sexta-feira, 14 de julho de 2017

SHOWDOWN (1973)


   O último filme de um genuíno produto de Hollywood. George Seaton (n. 1911 – m. 1979) fez carreira nos musicais e nas comédias românticas, antes de ter escrito para os Irmãos Marx, arrecadou dois Oscars como melhor argumentista por The Country Girl (1954) e Miracle on 34th Street (1947), estreou-se na Broadway em 1944 sem grande sucesso. Há quem considere sobrevalorizado o seu legado, há quem se oponha considerando as preocupações com o público e os sucessos de bilheteira. Airport (1970) é ainda hoje um dos mais lucrativos filmes de sempre. A carreira como realizador terminou com Showdown/O Duelo (1973), obra menor para actores maiores. Rock Hudson e Dean Martin são as estrelas da companhia, mas nem o primeiro tem nada que ver com o Jordan ‘Bick’ Benedict Jr. de Giant (1956), nem o segundo presta a mínima homenagem ao Dude de Rio Bravo (1959). A relação de George Seaton com o western não era ingénua à época. Foi co-produtor do excelente The Tin Star/Sangue no Deserto (1957), de Anthony Mann. Numa fase muito incipiente da carreira emprestou voz a The Lone Ranger num programa radiofónico, reclamando para si a criação do famoso grito de guerra "Hi-yo, Silver!" No entanto, Showdown acaba por ser uma despedida das salas de cinema demasiado sentimental e algo frouxa.
   Martin e Hudson são velhos amigos de infância, separados em idade adulta pelo amor a uma mesma mulher. A separação faz-se sem rancor nem feridas, como num divórcio amigável. Martin, no papel de Billy Massey, é o mais rebelde dos dois. É ele quem deixa para trás a quinta construída com o amigo Chuck Jarvis e se põe a caminho do México. O filme começa com Massey envergando a estrela de xerife enquanto transporta um prisioneiro numa viagem de comboio. Entulho amontoado na linha obriga a uma paragem, dando-se então um assalto. Não há resistência, tudo acontece com uma tranquilidade estranha aos westerns desde The Great Train Robbery (1903). Subitamente apercebemo-nos de que Massey não é xerife, está disfarçado para um baile de Carnaval improvável. Os passageiros colocam todos os bens e armas na sua mão, ele agradece com mordomia e põe-se na alheta. O tom de comédia ligeira, caro a George Seaton, percorrerá praticamente todo o filme, em diálogos repletos de gags inofensivos e de situações cómicas anódinas. Puro entretenimento.
   O que Billy Massey não sabe é que neste regresso às terras de onde partiu terá de confrontar o seu velho amigo Chuck. A ironia está em que este foi realmente nomeado xerife na cidade que viu ambos crescerem juntos. Durante a perseguição, os dois divertem-se num jogo de gato e de rato sem consequências dramáticas para nenhum dos lados. As artimanhas de um não ludibriam o outro, são crianças crescidas perdidas em brincadeiras de adultos, atravessadas por memórias que nos surgem em sucessivos flashbacks. Este jogo das escondidas só ganha algum interesse na sequência final, aquela que garantirá a Showdown um lugar na memória do público. No decorrer de uma trovoada seca, uma árvore é atingida por um relâmpago gerando um incêndio na floresta. Massey segue na direcção do incêndio, numa derradeira tentativa de despistar Chuck. O cavalo amedronta-se e foge, Massey fica apeado no meio do fogo. Já debaixo de chuva, no meio de um cenário de cinzas e de madeira queimada, Chuck avista o corpo carbonizado do cavalo de Billy. No seu rosto percebemos que teme o pior. Mas Massey conseguiu proteger-se, sobreviveu para o duelo final. Não será propriamente um duelo, já que os dois acabarão juntos, a protegerem-se um ao outro contra os pistoleiros com quem Massey havia colaborado no assalto ao comboio. Esta reviravolta não é ocasional e o desfecho será o único momento verdadeiramente trágico neste western mais dado ao cómico.

   Assim como George Seaton se despediu do cinema com este filme, Dean Martin despediu-se dos westerns. Também estes factos laterais oferecem a Showdown um certo interesse. O resto é, como se diz no trailer, a game of hide and seek. O que não se diz é que por detrás deste jogo está uma máquina de entretenimento, de puro entretenimento, desinteressada dos elementos dramáticos que apelam à reflexão e das grandes narrativas trágicas que obrigam o pensamento a exercícios limite de dúvida acerca de uma axiologia que desde tempos remotos deu forma à humanidade e desde que há cinema o western interroga. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #14



   A humildade obriga-me a confessá-lo: sou consumidor envergonhado de música dita erudita, nomeadamente no que concerne a tudo o que tenha que ver com Ópera e afins. Mas se me comovi como nunca com Tom Hanks a explicar La mamma morta a Denzel Washington no filme Philadelphia, e se em miúdo metia a tocar com frequência o Bolero de Ravel, e se Old Spice foi o primeiro after shave que usei por causa de um anúncio ao som de Carmina Burana, então talvez exista em mim um apelo inexplorado.
   A mais famosa cantata do alemão Carl Orff (1895-1982) é um caso sério de popularidade. Composta em 1936, foi pela primeira vez apresentada em Frankfurt, a 8 de Junho de 1937, no auge do regime nazi. O sucesso imediato levou a que sobre Orff pesasse para o resto dos seus dias o anátema de ter colaborado com os apaniguados de Hitler, embora o próprio tenha desmentido tais simpatias quando mais tarde se defendeu ao declarar amizade profunda pelo resistente Kurt Huber e pelo judeu refugiado Erich Katz. Não admira, porém, que os discentes de Goebbels tivessem admirado o tom triunfalista de Fortuna Imperatrix Mundi.
   Carmina Burana faz parte de uma trilogia intitulada Trionfi, onde se incluem Catulli Carmina e Il Trionfo di Afrodite.  Orff seleccionou 24 textos de uma colecção de cerca de 200 manuscritos guardados no mosteiro de Benediktbeuern, no sul da Baviera, datados do século XIII e sobre os quais recai certo mistério. A base da selecção foi a recolha organizada, no ano de 1847, pelo famoso filólogo Johann Andreas Schmeller. A tradução manifesta o lado heterodoxo dos textos, nos quais detectamos uma celebração da vida mais pela sensualidade do que pela espiritualidade. In Taberna Quando Sumus é um belo exemplo dessa heterodoxia.
   Na interpretação conduzida pelo austríaco Franz Welser-Möst, com a soprano Barbara Hendricks a brilhar, ressalta a simplicidade de uma música apoiada nas linhas de percussão que mantêm o ritmo e relegam para segundo plano as questões melódicas. O fascínio de Carl Orff pelas canções do folclore bávaro, pela ópera italiana, pela música coral, assim como preocupações pedagógicas inerentes à sua actividade com crianças, permitiram-lhe alcançar uma capacidade de comunicação capaz de cativar até um néscio como eu:




