sexta-feira, 16 de junho de 2017

EPIFANIAS #18

18

                                    [Dublin, na North Circular
                                    Road: Natal]
Miss O’Callaghan — (cicia) — Disse-te o título,
        The Escaped Nun.
Dick Sheehy — (alto) — Ó, Jamais leria
        um livro desses… Tenho de
        questionar Joyce. Joyce, alguma
        vez leu The Escaped
        Nun?
Joyce — Reparo que certo
        fenómeno acontece por
        esta hora.
Dick Sheehy — Qual fenómeno?
Joyce — Ó… as estrelas aparecem.
Dick Sheehy (para Miss O’Callaghan) Alguma
        vez reparou como… as
        estrelas aparecem na ponta
        do nariz de Joyce por esta
        hora?... (ela sorri). . Porque
        eu reparo nesse fenómeno.


James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

UM POEMA DE TOMAS TRANSTRÖMER


PANFLETO

A fúria silenciosa garatuja no lado interior das paredes.
Árvores de fruto em flor, o cuco canta.
É a anestesia primaveril. Mas a fúria silenciosa
pinta slogans na garagem do fim para o princípio.

Vemos tudo e nada, bem direitos como periscópios
manobrados pela tímida tripulação dos infernos.
É a guerra dos minutos. O sol abrasador
cai sobre o hospital, silo de estacionamento da dor.

Nós, pregos vivos pregados na sociedade!
Um dia libertar-nos-emos de tudo.
Sentiremos a aragem da morte nas nossas asas
e seremos mais condescendentes e mais selvagens do que até aqui.


Tomas Transtömer (n. 15 de Abril de 1931, Estocolmo, Suécia - m. 26 de Março de 2015, idem), in 50 Poemas, tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água, Julho de 2012,  p. 103.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

DOIS POETAS DE ESPANHA

Tem tradição entre nós o interesse pela poesia vinda de Espanha, patenteado desde há muito tanto no incansável trabalho de divulgação levado a cabo por José Bento (n. 1932) como nas traduções de Joaquim Manuel Magalhães (n. 1945). Pequenas editoras como a Averno, a extinta Ovni, a Língua Morta, a Douda Correria, a Medula e a do lado esquerdo, para citar umas poucas entre outras que por certo estarei a esquecer, deram e vão dando continuidade, conforme os casos e na medida das suas possibilidades, a esse esforço de publicação de poetas herdeiros da língua de Cervantes. Dois livros recentes são exemplo desse mesmo esforço, assim como de uma pluralidade que mantém viva a poesia produzida por nuestros hermanos.  
Comecemos por Carne de Leviatã (Douda Correria, Junho de 2016), de Chus Pato (n. 1955), poeta galega estreada em 1991 com um livro intitulado Urania. Uma nota final informa-nos de que a obra traduzida por João Paulo Esteves da Silva encerra a pentalogia Decrúa, iniciada com a publicação de m-Tala (2000) e continuada com os livros Charenton (2004), Hordas de escritura (2008) e Secesión (2009). É igualmente da autora um apontamento explicativo do título Carne de Leviatã, o qual foi respigado em Giorgio Agamben numa passagem onde se alude à tradição judaica. Leviatã é um dos três animais da origem que servirá de banquete aos justos nos dias do Messias. A poesia de Chus Pato tinge-se de inúmeras alusões congéneres, provenientes tanto da mitologia greco-romana como da tradição judaico-cristã. 
Transgredindo as convenções do lirismo focado no sujeito, assume uma tendência reflexiva que aproxima amiúde o discurso poético do pensamento filosófico. Neste contexto, o problema da linguagem, da relação entre as palavras e os corpos nomeados, é uma das temáticas mais em evidência, ainda que reflectindo simbolicamente, por meio de uma linguagem que privilegia o sentido metafórico das palavras, certa dimensão ética de que o poema não abdica. Sirva de exemplo esta 

Clareza de Juízo

Entendo que a vida é o que vivemos: esta a tua a
   minha a nossa vida
entendo que um poema é pobreza comparado com a vida
entendo que é pausa
que por um instante separa a vida de si
que pesa e faz balanço
aguça os sentidos
Entendo que é acesso ao intelecto
um vértice corpóreo
impróprio
Assim o entendo
que o poema indica a desconexão entre melodia e
   sentido
Entendo que um poema só se escreve com versos finais

