quinta-feira, 13 de julho de 2017

POEMAS QUOTIDIANOS

Numerados de 1 a 100, os Poemas Quotidianos de António Reis (n. 1927 – m. 1991) foram escritos entre 1952 e 1962. É um período marcante na história da poesia portuguesa, nomeadamente por nele encontrarmos os ecos do chamado presencismo, ou da segunda vaga do modernismo, afrouxando face à imposição do neo-realismo e subsequentes respostas vanguardistas dos movimentos surrealista e experimental. Reis não foi poeta de um só livro, mas acabou por submeter parte da obra ao olvido em prol de um conjunto de versos que quis serem os seus. Assim sendo, os Poemas Quotidianos são o livro de António Reis. Seria pouco dizer que em boa hora as Edições Tinta-da-china o recuperaram, pois é da mais elementar justiça que o tenham feito. As palavras de Manuel António Pina na cinta que acompanha esta edição são clarificadoras da influência que estes poemas terão exercido, ainda que essa influência não seja declarada ou assumida como facilmente seria tivesse este pequeno grande livro o reconhecimento que merece. Acompanhados de um prefácio de Fernando J.B. Martinho e de um posfácio do realizador Joaquim Sapinho, ex-aluno de António Reis na Escola de Cinema do Conservatório, estes versos poderão agora chegar a um público que por certo se espantará com a mestria do seu autor.
   O primeiro sublinhado vai para o estado de depuração alcançado em cada poema, numa redução do máximo ao mínimo, muito à maneira do que encontramos em Carlos de Oliveira, com quem António Reis mantém relações de proximidade a um certo neo-realismo, não o da cartilha politicamente engajada, mas o de um humanismo proveniente das vivências subjectivas observadas ao lado de quem sofre e não do alto de uma torre de vigia. Nessa depuração, que por vezes também lembra a forma concisa do poema japonês, António Reis conquista para cada palavra o vigor do essencial. Daí que na sua poesia palavras como solidão, saudade, amor, piedade, desespero, não indiciem apenas estados de alma passageiros, mas encontrem uma expressão que as eleva à condição de matriz num tempo que supera as fronteiras do concreto, do tempo histórico, do tempo epocal e sociológico.
   Nestes poemas, essas palavras-chave penetram uma dimensão universal que lhes torna possível chegarem-nos hoje com o mesmo fulgor que tinham à partida, pois apesar de sabermos da “feira cabisbaixa” (O’Neill) em que surgiram, envoltas num manto de tédio, de tristeza e de pobreza, é do mesmo tipo a tristeza e o tédio quotidianos que a liberdade democrática destes nossos dias imprime no coração daqueles que não se conformam com uma vida reduzida à arte de produzir para satisfazer os apetites de consumo. Independentemente da realidade social, o realismo aqui em causa é das emoções que configuram o humano a partir do seu ramerrão doméstico e comezinho. Ou, como afirma Martinho no prefácio: «A conformada resignação dominante é, uma vez por outra, interrompida, e então surge a indignação, a acusação» (p. 13), denotando um olhar inconformado com a situação em que se encontra.
   Os Poemas Quotidianos não só captam o ar dos tempos, olhando pela janela as ruas da cidade, como são eles mesmos parte integrante desse estado de sobrevivência: «Poemas quotidianos // como o sol / como a noite // como a vontade de comer / e o sono // como as preocupações / e o amor // e porque saio à rua / e trabalho / diàriamente» (p. 27). A Clara a que se dirigem já não é apenas a musa inspiradora do nefelibata, é uma cúmplice da melancolia por detrás dos olhos do rapaz que observa os barcos, cúmplice dos domingos de espera, da nostalgia, da saudade. É também um resquício de beleza que mantém o ar respirável, um resquício de beleza ante a ira dos impotentes, dos cobardes, dos traidores, um resquício de beleza que nos envia para o lugar mais íntimo do amor: «Sei que choras / muitas vezes / sòzinha // e que lavas / o rosto // (ah onde / ando eu) // para a tua dor / não ser minha» (p. 84).
   Não nos inibamos de sublinhar o acontecimento editorial que é a recuperação desta obra de um poeta que também foi cineasta, de um cineasta que nunca deixou de ser poeta, apesar de, parafraseando Joaquim Sapinho, o seu cinema não continuar a sua poesia. «É outra forma de dor» (p. 122). Contudo, em parte a sua poesia anteviu o seu cinema. «Hei-de entrar nas casas», lemos no início de dois poemas deste belíssimo conjunto de 100. E entrou por portas diversas, provando mais uma vez que não é necessário muito palavreado para dizer o fundamental. Bastam as palavras certas. O labor de António Reis como poeta é o dessa busca ao encontro de uma precisão sem dúvida alcançada, capaz de dizer tanto com tão pouco:

23

Eu não voo
ando

quero que me oiçam

[QUANTOS NAVIOS]


