domingo, 10 de dezembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #28


   A relação entre o cinema e a música vem de há muito, quando a sétima arte era uma criança em desenvolvimento. Ainda nos tempos do mudo, a projecção dos filmes era frequentemente acompanhada por uma orquestra instalada na coxia. Alguns compositores ficaram para a história ou afirmaram-se plenamente como autores daquilo a que hoje se dá o nome de bandas sonoras. 
   Dificilmente falaremos de western spaghetti sem que nos ocorra o nome do compositor italiano Ennio Morricone. O ucraniano Dimitri Tiomkin fez praticamente toda a sua carreira em Hollywood, assinando muitas das melodias inesquecíveis que ofereceram ritmo aos filmes aí produzidos. Assim de repente, ocorrem-me igualmente os enormes sucessos das composições de Michael Nyman para o filme “The Piano” ou as peças do francês Yann Tiersen para filmes como “Good Bye Lenin!” e “Amélie”. Não deve imenso o realizador sérvio Emir Kusturica ao talento musical de Goran Bregovic? 
   Ryuichi Sakamoto é outro extraordinário compositor que nos habituámos a ouvir nas salas de cinema. Filmes como “The Last Emperor”, “Merry Christmas Mr. Lawrence”, que contava com David Bowie no elenco, ou o mais recente “The Revenant”, ficarão para sempre associados a melodias concebidas por Sakamoto para cenários cujo efeito visual seria inevitavelmente diferente não fossem os apontamentos musicais que os acompanharam. 
   Em meados da década de 1990, o músico japonês resolveu rever a matéria dada num álbum que levou o título seco do ano em que surgiu: “1996”. Despido de efeitos, Ryuichi Sakamoto sentou-se ao piano e fez-se acompanhar apenas por um violinista e do nosso conhecido violoncelista brasileiro Jaques Morelenbaum. Os temas estão lá e não enganam, são exactamente os mesmos que ilustraram imagens mais ou menos sumptuosas na sala de cinema. Ouvimo-los e vêm-nos à memória, como se fosse inevitável, cenas, rostos, personagens, até diálogos. Mas agora temos apenas a música, e apercebemo-nos de quão visual é também a sua linguagem. 
   No tema "A Tribute to N. J. P." a introdução de Morelenbaum sublinha isso mesmo, a imagética da linguagem musical. Não precisamos de ter visto o filme para o qual o tema foi composto para começarmos a imaginar cenários e a estabelecer relações. Antecede “High Heels”, escrito para “Tacones Lejanos” de Pedro Almodóvar. Aí a experiência já é diferente, a música embala-nos como uma espécie de memória auditiva. Embarcamos numa digressão melancólica por territórios de um imaginário familiar. 
   Tão trágicos quanto introspectivos, na mesma medida épicos e intimistas, os temas de “1996” proporcionam, pelo despojamento dos arranjos, uma viagem ao centro da música. Tal como Júlio Verne outrora nos levou ao centro da Terra.


sábado, 9 de dezembro de 2017

UMA IMAGEM PARA O DIA


UM POEMA DE JOÃO ALEXANDRE LOPES

POST-DOMINICAL

Domingos de bola, rádio no carro,
crochê delicado da mãe.
Do seminário vinham rapazes
arejar a alma pastoral.
Corava-se muito.

Depois veio o shopping
aumentar as possibilidades:
um sorriso pequeno,
uma coxa bem modelada,
um peito farto.

Hoje ataca-nos a modorra
de uma final do Grand Slam,
fazem-se McAlmoços divertidos
e vamos todos de braço dado
passear pelo Face.

João Alexandre Lopes, in Hora Zero, Medula, Outubro de 2017, p. 30. 