Desfunda o idioma
desfunda a vida

Esta ideia de poema enquanto acesso ao intelecto é o que mais sobressai na poesia de Chus Pato, jogando aqui com alegorias, acolá com símbolos, por vezes aforística, outras vezes elíptica, no encalço de um idioma capaz de traduzir a intensidade dos ritmos que pautam o andamento do mundo. À imaterialidade da linguagem, a poesia responde com a ambiguidade do verso: «escrevo a voz como um país estrangeiro». É este o seu poder alquímico, o seu assombro, a sua estimulante e desafiante proposta.
Bem diferente é a poética de Jesús Jiménez Domínguez (n. 1970), natural de Saragoça. Ensinar o eco a falar (do lado esquerdo, Abril de 2017) é uma antologia com poemas provenientes de três livros do autor: Fundido en Negro (2007), Frecuencias (2012) e Contra las cosas redondas (2016). A confiar na informação disponibilizada online, pois, infelizmente, nenhuma nota explicativa acompanha esta edição, ficou de fora o poemário de estreia Diario de la anemia / Fermentaciones (2000). 
Inscrita nas tendências dominantes do seu tempo, poder-se-ia dizer desta poesia o mesmo que se diz de tanta outra arreigada aos pormenores do quotidiano. Nos primeiros poemas sobressai o tom elegíaco proveniente de uma paisagem urbana com bares e cemitérios em pano de fundo. A solidão, a melancolia, o tédio, são constantes que atravessam poemas devedores de uma narratividade que o poema de Billy Collins incluído no segundo conjunto bem sintetiza em cinco singelos versos da segunda estrofe: «Sirvo-me dos detalhes mais simples / — um cão adormecido no chão, / um pássaro que escapa por uma janela — / para me revoltar contra a tradição literária / mais grandiloquente» (p. 27). Não enjeitamos, porém, a possibilidade de no futuro ser esta a tradição contra a qual alguém escreverá, por antever no prosaísmo discursivo, eivado aqui e acolá de referências multiculturais e de uma ligeira ironia, a pose repetida do flâneur baudelairiano: «A cidade por onde caminhamos é um sapato demasiado apertado» (p. 13). 
O existencialismo previsível que matiza grande parte destes poemas resulta em cenas quotidianas e rotineiras, descontinuadas apenas pela capacidade que o poeta demonstra em, a espaços, arriscar olhar para o mundo sem por ele ser absorvido. É o caso do poema que deu título ao último dos livros contemplados nesta breve antologia traduzida por Maria Sousa:

CONTRA AS COISAS REDONDAS

Amamos as coisas redondas e pensamos
que vão ser eternas [e] amáveis e perfeitas:
a toranja debaixo do rotundo sol de agosto,
a pulseira que orbita em volta do pulso,
a moeda com duas caras e nenhuma cruz,
a bola de praia em cujo interior ainda se respira
um ar paciente [de] mil novecentos e oitenta e dois.

Há dias redondos em que tudo se encaixa
e a vida parece andar sobre rodas:
alguém, de lixa na mão, encarregou-se
de subtrair ao mundo todas as esquinas,
todas as arestas, todas as bordas.

Mas basta que atravesses um declive
ou que tudo se volte, de repente, para cima,
para verificar que são as coisas redondas
as primeiras a sair e a começar a correr:
a toranja, a pulseira, a moeda e a bola.

Eu recuso-me redondamente a aceitar tais desplantes.
Às formas esféricas eu oponho as coisas informes.
Escolho as imperfeitas, as imprecisas, as irregulares.
Aquelas cheias de defeitos, amolgadelas ou dobras.
Bonitas e originais, sem se sujeitarem a nenhum centro,
só elas permanecem e nos acompanham sempre.



Nota: tomei a liberdade de corrigir, entre parêntesis rectos, o que me parecem ter sido lapsos na transcrição portuguesa do poema, os quais são mais frequentes ao longo do livro do que seria desejável. Tratando-se de uma edição bilingue, poderá o leitor confrontar ambas as versões.


Adenda: Alertaram-me por e-mail e na caixa de comentários para um facto que importa aqui sublinhar, sem prejuízo do que acima se refere. A poeta Chus Pato escreve em galego, pelo que não está correcto dizer-se que escreva na língua de Cervantes. Ainda assim, a despeito das particularidades que caracterizam o território de Espanha, não me parece incorrecto dizer-se que é uma poeta de Espanha, admitindo que seja mais correcto dizer-se que é uma poeta galega. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

EPIFANIAS #17

17

                              [Dublin: na casa dos Sheehy, Belvedere
                              Place]

Hanna Sheehy — Ó, por certo haverá grandes multidões.
Skeffington — Na verdade, como diria o nosso amigo
         Jocax, será o dia da 
         rebelião.
Maggie Sheehy — (declara) — Agora mesmo a
         rebelião pode estar parada
         à porta!