POEMAS QUOTIDIANOS

Numerados de 1 a 100, os Poemas Quotidianos de António Reis (n. 1927 – m. 1991) foram escritos entre 1952 e 1962. É um período marcante na história da poesia portuguesa, nomeadamente por nele encontrarmos os ecos do chamado presencismo, ou da segunda vaga do modernismo, afrouxando face à imposição do neo-realismo e subsequentes respostas vanguardistas dos movimentos surrealista e experimental. Reis não foi poeta de um só livro, mas acabou por submeter parte da obra ao olvido em prol de um conjunto de versos que quis serem os seus. Assim sendo, os Poemas Quotidianos são o livro de António Reis. Seria pouco dizer que em boa hora as Edições Tinta-da-china o recuperaram, pois é da mais elementar justiça que o tenham feito. As palavras de Manuel António Pina na cinta que acompanha esta edição são clarificadoras da influência que estes poemas terão exercido, ainda que essa influência não seja declarada ou assumida como facilmente seria tivesse este pequeno grande livro o reconhecimento que merece. Acompanhados de um prefácio de Fernando J.B. Martinho e de um posfácio do realizador Joaquim Sapinho, ex-aluno de António Reis na Escola de Cinema do Conservatório, estes versos poderão agora chegar a um público que por certo se espantará com a mestria do seu autor.
   O primeiro sublinhado vai para o estado de depuração alcançado em cada poema, numa redução do máximo ao mínimo, muito à maneira do que encontramos em Carlos de Oliveira, com quem António Reis mantém relações de proximidade a um certo neo-realismo, não o da cartilha politicamente engajada, mas o de um humanismo proveniente das vivências subjectivas observadas ao lado de quem sofre e não do alto de uma torre de vigia. Nessa depuração, que por vezes também lembra a forma concisa do poema japonês, António Reis conquista para cada palavra o vigor do essencial. Daí que na sua poesia palavras como solidão, saudade, amor, piedade, desespero, não indiciem apenas estados de alma passageiros, mas encontrem uma expressão que as eleva à condição de matriz num tempo que supera as fronteiras do concreto, do tempo histórico, do tempo epocal e sociológico.
   Nestes poemas, essas palavras-chave penetram uma dimensão universal que lhes torna possível chegarem-nos hoje com o mesmo fulgor que tinham à partida, pois apesar de sabermos da “feira cabisbaixa” (O’Neill) em que surgiram, envoltas num manto de tédio, de tristeza e de pobreza, é do mesmo tipo a tristeza e o tédio quotidianos que a liberdade democrática destes nossos dias imprime no coração daqueles que não se conformam com uma vida reduzida à arte de produzir para satisfazer os apetites de consumo. Independentemente da realidade social, o realismo aqui em causa é das emoções que configuram o humano a partir do seu ramerrão doméstico e comezinho. Ou, como afirma Martinho no prefácio: «A conformada resignação dominante é, uma vez por outra, interrompida, e então surge a indignação, a acusação» (p. 13), denotando um olhar inconformado com a situação em que se encontra.
   Os Poemas Quotidianos não só captam o ar dos tempos, olhando pela janela as ruas da cidade, como são eles mesmos parte integrante desse estado de sobrevivência: «Poemas quotidianos // como o sol / como a noite // como a vontade de comer / e o sono // como as preocupações / e o amor // e porque saio à rua / e trabalho / diàriamente» (p. 27). A Clara a que se dirigem já não é apenas a musa inspiradora do nefelibata, é uma cúmplice da melancolia por detrás dos olhos do rapaz que observa os barcos, cúmplice dos domingos de espera, da nostalgia, da saudade. É também um resquício de beleza que mantém o ar respirável, um resquício de beleza ante a ira dos impotentes, dos cobardes, dos traidores, um resquício de beleza que nos envia para o lugar mais íntimo do amor: «Sei que choras / muitas vezes / sòzinha // e que lavas / o rosto // (ah onde / ando eu) // para a tua dor / não ser minha» (p. 84).
   Não nos inibamos de sublinhar o acontecimento editorial que é a recuperação desta obra de um poeta que também foi cineasta, de um cineasta que nunca deixou de ser poeta, apesar de, parafraseando Joaquim Sapinho, o seu cinema não continuar a sua poesia. «É outra forma de dor» (p. 122). Contudo, em parte a sua poesia anteviu o seu cinema. «Hei-de entrar nas casas», lemos no início de dois poemas deste belíssimo conjunto de 100. E entrou por portas diversas, provando mais uma vez que não é necessário muito palavreado para dizer o fundamental. Bastam as palavras certas. O labor de António Reis como poeta é o dessa busca ao encontro de uma precisão sem dúvida alcançada, capaz de dizer tanto com tão pouco:

23

Eu não voo
ando

quero que me oiçam

[QUANTOS NAVIOS]


62

Quantos navios
vejo eu passar
estendido nos bancos dos jardins

É feriado

Jogam as crianças correndo
atrás das
sombras
de pássaros

O sol
bate na água
nas folhas
e nos meus olhos

seduzidos

E eu adormeço
deixando
que os navios
passem
lentos

sobre mim


António Reis (n. 1927 - m. 1991), in Poemas Quotidianos (1967). «Em António Reis, toda a poesia emerge do silêncio – processo difícil, lento, convulsivo. Porque se trata dum silêncio tenebroso, feito de cegueira e rouquidão, feito de dias alucinadamente repetidos, feito de esgares apenas – esse silêncio de pedra que é o quotidiano de muitos» (Eduardo Prado Coelho, in Estudo-prefácio). «A poesia de António Reis, nascido, residindo e trabalhando na área do Grande Porto, é, como a de grande parte dos seus contemporâneos, uma poesia urbana. A sua relação com a cidade é, no entanto, uma relação ambivalente. Ama-a, não pela  sua dimensão, mas pelo seu carácter, pela sua naturalidade e ausência de qualquer nimbo de mistério, embora não deixem de o desgostar as «imperfeições e mágoas» que nela sofre. Gosta de lhe percorrer as ruas, perto dos outros. Prefere andar a voar, contradizendo assim a imagem do poeta nefelibata que paira acima da realidade imediata e comezinha» (Fernando J.B. Martinho, in Prefácio a Poemas Quotidianos).

UM GRANDE PISTOLEIRO

   Johnny Guitar, de Nicholas Ray (1954), foi o último filme que vi com António Reis. Johnny é um grande pistoleiro, mas no filme não dispara um único tiro. Esta ideia, esta estética, era central para António Reis. Punha-se uma pergunta: se nunca dispara, como é que sabemos que é um grande pistoleiro? O segredo está no comportamento de Johnny. Ele antecipa todos os movimentos dos outros, inimigos e amigos; antecipa todos os seus próprios movimentos. Não quer disparar porque tem medo. Sabe que um tiro leva sempre a outro tiro e que a vingança não tem fim (aliás, a única vez em que dá um disparo no filme é para desarmar um jovem pistoleiro que não sabe o que faz com a sua arma...). Mas, voltando à pergunta, como é que sabemos em concreto que ele é um grande pistoleiro se não dispara? Johnny também é um grande virtuoso da guitarra, isso fascinava António Reis, mas o momento essencial para ele é um momento quase escondido na narrativa, quando no início chegam os antagonistas e Johnny consegue acalmá-los conversando, mas no momento crítico há um acidente e uma chávena vai cair do balcão do saloon e despoletar a violência. Sub-repticiamente apanha a chávena com um gesto do braço para trás. A surpresa deste anticlímax pára o crescendo da violência e a tensão desfaz-se. Inconscientemente, os antagonistas, e os espectadores, temem-no.

Joaquim Sapinho, in A Narrativa das Sombras, posfácio a Poemas Quotidianos, de António Reis, Edições Tinta-da-china, Julho de 2017, pp. 120-121.

O CÁBULA

Há dois ou três programas na televisão que vejo frequentemente. Um deles é o Governo Sombra. Por vezes, têm o mérito maior de me adormecer. Para quem sofre de insónias é sincero elogio afirmá-lo. Depois sirvo-me dos truques da televisão digital e volto ao programa a partir do ponto onde as pálpebras deixaram de ter memória. No Governo Sombra tenho de gramar com o João Miguel Tavares, o mais agitado dos três entertainers de serviço. RAP puxa à piada, Mexia à sensatez, Tavares à chicana. Não tem mal, oferece ao painel uma certa diversidade e aquela vivacidade que vem dos tempos do Independente e fez escola junto da direita mais progressista (se é que me faço entender). Já as crónicas, passam-me ao lado. Raramente conseguem levar-me até ao fim. Veja-se este exemplo fresquinho colocado entre parêntesis: (Passos Coelho fez o melhor discurso em muito tempo…). Quem quer continuar a ler isto depois de ter sido revelado que parte desse eloquente discurso foi sacado nos comentários facebookianos de Poiares Maduro? Estará Tavares a dizer-nos sub-repticiamente que o melhor Passos Coelho é aquele que copia pelo colega do lado?

