segunda-feira, 13 de novembro de 2017

WC MAIS SEXY DO MUNDO

“Querem fazer do Panteão sacrossanto? Muito bem. Então lembrem-se que este é o país cuja Assembleia da República aprovou a trasladação de Eusébio para o Panteão um ano após o seu falecimento, mas que ainda não conseguiu para lá levar Aristides de Sousa Mendes quase oitenta anos depois de ele ter salvado milhares de vidas na IIª Guerra Mundial. Mais: este é o país no qual, se acontecesse a desventura de falecer Cristiano Ronaldo, a AR teria em toda a coerência de levar o CR7 para o Panteão ainda antes de lá pôr um “justo entre as nações” como Aristides. E repetir-se-ia para muitos dos escandalizados de hoje o aplauso geral com que não falharam ontem.
Querem respeitar o simbolismo dos monumentos nacionais? Muito bem. Reparem então, de cada vez que passarem pela Praça do Comércio, espaço central da nossa simbólica de Estado, que a República mais visível que lá encontrarão é a República… da Cerveja. Reparem que um pedaço da mesma praça está ocupado por uma coisa chamada o “WC mais sexy do mundo”, concessionado para permanente propaganda de uma marca de papel higiénico (é ao lado do Ministério das Finanças; paga-se 50 cêntimos para usar os urinóis e passam fatura com número de contribuinte, portanto deve estar tudo certo). Isto nunca escandalizou ninguém em Portugal. Perguntem-se se o mesmo aconteceria na Praça de São Pedro, no Louvre ou no Kremlin.”


Rui Tavares, aqui.

BANDA SONORA ESSENCIAL #25



   Entre as muitas canções popularizadas por Chet Baker, “Like Someone In Love” ocupa um lugar especial. Composta por Jimmy Van Heusen, com letra de Johnny Burke, foi ao longo dos anos objecto de inúmeras versões. Em 1993, a islandesa Björk Guðmundsdóttir incluiu-a no álbum que acabaria por catapultá-la para a fama internacional.
   Antes de Debut (1993), Björk já tinha editado dois álbuns a solo e colaborara com várias bandas. Os The Sugarcubes serão a mais conhecida. O gosto pela música jazz ficara patente no álbum Gling-Gló (1990), pelo que a versão de “Like Someone In Love” não espantou. Às vezes amo Björk, outras vezes odeio-a. Esta relação bipolar tem na sua origem um preconceito para com o deslumbramento visual que acompanha amiúde as suas produções. O engenho vocal ninguém lho tira, pelo que por vezes lamenta-se o excesso de parafernália visual que se lhe sobrepõe. É como pôr demasiada maquilhagem num rosto naturalmente belo.
   Em Debut, “Like Someone In Love” afirma-se como um momento de irresistível intimismo. Acompanhada por uma harpa, Bijörk canta sobre o som das ondas do mar, depois de no início do tema ouvirmos o sorriso de crianças e o motor de um carro a chegar e a partir. Canta para as estrelas, canta para o mar, canta para o pôr-do-sol, enquanto à sua volta finda mais um daqueles dias que Lou Reed classificaria de “perfect”. Ou será que faz testes de som antes de iniciar uma noite de trabalho num clube nocturno?
   “Like Someone In Love” surge a meio do álbum, como uma espécie de pausa entre temas que percorrem tanto os domínios da pop electrónica, perfeitamente dançáveis, tais como “Big Time Sensuality”, e a elegância de baladas com orquestrações românticas ao género de “Come To Me”. Outro momento igualmente intimista e desnudado no álbum é o tema final, “The Anchor Song”. Já este ano, Björk presta-se a reaparecer com um visual directamente inspirado em obras de literatura fantástica ao estilo nórdico. O disco chama-se Utopia. Prefiro-a desmaquilhada ou como no magnífico tema “Aeroplane”, em busca de um lugar que suplante a solidão de corações ao abandono. 