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

EM RESUMO

O Bruno Vieira Amaral pode levar com cinco estrelas, o António Guerreiro pode cascar “no” J. Rentes de Carvalho, a Isabel Lucas e a Clara Ferreira Alves podem andar pela América, cada qual à sua maneira, o Gonçalo M. Tavares pode ter livro novo sobre livro novo, o Manuel Alegre pode ganhar o Camões, o João Pedro George pode escrever sobre terramotos, mamas e a Marquesa de Paiva, o poeta mais rico de Portugal pode ser o Manuel Alegre, os livrecos do Henrique Raposo podem não pegar fogo, como o original de São Cipriano, a poesia pode andar por 300 editores que não conseguem dar vazão a 30000 poetas com 30 leitores cada, o António Lobo Antunes pode ter muitos segredos escondidos sobre o Dinis Machado, o Dinis Machado está-se nas tintas, já foi, a família do Dinis Machado pode dizer o que diz Molero do Lobo Antunes, a rapariga do comboio pode ter estado na feira do livro de Lisboa, a feira do livro de Lisboa pode ter estado no parque, o parque é lindo de morrer. Feitas as contas, tudo se resume a isto: Afonso Noite-Luar faz esquecer Raul Minh’alma que, por sua vez, havia destronado Pedro Chagas Freitas. 

Notícia de última hora: Margarida Rebelo Pinto foi vista na Claire’s a comprar uma mascarilha. É muito provável que o seu próximo livro seja um romance histórico acerca das fantasias eróticas de Soror Mariana Alcoforado. 

DA LIVRARIA PARA O CONVENTO ;-)

Duas adolescentes discutiam se seria saudável fazerem tatuagens onde haviam realizado implantes. Uma delas tinha o Memorial do Convento na mão. 

FAMÍLIA DE SILICONE

Talvez os leitores deste weblog não estejam a par, mas eu explico. Sempre que vou ao banco, passo pela banca dos jornais e espreito as capas das revistas. Há uma rapariga chamada Luciana Abreu que aparece muito. Tem um aspecto vulgar, nada digno de nota. Lembro-me dela quando era Floribella, por causa da minha mais velha. Depois retocou as mamas, substituiu a indumentária primaveril por qualquer coisa que fizesse sobressair as mamas retocadas, calçou saltos altos para parecer ter uma estatura que não tem, arranjou-se com um falhado moço da bola, de quem entretanto se separou, e teve filhas a quem deu os estranhos nomes de Lyonce e Lyanni. As chamadas de capa com Luciana estão quase invariavelmente relacionadas com conflitos familiares, nomeadamente com a mãe e com uma irmã. Desconheço os pormenores, mas entristecem-me os títulos, as gordas, os sublinhados. Tenho da família um conceito algo conservador, acho que é o último reduto da privacidade. Vê-la tornada pública no seu lado mais pobre é assaz deprimente. Esta gente podia simplesmente calar-se, mas talvez não lhes convenha o silêncio. O ruído transforma-lhes as vidas numa novela, pelo que talvez se alimentem de serem o maná de revistas fúteis e seus respectivos leitores. Quando olho para estas capas não me julgo melhor nem pior que o conteúdo nelas exposto. Não teço juízos morais, apenas estéticos e, muito de vez em quando, éticos. Mas pergunto-me, interrogo-mo, como será viver uma vida assim de silicone. E não há mamas que me esclareçam. 

terça-feira, 13 de junho de 2017

ALÍPIO DE FREITAS (1929-2017)


Mais informações: aqui.

BANDA SONORA ESSENCIAL #9


Nenhum álbum ao vivo me marcou tanto como este registo do espectáculo derradeiro de José Afonso, acompanhado no Coliseu dos Recreios, a 29 de Janeiro de 1983, por músicos como Fausto, Júlio Pereira, Rui Júnior, Janita Salomé… A gravação não é boa, denota até algumas deficiências algo rudimentares. Mas também é verdade que essas deficiências acabam por lhe conferir uma notável autenticidade.
«José Afonso encontrava-se já francamente débil», diz-se no booklet, ainda assim não dispensou, como o próprio disse, «um regresso muito abreviado aos tempos de Coimbra». Na edição em CD, o disco 1 termina com os ritmos africanos de Um Homem Novo. O disco 2 começa com uma versão de Milho Verde, sublinhando dessa forma a junção dos ritmos da Beira Baixa com certo toque africano. Fica demonstrada a versatilidade de uma música cujas raízes são o folclore dos países lusófonos.
Recordo-me de ser miúdo e assistir ao concerto na televisão, tendo-me logo aí, muito provavelmente, ficado colada à alma a melodia de Redondo Vocábulo. José Afonso é das poucas personalidades na longa história da cultura portuguesa a quem não vale a pena discutir o epíteto de génio, pelo reportório que legou à posteridade, pela lírica sem tempo independentemente das associações políticas que a ela possam ser feitas, por nele se conjugarem o artista único e o ideal de homem sábio.
Uma canção como Utopia, por exemplo, provém de um tempo muito específico, mas trespassa as barreiras desse tempo. Versos essencialmente humanos retomam dúvidas universais: «Será que existe / lá para as margens do oriente / este rio, este rumo, esta gaivota / Que outro fumo deverei seguir / na minha rota?»
Quando o Nobel da Literatura foi atribuído a Bob Dylan, o instinto pantomineiro da nossa imprensa não resistiu a fintar a inevitável comparação: quem seria o Dylan português? Não há, essa mania doppelgänger tem sido muito da nossa morte. Desperdiçamos tanto tempo em comparação, em busca de cópias, que até nos passa despercebida a singularidade inimitável de um génio.
Todos os prémios são deficientes, escassos, insuficientes, se os pretendermos associar a uma obra destas. A vaidade alegre dos Camões engravatados seria insultuosa ao pretender-se coligada com o ti ri ti ti ti dos índios aqui representados. Prémio, prémio, é ter-nos José Afonso legado as suas composições, prémio é podermos chegar a casa e descansarmos da miséria quotidiana embalados por tamanhas canções.



