quarta-feira, 15 de novembro de 2017

UM POEMA DE RUI BAIÃO

Memento mori

O importante é saber se trabalhar cansa.
Só de me rir continuo a morrer. Morto, e bem morto
na morte esse o teu chip romântico?... Trabalhar cansa,
corrói tudo por dentro, como as ratazanas sabem.
Euseilá, se sou meio cá meio lá, de encontro ao muro,
no chão, ou no sofá. A dívida de tão infra humana, o termo-
-aquecimento, os drones a cert'altura, a geolocalização.
É tudo tão triste, euseilá se um peregrino a fazer químio
faz toda a diferença? Euseilá se faz pena uma cidade
com berças. É só conversa, certos Estados democráticos
idem idem, do wi-fi da tua alma que é tão fraco. Do viral terror,
das doenças terminais. Enfim, morrer, morrer de mais cansa.
Dá trabalho a muita gente, a fechadura romântica!?
Trabalhar, dá vontade d'estar preso, d'abrir os portões ao paiol.
Dar de cabra sem saber, se uma chamada caída,
se um avião desviado. A um não-doente, a comichão política
& exsudativa da nação. O prémio da montanha
é de louvar a descida aos infernos. Dá vontade de bazar
daqui para fora. A correr, a saltar. A pular quando
morro a pedalar. Não trabalhar é imperioso.


Rui Baião, in Barbearia Tiqqun, Frenesi, Setembro de 2017.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

VIVA O CAPITALISMO

   A família de Mollie estava a atravessar uma ponte entre, não apenas dois séculos, mas também duas civilizações. A aflitiva situação da família piorou ainda mais em fins dos anos 1890, quando o governo americano intensificou a sua investida rumo ao auge da campanha de assimilação: a distribuição de lotes. De acordo com esta política, a reserva osage seria dividida em parcelas de sessenta e quatro hectares, em propriedade imobiliária; cada membro da tribo receberia um lote, e o resto do território seria aberto aos colonos. O sistema de lotes, que já fora imposto a muitas tribos, foi concebido para acabar com o antigo modo de vida comunitário e transformar os índios americanos em proprietários de terra - uma situação que, não por acaso, tornaria mais fácil a compra das suas terras.
   Os Osage tinham visto o que acontecera à Cherokee Outlet, uma vasta pradaria perto da fronteira ocidental da reserva osage. Depois de o Governo ter comprado a terra aos Cherokee e esvaziado de gente a região anunciou que, ao meio-dia de 16 de setembro de 1893, um colono poderia reivindicar uma das quarenta e duas mil parcelas de terra - desde que ele ou ela chegasse lá primeiro! Durante dias antes dessa data, dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças tinham vindo de locais tão longínquos como a Califórnia ou Nova Iorque, aglomerando-se ao longo da fronteira; a massa andrajosa, imunda, desesperada, de seres humanos, estendia-se até se perder de vista, como um exército pronto a lutar contra si mesmo.
   Finalmente, depois de as autoridades terem abatido vários «apressados» que tentaram passar a fronteira antes do tempo, soou o tiro de partida - UMA CORRIDA PELA TERRA COMO NUNCA FOI VISTA NO MUNDO INTEIRO, como intitulava um jornal. Um repórter escreveu: «Homens desatavam ao murro até que os mais fracos ficavam por terra. Mulheres gritavam e caíam desmaiadas, correndo o risco de morrerem sob os pés da multidão.» E acrescentava: «Homens, mulheres e crianças jaziam por terra ao longo de toda a pradaria. Aqui e ali, homens lutavam até à morte, reclamando cada um que tinha chegado primeiro a determinado sítio. Navalhas e espingardas eram empunhadas - uma cena terrível e impressionante; não há nenhuma pena capaz de a descrever. (...) Era uma luta em que, de uma maneira muito clara, o que estava em causa era o salve-se quem puder e que valha a lei do mais forte.» Ao cair da noite, a pradaria cherokee estava já reatalhada em pedaços.

David Grann, in Assassinos da Lua das Flores - A Matança dos Índios Osage e o Nascimento do FBI, trad. José Vieira de Lima, Quetzal Editores, Julho de 2017, pp. 69-72. 