PAI

A poesia é não só, mas também, um discurso das emoções. Mais do que exprimir sentimentos, resvalando por vezes para o sentimental, o poema, como qualquer outra obra de arte, coloca-nos em contacto com a emoção. Um filme emociona-nos, uma canção emociona-nos, um quadro emociona-nos, uma peça teatral emociona-nos. Porque haveria de ser diferente com o poema? Mau seria que se esgotasse na emoção a razão de ser da obra de arte. Ela instiga a reflexão, aclara o obscuro, introduz-nos e inicia-nos no esotérico, exercita o pensamento, mas não podemos esquecer nunca esta ligação da obra de arte às emoções. Ainda para mais quando se torna evidente a conexão entre as emoções e o pensamento. Podemos julgar que na raiz deste contacto, no que respeita à obra de arte, reside uma ideia de beleza, conquanto aceitemos que essa ideia de beleza não recuse a fealdade enquanto contraponto que reforça o belo. A fealdade é aliada da beleza, na medida em que a sua exposição leva-nos a ansiar pelo seu contrário. Sentimentos tais como a raiva e o ódio exigem-nos um encontro com a solidariedade e com o amor. A tristeza, a alegria, a melancolia, que é mais um estado de alma do que um sentimento, surgem entre os mais universais dos estímulos para a concepção do poema: o amor e a morte. 
A elegia será, provavelmente, a forma poética que melhor interliga o amor e a morte. Carlos Bessa (n. 1967) publicou recentemente "uma elegia" de 33 poemas, em memória de seu pai, falecido no ano de 2016. O título Pai (do lado esquerdo, Maio de 2017) vai directo ao assunto, escusando apetrechos líricos que a situação de luto desvaloriza. Há neste livro poemas arriscados, como os intitulados Mesa Mediterrânica e Percursos, devedores in extremis de uma necessidade de clareza que o título do conjunto sugere. Noutros poemas, o autor ocupa-se na recuperação de memórias remexendo cofres ao abandono, capta as rotinas do pai falecido, caracteriza-lhe a personalidade e constrói-lhe uma história, expõe as últimas horas e rememora situações passadas, numa busca de sentido para a vida que é, ao mesmo tempo, uma tentativa de compreensão d’«O estupor da morte que nos assalta a razão» (p. 23). 
No que de melhor ofereceu à filosofia, Martin Heidegger desenvolveu a ideia do ser enquanto ser para a morte. Sabemos que não teremos a experiência da nossa própria morte, mas a experiência da morte dos outros é, de algum modo, a experiência limite que podemos ter da nossa morte. Tratando-se da morte de um pai, a relação de proximidade intensifica essa experiência. Isso mesmo surge sublinhado num pequeno e belíssimo poema intitulado Espelho: «Dizem que somos parecidos / como quando ao nascer se projectam / laços e afinidades. Devemos ser, / mau grado as tantas diferenças. / Somos de tempos distintos. / Na verdade, tu sempre foste melhor, / mais perto dos outros. Eu hesito, / ainda, como se o nome, o meu, / fosse todo o peso de uma herança» (p. 35). A herança não é aqui apenas a de um nome, nem a que os elos filiais determinam, é igualmente uma herança de valores que a perda obriga a reconhecer com a mesma clareza com que se reconhecem «laços e afinidades». 
Os momentos de tardia declaração de admiração que surgem em alguns destes poemas, sem nunca se perderem num sentimentalismo inócuo, são testemunhos pungentes de uma lição para a vida proferida pela experiência prática da morte: «O corpo está na capela mortuária, / tem de falar com uma funerária. Como / se nos piores momentos a morada da poesia / fosse o silêncio que rompe a noite num ah, / há que agir, que falar, que acordar, que pensar. / É preciso combater a anestesia e / arrumar a dor» (p. 26). Talvez os versos, na sua inutilidade mais do que acusada, denunciada, até apregoada, sirvam pelo menos para isto: arrumar a dor. Assim sendo, é um sinal de arrumação que dos 33 poemas que compõem o livro, em coincidência com a data de nascimento da personalidade invocada, o último tenha por tema precisamente o amor. A morte e o amor, os mais universais dos estímulos para a concepção de um poema, numa elegia ao jeito da síntese que a poesia permite quando é sinal de beleza:

CARTAS, MAPAS E LIVROS

O amor, mil maneiras de enlouquecer, é um aviso.
O que importa é o arrebatamento e esquecer,
não fazer perguntas ao passado, às histórias tristes
e banais, manchadas de ritmos que afugentam.