OS GÉMEOS

Há meses, o 25 de Abril foi comemorado na minha terra com uma visita de Dom Duarte, Duque de Bragança, à Casa Senhorial D’El Rei D. Miguel. Nestes últimos dias, os telejornais abriram e fecharam com notícias sobre o nascimento dos gémeos de Ronaldo.


Em ambos os casos, aí temos a República parola do séc. XXI no seu máximo esplendor - entusiasmada com falsos reis que são bem a ilustração de uma mentalidade tacanha, conservadora, retardada, que não há meio de ultrapassarmos. 

domingo, 11 de junho de 2017

UM POEMA DE PIA TAFDRUP


HAPPY HOUR

Dado: Um curso de água — e os chimpanzés sentam-se
para seguir a corrente,
                     ouvir o murmúrio branco
que se ergue silencioso —
         como se fosse ouvido pela música.
Tão pensativos estão os animais
espalhados em bando afastados uns dos outros em redor da água

que mantém o sonho a flutuar
                                    ao cair
                                      sobre as rochas negras.
Os chimpanzés olham fixamente
mergulhados em si próprios
de costas para o mundo,
para a multidão importuna
que com gritos e esbracejando
tenta instigar um comportamento mais selvagem
dos animais que, com o sol no pêlo,
meditam profundamente
                   e não se deixam impressionar...

Aparentemente não estamos sozinhos
no subtil considerar da criação do mundo,
ouvindo o sussurro das pedras e o cintilar da luz na água
— o que impele os chimpanzés
a competir com os filósofos mais resistentes,
quando em horas de pensamento refinado
ficam quase parados,
                   clarividentes,
na relva solar à beira da água
que corre borbulhando tão branda e bela
que por um momento apazigua as rivalidades no bando
— e também no público,
e em nós, e devagar nos enche
de um sufocante espanto pela dádiva deste incompreensível mais.


Pia Tafdrup (n. 1952, Copenhaga, Dinamarca), in Ponto de Focagem no Oceano, Tradução colectiva (Mateus, Junho 2002), revista, completada e apresentada por Laureano Silveira, Quetzal Editores, Março de 2004, pp. 60-61.

CONTINUA A PARVALHEIRA

O Malomil continua a presentear-nos com a parvalheira autárquica. Entre vários exemplos, seguem três para juntar aos anteriores: aqui


Isto será verdade? :-)



sábado, 10 de junho de 2017

AS MULHERES DE FERRANTE

As mulheres dos três primeiros livros de Elena Ferrante, reunidos em Crónicas do Mal de Amor (Relógio D’Água, Maio de 2014, 1.ª Reimpressão: Outubro de 2016), vivem num constante estado de tensão. São personagens perturbadas, estigmatizadas, antes de mais, pela ausência do outro. A esta ausência respondem com conjecturas acerca da vida dos ausentes, imaginam-se a viver no corpo de outrem, colocam-se nesse estado de stress entre o que são na realidade e o que ambicionariam ser, perspectivando-se na frustrante interpretação que fazem de si próprias a partir do que sabem da vida dos outros. Delia, a personagem central de Um Estranho Amor, procura descobrir-se a si própria reencarnando a vida da mãe. Amalia ter-se-á suicidado. Delia regressa à Nápoles natal para o funeral da mãe, persegue-lhe os passos, recorda-a, veste um vestido que era da mãe, tem uma relação com o filho do amante da mãe, tenta imaginar que vida teria sido a da mãe vivendo a sua própria vida como que condicionada, delimitada, pela constante presença de uma figura ausente. Da mesma maneira, a Olga de Os Dias do Abandono vive condicionada pela figura ausente do marido. Foi abandonada, ficou com dois filhos nos braços e um cão que nunca quis, imagina o marido nos braços da amante vinte anos mais nova, imerge desorientada num labirinto de raiva e fúria, perde as estribeiras, deixa-se tomar por pensamentos obscenos que se reflectem na linguagem e nos actos quotidianos. Já Leda, a mulher de A Filha Obscura, é-nos apresentada num profundo estado de solidão. Professora universitária, abandonou as duas filhas para se dedicar à carreira académica. As filhas vivem no Canadá com o pai, de quem Leda se separou. Vamos encontrá-la numas férias na costa jónica, à deriva entre a família numerosa  de napolitanos com quem se cruza na praia e a memória das filhas: «Já percebi há muito tempo que conservo pouco de mim e tudo delas». 

