terça-feira, 13 de junho de 2017

OS GÉMEOS

Há meses, o 25 de Abril foi comemorado na minha terra com uma visita de Dom Duarte, Duque de Bragança, à Casa Senhorial D’El Rei D. Miguel. Nestes últimos dias, os telejornais abriram e fecharam com notícias sobre o nascimento dos gémeos de Ronaldo.


Em ambos os casos, aí temos a República parola do séc. XXI no seu máximo esplendor - entusiasmada com falsos reis que são bem a ilustração de uma mentalidade tacanha, conservadora, retardada, que não há meio de ultrapassarmos. 

domingo, 11 de junho de 2017

UM POEMA DE PIA TAFDRUP


HAPPY HOUR

Dado: Um curso de água — e os chimpanzés sentam-se
para seguir a corrente,
                     ouvir o murmúrio branco
que se ergue silencioso —
         como se fosse ouvido pela música.
Tão pensativos estão os animais
espalhados em bando afastados uns dos outros em redor da água

que mantém o sonho a flutuar
                                    ao cair
                                      sobre as rochas negras.
Os chimpanzés olham fixamente
mergulhados em si próprios
de costas para o mundo,
para a multidão importuna
que com gritos e esbracejando
tenta instigar um comportamento mais selvagem
dos animais que, com o sol no pêlo,
meditam profundamente
                   e não se deixam impressionar...

Aparentemente não estamos sozinhos
no subtil considerar da criação do mundo,
ouvindo o sussurro das pedras e o cintilar da luz na água
— o que impele os chimpanzés
a competir com os filósofos mais resistentes,
quando em horas de pensamento refinado
ficam quase parados,
                   clarividentes,
na relva solar à beira da água
que corre borbulhando tão branda e bela
que por um momento apazigua as rivalidades no bando
— e também no público,
e em nós, e devagar nos enche
de um sufocante espanto pela dádiva deste incompreensível mais.


Pia Tafdrup (n. 1952, Copenhaga, Dinamarca), in Ponto de Focagem no Oceano, Tradução colectiva (Mateus, Junho 2002), revista, completada e apresentada por Laureano Silveira, Quetzal Editores, Março de 2004, pp. 60-61.

CONTINUA A PARVALHEIRA

O Malomil continua a presentear-nos com a parvalheira autárquica. Entre vários exemplos, seguem três para juntar aos anteriores: aqui


Isto será verdade? :-)



sábado, 10 de junho de 2017

AS MULHERES DE FERRANTE

As mulheres dos três primeiros livros de Elena Ferrante, reunidos em Crónicas do Mal de Amor (Relógio D’Água, Maio de 2014, 1.ª Reimpressão: Outubro de 2016), vivem num constante estado de tensão. São personagens perturbadas, estigmatizadas, antes de mais, pela ausência do outro. A esta ausência respondem com conjecturas acerca da vida dos ausentes, imaginam-se a viver no corpo de outrem, colocam-se nesse estado de stress entre o que são na realidade e o que ambicionariam ser, perspectivando-se na frustrante interpretação que fazem de si próprias a partir do que sabem da vida dos outros. Delia, a personagem central de Um Estranho Amor, procura descobrir-se a si própria reencarnando a vida da mãe. Amalia ter-se-á suicidado. Delia regressa à Nápoles natal para o funeral da mãe, persegue-lhe os passos, recorda-a, veste um vestido que era da mãe, tem uma relação com o filho do amante da mãe, tenta imaginar que vida teria sido a da mãe vivendo a sua própria vida como que condicionada, delimitada, pela constante presença de uma figura ausente. Da mesma maneira, a Olga de Os Dias do Abandono vive condicionada pela figura ausente do marido. Foi abandonada, ficou com dois filhos nos braços e um cão que nunca quis, imagina o marido nos braços da amante vinte anos mais nova, imerge desorientada num labirinto de raiva e fúria, perde as estribeiras, deixa-se tomar por pensamentos obscenos que se reflectem na linguagem e nos actos quotidianos. Já Leda, a mulher de A Filha Obscura, é-nos apresentada num profundo estado de solidão. Professora universitária, abandonou as duas filhas para se dedicar à carreira académica. As filhas vivem no Canadá com o pai, de quem Leda se separou. Vamos encontrá-la numas férias na costa jónica, à deriva entre a família numerosa  de napolitanos com quem se cruza na praia e a memória das filhas: «Já percebi há muito tempo que conservo pouco de mim e tudo delas». 

Delia, Olga e Leda estão na casa dos quarenta, atravessam crises de identidade por razões diversas, une-as a solidão, uma solidão que surge, antes de mais, do desencontro consigo próprias, enquato ocupam os dias a pensar em figuras ausentes, distantes. Delia e Leda aparecem-nos deslocadas dos seus ninhos, desprotegidas, também, pela distância, ainda que no primeiro caso o regresso às origens disfarce essa desagregação do espaço físico em que se movimentam. Mas também Olga, apesar de permanecer na residência familiar, assiste à derrocada do edifício protector. O seu próprio lar é um espaço em decomposição.

James Wood, no prefácio que acompanha Crónicas do Mal de Amor, diz-nos que «os romances de Ferrante poderiam considerar-se marcados, um pouco tardiamente, pela segunda onda do feminismo, que produziu, entre outras escritas, a ficção de Margaret Drabble sobre a prisão doméstica das mulheres (…). Contudo, há qualquer coisa de pós-ideológico na ferocidade com que Ferrante ataca os temas da maternidade e da condição da mulher. Parece apreciar o excesso psíquico, a imoderação, a terrível e singular complexidade dos dramas familiares das suas protagonistas». Esta ferocidade assume amiúde contornos de histeria que nos levam para estados limite, perdemos a mão às emoções da personagem, criamos sentimentos contraditórios relativamente às suas personalidades. Olham invariavelmente para os homens com uma omnisciência duvidosa, colocam-se acima do sexo oposto por uma espécie de conhecimento que não é mútuo. Os homens destes romances até podem ser bons tipos, mas nunca são mais do que isso. Quando não são bons tipos, são oportunistas, fracos, indolentes. A determinada altura, é Leda quem o afirma: «Os homens têm sempre alguma coisa de patético, em qualquer idade. Uma insolência frágil, uma audácia temerosa. Hoje já nem sei se alguma vez despertaram em mim amor ou apenas uma afectuosa compreensão pelas suas fraquezas».

