quinta-feira, 31 de agosto de 2017

AUTOEUROPA E AFINS

Há pessoas que não sabem discutir nenhum assunto sem recorrer a exemplos particulares e subjectivos, nomeadamente retirados das suas experiências pessoais.
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O que levará alguém a pensar que a sua miserável vida pessoal pode servir de exemplo universal?
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A ser exemplo para alguma coisa, a minha vida pessoal pode apenas servir para averiguar da conformidade entre acção e teoria, ou seja, pode servir para alguém me chamar hipócrita ou reconhecer-me coerência.
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Certos indivíduos tendem a julgar que a sua vida é sempre mais difícil do que a vida dos outros, como se viver não fosse em si mesmo um desafio diário cujas dificuldades provêm tanto da sorte como das opções que tomamos ao longo da vida.
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No mundo do trabalho, uma tendência que me irrita é a daquela gente que se coloca sempre no lugar do mártir: eu trabalho mais do que os outros, o meu trabalho é mais difícil do que o dos outros, tudo na minha vida é mais complicado do que na tua.
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Isto leva a que, por exemplo, por mais diversas e legítimas que sejam as reivindicações de uma classe profissional, haverá sempre uma horda de calimeros a choramingar desgraças pessoais: aqueles tipos não querem é trabalhar, se tivessem de trabalhar o que eu trabalho.
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Isto é, se tivessem a minha vida. Mas não têm, e isso não é mau. Se tivessem, seriam muito infelizes.
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A mais nefasta das consequências neste tipo de situações é alguém julgar que os direitos dos outros apenas são ponderáveis em função dos seus, gerando assim um muro de egoísmo social que obstrui o princípio da solidariedade.
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Ser solidário com o outro é desejar-lhe uma boa vida, não é desejar-lhe a merda da vida que se tem.
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Eu adoraria que todas as pessoas no mundo fossem mais ricas, felizes e inteligentes do que eu, pois isso deixar-me-ia feliz. A felicidade dos outros alegra-me, não me entristece.
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O princípio da equidade nestas matérias é algo pateta. Cada profissão tem as suas particularidades.
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O pior dos trabalhos que tive, o mais cansativo e insuportável, foi aquele que menos horas me ocupava e um dos que eram mais bem remunerados. Mas este exemplo pessoal não interessa para nada.
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Interessa perceber se são legítimas ou não as reivindicações de quem trabalha. Exigir condições de trabalho é, regra geral, um bom princípio. Exigir condições de vida, associadas ao mundo do trabalho, é sempre um bom princípio.
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Como conciliar o direito à felicidade do cidadão com os deveres do trabalho?
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Há quem critique o grevista por ele lutar, como se o simples facto de ele lutar fosse um insulto a quem se vê, pelas mais diversas contingências, incapaz de ter a mesma atitude.
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Acho piada aos ex-patrões que passam a pensar como empregados, acho patéticos os ex-empregados que passam a pensar como patrões.
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Em suma: não está mal reivindicar folgas ao fim-de-semana. O que está mal é pensar que essa reivindicação não é legítima porque eu tenho de trabalhar ao fim-de-semana.
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De resto, o mundo devia parar aos fins-de-semana. As pessoas deviam ser proibidas de morrer aos fins-de-semana. Numa sociedade ideal, aos fins-de-semana os parques ficariam cheios de famílias e namorados, as ruas seriam como que o sistema nervoso central do amor.
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Os teóricos do capitalismo que nos domina não são parvos, fazem tudo para privar os cidadãos das suas principais armas. Retiram-lhes inteligência crítica, tronando-os autómatos. Sabem que a solidariedade advém da inteligência e que o automatismo só gera mais egoísmo.
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Os teóricos do capitalismo não são parvos nem trabalham aos fins-de-semana.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

UM POEMA DE RICARDO TIAGO MOURA

assim éramos pouco
e somos bastantes
de tectos e vãos
se abriga um chão:
em primeiro lugar
o lugar o suporte
sem terra não há como
ganhar fundação             / em vidro temperado
crescer filhos fortes        / meu sonho perdido
assim vamos sendo         / canto no banho
empreendimento             / choro algas
pilares bem assentes       / e óperas
na terra dos outros          / ser filho dos pais
acinzenta-se o mundo     / empresa fatal:
irmãos com irmãos         / não me comovo
cunhados muitos             / com coberturas
dinheiros seguros            / manobras de cálculo
revestem-se muros          / movimento de gruas
cinzelados a frio              / minhas mãos de pedra
andaimes varandas          / acinzentam o mundo
divisórias de abrir           / assenta-se o lar
campainhas alarmes        / em vidro temperado
só lhe falta falar:             / para sempre mudo
e tudo constrói                / (cinzento-calado)
unidade no lar                 / não posso cantar /


Ricardo Tiago Moura (n. 1978), in pequena indústria, Tea For One, Janeiro de 2016, p. 19.

COSMISMO

   Não é de todo por acaso que a poesia dos pequenos círculos, nos seus esforços para vencer a sua solidão, mergulha no romantismo insípido do «cosmismo». A ideia é um pouco esta: é preciso sentir o mundo como unidade e nós próprios como uma parte activa dessa unidade, com a perspectiva, mais tarde, de dirigir não apenas a terra, mas todo o cosmos. Tudo isso, bem entendido, é realmente soberbo e terrivelmente edificante. Éramos simples habitantes de Koursk ou de Kalouga, conquistamos toda a Rússia e caminhamos agora para a revolução mundial. Deveremos contentar-nos com tais «limites planetários»? Coloquemos imediatamente o círculo proletário sobre o cume do universo. Que existe aí de mais simples? Sabemos fazê-lo e não receamos ninguém!
   O cosmismo parece, ou pode parecer, extremamente audacioso, forte, revolucionário, proletário. De facto, encontra-se no cosmismo os elementos que confinam com a deserção: escapa-se aos difíceis problemas terrenos — e que são particularmente graves nas esferas interestelares. Por isso, o cosmismo revela um parentesco de certo modo inesperado com o misticismo. Com efeito, querer introduzir na sua concepção artística do Mundo o reino das estrelas, e não apenas d eum modo contemplativo, mas de uma forma activa, isso é uma tarefa demasiado pesada, independentemente até dos conhecimentos que se possam ter de astronomia — e, em todo o caso, revela também uma urgência que se não impõe... E compreende-se finalmente que se os poetas se tornam «cosmistas», isso não é porque a população da Via Láctea bate insistentemente à sua porta e exige deles uma resposta, mas porque os problemas terrenos os incitam a tentar salvar o Mundo. No entanto, não basta intitular-se «cosmista» para compreender as estrelas no céu. Tanto mais que o universo é composto muito mais pelo vazio estelar do que pelas estrelas. Esta tendência duvidosa que têm para preencher as lacunas da sua concepção do Mundo e da sua visão artística pela matéria subtil dos espaços interestelares corre o risco de conduzir alguns dos «cosmistas» para a mais subtil das matérias, o Espírito Santo, no qual repousam já tranquilamente muitos poetas defuntos.