Delia, Olga e Leda estão na casa dos quarenta, atravessam crises de identidade por razões diversas, une-as a solidão, uma solidão que surge, antes de mais, do desencontro consigo próprias, enquato ocupam os dias a pensar em figuras ausentes, distantes. Delia e Leda aparecem-nos deslocadas dos seus ninhos, desprotegidas, também, pela distância, ainda que no primeiro caso o regresso às origens disfarce essa desagregação do espaço físico em que se movimentam. Mas também Olga, apesar de permanecer na residência familiar, assiste à derrocada do edifício protector. O seu próprio lar é um espaço em decomposição.

James Wood, no prefácio que acompanha Crónicas do Mal de Amor, diz-nos que «os romances de Ferrante poderiam considerar-se marcados, um pouco tardiamente, pela segunda onda do feminismo, que produziu, entre outras escritas, a ficção de Margaret Drabble sobre a prisão doméstica das mulheres (…). Contudo, há qualquer coisa de pós-ideológico na ferocidade com que Ferrante ataca os temas da maternidade e da condição da mulher. Parece apreciar o excesso psíquico, a imoderação, a terrível e singular complexidade dos dramas familiares das suas protagonistas». Esta ferocidade assume amiúde contornos de histeria que nos levam para estados limite, perdemos a mão às emoções da personagem, criamos sentimentos contraditórios relativamente às suas personalidades. Olham invariavelmente para os homens com uma omnisciência duvidosa, colocam-se acima do sexo oposto por uma espécie de conhecimento que não é mútuo. Os homens destes romances até podem ser bons tipos, mas nunca são mais do que isso. Quando não são bons tipos, são oportunistas, fracos, indolentes. A determinada altura, é Leda quem o afirma: «Os homens têm sempre alguma coisa de patético, em qualquer idade. Uma insolência frágil, uma audácia temerosa. Hoje já nem sei se alguma vez despertaram em mim amor ou apenas uma afectuosa compreensão pelas suas fraquezas».

Fortemente marcadas pela experiência do corpo, as mulheres de Ferrante activam a espiritualidade através de uma sexualidade desinibida mas, muitas vezes, fútil e desesperada. À consciência que têm do seu próprio corpo corresponde uma consciência de si próprias, num estado de isolamento que faz da relação com o outro mero pretexto para um conhecimento de si. Não são raros os momentos em que se olham ao espelho, muitas vezes observando a genitália com considerações acerca de si próprias que excedem o trivial. Estes momentos conferem-lhes uma materialidade, uma pessoalidade, uma carnalidade que as torna físicas apesar de serem personagens. 

As mulheres de Elena Ferrante são eminentemente físicas, esse é um dos aspectos que as torna mais atractivas. Têm pouco de abstracto tendo pouco de concreto, vivem como qualquer um de nós sabe que podia viver. A caracterização psicológica que delas é feita não prescinde os contornos do corpo, gerando entre este e a psique um estimulante jogo de correspondências, desafios, relações causa-efeito. Olga cita, a páginas tantas, Anna Karénina. E questiona-se: «Que tensões desvairadas nos impelem a formular as nossas exigências de sentido?» As mulheres de Elena Ferrante são uma tentativa de dar resposta a esta questão. E dão. Por onde quer que circulemos, vamos sempre dar ao mesmo: à família, ao universo doméstico, ao castelo.

DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS


   O país atravessa um momento aborrecido, deixando os portugueses à nora com tanto optimismo. Mais habituados ao catastrofismo de um Medina Carreira ou de um António Barreto, os fazedores de opinião olham para as próprias mãos sem saberem onde escondê-las. Esta atmosfera insuportável de números positivos, vitórias e festejos consecutivos deixa-nos, como sempre estivemos, em contramão com o resto do mundo. Há um espanto neste autodeslumbramento altamente contraproducente. Somos visitados e gabados e elogiados como há muito não éramos. Hordas de turistas chegam-se-nos à porta pedindo-nos doces, mascarados a rigor como num pão-por-Deus à americana. Sempre disponíveis e hospitaleiros, providenciámos atempadamente terrinas repletas de sweets produzidos noutros países. E damos, e oferecemos. 
   Marcelo, o maior da República, é de tal modo acolhedor e afectuoso que nos faz sentir saudade da carranca de um Cavaco. Esta alegria, este bem-estar, matam-nos, destroem-nos, usurpam-nos a identidade. Até o fado deixou de ser triste, povoado de miúdas giras, soltas, decotadas, tatuadas e estouvadas como qualquer estrela pop. Estas procuram-nos, nem que para efeitos promocionais, citam-nos lá fora, compram casa cá dentro, passeiam-se pela baixa lisboeta incógnitas mas observadas. Quem quer que ande pelas baixas de Lisboa ou Porto sentir-se-á afectado na sua portugalidade, tanto o entusiasmo, o estilo, a ostentação, o glamour que matiza as ruas.
   O que nos sobra então de Portugal? O que nos sobra então de portugueses? Em dia de Camões, o poeta maior da língua portuguesa depois de Fernando Pessoa e ligeiramente antes de Bocage, sobra-nos o acordo ortográfico. Não me refiro ao acordo das academias, negociata ao nível do investimento turístico. Refiro-me ao acordo ortográfico deste bom povo que tão mal trata a sua língua e que nesse mal tratar consegue fazer-nos acreditar que ainda somos portugueses, falsamente letrados, putativamente evoluídos, supostamente inteligentes, alegadamente enobrecidos, retoricamente justos. A minha língua é a minha pátria, a ambas o mesmo trato.
   Livres de tudo menos de nós próprios, e ainda bem, damo-nos por contentes ao continuarmos sujeitos à demagogia e à prepotência de elites oligarquicamente instaladas pretendendo fazer-nos pensar que já não somos o que continuamos a ser. É claro como a água que corre nos rios poluídos da pátria haver neste cenário uma enorme contradição. Há mais gente formada nas universidades, é certo. Mas a falta de civismo observada diariamente nas ruas não diminuiu. Nem a completa ausência de pensamento crítico, a qual continua a fortalecer o discurso politicamente correcto dos arrivistas e dos poderosos. Somos racistas e xenófobos pela calada, negando a nós próprios tamanha evidência. Talvez não o sejamos para com turistas endinheirados, nem para com os angolanos “cheios de pasta”, oferecendo-lhes tratamento que somos incapazes de oferecer, a título de exemplo, às comunidades ciganas e aos portugueses dos chamados bairros sociais (tenham a cor que tiverem). 
   Perdura em nós aquele elitismo saloio da ostentação mesquinha, manifesto em indicadores tão racionais como os da comercialização de telemóveis.  Depois, temos a violência doméstica a dar-nos cabo das estatísticas. E a sinistralidade nas estradas. Apesar de sermos um dos países mais cool e simpático e pacífico e seguro do mundo. As mulheres portuguesas que o digam. Adoramos Camões sem nunca o termos lido, aceitamos numa comunidade de países lusófonos a presença de um país cuja maioria dos habitantes nem sabe dizer bom dia na língua dos Lusíadas
   Enfim, andamos contentes, optimistas, alegres, esperançosos. Temos boas razões para isso. A mais forte das quais constatarmos que, afinal, não somos tão bons quanto nos julgamos quando abrimos os olhos. Endividados, sufocados por juros, pagamos a conta nas facturas das despesas fixas - luz, gás, água -, aceitando sem piar o roubo a que somos sujeitos em impostos sobre impostos mais taxas respectivas. O reino da burrocracia é o nosso. Não são pois pacíficos os portugueses pelo mal que fazem a si próprios, são-no por comerem e calar, por não mexerem uma palha contra quem os rouba, felizes no sorriso deslavado de débeis dentaduras, adorando a quem os emociona por fazer esquecer que somos o que somos. Isto.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

I find your lack of faith disturbing


esta rara espécie que desfila diariamente para a morte inevitável. sem memória fúnebre. que transporta toda a ética para o leito nocturno. automática e básica nos rituais diários. que deixa o incondicional para o último suspiro. que fácil acordar para o dia sem o peso da noite. que cómodo morrer sem jeito e sem transpor a ponte e a estrada. caminha por cima a verdade. como uma armadilha de sabres de luz.


Sandra Andrade (n. 1976), in doppelgänger (2016). Estreou-se em 2014 com o volume Para Acabar De Vez Com a Retórica, colectânea de textos escritos maioritariamente em prosa tendo como ponto de partida as afinidades electivas da autora. Músicos, cineastas, artistas, cientistas, convocados para uma performance anárquica onde o quotidiano surge representado com extrema violência e crueldade. A inclusão de referenciais provenientes da ficção científica transporta-nos para cenários apocalípticos de pós-humanidade e pós-verdade, alicerçados em referências que apontam para um contraste extremo e persistente entre um mundo orgânico em vias de extinção e a realidade holográfica desta nova era cibernética. A pós-realidade é o que aqui se coloca em xeque, numa escrita que reivindica para si o bruto, o autêntico, o cruel e o violento retrato do texto como forma de purgação.