62

Quantos navios
vejo eu passar
estendido nos bancos dos jardins

É feriado

Jogam as crianças correndo
atrás das
sombras
de pássaros

O sol
bate na água
nas folhas
e nos meus olhos

seduzidos

E eu adormeço
deixando
que os navios
passem
lentos

sobre mim


António Reis (n. 1927 - m. 1991), in Poemas Quotidianos (1967). «Em António Reis, toda a poesia emerge do silêncio – processo difícil, lento, convulsivo. Porque se trata dum silêncio tenebroso, feito de cegueira e rouquidão, feito de dias alucinadamente repetidos, feito de esgares apenas – esse silêncio de pedra que é o quotidiano de muitos» (Eduardo Prado Coelho, in Estudo-prefácio). «A poesia de António Reis, nascido, residindo e trabalhando na área do Grande Porto, é, como a de grande parte dos seus contemporâneos, uma poesia urbana. A sua relação com a cidade é, no entanto, uma relação ambivalente. Ama-a, não pela  sua dimensão, mas pelo seu carácter, pela sua naturalidade e ausência de qualquer nimbo de mistério, embora não deixem de o desgostar as «imperfeições e mágoas» que nela sofre. Gosta de lhe percorrer as ruas, perto dos outros. Prefere andar a voar, contradizendo assim a imagem do poeta nefelibata que paira acima da realidade imediata e comezinha» (Fernando J.B. Martinho, in Prefácio a Poemas Quotidianos).

UM GRANDE PISTOLEIRO

   Johnny Guitar, de Nicholas Ray (1954), foi o último filme que vi com António Reis. Johnny é um grande pistoleiro, mas no filme não dispara um único tiro. Esta ideia, esta estética, era central para António Reis. Punha-se uma pergunta: se nunca dispara, como é que sabemos que é um grande pistoleiro? O segredo está no comportamento de Johnny. Ele antecipa todos os movimentos dos outros, inimigos e amigos; antecipa todos os seus próprios movimentos. Não quer disparar porque tem medo. Sabe que um tiro leva sempre a outro tiro e que a vingança não tem fim (aliás, a única vez em que dá um disparo no filme é para desarmar um jovem pistoleiro que não sabe o que faz com a sua arma...). Mas, voltando à pergunta, como é que sabemos em concreto que ele é um grande pistoleiro se não dispara? Johnny também é um grande virtuoso da guitarra, isso fascinava António Reis, mas o momento essencial para ele é um momento quase escondido na narrativa, quando no início chegam os antagonistas e Johnny consegue acalmá-los conversando, mas no momento crítico há um acidente e uma chávena vai cair do balcão do saloon e despoletar a violência. Sub-repticiamente apanha a chávena com um gesto do braço para trás. A surpresa deste anticlímax pára o crescendo da violência e a tensão desfaz-se. Inconscientemente, os antagonistas, e os espectadores, temem-no.

Joaquim Sapinho, in A Narrativa das Sombras, posfácio a Poemas Quotidianos, de António Reis, Edições Tinta-da-china, Julho de 2017, pp. 120-121.

O CÁBULA

Há dois ou três programas na televisão que vejo frequentemente. Um deles é o Governo Sombra. Por vezes, têm o mérito maior de me adormecer. Para quem sofre de insónias é sincero elogio afirmá-lo. Depois sirvo-me dos truques da televisão digital e volto ao programa a partir do ponto onde as pálpebras deixaram de ter memória. No Governo Sombra tenho de gramar com o João Miguel Tavares, o mais agitado dos três entertainers de serviço. RAP puxa à piada, Mexia à sensatez, Tavares à chicana. Não tem mal, oferece ao painel uma certa diversidade e aquela vivacidade que vem dos tempos do Independente e fez escola junto da direita mais progressista (se é que me faço entender). Já as crónicas, passam-me ao lado. Raramente conseguem levar-me até ao fim. Veja-se este exemplo fresquinho colocado entre parêntesis: (Passos Coelho fez o melhor discurso em muito tempo…). Quem quer continuar a ler isto depois de ter sido revelado que parte desse eloquente discurso foi sacado nos comentários facebookianos de Poiares Maduro? Estará Tavares a dizer-nos sub-repticiamente que o melhor Passos Coelho é aquele que copia pelo colega do lado?