NOTAS COMPLEMENTARES

As notas finais no Volume I de Canções 1962-2001 (Relógio D’ Água, Setembro de 2006) são um agradável complemento oferecido pelos tradutores Angelina Barbosa e Pedro Serrano às letras de Bob Dylan. Resultam como uma espécie de biografia baseada nas canções. Ficamos a saber dos primeiros amores do autor quando nos é revelado que Girl of the North Country «é dedicada a Echo Helstrom, a segunda namorada do Dylan adolescente (a primeira chamava-se Gloria Story), nos tempos em que este residia em Hibbing (no Minnesota)»; ou que Down the Highway é «uma das várias canções inspiradas por Suze Rotolo, americana de ascendência italiana e a primeira namorada de Bob Dylan em Nova Iorque, com a qual aparece fotografado na capa do álbum» The Freewheelin’ Bob Dylan (1963).
Outras informações dizem respeito a influências literárias e cinematográficas. A torrente de imagens contidas em A Hard Rain’s A-Gonna Fall «vai beber ao longo poema Howl de Allen Ginsberg», de quem Dylan era amigo, o «juiz que se move sobre andas» referido em Most Likely You Go Your Way (and I’ll Go Mine) vem de «uma peça de Jean Genet (Le Balcon)», o álbum Planet Waves (1974) terá sido todo concebido «em volta de contos de Anton Chekov», Bob Dylan’s 115th Dream «faz uma referência a Ahab, personagem central do romance Moby Dick», Motorpsycho Nightmare contém referências aos filmes La Dolce Vita, de Federico Fellini, e a Psyco, de Alfred Hitchcock. São ainda inúmeras as ligações estabelecidas com factos sociais relevantes, com situações pessoais, com outras canções essencialmente provenientes do reportório blues e folk.
Também não faltam as histórias caricatas, muitas delas tendo Joan Baez como protagonista. É ela quem conta que When the Ship Comes In «teve origem num facto bastante trivial, mas humilhante. Na época Joan Baez era já uma estrela, bastante mais em evidência do que Bob Dylan e as pessoas reconheciam-na em todo o lado. Durante uma digressão, ao tentarem marcar quartos num hotel, Bob Dylan, tendo em conta o seu aspecto desmazelado e pouco cuidado, foi recusado na recepção — o mesmo não acontecendo a Baez que foi sujeita às vénias da fama». Dylan terá ficado furioso, vingando-se a escrever e a compor. Já Love Is Just a Four Letter Word foi literalmente roubada por Joan Baez a Dylan: «Quando, pouco depois, cantou a canção a Dylan este comentou “eh, que bela canção”, sem, aparentemente, se recordar que era composição sua».
Há ainda nestas notas uma relevante lista dos músicos de blues que mais influenciaram o autor de John Wesley Harding (1967): Blind Willie Mc.Tell, Robert Johnson, Muddy Waters, Sonny Boy Williamson, Sleepy John Estes, Blind Lemon Jefferson, Sam Lightnin’ Hopkins, Bo Didley, Ma Rayney. Enquanto complemento, estas notas são um precioso guia durante uma viagem pelo território dylaniano. Não só permitem um contacto com as fontes mais directas, elucidando vários aspectos biográficos do protagonista, como abrem uma janela sobre aquela paisagem onde é possível perceber a semente por detrás do fruto. Salvo raríssimas excepções, estas letras não nasceram do nada, não são meras palavras para encher melodias, não são historietas corriqueiras sem fundo nem sentido, não são apenas estilo e retórica. Têm um fundo histórico, é isso que as torna especiais. 

terça-feira, 11 de julho de 2017

OVOS DE PARASITAS


229.

No fim do quarto mês, regresso à minha cabana, e nela descanso o meu corpo cansado da viagem.

não posso guardar a roupa de verão —
ainda não acabei de ver
se tem ovos de parasitas


Nota do tradutor: O registo escrito que Bashô fez durante a viagem, que agora termina, tem o título de Diário de um Esqueleto Abandonado à Natureza; é este haiku que o encerra. Julga-se que a preocupação em procurar os ovos de parasitas na sua roupa é uma imagem metafórica para a necessidade de, agora em casa, rever todos os poemas e notas do diário.


Matsuo Bashô, in O Eremita Viajante [haikus - obra completa], organização e versão portuguesa de Joaquim M. Palma, Assírio & Alvim, Setembro de 2016.

CANTAR DE GALO


   Isto começa assim: na escola primária aproximas-te do gajo mais popular da turma, na esperança de que, sendo reconhecida e aceite a tua amizade, muitas portas se abrirão. O gajo mais popular é sempre filho de pais ricos, tem casa com piscina. E tu queres fazer parte do grupo que vai à piscina. Mais tarde, vez que o gajo mais popular da escola foi convidado para fazer parte da lista que concorre à Associação de Estudantes. Com o dinheiro dele, os cromos que sonham com carreira nas juventudes partidárias conseguirão autocolantes e cartazes apelativos, exibem um rosto forte nas listas, sentem-se eles próprios mais populares. Tu ficas de fora, mas olhas para tudo com aquela inveja ingénua, mas incipiente, que começa a corroer a moral pela adolescência. Metes então uma cunha para integrares a lista, consegues entrar na lista, sentes pela primeira vez a vantagem da cunha e a alegria que te proporciona. Depois será um ver se te avias. 
   Ao longo da vida, descobrirás professores com facilidades junto de editores, médicos de família deveras amigos de comerciais de propaganda médica, gajas boas de braço dado com porteiros horrorosos. O mundo à tua volta começará a formar-se com rosto de mundo e descobrirás que sempre assim foi, já Camões se lamentava. A bondade, a ética, a moral, esse palavrão que é a deontologia, nunca trarão felicidade a ninguém, só dores de cabeça, e jamais te facilitarão a vida, só gerarão dificuldades. No dia em que fores a um restaurante, pedires a conta e te chegar pela boca do empregado o sussurro “a conta está paga, aquele senhor pagou-a”, olharás para o bom samaritano que te acena com a mesma satisfação com que deixarás o ego enlevar-se. Afinal és um tipo socialmente relevante, até te pagam almoços. Jamais te ocorrerá que o almoço foi pago com segundas e, por vezes, terceiras intenções. Não há almoços grátis, há permutas que levam o seu tempo a serem saldadas. Mas nada disso tem interesse, o que importa é o momento. 
   Na tua cabeça deixará de ser imoral oferecerem-te um bilhete para a Ópera na esperança que depois ofereças tu uma boa crónica, o teu sentido crítico será amansado como se amansam as bestas e nada te demoverá de seres um homem socialmente íntegro, isto é, integrado, ou seja, como os outros, a fazer o que os outros fazem, seja lá isso o que for, porque se o fazem é porque não deve estar mal. E se os outros fazem, por que não poderás tu fazer? Afinal, que relevância terá aceitares uns vouchers e umas t-shirts, uma viagem para ver a bola, quando o apito é de ferro? Mas será? Na dúvida, sobrará sempre suspeita. E a suspeita é uma realidade tramada, pois reside no crepúsculo como uma incerteza, é e não é, foi e não foi, está mas não está, dúbia, ambivalente, ambígua, a suspeita cola-se ao rosto como manchas de velhice à pele. A não ser que consigas conquistar um lugar no pódio dos inimputáveis, aqueles cujo poder de influenciar é tanto quanto o de decidir. Não são lobistas, como agora se diz, nem se reduzem à insignificância da vetusta cunha, são o ponto mais alto de uma hierarquia onde raramente chega a mão da justiça. 
   Há quem passe ao lado de tudo como se não vivesse neste mundo, como se dentro do crânio não trouxesse um cérebro, como se no lugar dos nervos tivesse ferro, há, não duvidemos, tipos para quem a moral se confunde com os bons costumes. E os bons costumes, como sabemos, pouco têm que ver com o bem, são força de hábito, são a mais velha justificação para todo o tipo de avarezas, ganâncias, vícios de consciência que não incomodam que a não tem. A única certeza que podemos ter acerca disto é que o mundo está cheio de pequenos trafulhas, oportunistas para quem pedir um emprego para o filho a troco de benesses é o mesmo que acender uma velinha pela saúde dos moribundos. Ó senhor doutor, não faria mal algum se... Este recente episódio das viagens para ver a bola é só mais um do vastíssimo leque de episódios onde a trafulhice rasteira ganha sentido de Estado, num país onde se contam pelos dedos da mão aqueles que não teriam agido como agiram os secretários exonerados. Ainda que, como já seria de esperar, andem para aí todos a cantar de galo como se fossem exemplo a que se olhe:


segunda-feira, 10 de julho de 2017

GIVE ME THE SIMPLE LIFE

Tasquinhas, feiras do livro, mercados medievais, festivais de Verão, festas e mais festas. E eu aqui a roer-me de inveja do aranhiço que há muito montou teia no sótão.  