Fortemente marcadas pela experiência do corpo, as mulheres de Ferrante activam a espiritualidade através de uma sexualidade desinibida mas, muitas vezes, fútil e desesperada. À consciência que têm do seu próprio corpo corresponde uma consciência de si próprias, num estado de isolamento que faz da relação com o outro mero pretexto para um conhecimento de si. Não são raros os momentos em que se olham ao espelho, muitas vezes observando a genitália com considerações acerca de si próprias que excedem o trivial. Estes momentos conferem-lhes uma materialidade, uma pessoalidade, uma carnalidade que as torna físicas apesar de serem personagens. 

As mulheres de Elena Ferrante são eminentemente físicas, esse é um dos aspectos que as torna mais atractivas. Têm pouco de abstracto tendo pouco de concreto, vivem como qualquer um de nós sabe que podia viver. A caracterização psicológica que delas é feita não prescinde os contornos do corpo, gerando entre este e a psique um estimulante jogo de correspondências, desafios, relações causa-efeito. Olga cita, a páginas tantas, Anna Karénina. E questiona-se: «Que tensões desvairadas nos impelem a formular as nossas exigências de sentido?» As mulheres de Elena Ferrante são uma tentativa de dar resposta a esta questão. E dão. Por onde quer que circulemos, vamos sempre dar ao mesmo: à família, ao universo doméstico, ao castelo.

DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS


   O país atravessa um momento aborrecido, deixando os portugueses à nora com tanto optimismo. Mais habituados ao catastrofismo de um Medina Carreira ou de um António Barreto, os fazedores de opinião olham para as próprias mãos sem saberem onde escondê-las. Esta atmosfera insuportável de números positivos, vitórias e festejos consecutivos deixa-nos, como sempre estivemos, em contramão com o resto do mundo. Há um espanto neste autodeslumbramento altamente contraproducente. Somos visitados e gabados e elogiados como há muito não éramos. Hordas de turistas chegam-se-nos à porta pedindo-nos doces, mascarados a rigor como num pão-por-Deus à americana. Sempre disponíveis e hospitaleiros, providenciámos atempadamente terrinas repletas de sweets produzidos noutros países. E damos, e oferecemos. 
   Marcelo, o maior da República, é de tal modo acolhedor e afectuoso que nos faz sentir saudade da carranca de um Cavaco. Esta alegria, este bem-estar, matam-nos, destroem-nos, usurpam-nos a identidade. Até o fado deixou de ser triste, povoado de miúdas giras, soltas, decotadas, tatuadas e estouvadas como qualquer estrela pop. Estas procuram-nos, nem que para efeitos promocionais, citam-nos lá fora, compram casa cá dentro, passeiam-se pela baixa lisboeta incógnitas mas observadas. Quem quer que ande pelas baixas de Lisboa ou Porto sentir-se-á afectado na sua portugalidade, tanto o entusiasmo, o estilo, a ostentação, o glamour que matiza as ruas.
   O que nos sobra então de Portugal? O que nos sobra então de portugueses? Em dia de Camões, o poeta maior da língua portuguesa depois de Fernando Pessoa e ligeiramente antes de Bocage, sobra-nos o acordo ortográfico. Não me refiro ao acordo das academias, negociata ao nível do investimento turístico. Refiro-me ao acordo ortográfico deste bom povo que tão mal trata a sua língua e que nesse mal tratar consegue fazer-nos acreditar que ainda somos portugueses, falsamente letrados, putativamente evoluídos, supostamente inteligentes, alegadamente enobrecidos, retoricamente justos. A minha língua é a minha pátria, a ambas o mesmo trato.
   Livres de tudo menos de nós próprios, e ainda bem, damo-nos por contentes ao continuarmos sujeitos à demagogia e à prepotência de elites oligarquicamente instaladas pretendendo fazer-nos pensar que já não somos o que continuamos a ser. É claro como a água que corre nos rios poluídos da pátria haver neste cenário uma enorme contradição. Há mais gente formada nas universidades, é certo. Mas a falta de civismo observada diariamente nas ruas não diminuiu. Nem a completa ausência de pensamento crítico, a qual continua a fortalecer o discurso politicamente correcto dos arrivistas e dos poderosos. Somos racistas e xenófobos pela calada, negando a nós próprios tamanha evidência. Talvez não o sejamos para com turistas endinheirados, nem para com os angolanos “cheios de pasta”, oferecendo-lhes tratamento que somos incapazes de oferecer, a título de exemplo, às comunidades ciganas e aos portugueses dos chamados bairros sociais (tenham a cor que tiverem). 
   Perdura em nós aquele elitismo saloio da ostentação mesquinha, manifesto em indicadores tão racionais como os da comercialização de telemóveis.  Depois, temos a violência doméstica a dar-nos cabo das estatísticas. E a sinistralidade nas estradas. Apesar de sermos um dos países mais cool e simpático e pacífico e seguro do mundo. As mulheres portuguesas que o digam. Adoramos Camões sem nunca o termos lido, aceitamos numa comunidade de países lusófonos a presença de um país cuja maioria dos habitantes nem sabe dizer bom dia na língua dos Lusíadas
   Enfim, andamos contentes, optimistas, alegres, esperançosos. Temos boas razões para isso. A mais forte das quais constatarmos que, afinal, não somos tão bons quanto nos julgamos quando abrimos os olhos. Endividados, sufocados por juros, pagamos a conta nas facturas das despesas fixas - luz, gás, água -, aceitando sem piar o roubo a que somos sujeitos em impostos sobre impostos mais taxas respectivas. O reino da burrocracia é o nosso. Não são pois pacíficos os portugueses pelo mal que fazem a si próprios, são-no por comerem e calar, por não mexerem uma palha contra quem os rouba, felizes no sorriso deslavado de débeis dentaduras, adorando a quem os emociona por fazer esquecer que somos o que somos. Isto.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

I find your lack of faith disturbing


esta rara espécie que desfila diariamente para a morte inevitável. sem memória fúnebre. que transporta toda a ética para o leito nocturno. automática e básica nos rituais diários. que deixa o incondicional para o último suspiro. que fácil acordar para o dia sem o peso da noite. que cómodo morrer sem jeito e sem transpor a ponte e a estrada. caminha por cima a verdade. como uma armadilha de sabres de luz.


Sandra Andrade (n. 1976), in doppelgänger (2016). Estreou-se em 2014 com o volume Para Acabar De Vez Com a Retórica, colectânea de textos escritos maioritariamente em prosa tendo como ponto de partida as afinidades electivas da autora. Músicos, cineastas, artistas, cientistas, convocados para uma performance anárquica onde o quotidiano surge representado com extrema violência e crueldade. A inclusão de referenciais provenientes da ficção científica transporta-nos para cenários apocalípticos de pós-humanidade e pós-verdade, alicerçados em referências que apontam para um contraste extremo e persistente entre um mundo orgânico em vias de extinção e a realidade holográfica desta nova era cibernética. A pós-realidade é o que aqui se coloca em xeque, numa escrita que reivindica para si o bruto, o autêntico, o cruel e o violento retrato do texto como forma de purgação.

