sábado, 9 de setembro de 2017

O RELÓGIO DA TORRE



Quando alguém nos é apresentado como sendo possuidor de determinados dons e qualidades, nós não podemos deixar de relacionar esses predicados com o reflexo  que eles terão na felicidade comum. E ocorre-nos se podemos realmente participar da boa sorte que essa pessoa sabe atrair com o uso dos seus talentos. Mas talento é uma coisa, e felicidade é outra. Felicidade é o círculo mágico dentro do qual nós desejamos encontrarmo-nos. O que nem sempre acontece. 
   Exemplo de uma pessoa feliz é o seguinte: um indivíduo acorda no meio da noite e vê o quarto ligeiramente iluminado. Não sabe se é madrugada ou se o candeeiro da rua projecta o clarão nos vidros da janela. Pergunta para si própria: «Que horas serão?» Nesse preciso momento, o relógio da torre bate duas, três ou seis badaladas. A pessoa fica imediatamente elucidada e dissipa-se o seu problema. Devo dizer que esta hipótese é muito rara.
   Outro caso é o de alguém que igualmente acorda fazendo ainda escuro, e pretende saber se a noite vai ou não adiantada. Então o relógio da torre bate uma badalada. A pessoa fica um bocado perplexa. Espera acordada meia hora; o relógio faz ouvir três, cinco ou seis badaladas. Aquela pessoa fica esclarecida. Esta é uma criatura medianamente feliz, pois não teve de esperar muito para que as suas dúvidas se dissipassem.
   No terceiro caso, acontece isto: a pessoa, que acordou sobressaltada e sem a noção do tempo, ouve uma badalada. Não sabe se é meia-noite e meia hora, se é uma hora, se é hora e meia da manhã. Espera, e ouve ainda uma badalada. Espera mais... e adormece. Eu ia dizer «e morre», mas não; adormece, e é tudo. Não chega a saber a quantas anda. Esta é uma pessoa sem sorte.
   Em qualquer dos casos, o que acontece nada tem que ver com as qualidades de cada um. Mas uma coisa é certa: todos nos encontramos no relógio da torre.

Agustina Bessa-Luís, in Caderno de Significados, Guimarães, Outubro de 2013, pp. 71-72.

JÁ É NOTÍCIA

Ainda pela mesma editora, vão sair Mike Tyson Para Principiantes, uma antologia poética de Rui Costa...

DEIXEM O CISNE EM PAZ


O Parque D. Carlos I, em Caldas da Rainha, é um símbolo da cidade. Escritores de boa safra dedicaram-lhe belas páginas, entre as quais as mais misteriosas saíram do lápis afiado de Luiz Pacheco. Nos tempos de Luiz Pacheco já havia um lago no Parque, com uma casa dos barcos a servir de apoio a passeios românticos. Não havia, porém, o famoso cisne preto. Ao cisne preto do lago têm sido imputados diversos crimes, entre os quais o mais frequente é o de atacar com inusitada violência aqueles que o incomodam. Invejo o cisne, sei de gente que faria o mesmo aos vizinhos. Não podemos acusá-lo é de irracionalidade ou de ser meramente instintivo, o cisne está cheio de razão. Um exemplo das suas razões fica bem ilustrado pela imagem ao alto. Algures entre o surf de Peniche e a onda gigante da Nazaré, houve quem por aqui se lembrasse de como interessante seria levar desportos radicais ao lago do Parque. Como que insatisfeitos com as condições oferecidas pela lagoa de Óbidos, os fãs de stand up paddle lembraram-se do lago no Parque para levarem a cabo uma demonstração. Onde dantes víamos barquinhos com namorados, tivemos agora a oportunidade de ver pranchas com jovens solitários (alguns de joelhos). Ora digam-me se o cisne preto não anda cheio de razão na sua revolta contra o mundo. 

VEM NA GAZETA


Contributo para o sensacional Portugal promovido no Malomil

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

DA CULTURA (ALGUNS TÓPICOS)