JERUSALÉM

Ontem adormeci a ver "Silêncio". Foi a primeira vez que adormeci a ver um filme de Martin Scorsese, o que me leva a concluir que o filme deve ser muito melhor do que todos os outros. Talvez estivesse cansado. Acordei a meio da noite e fui para a cama. Ainda delirei com algumas cenas do filme, mas julguei-me na Jerusalém actual. Não compreendo aquela fé. Não a aceito. Se esses são homens de Deus, prefiro dormir.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

LEVIATÃ / ESPELHOS NEGROS

Qualquer boa surpresa guardada para final de ano arrisca-se a passar despercebida, arrastada pela voragem de lixo instalada nas livrarias durante o período da quadra natalícia. É uma injustiça que não pretendemos para Leviatã ou O Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros (Abysmo, Outubro de 2017), de Arno Schmidt (n. 1914 – m. 1979), com tradução aplicada de Mário Gomes. Acontecimento literário, desde logo, por nunca o autor alemão ter sido traduzido para língua portuguesa. Ele próprio tradutor, arquitecto de uma prosa altamente experimental, surge amiúde comparado aos irlandeses Laurence Sterne e James Joyce. A nível de experimentação, poderíamos ainda referir o francês Georges Perec ou o Leminski de “Catatau”. Não estamos a falar de influências literárias. Essas, o próprio Arno Schmidt encarregou-se de sublinhar exaustivamente no corpo dos seus textos. Em Leviatã, por exemplo, «Kant limitou-se a demonstrar que as provas da existência de um Deus «bom» eram piadas mal contadas» (p. 19). O autor das três críticas surge ainda referido a par de Schopenhauer, Bernhard Riemann, Goethe, Darwin, naquela que se apresenta como uma escola inspiradora da heterodoxia abraçada por Schmidt. 
   Sublinhe-se, de igual modo, a irónica alusão a Leibniz no subtítulo do livro de estreia. Leviatã ou O Melhor dos Mundos foi publicado em 1949, na ressaca de uma devastadora guerra em que Schmidt serviu. O texto sugere qualquer coisa de catártico no tom furioso e sarcástico das reflexões propostas. Leviatã, que tanto pode ser aqui entendido como o Criador ou como a Natureza (vide p. 39), gerou um monstro chamado humanidade. A ideia de vivermos no melhor dos mundos possíveis não pode senão ser uma patranha desmentida quer pela razão, quer pela mera observação. Do leque germânico, Nietzsche é quem sai mais mal tratado. Acusado de inspirar o nazismo, foi, e passo a citar, um simplório, o idólatra do poder, patife de focinho loquaz… «Ele e Platão foram dois grandes parasitas (para além de ignorantes: veja-se nas ciências da natureza)» (p. 25). 
   Destacado para a Noruega em 1940, já depois de ter casado, Arno Schmidt acabou como prisioneiro de guerra durante oito meses. Perdeu tudo durante esse período, instalando-se posteriormente com a mulher em Cordingen. Aí iniciou a sua carreira literária com Leviatã. A ideia de fuga, associada à de sobrevivência, marcam o texto. Ainda num estilo não tão complexo como o de Espelhos Negros, o livro de estreia é uma narrativa «pautada por uma acção com forte carga alegórica e laivos de estudo social» (Mário Gomes, no prefácio). Algo semelhante pode ser dito de Espelhos Negros, prosa desenvolvida já num estilo elíptico que se caracteriza pela fragmentação do discurso. Cada fragmento como que corresponde a um parágrafo, desenvolvido a partir de uma ideia ou tema colocados em itálico no início do texto. 
   Espelhos Negros data de 1951 e corresponde, em termos biográficos, a uma espécie de prenúncio do isolamento a que Schmidt se dedicou, a partir de 1958, na aldeia de Bargfeld. A narrativa inicia-se no dia 1/5/1960, formando uma espécie de diário com forte componente autobiográfica a que o autor não se furta. «No fim hei-de ficar sozinho com o Leviatã (ou até transformar-me eu nele)», diz-se a páginas 50. Esta metamorfose surge de um voluntário isolamento no seio da Natureza, que Arno Schmidt descreve em belíssimos fotogramas ao mesmo tempo que afirma a humanidade como uma personificação do mal: «Isto é o mais bonito na vida: profundidade nocturna e lua, orlas de florestas, águas resplandecentes e silenciosas, ao longe, na modesta solidão de um prado fiquei acocorado durante algum tempo, ocioso, com a cabeça inclinada para a direita; de quando em quando uma estrela lançava uma chispa muito para lá de Stellichte; por vezes uma ventania desengonçada surpreendia-me e despenteava-me, como uma amante adolescente e malcriada; mesmo quando tive de ir atrás de um arbusto, foi atrás de mim» (p. 52).
   Dividido em duas partes, Espelhos Negros narra no primeiro tempo a fixação de um homem no seio da natureza, a construção de um abrigo, os momentos de total isolamento, a busca de mantimentos, instantes de auto-reflexão, por vezes assaz autocríticos, o elogio do trabalho braçal e dos esforços físicos, com espaço, sempre e de forma contundente, para a desmistificação dos mitos alemães: «finalmente um livro: Rilke, Histórias do Bom Deus, vens mesmo a calhar; e arranquei logo as páginas necessárias àquela prosa de ourives: só o título já me revoltou: palavreado finório; este é mais um pneumatómaco: vai mas é prós guácharos!» (p. 63). Categorias como as de pessimismo e optimismo não são para aqui chamadas. Arno Schmidt manifesta uma profunda desconfiança da humanidade, mas não se pode dizer que seja um pessimista. A segunda parte de Espelhos Negros, pautada pelo encontro amoroso com «uma cigana daquelas de verdade», recoloca-o com extrema evidência num espaço de contradição que é o seu. 
   Já antes, este literato que passou a vida a remexer no sem-sentido declarara: «Ai do homem que não se tenha arrependido pelo menos 10 vezes na vida de não ter escolhido o ofício de carpinteiro!» (p. 73). O que os dois textos reunidos neste volume manifestam é um total desprezo pela maldade, a qual não pode senão ser imputada à ignorância dos homens cuja vida se faz em função dos interesses de grupo. Schmidt viu até onde o homem pode ir no ofício da maldade, não está minimamente interessado em desculpar-se ou em mergulhar num exercício de auto-negação. Porque espertos são os eremitas, depreendemos que a burrice seja o social. Lisa, a cigana de verdade, personifica também ela a beleza do anti-social ou, se preferirem, do solipsismo. Com ela, o protagonista de Espelhos Negros partilhará as memórias. E nisto há também uma noção do que é esse impulso de escrever sem qualquer perspectiva de chegar a uma massa de leitores, ou seja, a possibilidade de um encontro isolado dos ruídos do mundo, a contradição de um encontro entre duas solidões que não se esvaziam de identidade por se verem ao espelho. A um espelho negro. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ESTE É O NOSSO MUNDO