VAI NA ÍNTEGRA

Fora eu secretário de estado, ou coisa assim, e recebesse o convite da Galp para uma futebolada em que participasse a selecção portuguesa num campeonato europeu ou mundial, bilhetes pagos, viagens pagas (presumo), a primeira coisa que faria seria pedir à minha secretária para inquirir junto do gentil conselho de administração sobre o número de colaboradores (parece mal dizer 'trabalhadores' ou 'funcionários') -- quantos, portanto, colaboradores, a começar pelos gasolineiros e seus empregados, haviam sido gentilmente distinguidos com idêntica benesse. Claro que depois recusaria, agradecendo, pois é mesmo foleiro um membro do governo aproveitar-se destas migalhas de que, por interesses outros ou bajulações várias, os dinheirosos lançam mão.

Estou já a ouvir a enxúndia opinativa dos mercenários de serviço: demagogia, pá!, demagogia. A conversa fiada e bem remunerada do costume. Direi, contudo, que este episódio canhestro, nada é, aparentemente, comparado com a gatunagem (outra palavra talvez demagógica) que tem assaltado o estado em governos tantos, e anda por aí, boa parte dela, a viver acima das nossas possibilidades.


Ricardo António Alves, aqui.

domingo, 9 de julho de 2017

UM POEMA DE IAN HAMILTON


EM SONHOS

Viver assim:
Esta mão na tua, a outra
Mortiferamente fria; este olho
A fingir que vela por ti,
O outro cego.
                     Vivemos em sonhos:
Estas tardes sentimentais,
Estes votos silenciosos,
Morríamos à fome sem eles.


Ian Hamilton (n. 24 de Março de 1938, King's Lynn, UK - m. 27 de Dezembro de 2001, Londres), in Cinquenta Poemas, trad. Nuno Vidal, Edições Cotovia, 1995, p. 81.

BANDA SONORA ESSENCIAL #13




   Não consigo lembrar-me da primeira vez que ouvi Mingus Ah Um (1959), talvez sempre tenha feito parte da minha vida. Sei que foi o primeiro disco de jazz que adquiri, excluindo das contas dois LP de Pat Metheny que conservo religiosamente. Curioso é que tenha chegado a Charles Mingus por causa de uma rara autobiografia, publicada entre nós pela Assírio & Alvim com o título Abaixo de Cão (1982).
   Apesar de serem muitas e deveras estimulantes as histórias do jazz, com contornos literários para todos os gostos, não é comum um músico de jazz aventurar-se no registo das suas memórias. O escritor argentino Julio Cortázar explicou-nos porquê no conto O Perseguidor, ao colocar em perspectiva um músico de jazz e o seu biógrafo. Nesse conto percebemos que a figura do jazzman é a daquele que vive acima da biografia, tornando incompreensível até para si mesmo a mecânica dos gestos humanos mais banais. A improvisação estilhaça os padrões, leva-nos a esmo sem o tédio da repetição, escapa à reprodução dos gestos, dos actos, das acções.
   Mingus foi obrigado a parar quando lhe diagnosticaram a doença a que agora chamam ELA, essa mesma que há tempos levou meio mundo a tomar banhos de água gelada em nome da solidariedade. Mas até ter parado levou uma vida digna de ser conhecida, sobretudo através da música de excelência que legou ao mundo.
   Com Mingus Ah Um, já depois de ter acompanhado no contrabaixo muitos dos melhores, afirmou-se enquanto compositor numa grande editora. Rodeado de músicos jovens, entres os quais brilham Horace Parlan no piano e Booker Ervin no saxofone, Charles Mingus homenageia os mestres em Jelly Roll, Open Letter To Duke, Bird Calls, aventura-se pelos terrenos do gospel com enlevo contagiante onde não faltam sequer palmas a marcar o ritmo, evoca o saxofonista Lester Young, falecido por esses dias, numa comovente elegia intitulada Goodbye Pork Pie Hat, ataca os blues em Pussy Cat Dues… 
   A música de Charles Mingus serviu o teatro e o cinema, acompanhou poetas como Kenneth Patchen, é ela mesma poesia em estado puro, da que se lê com os ouvidos.


ELSA MARTINELLI (1935-2017)


Quem a viu em The Indian Fighter (1955), nos braços de Kirk Douglas, nunca mais se esqueceu. A belíssima índia de nome Onahti foi o primeiro papel relevante de Elsa Martinelli nos EUA, vindo depois a trabalhar ao lado dos melhores e conquistando um Urso de Ouro pelo desempenho em Donatella (1956), de Mario Monicelli. 
Em 1959 apareceu em La notte brava, filme de Mauro Bolognini com argumento de Pier Paolo Pasolini. Em Hatari! (1962), de Howard Hawks, contracena com John Wayne, e em O Processo (1962), de Orson Welles, baseado no romance homónimo de Franz Kafka, integrou um elenco onde brilhavam Anthony Perkins, Jeanne Moreau e Romy Schneider. Os Caminhos de Katmandou (1969), baseado no famoso romance de René Barjavel, é outro momento a destacar. André Cayatte filmou, Elsa Martinelli apareceu na companhia de Serge Gainsbourg e de Jane Birkin. 
Falamos hoje de Brigitte Bardot e de Marilyn Monroe como sex symbols, musas de um cinema onde a beleza feminina, ao contrário do que tantas vezes se julga, acabou por contribuir para uma certa emancipação da sexualidade. Elsa Martinelli pode não ter atingido a mesma visibilidade, mas beleza e boas companhias nunca lhe faltaram. 

sábado, 8 de julho de 2017

(...)




tarde mansa
defino prioridades

mas por que motivo?

por que razão
o peito se cansa
se de todo o intuito
só me sobram metades?


João Miguel Henriques, in Fonte Breve, Tea For One, 2014, p- 18.

RODIN & SANTOS


   Já foi praticamente tudo dito acerca do famigerado busto de Cristiano Ronaldo esculpido pelo madeirense Emanuel Santos. O que talvez ainda ninguém tenha sublinhado é do domínio da História. Emanuel Santos pode sentir-se orgulhoso por fazer parte de um grupo onde se encontram alguns dos melhores, nomeadamente um dos maiores escultores de todos os tempos. É o grupo dos escultores vilipendiados publicamente por causa de obras concebidas sob encomenda. 
   O caso Rodin é paradigmático. Abordado pela Société des Gens de Lettres para a concepção de uma estátua em memória de Balzac, Auguste Rodin não só aceitou a encomenda como terá demorado seis anos a completá-la. Ao ser exibida, provocou espanto geral. Houve quem tivesse visto o abominável homem das neves na figura do escritor francês, houve quem se referisse à estátua como um bloco de sal a dissolver-se à chuva, só não houve quem dissesse ser aquela rude e horrível figura a do autor da monumental A Comédia Humana. Mas era. Rodin sabia-o, tal como Emanuel Santos sabe que foi Ronaldo quem ele esculpiu. 