Léon Trotski, in Literatura e Revolução, trad. Serafim Ferreira, Editorial Fronteira, Dezembro de 1976, pp. 93-94.

#101


   Não é fácil dizer mal de Neil Young, pelo que estas teclas dispensar-se-ão de tal esforço. Reconheço os meus limites. Peace Trail (2016) reúne dez canções escritas e gravadas, tanto quanto se sabe, ao primeiro take. Ao primeiro ou ao segundo, tanto faz. A espontaneidade é evidente, tal o desarranjo. Gosto destes heróis que se dão ao luxo de navegar contra a maré. Neil Young pode fazê-lo, é claro. Já nada tem a provar. Mas numa época em que se ouve música por todo o lado, e tanta dela tão arrumadinha, tão plástica, tão estilizada, tão pastilhona, sermos brindados pela autenticidade de um escritor de canções na casa dos setenta é privilégio a que não se pode ficar indiferente. 
   Alternando descargas eléctricas catárticas com a calmaria de uma viola acústica, Young faz-se acompanhar de uma secção rítmica em registo de ensaio. As letras reflectem impressões políticas acerca da actualidade, dos direitos das comunidades indígenas ao sobreaquecimento global, da pós-verdade ao terrorismo, resvalando por vezes para considerações mais intimistas e autobiográficas. Inestético, mas pertinente enquanto registo de uma contemporaneidade também ela inestética, Peace Trail percorre a actualidade num tom crítico que denota a urgência de alguém que quer gritar ao mundo sabendo, de antemão, quão limitado é o alcance das suas palavras.


(…)
And everywhere I look I see people alone

Alone with their heads looking in their hands
Lost in the conversation stare
Walking with their eyes looking at the screen
Talking like they were really there

I’m lost in this new generation
Left me behind it seems
Listening to the shadow of Jimmy Hendrix
Purple Haze sounding like TV

(…)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

TATUAGEM PESSOAL

A Revolução raspou e lavou a tatuagem pessoal, deixando a descoberto tudo o que aí havia de tradicional e de tribal, tudo o que tinha sido recebido com o leite materno e não foi dissolvido pela razão crítica por causa da sua fraqueza e da sua cobardia. Em poesia, Jesus nunca está ausente. E, na idade da indústria têxtil mecanizada, o manto da Virgem é o tecido poético mais popular.
   Pôs-se de lado a maioria dessas recolhas poéticas, sobretudo as das mulheres. Aqui, realmente, não se pode dar um passo sem a ajuda de Deus. O mundo lírico de Akhmatova, de Zvetaeva, de Radlova e outras poetisas, autênticas ou pretensiosas, é extremamente reduzido. Embaraça a própria poetisa, há um desconhecido de chapéu ou alguns portadores de espinhos e, inevitavelmente, Deus, que não tem qualquer característica especial. Deus é uma terceira pessoa, muito cómoda e muito transportável, para uso doméstico, um amigo da família, que preenche de vez em quando os deveres de um ginecologista. Como é que este indivíduo, muito mais jovem e encarregado de tarefas pessoais, muitas vezes aborrecidas, por parte de Akhmatova, de Zvetaeva e das outras, pode, nos seus momentos de ócio, dirigir os destinos do universo, isso é simplesmente incompreensível. Para Chkapskaia, tão orgânica, tão biológica, tão ginecológica (o talento de Chkapskaia é real), Deus possui alguma coisa de um intermediário ou parteira, isto é, tem todos os atributos de uma má-língua toda-poderosa. Se uma nota subjectiva pode ser aqui autorizada ou consentida, diríamos de boa vontade que esse Deus feminino, de largas ancas, não se mostra muito impotente, mas é muito mais simpático que o pintainho chocado pela filosofia mística lá das estrelas.
   Como não chegar, finalmente, à conclusão que a cabeça normal de um filisteu educado é um caixote onde a História lança de passagem os restos e os detritos das suas diversas realizações? Vemos aí o Apocalipse, Voltaire e Darwin, o Livro dos Salmos, a filologia comparativa, a tábua de multiplicação e o círio. Uma mistura vergonhosa que faz lamentar a ignorância do homem das cavernas. O homem, «o rei da Nazaré», que deseja infalivelmente «servir», remove a cauda ao ouvir a voz da sua «alma imortal»! Examinada melhor, a pretensa alma revela-se como um «órgão» muito menos perfeito e menos harmonioso que o estômago ou um rim: «a imortal» possui inúmeros apêndices rudimentares e bolsas cheias de toda a espécie de humores gangrenosos, causa contínua de pruridos e de úlceras espirituais. Por vezes, é verdade, estes pruridos libertam-se em rimas, que são então apresentadas como poesia individualista e mística, agora impressa em «plaquettes».

Léon Trotski, in Literatura e Revolução, trad. Serafim Ferreira, Editorial Fronteira, Dezembro de 1976, pp. 44-45.

EPIFANIAS #28

28

As ondas resplandecem sob a noite sem luar. O navio entra num porto onde estão algumas luzes. O mar está inquieto, carregado de uma raiva fastidiosa como os olhos de um animal prestes a nascer, presa da sua própria fome impiedosa. A terra é plana e ligeiramente arborizada. Muitas pessoas estão reunidas na costa para verem qual é o navio que entra no seu porto.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