DOIS LIVROS DE SANDRA ANDRADE

Julgo não merecer discussão a tese segundo a qual atravessamos neste momento uma revolução sem precedentes. O tempo avizinhado permite-nos demarcar o final do século passado, com o advento das novas tecnologias da formação e da informação, como a época em que se começou a desenhar essa revolução. Avanços aparentemente imparáveis nas áreas da informática permitiram desenvolvimentos biotecnológicos que nos levaram a falar de pós-humanidade, não sendo a tais progressos alheia a eleição da pós-verdade como neologismo do ano em 2016. Vivemos, portanto, num “futuro póstumo”. Roubo a expressão a uma poeta portuguesa da minha geração. Chama-se Sandra Andrade (n. 1976), é natural de Bragança, e publicou dois livros de poemas: Para Acabar de Vez com a Retórica (&etc, Outubro de 2014) e doppelgänger (Debout Sur l’Oeuf, Abril de 2016). Li primeiro o segundo, ficando de tal modo impressionado que não resisti a procurar o primeiro.
Há entre os dois uma coerência que não será difícil de constatar, desde logo quando no texto inicial de doppelgänger Sandra Andrade menciona uma carta enviada a Enrique Vila-Matas referindo-se ao seu primeiro livro nos seguintes termos: «el punto de partida son mis afinidades electivas». O escritor espanhol é uma dessas afinidades, entre muitas outras que surgem evocadas sob a forma de títulos para textos, maioritariamente em prosa, com os quais estabelecem relações que não vale a pena tentar circunscrever. No fundo, são aqueles a quem Baudelaire chamou de faróis num conhecido poema, nomes de um anárquico conjunto onde se incluem cineastas, escritores, músicos, artistas, cientistas, por certo influentes na formação cultural, filosófica, ética da autora em causa. Entre eles, quero aqui destacar artistas performativos tais como Marina Abramović e Bas Jan Ader, a fotógrafa Francesca Woodman e os experimentalistas Current 93, por neles ser perceptível um exercício da performance na qual esta poesia se enraíza, lembrando, tanto na forma como na linguagem, a obra poética de uma Karen Finley (vide Tratamento de Choque, Frenesi, 2003). 
Outra dimensão evidente nos poemas destes dois livros é a catarse enquanto motor da escrita, uma catarse que tanto pode vir do sentimento angustiado que a evocação de alguns homens do blues suscita como da percepção de um quotidiano onde a derrota e o insucesso inspira compaixão pelos fracos, pelos humilhados, pelos ofendidos, pelos desprotegidos: «hoje deu-me vontade de abraçar a miúda que me serviu o café. era tão cedo e já estava tão assustada» (Para Acabar de Vez Com a Retórica, p. 31). Noutras ocasiões, esse quotidiano surge violentamente expresso em imagens de uma crueldade tão cínica quanto melancólica: «não tenho a ingenuidade de pensar que este coração nas mãos transporte qualquer tipo de sucesso. mas é esta a matéria prima que carrego» (doppelgänger, p. 45). Há um poema do primeiro livro onde estas características confluem para uma espécie de anti-erotismo que não ficaria mal numa colectânea de humor negro:

ADÍLIA LOPES

ponha-me essa bagagem que traz no lado esquerdo
ao lado do tanque
que está calor e eu estou cansada
e o dia está mais inclinado
a que
muito provavelmente
o senhor acabe a fazer-me 1 minete

disse a madame ao rapaz que estava estafado e cheio de sede e ela
nem uma limonada lhe fez e assim se procedeu ao minete.

Mas onde os poemas de Sandra Andrade se distinguem verdadeiramente é na inclusão de todo um leque diverso de referenciais, provenientes tanto da física como da ficção científica, que nos transportam para cenários futuristas de tal modo apocalípticos que se chega a reclamar de novo na paisagem a presença humana. Não são meramente caprichosas as referências ao físico Michio Kaku e ao escritor Philip K. Dick no primeiro livro, nem ao Dune de Frank Herbert e ao físico Erwin Schrödinger no segundo livro. Assim como também não será ocasional que alguns dos títulos do segundo livro, quando googlados, nos enviem para fóruns de discussão da saga Star Trek. Outro dado a apontar é a repetição em ambos os livros do conceito “holograma”, evocação de uma realidade fantasmática por oposição ao mundo orgânico. O próprio título doppelgänger parece pretender deslocar a poesia de um estatuto demiúrgico para o de universo paralelo, conferindo-lhe um regime holográfico baseado nas capacidades do lendário monstro germânico cujo dom principal é copiar a identidade de uma pessoa. Clonado, copiado, repetido, encriptado, não merece senão desprezo o tipo de escritor convocado numa espécie de ars poetica intitulada “metam os textos na cripta (El Mal de Montano)”. O ar dos tempos promove o eremitismo dos inadaptados, isola-os nas suas hortas selvagens com o desejo ambivalente de um passado extinto sem fé nos paraísos perdidos. A pós-realidade é o que aqui está em causa, numa escrita que reivindica para si o bruto, o autêntico, o cruel e o violento retrato do texto como forma de purgação. Eis um exemplo, cínico e (des)iludido, como convém num combate aberto à hipocrisia reinante na actualidade:

the spice must flow


a única estação que existe é este espesso nevoeiro e a única colheita são estas árvores metálicas com frutos nano tecnológicos. chegar a casa é um prolongamento de caminhar nesta chuva ácida e ligar o microondas. os neoliberais salvaram tudo e todos, sim senhora. esses heróis tecnológicos positivos da nova era. alguns poucos queriam terra e cravos outra vez. mas ao fim do dia ligam-se ao computador para um acesso aditivo crescente. e esquecem. esta espécie de net junkies está impreparada para a revolução. e a informação que procuram é cíclica e implacável. os dias passam e tudo é pior. junto-me enquanto é tempo aos oleiros, aos carpinteiros, aos agricultores, aos alfaiates. pessoas que redigem cartas à mão. e construímos a balança. um pouco tóxicos na cabeça mas verticais. com mãos lúcidas e iniciáticas.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

MANUEL ALEGRE

Contam-se pelos dedos os poemas de Manuel Alegre que li, todos tão patéticos e anacrónicos que fiquei sem vontade alguma de desperdiçar tempo da minha vida no que escreveu. A figura de Alegre representa na minha pobre e desmiolada cabeça o pior das letras portuguesas. Raduan Nassar, Prémio Camões em 2016, tem em quatro livros publicados matéria para o futuro que, desconfio, a vasta obra de Alegre jamais terá. Ou então muito me enganei com o pouquíssimo que lhe li. Mas, confesso, também não me sinto com forças para ler. Parece que o Camões replica o hábito do Nobel em deixar quase sempre de fora os melhores

Chadrack Mulo

A notícia vem no DN. Uma criança de 4 anos, com dificuldades de aprendizagem e incapaz de falar, viu a mãe morrer subitamente em casa. Sem conseguir pedir ajuda, a criança acabou por morrer de fome. Foi descoberta duas semanas depois com os braços à volta do corpo da mãe, a qual se encontrava em avançado estado de decomposição. Em Londres, ano de 2016. 