Ensinam-nos na escola que a cultura é o conjunto de valores materiais e imateriais que caracterizam uma sociedade, mas nada nos dizem sobre crise de valores.
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As crises não são necessariamente negativas, podem ser momentos de transformação. Os valores não são estátuas de mármore, nem ADN nem impressões digitais. Resultam de um complexo encontro das necessidades quotidianas com a tradição, dos ideais com a prática, da ciência com as artes.
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É um erro confundir cultura com produção artística ou com saber académico. Quando alguém diz “é uma pessoa muito culta” quer geralmente dizer que é uma pessoa com vastos conhecimentos, mas a cultura não resulta necessariamente de um conhecimento académico lato.
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Um homem solidário, tolerante, capaz de ouvir o outro e interessando pelo diferente é um homem culto. Um académico intolerante, arrivista, pedante ou assoberbado, é simplesmente burgesso.
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O intelectual não é necessariamente culto. O artesão não é necessariamente estúpido.
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Gramsci dizia que a cultura é disciplina do eu interior, domínio da personalidade. Como relacionar esta noção de cultura com toda uma sociedade?
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Que quer alguém dizer quando fala da cultura árabe? Ou da cultura americana? Ou da cultura chinesa? Que quer alguém dizer quando se refere à cultura portuguesa?
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Talvez se refira a meros estereótipos. Acontece que um dos princípios fundamentais do homem culto é combater os estereótipos. Enquanto preconceito, todo o estereótipo ou generalização é inimigo da cultura.
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Haverá uma cultura portuguesa?
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Encontramos a resposta a uma questão destas num complexo cruzamento de saberes que não está ao alcance de cada um. A educação talvez ajude a passar a mensagem.
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Agustina Bessa-Luís afirma, no Caderno de Significados, que «A cultura não se elabora, vive de toda uma filtragem moral e sentimental da sociedade que a produz. Não é obra de empresários nem de mecenas». Referia-se aos espectáculos. Mas acrescenta, e isto é o mais importante, «a cultura é feita por obras do pensamento». «A cultura não inspira deveres numerosos, mas um só dever: a consciência duma pessoal moral».
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A cultura tem pois que ver com a moral, logo com valores, logo com leis, logo com práticas, logo com a vida.
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A cultura provém da vida, enriquece-a e conserva-a. A cultura é, sobretudo, um esforço de conservação da vida.
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É por isso que consideramos obras de cultura as obras imorredoiras, as que perduram no tempo contra a efemeridade desenfreada do consumismo, as que os turistas querem visitar. Uma obra de cultura pode não ser eterna, porque de eterno conhecemos pouco mais do que o esquecimento. Mas perdura para lá do imaginável.
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É absolutamente catastrófico que se invista tão pouco na cultura. Os governos perdem mais tempo e gastam mais dinheiro com a indústria da morte do que com a conservação da vida. Ora secretaria de estado, ora ministério, a cultura esvai-se nestes tempos supérfluos em pouco mais do que entretenimento.
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Antes e hoje, pão e circo.
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Cada vez mais, constatamos o quão fundamental é investir na cultura, na propagação de valores que fundamentem e sustentem a vida, uma cultura de progresso moral, aberta à diferença, mas, sobretudo, empenhada no pensamento contra o imediatismo, esforçada na reflexão contra a vertigem noticiosa e opinativa, uma cultura que resgate para as pessoas o tempo, o ócio, a pausa, a capacidade até de parar, tão ameaçada que se encontra pela aceleração dos ritmos de vida, pelo ruído.
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Cultura do espírito crítico, cultura do "espera lá, mas isso é mesmo assim?", cultura da dúvida, do desassossego e da inquietação.
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Já sabemos quão nociva vai sendo esta incapacidade de parar para reflectir, tomada de assalto que foram as pessoas pela urgência tecnocrática. Não podemos prever, mas imaginamos, como será daqui a uns anos.
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Autómatos e insensíveis, os homens serão cada vez menos homens. Serão cada vez mais bestas formatadas. Ser besta é ser inculto, é não ter cultura.
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Trotski dizia que «A noção de cultura não deve ser trocada como moeda de uso individual e não se podem definir os progressos da cultura de uma classe segundo os passaportes proletários destes ou daqueles inventores ou poetas. A cultura é a soma orgânica de conhecimento e de experiência que caracteriza toda a sociedade ou, pelo menos, a sua classe dirigente. Abrange e penetra todos os domínios da criação humana e unifica-os num sistema. As realizações individuais erguem-se acima desse nível e elevam-no gradualmente».
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Espantoso o sentido que estas palavras continuam a fazer ainda hoje. Mas o que pensar e sentir quando constatamos a quase total ausência de cultura em tanta da chamada classe dirigente?
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Pão e circo, antes e hoje.
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Insensíveis aos problemas da cultura, os dirigentes jogam no tabuleiro da popularidade. Buscam adesão popular muito mais avidamente do que se preocupam com o incremento e a preservação de valores. Arrastados pela hegemonia do lúdico, respondem afirmativamente ao “império do efémero” acenando com o êxtase colectivo da festa.
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Um exemplo catastrófico desta realidade é o estado degradado do nosso vasto património imobiliário, ou a incúria reiterada com o património geográfico. Ruína e abandono resultam no filme de terror a que mais uma vez assistimos este ano com os diversos incêndios disseminados por todo o país.
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Ainda há quem pense que nada disto tem que ver com cultura, que é tudo fruto do crime e da doença e da especulação. Mas onde se desenvolvem melhor todos esses males senão em terrenos onde falta cultura?