GUSTAVE CAILLEBOTTE (1848-1894)

Les raboteurs de parquet, 1875

Filho de uma família burguesa, herda em 1873 a grande fortuna de seu pai e será independente financeiramente até ao fim dos seus dias. 1870, termina os estudos de direito. 1870-1871, participa na defesa de Paris durante a guerra Franco-Alemã.


1872, viagem a Itália. 1873, admitido na Ecole des Beaus-Arts de Paris; trabalha irregularmente no atelier de Bonnat; primeiros contactos com os impressionistas. Conhece Monet; ao princípio será essencialmente influenciado por Degas. 

La Place de l'Europe à Paris, temps de pluie, 1877

1875, pinta o célebre quadro Os Afagadores de Soalho (primeira imagem). Assuntos do seu meio - família, cenas de rua e da vida operária - e cenas das suas férias de Verão em Yerres, sobretudo partidas de barco, são os seus temas preferidos.


1876, expõe pela primeira vez na 2.ª exposição impressionista. Co-organizador e co-financeiro das 3.ª, 4.ª, 5.ª e 7.ª exposições impressionistas, nas quais participará. Mecenas dos seus colegas Monet, Renoir, Sisley e Pissarro, financia as suas exposições e compra-lhes os quadros, entre os quais  O Moulin de la Galette e O Baloiço, de Renoir.

A Pont de l'Europe, 1877

1882, retira-se e pinta apenas naturezas-mortas e paisagens. 1883, lega a sua importante colecção de quadros impressionistas ao Estado francês por via testamentária pondo como condição que o conjunto dos 67 quadros seja integrado na colecção do Louvre.


Após a sua morte em 1894 a seguir a um ataque de apoplexia, o Institut de France recusa a doação - essencialmente por causa das obras de Cézanne que dela fazem parte - provocando escândalo. A colecção só será integrada no Louvre em 1928; hoje encontra-se no Musée d'Orsay.

Nota biográfica copiada de A Pintura Impressionista 1860-1920, Vol. II, direcção de Ingo F. Walther, Taschen, 1995.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

#99




Há qualquer coisa nos Fleet Foxes que os torna peculiares, talvez a obstinação em não se tornarem cativos de fórmulas sedutoras como as que podiam supor-se à época do álbum de estreia. O registo homónimo de 2008 colou-os à folk rock, mas rapidamente se dissiparam quaisquer dúvidas acerca das intenções idílicas destes rapazes oriundos de Seattle. Quem procurar canções bonitas e sedutoras, melodias atraentes e convincentes à primeira audição, pode mudar de caminho. Crack-Up (2017) volta a provar que a pop não é praia onde Robin Pecknold aprecie mergulhar. Logo ao primeiro tema, a sobreposição de gravações com ritmos diversos e até qualidades sonoras divergentes deixa-nos confusos. As harmonias vocais mantêm-se como imagem de marca, mais à maneira de Crosby, Stills & Nash do que dos The Beach Boys. Mas essas harmonias são apenas uma deriva intimista sobre estruturas rítmicas minimalistas e melodias dissonantes. As letras divagam sobre assuntos diversos, ora lançando um olhar dispersivo sobre a rua da cidade, ora voltando-se para dentro em caótica meditação. Ao fundo, escutamos arranjos de cordas e de sopros. Mas é como se não estivessem lá. O álbum desenvolve-se em canções ziguezagueantes, levando-nos das paisagens orientais e contemplativas de Ōdaigahara à catarse emocional de Fool’s Errand:


ODES OLÍMPICAS

Acessíveis na tradução de Frederico Lourenço incluída em Poesia grega de Álcman a Teócrito (Livros Cotovia, Maio de 2006), as Odes Olímpicas, de Píndaro (n. 518 a.C. – m. 438 a.C.?), conhecem agora uma edição autónoma com tradução de António de Castro Caeiro. O propósito é clarificado na apresentação: «dar Píndaro a ler, da forma mais directa possível, ao leitor de português» (p. 5). Conquanto tenha esse mérito, esta edição da Abysmo (Abril de 2017) carece de um enquadramento histórico que permita ao leitor português compreender as particularidades dos hinos pindáricos. Se Lourenço havia alertado para a extrema importância de Píndaro, considerando-o «o poeta mais interessante de toda a literatura grega», e Caeiro lhe reforça o epíteto de “pensador-poeta”, sublinhando no posfácio as características filosóficas de uma poesia empenhada na reflexão da condição humana, continua a faltar uma contextualização que encontramos, por exemplo, na síntese de Werner Jaeger: «A poesia de Píndaro é arcaica». O adjectivo nada carrega de depreciativo, obrigando-nos, no entanto, a pensar estes poemas para lá da sua evidente exaltação de um ideal humano de perfeição. O louvor aos vencedores não se fica aqui pela circunstância das festividades, abraçando a fama e a glória como um fim último da competição. Pelo contrário, em causa está um ideal helénico de nobreza que transcende o circunstancial, um ideal que busca elevar a natureza mortal ao modelo dos deuses. A poesia de Píndaro é arcaica por afirmar este ideal religioso (união do físico ao espiritual) num tempo em que a poesia conhecia já as suas formas de expressão individual, sendo a sua maior força a semente idealista que Platão regará tendo em vista o supremo bem. Portanto, mais do que expressão lírica subjectiva, as odes pindáricas expõem um ideal de nobreza aristocrática que, à época em que o poeta viveu, se encontrava em franca decadência face ao desenvolvimento da cultura sofística. Eis o problema na sua mais simples formulação: a virtude é inata, reside no sangue, ou pode ser ensinada? Duas dimensões, não isentas de polémica, matizam o pensamento de Píndaro quanto a esta matéria. A primeira, por de mais evidente, é a da constante supressão do feito heróico, isto é, do objecto da ode, pela narração de um mito cuja associação ao vencedor raramente é perceptível. Talvez a associação mais plausível seja a de fazer ligar as virtudes por detrás da vitória a uma herança proveniente de tempos ancestrais, algo que nos permite extrapolar o conceito moderno de “super-homem” à luz do ideal humano enaltecido por Píndaro. Esta explicação ganha força tanto quanto a noção de herança adquire neste contexto contornos que diríamos hoje eugénicos, em versos onde o inato conhece sempre uma força que não é reconhecida ao adquirido: «O que vem com o nascimento é o mais poderoso que há. / Mas muitos homens procuram obter a glória / com excelências que são aprendidas». (p. 42). A raça, o sangue, é uma noção fulcral na ideia pindárica do homem nobre (aquele em cujas veias corre sangue sagrado), pelo que não devemos estranhar as constantes alusões aos antepassados e à estirpe dos heróis glorificados nestas odes. Uma outra dimensão, porém, complica-nos as contas. Por mais forte que seja, por mais super que se nos apresente, o homem cantado por Píndaro é sempre perecível. O bom sangue e a casta divina do herói não o resgatam da condição de mortal. O deus Tempo, «o único deus que põe à prova a verdade / tal como ela efectivamente é» (p. 44), não relativiza o destino nem a descendência ao fazer do homem fruto do acaso, mas de algum modo fragiliza a sua condição existencial. A vida consagrada a um propósito nobre é, deste modo, a resposta humana possível a tamanha fragilização. Tal como o antepassado surge aos nossos olhos com a força do exemplo, assim devemos nós hoje empenhar-nos para sermos exemplo no futuro. Uma ética deste tipo não podia deixar de colocar o poeta, como Platão fará com o filósofo, no lugar de detentor de um saber ao alcance de poucos. Daí que faça sentido sublinhar o lado esotérico destas Odes, até pelo que os próprios versos inferem: «Tenho muitas setas rápidas na aljava / debaixo do meu braço que falam para quem compreende: / mas para as pessoas comuns são necessários intérpretes. / Sábio é quem conhece as coisas naturalmente. / Mas os que aprenderam a ser tagarelas, / semelhantes a corvos, proferem sons // vãos contra a ave divina de Zeus» (p. 20). O que torna as Odes Olímpicas especiais é terem elas sido escritas contra o seu tempo, chegando-nos hoje como exemplo de um ideal humano que não deixa de ser admirável por nos merecer as maiores dúvidas.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