O amor, como lâmpadas que se enroscam e raízes
que se infiltram e espalham num labirinto de confronto.
Frases encaixadas umas nas outras e associações que
envolvem o corpo num peso sem peso, sem infâmia,

apenas luz, apenas cor. Como naquela solarenga tarde
de frio em que os livros foram nossos aliados
na longa caminhada que nos levou por um circuito
de árvores, ruínas e ruas esburacadas de Ermesinde.

UM POEMA DE CARLOS BESSA

MESA MEDITERRÂNICA

Figos, castanhas, laranjas, tangerinas.
Nêsperas, pêssegos, cerejas, melancia.
Uvas, pêras, bananas, kiwis.
Nozes, avelãs, pinhões, amêndoas.

Tripas, rancho, feijoada, chispe.
Cabidela, leitão, lebre, cabrito.
Agrião, alface, salsa, hortelã.
Cozido e mil e uma maneiras de bacalhau.

Robalo, badejo, solha, tainha.
Enguia, lampreia, abrótea, faneca.
Marmota, carapau, chicharro e sardinha.
Salmão, cavala, truta, pescada.

Salmonete, dourada, sargo, peixe-espada.
Chocos, lulas, polvo, cavaco.
Santola, sapateira, lagosta e camarão.
Queijos, enchidos, mostardas e pão.

Alvarinho, verde branco e tinto.
Douro, Ribatejo, península de Setúbal, Alentejo.
Madeira, Porto, aguardentes velhas.
Moscatel, rum e gin. Prazeres simples.


Carlos Bessa, in Pai, do lado esquerdo, Maio de 2017, p. 12.

PROPOSTA PARA PALAVRA DO ANO

Cativações.

domingo, 12 de novembro de 2017

PANTEÃO DE PAROLOS

Subitamente, um sem número de gente acordou para os jantares no Panteão. Os telejornais abrem com o assunto, chamam a si os comentadores, insistem e persistem e é como se nunca antes se tivesse visto coisa assim. Isto só prova que os mortos que ali repousam são os menos mortos deste país de parolos e de parolices. Que tédio.

EPIFANIAS #33

33

   Passam aos pares e em trios por entre a vida na avenida, caminhando como pessoas com tempo livre num espaço por eles iluminado. Estão na pastelaria, tagarelando, esmagando pequenas construções de pastelaria, ou silenciosamente sentados em mesas junto à porta do café, ou descendo de carruagens com agitados agasalhos suaves como a voz do adúltero. Passam num ar de perfumes: sob os perfumes os seus corpos têm um cheiro quente húmido. . . . . Nenhum homem os amou e eles não se amaram a si mesmos: nada deram por tudo quanto lhes foi dado.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

«Do cavalo… Nada sabemos.»


Nietzsche declarou a morte de Deus. E Deus vingou-se no filme de Béla Tarr. Da mesma maneira que criou o dia e a noite, o céu e a terra, o homem e a mulher, também os destruiu, em seis dias.

Rui Manuel Amaral, sobre O Cavalo de Turim, de Béla Tarr (aqui).

PROFECIA

Que a vida digital sobrevive à vida física, já se tinha tornado evidente e por vezes inquietante. Por isso, o Facebook passou a oferecer um serviço que, mediante as provas do óbito, apaga o perfil dos mortos. Mas nem por isso o Facebook deixou de ser um gigantesco cemitério sempre em expansão, e chegará o momento em que terá mais mortos do que vivos.