SEM COMENTÁRIOS


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #17


   Quando Chico Buarque é acusado de machismo, o que aconteceu recentemente por causa de uma canção intitulada Tua Cantiga, questionamo-nos sobre os níveis de sanidade mental neste mundo em que vivemos. É exactamente o mesmo mundo em que hordas enfurecidas se indignam com blocos de actividades para meninos e para meninas, o que deve levar a repensar todo o comércio orientado para bebés azuis e bebés cor-de-rosa. Talvez um dia venhamos a ter que optar por cores neutras, em nome da inclusão e contra a discriminação de género. Isto apesar dos múltiplos exemplos de discriminação positiva que vão dando sinais optimistas na evolução de uma sociedade que se quer civilizada, como sejam a problemática introdução do sistema de prioridades nos espaços comerciais ou o respeito pelos lugares de estacionamento para deficientes. 
   Mas ainda que as diferenças entre mulheres e homens sejam evidentes, o que se reflecte, desde logo, no tamanho das carteiras, as deles à medida do bolso das calças, as delas à medida de misteriosas malas inundadas de utensílios por certo indispensáveis, estamos muito aquém de o admitir serena e civilizadamente. Confunde-se inclusão com padronização, o que é mau, e discriminação com segregação, o que é péssimo. Não há inclusão sem discriminação. A dita positiva. Que da negativa já basta o Facebook a censurar escultura clássica por causa de nus. 
   Artistas acusados de machismo não é de agora. Há muitas décadas, nos idos de 1972, um escritor de canções canadiano foi vítima de impropérios congéneres. Harvest foi o quarto álbum a solo de Neil Young, depois de aventuras com os Buffalo Springfield na década de 1960 e de uma pérola intitulada Déjà Vu (1970) com os camaradas Crosby, Stills & Nash. Lá chegaremos. Apesar de ter sido um imenso sucesso de vendas, Harvest dividiu a crítica. A beleza das melodias não convenceu alguns ouvintes mais duros, empenhados e censurar a melancolia e a indolência das letras, assim como a opção de Young por um estilo country apoiado em guitarras acústicas, piano, banjo, steel guitars
   Sucede que a melancolia tinha razão de ser: o estado de saúde do compositor. Podemos estar hoje agradecidos às hérnias discais que atormentaram Neil Young. Graças a elas, o homem ofereceu à posteridade duas mãos cheias de canções geniais. Uma, por sorte das mais belas, com um título que incendiaria hoje as redes sociais: A Man Needs a Maid. À época, como lembra Johnny Rogan na biografia sobre Neil Young, este foi alvo de ataques sérios que o acusavam de misoginia e até de chauvinismo. Vá-se lá perceber. Na verdade, a canção é sobre a insegurança de um artista, uma canção de sentimentos simples que «traçam uma linha muito ténue entre a consciência de si próprio e a auto-indulgência». Ou seja, é uma canção sobre um tipo que está todo lixado das costas e não quer meter-se em trabalhos com uma namorada nova. Prefere contratar uma empregada e viver descansadamente na sua solidão. Chamem-lhe machista.


O FIM DE UMA HISTÓRIA



No fim da terra. Vale a pena ver: aqui.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

INCLUSÃO



Aflito dos intestinos, entrei na casa de banho das senhoras. A dos senhores estava impedida para limpezas. Aliviado, fui lavar as mãos. Duas senhoras olhavam-me espantadas e com ar de indignação. Logo as acalmei, voltando-me para elas enquanto secava as mãos:

— É da linguagem inclusiva, tudo contra a discriminação de género.

O VENENO DE HOJE

O meu interesse pela obra de Antonio Gramsci (n. 1891 – m. 1937) data do final da década de 1990, quando nos números zero e zero um da revista Abril em Maio, publicados na viragem do século XX para o XXI, se divulgou um interessante ensaio do autor italiano intitulado Literatura Popular, no qual se podem ler as seguintes palavras: «Os intelectuais não vêm do povo, embora acidentalmente um ou outro seja de origem popular, não se sentem ligados a ele (à parte a retórica), não conhecem e não sentem em si as suas necessidades, as suas aspirações, os seus sentimentos difusos; são, relativamente ao povo, algo separado, sem alicerces, isto é, uma casta, e não uma articulação, com funções orgânicas, do próprio povo» (trad. Ana Campos). Esta e outras matérias associadas desta sempre me interessaram, nomeadamente pela necessidade de esclarecer uma aparente incompatibilidade entre raízes sociais populares e trabalho intelectual. O próprio Gramsci, que não era exactamente um homem do povo, rejeitava essa incompatibilidade.
Foi o quarto de sete filhos de um casal conturbado. Acusado de peculato, o pai de Gramsci acabou preso quando este ainda era jovem. A mãe, filha de pequenos proprietários, sabia ler e escrever, pelo que sempre investiu na educação de Antonio. Embora frágil de saúde, com uma malformação bastante limitadora, sofrendo de problemas físicos ao longo de toda a vida, Antonio Gramsci começou a trabalhar muito cedo para ajudar no sustento da família, revelando-se igualmente um aluno brilhante. Em 1911, partiu para Turim com uma bolsa de estudo. Leitor de Marx desde os tempos do liceu, interessou-se pelo socialismo e aproximou-se do universo operário. Problemas financeiros e de saúde dificultam-lhe os estudos, ao mesmo tempo que se dedica cada vez mais à intervenção política colaborando com textos para os jornais Il Grido del Popolo e Avanti!. Textos políticos, críticas e crónicas, granjearam-lhe reputação. Envolvido em projectos de educação e organização do proletariado de Turim, entusiasmou-se com as notícias que chegavam da Rússia sobre uma Revolução que havia destronado o Czar. Dois anos depois, fundava com alguns camaradas o jornal L’Ordine Nuovo, o qual viria a tornar-se o primeiro órgão oficial do Partido Comunista Italiano. 
Enviado à Rússia como representante do partido junto da III Internacional, Gramsci conheceu a sua futura mulher no sanatório Serebrjani Bor. Do casamento com a jovem violinista Julia Schucht resultaram dois filhos, o segundo dos quais Gramsci nunca chegou a ver. O advento do fascismo em Itália levou-o à prisão, apesar de ter sido eleito deputado da Câmara em 1924. A viver com os filhos na Rússia, Júlia deixou de enviar notícias. Crítico da ascensão de Estaline ao poder, mais próximo das teses de Trotsky, Gramsci acabou por sentir-se vítima da perseguição fascista e do abandono do Comité Central russo. Encarcerado, só dois anos depois de estar preso teve autorização para ler e para escrever. Deveras debilitado, permaneceu sem tratamentos. Apesar disso, consegui redigir dezenas de Cadernos onde fixou, tanto quanto lhe foi possível, as suas ideias. O optimismo da vontade pode ter vencido o pessimismo da inteligência, mas o autor de Lettere dal carcere acabaria por sucumbir dois dias depois de ter sido libertado a 25 de Abril de 1937.
Dos seus escritos há a destacar, antes de mais, um conceito bastante lato de intelectual: «Todos os homens são intelectuais, podemos afirmar; mas não é verdade que todos os homens desenvolvem na sociedade a função de intelectuais (assim como pode acontecer que qualquer pessoa cozinhe dois ovos ou faça um remendo num casaco, sem por isso ser considerado um cozinheiro ou um costureiro)». Com esta perspectiva, a “casta dos intelectuais” alarga-se e deixa de estar confinada a uma ou duas ou três actividades profissionais. «Todos os homens, resumindo, fora da sua profissão, exercem uma actividade intelectual qualquer, ou seja, eles são “filósofos”, artistas, homens de gosto, participam numa concepção do mundo, seguem conscientemente uma determinada linha moral e assim contribuem para sustentar ou para alterar uma concepção do mundo, ou seja, para suscitar novas formas de pensamento». Libertar o trabalhador rural e o proletário de um estigma, o da sua limitação ao esforço muscular e nervoso, é um princípio nobre, mas igualmente nobre seria dotar hoje, tanto quanto possível, o trabalhador intelectual de músculo e de nervo. 