PARA O MENINO E PARA A MENINA

   Há dias, assisti boquiaberto à indignação de uma senhora, cujo nome não recordo, cujas funções desconheço, relativa a dois blocos de actividades à venda no mercado. Não sabia que a polémica havia nascido algures no ninho da estupidez, ou seja, nas redes sociais, pelo que fiquei curioso e fui verificar com os meus próprios olhos os objectos de queixa. Achei piada aos blocos e acabei por destacá-los em livraria. Não duraram meia hora. Venderam-se. A polémica, concluí, como geralmente acontece com todas as polémicas em torno de livros, sejam elas sobre direitos à privacidade, opiniões sobre o Alentejo ou estereótipos de género, teve o mesmo resultado de sempre: aguçar a curiosidade que leva à compra. 
   Entretanto, um humorista português desmontou a polémica fazendo umas graçolas com o estranho caso dos blocos de actividades. Afinal, não havia razão alguma para tanto alarde. Não passava tudo de uma tempestade em copo de água. Refira-se, a título de curiosidade, que os blocos da Porto Editora não são caso único. A Editorial Presença tem há muito o Livro de Atividades para Meninos e o Livro de Atividades para Meninas, assim como um livro com 2001 Autocolantes Para Meninos e 2001 Autocolantes Para Meninas. Há ainda os livros de actividades com piratas e os livros de actividades com princesas. Podíamos acrescentar a isto os livros de Histórias para Rapazes e Histórias para Raparigas, ou, como propões a Editora Educação Nacional, O Meu Livro de Contos Para Meninas e O Meu Livro de Contos Para Meninos. O delas tem uma fada com um coelho na capa, o deles tem um bombeiro com um cão. Na mesma editora encontramos, ainda, O Meu Livro de Histórias de Aventuras (para eles) e O Meu Livro de Histórias Mágicas (para elas). Portanto, os rapazes que aprendam com aventuras, as raparigas que cresçam com magia. 
   Desde que me conheço a trabalhar numa livraria que sempre vi disto, a novidade está nestas novas crises histéricas colectivas e na excitação das massas. A estupefacção de que falava a notícia do Público deixa-nos, ela mesma, estupefactos. Ou as pessoas têm andado a dormir, ou interessaram-se subitamente por estes temas, ou a estupidificação geral atingiu valores inimagináveis. Tendo para a última das hipóteses. O que há de inimaginável nos níveis de estupidificação é a atitude de quem deveríamos esperar ponderação e sensatez, para não exigir alguma inteligência. 
   A recomendação da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género não é apenas abstrusa, releva de um perigo em que estamos atolados e que tem as suas causas como terá as suas consequências. As causas são o desinvestimento, neste nosso novo mundo, na formação de massa crítica. Uma sociedade de tecnocratas dá nisto, as pessoas deixam de parar para pensar e respondem cada vez mais automaticamente aos estímulos. O conhecimento, a investigação, a ponderação, ficam para os burros, para os marginais, para os incompetentes, levam à hesitação e à dúvida, defeitos das máquinas produtivas que pretendemos para este novo mundo. Precisamos de autómatos formatados para o sucesso, dispensamos humanos preparados para a dúvida. As consequências a esperar deste novo paradigma são por de mais previsíveis, facilidades na manipulação da opinião pública, controlo das massas, o reino do logro e da mentira metamorfoseado na sua versão de pós-verdade. 
   Ninguém esperaria que na Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género houvesse alguém com o sentido de humor do Ricardo Araújo Pereira, mas esperar-se-ia um mínimo de sentido de estado. Arrastados pelo domínio da popularidade, os senhores da Comissão recomendaram a recolha dos Blocos. Não é algo de inédito na democracia portuguesa, mas é deveras preocupante. Mais preocupante por ter esta recomendação nascido como nasceu, impelida por uma tendência opinativa sem qualquer fundamento, apoiada apenas numa polémica de redes sociais. Estes sinais são preocupantes e obrigam-nos a uma atenção redobrada, pois, como afirma Paul Tabori «A estupidez dói, de facto; simplesmente, é raro que incomode o estúpido».

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

REGRESSO ÀS AULAS

Para meninos e para meninas, independentemente dos estereótipos de género e da identidade sexual:

«(...) ninguém ainda pensou obrigar gente estúpida a aprender a ser sensata ou tentou incutir-lhe uma pequena porção de inteligência. Esbanjamos milhões em bombas atómicas, mas os professores de todo o mundo são ainda os trabalhadores intelectuais mais mal pagos. / A estupidez dói, de facto; simplesmente, é raro que incomode o estúpido».

Paul Tabori, in História Natural da Estupidez, trad. Fernando de Morais, Book Builders, Março de 2017, p. 34.

domingo, 27 de agosto de 2017

GUN THE MAN DOWN (1956)

Referi-me anteriormente a dois filmes de Andrew V. McLaglen (n. 1920 – m. 2014), ambos da década de 1960, ambos com o lendário James Stewart como protagonista. O drama familiar Shenandoah (1965) e a comédia romântica The Rare Breed (1966) são, cada qual pelas suas razões, dois westerns a destacar numa filmografia maioritariamente dedicada a esse género. Mas McLaglen estreou-se ainda na década de 1950. Gun the Man Down (1956) foi o segundo filme que assinou enquanto realizador, o primeiro western depois de um estágio dignificante como assistente do mestre dos mestres John Ford. Para o efeito, requisitou um leque de actores que ou viriam a tornar-se emblemáticos ou já o eram por circunstâncias diversas. 
A actriz Angie Dickinson, aqui no seu primeiro papel relevante para cinema, viria a estrelar em Rio Bravo (1959), de Howard Hawks (n. 1896 – m. 1977), ao lado de John Wayne e de Dean Martin. James Arness, o herói de Gun the Man Down, ganhou fama neste filme como personagem do Velho Oeste, vindo a conquistar o importante papel de Marshal Matt Dillon em mais de 600 episódios da famosa série Gunsmoke. O actor Emile Meyer, no papel de sheriff, já tinha conquistado um lugar na história do western com participações em Man with the Gun/Sozinho Contra a Cidade (1955), Drums Across the River/Tambores ao Longe (1954) e no incontornável Shane (1953). Robert J. Wilke, o mau da fita, tinha integrado o elenco de High Noon/O Comboio Apitou Três Vezes (1952) e Harry Carey Jr. era à época um experiente actor com papéis em westerns eternos tais como The Searchers/A Desaparecida (1956), Rio Grande (1950) e Wagon Master/ACaravana Perdida (1950), todos com a assinatura de John Ford.


A primeira cena de Gun The Man Down, ainda anterior aos créditos de abertura, coloca em cena três homens e uma mulher. Eles alinham a táctica para o assalto a um banco enquanto ela os observa. No final da sequência, ficam dentro de casa apenas um dos homens e a mulher. Ele é James Arness, ela é Angie Dickinson. Estão apaixonados, abraçam-se e prometem-se um futuro melhor. O assalto será como que o financiamento possível para uma vida respeitável. Sucede que no decorrer do assalto, que não nos é dado ver (para quê?), ele regressa ferido. E ela acaba por abandoná-lo moribundo, fugindo com os outros dois elementos do grupo. Assim começa uma clássica história de traição, previsivelmente transformada numa tradicional história de vingança. O moribundo é capturado e condenado a um ano de prisão, sem denunciar os seus comparsas na determinação de que será ele a vingar-se no futuro. Assim seja. Paralelamente a essa narrativa algo previsível, de um moralismo típico que faz equivaler a traição à cobardia, temos a figura carismática do Sheriff Morton, interpretado por Emile Meyer, e do Deputy Lee, desempenhado por Harry Carey, Jr. 



Estes dois experientes actores acabam por ser a mais interessante parelha de um western iniciático. A voz da consciência é acompanhada nessa dupla pela experiência, nomeadamente a do Sheriff Morton. Ele distancia-se dos acontecimentos colocando-se no lugar de observador. Não interfere senão por mensagens subtis que demarcam o campo de acção, os limites da paciência e da tolerância. Deixa os acontecimentos correrem, mas com ponderação. Dá-nos a segurança de que domina as circunstâncias por antever nos actos as consequências. No duelo final, senta-se à sombra de uns arbustos a fumar um cigarro. A impaciência do assistente contrasta com a sua serenidade. E esta serenidade é exactamente o oposto da cobardia dos traidores, os quais se mostram precipitados e, por isso mesmo, a cada passo que dão mais se aproximam de um precipício fatal. O Sheriff Morton é um figurão discreto, nada tem que ver com o mito do sheriff implacável e intolerante, de uma coragem hiperbólica ou cativo da corrupção local. É um homem tão isolado nos seus métodos como o jovem Rem Anderson nos seus propósitos. Rem Anderson, a personagem de James Arness, é o moribundo renascido das cinzas com a intenção de se vingar. A intenção será satisfeita, mas desta feita sem trair a lei. Nele, a vingança será em legítima defesa. O Sheriff Morton compreende-o desde o início, sem juízos precipitados nem condenações irreflectidas. A distância e a observação oferecem-lhe essa capacidade. Ver no escuro não é função para qualquer animal. 