António Guerreiro, no Público.

sábado, 11 de novembro de 2017

COMUNISMO HOJE

   O maior problema com que o comunismo se confronta na actualidade não é o inegável anacronismo de muitos dos seus defensores, mas sim o insuportável anacronismo dos seus detractores. Não é possível falar de comunismo hoje como se falava há 100 anos. A crítica aos erros cometidos tem vindo a ser feita quer pela história, quer por muitos dos seus principais actores. Como qualquer outra ideologia, o comunismo presta-se a diversas interpretações e, disso podemos estar certos, será sempre mais fecundo enquanto força inspiradora da acção do que foi nas múltiplas tentativas de ser levado à prática literalmente.
   Certas pessoas falam dos crimes cometidos sob a bandeira do comunismo como se falassem de algo extraordinário. O crime não é próprio das ideologias, como nunca foi das religiões. Os crimes cometidos sob a cruz de Cristo esgotam o cristianismo? Alguma vez o comunismo lançou uma bomba atómica? Esteve o comunismo na origem das duas Grandes Guerras do séc. XX? A democracia burguesa não tem também as suas inumeráveis vítimas disseminadas pelos campos de concentração do capitalismo global, chamem-lhe fábricas ou oficinas terceiro-munditas? Os campos de concentração foram uma invenção comunista? Uns males não legitimam outros, o que é válido tanto para uns como para outros.
   Creio que o maior desafio colocado a um comunista na actualidade é o de levar a cabo um exercício crítico sobre o papel de uma ideologia cujo princípio fundamental é o de libertar o homem da exploração por outros homens, servindo-se das experiências do passado não como fardo mas como lição. A luta é pertinente e impõe-se cada vez mais enquanto necessidade absoluta, algo que a mais recente edição do Web Summit tornou claro com a exibição dos seus engraçados robots neoliberais.
   Também já não está apenas em causa deixarmos de ser explorados, está em causa a possibilidade de continuarmos a ser humanos. Os detractores do comunismo ainda não perceberam isso, encantados que andam com a sua cassete simplificadora da luta comunista. Dizem que é sempre a mesma a nossa cassete, como se, tragicamente, não fosse sempre a mesma a que lhes ouvimos quando pretendem desacreditar uma luta fundamental. A história dos comunistas é feita dessa desacreditação. Foi assim quando lutaram pela libertação dos povos em plenos regimes fascistas, é assim na luta pela dignificação de todos os seres humanos em plenos regimes pseudodemocráticos. 
   Pressentirmos que assim continuará a ser não pode desanimar quem se convença da justiça dos propósitos, antes oferece ao discurso um novo e exigente sentido de clareza. A Guerra Fria pode ter acabado, mas a de uma tacanha tepidez crítica ainda agora começou. 

PANTEÃO

E depois foram todos para o Panteão rapar ossos.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

LER, N.º147, OUTONO DE 2017


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DÚVIDA QUE SE IMPÕE

Uma aluna viu uma lagarta no prato da refeição escolar e resolveu filmá-la, para posteriormente divulgar o vídeo nas redes sociais. Por conta disso, está a ser alvo de um processo disciplinar. Quando irá Marcelo ao seu encontro para confortá-la?


Adenda: pela democracia, um abraço também ao desgraçado Duarte Marques. A felicidade não é com ele, que anda sempre a perder oportunidades para ficar calado. Veja-se aqui, via Maria.

UM PROBLEMA DE JUSTIÇA

Independentemente do que motivou a contenda, não se pode ver um agente da autoridade a ser agredido e mandar para casa o agressor. A segurança de todos depende também do respeito que devemos a quem zela por essa segurança. Agora chamem-me fascista. 

O PARADOXO DAS SIMONES


Há a Simone Weil, que faleceu com 34 anos...


...e a Simone Veil, desaparecida este ano com 90. Descubra as diferenças no Público, hoje, página 32 do suplemento Ípsilon. Ou então não há diferença alguma, e foi a segunda quem escreveu estes dois livros publicados recentemente pela Antígona.