DOIS LIVROS DE SANDRA ANDRADE

Julgo não merecer discussão a tese segundo a qual atravessamos neste momento uma revolução sem precedentes. O tempo avizinhado permite-nos demarcar o final do século passado, com o advento das novas tecnologias da formação e da informação, como a época em que se começou a desenhar essa revolução. Avanços aparentemente imparáveis nas áreas da informática permitiram desenvolvimentos biotecnológicos que nos levaram a falar de pós-humanidade, não sendo a tais progressos alheia a eleição da pós-verdade como neologismo do ano em 2016. Vivemos, portanto, num “futuro póstumo”. Roubo a expressão a uma poeta portuguesa da minha geração. Chama-se Sandra Andrade (n. 1976), é natural de Bragança, e publicou dois livros de poemas: Para Acabar de Vez com a Retórica (&etc, Outubro de 2014) e doppelgänger (Debout Sur l’Oeuf, Abril de 2016). Li primeiro o segundo, ficando de tal modo impressionado que não resisti a procurar o primeiro.
Há entre os dois uma coerência que não será difícil de constatar, desde logo quando no texto inicial de doppelgänger Sandra Andrade menciona uma carta enviada a Enrique Vila-Matas referindo-se ao seu primeiro livro nos seguintes termos: «el punto de partida son mis afinidades electivas». O escritor espanhol é uma dessas afinidades, entre muitas outras que surgem evocadas sob a forma de títulos para textos, maioritariamente em prosa, com os quais estabelecem relações que não vale a pena tentar circunscrever. No fundo, são aqueles a quem Baudelaire chamou de faróis num conhecido poema, nomes de um anárquico conjunto onde se incluem cineastas, escritores, músicos, artistas, cientistas, por certo influentes na formação cultural, filosófica, ética da autora em causa. Entre eles, quero aqui destacar artistas performativos tais como Marina Abramović e Bas Jan Ader, a fotógrafa Francesca Woodman e os experimentalistas Current 93, por neles ser perceptível um exercício da performance na qual esta poesia se enraíza, lembrando, tanto na forma como na linguagem, a obra poética de uma Karen Finley (vide Tratamento de Choque, Frenesi, 2003). 
Outra dimensão evidente nos poemas destes dois livros é a catarse enquanto motor da escrita, uma catarse que tanto pode vir do sentimento angustiado que a evocação de alguns homens do blues suscita como da percepção de um quotidiano onde a derrota e o insucesso inspira compaixão pelos fracos, pelos humilhados, pelos ofendidos, pelos desprotegidos: «hoje deu-me vontade de abraçar a miúda que me serviu o café. era tão cedo e já estava tão assustada» (Para Acabar de Vez Com a Retórica, p. 31). Noutras ocasiões, esse quotidiano surge violentamente expresso em imagens de uma crueldade tão cínica quanto melancólica: «não tenho a ingenuidade de pensar que este coração nas mãos transporte qualquer tipo de sucesso. mas é esta a matéria prima que carrego» (doppelgänger, p. 45). Há um poema do primeiro livro onde estas características confluem para uma espécie de anti-erotismo que não ficaria mal numa colectânea de humor negro:

ADÍLIA LOPES

ponha-me essa bagagem que traz no lado esquerdo
ao lado do tanque
que está calor e eu estou cansada
e o dia está mais inclinado
a que
muito provavelmente
o senhor acabe a fazer-me 1 minete

disse a madame ao rapaz que estava estafado e cheio de sede e ela
nem uma limonada lhe fez e assim se procedeu ao minete.

Mas onde os poemas de Sandra Andrade se distinguem verdadeiramente é na inclusão de todo um leque diverso de referenciais, provenientes tanto da física como da ficção científica, que nos transportam para cenários futuristas de tal modo apocalípticos que se chega a reclamar de novo na paisagem a presença humana. Não são meramente caprichosas as referências ao físico Michio Kaku e ao escritor Philip K. Dick no primeiro livro, nem ao Dune de Frank Herbert e ao físico Erwin Schrödinger no segundo livro. Assim como também não será ocasional que alguns dos títulos do segundo livro, quando googlados, nos enviem para fóruns de discussão da saga Star Trek. Outro dado a apontar é a repetição em ambos os livros do conceito “holograma”, evocação de uma realidade fantasmática por oposição ao mundo orgânico. O próprio título doppelgänger parece pretender deslocar a poesia de um estatuto demiúrgico para o de universo paralelo, conferindo-lhe um regime holográfico baseado nas capacidades do lendário monstro germânico cujo dom principal é copiar a identidade de uma pessoa. Clonado, copiado, repetido, encriptado, não merece senão desprezo o tipo de escritor convocado numa espécie de ars poetica intitulada “metam os textos na cripta (El Mal de Montano)”. O ar dos tempos promove o eremitismo dos inadaptados, isola-os nas suas hortas selvagens com o desejo ambivalente de um passado extinto sem fé nos paraísos perdidos. A pós-realidade é o que aqui está em causa, numa escrita que reivindica para si o bruto, o autêntico, o cruel e o violento retrato do texto como forma de purgação. Eis um exemplo, cínico e (des)iludido, como convém num combate aberto à hipocrisia reinante na actualidade:

the spice must flow


a única estação que existe é este espesso nevoeiro e a única colheita são estas árvores metálicas com frutos nano tecnológicos. chegar a casa é um prolongamento de caminhar nesta chuva ácida e ligar o microondas. os neoliberais salvaram tudo e todos, sim senhora. esses heróis tecnológicos positivos da nova era. alguns poucos queriam terra e cravos outra vez. mas ao fim do dia ligam-se ao computador para um acesso aditivo crescente. e esquecem. esta espécie de net junkies está impreparada para a revolução. e a informação que procuram é cíclica e implacável. os dias passam e tudo é pior. junto-me enquanto é tempo aos oleiros, aos carpinteiros, aos agricultores, aos alfaiates. pessoas que redigem cartas à mão. e construímos a balança. um pouco tóxicos na cabeça mas verticais. com mãos lúcidas e iniciáticas.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

MANUEL ALEGRE

Contam-se pelos dedos os poemas de Manuel Alegre que li, todos tão patéticos e anacrónicos que fiquei sem vontade alguma de desperdiçar tempo da minha vida no que escreveu. A figura de Alegre representa na minha pobre e desmiolada cabeça o pior das letras portuguesas. Raduan Nassar, Prémio Camões em 2016, tem em quatro livros publicados matéria para o futuro que, desconfio, a vasta obra de Alegre jamais terá. Ou então muito me enganei com o pouquíssimo que lhe li. Mas, confesso, também não me sinto com forças para ler. Parece que o Camões replica o hábito do Nobel em deixar quase sempre de fora os melhores

Chadrack Mulo

A notícia vem no DN. Uma criança de 4 anos, com dificuldades de aprendizagem e incapaz de falar, viu a mãe morrer subitamente em casa. Sem conseguir pedir ajuda, a criança acabou por morrer de fome. Foi descoberta duas semanas depois com os braços à volta do corpo da mãe, a qual se encontrava em avançado estado de decomposição. Em Londres, ano de 2016. 

Et de plomb et de plume

É o 35.º episódio do meu programa de rádio preferido. Lá está o Buckley a cantar Bob Dylan, entre a Billie Holiday e a Mila Dores. Que bem ficam... Ouvir aqui.

BANDA SONORA ESSENCIAL #8


   A Ana lembrou-me que passaram 20 anos sobre o desaparecimento de Jeff Buckley. A Ana é a minha mulher. Quando Grace (1994) apareceu lá por casa tínhamos dado o primeiro beijo há dois anos. Logo se tornou a banda sonora de muitas e soltas noites. Filho de Tim Buckley, escritor de canções precocemente desaparecido aos 28 anos de idade, Jeff Buckley repetiu a tragédia paterna. Contava apenas 31 primaveras quando se afogou num afluente do Mississipi. Era, sem dúvida, uma das vozes mais distintas da nossa juventude, a par de Thom Yorke, dos Radiohead, e da saudosa e belíssima Lhasa de Sela. São poucas as vozes dessa geração que merecem ser recordadas com o mesmo encanto. 
   Entre os temas originais de Grace, há três versões que atestam com exemplar clareza a excelência desta voz. Lilac Wine, de James Shelton, é a primeira. Foi escrita para um musical. Buckley faz-se acompanhar no início apenas pela guitarra eléctrica, num estilo jazzy que as escovas na tarola da bateria aprofundarão com convincente simplicidade. Interpretação deslumbrante, a oferecer à voz uma sinuosidade de timbres cuja transparência colocada em cada sílaba é capaz de sensibilizar o mais bruto dos seres.
   Segue-se Hallelujah, original de Leonard Cohen que tem merecido as mais estapafúrdicas versões. Jeff Buckley respira fundo antes de começar a dedilhar a guitarra. Os níveis de reverb transportam-nos para o centro de uma catedral, a voz soa como uma oração. A solo com a guitarra, o intérprete inspira nas palavras o que nelas possa haver de sagrado e solta-as como uma oferenda. Sentimo-nos agradecidos.
 As metáforas religiosas inerentes a estas canções adquirem forma final com a interpretação do hino Corpus Christi Carol (For Roy), na versão do compositor britânico Benjamin Britten. Para um ateu militante, o Santo Graal está descoberto: é a voz de Jeff Buckley. Dela beberemos o sangue de uma sagrada poesia, o clamor do espírito em clausura, afastado do mundo na esperança de assim poder aproximar-se de uma luz superior.
  Há um efeito que se repete nestes temas, as cordas trémulas e nervosas num fundo quase imperceptível sobre as quais ecoa com espantosa nitidez o dedilhado. É como se Buckley pretendesse intercalar as explosões de inspiração rock com uma paz que pressentimos procurada no título do álbum. Tê-la-á encontrado, porventura, no dia 29 de Maio de 1997. Passaram 20 anos.