NADA NATURAL

A relevância de Gary Snyder (n. 1930) no contexto da literatura norte-americana é tema que não merece discussão. Foi ele quem traduziu os poemas de Han Shan, influenciando determinantemente o curso da literatura Beatnik. Kerouac inspirou-se nele para The Dharma Bums (há uma versão portuguesa publicada pela Relógio D’Água). Ferlinghetti ter-lhe-á chamado o Thoreau da Beat Generation, o que não fica mal apesar da comparação desnecessária. Snyder tem um percurso singular que não carece de comparações. 
Natural de São Francisco, formou-se em antropologia. O interesse pelas culturas indígenas surgiu muito cedo, nomeadamente pelos nativos norte-americanos. Esse interesse reflectir-se-á sobremaneira na sua poesia, tanto através de evocações de personagens e de lugares históricos associados à cultura ameríndia como no uso de vocábulos provenientes dos inúmeros dialectos praticados pelas tribos que outrora povoaram a América do Norte. Mais tarde, Gary Snyder aliará a este interesse o estudo profundo da cultura asiática. A filosofia Zen não foi, neste caso, mero capricho exótico. Viveu no Japão e andou pela Índia, assimilando saberes para muitos então inacessíveis a Ocidente. 
Por cá, o pouco que nos chegou da sua poesia foi incluído numa antologia pelas mãos do impagável Manuel de Seabra. Nada Natural (Douda Correria, Abril de 2017) vem ocupar um espaço vazio, numa tradução conjunta de Nuno Marques e Margarida Vale de Gato, ilustrada por desenhos de Délio Vargas, percorrendo várias obras do autor de Turtle Island (1974). O ponto de partida é No Nature: New and Selected Poems (1992), redundando esta antologia em português num breve mas generoso conjunto de cerca de trinta poemas. Lá estão as referências a Geronimo, aos Navajo, aos Anasazi, misturadas com mitologia xamânica, filosofia Zen, numa coerente salada de saberes com a Mãe Natureza a ocupar lugar central:

A GRANDE MÃE

Nem todos aqueles que passam

Frente ao trono da Grande Mãe

Podem passar só com um olhar.

A alguns vê-lhes as mãos

Para perceber que espécie de selvagens foram.


Não obstante, seria um erro cingir a poética de Gary Snyder a um mero culto contemplativo da Natureza. Não está errado chamar-lhe “the greatest of living nature poets”, mas seria redutor ficarmos por uma leitura amiga do ambiente e simpatizante do ecologismo actual. O modo como nestes poemas confluem budismo e xamanismo, resquícios de confucionismo e filosofia hindu, leva-nos a pensar que por detrás da paisagem natural convocada em inúmeros poemas há um forte enraizamento filosófico. Dessa filosofia colhemos uma crítica dos tempos modernos, o retrato de um homem desapiedado, desligado da terra, imerso num desperdício de coisas, tempo e silêncio, obsidiado pelos ruídos contemporâneos da ruína. 
O recolhimento sugestivo destes poemas não procura reduzir a prática humana à inacção. Eles convocam o gesto transformador, como nesse belíssimo poema intitulado Fire in The Hole/Vai Rebentar onde a força do trabalho no seio da Natureza coloca o homem no seu devido lugar: o de agente, não dominador, não dominado, simplesmente parte integrante de um processo de transformação consciente que entende corresponder à mudança da paisagem natural uma mudança no próprio corpo. Os últimos versos desse poema são esclarecedores: «premi o detonador para baixo. / através do pó / e pedra aos pedaços / afastei-me com calma para ver: / mãos e braços e ombros / livres» (s/p). 
Snyder não é apenas o maior poeta vivo da natureza. Ele é também um dos grandes poetas do homem, o homem que surge para lá da contemplação, da meditação, o homem que se apresenta aos olhos de cabeça limpa, «Um homem curvado, sentado num tronco / outro de pé a seu lado, ergue um cajado, / um terceiro, com um rolo de tapetes, ou um alaúde, olha em frente / um pouco ao largo duas pessoas num largo» (s/p). Esta paisagem humana que canta no interior dos poemas, uma paisagem de lenhadores, pescadores, caminheiros, vive ainda no e do solo, opõe-se a «Toda a tralha desta coisa do ser humano» (s/p) supérfluo. 
No fundo, talvez não ficasse mal julgarmos que aqui ainda estamos no cerne de um conflito fundador da modernidade, ou seja, o conflito entre o essencial e o supérfluo. Cantar a Natureza como Gary Snyder a canta é partir em busca do essencial, é abraçar o Homem num abraço à Terra, pois «Esta viva terra  ondulante / é tudo o que existe, para sempre // Somos o que ela é / e ela canta através de nós — // Podíamos viver nesta Terra / sem roupas nem instrumentos!» (s/p). Isto é, como vivíamos nesses tempos genesíacos em que o Homem e a Mulher andavam nus sobre a Terra sem sentirem vergonha por isso, pois o pecado ainda não os havia obrigado a dominarem a Natureza nem todos os animais sobre ela existentes. Bons tempos. 

O QUE EU PENSO QUANDO MEDITO


Bem, podia dizer-te que podia dizer-
-te mas não ias perceber mas não o farei
Tu perceberias mas eu não consigo, quer dizer topa isto,
                           não tenho unhas para esta guitarra
               detesto sentar-me de pernas cruzadas
doem-me os joelhos o nariz escorre e tenho de ir
                           à retrete
já de seguida e raisparta o gajo nunca mais toca o sino.

O que eu penso quando medito é no vazio.
                           lembro-me bem
as cabeças vazias             o fsssssss do foguete
Mas o que penso mesmo é em sexo
                           tipo padrões de sexo
como pelos a dançar e pele de galinha
                           Não, a sério
O que eu penso é no que estou eu a pensar?
                           e
Quem sou eu? E «MU?» e as nuvens
                                                              no
                    monte do sul
Quer dizer: aquilo em que honesta e realmente penso, fora de brincadeiras
                    ... (etc.)


GarySnyder (n. 8 de Maio de 1930, São Francisco, Califórnia, EUA), in Nada Natural, trad. Nuno Marques & Margarida Vale de Gato, Douda Correria, Abril de 2017, s/p. 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A MULHER É UMA APARÊNCIA

   Eu creio que podia viver continuamente absorto na contemplação de um ser feminino. A mulher é a fonte inesgotável para as minhas reflexões, para as minhas observações. Cada parcela de beleza deve ser medida na sua harmonia. Cada uma em particular possui uma pequena parcela, restando tudo tão completo em si mesmo feliz, alegre, belo. A cada uma a sua parte: o sorriso jovial; o olhar esperto e vivo; os olhos ardentes; o espírito brincalhão; a doce melancolia; a intuição profunda; o humor sombrio e fatal; a nostalgia terrestre; as emoções inconfessadas; as sobrancelhas que falam; a boca que interroga; a fronte cheia de mistério; os corações sedutores; as pestanas que escondem o outro; o rubor insondável; os passos ligeiros; o andar gracioso; o modo languido; o sonhar impaciente; os suspiros sem explicação; a cintura esbelta; as formas leves; o seio amplo, as ancas bem desenhadas; o pé curvo, a mão pequena... E quando eu vi e revi, contemplei e contemplei ainda as riquezas deste mundo; quando sorri, suspirei, adulei, ameacei, desejei, tentei, esperei, ganhei, perdi - fecho este leque de maravilhas, e o que se espalha em redor parece-se a uma outra coisa, e o meu coração começa a bater e a paixão nasce. A mulher é uma aparência. Raramente há mulheres que sejam outra coisa, e o meu coração começa a bater e a paixão nasce. A mulher é uma aparência. Raramente há mulheres que sejam outra coisa senão uma aparência. A maior parte nem isso são.