NOTAS COMPLEMENTARES

As notas finais no Volume I de Canções 1962-2001 (Relógio D’ Água, Setembro de 2006) são um agradável complemento oferecido pelos tradutores Angelina Barbosa e Pedro Serrano às letras de Bob Dylan. Resultam como uma espécie de biografia baseada nas canções. Ficamos a saber dos primeiros amores do autor quando nos é revelado que Girl of the North Country «é dedicada a Echo Helstrom, a segunda namorada do Dylan adolescente (a primeira chamava-se Gloria Story), nos tempos em que este residia em Hibbing (no Minnesota)»; ou que Down the Highway é «uma das várias canções inspiradas por Suze Rotolo, americana de ascendência italiana e a primeira namorada de Bob Dylan em Nova Iorque, com a qual aparece fotografado na capa do álbum» The Freewheelin’ Bob Dylan (1963).
Outras informações dizem respeito a influências literárias e cinematográficas. A torrente de imagens contidas em A Hard Rain’s A-Gonna Fall «vai beber ao longo poema Howl de Allen Ginsberg», de quem Dylan era amigo, o «juiz que se move sobre andas» referido em Most Likely You Go Your Way (and I’ll Go Mine) vem de «uma peça de Jean Genet (Le Balcon)», o álbum Planet Waves (1974) terá sido todo concebido «em volta de contos de Anton Chekov», Bob Dylan’s 115th Dream «faz uma referência a Ahab, personagem central do romance Moby Dick», Motorpsycho Nightmare contém referências aos filmes La Dolce Vita, de Federico Fellini, e a Psyco, de Alfred Hitchcock. São ainda inúmeras as ligações estabelecidas com factos sociais relevantes, com situações pessoais, com outras canções essencialmente provenientes do reportório blues e folk.
Também não faltam as histórias caricatas, muitas delas tendo Joan Baez como protagonista. É ela quem conta que When the Ship Comes In «teve origem num facto bastante trivial, mas humilhante. Na época Joan Baez era já uma estrela, bastante mais em evidência do que Bob Dylan e as pessoas reconheciam-na em todo o lado. Durante uma digressão, ao tentarem marcar quartos num hotel, Bob Dylan, tendo em conta o seu aspecto desmazelado e pouco cuidado, foi recusado na recepção — o mesmo não acontecendo a Baez que foi sujeita às vénias da fama». Dylan terá ficado furioso, vingando-se a escrever e a compor. Já Love Is Just a Four Letter Word foi literalmente roubada por Joan Baez a Dylan: «Quando, pouco depois, cantou a canção a Dylan este comentou “eh, que bela canção”, sem, aparentemente, se recordar que era composição sua».
Há ainda nestas notas uma relevante lista dos músicos de blues que mais influenciaram o autor de John Wesley Harding (1967): Blind Willie Mc.Tell, Robert Johnson, Muddy Waters, Sonny Boy Williamson, Sleepy John Estes, Blind Lemon Jefferson, Sam Lightnin’ Hopkins, Bo Didley, Ma Rayney. Enquanto complemento, estas notas são um precioso guia durante uma viagem pelo território dylaniano. Não só permitem um contacto com as fontes mais directas, elucidando vários aspectos biográficos do protagonista, como abrem uma janela sobre aquela paisagem onde é possível perceber a semente por detrás do fruto. Salvo raríssimas excepções, estas letras não nasceram do nada, não são meras palavras para encher melodias, não são historietas corriqueiras sem fundo nem sentido, não são apenas estilo e retórica. Têm um fundo histórico, é isso que as torna especiais. 

terça-feira, 11 de julho de 2017

OVOS DE PARASITAS


229.

No fim do quarto mês, regresso à minha cabana, e nela descanso o meu corpo cansado da viagem.

não posso guardar a roupa de verão —
ainda não acabei de ver
se tem ovos de parasitas


Nota do tradutor: O registo escrito que Bashô fez durante a viagem, que agora termina, tem o título de Diário de um Esqueleto Abandonado à Natureza; é este haiku que o encerra. Julga-se que a preocupação em procurar os ovos de parasitas na sua roupa é uma imagem metafórica para a necessidade de, agora em casa, rever todos os poemas e notas do diário.


Matsuo Bashô, in O Eremita Viajante [haikus - obra completa], organização e versão portuguesa de Joaquim M. Palma, Assírio & Alvim, Setembro de 2016.