Et de plomb et de plume

É o 35.º episódio do meu programa de rádio preferido. Lá está o Buckley a cantar Bob Dylan, entre a Billie Holiday e a Mila Dores. Que bem ficam... Ouvir aqui.

BANDA SONORA ESSENCIAL #8


   A Ana lembrou-me que passaram 20 anos sobre o desaparecimento de Jeff Buckley. A Ana é a minha mulher. Quando Grace (1994) apareceu lá por casa tínhamos dado o primeiro beijo há dois anos. Logo se tornou a banda sonora de muitas e soltas noites. Filho de Tim Buckley, escritor de canções precocemente desaparecido aos 28 anos de idade, Jeff Buckley repetiu a tragédia paterna. Contava apenas 31 primaveras quando se afogou num afluente do Mississipi. Era, sem dúvida, uma das vozes mais distintas da nossa juventude, a par de Thom Yorke, dos Radiohead, e da saudosa e belíssima Lhasa de Sela. São poucas as vozes dessa geração que merecem ser recordadas com o mesmo encanto. 
   Entre os temas originais de Grace, há três versões que atestam com exemplar clareza a excelência desta voz. Lilac Wine, de James Shelton, é a primeira. Foi escrita para um musical. Buckley faz-se acompanhar no início apenas pela guitarra eléctrica, num estilo jazzy que as escovas na tarola da bateria aprofundarão com convincente simplicidade. Interpretação deslumbrante, a oferecer à voz uma sinuosidade de timbres cuja transparência colocada em cada sílaba é capaz de sensibilizar o mais bruto dos seres.
   Segue-se Hallelujah, original de Leonard Cohen que tem merecido as mais estapafúrdicas versões. Jeff Buckley respira fundo antes de começar a dedilhar a guitarra. Os níveis de reverb transportam-nos para o centro de uma catedral, a voz soa como uma oração. A solo com a guitarra, o intérprete inspira nas palavras o que nelas possa haver de sagrado e solta-as como uma oferenda. Sentimo-nos agradecidos.
 As metáforas religiosas inerentes a estas canções adquirem forma final com a interpretação do hino Corpus Christi Carol (For Roy), na versão do compositor britânico Benjamin Britten. Para um ateu militante, o Santo Graal está descoberto: é a voz de Jeff Buckley. Dela beberemos o sangue de uma sagrada poesia, o clamor do espírito em clausura, afastado do mundo na esperança de assim poder aproximar-se de uma luz superior.
  Há um efeito que se repete nestes temas, as cordas trémulas e nervosas num fundo quase imperceptível sobre as quais ecoa com espantosa nitidez o dedilhado. É como se Buckley pretendesse intercalar as explosões de inspiração rock com uma paz que pressentimos procurada no título do álbum. Tê-la-á encontrado, porventura, no dia 29 de Maio de 1997. Passaram 20 anos.



FAZ-DE-CONTA



O retorno à parvalheira, animado pela proximidade das autárquicas, trouxe-me à memória este combatente anticorrupção que o povo elegeu para o Parlamento Europeu, depositando nele uma esperança há muito arredia da política portuguesa. Que será feito deste fenómeno mediático? Por onde andará e o que terá feito nos últimos anos? Outrora omnipresente nos media, parece ter desaparecido em combate. Espero que os eleitores do Movimento Partido da Terra estejam satisfeitos com a sua eleição, por certo têm sido muito bem defendidos lá na terra do faz-de-conta.

THE TREASURE OF THE SIERRA MADRE (1948)


Nas memórias coligidas em Século Passado (Cotovia, 2007), Jorge Silva Melo revela logo nas primeiras páginas que O Tesouro de Sierra Madre foi o último filme que viu em família, em véspera de Dia de Estudantes de 1964, no Condes. À margem da sessão, um episódio que merece ser recuperado: «quando saímos, a polícia de choque, Restauradores fora, carregava sobre os estudantes que se tinham concentrado entre o Éden e o Condes». A ironia está em dois factos distintos. Primeiro, The Treasure of the Sierra Madre/O Tesouro da Sierra Madre (1948) é na sua origem um filme de família. John Huston (n. 1906 – m. 1987), o realizador, dirige o seu pai, o actor Walter Huston, num filme que valeu três Oscars lá para casa: melhor realizador e melhor argumento para John, melhor actor secundário para Walter. Segundo, o filme baseia-se no romance homónimo de B. Traven.
Figura misteriosa, acerca da qual ainda hoje pouco se sabe de concreto, supõe-se que B. Traven tenha sido um dos pseudónimos do polaco Otto Feige, revolucionário e anarquista do início do séc. XX, exilado no México após complicações várias com as autoridades europeias. De B. Traven publicou a Antígona, há tempos, uma colectânea de contos intitulada O Visitante da Noite. De um outro eventual pseudónimo de Otto Feige, lemos En el estado más libre del mundo – textos de combate assinados como Ret Marut. À sua maneira, esta obra iniciática de John Huston é também ela mesma revolucionária para o seu tempo. A história presta-se a isso.
Dois jovens americanos indigentes juntam-se a um velho prospector na busca de ouro em território mexicano. Já não estamos a falar da “febre do ouro” aludida em inúmeros westerns, nem no tipo de garimpeiros que o místico Pale Rider resolveu proteger. Este filme não é um western no sentido clássico do termo. A acção decorre nos anos 20 do século passado, os protagonistas são forasteiros que se arrastam a pedir esmola pelas ruas da cidade. Pouco têm que ver com os velhos cowboys, mesmo com as desapiedadas e desgraçadas figuras entregues ao álcool ou à mais completa solidão. Não são outlaws com o sentido trágico da existência, não perseguem índios nem por estes são perseguidos.
Portanto, não são o espaço e o tempo, não são os bandidos nem os indígenas nem as perseguições nem os tiroteios que conferem ao filme a marca de uma recriação do Old West. É antes o duelo mantido, sob a forma de diálogo, entre as personagens interpretadas por Humphrey Bogart e Tim Holt, este último bastante experiente no domínio do western com participações, entre outros, nos clássicos Stagecoach (1939) e My Darling Clementine (1946). É neste duelo que vislumbramos algo de verdadeiramente revolucionário, desde o aperto de mão filmado em grande plano com o rosto incrédulo de Walter Huston em pano de fundo, à contenda que isolará Bogart num labirinto de dúvidas interiores onde se tornará difícil destrinçar a loucura da racionalidade.
Unidos pelo ouro, isto é, pela perspectiva de uma vida melhor suportada na descoberta de ouro, acabarão fatalmente separados pela cegueira e pela irracionalidade. Avareza e ganância são o veneno nas flechas que atingirão os elos de confiança estabelecidos entre ambos, rasgando-os como se de um momento para o outro o ferro se transformasse em seda. Não vale a pena citar os diálogos nem descrever as cenas em que o duelo de consciências adquire feição no rosto dos actores, transformando este filme naquilo a que críticos e historiadores fixarão com o termo “neo-western”.