Roubado aqui, onde se lê:


O mundo tem coisas de gente burra. A espécie, quando vista em geral, parece tender para a anulação. O que se lê é maioritariamente lixo — e é quem lê alguma coisa para além dos faces desta vida. O pessoal vai desertificando das ideias e baixando o nível de exigência. Aceita-se tudo, convive-se bem com o lixo. Não sei onde é que isto vai parar mas a sítio bom não é, de certeza.

MORRER DE JUVENTUDE

Morrer de juventude aos 61 anos não me parece bem. Curiosamente, a má-nova do passamento de Zé Pedro trouxe-me à lembrança um tal António Variações & um tal (esse sim, genial) Bernardo Sassetti. Ardis da memória.
Para todos nós, com ou sem milhões de euros e/ou admiradores, a Lei é material, concisa, orgânica & inexorável: nascendo, cometemos o primeiro acto necrológico.


Daniel Abrunheiro, aqui.

A IDEIA - LANÇAMENTO


(clique na imagem para ver melhor)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

UMA IMAGEM PARA O DIA


IMPRENSA ESPECIALIZADA

Em quê? Gostava de folhear jornais pela manhã. Infelizmente, o hábito pariu o monstro da decepção. É tal a mediocridade, a pobreza, que, dado o estado geral de coisas, um tipo só se admira como os jornais não têm mais leitores. Na página cultural, assim mesmo, no singular, o cenário é confrangedor. Os especialistas devem ter-se especializado em lerem-se uns aos outros. Patético, de tão fraco.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

AMAI-VOS UNS AOS OUTROS!