FALAR PARA O BONECO


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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

WC MAIS SEXY DO MUNDO

“Querem fazer do Panteão sacrossanto? Muito bem. Então lembrem-se que este é o país cuja Assembleia da República aprovou a trasladação de Eusébio para o Panteão um ano após o seu falecimento, mas que ainda não conseguiu para lá levar Aristides de Sousa Mendes quase oitenta anos depois de ele ter salvado milhares de vidas na IIª Guerra Mundial. Mais: este é o país no qual, se acontecesse a desventura de falecer Cristiano Ronaldo, a AR teria em toda a coerência de levar o CR7 para o Panteão ainda antes de lá pôr um “justo entre as nações” como Aristides. E repetir-se-ia para muitos dos escandalizados de hoje o aplauso geral com que não falharam ontem.
Querem respeitar o simbolismo dos monumentos nacionais? Muito bem. Reparem então, de cada vez que passarem pela Praça do Comércio, espaço central da nossa simbólica de Estado, que a República mais visível que lá encontrarão é a República… da Cerveja. Reparem que um pedaço da mesma praça está ocupado por uma coisa chamada o “WC mais sexy do mundo”, concessionado para permanente propaganda de uma marca de papel higiénico (é ao lado do Ministério das Finanças; paga-se 50 cêntimos para usar os urinóis e passam fatura com número de contribuinte, portanto deve estar tudo certo). Isto nunca escandalizou ninguém em Portugal. Perguntem-se se o mesmo aconteceria na Praça de São Pedro, no Louvre ou no Kremlin.”


Rui Tavares, aqui.

BANDA SONORA ESSENCIAL #25



   Entre as muitas canções popularizadas por Chet Baker, “Like Someone In Love” ocupa um lugar especial. Composta por Jimmy Van Heusen, com letra de Johnny Burke, foi ao longo dos anos objecto de inúmeras versões. Em 1993, a islandesa Björk Guðmundsdóttir incluiu-a no álbum que acabaria por catapultá-la para a fama internacional.
   Antes de Debut (1993), Björk já tinha editado dois álbuns a solo e colaborara com várias bandas. Os The Sugarcubes serão a mais conhecida. O gosto pela música jazz ficara patente no álbum Gling-Gló (1990), pelo que a versão de “Like Someone In Love” não espantou. Às vezes amo Björk, outras vezes odeio-a. Esta relação bipolar tem na sua origem um preconceito para com o deslumbramento visual que acompanha amiúde as suas produções. O engenho vocal ninguém lho tira, pelo que por vezes lamenta-se o excesso de parafernália visual que se lhe sobrepõe. É como pôr demasiada maquilhagem num rosto naturalmente belo.
   Em Debut, “Like Someone In Love” afirma-se como um momento de irresistível intimismo. Acompanhada por uma harpa, Bijörk canta sobre o som das ondas do mar, depois de no início do tema ouvirmos o sorriso de crianças e o motor de um carro a chegar e a partir. Canta para as estrelas, canta para o mar, canta para o pôr-do-sol, enquanto à sua volta finda mais um daqueles dias que Lou Reed classificaria de “perfect”. Ou será que faz testes de som antes de iniciar uma noite de trabalho num clube nocturno?
   “Like Someone In Love” surge a meio do álbum, como uma espécie de pausa entre temas que percorrem tanto os domínios da pop electrónica, perfeitamente dançáveis, tais como “Big Time Sensuality”, e a elegância de baladas com orquestrações românticas ao género de “Come To Me”. Outro momento igualmente intimista e desnudado no álbum é o tema final, “The Anchor Song”. Já este ano, Björk presta-se a reaparecer com um visual directamente inspirado em obras de literatura fantástica ao estilo nórdico. O disco chama-se Utopia. Prefiro-a desmaquilhada ou como no magnífico tema “Aeroplane”, em busca de um lugar que suplante a solidão de corações ao abandono. 