CANTAR DE GALO


   Isto começa assim: na escola primária aproximas-te do gajo mais popular da turma, na esperança de que, sendo reconhecida e aceite a tua amizade, muitas portas se abrirão. O gajo mais popular é sempre filho de pais ricos, tem casa com piscina. E tu queres fazer parte do grupo que vai à piscina. Mais tarde, vez que o gajo mais popular da escola foi convidado para fazer parte da lista que concorre à Associação de Estudantes. Com o dinheiro dele, os cromos que sonham com carreira nas juventudes partidárias conseguirão autocolantes e cartazes apelativos, exibem um rosto forte nas listas, sentem-se eles próprios mais populares. Tu ficas de fora, mas olhas para tudo com aquela inveja ingénua, mas incipiente, que começa a corroer a moral pela adolescência. Metes então uma cunha para integrares a lista, consegues entrar na lista, sentes pela primeira vez a vantagem da cunha e a alegria que te proporciona. Depois será um ver se te avias. 
   Ao longo da vida, descobrirás professores com facilidades junto de editores, médicos de família deveras amigos de comerciais de propaganda médica, gajas boas de braço dado com porteiros horrorosos. O mundo à tua volta começará a formar-se com rosto de mundo e descobrirás que sempre assim foi, já Camões se lamentava. A bondade, a ética, a moral, esse palavrão que é a deontologia, nunca trarão felicidade a ninguém, só dores de cabeça, e jamais te facilitarão a vida, só gerarão dificuldades. No dia em que fores a um restaurante, pedires a conta e te chegar pela boca do empregado o sussurro “a conta está paga, aquele senhor pagou-a”, olharás para o bom samaritano que te acena com a mesma satisfação com que deixarás o ego enlevar-se. Afinal és um tipo socialmente relevante, até te pagam almoços. Jamais te ocorrerá que o almoço foi pago com segundas e, por vezes, terceiras intenções. Não há almoços grátis, há permutas que levam o seu tempo a serem saldadas. Mas nada disso tem interesse, o que importa é o momento. 
   Na tua cabeça deixará de ser imoral oferecerem-te um bilhete para a Ópera na esperança que depois ofereças tu uma boa crónica, o teu sentido crítico será amansado como se amansam as bestas e nada te demoverá de seres um homem socialmente íntegro, isto é, integrado, ou seja, como os outros, a fazer o que os outros fazem, seja lá isso o que for, porque se o fazem é porque não deve estar mal. E se os outros fazem, por que não poderás tu fazer? Afinal, que relevância terá aceitares uns vouchers e umas t-shirts, uma viagem para ver a bola, quando o apito é de ferro? Mas será? Na dúvida, sobrará sempre suspeita. E a suspeita é uma realidade tramada, pois reside no crepúsculo como uma incerteza, é e não é, foi e não foi, está mas não está, dúbia, ambivalente, ambígua, a suspeita cola-se ao rosto como manchas de velhice à pele. A não ser que consigas conquistar um lugar no pódio dos inimputáveis, aqueles cujo poder de influenciar é tanto quanto o de decidir. Não são lobistas, como agora se diz, nem se reduzem à insignificância da vetusta cunha, são o ponto mais alto de uma hierarquia onde raramente chega a mão da justiça. 
   Há quem passe ao lado de tudo como se não vivesse neste mundo, como se dentro do crânio não trouxesse um cérebro, como se no lugar dos nervos tivesse ferro, há, não duvidemos, tipos para quem a moral se confunde com os bons costumes. E os bons costumes, como sabemos, pouco têm que ver com o bem, são força de hábito, são a mais velha justificação para todo o tipo de avarezas, ganâncias, vícios de consciência que não incomodam que a não tem. A única certeza que podemos ter acerca disto é que o mundo está cheio de pequenos trafulhas, oportunistas para quem pedir um emprego para o filho a troco de benesses é o mesmo que acender uma velinha pela saúde dos moribundos. Ó senhor doutor, não faria mal algum se... Este recente episódio das viagens para ver a bola é só mais um do vastíssimo leque de episódios onde a trafulhice rasteira ganha sentido de Estado, num país onde se contam pelos dedos da mão aqueles que não teriam agido como agiram os secretários exonerados. Ainda que, como já seria de esperar, andem para aí todos a cantar de galo como se fossem exemplo a que se olhe:


segunda-feira, 10 de julho de 2017

GIVE ME THE SIMPLE LIFE

Tasquinhas, feiras do livro, mercados medievais, festivais de Verão, festas e mais festas. E eu aqui a roer-me de inveja do aranhiço que há muito montou teia no sótão.  

VAI NA ÍNTEGRA

Fora eu secretário de estado, ou coisa assim, e recebesse o convite da Galp para uma futebolada em que participasse a selecção portuguesa num campeonato europeu ou mundial, bilhetes pagos, viagens pagas (presumo), a primeira coisa que faria seria pedir à minha secretária para inquirir junto do gentil conselho de administração sobre o número de colaboradores (parece mal dizer 'trabalhadores' ou 'funcionários') -- quantos, portanto, colaboradores, a começar pelos gasolineiros e seus empregados, haviam sido gentilmente distinguidos com idêntica benesse. Claro que depois recusaria, agradecendo, pois é mesmo foleiro um membro do governo aproveitar-se destas migalhas de que, por interesses outros ou bajulações várias, os dinheirosos lançam mão.

Estou já a ouvir a enxúndia opinativa dos mercenários de serviço: demagogia, pá!, demagogia. A conversa fiada e bem remunerada do costume. Direi, contudo, que este episódio canhestro, nada é, aparentemente, comparado com a gatunagem (outra palavra talvez demagógica) que tem assaltado o estado em governos tantos, e anda por aí, boa parte dela, a viver acima das nossas possibilidades.


Ricardo António Alves, aqui.

domingo, 9 de julho de 2017

UM POEMA DE IAN HAMILTON


EM SONHOS

Viver assim:
Esta mão na tua, a outra
Mortiferamente fria; este olho
A fingir que vela por ti,
O outro cego.
                     Vivemos em sonhos:
Estas tardes sentimentais,
Estes votos silenciosos,
Morríamos à fome sem eles.


Ian Hamilton (n. 24 de Março de 1938, King's Lynn, UK - m. 27 de Dezembro de 2001, Londres), in Cinquenta Poemas, trad. Nuno Vidal, Edições Cotovia, 1995, p. 81.