Para esclarecer isto de uma vez por todas: a belíssima, se bem que pouco original máxima do «amai-vos uns aos outros!», enquanto prática viva e eficaz, sempre mereceu e obviamente sempre merecerá a aprovação e o apoio de qualquer pessoa honesta. Nunca as vãs ambições epistemológicas da cartilha dos cristãos; nunca o aparelho de poder perfeitamente arbitrário da Igreja e os vários séculos de um terrorismo espiritual horroroso e sem precedentes. Porque na verdade o campo de concentração  não foi invenção, nem de Estaline, nem de Hitler, nem da Guerra dos Boéres, mas nasceu no ventre da Santa Inquisição; e a primeira descrição fiel feita no Ocidente de um exemplar campo de concentração devêmo-la à cristianíssima fantasia de Dante — por favor, não falta lá nada: os poços de excrementos, as torturas de água gelada, a cadência dos estalos na eterna marcha dos açoitados; para os cépticos existem caixões de fogo e os curiosos em demasia — Ulisses — são majestosamente fulminados: — porque «esses acabam por ser os argumentos mais robustos dos senhores teólogos: e desde que lhos roubaram, as coisas começaram a andar para trás que não é brincadeira!» Não venha daí exigir tolerância quem nunca a exerceu durante 1500 anos que «esteve no poder»!

Arno Schmidt, in Leviatã ou o Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros, trad. Mário Gomes, Abysmo, Outubro de 2017, pp. 38-39.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

JOGO DE TABULEIRO

Vejo e escuto os comentadores do costume, é quase impossível escapar-lhes. Falam de política como se fossem miúdos a jogar um jogo de tabuleiro. Se calhar, foi ingenuidade minha pensar que a política era algo mais do que um jogo de tabuleiro. Aqui chegado, não posso senão concluir: prefiro jogos de tabuleiro. 

OS LIBERAIS

Os liberais exigem que o estado os proteja, pelo menos enquanto houver estado. Quando o estado deixar de existir, os liberais terão os seus seguranças pessoais e imporão as suas regras a quem não tiver como delas se defender. Até lá, os liberais queixam-se de serem agredidos pelo estado ao mesmo tempo que lhe exigem protecção. Estão absolutamente convencidos de que cabe ao estado, a bem da estabilidade do mundo, não deixar que os liberais definhem, garantir até que eles prosperem, ao mesmo tempo que reclamam por um estado cada vez mais mínimo. Os liberais vivem numa espécie de esquizofrenia, de uma mesma fonte reivindicam os lucros e lavam as mãos dos prejuízos. São muito espertos, os liberais. 

FORMAS DE LUTA

Há dias ouvi, não me recordo a quem, que Che Guevara foi um manipulador e um assassino (ou terá dito criminoso?). Enfim, é aquele tipo de afirmação que não me apetece discutir. Mas acabei agora mesmo de ler esta entrevista, da qual me apetece sublinhar este excerto:

A experiência da História é de que nunca um povo teve a possibilidade de se libertar sem que fosse de alguma forma uma resposta de baixo à violência de cima. Pode ter sido com guerrilha, com guerra, com insurreição, com greves gerais, mas nunca foi amavelmente. Nunca o poder disse “tomem, já me dei conta que é injusto”. A essência do capitalismo é ser como é: fazer trabalhar os demais (países ou povos) e acumular riqueza.