Um dos grandes problemas na actualidade é o de uma certa carência nos intelectuais à pressão chamados ao exercício opinativo. Ouvimo-los a falar de florestas e fogos e logo nos ocorre que tão bem ficariam de forquilha e machado nas mãos a tratar materialmente do objecto que cuidam intelectualmente, ouvimo-los a debater condições laborais e logo os imaginamos de colete e barrete aos balcões do McDonald’s, ouvimo-los discutir acções de luta dos enfermeiros e desejamos vestir-lhes uma batina branca, colocá-los entre moribundos numa ala hospitalar, pedir-lhes que algaliem o enfermo. Há cem anos, talvez não fosse tão urgente este tipo de intervenção. Impunha-se conquistar para as classes de trabalhadores oprimidos e humilhados uma certa dignidade humana e social, reconhecer-lhes cultura, torná-los agentes da transformação cultural. Se havia propósito na Revolução, era o de que a cultura não fosse um privilégio. Talvez caiba agora à Revolução combater o pedantismo e o sectarismo, o filisteísmo e o fundamentalismo, já não apenas através do desenvolvimento do intelectual, mas de uma reaprendizagem motora que permita ao opinion maker, ao politólogo e afins assimilarem uma nova cultura «intimamente ligada a uma nova intuição da vida», até que se torne uma nova forma de sentir e de ver a realidade. 
A pós-verdade é, assim, um enorme desafio que temos pela frente, nomeadamente se quisermos dar sentido a um conceito de cultura mais profundo e exigente do que aquele que nos procuram vender: «A cultura é algo de muito diferente. É organização, disciplina do próprio eu interior, é domínio da própria personalidade, é conquista da consciência superior, através da qual se consegue compreender o próprio valor histórico, a própria função na vida, os direitos e os deveres». Ora, sem que se confunda com belas artes nem com pacotes de valores a granel, a cultura é disciplina, autodomínio, conquista da consciência. Sócrates já dizia mais ou menos isto, talvez tenha sido por isso que acabou envenenado. Massificado, o veneno de hoje é a completa ausência de uma consciência alicerçada na prática. Estilo, exibicionismo, teoria, garantem profissão e sucesso. O que de fundamental falta nisto é a cultura do outro, abertura à experiência e acção, vontade de aprender através da prática do conhecimento. Falar de "filosofia da praxis" é um tanto ou quanto limitado. Carecemos mais de uma praxis da filosofia, tão arredada que ela anda dos nossos dias, no seu original amor ao saber e no desenvolvimento do espírito crítico. 



Nota: parte deste texto surgiu em alta voz, enquanto lia pelas praias da Costa Vicentina o livro A Cultura, os Subalternos, a Educação, de Antonio Gramsci, colectânea de textos diversos introduzidos e traduzidos por Rita Ciotta Neves, Edições Colibri, 2.ª edição, Junho de 2017. A imagem ao meio pode não parecer, mas tem tudo que ver com isto.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