sábado, 26 de agosto de 2017

PALHAÇOS RICOS


Só gosto de boxe nos filmes, pelo que é impossível ficar indiferente à comédia instalada em torno do dito combate do século: Floyd Mayweather vs Conor McGregor. O primeiro é um campeão, o segundo é um histrião. Daí que seja ainda mais relevante responder à dúvida do século sobre o combate do século: estaria ou não Conor McGregor com uma erecção no momento da pesagem? A resposta a esta e a outras dúvidas como esta não serão facilmente encontradas nos jornais desportivos portugueses, mas no sítio do Record talvez possamos vislumbrar uma hipótese viável percorrendo a galeria das ring girls a serviço durante o tal combate. Digamos que um livro como a História Natural da Estupidez pecará sempre por defeito. Não há limites para a parvoeira humana. 

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

NAS PORTAS DO MUNDO


AS ANOTAÇÕES DE MALTE LAURIDS BRIGGE

O único romance de Rainer Maria Rilke (n. 1875 – m. 1926) foi publicado em 1910, dando vida a um jovem escritor chamado Malte Laurids Brigge: «Aqui estou sentado no meu pequeno quarto, eu, Brigge, com vinte e oito anos já feitos e que todos ignoram. Aqui estou sentado e não sou nada. E, no entanto, este nada começa a pensar e pensa, num quinto andar, numa tarde parisiense cinzenta» (p. 50). As Anotações de Malte Laurids Brigge (Relógio D’Água, 2003) recolhem, em breves trechos, os pensamentos desse jovem enquanto deambula pelas ruas da cidade de Paris, quando se perde no labirinto da memória, quando divaga sobre temas existenciais ao sabor da pena. Lembramo-nos do Livro do Desassossego ao ler estas anotações, mas a comparação não é justa. Ou talvez seja meramente formal. O olhar deste jovem solitário, mesmo quando se mistura entre o povo (jamais com o povo), é um olhar burguês, apesar de tudo apaixonado e algo deslumbrado pelos ouropéis de uma aristocracia em decadência. Nele se misturam fé e doença, a febre das visões e a imaginação dos místicos. A morte é um dos seus temas, e sobre a morte profere afirmações tão frias que, ao lê-lo, chegamos a duvidar de que estamos vivos. Estaremos? 
Brigge escreveu «um estudo sobre Carpaccio, que é mau, um drama chamado Matrimónio e que pretende provar algo falso com meios ambíguos, e versos» (p. 48). Apesar de lhe desconhecermos os versos, persentimos-lhes a exigência: «Para conseguir um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer os animais, é preciso sentir como voam os pássaros e conhecer o gesto das pequenas flores quando se abrem de manhã» (idem). Mas Brigge é de uma autocrítica implacável, escreveu versos que, afinal, segundo os seus padrões não podem ser considerados versos. Enquanto escritor, considera-se um logro. Esta ideia de logro mistura-se-lhe com a vida, com a existência. Será a vida de um homem um logro? Entregues aos caprichos do acaso, talvez sejamos acidentes da natureza. 
O medo é outro dos seus temas. Pobre Brigge, marginalizado, doente, tanto que quiseram fazer nele experiências com choques eléctricos. Pobre, isolado, solitário, Malte. A morte, o medo, a solidão, o vazio, são o que nele se impõe para lá das alucinações. A mãe queria-o menina, ele disfarçava-se, mascarava-se, via perecer por detrás da máscara o rosto da realidade. Talvez Malte seja um reflexo de Rainer, talvez entre Rainer e Malte exista uma proximidade que põe em xeque a verdade no tabuleiro da escrita. Dispensamos uma narrativa linear para que esta história seja contada, a história da criatura assimilada pelo criador. O que haverá de Malte em Rainer? O que haverá de Rainer em Malte? O vazio? O medo? A solidão? A morte. O autor vive e experiencia a morte da personagem, a personagem é em si mesma a morte do autor. A essência da personagem é a morte do autor. Os espíritos que pairam no ar ao longo do livro isso mesmo indiciam, as visões do jovem Malte, as alucinações, não nos indicam outro caminho senão o desta espiritualidade aplicada à criação literária. A personagem vê o espírito do autor, do seu criador, como uma espécie de fantasma ou anjo que a persegue. Da mesma forma, o autor é perseguido pelo fantasma da personagem. A existência de ambos revela-se nesta morte partilhada. Encontram-se como que num quadro, o tempo foi suprimido, o espaço real é agora outro, é o espaço de um encontro para lá das coordenadas que oferecem uma ilusão de materialidade ao mundo. 
Escutemos o próprio Malte Laurids Brigge: «Muitas vezes ponho-me a pensar como nasceram o Céu e a Morte: foi porque afastámos de nós o que nos era mais precioso, porque havia ainda tantas outras coisas a fazer primeiro, e porque essas coisas preciosas não estavam em segurança em nós, seres tão ocupados. Agora passaram séculos sobre isso e habituámo-nos a coisas menores. Já não reconhecemos o que nos é próprio e assustamo-nos perante a sua extrema grandeza. Não será isto possível?» (p. 159) No início do século XX, Rilke fazia um esforço final, através da sua personagem, contra o niilismo que então tomou conta do universo humano. «Afastámos de nós o que era mais precioso», «habituámo-nos a coisas menores», «já não reconhecemos o que nos é próprio e assustamo-nos perante a sua extrema grandeza». O que nos é próprio é a espiritualidade, tenha ela por objecto glorificador uma ideia abstracta de Deus ou a Natureza. É no seio da cidade, acossado pelos ruídos da cidade, que este jovem toma as suas notas isoladamente, distanciado de um mundo que voltou costas à espiritualidade. Comove-nos, não porque como ele tenhamos ou sintamos provas da Tua existência. Comove-nos como nos comovem todos os homens solitários, aqueles que podem concluir: «este século tinha de facto tornado terrenos o Céu e o Inferno: ele vivia das forças de ambos para sobreviver a si próprio» (p. 199). 
O misticismo de Rainer Maria Rilke não nos repele, admiramo-lo como a uma obra de arte por nele antevermos a dor de um confronto terrível com o vazio. Não é por acaso que em páginas tão próximas surgem evocações de Mariana Alcoforado e do olhar desorientado dos cães inseguros, pois «assim andamos nós, escárnio e metade de nós mesmos: nem seres autênticos, nem actores» (p. 206). É esta indefinição aquilo que mais atormenta o espírito de Malte Laurids Brigge, como hoje a pós-verdade atormenta a consciência do niilista. O problema já não é em que acreditar, o problema é não ter em que acreditar. A mentira impôs-se não deixando por detrás da máscara rosto algum, houve como que uma fusão entre o rosto e a máscara e é já tudo plástico, estilo, maquilhagem. Deus reduzido ao santuário, a Natureza reduzida ao zoológico, a humanidade perdida entre ambos como um mero visitante.