Não é fácil a quem detém o poder ter a percepção das injustiças que comete, mas muito menos fácil é a quem quer estar com o poder perceber que há formas de luta que se justificam pela força do inimigo enfrentado. É assim desde que há história das conquistas humanas, embora os acomodados dos tempos modernos prefiram pensar que não enquanto compõem o casaco Armani. 

domingo, 3 de dezembro de 2017

HOMENAGENS

Fui seguindo, tanto quanto possível, as imagens da despedida. À porta do mosteiro, o PR falou numa grande homenagem, o presidente da AR falou em odiáveis minutos de silêncio, outros falaram pouco e bem… Têm todos as suas razões, obviamente. Mas eu acabei de assistir à melhor homenagem que pode ser feita a um artista como o Zé Pedro. Num concerto dos Resistência, em Portimão, o Miguel Ângelo filmou em directo o momento em que toda a gente cantava Não Sou o Único. São imagens arrepiantes, mais ainda pelo cuidado que o ex-vocalista dos Delfins teve em não focar o elemento dos Xutos ali presente. Pouco depois de ter estado no funeral, ali estava Tim a dar o peito às balas perante um público imenso. Merece um forte elogio e abraço, esse Tim que poucas horas depois de enterrar um compagne de route lhe prestou corajosamente a maior homenagem possível: tocando e cantando. 


OS DOMINGOS

— Tem o livro do Agualusa?
— Qual deles?
— O africano.
— Esse não conheço.
— O Agualusa…


(e um estranho silêncio se interpôs entre os interlocutores)

sábado, 2 de dezembro de 2017

EPIFANIA #40


De uma viagem a Dublin, trouxe um livro de James Joyce: Poems and Shorter Writings (Faber and Faber, 2001), organizado por Richard Ellman, A. Walton Litz e John Whittier-Ferguson. A edição original data de 1991. Recolha diversa de poemas, aforismos, textos curtos entre os quais se destacam as Epifanias. Na introdução, diz-se que as 40 epifanias estão entre os mais relevantes textos da juventude de Joyce que sobreviveram no tempo. 40 de um total de 71, a servirem de ponte entre a primeira poesia e a ficção posterior. Muitos destes fragmentos, garatujados entre 1901 e 1904, acabaram por integrar a bibliografia posterior. Enquanto os vertia para português, tomando liberdades várias que não vale a pena justificar, fui recordando partes de livros tais como Ulisses, Dublinenses ou o Retrato do Artista Quando Jovem. Algumas aproximam-se de poemas em prosa, outras serão meros apanhados circunstanciais, há momentos dramáticos, líricos, eróticos, espirituais. A. Walton Litz sublinha dois tipos fundamentais de epifania, representativos dos pólos gémeos da arte joyceana: ironia dramática e sentimento lírico. Em suma, serão, terão sido, manifestações de um olhar atento às suas circunstâncias. O que há de epifânico nestes textos é tanto a revelação do objecto que leva ao texto como do próprio texto. Na sua aparente banalidade, estes textos desmistificadores manifestam anatomicamente a  sua estrutura enquanto representantes de uma determinada situação. Eis a última:

40

                                                         na Rua O’Connell:
                                                   [Dublin: ᴧ na farmácia
                                                   Hamilton, Long]

Gogarty — Isso é para Gogarty?
                                                                                             pagá-lo
O empregado de farmácia — (olha) — Sim, senhor. . . Vai levá-lo
                          consigo?  agora?
Gogarty — Não, envie-o ponha na
                         conta; envie-o depois. Você sabe
                         a morada.
                                        (pega numa caneta)
O empregado de farmácia — Sim       Si-im.
Gogarty — 5 Praça Rutland.
                                                                                        enquanto
O empregado de farmácia — (de si para si enquanto à medida que escreve)
                                                    . . 5 . .Praça. . .Rutland.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #27