O mais curioso de constatar é ter este filme surgido numa década de ouro para o género, num ano, o de 1948, em que estrearam The Man From Colorado, de Henry Levin, Red River, de Howard Hawks, Fort Apache, de John Ford, Yellow Sky, de William A. Wellman, todos eles celebrando feitos heróicos e seu Olimpo de protagonistas. Quando o western estava no auge da sua popularidade, havia quem investisse no neo-western conquistando novas linguagens para o mais antigo dos géneros cinematográficos. Revolucionário também por isso, John Huston filmou como ninguém o herói fracassado, o perdedor a quem Hollywood não oferecia a moral da história. Levado pelo vento, o ouro de Sierra Madre é uma grande lição que a arte presta à vida: ganhar ou perder, interessa é jogar. Mais sucesso, menos sucesso, importa fazer. Não há heróis sem derrota. E desta, resta-nos rir.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

PERNAS

   Que pernas! 
   Não careciam de saltos, ainda que um tacão ligeiro lhes retesasse o músculo. A saia era curta, destravada. 
   Uma lufada de ar fresco levantou os rubros tecidos e deixou especados os olhos boquiabertos dos mirones. 
   Que pernas! Todos os santos as protejam, muito caminhem e descansem. 
   Impossível parecer discreto perante monumento assim. 
   Pode um homem ficar indiferente ao Taj Mahal das pernas? 
   Pecado seria não apreciar, fingir indiferença. Tudo naquelas pernas dizia: olhem para mim. 

BANDA SONORA ESSENCIAL #7



   Quando David Bowie escreveu Song for Bob Dylan, o visado tinha mais de uma centena de canções editadas, muitas delas interpretadas por artistas tão diversos como Manfred Mann, The Jimi Hendrix Experience, Joan Baez, The Byrds. A diversidade diz bem do alcance que as composições de Dylan granjearam, dominando toda a década de 1960 no terreno fértil de escritores de canções norte-americanos. 
  Podia ter uma voz sofrível, podia ser um guitarrista e pianista mediano, podia não saber tocar harmónica, mas ninguém escrevia como ele. Eric Clapton, que sabia do que falava, resumiu com clareza o estatuto do autor de Blowin’ in the Wind: «He’s a poet. Basically he’s a poet. He does not trust his voice. He doesn’t trust his guitar playing. He doesn’t think he’s good at anything, except writing and even then he has self-doubts». 
   As dúvidas são inerentes a um processo criativo que não enjeita a autocrítica, na mesma medida em que, ao lançar um olhar sobre o mundo, fá-lo no encalço de uma compreensão aprofundada da natureza humana. As referências literárias são uma constante na sua discografia, a qual compreende, só na década de 1960, nove discos fundamentais.  

   Bob Dylan – the bootleg series volumes 1-3 [rare & unreleased] 1961-1991 (2017) dá conta da prolixidade do autor, dificultando uma eventual tentativa de definição da sua relevância. Constatar que deixou de fora dos registos oficiais autênticas pérolas como as agora reveladas deixa-nos, no mínimo, desconcertados. 
   Destacaria, pela circunstância rara, a leitura do poema Last Thoughts On Woody Guthrie, cuja audição/leitura reflecte algo que transcende o mero discurso epigonal acerca de um mestre da tradição folk. Outro momento brilhante neste conjunto de 58 gravações, distribuídas por três CDs, é a interpretação de Farewell, Angelina, canção aproveitada por Joan Baez para o álbum homónimo de 1965. Poema extraordinário, segura incursão pelo universo surrealista, até então aparentemente incompatível com a linearidade retórica da folk music
   Por fim, e para não alongar em demasia a prosa, escute-se com atenção Blind Willie McTell, gravação da década de 1980, com Mark Knopfler na guitarra. É um comovente e comovido elogio aos blues enquanto fonte inesgotável de inspiração para um jovem que vinte e tal anos antes tomava conta da realidade social do seu tempo e do seu espaço através de um veículo de comunicação chamado canção.
   Foi essa tomada de consciência que levou Dylan a adoptar em diferentes ocasiões melodias tradicionais como suporte para palavras onde o literário abraçou a vida, com as suas contradições, paradoxos e absurdos de raiz.




terça-feira, 6 de junho de 2017

O DISCURSO

Num discurso para ser lido e ouvido, Bob Dylan começa por evocar Buddy Holly como influência fundamental. Deste, salta para Leadbelly e o álbum "Cottonfields": «And that record changed my life right then and there. Transported me into a world I'd never known». Estavam lançadas as sementes. Dylan encontrara canções "truthful to life", abraçara os géneros em que queria investir: «ragtime blues, work songs, Georgia sea shanties, Appalachian ballads and cowboy songs». O tom é confessional, autêntico, o reconhecimento de uma retórica especial aprendida e adoptada desde muito cedo. Na segunda parte do discurso, nomeia influências literárias. Cita três obras: «Moby Dick, All Quiet on the Western Front and The Odyssey». São obras que oferecem uma noção da natureza humana, o magma na origem da letra. Será da conjugação destes dois elementos, o exemplo colhido na vida e o exemplo literário, que a canção dylaniana assumirá forma. Indiferente ao significado, importa que soe bem. É esse o sentido. «Our songs are alive in the land of the living. But songs are unlike literature. They're meant to be sung, not read» - conclui Dylan. Ainda assim, são literatura. Uma das mais clássicas formas de literatura, tal como as histórias que a tradição oral imortalizou. O discurso completo: aqui.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