Rainer Maria Rilke, As Anotações de Malte Laurids Brigge, trad. e pref. de Maria Teresa Dias Furtado, Relógio D'Água, Dezembro de 2003.

PAIÓIS

Gravíssimo, vergonhoso, inacreditável, inadmissível. Há coisa de dois meses, o mundo parecia ter acabado. Um jornal espanhol arrasa Portugal, informava um jornal português. O exército era ridicularizado por oliveiras, alves, nunes, lopes, pereiras, mexias, tavares, vitorinos e congéneres. Os superlativos abundavam, a sociedade portuguesa parecia afundar-se num pântano de superlativos. Há coisa de dois meses. Parece que foi há 20 anos. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

ARCABOUÇO

Rio Maior, cidade onde se perseguiram comunistas, usando cocktails Molotov feitos com garrafas de conhaque e, entre outros artefactos, recorrendo… a mocas.


Ter nascido e crescido nesta terra deu-me um certo arcabouço. Também por lá andou um leão, mas essa é história de outros clubes

DO BOATO


   O boato é o principal alimento dos homens. Aumenta com inaudita rapidez. Basta uma frase, e pronto: corre, envolve, gira, domestica, cresce, baralha, mistura notícias e configurações, procura apoios, dá explicações, resolve qualquer contradição: é panaceia.
   São diversos os seus progenitores: velhos, guardas, cartas, rádio, externos, viajantes, fugitivos, camponeses dos arredores, vestíbulos, esperas, filas. 
   Abala os mais cépticos, exalta os abatidos, corre, voa e agita-se, desconhecido. De onde parte? Do ar e sempre com um saborzinho de verdade escondida. Cada boato tem o seu pequeno grão minúsculo, a questão é dar com ele, o sabor está na interpretação. Disseca-se e desdobra-se como uma célula qualquer, mais parideiro do que uma coelha. Forma grupos, desfaz reuniões, indo cada qual formar um novo centro, rede nervosa, rapidez de luz, toque de imaginação, vanguarda de desejos, fruto natural do sonho, pimenta da reclusão, erupção das noites, desgosto dos íntegros, calafrio de tolos, sonho incarnado de fracos. Desvanece-se com outro, e de boato em boato passa o tempo, boato de boatos. Faz-se noite, chega o sono e a morte: outro boato.

Max Aub, in Manuscrito Corvo, tradução e prefácio de Júlio Henriques, Antígona, Junho de 2017, pp. 98-99.

LIDOS OU RELIDOS EM 2008 (4)

“Crimes Exemplares”, Max Aub, Antígona (1995)


“Matei-o porque possuía uma pistola”, uma pistola na mão como a d’ “O estrangeiro” de Camus que os The Cure reciclam em “Killing an arab”, canção de fundilho cru minimalista do tempo das guitarras hertzianas tais as confissões recolhidas por Max Aub em “Crimes Exemplares”, livro que hoje faria as delícias de qualquer colecção de micro-ficção mas foi publicado por editora aficcionada por modos de dizer o crime, em exemplos “Matar não é crime”, de Edward Sexby ou “Agência de Assassínios”, de Jack London. Mas vale a pena seguir o absurdo na canção do árabe que morre na praia - não há culpa, pode estar calor, todos os caminhos vão dar à mesma porta, pode não estar calor:

“I'm standing on the beach

With a gun in my hand
Staring at the sea
Staring at the sand
(...)
I can turn

And walk away
Or I can fire the gun
Staring at the sky
Staring at the sun
Whichever I choose
It amounts to the same
Absolutely nothing
(...)”

Frases voluntariosamente comunicativas como “Dizem que sou tarado” ou “Ela cheirava a alho” sempre fizeram o meu género-leitor. E a verdade é que só posso sentir uma grande empatia espiritual com autores de projectos como “Matar, matar sem dó nem piedade, para avançar sempre, para abrir caminho e afastar o tédio.”

Há sempre uma razão para matar, eu mesmo (não se deve dizer “eu próprio” nos dias de sol) gostaria que os leitores exalassem um último suspiro sobre estas linhas, para assim me constritar mais depressa de não fazer nenhum esforço para vos merecer.

Impossibilitado pelo chilreio das avezinhas e o labor das senhoras que soltam as demoras, não devo mais que usar os seus cabelos à volta do pescoço da musa, com força exacta até que a língua se lhe protraia da boca, sem que silve ou a salve.

O resto, como eu ia dizendo, fica para os outros. Mortos.


Rui Costa (aqui)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

MANUSCRITO CORVO

Fruto da relação entre um alemão e uma francesa de origem judaica, Max Aub (n. 1903 – m. 1972) nasceu em Paris. O pai era, por assim dizer, caixeiro-viajante. Retido em Espanha aquando do início da I Grande Guerra, a família mudou-se para Valência aí se fixando e adquirindo nacionalidade espanhola. A formação de Aub será fundamentalmente espanhola, vindo a juntar-se ao Partido Socialista Operário Espanhol em 1929. A Guerra Civil empurrou-o novamente para França. Com a ascendência judaica e as opções de esquerda a servirem de estigma, foi feito prisioneiro no Campo Vernet (campo de concentração no sul de França). 
Apesar da obra vastíssima, Max Aub é conhecido em Portugal pela colectânea de estórias intitulada Crimes Exemplares. A editora Ulisseia recuperou, em tempos, o romance As Boas Intenções. E julgo ser tudo o que de Max Aub se encontra traduzido para português, à excepção da recentíssima edição de Manuscrito Corvo (Antígona, Junho de 2017).
No prefácio do tradutor, Júlio Henriques informa que Max Aub ficou detido em Vernet duas vezes, conseguindo finalmente fugir para o México, em 1942, graças ao cônsul mexicano em França «Gilberto Bosques Saldívar (1892-1995), o corajoso diplomata que salvou do nazismo mais de trinta mil refugiados» (p. 11). Nunca será excessivo lembrá-lo. Manuscrito Corvo surge com base em notas recolhidas dos tempos de Vernet. Quem fala é um corvo, ao que parece factual, que deambula pelo campo de concentração e observa a estranha realidade humana com que se depara. O tom é de fábula, embora a "língua corvina" praticada por Jacobo tenha pouco de fabuloso. Em breves apontamentos, por vezes brevíssimos, o corvo Jacobo descreve com apurado sentido satírico as desventuras da humanidade. 
Homem que leia este texto, algures indefinido entre a novela, o ensaio, o conto, tenderá a considerá-lo resultante de um humor negro deveras cruel. Mas cruel é ver num corvo o símbolo da morte. E ainda que este corvo desconheça o brasão de Lisboa, desconhecimento que o leva a ser omisso no que a emblemas diz respeito, não podemos dizer que esteja mal informado sobre assuntos maiores tais como a irracionalidade dos ismos, o absurdo dos deuses, as contradições do trabalho, a mania da higiene, a paranóia da burocracia e das hierarquias, o reinado do dinheiro, a arte da política:

DA POLÍTICA

   Definição: Arte de dirigir.
   Meio: Fazer da hipocrisia virtude. (Os que não o conseguem chamam-se sectários, parciais, fanáticos, ou simplórios, crédulos, cândidos.)
   Exemplo:
   — Quem, fulano? É um cabrão.
   Entre fulano.
   — Caro fulano! Há quanto tempo não te via! Por onde tens andado?