BANDA SONORA ESSENCIAL #13




   Não consigo lembrar-me da primeira vez que ouvi Mingus Ah Um (1959), talvez sempre tenha feito parte da minha vida. Sei que foi o primeiro disco de jazz que adquiri, excluindo das contas dois LP de Pat Metheny que conservo religiosamente. Curioso é que tenha chegado a Charles Mingus por causa de uma rara autobiografia, publicada entre nós pela Assírio & Alvim com o título Abaixo de Cão (1982).
   Apesar de serem muitas e deveras estimulantes as histórias do jazz, com contornos literários para todos os gostos, não é comum um músico de jazz aventurar-se no registo das suas memórias. O escritor argentino Julio Cortázar explicou-nos porquê no conto O Perseguidor, ao colocar em perspectiva um músico de jazz e o seu biógrafo. Nesse conto percebemos que a figura do jazzman é a daquele que vive acima da biografia, tornando incompreensível até para si mesmo a mecânica dos gestos humanos mais banais. A improvisação estilhaça os padrões, leva-nos a esmo sem o tédio da repetição, escapa à reprodução dos gestos, dos actos, das acções.
   Mingus foi obrigado a parar quando lhe diagnosticaram a doença a que agora chamam ELA, essa mesma que há tempos levou meio mundo a tomar banhos de água gelada em nome da solidariedade. Mas até ter parado levou uma vida digna de ser conhecida, sobretudo através da música de excelência que legou ao mundo.
   Com Mingus Ah Um, já depois de ter acompanhado no contrabaixo muitos dos melhores, afirmou-se enquanto compositor numa grande editora. Rodeado de músicos jovens, entres os quais brilham Horace Parlan no piano e Booker Ervin no saxofone, Charles Mingus homenageia os mestres em Jelly Roll, Open Letter To Duke, Bird Calls, aventura-se pelos terrenos do gospel com enlevo contagiante onde não faltam sequer palmas a marcar o ritmo, evoca o saxofonista Lester Young, falecido por esses dias, numa comovente elegia intitulada Goodbye Pork Pie Hat, ataca os blues em Pussy Cat Dues… 
   A música de Charles Mingus serviu o teatro e o cinema, acompanhou poetas como Kenneth Patchen, é ela mesma poesia em estado puro, da que se lê com os ouvidos.


ELSA MARTINELLI (1935-2017)


Quem a viu em The Indian Fighter (1955), nos braços de Kirk Douglas, nunca mais se esqueceu. A belíssima índia de nome Onahti foi o primeiro papel relevante de Elsa Martinelli nos EUA, vindo depois a trabalhar ao lado dos melhores e conquistando um Urso de Ouro pelo desempenho em Donatella (1956), de Mario Monicelli. 
Em 1959 apareceu em La notte brava, filme de Mauro Bolognini com argumento de Pier Paolo Pasolini. Em Hatari! (1962), de Howard Hawks, contracena com John Wayne, e em O Processo (1962), de Orson Welles, baseado no romance homónimo de Franz Kafka, integrou um elenco onde brilhavam Anthony Perkins, Jeanne Moreau e Romy Schneider. Os Caminhos de Katmandou (1969), baseado no famoso romance de René Barjavel, é outro momento a destacar. André Cayatte filmou, Elsa Martinelli apareceu na companhia de Serge Gainsbourg e de Jane Birkin. 
Falamos hoje de Brigitte Bardot e de Marilyn Monroe como sex symbols, musas de um cinema onde a beleza feminina, ao contrário do que tantas vezes se julga, acabou por contribuir para uma certa emancipação da sexualidade. Elsa Martinelli pode não ter atingido a mesma visibilidade, mas beleza e boas companhias nunca lhe faltaram. 

sábado, 8 de julho de 2017

(...)




tarde mansa
defino prioridades

mas por que motivo?

por que razão
o peito se cansa
se de todo o intuito
só me sobram metades?


João Miguel Henriques, in Fonte Breve, Tea For One, 2014, p- 18.

RODIN & SANTOS


   Já foi praticamente tudo dito acerca do famigerado busto de Cristiano Ronaldo esculpido pelo madeirense Emanuel Santos. O que talvez ainda ninguém tenha sublinhado é do domínio da História. Emanuel Santos pode sentir-se orgulhoso por fazer parte de um grupo onde se encontram alguns dos melhores, nomeadamente um dos maiores escultores de todos os tempos. É o grupo dos escultores vilipendiados publicamente por causa de obras concebidas sob encomenda. 
   O caso Rodin é paradigmático. Abordado pela Société des Gens de Lettres para a concepção de uma estátua em memória de Balzac, Auguste Rodin não só aceitou a encomenda como terá demorado seis anos a completá-la. Ao ser exibida, provocou espanto geral. Houve quem tivesse visto o abominável homem das neves na figura do escritor francês, houve quem se referisse à estátua como um bloco de sal a dissolver-se à chuva, só não houve quem dissesse ser aquela rude e horrível figura a do autor da monumental A Comédia Humana. Mas era. Rodin sabia-o, tal como Emanuel Santos sabe que foi Ronaldo quem ele esculpiu. 

GUSTAVE CAILLEBOTTE (1848-1894)

Les raboteurs de parquet, 1875

Filho de uma família burguesa, herda em 1873 a grande fortuna de seu pai e será independente financeiramente até ao fim dos seus dias. 1870, termina os estudos de direito. 1870-1871, participa na defesa de Paris durante a guerra Franco-Alemã.


1872, viagem a Itália. 1873, admitido na Ecole des Beaus-Arts de Paris; trabalha irregularmente no atelier de Bonnat; primeiros contactos com os impressionistas. Conhece Monet; ao princípio será essencialmente influenciado por Degas. 

La Place de l'Europe à Paris, temps de pluie, 1877

1875, pinta o célebre quadro Os Afagadores de Soalho (primeira imagem). Assuntos do seu meio - família, cenas de rua e da vida operária - e cenas das suas férias de Verão em Yerres, sobretudo partidas de barco, são os seus temas preferidos.