IMPECÁVEL

   Presumo que esteja reformado, porventura de obrigações burocráticas. Ou talvez tenha sido vendedor de seguros. 
   Sempre muito bem penteado, os sapatos impecavelmente engraxados, a roupa engomada a régua e esquadro. Caminha pausadamente, mas algo curvado. Tem um bigode grisalho aparado a pinça. Sujeito socialmente imaculado, sobre o qual todos diriam maravilhas. 
   A aparência contrasta, porém, com os tiques nervosos. Do perfil vertical sobressaem movimentos rígidos, demasiadamente rígidos, e uma repetitiva, diria mesmo maquinal, forma de circular por entre os livros, que folheia rapidamente, movimentando os lábios em silêncio, enquanto finge ler o que é impossível ser lido daquele modo. 
   Cumprimento-o sempre, mas nunca me responde. Nunca lhe escutei um bom dia, boa tarde, boa noite. Nunca comprou um livro. Entra e sai todos os dias, no seu semblante impecável de homem cumpridor. 
   Imagino que tenha passado a vida a trabalhar, que se tenha aposentado, que seja um homem sozinho, sem mulher nem filhos nem amigos, um homem de secretaria. Imagino-o assim, correcto, exemplar, irrepreensível. Mas desconfio também de uma voz inaudível, retraída algures entre o peito e a garganta, ameaçando as fontes arroxeadas de raiva contida. 
   Talvez um dia rebente. Nesse dia, terei a certeza da sua humanidade. 

GANHAR TEMPO

Há 14 anos a escrever para weblogs, nunca dei por tempo perdido a actividade. Antes pelo contrário, tempo perco-o no trabalho, nas lides diárias que me obrigam a sorrir quando me apetecia gritar. A literatura não salva, mas um weblog pode tornar-nos os dias mais compensadores. Chegar do frenesim e pausar a ler isto, por exemplo: E queria por tudo pagar o trabalho. Mandei dizer que trabalhos pagos em quase cada esquina se acham… O resto do post é uma magnífica partilha naquele registo a que em tempos alguém chamou de prosa da intimidade. Não se perde tempo aqui, não se ganha pelo trabalho feito senão o prazer de ouvir alguém dizer da outra esquina que também tem algo para nos mostrar. E quanto mais do fundo vier essa revelação, melhor.  

FM

Hoje vou estar à conversa com o José Ramalho na Mais Oeste Rádio, em 94.2FM, no programa Contra-Corrente. Se me quiserem ouvir a fazer o pino, sintonizem-se a partir das 22h. 

INCENTIVO

Sentado no meu posto de comando, com uma das estantes a alguns metros dos olhos, e em linha reta, direta, duas mil páginas de livros carinhosamente selecionados na feira do livro de há dois anos, às quais se juntarão, por outras estantes, similares milheiros do ano passado e dos adquiridos no intervalo entre feiras, que é o ano todo. Páginas e páginas de prosas magníficas, poemas eternos, não ficções, ficções, pulsões e paixões. A aguardar a oportunidade de serem lidas. Fosse eu a ler por ordem cronológica de chegada à fila de espera e creio que a vez destes mesmo à minha frente aconteceria daqui a uns setenta anos, mais dezena menos dezena. Um ótimo incentivo para buscar uma vida longa

Xilre, aqui.

domingo, 4 de junho de 2017

UM POEMA DE ANNA AKHMÁTOVA


SEGREDOS DO OFÍCIO

1. Trabalho criador

Assim acontece: uma lânguida inquietude;
o relógio não pára de bater nos ouvidos;
ao longe estrondos da trovoada, esmorecidos.
Ouço das obscuras vozes, prisioneiras,
como que as lamentações e os gemidos,
aperta-se um anel secreto, mas já se alteia
neste abismo de murmúrios e de tinidos
um destacado som que a todos suplanta.
Em torno tudo é silêncio tão irreparável
que se ouve a erva a nascer na floresta
e o homem com sua trouxa errando pla terra...
E já se enxerga o dia, se vislumbram palavras,
soam longínquos repiques leves de aviso -
e logo dentro de mim tudo se percebe,
e as linhas simples, a todo o seu comprido,
vêm deitar-se na folha virgem de neve.

2. 

De nada me servem as hordas de odes
nem as elegias lamentosas.
Nos versos deve ser tudo fora de ordens,
da família as ovelhas ronhosas.

Nem imaginam de que lixo, sem vergonha,
crescem os poemas, como na valeta
urtigas, bardanas, peçonha de ervas
e a pobre flor careca.

Um grito irritado, cheiro fresco a breu,
o bolor misterioso na parede...
E já soa o verso alegre, meigo, meu,
para minha alegria e vossa sede.

3. Musa

Como posso viver com este fardo,
que de Musa se atreve ao apelido...
Dizem: «com ela te deitas no prado...»
e dizem: «é o divino zumbido...»
Mais do que febre, dá um coice inumano,
depois nem mais um pio todo o ano.

4. Poeta

Que grande mistério este trabalho,
esta vida de nenhuma agrura:
espiar qualquer coisa da música
e fazê-la passar por coisa sua.

E intrometer por entre as linhas
um scherzo de outrem bem alegre,
jurando que na luz das pradarias
é teu pobre coração que geme.

Roubar qualquer coisa aos pinheiros
da negra floresta taciturna,
enquanto ergue os seus nevoeiros
a toda a volta a cortina de bruma.

E ir procurar - impudica -,
por onde calha e me aventuro,
alguns pedaços da vida oblíqua
e, ao silêncio da noite, tudo.

[Verão de 1959, Komarovo]

Anna Akhmátova (n. 23 de Junho de 1889, Odessa, actual Ucrânia - m. 5 de Março de 1966, Domodedovo, Rússia), in Só o Sangue Cheira a Sangue, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, Dezembro de 2000, pp. 57-61.

BOM DIA TRISTEZA

…Londres calou Manila calou Manchester calou Jalalabad calou Cabul calou Paris calou Yahyakhil calou Istambul calou Balkh calou Estocolmo calou Lahore calou Daguestão calou Berlim calou Jacarta calou Madrid calou Peshawar calou Bruxelas calou Ancara calou Nice calou Sousse calou Grand-Bassam calou Orlando calou Shabqadar calou São Petersburgo calou Mohmand calou Diyarbakir calou Mogadíscio calou Damasco calou Dikwa calou Ninive calou Borno calou Charsadda calou Ouagadougou calou Ceel Cadde…

sábado, 3 de junho de 2017

BUFFON


Terminada a partida, foi o perfil de Buffon que mais sobressaiu. Gladiador isolado no meio da arena, não tinha gajas à sua volta nem miúdos para a fotografia, não tinha filhos nem mães Dolores, era um guerreiro afastado do espectáculo com a derrota nas luvas. 