AUTOEUROPA E AFINS

Há pessoas que não sabem discutir nenhum assunto sem recorrer a exemplos particulares e subjectivos, nomeadamente retirados das suas experiências pessoais.
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O que levará alguém a pensar que a sua miserável vida pessoal pode servir de exemplo universal?
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A ser exemplo para alguma coisa, a minha vida pessoal pode apenas servir para averiguar da conformidade entre acção e teoria, ou seja, pode servir para alguém me chamar hipócrita ou reconhecer-me coerência.
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Certos indivíduos tendem a julgar que a sua vida é sempre mais difícil do que a vida dos outros, como se viver não fosse em si mesmo um desafio diário cujas dificuldades provêm tanto da sorte como das opções que tomamos ao longo da vida.
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No mundo do trabalho, uma tendência que me irrita é a daquela gente que se coloca sempre no lugar do mártir: eu trabalho mais do que os outros, o meu trabalho é mais difícil do que o dos outros, tudo na minha vida é mais complicado do que na tua.
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Isto leva a que, por exemplo, por mais diversas e legítimas que sejam as reivindicações de uma classe profissional, haverá sempre uma horda de calimeros a choramingar desgraças pessoais: aqueles tipos não querem é trabalhar, se tivessem de trabalhar o que eu trabalho.
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Isto é, se tivessem a minha vida. Mas não têm, e isso não é mau. Se tivessem, seriam muito infelizes.
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A mais nefasta das consequências neste tipo de situações é alguém julgar que os direitos dos outros apenas são ponderáveis em função dos seus, gerando assim um muro de egoísmo social que obstrui o princípio da solidariedade.
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Ser solidário com o outro é desejar-lhe uma boa vida, não é desejar-lhe a merda da vida que se tem.
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Eu adoraria que todas as pessoas no mundo fossem mais ricas, felizes e inteligentes do que eu, pois isso deixar-me-ia feliz. A felicidade dos outros alegra-me, não me entristece.
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O princípio da equidade nestas matérias é algo pateta. Cada profissão tem as suas particularidades.
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O pior dos trabalhos que tive, o mais cansativo e insuportável, foi aquele que menos horas me ocupava e um dos que eram mais bem remunerados. Mas este exemplo pessoal não interessa para nada.
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Interessa perceber se são legítimas ou não as reivindicações de quem trabalha. Exigir condições de trabalho é, regra geral, um bom princípio. Exigir condições de vida, associadas ao mundo do trabalho, é sempre um bom princípio.
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Como conciliar o direito à felicidade do cidadão com os deveres do trabalho?
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Há quem critique o grevista por ele lutar, como se o simples facto de ele lutar fosse um insulto a quem se vê, pelas mais diversas contingências, incapaz de ter a mesma atitude.
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Acho piada aos ex-patrões que passam a pensar como empregados, acho patéticos os ex-empregados que passam a pensar como patrões.
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Em suma: não está mal reivindicar folgas ao fim-de-semana. O que está mal é pensar que essa reivindicação não é legítima porque eu tenho de trabalhar ao fim-de-semana.
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De resto, o mundo devia parar aos fins-de-semana. As pessoas deviam ser proibidas de morrer aos fins-de-semana. Numa sociedade ideal, aos fins-de-semana os parques ficariam cheios de famílias e namorados, as ruas seriam como que o sistema nervoso central do amor.
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Os teóricos do capitalismo que nos domina não são parvos, fazem tudo para privar os cidadãos das suas principais armas. Retiram-lhes inteligência crítica, tronando-os autómatos. Sabem que a solidariedade advém da inteligência e que o automatismo só gera mais egoísmo.
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Os teóricos do capitalismo não são parvos nem trabalham aos fins-de-semana.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

UM POEMA DE RICARDO TIAGO MOURA

assim éramos pouco
e somos bastantes
de tectos e vãos
se abriga um chão:
em primeiro lugar
o lugar o suporte
sem terra não há como
ganhar fundação             / em vidro temperado
crescer filhos fortes        / meu sonho perdido
assim vamos sendo         / canto no banho
empreendimento             / choro algas
pilares bem assentes       / e óperas
na terra dos outros          / ser filho dos pais
acinzenta-se o mundo     / empresa fatal:
irmãos com irmãos         / não me comovo
cunhados muitos             / com coberturas
dinheiros seguros            / manobras de cálculo
revestem-se muros          / movimento de gruas
cinzelados a frio              / minhas mãos de pedra
andaimes varandas          / acinzentam o mundo
divisórias de abrir           / assenta-se o lar
campainhas alarmes        / em vidro temperado
só lhe falta falar:             / para sempre mudo
e tudo constrói                / (cinzento-calado)
unidade no lar                 / não posso cantar /


Ricardo Tiago Moura (n. 1978), in pequena indústria, Tea For One, Janeiro de 2016, p. 19.

COSMISMO

   Não é de todo por acaso que a poesia dos pequenos círculos, nos seus esforços para vencer a sua solidão, mergulha no romantismo insípido do «cosmismo». A ideia é um pouco esta: é preciso sentir o mundo como unidade e nós próprios como uma parte activa dessa unidade, com a perspectiva, mais tarde, de dirigir não apenas a terra, mas todo o cosmos. Tudo isso, bem entendido, é realmente soberbo e terrivelmente edificante. Éramos simples habitantes de Koursk ou de Kalouga, conquistamos toda a Rússia e caminhamos agora para a revolução mundial. Deveremos contentar-nos com tais «limites planetários»? Coloquemos imediatamente o círculo proletário sobre o cume do universo. Que existe aí de mais simples? Sabemos fazê-lo e não receamos ninguém!
   O cosmismo parece, ou pode parecer, extremamente audacioso, forte, revolucionário, proletário. De facto, encontra-se no cosmismo os elementos que confinam com a deserção: escapa-se aos difíceis problemas terrenos — e que são particularmente graves nas esferas interestelares. Por isso, o cosmismo revela um parentesco de certo modo inesperado com o misticismo. Com efeito, querer introduzir na sua concepção artística do Mundo o reino das estrelas, e não apenas d eum modo contemplativo, mas de uma forma activa, isso é uma tarefa demasiado pesada, independentemente até dos conhecimentos que se possam ter de astronomia — e, em todo o caso, revela também uma urgência que se não impõe... E compreende-se finalmente que se os poetas se tornam «cosmistas», isso não é porque a população da Via Láctea bate insistentemente à sua porta e exige deles uma resposta, mas porque os problemas terrenos os incitam a tentar salvar o Mundo. No entanto, não basta intitular-se «cosmista» para compreender as estrelas no céu. Tanto mais que o universo é composto muito mais pelo vazio estelar do que pelas estrelas. Esta tendência duvidosa que têm para preencher as lacunas da sua concepção do Mundo e da sua visão artística pela matéria subtil dos espaços interestelares corre o risco de conduzir alguns dos «cosmistas» para a mais subtil das matérias, o Espírito Santo, no qual repousam já tranquilamente muitos poetas defuntos.