1876, expõe pela primeira vez na 2.ª exposição impressionista. Co-organizador e co-financeiro das 3.ª, 4.ª, 5.ª e 7.ª exposições impressionistas, nas quais participará. Mecenas dos seus colegas Monet, Renoir, Sisley e Pissarro, financia as suas exposições e compra-lhes os quadros, entre os quais  O Moulin de la Galette e O Baloiço, de Renoir.

A Pont de l'Europe, 1877

1882, retira-se e pinta apenas naturezas-mortas e paisagens. 1883, lega a sua importante colecção de quadros impressionistas ao Estado francês por via testamentária pondo como condição que o conjunto dos 67 quadros seja integrado na colecção do Louvre.


Após a sua morte em 1894 a seguir a um ataque de apoplexia, o Institut de France recusa a doação - essencialmente por causa das obras de Cézanne que dela fazem parte - provocando escândalo. A colecção só será integrada no Louvre em 1928; hoje encontra-se no Musée d'Orsay.

Nota biográfica copiada de A Pintura Impressionista 1860-1920, Vol. II, direcção de Ingo F. Walther, Taschen, 1995.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

#99




Há qualquer coisa nos Fleet Foxes que os torna peculiares, talvez a obstinação em não se tornarem cativos de fórmulas sedutoras como as que podiam supor-se à época do álbum de estreia. O registo homónimo de 2008 colou-os à folk rock, mas rapidamente se dissiparam quaisquer dúvidas acerca das intenções idílicas destes rapazes oriundos de Seattle. Quem procurar canções bonitas e sedutoras, melodias atraentes e convincentes à primeira audição, pode mudar de caminho. Crack-Up (2017) volta a provar que a pop não é praia onde Robin Pecknold aprecie mergulhar. Logo ao primeiro tema, a sobreposição de gravações com ritmos diversos e até qualidades sonoras divergentes deixa-nos confusos. As harmonias vocais mantêm-se como imagem de marca, mais à maneira de Crosby, Stills & Nash do que dos The Beach Boys. Mas essas harmonias são apenas uma deriva intimista sobre estruturas rítmicas minimalistas e melodias dissonantes. As letras divagam sobre assuntos diversos, ora lançando um olhar dispersivo sobre a rua da cidade, ora voltando-se para dentro em caótica meditação. Ao fundo, escutamos arranjos de cordas e de sopros. Mas é como se não estivessem lá. O álbum desenvolve-se em canções ziguezagueantes, levando-nos das paisagens orientais e contemplativas de Ōdaigahara à catarse emocional de Fool’s Errand:


ODES OLÍMPICAS

Acessíveis na tradução de Frederico Lourenço incluída em Poesia grega de Álcman a Teócrito (Livros Cotovia, Maio de 2006), as Odes Olímpicas, de Píndaro (n. 518 a.C. – m. 438 a.C.?), conhecem agora uma edição autónoma com tradução de António de Castro Caeiro. O propósito é clarificado na apresentação: «dar Píndaro a ler, da forma mais directa possível, ao leitor de português» (p. 5). Conquanto tenha esse mérito, esta edição da Abysmo (Abril de 2017) carece de um enquadramento histórico que permita ao leitor português compreender as particularidades dos hinos pindáricos. Se Lourenço havia alertado para a extrema importância de Píndaro, considerando-o «o poeta mais interessante de toda a literatura grega», e Caeiro lhe reforça o epíteto de “pensador-poeta”, sublinhando no posfácio as características filosóficas de uma poesia empenhada na reflexão da condição humana, continua a faltar uma contextualização que encontramos, por exemplo, na síntese de Werner Jaeger: «A poesia de Píndaro é arcaica». O adjectivo nada carrega de depreciativo, obrigando-nos, no entanto, a pensar estes poemas para lá da sua evidente exaltação de um ideal humano de perfeição. O louvor aos vencedores não se fica aqui pela circunstância das festividades, abraçando a fama e a glória como um fim último da competição. Pelo contrário, em causa está um ideal helénico de nobreza que transcende o circunstancial, um ideal que busca elevar a natureza mortal ao modelo dos deuses. A poesia de Píndaro é arcaica por afirmar este ideal religioso (união do físico ao espiritual) num tempo em que a poesia conhecia já as suas formas de expressão individual, sendo a sua maior força a semente idealista que Platão regará tendo em vista o supremo bem. Portanto, mais do que expressão lírica subjectiva, as odes pindáricas expõem um ideal de nobreza aristocrática que, à época em que o poeta viveu, se encontrava em franca decadência face ao desenvolvimento da cultura sofística. Eis o problema na sua mais simples formulação: a virtude é inata, reside no sangue, ou pode ser ensinada? Duas dimensões, não isentas de polémica, matizam o pensamento de Píndaro quanto a esta matéria. A primeira, por de mais evidente, é a da constante supressão do feito heróico, isto é, do objecto da ode, pela narração de um mito cuja associação ao vencedor raramente é perceptível. Talvez a associação mais plausível seja a de fazer ligar as virtudes por detrás da vitória a uma herança proveniente de tempos ancestrais, algo que nos permite extrapolar o conceito moderno de “super-homem” à luz do ideal humano enaltecido por Píndaro. Esta explicação ganha força tanto quanto a noção de herança adquire neste contexto contornos que diríamos hoje eugénicos, em versos onde o inato conhece sempre uma força que não é reconhecida ao adquirido: «O que vem com o nascimento é o mais poderoso que há. / Mas muitos homens procuram obter a glória / com excelências que são aprendidas». (p. 42). A raça, o sangue, é uma noção fulcral na ideia pindárica do homem nobre (aquele em cujas veias corre sangue sagrado), pelo que não devemos estranhar as constantes alusões aos antepassados e à estirpe dos heróis glorificados nestas odes. Uma outra dimensão, porém, complica-nos as contas. Por mais forte que seja, por mais super que se nos apresente, o homem cantado por Píndaro é sempre perecível. O bom sangue e a casta divina do herói não o resgatam da condição de mortal. O deus Tempo, «o único deus que põe à prova a verdade / tal como ela efectivamente é» (p. 44), não relativiza o destino nem a descendência ao fazer do homem fruto do acaso, mas de algum modo fragiliza a sua condição existencial. A vida consagrada a um propósito nobre é, deste modo, a resposta humana possível a tamanha fragilização. Tal como o antepassado surge aos nossos olhos com a força do exemplo, assim devemos nós hoje empenhar-nos para sermos exemplo no futuro. Uma ética deste tipo não podia deixar de colocar o poeta, como Platão fará com o filósofo, no lugar de detentor de um saber ao alcance de poucos. Daí que faça sentido sublinhar o lado esotérico destas Odes, até pelo que os próprios versos inferem: «Tenho muitas setas rápidas na aljava / debaixo do meu braço que falam para quem compreende: / mas para as pessoas comuns são necessários intérpretes. / Sábio é quem conhece as coisas naturalmente. / Mas os que aprenderam a ser tagarelas, / semelhantes a corvos, proferem sons // vãos contra a ave divina de Zeus» (p. 20). O que torna as Odes Olímpicas especiais é terem elas sido escritas contra o seu tempo, chegando-nos hoje como exemplo de um ideal humano que não deixa de ser admirável por nos merecer as maiores dúvidas.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