Com praticamente 40 anos feitos, Gianluigi Buffon está, como se costuma dizer, arrumado para a bola. Mesmo entre postes, os 40 são a morte do artista. No momento derradeiro era só ele e a derrota, uma luz bárbara a contrastar com as lentejoulas dos vencedores. 

Buffon, eu estava a torcer pelo Ronaldo. Mas no final foi contigo que fiquei. 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

JÁ LERAM ISTO?

When yer head gets twisted and yer mind grows numb
When you think you're too old, too young, too smart or too dumb
When yer laggin' behind an' losin' yer pace
In a slow-motion crawl of life's busy race
No matter what yer doing if you start givin' up
If the wine don't come to the top of yer cup
If the wind's got you sideways with with one hand holdin' on
And the other starts slipping and the feeling is gone

(…)


Continua aqui.

BANDA SONORA ESSENCIAL #6



Impossível falar de Lou Reed sem nos lembrarmos de David Bowie, nomeadamente da importância que este teve no lançamento de uma carreira a solo que começa a desenhar-se com Transformer (1972). A década de 1970, apesar dos sintomas anteriores, será uma das mais entusiasmantes na caleidoscópica carreira de Bowie. Datam dessa época criações icónicas como Ziggy Stardust e Aladdin Sane, mas o melhor prenuncia-se logo nos álbuns The Man Who Sold the World (1970) e Hunky Dory (1971). Este último, a título de curiosidade, o preferido de Angela Bowie, cara-metade das muitas metades que a cara do autor de Changes exibiu à época. A androginia patenteada na capa do álbum de 70 é só um exemplo, embora o que aí acabe por sobressair do ponto de vista musical seja a guitarra de Mick Ronson. Ressonâncias do rock psicadélico e até do rock progressivo não são descabidas, sustentando uma lírica algures divagante entre o esoterismo de Khalil Gibran e uma insânia tão teatral como realística (há muito que Bowie convivia com problemas de demência no núcleo familiar). 
Em Hunky Dory os arranjos românticos, o piano, a guitarra acústica, sobrepor-se-ão às guitarradas eléctricas de Ronson — Queen Bitch será a excepção—, assumindo Bowie uma necessidade de afirmação enquanto compositor a que não será alheio o panegírico inscrito numa canção com o título Song for Bob Dylan. Ao que parece, quando Bowie e Dylan se conheceram o desinteresse deste pelo jovem artista britânico gerou fúrias contidas. Andy Warhol é outro momento laudatório de Hunky Dory, o que nos leva de novo a estabelecer pontes com Lou Reed. Afinal, este começara precisamente numa banda de algum modo patrocinada por Warhol: os The Velvet Underground. Refira-se, porém, que independentemente da atitude arty dos dois álbuns de Bowie aqui referidos, The Man Who Sold the World é muito mais devedor do rock e do blues norte-americanos. Não admira que, muitos anos depois, os Nirvana tenham feito uma versão da canção que deu título ao álbum. Isto anda tudo ligado, não duvidemos.



ROGER WATERS


Em digressão pelos states, Roger prova que só é Waters de nome. No mais é como o vinho do Porto. 

quinta-feira, 1 de junho de 2017

UMA HISTÓRIA COM ASC DENTRO



O meu primeiro dia de trabalho como livreiro ficou marcado, entre outras razões, por um atraso provocado pela inaptidão para ler horários de shopping. Entre as outras razões guardarei, para sempre, um cliente muito especial. Estávamos em Outubro, entrou na livraria de chinelos e camisa totalmente aberta. Debaixo da camisa salientava-se uma proeminente barriga, pêlos no peito atravessado por uma corrente. Vestia calças de ganga deslavadas. Olhei para ele com o espanto que não me mereciam as raparigas engalanadas em dia de inauguração, tendo logo ali afirmado, entre colegas, uma certa tendência para os desastres. O homem talvez tenha interpretado no meu olhar uma luz de simpatia, pelo que se me dirigiu. Rosto vermelho e enrugado, pele salgada como a dos pescadores, tom de voz abagaçado, perguntou se vendíamos O Livro do Meio. Com a maior das seguranças, respondi-lhe aliviado que sim. Tinha acabado de etiquetar e arrumar o material, sabia bem que tínhamos disponível para venda as memórias da Maria Velho da Costa e do Armando Silva Carvalho (à venda no wook por €3, com 10% de desconto, como atesta a imagem ao alto). Dirigi-me à estante das biografias, retirei o livro e coloquei-o na mão da figura defronte. O homem pegou no livro com cuidado, diria mesmo carinhosamente, sendo-lhe perfeitamente perceptível a comoção. Agarrou no objecto com as duas mãos, olhou-me nos olhos e explicou-se: «sou amigo de infância do armandinho, disseram-me que ele fala de mim neste livro». Não sei se falava, se não, mas cheguei a contar esta história ao autor visado. Por razões que não aprofundarei agora, guardei para sempre o olhar daquela figura que se me apresentou em dia de estreia como um dos mais exemplares poderes desta inútil actividade que é escrever livros. E o resto é conversa. 

SANTA-RITA


Morreu prematuramente, antes mesmo de completar 29 anos de idade, vitimado por tuberculose pulmonar, deixando ordem expressa para que todos os seus trabalhos fossem queimados;


Um exemplo a seguir: também gostaria que todos os meus trabalhos fossem queimados depois de eu morrer. Mas como garanti-lo? O delete não chega, tanta a tralha que tenho por aí espalhada. Nem a garantia de que jamais farei parte de qualquer História da Literatura posso ter, embora seja o mais provável. Mas mesmo não fazendo parte, podem querer publicar-me. Meter no testamento: deixar apodrecer o que foi publicado, não reeditar, entregar às traças o mister da destruição e queimar todos os inéditos, todos os diários, queimar tudo, não deixar nada. 