Palavras de Sören Kierkegaard, por Agustina Bessa-Luís, in Estados Eróticos Imediatos de Sören Kierkegaard, Guimarães Editores, Maio de 1992, pp. 55-56.

EPIFANIAS #24

24

   O seu braço repousa por um momento nos meus joelhos e depois é afastado, e os seus olhos revelam-na — secreta, vigilante, um jardim fechado — momentaneamente. Recordo uma harmonia de vermelho e branco feita para alguém como ela, afirmando seus nomes e glórias, licitando a sua chegada como esposa, e vindo embora, licitando o seu olhar em frente, um esposo, de Amana e da montanha dos leopardos. E eu lembro-me da reacção a que a perfeita delicadeza do corpo e da alma se desfez com todo seu mistério: Inter ubera mea commorabitur.


James Joyce, in Shorter Writings. 
Versão de HMBF. 

NEM BOA IMPRENSA

Tem sido frequente encontrar referências nos jornais portugueses ao que por jornais de Espanha se vai dizendo acerca de Portugal, nomeadamente num tom tão arrasador que nos deixa desconfiados. Aquilo a que uma barata tonta chamou de geringonça, e que em Espanha começou a ser apontado como possível solução, parece inquietar o El Mundo e o El País. Há espanhóis a rejubilar com a nossa “incompetência” que são pão para a alma faminta da oposição à actual solução governativa portuguesa. Ventos que chegam de um país há muito a braços com o fantasma da desintegração. Isto deixa-nos a pensar que o discurso que por lá “arrasa” a actual governação portuguesa não é ingénuo, tem aquela intenção precisa de desgastar o novo para conservar o velho. À boa maneira monárquica, sublinhe-se. 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #12


   Em 1997 a world wide web, tal como hoje a conhecemos, era uma realidade incipiente, apesar do novo mundo que já então se avistava. A humanidade andava fascinada com a ovelha Dolly e as possibilidades da clonagem, falava-se de futuro pós-humano. Um tipo chamado Claude Vorilhon, criador do movimento raeliano, fundou nesse mesmo ano a Clonaid, fazendo passar a mensagem de uma putativa clonagem de seres humanos. Titanic, o filme de James Cameron, batia todos os records nas salas de cinema, espantando o mundo com a qualidade alcançada no domínio da computação gráfica.
   Foi em 1997 que os Radiohead, banda de rock formada em Oxford, publicaram um álbum histórico intitulado OK Computer. Histórico pelo visionarismo, pelo prenúncio de um futuro então anunciado na feroz aceleração de uma realidade cujas transformações estão ainda em marcha. Sublinhemos que, ao terceiro álbum, os Radiohead exibiam uma maturidade que os resgatava da vulgaridade. O rock que praticavam, e que de algum modo foram praticando, nada tinha que ver com o grunge de inúmeras bandas norte-americanas deveras populares durante toda a década de 1990. Era a antítese da britpop que também por esses anos fez escola. Não prescindia das guitarras em favor das programações, rumo adoptado pelos ícones do trip hop e subgéneros afins. Os Radiohead eram, como sempre foram, como ainda hoje são, diferentes e especiais.
   A voz de Thom Yorke impunha-se ao universo melómano como uma das mais sublimes, acompanhada pelos instrumentos que todas as bandas rock sempre tocaram mas com uma invulgar capacidade melódica e harmónica. Sem resvalarem para tons unicamente depressivos e destroçados, os autores de Creep mantinham a melancolia em níveis aceitáveis. O que fez de OK Computer um álbum especial foi o futuro que ele nos contou, plasmado em jeito de síntese nesse interlúdio, a meio das doze canções, intitulado Fitter Happier, com uma voz robotizada a passar-nos o receituário da vida que não queremos ter: «comfortable / not drinking too much». Essa vida caracterizada pela hegemonia do pragmatismo face ao idealismo, essa vida que é deveras a nossa contemporaneidade, foi ironizada por antecipação neste disco memorável, que só a ingenuidade de quem não o entendeu à época podia considerar progressivo.
   As explosões de guitarras não foram engavetadas, a secção rítmica não perdeu vigor, Climbing Up The Walls termina aos berros num exercício catártico que percorre todo o disco desde o primeiro momento. Em OK Computer assistimos a um motim intervalado por relances desencantados, desiludidos com o estado do mundo, baladas que não são baladas, são um manifesto de saturação, são desacelerações no centro da hiperactivade e do frenesim que nos corroem. «This is my final fit, my final bellyache, with no alarms and no surprises», a fazer tanto sentido ontem como hoje. Porque hoje é o futuro que então se antecipava. Hoje e, muito provavelmente, amanhã também.



domingo, 2 de julho de 2017

SUDDENLY LAST SUMMER


Subitamente no verão passado
uma branda onda de loucura
apoderou-se silenciosa das pessoas

uma língua de palavras caóticas
jovem e descontínua
ferindo o futuro inquietante

a calma insegura voltou
restando uma secreta ansiedade
uma sombra nos corações.


Manuel Paes, in O Livro das Adivinhas, Tea For One, 2016, p. 4.

ONDE ESTÁ O WALLY?

O exemplo de Fernando Pessoa, ou o de Cesário Verde, entre outros que não vale a pena elencar, já nos deviam precaver quanto ao futuro. É muito provável que daqui a uns anos venhamos a descobrir artistas estupendos que ganharam a vida como caixas de supermercado. Tão mais provável quanto se torna evidente serem essas actividades hoje em dia o escape para muito boa gente formada em cursos de artes e de humanidades. Não subestimemos, portanto, ninguém neste mundo pela profissão que ocupa. No corpo de um humilde cantoneiro pode residir um grande poeta. 