Léon Trotski, in Literatura e Revolução, trad. Serafim Ferreira, Editorial Fronteira, Dezembro de 1976, pp. 93-94.

#101


   Não é fácil dizer mal de Neil Young, pelo que estas teclas dispensar-se-ão de tal esforço. Reconheço os meus limites. Peace Trail (2016) reúne dez canções escritas e gravadas, tanto quanto se sabe, ao primeiro take. Ao primeiro ou ao segundo, tanto faz. A espontaneidade é evidente, tal o desarranjo. Gosto destes heróis que se dão ao luxo de navegar contra a maré. Neil Young pode fazê-lo, é claro. Já nada tem a provar. Mas numa época em que se ouve música por todo o lado, e tanta dela tão arrumadinha, tão plástica, tão estilizada, tão pastilhona, sermos brindados pela autenticidade de um escritor de canções na casa dos setenta é privilégio a que não se pode ficar indiferente. 
   Alternando descargas eléctricas catárticas com a calmaria de uma viola acústica, Young faz-se acompanhar de uma secção rítmica em registo de ensaio. As letras reflectem impressões políticas acerca da actualidade, dos direitos das comunidades indígenas ao sobreaquecimento global, da pós-verdade ao terrorismo, resvalando por vezes para considerações mais intimistas e autobiográficas. Inestético, mas pertinente enquanto registo de uma contemporaneidade também ela inestética, Peace Trail percorre a actualidade num tom crítico que denota a urgência de alguém que quer gritar ao mundo sabendo, de antemão, quão limitado é o alcance das suas palavras.


(…)
And everywhere I look I see people alone

Alone with their heads looking in their hands
Lost in the conversation stare
Walking with their eyes looking at the screen
Talking like they were really there

I’m lost in this new generation
Left me behind it seems
Listening to the shadow of Jimmy Hendrix
Purple Haze sounding like TV

(…)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

TATUAGEM PESSOAL

A Revolução raspou e lavou a tatuagem pessoal, deixando a descoberto tudo o que aí havia de tradicional e de tribal, tudo o que tinha sido recebido com o leite materno e não foi dissolvido pela razão crítica por causa da sua fraqueza e da sua cobardia. Em poesia, Jesus nunca está ausente. E, na idade da indústria têxtil mecanizada, o manto da Virgem é o tecido poético mais popular.
   Pôs-se de lado a maioria dessas recolhas poéticas, sobretudo as das mulheres. Aqui, realmente, não se pode dar um passo sem a ajuda de Deus. O mundo lírico de Akhmatova, de Zvetaeva, de Radlova e outras poetisas, autênticas ou pretensiosas, é extremamente reduzido. Embaraça a própria poetisa, há um desconhecido de chapéu ou alguns portadores de espinhos e, inevitavelmente, Deus, que não tem qualquer característica especial. Deus é uma terceira pessoa, muito cómoda e muito transportável, para uso doméstico, um amigo da família, que preenche de vez em quando os deveres de um ginecologista. Como é que este indivíduo, muito mais jovem e encarregado de tarefas pessoais, muitas vezes aborrecidas, por parte de Akhmatova, de Zvetaeva e das outras, pode, nos seus momentos de ócio, dirigir os destinos do universo, isso é simplesmente incompreensível. Para Chkapskaia, tão orgânica, tão biológica, tão ginecológica (o talento de Chkapskaia é real), Deus possui alguma coisa de um intermediário ou parteira, isto é, tem todos os atributos de uma má-língua toda-poderosa. Se uma nota subjectiva pode ser aqui autorizada ou consentida, diríamos de boa vontade que esse Deus feminino, de largas ancas, não se mostra muito impotente, mas é muito mais simpático que o pintainho chocado pela filosofia mística lá das estrelas.
   Como não chegar, finalmente, à conclusão que a cabeça normal de um filisteu educado é um caixote onde a História lança de passagem os restos e os detritos das suas diversas realizações? Vemos aí o Apocalipse, Voltaire e Darwin, o Livro dos Salmos, a filologia comparativa, a tábua de multiplicação e o círio. Uma mistura vergonhosa que faz lamentar a ignorância do homem das cavernas. O homem, «o rei da Nazaré», que deseja infalivelmente «servir», remove a cauda ao ouvir a voz da sua «alma imortal»! Examinada melhor, a pretensa alma revela-se como um «órgão» muito menos perfeito e menos harmonioso que o estômago ou um rim: «a imortal» possui inúmeros apêndices rudimentares e bolsas cheias de toda a espécie de humores gangrenosos, causa contínua de pruridos e de úlceras espirituais. Por vezes, é verdade, estes pruridos libertam-se em rimas, que são então apresentadas como poesia individualista e mística, agora impressa em «plaquettes».