PAI

A poesia é não só, mas também, um discurso das emoções. Mais do que exprimir sentimentos, resvalando por vezes para o sentimental, o poema, como qualquer outra obra de arte, coloca-nos em contacto com a emoção. Um filme emociona-nos, uma canção emociona-nos, um quadro emociona-nos, uma peça teatral emociona-nos. Porque haveria de ser diferente com o poema? Mau seria que se esgotasse na emoção a razão de ser da obra de arte. Ela instiga a reflexão, aclara o obscuro, introduz-nos e inicia-nos no esotérico, exercita o pensamento, mas não podemos esquecer nunca esta ligação da obra de arte às emoções. Ainda para mais quando se torna evidente a conexão entre as emoções e o pensamento. Podemos julgar que na raiz deste contacto, no que respeita à obra de arte, reside uma ideia de beleza, conquanto aceitemos que essa ideia de beleza não recuse a fealdade enquanto contraponto que reforça o belo. A fealdade é aliada da beleza, na medida em que a sua exposição leva-nos a ansiar pelo seu contrário. Sentimentos tais como a raiva e o ódio exigem-nos um encontro com a solidariedade e com o amor. A tristeza, a alegria, a melancolia, que é mais um estado de alma do que um sentimento, surgem entre os mais universais dos estímulos para a concepção do poema: o amor e a morte. 
A elegia será, provavelmente, a forma poética que melhor interliga o amor e a morte. Carlos Bessa (n. 1967) publicou recentemente "uma elegia" de 33 poemas, em memória de seu pai, falecido no ano de 2016. O título Pai (do lado esquerdo, Maio de 2017) vai directo ao assunto, escusando apetrechos líricos que a situação de luto desvaloriza. Há neste livro poemas arriscados, como os intitulados Mesa Mediterrânica e Percursos, devedores in extremis de uma necessidade de clareza que o título do conjunto sugere. Noutros poemas, o autor ocupa-se na recuperação de memórias remexendo cofres ao abandono, capta as rotinas do pai falecido, caracteriza-lhe a personalidade e constrói-lhe uma história, expõe as últimas horas e rememora situações passadas, numa busca de sentido para a vida que é, ao mesmo tempo, uma tentativa de compreensão d’«O estupor da morte que nos assalta a razão» (p. 23). 
No que de melhor ofereceu à filosofia, Martin Heidegger desenvolveu a ideia do ser enquanto ser para a morte. Sabemos que não teremos a experiência da nossa própria morte, mas a experiência da morte dos outros é, de algum modo, a experiência limite que podemos ter da nossa morte. Tratando-se da morte de um pai, a relação de proximidade intensifica essa experiência. Isso mesmo surge sublinhado num pequeno e belíssimo poema intitulado Espelho: «Dizem que somos parecidos / como quando ao nascer se projectam / laços e afinidades. Devemos ser, / mau grado as tantas diferenças. / Somos de tempos distintos. / Na verdade, tu sempre foste melhor, / mais perto dos outros. Eu hesito, / ainda, como se o nome, o meu, / fosse todo o peso de uma herança» (p. 35). A herança não é aqui apenas a de um nome, nem a que os elos filiais determinam, é igualmente uma herança de valores que a perda obriga a reconhecer com a mesma clareza com que se reconhecem «laços e afinidades». 
Os momentos de tardia declaração de admiração que surgem em alguns destes poemas, sem nunca se perderem num sentimentalismo inócuo, são testemunhos pungentes de uma lição para a vida proferida pela experiência prática da morte: «O corpo está na capela mortuária, / tem de falar com uma funerária. Como / se nos piores momentos a morada da poesia / fosse o silêncio que rompe a noite num ah, / há que agir, que falar, que acordar, que pensar. / É preciso combater a anestesia e / arrumar a dor» (p. 26). Talvez os versos, na sua inutilidade mais do que acusada, denunciada, até apregoada, sirvam pelo menos para isto: arrumar a dor. Assim sendo, é um sinal de arrumação que dos 33 poemas que compõem o livro, em coincidência com a data de nascimento da personalidade invocada, o último tenha por tema precisamente o amor. A morte e o amor, os mais universais dos estímulos para a concepção de um poema, numa elegia ao jeito da síntese que a poesia permite quando é sinal de beleza:

CARTAS, MAPAS E LIVROS

O amor, mil maneiras de enlouquecer, é um aviso.
O que importa é o arrebatamento e esquecer,
não fazer perguntas ao passado, às histórias tristes
e banais, manchadas de ritmos que afugentam.

O amor, como lâmpadas que se enroscam e raízes
que se infiltram e espalham num labirinto de confronto.
Frases encaixadas umas nas outras e associações que
envolvem o corpo num peso sem peso, sem infâmia,

apenas luz, apenas cor. Como naquela solarenga tarde
de frio em que os livros foram nossos aliados
na longa caminhada que nos levou por um circuito
de árvores, ruínas e ruas esburacadas de Ermesinde.

UM POEMA DE CARLOS BESSA

MESA MEDITERRÂNICA

Figos, castanhas, laranjas, tangerinas.
Nêsperas, pêssegos, cerejas, melancia.
Uvas, pêras, bananas, kiwis.
Nozes, avelãs, pinhões, amêndoas.

Tripas, rancho, feijoada, chispe.
Cabidela, leitão, lebre, cabrito.
Agrião, alface, salsa, hortelã.
Cozido e mil e uma maneiras de bacalhau.

Robalo, badejo, solha, tainha.
Enguia, lampreia, abrótea, faneca.
Marmota, carapau, chicharro e sardinha.
Salmão, cavala, truta, pescada.

