tempo sem perdão” de que, feitas as contas, ainda somos todos vítimas. Porque há sujidades que não se apagam, entranham-se na consciência colectiva como certas impurezas na pele:


   Procuro-me nos gestos de cada fim de tarde e reencontro, na pressa da memória, os sinais duma fuga impossível. Dona Fernanda espreita o meu regresso, anda de unhas aberrantemente pintadas e fez desaparecer do cabelo escuro as incómodas brancas. Dispo a farda, mas preferiria despir a pele. Meu destino sórdido e errante é ser vigiado durante o sono, no banho, na sentina, por um globo ocular feminino. Eu a mosca, a mulher a aranha. Dispo a farda, tiro a roupa interior, passo ilusoriamente à condição civil, nem os sapatos conservo. Torno a barbear-me para afastar do rosto algum bacilo de quartel. Torno a esfregar os dentes, para safar do hálito algum cheiro a pólvora. Esfrego as unhas, esfrego a pele, esfrego-me raivosamente, sob um dilúvio frio, shampoo, sabonete, desodorizante, loções. Camisa lavada, cuecas lavadas, peúgas lavadas, tudo lavado. E continuo sujo, absurda e perfeitamente sujo. Cinco minutos da casa ao barco. Dona Fernanda mete-se na casa de banho. Aposto que procura sob o duche um resto de mim