AS ARTES DO SENTIDO

Comecemos pelo posfácio de Anabela Mendes, por encontrarmos aí uma curiosa sugestão de leitura: «Para ler Steiner como ele merece, temos de tirar férias da vida». Que quererá isto dizer? O que significa tirar férias da vida? O método aplica-se apenas a Steiner? Que terá Steiner de especial? Por tirar férias da vida talvez devamos entender um esforço de abstracção, um distanciamento dos paradigmas que nos asseguram, tanto quanto possível, alguma lógica no decorrer dos dias. Mas esse distanciamento, que é em si mesmo um teste, um questionamento, o princípio do olhar crítico, é válido para qualquer leitura. Nada de especial encontramos em Steiner que nos obrigue a fazer com os seus textos o que eventualmente poderíamos deixar de fazer com os dos outros. De resto, George Steiner não pensa o mundo fora da vida. Antes pelo contrário, nos seus textos vislumbramos sempre uma forte ligação às vivências subjectivas. Estes são textos que nos fazem mergulhar ainda mais na vida. Talvez seja isto mesmo o que os torna tão aliciantes, sobretudo quando abordam temas onde as vivências podiam não ter lugar.
Nos seis ensaios coligidos por Ricardo Gil Soeiro em As Artes do Sentido (Relógio D’Água, Fevereiro de 2017) a relação entre a vida e temas abstractos é evidente. Logo em Narciso e Eco: Uma Nota sobre as Atuais Artes da Leitura, a questão do sentido do sentido, num contexto hermenêutico de interpretação do texto literário, levam-no a opor à desconstrução derridiana, e ao seu suposto obscurantismo, uma ideia de “leitura justa”, ou seja, aquela que mobiliza vários instrumentos «tendo em vista um fim essencial: o de elucidar, “situar”, e o de tornar mais acessível e mais aberto às férteis incertezas da interpretação o poema, a peça de teatro, a ficção ou o discurso filosófico» (p. 30). Portanto, contra o obscurantismo estruturalista e desconstrutivista, propõe-se uma interpretação que não rejeite a vida, que inclua nos seus processos todo o conhecimento disponível em relação ao texto e ao seu contexto, nomeadamente aspectos biográficos e históricos que permitam esclarecer: «Um poema reservado somente para a academia e para o “explicador” é tão mudo quanto um Stradivarius fechado na estante hermética de um museu» (p. 27).
Ao lermos o último destes seis ensaios, Quatro Poetas: A Arte de Fernando Pessoa, talvez possamos ficar com uma ideia do que é para George Steiner Uma Leitura bem Feita. É este, precisamente, o título do segundo ensaio aqui reunido. Polémico exercício aí se propõe. Steiner oferece-nos, em resumo, as leituras de Hitler e Thomas Mann para a obra magma de Scopenhauer. E questiona-se sobre qual dos dois terá lido melhor O Mundo Como Vontade e Representação? O exercício pode ser meramente académico, mas a resposta tem implicações que extravasam os muros da Academia: «Toda a leitura resulta de pressupostos pessoais, de contextos culturais, de circunstâncias históricas e sociais, de instantâneos fugidios, de acasos determinados e determinantes, cuja interacção é de uma pluralidade, de uma complicação fenomenológica resistente a toda a análise que não seja ela mesma uma leitura» (p. 42). Steiner não é um subjectivista, muito menos um niilista. A esta tese acrescenta a possibilidade de detectarmos uma boa leitura, alia o sentido ao bom senso e, ainda que possamos julgar frágil a coligação proposta, reivindica limites à diversidade das interpretações admissíveis.
Quem impõe tais limites? O que torna possível e legitima tal imposição? De que falamos quando falamos de sentido? O que é uma boa interpretação? As preocupações de Steiner são eminentemente pedagógicas. Isso torna-se evidente no ensaio “A Tragédia”, Reconsiderada, onde aclara teses anteriormente desenvolvidas acerca do conceito de absolutamente trágico, interrogando-se sobre a possibilidade da tragédia num mundo sem deuses, ou mesmo em A Longa Vida da Metáfora: Uma Abordagem da Shoah, magnífico texto onde os limites da linguagem, aplicada a uma interpretação do holocausto, resultam numa afirmação da poesia de Paul Celan enquanto “metáfora vivida” de uma experiência concreta que nos rouba as palavras, que nos gera um bloqueio interpretativo e linguístico.
Por fim, em O Crepúsculo das Humanidades? encontramos uma reflexão sobre aquilo a que podemos chamar de “crise” das ciências humanas na actualidade. O diagnóstico está feito: «O prestígio, a auctoritas cívica daqueles que professam e cultivam as humanidades tradicionais encontra-se no seu ponto mais baixo. As opções de carreira — até dos estudantes mais brilhantes — encontram-se frequentemente à beira da misère» (p. 104). Este relance crítico sobre a actualidade leva-nos a imaginar o futuro. O que será de uma sociedade quando lhe faltarem filósofos, sociólogos, antropólogos, historiadores? Não o sabemos já através de exemplos do passado? Ou até mesmo de exemplos contemporâneos? À “crise” das humanidades não corresponde apenas uma crise do humanismo, já que sempre as humanidades coexistiram com o inumano. O filósofo, o poeta, o historiador, não evitam a violência que sobre eles possa ser exercida. Não é por pensarem a violência que a extinguem, mas ao pensá-la contribuem para uma elucidação que em nos faltando fortalece essa mesma violência. Talvez a esta "crise" corresponda um novo tempo onde à metafísica se sobreporá a técnica, com consequências imprevisíveis caso não dominemos as artes da futurologia. Fortemente arreigados à vida, talvez estes ensaios de George Steiner não exijam que tiremos férias da vida para lê-los como merecem. Até porque lê-los é já merecimento que prescinde explicações acerca do como. 

sábado, 1 de julho de 2017

"ESTILISTAS DO EU"

A história da arte transformou-se, com honrosas excepções, numa disciplina monográfica, especializada, em certa medida obcecada com minudências. A disciplina convive desconfortavelmente com a crítica estética e com a filosofia da arte. Por exemplo, qual é o miniaturista que se ocupa das gravuras flamengas tardias, ou das aguarelas inglesas dos meados do período vitoriano, que precisa de se preocupar com o que Aristóteles ou Kant ou Heidegger escreveram sobre a experiência estética? Não há regime de titularidade na transcendência. Acima do matagal fervilhante das investigações monográficas nas artes e nas ciências da história, sobrevoam as águias dos media, os apresentadores de totalidades mais ou menos spenglerianas, das histórias dos séculos e das nações, actuando na televisão e operando numa pretensa imprensa de qualidade. A. J. P. Taylor, cuja vulgarização de alto nível se aproxima do génio, iniciou uma tribo de historiadores que se transformaram em comunicadores para as massas. Mais do que em qualquer outro ramo das humanidades, estes talentosos comunicadores e estilistas do eu descobriram uma maneira de chegar ao exterior da academia. Os seus livros são bestsellers de qualidade. Alguém se atreve a perguntar que tipo de estudantes estão eles a formar por entre os intervalos do jetlag?

George Steiner, in As Artes do Sentido, trad. Ricardo Gil Soeiro, Relógio D'Água, Fevereiro de 2017, p. 108.

QUINTINO

   Qual a diferença entre a Maya que lança cartas e o Quintino Aires dos estudos científicos? 
   Quintino não passa despercebido na hora de zapear, é um homem feio no ecrã, tem boca de sapo e não se comporta como um príncipe. É mesmo sapo. Apanhamo-lo amiúde, tal como apanhamos a Maya, a comentar reality shows, futilidades, capas de revista cor-de-rosa. A Maya é mais abelha, está protegida pela ausência de canudo. Ninguém espera dela senão atoardas e lugares comuns, ao passo que Quintino tem sobre si, pelo menos, a responsabilidade de não envergonhar aqueles que foram seus alunos. Cá em casa há quem tenha sido, mas esconde-se de vergonha. 
   De facto, sapos como Quintino podem ensinar em universidades. Podem dizer-se psicólogos e, em conformidade com os galões, podem fazer-se pagar por consultas a necessitados. Um apanhado das declarações deste cientista encartado inclui considerações sobre virgindade — uma patologia social, um problema de saúde pública —, sobre zoofilia — sexo com animais aumenta a ligação do ser humano à natureza, pelo que a zoofilia não é uma perversão mas antes uma celebração das nossas origens —, sobre a etnia cigana — a etnia cigana não respeita as normas do país onde vive, a maioria vive de subsídios ou trafica droga e não trabalha — e, mais recentemente, sobre uma estranha relação entre o consumo de cannabis e a homossexualidade — 75% das pessoas que consomem cannabis têm relações com pessoas do mesmo sexo. Tudo isto, como sempre, apoiado em estudos científicos. 
   Ora, ninguém pretende calar o sapo da TVI. Assim como ninguém alguma vez calou a Maya ou a Maria Helena, Quintino tem todo o direito do mundo a proferir disparates e a fazer figuras tristes. E as televisões credibilizam-se junto dos seus públicos como bem entendem. Sou pela pornografia em canal aberto.
   O problema surge quando tais disparates são proferidos não com base em cartas ou velinhas a arder, mas numa putativa cientificidade indutora de um conhecimento que não existe.  Tal ciência, Quintino não tem. Apenas "dá aires". Jamais poderá ser-lhe permitido que se faça usar de um conhecimento que não passa de opinião, de especulação, quando não de preconceito. 
   Podíamos passar por cima disto relativizando, dizendo que se trata só de mais um palerma na televisão portuguesa. Um entre tantos. Infelizmente, não é um palerma qualquer. É um palerma que acrescenta ao nome a categoria de psicólogo, de Prof. Dr. do Instituto Vegotsky. Afinal, para que serve a Ordem dos Psicólogos? Para lhes sacar dinheiro? Com sapos destes, com certeza não será para dignificar a profissão.