Léon Trotski, in Literatura e Revolução, trad. Serafim Ferreira, Editorial Fronteira, Dezembro de 1976, pp. 44-45.

EPIFANIAS #28

28

As ondas resplandecem sob a noite sem luar. O navio entra num porto onde estão algumas luzes. O mar está inquieto, carregado de uma raiva fastidiosa como os olhos de um animal prestes a nascer, presa da sua própria fome impiedosa. A terra é plana e ligeiramente arborizada. Muitas pessoas estão reunidas na costa para verem qual é o navio que entra no seu porto.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

PARA O MENINO E PARA A MENINA

   Há dias, assisti boquiaberto à indignação de uma senhora, cujo nome não recordo, cujas funções desconheço, relativa a dois blocos de actividades à venda no mercado. Não sabia que a polémica havia nascido algures no ninho da estupidez, ou seja, nas redes sociais, pelo que fiquei curioso e fui verificar com os meus próprios olhos os objectos de queixa. Achei piada aos blocos e acabei por destacá-los em livraria. Não duraram meia hora. Venderam-se. A polémica, concluí, como geralmente acontece com todas as polémicas em torno de livros, sejam elas sobre direitos à privacidade, opiniões sobre o Alentejo ou estereótipos de género, teve o mesmo resultado de sempre: aguçar a curiosidade que leva à compra. 
   Entretanto, um humorista português desmontou a polémica fazendo umas graçolas com o estranho caso dos blocos de actividades. Afinal, não havia razão alguma para tanto alarde. Não passava tudo de uma tempestade em copo de água. Refira-se, a título de curiosidade, que os blocos da Porto Editora não são caso único. A Editorial Presença tem há muito o Livro de Atividades para Meninos e o Livro de Atividades para Meninas, assim como um livro com 2001 Autocolantes Para Meninos e 2001 Autocolantes Para Meninas. Há ainda os livros de actividades com piratas e os livros de actividades com princesas. Podíamos acrescentar a isto os livros de Histórias para Rapazes e Histórias para Raparigas, ou, como propões a Editora Educação Nacional, O Meu Livro de Contos Para Meninas e O Meu Livro de Contos Para Meninos. O delas tem uma fada com um coelho na capa, o deles tem um bombeiro com um cão. Na mesma editora encontramos, ainda, O Meu Livro de Histórias de Aventuras (para eles) e O Meu Livro de Histórias Mágicas (para elas). Portanto, os rapazes que aprendam com aventuras, as raparigas que cresçam com magia. 
   Desde que me conheço a trabalhar numa livraria que sempre vi disto, a novidade está nestas novas crises histéricas colectivas e na excitação das massas. A estupefacção de que falava a notícia do Público deixa-nos, ela mesma, estupefactos. Ou as pessoas têm andado a dormir, ou interessaram-se subitamente por estes temas, ou a estupidificação geral atingiu valores inimagináveis. Tendo para a última das hipóteses. O que há de inimaginável nos níveis de estupidificação é a atitude de quem deveríamos esperar ponderação e sensatez, para não exigir alguma inteligência. 
   A recomendação da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género não é apenas abstrusa, releva de um perigo em que estamos atolados e que tem as suas causas como terá as suas consequências. As causas são o desinvestimento, neste nosso novo mundo, na formação de massa crítica. Uma sociedade de tecnocratas dá nisto, as pessoas deixam de parar para pensar e respondem cada vez mais automaticamente aos estímulos. O conhecimento, a investigação, a ponderação, ficam para os burros, para os marginais, para os incompetentes, levam à hesitação e à dúvida, defeitos das máquinas produtivas que pretendemos para este novo mundo. Precisamos de autómatos formatados para o sucesso, dispensamos humanos preparados para a dúvida. As consequências a esperar deste novo paradigma são por de mais previsíveis, facilidades na manipulação da opinião pública, controlo das massas, o reino do logro e da mentira metamorfoseado na sua versão de pós-verdade. 
   Ninguém esperaria que na Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género houvesse alguém com o sentido de humor do Ricardo Araújo Pereira, mas esperar-se-ia um mínimo de sentido de estado. Arrastados pelo domínio da popularidade, os senhores da Comissão recomendaram a recolha dos Blocos. Não é algo de inédito na democracia portuguesa, mas é deveras preocupante. Mais preocupante por ter esta recomendação nascido como nasceu, impelida por uma tendência opinativa sem qualquer fundamento, apoiada apenas numa polémica de redes sociais. Estes sinais são preocupantes e obrigam-nos a uma atenção redobrada, pois, como afirma Paul Tabori «A estupidez dói, de facto; simplesmente, é raro que incomode o estúpido».

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

REGRESSO ÀS AULAS

Para meninos e para meninas, independentemente dos estereótipos de género e da identidade sexual:

«(...) ninguém ainda pensou obrigar gente estúpida a aprender a ser sensata ou tentou incutir-lhe uma pequena porção de inteligência. Esbanjamos milhões em bombas atómicas, mas os professores de todo o mundo são ainda os trabalhadores intelectuais mais mal pagos. / A estupidez dói, de facto; simplesmente, é raro que incomode o estúpido».