BANDA SONORA ESSENCIAL #24


   Apanhei na televisão, por mero acaso, um filme sobre Chet Baker. Não sabia sequer da existência do filme. Robert Budreau realizou, tendo cabido a Ethan Hawke a missão de dar corpo a um dos mais carismáticos jazzman de todos os tempos. Muito abaixo do que Clint Eastwood fez com Bird (1988), recriando a vida de Charlie Parker, o filme de Budreau peca por não conseguir resgatar para o seu interior a grandeza de uma música maior do que a vida. Born to Be Blue (2015) concentra-se na dependência de heroína que perseguiu Chet Baker, deixando quase na penumbra a imortalidade de uma submissão maior chamada música.
   O homem que tocava sempre como se fosse a última vez viveu intensamente a sua tragédia, deslocando-nos quando o ouvimos para a sombra de uma vulnerável existência. Chamamos a isso melancolia, por desconhecermos que nome dar ao que torna bela tamanha tristeza. Baker nasceu no Oklahoma a 23 de Dezembro de 1929, mudando-se com a família para Los Angeles quando tinha dez anos. Aperfeiçoou qualidades musicais no exército até ter sido expulso por deserção. A entrada no mundo do jazz correspondeu a outra forma de abandono, um abandono que foi inteira dedicação à música. As drogas levaram-no à prisão, roubaram-lhe os dentes na sequência de uma rixa com traficantes, afundaram-no numa inimaginável solidão. Uma solidão ultrapassada trazendo por companhia a música, a trompete e a voz, enquanto expressões da uma mesma intimidade a desintegrar-se em partículas de som.
   Quase teve que deixar de tocar, mas reergueu-se. Estabeleceu-se na Europa em meados da década de 1970. Data de 1980 uma das suas últimas gravações que mais aprecio, na companhia do acordeonista Richard Galliano, do pianista brasileiro Rique Pantoja Leite, do baixista Michel Peyratoux e do baterista José Boto. Gravado em Paris, Chet Baker and the Boto Brazilian Quartet (1980) recupera o fraseado intimista de Chet Baker tingindo-o com os tons da bossa nova. Ouvimo-lo trautear em Seila num registo romântico que pode não estar ao nível das gravações dos anos 1950 para a Blue Note, mas oferece ao guerreiro um último sopro de dignidade. "Chet is a tightroper artist playing with space and emptiness”, diz Galliano. O que pode ser traduzido por qualquer coisa como “Chet é um equilibrista que contrabalança entre o espaço e o vazio”. Entendemo-lo quando escutamos a voz e o solo de Forget Full, num ritmo que Chet acompanha aos 50 anos como se tivesse 20. A gente escuta-o e relativiza, que isto da música não é de todo para quem quer… é para quem é.