Em textos ora mais desenvolvidos, ora mais imediatos, Jacobo tem no campo de concentração uma espécie de zoológico humano ao seu dispor. Convenhamos que o ambiente não é exactamente natural, mas oferece uma panorâmica e um ângulo de observação que a bom entendedor bastará. A lógica deste campo, afinal, é a lógica da sobrevivência, a qual se aplica tanto dentro como fora de cercas e independentemente das guardas. Em síntese, poderemos sempre concluir «que se tivéssemos melhores olhos veríamos que os homens só compreendem uma infinitésima parte do existente e que essa mediocridade preside às suas vidas» (p. 133). Fábula de contornos satíricos, baseada numa experiência pessoal, Manuscrito Corvo amplia os absurdos da existência humana temperando-os com um humor irresistível. O trabalho, o dinheiro, a política, são dissecados com a simplicidade e o sarcasmo de quem nos olha como se estivesse a olhar na raiz antropológica de uma desgraçada condição. Por mais que sejam os títulos a que nos oneremos, afinal somos bichos. Ainda por cima sem asas. E é fundamental que o não esqueçamos. Melhor será que o lembremos amiúde, sob pena de julgarmos que no mal por nós perpetuado existe algo que não seja da nossa safra. A propósito:

DO FASCISMO

  O mundo humano anda agora dividido em dois: entre os que lutam pelo e contra o fascismo. Do ponto de vista empírico, está tudo claro, mas a minha sede de saber, a minha curiosidade, levou-me —para maior glória da ciência — a averiguar em que consiste tal pomo de discórdia. Eis o resultado parcial da minha investigação:
  Os Fascistas são racistas, e não permitem que os judeus se lavem ou que comam com os arianos.
   Os Antifascistas não são racistas, e não permitem que os negros se lavem ou que comam com os brancos.
   Os Fascistas põem estrelas amarelas nas mangas dos judeus.
   Os Antifascistas não fazem isso, basta-lhes a cara do negro.
   Os Fascistas põem os antifascistas em campos de concentração.
   Os Antifascistas põem os antifascistas em campos de concentração.
   Os Fascistas não permitem greves.
   Os Antifascistas acabam com as greves a tiro.
   Os Fascistas controlam as indústrias directamente.
   Os Antifascistas controlam as indústrias indirectamente.
   Os Fascistas podem viver em países Antifascistas.
   Os Antifascistas não podem viver em países fascistas nem em alguns países antifascistas.

É certo que o mundo mudou, não é o mesmo que era na década de 1940. Feita a ressalva, o leitor que descubra as diferenças.

EXERCÍCIO FILOSÓFICO (PERIGOSO)

No decorrer de um ataque terrorista, um indivíduo armado com uma faca dirige-se na tua direcção ameaçando decapitar-te. Ao teu lado, um neonazi declarado predispõe-se ajudar-te combatendo o terrorista. O que farias?

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

VERBO DESOPRIMIR


O que mais lamento nos pormenores da minha vida de que me esqueci é não haver feito um diário das minhas viagens. Nunca pensei tanto, nunca fui tanto eu, se assim ouso exprimir-me, como nas que fiz só e a pé.


Andar tem qualquer coisa que me anima e aviva as ideias: quase não posso pensar quando estou parado; preciso pôr o corpo em movimento para que o espírito o esteja também.


A vista dos campos, a sucessão dos aspectos agradáveis, o bom ar e o bom apetite, a boa saúde que adquiro andando, a liberdade das tascas, o afastamento de tudo quanto me faz sentir a minha dependência, de tudo o que me recorda a minha situação, tudo isto desoprime a minha alma, me dá uma maior audácia de pensar, me lança de certo modo na imensidão dos seres, para os combinar, escolher, fazê-los meus à minha vontade, sem constrangimento e sem temor.


Disponho da natureza inteira como seu senhor; o meu coração, errando de objecto em objecto, une-se, identifica-se com os que lhe agradam, rodeia-se de imagens encantadoras, embriaga-se com sentimentos deliciosos.


Se para os fixar me distraio a descrevê-los para mim mesmo, que vigor de pincelada, que frescura de colorido, que energia de expressão eu lhes não dou!


Dizem que tudo isso se encontra nas minhas obras, embora escritas no declinar dos anos. Oh! se tivessem visto as da minha primeira mocidade, as que fiz durante as minhas viagens, as que compus e nunca escrevi!...


Porque não as escrevo, dizeis vós? E por que hei-de escrevê-las, responderei eu? Por que hei-de roubar a mim próprio o encanto presente do prazer, para dizer aos outros que tive esses prazeres?


Que me importavam os leitores, um público, toda a terra, quando eu planava no céu? Aliás, levava eu acaso comigo papel e penas? Se houvesse pensado em tudo isso, nada me teria ocorrido.


Não previa que viria a ter ideias; estas vêm quando lhes apetece, não é quando me apetece a mim.


Ou não vêm, ou vêm em tropel, e o seu número e a sua força prostram-me.


Dez volumes por dia não chegariam. Onde arranjar tempo para os escrever?


Ao chegar, só pensava em jantar bem. Sentia que um novo paraíso me esperava à porta. Só pensava em ir em sua busca.


Jean-Jacques Rousseau, in Confissões, Volume I, trad. Fernando Lopes Graça, pref. Jorge de Sena, Relógio D'Água, 1988, pp. 166-167.

domingo, 20 de agosto de 2017

UM POEMA DE RUY CINATTI

7

Ao Ruy Leitão

Deixem-no só,
Sozinho,
Ao bebedor de estrelas.

Deixem-no só,
Sozinho,
Entregue à sua loucura,
À sua saúde,
Sem dicionário.

Deixem-no só,
Sozinho,
Neste momento
Em que as estrelas
Se descerram ao mundo.

Deixem-no só,
Sozinho,
Neste momento
Em que as estrelas cintilam.

Neste momento
Em que as estrelas
Proferem
Nos seus lábios
Os mistérios profundos
Que iluminam por toda a eternidade.

Deixem-no só,
Sozinho,
Ao bebedor de estrelas.

Deixem-no só,
Matar-se,
Por um pouco mais de claridade.

Ruy Cinatti, in Obra Poética, Volume I, pref. Joana Matos Frias, Assírio & Alvim, Outubro de 2016, pp. 213-214.