   Ouvi a notícia da morte de Zé Pedro na Antena 1, enquanto ia a conduzir. Encostei para dar nota a dois amigos. Um deles respondeu-me que “morremos todos um pouco”. E é verdade. Os Xutos & Pontapés marcaram a minha geração como nenhuma outra banda portuguesa. Podíamos gostar mais de Trovante, GNR ou Heróis do Mar… Independentemente das preferências, os Xutos foram durante anos a principal referência do rock português. A cada álbum novo, ainda no formato LP, a malta juntava-se para ouvir repetidamente Lado A e Lado B. Decorávamos as letras antes de tentarmos decifrá-las, julgando escondidos por detrás das palavras significados ocultos que o tempo se encarregou de desocultar. 
   Quando os Xutos foram tocar a Rio Maior pela primeira vez, eu fiquei na varanda do meu quarto a receber ecos que vinham de longe. Amargo castigo vingado posteriormente em inúmeras ocasiões. Jamais esquecerei a actuação no velho estádio de Alvalade, em 1993, durante o “festival” que ficou para a história como “Portugal ao Vivo”. Aos primeiros acordes de “Sémen”, entraram no palco umas stippers. Se bem me lembro, Luís Marques Mendes, então no Governo, estava na plateia e apareceu nos ecrãs gigantes enquanto as moças se desenvencilhavam das últimas peças de roupa. Vi tantas vezes os Xutos aos vivo que nos últimos tempos, confesso, já não me sobrava paciência. Ficámos todos estupidamente mais gordos.
   Talvez seja exagerado considerar Zé Pedro a alma dos Xutos & Pontapés. Quem leia “Conta-me Histórias” (1991), o livro de Ana Cristina Ferrão, poderá encontrar fortes fundamentos para tais considerações. Nestas horas em que tudo se permite, podemos pelo menos afirmar sem sermos mal interpretados que o Zé Pedro era a alma rebelde e inconformada dos Xutos. A imagem de homem dos três acordes cai-lhe bem, mesmo não sendo exacta. Era aquele entre os quais ainda hoje reconhecíamos a atitude inspiradora do punk. O Zé Pedro e o Kalú, mais do que qualquer um dos restantes elementos da banda.
   A quem me diz que não gosta de Xutos & Pontapés sugiro sempre a audição de “Cerco” (1985), o disco de “Homem do Leme” e “Barcos Gregos”. São seis canções que provam a excepcionalidade do conjunto, à época com a formação que até hoje se conhece: Tim, Kalú, Zé Pedro, João Cabeleira, Gui. Não ficando convencidos, os incrédulos deverão, pelo menos, passar os olhos por um marco da música portuguesa. O álbum triplo, “Ao Vivo”, gravado nos idos de 1988 no Pavilhão dos Belenenses. Já lá estão “Contentores” e “Nesta Cidade” (letra do João Gil), os mega sucessos do “Álbum 88” (1988), a versão de “Minha Casinha”, a voz de Zé Pedro no obviamente punk “Submissão”.
   Zé Pedro assinou outras canções, como “Carta Certa”, “N’América”, “Gente de Merda”… Esta, num dos mais polémicos álbuns da banda. Curiosamente, é de “Gritos Mudos” (1990) um dos meus temas preferidos dos Xutos. Chama-se "Pêndulo", e o último verso sintetiza uma vida: “Estranha vontade de amar”.


ZÉ PEDRO (1956-2017)


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VERTEM-SE BÍBLIAS EM QUIMBUNDO