NADA NATURAL

A relevância de Gary Snyder (n. 1930) no contexto da literatura norte-americana é tema que não merece discussão. Foi ele quem traduziu os poemas de Han Shan, influenciando determinantemente o curso da literatura Beatnik. Kerouac inspirou-se nele para The Dharma Bums (há uma versão portuguesa publicada pela Relógio D’Água). Ferlinghetti ter-lhe-á chamado o Thoreau da Beat Generation, o que não fica mal apesar da comparação desnecessária. Snyder tem um percurso singular que não carece de comparações. 
Natural de São Francisco, formou-se em antropologia. O interesse pelas culturas indígenas surgiu muito cedo, nomeadamente pelos nativos norte-americanos. Esse interesse reflectir-se-á sobremaneira na sua poesia, tanto através de evocações de personagens e de lugares históricos associados à cultura ameríndia como no uso de vocábulos provenientes dos inúmeros dialectos praticados pelas tribos que outrora povoaram a América do Norte. Mais tarde, Gary Snyder aliará a este interesse o estudo profundo da cultura asiática. A filosofia Zen não foi, neste caso, mero capricho exótico. Viveu no Japão e andou pela Índia, assimilando saberes para muitos então inacessíveis a Ocidente. 
Por cá, o pouco que nos chegou da sua poesia foi incluído numa antologia pelas mãos do impagável Manuel de Seabra. Nada Natural (Douda Correria, Abril de 2017) vem ocupar um espaço vazio, numa tradução conjunta de Nuno Marques e Margarida Vale de Gato, ilustrada por desenhos de Délio Vargas, percorrendo várias obras do autor de Turtle Island (1974). O ponto de partida é No Nature: New and Selected Poems (1992), redundando esta antologia em português num breve mas generoso conjunto de cerca de trinta poemas. Lá estão as referências a Geronimo, aos Navajo, aos Anasazi, misturadas com mitologia xamânica, filosofia Zen, numa coerente salada de saberes com a Mãe Natureza a ocupar lugar central:

A GRANDE MÃE

Nem todos aqueles que passam

Frente ao trono da Grande Mãe

Podem passar só com um olhar.

A alguns vê-lhes as mãos

Para perceber que espécie de selvagens foram.