JERRY LEWIS (1926-2017)


BANDA SONORA ESSENCIAL #16


   O maior desafio que o mal nos coloca é sermos bons. Não se trata de responder ao mal recorrendo aos chavões religiosos da outra face oferecida ou da pena de talião, mas sim de oferecer à razão o tempo de um juízo moral ponderado. É cada vez mais tentador responder instantaneamente a todo o tipo de problemas. A alucinante prática do zapping produz os seus efeitos nefastos em campos inimagináveis. Termos roubado ócio à sensibilidade, mais do que à razão, foi um dos maiores erros a serem futuramente atribuídos a esta nova era tecnológica. Não é preciso ser-se pitonisa para o adivinhar.
   Evitando colocar tudo no mesmo saco, como responder às investidas da extrema-direita neonazi nos EUA? Como responder ao fundamentalismo islâmico do Daesh? Como responder até à insanidade dos pirómanos que vêm transformando o Verão de 2017 num dos mais nefastos da história da democracia portuguesa? Talvez seja imaginoso exigir que amemos essa gente, mas não deixa de ser um contra-senso odiá-los como eles odeiam o mundo. E o que essa gente, nos seus respectivos domínios, odeia é, precisamente, o valor maior de qualquer espécie de humanismo: a solidariedade. Mais do que a tolerância, tão facilmente confundível com bananice, ser-se solidário é um bem imenso que devemos à doutrina humanista.
   Cantava há anos o José Mário Branco, «Ser solidário assim pr’além da vida / Por dentro da distância percorrida / Fazer de cada perda uma raiz / E improvavelmente ser feliz». A quadra é de uma inteligência atroz, muito por culpa do advérbio. A felicidade não é uma probabilidade na vida de quem opte pela solidariedade, mas o ódio também não é. E, por consequência, o mal fica arredado. Constrói-se, cria-se, gera-se. Exactamente o oposto da ruína abraçada pelos paranóicos do Apocalipse. Ao contrário do que atabalhoadamente afirmava o actual presidente da mais poderosa nação do mundo, não há dois lados nesta história nem gente boa de um lado e do outro. A boa intenção conciliadora redunda num maniqueísmo insuportável, pois coloca do lado do mal aqueles que são bons, o que será sempre mais grave do que colocar do lado dos bons aqueles que são maus.
   Mas ser solidário como? Com quem? Com os energúmenos do Daesh? Com os neonazis? Com os pirómanos? Obviamente não. Recorrendo mais uma vez ao poema, «Ser solidário sim, por sobre a morte / Que depois dela só o tempo é forte / E a morte nunca o tempo a redime / Mas sim o amor dos homens que se exprime». O amor penetra então as nossas contas, o amor que surge da oferta ao outro, da entrega ao outro, daquele simples abraço que um rapaz muçulmano andou a oferecer em Manchester após os atentados nessa cidade. O terror é uma merda, o ódio que o fundamenta e estruma tem a sua origem nessa incapacidade de abraçar e amar o diferente, de nos apaixonarmos pelo diverso. É sobre estas coisas que José Mário Branco canta no álbum de 1982, sobre estas e outras porventura mais datadas. Mas estas ficarão para sempre, perdurarão no tempo, vencerão a morte e o esquecimento. O ódio não. Ainda que seja inextinguível, ele não vencerá nada. Porque ele é tão-somente morte.


sábado, 19 de agosto de 2017

EPIFANIAS #27

27

   Levemente, sob a pesada noite de Verão, através do silêncio da cidade que transformou sonhos num sono sem sonhos como um amante fatigado a quem nenhuma carícia sensibiliza, o som dos cascos sobre a estrada de Dublin. Não tão levemente agora que se aproximam da ponte; e momentaneamente, enquanto passam as janelas negras, o silêncio é cortado por alarme como que por uma seta. São agora escutados ao longe — cascos que brilham como diamantes entre a noite pesada, apressando-se para lá da cinza, pântanos quietos para o fim da jornada — qual coração — gerando que notícias?

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

BACK TO WORK

Tem O Diário da Ana Franca?

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"TÃO VAGABUNDO EU FUI"

Se excluirmos o conto Ossobó, a Obra Poética de Ruy Cinatti iniciou-se em Março de 1941 com a publicação de Nós não Somos deste Mundo. O primeiro verso desse livro é inteiramente definidor da obra subsequente e da biografia que a sustentou. Raramente um primeiro verso terá sido identicamente sintomático de uma obra tão vasta, aparentemente num pretérito perfeito desadequado em livro de estreia. O poema:

1

Tão vagabundo eu fui
Neste campo de flores e silvas;
Aqueles que eu conheci não só vieram
Como se esconderam além de mim.

Em vão procuro arrancá-los,
A eles que por amigo me tomaram.
No sangue, indistintos, já de carne,
A carne do meu espírito formaram.

Agora, eu procuro a extrema-unção.
Mergulho num mar como se vê nos sonhos;
Não existem fantasmas que me salvem
E os outros desconhecem-me a imaginação.

Eis que eu apelo aos que me odeiam,
Dobrando-me a um tormento mais terrível;
Os que me amam, conhecem o mistério
Que torna a minha voz inesquecível.


Ruy Cinatti, in Obra Poética, Volume I, pref. Joana Matos Frias, Assírio & Alvim, Outubro de 2016, p. 55.