ARMANDO SILVA CARVALHO (1938-2017)


Amigo comum apresentou-nos. Bebemos um café e trocámos breves palavras. Deve ter sido por 2011, pois recordo-me de lhe ter oferecido um exemplar de A Dança das Feridas. Voltei a vê-lo algumas vezes como cliente da livraria onde trabalho. Sabia que se encontrava bastante debilitado, na sequência de problemas de saúde. A qualquer momento se esperava a notícia que hoje chegou. Deixa-nos uma das mais relevantes obras poéticas do séc. XX, de que aqui deixei um exemplo. Em 2005, escrevi sobre um dos seus livros de poemas intitulado Sol a Sol: aqui. Em 2007, dei conta da leitura da obra reunida sob o título O Que Foi Passado a Limpo: aqui. Talvez um dia muitos leitores de poesia se dêem conta do que andam a perder. 

DOIS LIVROS DE PAULO DA COSTA DOMINGOS

Três anos separam a publicação de «voici la poésie ce matin et pour la prose il y a les journaux» (Outubro de 2014) e A Céu Aberto (Fevereiro de 2017). O primeiro surgiu no ano em que comemorámos 40 anos de regime dito democrático, tendo sido, por ironia, a publicação 074 da editora Averno. Paulo da Costa Domingos (n. 1953) começou a publicar ainda antes do 25 de Abril de 1974, praticando uma poesia atenta a vanguardas do séc. XX tais como o surrealismo e a poesia Beatnik. O tom contestatário foi sempre uma forte marca da sua poesia, pese embora o travestismo formal adoptado ao longo dos primeiros anos. Mais recentemente, uma revisão da obra inicial, com novas versões dos livros Gogh, Uma Orelha sem Mestre (1ª edição 1975, nova versão em 2004) e Asfalto (1ª edição 1977, nova versão em 2005), salientou um processo de inflexão no tipo de discurso escolhido para sublinhar o tal tom da sua poesia, por vezes confundido com as designações algo superficiais de poesia política ou, na pior das variantes, panfletária.
A paráfrase de José Afonso no pórtico de «voici la poésie ce matin et pour la prose il y a les journaux», substituindo a palavra “morte” pela palavra “capital”, não deixa dúvidas quanto à intenção de sujeitar o discurso poético a uma crítica do mundo que não se esgota na agitação de bandeirolas partidárias. Antes pelo contrário, o poeta distancia-se tanto quanto lhe é possível do contexto social de que é inevitavelmente parte integrante, sem que nele esteja submerso, para sobre ele lançar um olhar vigilante. Trata-se, pois, em ambos os livros, de uma poesia vigilante, atenta às contradições do seu tempo, às desilusões repercutidas pelos factos, onde mais do que apontar criminosos e vítimas se elencam os danos de um falso progresso: «Os animais domésticos chegam-se / à prometida sombra / para os diálogos imaginários / e o afago do pêlo. No seu mundo / de (eventual) violência / o fascismo do capital mantém-lhes / a ortografia intacta, inequívoca / a fonética» (p. 14, de voici lá poésie…). Os mesmos danos se exprimem, agudizados por uma linguagem menos figurada, num furioso poema de A Céu Aberto:

TIRA

Bofetões. É o que levais
desta vida. Falta de tempo
para fugir ao sofrimento.
Masturbações às escondidas,
tais e tantas e de tantas
formas aos patrões, que já nem
sabeis qual o vosso sexo.

E outras coisas que não ficam bem
ditas num poema para a risível
História da Literatura, é o que levais
enquanto uns poucos, os puros
habituais, só consomem recursos.

Por isso, ide e julgai esses,
olhai direito nos olhos
o vosso sustentável vampiro.

A nu.

Sendo indefinido o sujeito a quem se dirige o poema, podemos pressupor que entre o autor e quem o leia gera-se um diálogo cúmplice acerca do panorama social reconhecido por postulação. O que aqui está em causa é sobretudo uma afirmação da liberdade enquanto valor fundamental, contra tudo quanto a esse valor se oponha manipulando, impedindo, traindo o indivíduo (incluindo o próprio indivíduo quando, irracionalmente, absorvido pelo inútil, se permite ser escravo das aparências). Que mais nobre função podemos dar à poesia senão esta de se imiscuir no mundo para que mais clara se torne a vida? Assim sendo, no horizonte limitado da actualidade é fácil identificar nestes poemas os agentes corrosivos de um tempo que é o nosso, sejam eles «banqueiros e pederastas» ou o «capitalismo fractal». Mas na sua extensão de quatro conjuntos — Conflito, A Céu Aberto, Águas Sem Revolta, Estrela de 5 Pontas —, o mais recente destes dois livros excede as fronteiras do tempo em que se inscreve assumindo para a Arte o lugar de «mexer / na porcaria porque só porcaria há» (p. 91) e, desse modo, nos fazer descer à terra, «à terrena verdade» (p. 108).
A rua é o lugar por excelência destes poemas, apoiados num modo de olhar crítico que não se demite da beleza. Antes questiona com exemplar lucidez a sua possibilidade. Não por acaso, é precisamente num poema intitulado Mau Olhado que mais eloquentemente se declara esse emprego: «A branca vela do meu peito, / ao contrário do que dizem, chama / o rubro sopro vital da Beleza» (p. 53). Mas a beleza, neste contexto, distingue-se do belo, diria que se trata da face epicurista do belo, é um estado que não se herda, implica cuidados, mais que não seja o de afastar destemidamente tudo quanto ameaça expulsá-la das nossas vidas: «Expulsa do lugar onde reina / a ganância, o ruído e o ciúme / vai fermosa e não segura: a Beleza» (p. 63). A evocação camoniana não é acidental, na medida em que conseguimos adivinhar uma conexão entre esta beleza e a própria poesia. Ou seja, ao estar em causa a Beleza é a própria poesia que se coloca em causa. O aspecto formal cuidado destes poemas também o sugere, a despeito da linguagem obscena suscitada pela própria indecência dos palcos e respectivos actores convocados. Seja quando em sonho se declara o «Dia claro; não há que inventá-lo» (p. 33, de voici la poésie…), seja quando em entoação naturalista um breve instante de recolhimento resulta numa imagem melancólica dos dias:

CAIS DAS COLUNAS

Fui ali sentir uma aragem no rosto e
pedir a mim mesmo somente um pouco
de sossego, mas eu era um peão
do poema a rugir de encontro
à muralha dos ministérios.

E as mulheres que ali vinham
lutavam… ¡ó como lutavam elas!
por sapatos de salto e lingerie
para melhor saltarem no vazio
dos mistérios ocultos no rio.

(E não sendo assim, é cinza
que se acumula nas pestanas
de gente de barbatanas munida
para a travessia do denso
negrume das avenidas.)

Os meus olhos choraram sal
sobre a nefasta semente desse
trabalho assalariado, cansado,
com o rosto de encontro à pedra
como um miúdo no quarto escuro.