Salmonete, dourada, sargo, peixe-espada.
Chocos, lulas, polvo, cavaco.
Santola, sapateira, lagosta e camarão.
Queijos, enchidos, mostardas e pão.

Alvarinho, verde branco e tinto.
Douro, Ribatejo, península de Setúbal, Alentejo.
Madeira, Porto, aguardentes velhas.
Moscatel, rum e gin. Prazeres simples.


Carlos Bessa, in Pai, do lado esquerdo, Maio de 2017, p. 12.

PROPOSTA PARA PALAVRA DO ANO

Cativações.

domingo, 12 de novembro de 2017

PANTEÃO DE PAROLOS

Subitamente, um sem número de gente acordou para os jantares no Panteão. Os telejornais abrem com o assunto, chamam a si os comentadores, insistem e persistem e é como se nunca antes se tivesse visto coisa assim. Isto só prova que os mortos que ali repousam são os menos mortos deste país de parolos e de parolices. Que tédio.

EPIFANIAS #33

33

   Passam aos pares e em trios por entre a vida na avenida, caminhando como pessoas com tempo livre num espaço por eles iluminado. Estão na pastelaria, tagarelando, esmagando pequenas construções de pastelaria, ou silenciosamente sentados em mesas junto à porta do café, ou descendo de carruagens com agitados agasalhos suaves como a voz do adúltero. Passam num ar de perfumes: sob os perfumes os seus corpos têm um cheiro quente húmido. . . . . Nenhum homem os amou e eles não se amaram a si mesmos: nada deram por tudo quanto lhes foi dado.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

«Do cavalo… Nada sabemos.»


Nietzsche declarou a morte de Deus. E Deus vingou-se no filme de Béla Tarr. Da mesma maneira que criou o dia e a noite, o céu e a terra, o homem e a mulher, também os destruiu, em seis dias.

Rui Manuel Amaral, sobre O Cavalo de Turim, de Béla Tarr (aqui).

PROFECIA

Que a vida digital sobrevive à vida física, já se tinha tornado evidente e por vezes inquietante. Por isso, o Facebook passou a oferecer um serviço que, mediante as provas do óbito, apaga o perfil dos mortos. Mas nem por isso o Facebook deixou de ser um gigantesco cemitério sempre em expansão, e chegará o momento em que terá mais mortos do que vivos.


António Guerreiro, no Público.

sábado, 11 de novembro de 2017

COMUNISMO HOJE

   O maior problema com que o comunismo se confronta na actualidade não é o inegável anacronismo de muitos dos seus defensores, mas sim o insuportável anacronismo dos seus detractores. Não é possível falar de comunismo hoje como se falava há 100 anos. A crítica aos erros cometidos tem vindo a ser feita quer pela história, quer por muitos dos seus principais actores. Como qualquer outra ideologia, o comunismo presta-se a diversas interpretações e, disso podemos estar certos, será sempre mais fecundo enquanto força inspiradora da acção do que foi nas múltiplas tentativas de ser levado à prática literalmente.
   Certas pessoas falam dos crimes cometidos sob a bandeira do comunismo como se falassem de algo extraordinário. O crime não é próprio das ideologias, como nunca foi das religiões. Os crimes cometidos sob a cruz de Cristo esgotam o cristianismo? Alguma vez o comunismo lançou uma bomba atómica? Esteve o comunismo na origem das duas Grandes Guerras do séc. XX? A democracia burguesa não tem também as suas inumeráveis vítimas disseminadas pelos campos de concentração do capitalismo global, chamem-lhe fábricas ou oficinas terceiro-munditas? Os campos de concentração foram uma invenção comunista? Uns males não legitimam outros, o que é válido tanto para uns como para outros.
   Creio que o maior desafio colocado a um comunista na actualidade é o de levar a cabo um exercício crítico sobre o papel de uma ideologia cujo princípio fundamental é o de libertar o homem da exploração por outros homens, servindo-se das experiências do passado não como fardo mas como lição. A luta é pertinente e impõe-se cada vez mais enquanto necessidade absoluta, algo que a mais recente edição do Web Summit tornou claro com a exibição dos seus engraçados robots neoliberais.
   Também já não está apenas em causa deixarmos de ser explorados, está em causa a possibilidade de continuarmos a ser humanos. Os detractores do comunismo ainda não perceberam isso, encantados que andam com a sua cassete simplificadora da luta comunista. Dizem que é sempre a mesma a nossa cassete, como se, tragicamente, não fosse sempre a mesma a que lhes ouvimos quando pretendem desacreditar uma luta fundamental. A história dos comunistas é feita dessa desacreditação. Foi assim quando lutaram pela libertação dos povos em plenos regimes fascistas, é assim na luta pela dignificação de todos os seres humanos em plenos regimes pseudodemocráticos. 
   Pressentirmos que assim continuará a ser não pode desanimar quem se convença da justiça dos propósitos, antes oferece ao discurso um novo e exigente sentido de clareza. A Guerra Fria pode ter acabado, mas a de uma tacanha tepidez crítica ainda agora começou. 