SELVAGEM CHIQUE

   Trago das férias uma proposta turística: mudar o nome da Costa Vicentina para Parque Natural dos Selvagens Chique. Com a proliferação de escolas de surf a desafiarem a nossa inteligência, tornou-se quase impossível entrar no mar para um simples mergulho sem dar pelo menos três porradas em pranchas desse desporto que, julgava eu, se praticava com ondas. Vistos do alto da falésia, os tipos com a indumentária neopreno parecem melgas a boiar em águas mortas. Encontrarem ondas surfáveis em algumas daquelas praias será tão provável como virem a ganhar o Euromilhões. O mais que poderão almejar é uma fotografia ridícula para partilharem no Instagram, enquanto mães, namoradas, tias, primos, ocupam o que sobra de areal com as objectivas e os telemóveis e os tablets apontados para o mar.
   No intervalo das águas mortas, havendo café por perto, pagam-se 7€ por uma caipirinha ou 4€ por um café e uma água ou 2€ por uma mini enquanto o tipo das bolas de Berlim percorre a costa com longos pregões: olha a Bola de Berlim com creme, sem creme, de alfarroba, com Nutella ou chocolate. Perguntei a um se tinha pagamento por multibanco, respondeu-me que não. Mas sugeriu-me a adesão ao cartão de cliente. À décima bola, teria direito a uma bolacha americana. Com Multibanco só me safei na miúda dos tererés e das pulseiras com conchinhas, uma neo-hippie com unhas de gel onde sorridentes rostos de panda olhavam para mim como se me quisessem devorar.
   Começa a ser raro e difícil encontrar praias por aqueles lugares, praias sem banhistas, apenas com tipos e tipas que apreciem mar, rocha, areia e mordidelas de mosquito, que não careçam de raquetes nem de futebóis nem se armem ao pingarelho com pranchas enterradas na areia. Praias que admitam caniches e outras espécies caninas desde que devidamente vacinadas. Com a paisagem neste estado, como pode depois alguém aguentar pacientemente quatro horas para ser atendido num restaurante tão barulhento que mais parece uma tasca na Feira de Agricultura de Santarém?
   Este novo conceito de Selvagem Chique, já instalado, mas indevidamente explorado, aguarda certos desenvolvimentos. Algumas ideias: tendas de campismo com ar condicionado; carrinhas pães de forma com acesso ilimitado a Internet e plasma que permita assistir condignamente a tudo o que é série no Netflix; venda de cerveja em mochila nas praias; acrescentar a opção Donuts às Bolas de Berlim, assim como pacotinhos de bolachas Oreo (as crianças estão cada vez mais exigentes na sua dieta alimentar); espalhar mosquiteiros pelos areais e colunas de som nas arribas, oferecendo aos banhistas o conforto de uma piscina de Hotel cinco estrelas; aditar às tendas de massagem tailandesa, ou coisa que se pareça, áreas de jacuzzi com banheiras de hidromassagem; nas praias pouco areadas, pavimentar com piso flutuante para que os seixos não magoem pezinhos lanudos.
   Há todo um conjunto variado de alternativas que poderão cativar um turismo cada vez mais exigente. Recordemos que os freaks há muito deixaram de ser meros freaks, com a evolução dos tempos foram promovidos a freaks burgueses habituados a todo um estilo de vida muito mais sofisticado. A Natureza é bela até fazer a terra tremer ou, vá lá, até nos picar com ferrões de abelhas. A este propósito, muito importante rever o conceito de trilhos assinalados para percursos pedestres. Não se admite que nos tempos que correm estes trilhos não sejam devidamente acompanhados de áreas de serviço, pelo menos, de 300 em 300 metros. Os terrenos pouco ou nada debastados também não ajudam, sendo a proliferação de vegetação um factor claramente dissuasor da caminhada.
   Por fim, é absolutamente fulcral que a política de arrendamento nestas zonas seja revista. Não se admite a continuada e reiterada propaganda de montes e alvéolos onde proliferam aranhiços, moscas e vacarias nas proximidades. Para não falar de grilos ensurdecedores e de formigas assassinas. Casas sem refrigeração central em pleno Verão são um insulto ao turismo selvagem chique em pleno século XXI, ainda para mais tendo em conta as dificuldades de acesso a Internet que obrigam as pessoas a falar umas com as outras quando poderiam distrair-se a actualizar perfis de Facebook. O Selvagem Chique é um novo turista exigente nos seus propósitos e qualificado nas suas atitudes, obriga a uma oferta sofisticada e atenta. Não podemos perder tamanha oportunidade para a economia nacional. Demos os primeiros passos na direcção de um objectivo para o qual ainda nos falta uma longa caminhada. Tenhamos ânimo, ergamos os pareos. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

FALA MALTE LAURIDS BRIGGE

   Quando se fala dos homens solitários, pressupõe-se sempre demasiado. Pensa-se que as pessoas sabem de que se trata. Não, não sabem. Nunca viram um homem solitário, apenas o detestaram, sem o conhecer. Foram os seus vizinhos que o consumiram, e as vozes do quarto ao lado que o tentaram. Excitaram as coisas contra ele, para que fizessem barulho e o abafassem. As crianças juntaram-se contra ele, por ele ser delicado e criança, e a cada momento do seu crescimento crescia contra os adultos. Eles seguiam o seu rasto até ao seu esconderijo como um animal que se pode caçar e a sua longa juventude não teve época de defeso. E quando não se deixava ficar exausto e escapava, eles gritavam sobre o que dele procedia e diziam que era feio e lançavam  suspeitas sobre ele. E quando não lhes dava ouvidos, tornavam-se mais óbvios e devoravam-lhe o alimento e respiravam-lhe o ar e cuspiam na sua pobreza, para que ela se lhe tornasse repugnante. Difamavam-no como se fosse contagioso e atiravam-lhe pedras, para que se afastasse mais depressa. E tinham razão no seu instinto antigo, pois ele era verdadeiramente o seu inimigo.
   Mas quando ele não levantava os olhos, reflectiam. Pressentiam que com tudo isso só lhe faziam a vontade; que o fortaleciam no seu estar só, e o ajudavam a desligar-se deles para sempre. E então mudavam de táctica e lançavam mão a um último recurso, o mais extremo, a outra resistência: a fama. E com esta ruidosa agitação quase todos levantavam os olhos e se distraíam

Rainer Maria Rilke, in As Anotações de Malte Laurdis Brigge, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Relógio D'Água, Dezembro de 2003, pp. 173-174.

SAM SHEPARD (1943-2017)


Sam Shepard marcou-me, sobretudo, como autor de Crónicas Americanas, um livro por cá publicado pela extinta Difel. Citei-o aqui
Foi um excelente actor. Dei por ele a primeira vez em Days of Heaven (1978), de Terence Malick. A última, foi em O Assassínio de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford (2007), belíssimo western de Andrew Dominik. 
Assinou vários argumentos para filmes, entre os quais o de Paris, Texas (1984), de Wim Wenders. 
Citei-o aqui, há coisa de sete anos, a propósito de matéria essencial. 
Em 2008, publiquei na revista Big Ode um conjunto de estórias a que dei o título de Crónicas Europeias. Não faltou a epígrafe de Sam Shepard. 
É mais uma referência que desaparece. Tem sido assim nos últimos anos, suponho que deva ser assim nos próximos. Atravessando o Paraíso é um título pertinente, dadas as circunstâncias:

CONTIGO NÃO HÁ DISTÂNCIA

   Não consigo lembrar-me como é que era antes de te conhecer. Eu era sempre assim? Lembro-me de mim perdido. Quanto a isso nenhuma dúvida. Deambulando. De nada em nada. De alucinada em alucinada. Permanecendo, por vezes, apenas o tempo suficiente para compreender que o desnorte delas era mais pronunciado do que o meu. Pelo menos é assim que elas me aparecem. Mas não me lembro de estar assim nervoso como estou agora; assim em frangalhos. Observava-as muito de longe, muito à distância: pedradas, ensaiando banhos de esponja nos seus lavatórios; aparando bolas pretas de haxixe com lâminas de barbear; movendo-se como rainhas em câmara lenta. Depois, transformavam-se em raparigas em quintais de já lá vai muito tempo, desfazendo-se em risinhos e aninhando as longas pernas debaixo do aconchego dos seus corpos: a maneira como se afundavam sobre os seus macios calcanhares e depois meneavam muito o cabelo como cavalos sacudindo as caudas.
   Mas contigo não há distância. Todos os movimentos que fazes, sinto-os como se viajasse na tua pele; as tuas espreitadelas da janela, como se tu estivesses completamente sozinha e sonhando num outro tempo qualquer. De nada me serve dar aos braços a dizer adeus. Agora, está tudo ao contrário.

15/5/95 (SCOTTSVILLE, VIRGINIA)


Sam Shepard, in Atravessando o Paraíso, trad. José Vieira de Lima, Difel, Fevereiro de 1997, p. 85.

CASTIGO DO SENHOR?

Avião atropela banhistas, árvore mata peregrinos, fogos nunca vistos dizimam país ceifando dezenas de vidas. Tudo no ano em que o embuste de Fátima celebrou um centenário com a visita oficial do Papa. 

DUAS SEMANAS

Uma certeza: não senti falta do mundo.