Paul Tabori, in História Natural da Estupidez, trad. Fernando de Morais, Book Builders, Março de 2017, p. 34.

domingo, 27 de agosto de 2017

GUN THE MAN DOWN (1956)

Referi-me anteriormente a dois filmes de Andrew V. McLaglen (n. 1920 – m. 2014), ambos da década de 1960, ambos com o lendário James Stewart como protagonista. O drama familiar Shenandoah (1965) e a comédia romântica The Rare Breed (1966) são, cada qual pelas suas razões, dois westerns a destacar numa filmografia maioritariamente dedicada a esse género. Mas McLaglen estreou-se ainda na década de 1950. Gun the Man Down (1956) foi o segundo filme que assinou enquanto realizador, o primeiro western depois de um estágio dignificante como assistente do mestre dos mestres John Ford. Para o efeito, requisitou um leque de actores que ou viriam a tornar-se emblemáticos ou já o eram por circunstâncias diversas. 
A actriz Angie Dickinson, aqui no seu primeiro papel relevante para cinema, viria a estrelar em Rio Bravo (1959), de Howard Hawks (n. 1896 – m. 1977), ao lado de John Wayne e de Dean Martin. James Arness, o herói de Gun the Man Down, ganhou fama neste filme como personagem do Velho Oeste, vindo a conquistar o importante papel de Marshal Matt Dillon em mais de 600 episódios da famosa série Gunsmoke. O actor Emile Meyer, no papel de sheriff, já tinha conquistado um lugar na história do western com participações em Man with the Gun/Sozinho Contra a Cidade (1955), Drums Across the River/Tambores ao Longe (1954) e no incontornável Shane (1953). Robert J. Wilke, o mau da fita, tinha integrado o elenco de High Noon/O Comboio Apitou Três Vezes (1952) e Harry Carey Jr. era à época um experiente actor com papéis em westerns eternos tais como The Searchers/A Desaparecida (1956), Rio Grande (1950) e Wagon Master/ACaravana Perdida (1950), todos com a assinatura de John Ford.


A primeira cena de Gun The Man Down, ainda anterior aos créditos de abertura, coloca em cena três homens e uma mulher. Eles alinham a táctica para o assalto a um banco enquanto ela os observa. No final da sequência, ficam dentro de casa apenas um dos homens e a mulher. Ele é James Arness, ela é Angie Dickinson. Estão apaixonados, abraçam-se e prometem-se um futuro melhor. O assalto será como que o financiamento possível para uma vida respeitável. Sucede que no decorrer do assalto, que não nos é dado ver (para quê?), ele regressa ferido. E ela acaba por abandoná-lo moribundo, fugindo com os outros dois elementos do grupo. Assim começa uma clássica história de traição, previsivelmente transformada numa tradicional história de vingança. O moribundo é capturado e condenado a um ano de prisão, sem denunciar os seus comparsas na determinação de que será ele a vingar-se no futuro. Assim seja. Paralelamente a essa narrativa algo previsível, de um moralismo típico que faz equivaler a traição à cobardia, temos a figura carismática do Sheriff Morton, interpretado por Emile Meyer, e do Deputy Lee, desempenhado por Harry Carey, Jr. 



Estes dois experientes actores acabam por ser a mais interessante parelha de um western iniciático. A voz da consciência é acompanhada nessa dupla pela experiência, nomeadamente a do Sheriff Morton. Ele distancia-se dos acontecimentos colocando-se no lugar de observador. Não interfere senão por mensagens subtis que demarcam o campo de acção, os limites da paciência e da tolerância. Deixa os acontecimentos correrem, mas com ponderação. Dá-nos a segurança de que domina as circunstâncias por antever nos actos as consequências. No duelo final, senta-se à sombra de uns arbustos a fumar um cigarro. A impaciência do assistente contrasta com a sua serenidade. E esta serenidade é exactamente o oposto da cobardia dos traidores, os quais se mostram precipitados e, por isso mesmo, a cada passo que dão mais se aproximam de um precipício fatal. O Sheriff Morton é um figurão discreto, nada tem que ver com o mito do sheriff implacável e intolerante, de uma coragem hiperbólica ou cativo da corrupção local. É um homem tão isolado nos seus métodos como o jovem Rem Anderson nos seus propósitos. Rem Anderson, a personagem de James Arness, é o moribundo renascido das cinzas com a intenção de se vingar. A intenção será satisfeita, mas desta feita sem trair a lei. Nele, a vingança será em legítima defesa. O Sheriff Morton compreende-o desde o início, sem juízos precipitados nem condenações irreflectidas. A distância e a observação oferecem-lhe essa capacidade. Ver no escuro não é função para qualquer animal. 

sábado, 26 de agosto de 2017

PALHAÇOS RICOS


Só gosto de boxe nos filmes, pelo que é impossível ficar indiferente à comédia instalada em torno do dito combate do século: Floyd Mayweather vs Conor McGregor. O primeiro é um campeão, o segundo é um histrião. Daí que seja ainda mais relevante responder à dúvida do século sobre o combate do século: estaria ou não Conor McGregor com uma erecção no momento da pesagem? A resposta a esta e a outras dúvidas como esta não serão facilmente encontradas nos jornais desportivos portugueses, mas no sítio do Record talvez possamos vislumbrar uma hipótese viável percorrendo a galeria das ring girls a serviço durante o tal combate. Digamos que um livro como a História Natural da Estupidez pecará sempre por defeito. Não há limites para a parvoeira humana.