PANTEÃO

E depois foram todos para o Panteão rapar ossos.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

LER, N.º147, OUTONO DE 2017


Clique na imagem para ver melhor.

DÚVIDA QUE SE IMPÕE

Uma aluna viu uma lagarta no prato da refeição escolar e resolveu filmá-la, para posteriormente divulgar o vídeo nas redes sociais. Por conta disso, está a ser alvo de um processo disciplinar. Quando irá Marcelo ao seu encontro para confortá-la?


Adenda: pela democracia, um abraço também ao desgraçado Duarte Marques. A felicidade não é com ele, que anda sempre a perder oportunidades para ficar calado. Veja-se aqui, via Maria.

UM PROBLEMA DE JUSTIÇA

Independentemente do que motivou a contenda, não se pode ver um agente da autoridade a ser agredido e mandar para casa o agressor. A segurança de todos depende também do respeito que devemos a quem zela por essa segurança. Agora chamem-me fascista. 

O PARADOXO DAS SIMONES


Há a Simone Weil, que faleceu com 34 anos...


...e a Simone Veil, desaparecida este ano com 90. Descubra as diferenças no Público, hoje, página 32 do suplemento Ípsilon. Ou então não há diferença alguma, e foi a segunda quem escreveu estes dois livros publicados recentemente pela Antígona.

BANDA SONORA ESSENCIAL #24


   Apanhei na televisão, por mero acaso, um filme sobre Chet Baker. Não sabia sequer da existência do filme. Robert Budreau realizou, tendo cabido a Ethan Hawke a missão de dar corpo a um dos mais carismáticos jazzman de todos os tempos. Muito abaixo do que Clint Eastwood fez com Bird (1988), recriando a vida de Charlie Parker, o filme de Budreau peca por não conseguir resgatar para o seu interior a grandeza de uma música maior do que a vida. Born to Be Blue (2015) concentra-se na dependência de heroína que perseguiu Chet Baker, deixando quase na penumbra a imortalidade de uma submissão maior chamada música.
   O homem que tocava sempre como se fosse a última vez viveu intensamente a sua tragédia, deslocando-nos quando o ouvimos para a sombra de uma vulnerável existência. Chamamos a isso melancolia, por desconhecermos que nome dar ao que torna bela tamanha tristeza. Baker nasceu no Oklahoma a 23 de Dezembro de 1929, mudando-se com a família para Los Angeles quando tinha dez anos. Aperfeiçoou qualidades musicais no exército até ter sido expulso por deserção. A entrada no mundo do jazz correspondeu a outra forma de abandono, um abandono que foi inteira dedicação à música. As drogas levaram-no à prisão, roubaram-lhe os dentes na sequência de uma rixa com traficantes, afundaram-no numa inimaginável solidão. Uma solidão ultrapassada trazendo por companhia a música, a trompete e a voz, enquanto expressões da uma mesma intimidade a desintegrar-se em partículas de som.
   Quase teve que deixar de tocar, mas reergueu-se. Estabeleceu-se na Europa em meados da década de 1970. Data de 1980 uma das suas últimas gravações que mais aprecio, na companhia do acordeonista Richard Galliano, do pianista brasileiro Rique Pantoja Leite, do baixista Michel Peyratoux e do baterista José Boto. Gravado em Paris, Chet Baker and the Boto Brazilian Quartet (1980) recupera o fraseado intimista de Chet Baker tingindo-o com os tons da bossa nova. Ouvimo-lo trautear em Seila num registo romântico que pode não estar ao nível das gravações dos anos 1950 para a Blue Note, mas oferece ao guerreiro um último sopro de dignidade. "Chet is a tightroper artist playing with space and emptiness”, diz Galliano. O que pode ser traduzido por qualquer coisa como “Chet é um equilibrista que contrabalança entre o espaço e o vazio”. Entendemo-lo quando escutamos a voz e o solo de Forget Full, num ritmo que Chet acompanha aos 50 anos como se tivesse 20. A gente escuta-o e relativiza, que isto da música não é de todo para quem quer… é para quem é.