Os livros da Mia Soave juntam o melhor de dois mundos: poesia e música. Fazem-no com incontestável singularidade, anexando ao livro um CD de bónus. Um objecto não copia o outro, antes se complementam através de pontes nem sempre óbvias. Em Vertem-se Bíblias em Quimbundo (Mia Soave, Abril de 2017) a ponte é claramente inteligível pela condição do autor. João Paulo Esteves da Silva (n. 1961) é músico profissional. No CD intitulado Crime musicou versos seus, mas também do poeta brasileiro Augusto dos Anjos, de Guillaume Apollinaire, de Mordechai Geldman, que traduziu para a Douda Correria em dois volumes bastante aconselháveis, e de Miguel Martins. Numa música suportada em composições para piano, fez-se acompanhar da voz de Nazaré Silva e da bateria de Samuel Dias. Do ritmo de cariz tradicional que acompanha o poema de Augusto dos Anjos à belíssima balada para Le Pont Mirabeau, de Apollinaire, passando por improvisos e diálogos vocais sofisticados onde a vertente jazzística se afirma de um modo consistente, o crime deste CD resulta do convite que a determinada altura nos faz: «Anda mergulhar / na felicidade / uma última vez / sai da realidade / de vez». Esta fuga da realidade, a que corresponde um mergulho na felicidade, está de acordo com o movimento vislumbrado nos verso largos de Vertem-se Bíblias em Quimbundo
   Apesar de ser Descartes o citado, é de Blaise Pascal que nos lembramos quando, conjecturando sobre os vícios e as virtudes da imaginação, este nos diz que: «A imaginação dispõe de tudo. Ela faz a beleza, a justiça e a felicidade, que é tudo no mundo». João Paulo Esteves da Silva também se apoia na imaginação em busca de uma música que reflicta a beleza vibrante do mundo. Logo no primeiro poema, o sujeito poético fecha os olhos e continua a imaginar, imagina «peixes evoluindo para pombos», imagina que atravessa paredes e, ao imaginar, como que se distancia da chuva miudinha que cai lá fora, isto é, que cai na realidade: «o contrário da minha imaginação estúpida». Neste acto de imaginar pressentimos aquilo a que podemos chamar uma deslocação para fora do mundo, numa demanda aparentemente solitária, consciente dessa aparência, daquilo que se oponha à bruta realidade dos dias: «E não é que me desinteresse da política, interessa-me até, mas caí no poço da merda / Tenho pouca vontade de fazer ondas, bóio suavemente, habituo-me ao cheiro»
   Em versos longos, vertiginosos, a escrita de João Paulo Esteves da Silva neste livro mostra-se fragmentária. Os poemas são como que apontamentos diarísticos onde se misturam retratos e memórias, confissões, sensações, vislumbres, num espaço concreto, o de Lisboa, e num tempo identificável, dos últimos meses de um ano ao início do outro. Inconclusiva nas abstracções a que se propõe, é uma poesia marcadamente cinematográfica. O sujeito poético fotografa a realidade para a ver de mais perto, como se a olho nu um nevoeiro se interpusesse entre o objecto e a percepção. A dimensão mais atractiva que aqui encontramos é, contudo, a da relação estabelecida entre o olho e o ouvido, dois órgãos onde a percepção se desdobra em imagem e som: «Se se ouvir com os olhos, a música do sítio aparece / Quase sempre lamentosa, dorida, solitária mas também, às vezes, no inverno // Assim, radiosa, esperançosa e sem se ver, mesmo música». Especialmente interessante num poeta cuja relação com o universo musical é fortíssima, esta espécie de inversão na faculdade dos sentidos sublinha o caos do mundo. Num outro poema «Há uma altura em que as imagens deitam cheiros». 
   Ouvir com os olhos, ver o ruído, cheirar as imagens, apontá-lo, é uma outra forma de estar atento. No CD, damos com um exercício, intitulado No Café, elaborado a partir de falas comuns, palavras escutadas ocasionalmente, que denota essa mesma atenção subvertida pela confusão dos sentidos. A este propósito, «Lembro a história, contada por Lévy Strauss, da mulher devorada pelos parentes / Por ter confundido os sentidos, o próprio com o figurado, ou vice-versa, no caso». Mais uma vez, ocorrem-nos pensamentos de Pascal: «Dois erros: 1.º tomar tudo literalmente; 2.º tomar tudo espiritualmente». Esta poesia abre, precisamente, o campo à espiritualidade, desde logo, por não manter uma relação literal com a realidade. Neste caso, o poeta é ainda aquele que consegue descobrir buracos azuis entre as nuvens. Tal descoberta não seria possível sem a deslocação, sem o afastamento ou, se preferirem, sem o exercício de abstracção aqui proposto. Ao pormenor, toda a panorâmica adquire novos sentidos, estimulantes significações. E o conselho de Pascal nem é mau de todo, apesar de sabermos quanto da condição humana se resume a tédio e inquietação.