Não obstante, seria um erro cingir a poética de Gary Snyder a um mero culto contemplativo da Natureza. Não está errado chamar-lhe “the greatest of living nature poets”, mas seria redutor ficarmos por uma leitura amiga do ambiente e simpatizante do ecologismo actual. O modo como nestes poemas confluem budismo e xamanismo, resquícios de confucionismo e filosofia hindu, leva-nos a pensar que por detrás da paisagem natural convocada em inúmeros poemas há um forte enraizamento filosófico. Dessa filosofia colhemos uma crítica dos tempos modernos, o retrato de um homem desapiedado, desligado da terra, imerso num desperdício de coisas, tempo e silêncio, obsidiado pelos ruídos contemporâneos da ruína. 
O recolhimento sugestivo destes poemas não procura reduzir a prática humana à inacção. Eles convocam o gesto transformador, como nesse belíssimo poema intitulado Fire in The Hole/Vai Rebentar onde a força do trabalho no seio da Natureza coloca o homem no seu devido lugar: o de agente, não dominador, não dominado, simplesmente parte integrante de um processo de transformação consciente que entende corresponder à mudança da paisagem natural uma mudança no próprio corpo. Os últimos versos desse poema são esclarecedores: «premi o detonador para baixo. / através do pó / e pedra aos pedaços / afastei-me com calma para ver: / mãos e braços e ombros / livres» (s/p). 
Snyder não é apenas o maior poeta vivo da natureza. Ele é também um dos grandes poetas do homem, o homem que surge para lá da contemplação, da meditação, o homem que se apresenta aos olhos de cabeça limpa, «Um homem curvado, sentado num tronco / outro de pé a seu lado, ergue um cajado, / um terceiro, com um rolo de tapetes, ou um alaúde, olha em frente / um pouco ao largo duas pessoas num largo» (s/p). Esta paisagem humana que canta no interior dos poemas, uma paisagem de lenhadores, pescadores, caminheiros, vive ainda no e do solo, opõe-se a «Toda a tralha desta coisa do ser humano» (s/p) supérfluo. 
No fundo, talvez não ficasse mal julgarmos que aqui ainda estamos no cerne de um conflito fundador da modernidade, ou seja, o conflito entre o essencial e o supérfluo. Cantar a Natureza como Gary Snyder a canta é partir em busca do essencial, é abraçar o Homem num abraço à Terra, pois «Esta viva terra  ondulante / é tudo o que existe, para sempre // Somos o que ela é / e ela canta através de nós — // Podíamos viver nesta Terra / sem roupas nem instrumentos!» (s/p). Isto é, como vivíamos nesses tempos genesíacos em que o Homem e a Mulher andavam nus sobre a Terra sem sentirem vergonha por isso, pois o pecado ainda não os havia obrigado a dominarem a Natureza nem todos os animais sobre ela existentes. Bons tempos. 

O QUE EU PENSO QUANDO MEDITO


Bem, podia dizer-te que podia dizer-
-te mas não ias perceber mas não o farei
Tu perceberias mas eu não consigo, quer dizer topa isto,
                           não tenho unhas para esta guitarra
               detesto sentar-me de pernas cruzadas
doem-me os joelhos o nariz escorre e tenho de ir
                           à retrete
já de seguida e raisparta o gajo nunca mais toca o sino.

O que eu penso quando medito é no vazio.
                           lembro-me bem
as cabeças vazias             o fsssssss do foguete
Mas o que penso mesmo é em sexo
                           tipo padrões de sexo
como pelos a dançar e pele de galinha
                           Não, a sério
O que eu penso é no que estou eu a pensar?
                           e
Quem sou eu? E «MU?» e as nuvens
                                                              no
                    monte do sul
Quer dizer: aquilo em que honesta e realmente penso, fora de brincadeiras
                    ... (etc.)


GarySnyder (n. 8 de Maio de 1930, São Francisco, Califórnia, EUA), in Nada Natural, trad. Nuno Marques & Margarida Vale de Gato, Douda Correria, Abril de 2017, s/p. 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A MULHER É UMA APARÊNCIA

   Eu creio que podia viver continuamente absorto na contemplação de um ser feminino. A mulher é a fonte inesgotável para as minhas reflexões, para as minhas observações. Cada parcela de beleza deve ser medida na sua harmonia. Cada uma em particular possui uma pequena parcela, restando tudo tão completo em si mesmo feliz, alegre, belo. A cada uma a sua parte: o sorriso jovial; o olhar esperto e vivo; os olhos ardentes; o espírito brincalhão; a doce melancolia; a intuição profunda; o humor sombrio e fatal; a nostalgia terrestre; as emoções inconfessadas; as sobrancelhas que falam; a boca que interroga; a fronte cheia de mistério; os corações sedutores; as pestanas que escondem o outro; o rubor insondável; os passos ligeiros; o andar gracioso; o modo languido; o sonhar impaciente; os suspiros sem explicação; a cintura esbelta; as formas leves; o seio amplo, as ancas bem desenhadas; o pé curvo, a mão pequena... E quando eu vi e revi, contemplei e contemplei ainda as riquezas deste mundo; quando sorri, suspirei, adulei, ameacei, desejei, tentei, esperei, ganhei, perdi - fecho este leque de maravilhas, e o que se espalha em redor parece-se a uma outra coisa, e o meu coração começa a bater e a paixão nasce. A mulher é uma aparência. Raramente há mulheres que sejam outra coisa, e o meu coração começa a bater e a paixão nasce. A mulher é uma aparência. Raramente há mulheres que sejam outra coisa senão uma aparência. A maior parte nem isso são.

Palavras de Sören Kierkegaard, por Agustina Bessa-Luís, in Estados Eróticos Imediatos de Sören Kierkegaard, Guimarães Editores, Maio de 1992, pp. 55-56.