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O BIBLIÓFAGO

Existem várias versões acerca da origem do cravo enquanto símbolo da revolução portuguesa de Abril de 1974. A mais conhecida, talvez seja a de uma rapariga que ofereceu um cravo a um militar depois de este lhe ter pedido um cigarro. Os cravos, trazia-os ela da loja onde trabalhava e que então comemorava um ano de serviço. A loja não abriu, os cravos foram ver passar soldados. Outra versão remete para uma florista, que podia ser a Valéria de um conto de Abel Neves (n. 1956). Temente a Deus, militante comunista, ficou desamparada quando com o passar dos anos ficou a saber que ambos lhe tinham morrido: Deus de morte natural, o comunismo de uma doença infantil. O desamparo é uma das características marcantes em muitas das personagens de O Bibliófago e Mais Historietas Breves (Edições Adab, Abril de 2017), colectânea de contos a merecer muito mais do que ficar esquecida nas estantes atoladas das livrarias. Abel Neves tem vastíssima obra dramática publicada e levada à cena, sendo também autor de livros de poesia, ficção narrativa e ensaio. É um dos nossos mais relevantes escritores vivos, pelo que não se compreende o relativo esquecimento a que parte da sua obra tem sido sujeita. Os contos coligidos em O Bibliófago são apenas mais uma prova da sua destreza narrativa, focados em personagens geralmente verosímeis cuja genuinidade não estorva o extraordinário. De ordinário têm as profissões e as ocupações, sejam floristas ou vigilantes, carteiristas ou talhantes, dedicadíssimos donos de restaurantes, sapateiros... Cumprem a vida em locais facilmente identificáveis, nas ruas de Lisboa, a sua maioria, mas também em Viseu, ou deslocando-se de Mangualde para a capital. Em certo sentido, podemos dizer que estas personagens se identificam com o que do mundo rural migrou para a cidade. As suas acções estão eivadas de sonho, como o segurança “Dentinho” que: «Sonhava com praias na Austrália, veredas acidentadas no Peru, focas e icebergs do árctico, mas também com hotéis de palmeira e jacuzzi e bares de gin tónico, raparigas alegres e desprendidas» (p. 97). A realidade não lhes sacrifica o sonho, não as impede de ficcionar a existência, embora o sonho surja quase sempre desfeito pela monótona quotidianiedade das suas vidas. A excepção são os momentos de transformação, as anomalias, as metamorfoses que incutem na descrição dos factos uma dimensão alegórica deveras cativante. Acontece com O Bibliófago que ofereceu título à colectânea, um literal devorador de livros que morre depois de se perder com as edições baratas destacadas semanalmente nos jornais. A fast-food provoca danos colaterais inimagináveis. Outro caso curioso é o de Franco, criador de suínos que acaba no espeto depois de ele próprio se transformar num porco. Ainda nos domínios da suinicultura encontramos Os Nobres da Betesga, entre os quais um deles ficou com o nariz tão danificado pelo pó dos livros que ao morrer mais parecia «um homorco, um misto de homem e porco» (p. 64). Destaque ainda, pela invulgaridade dos factos, para um pobre cão que à força de ter sido tão tratado como humano aprendeu custosamente a falar para dizer: «Quero voltar a ser cão». A fábula, aliás, é outro dos territórios penetrado amiúde pela imaginação de Abel Neves. No entanto, não é esse o mais interessante dos territórios vislumbrados nestes contos. Prefiro, por exemplo, a docilidade de Pombo, vigilante profissional que durante as férias faz tudo para agradar à sua Genoveva: «Ele e as estrelas eram difíceis de compreender. Por mais que abrisse o olhar à noite, por mais que quisesse ser outro sendo ele, Pombo continuava o pacato vigilante do centro comercial» (p. 81). Mas é neste continuar que ele se torna especial, por nos oferecer com o seu exemplo a história de um homem reduzido ao papel que lhe reserva a vida: «A vida podia ser isso também, uma ocupação, os dias continuando tão indiferentes como a natureza aos seus nomes» (p. 176). Ao mostrar-nos assim a vida, Abel Neves faz-nos descer a uma realidade que, afinal, é a nossa mais humana condição, uma realidade inacessível a quem a mire pelos binóculos da lei e da ciência. Nestes contos, o exemplo surge da observação directa e participativa. Afinal, eles germinam do palco onde todos nós somos actores, com mais ou menos jeito para manigâncias, com mais ou menos truques, com dissemelhantes graus de capacidade para a subversão dos papéis. A páginas 57 damos mesmo com um actor de profissão, desafia alguém do público a pegar numa pistola que traz consigo e a disparar sobre ele. Diz: «O interessante no teatro é que se eu vos disser que a minha arma está carregada vocês acreditam que está, e também faz parte do jogo saber que esta arma é minha, mas não é» (p. 57). Chamem-lhe bluff ou prestidigitação, chamem-lhe cinismo ou representação, este jogo é, em suma, o que melhor define a existência de todos quantos passam a vida a fingir que não vão morrer. 

VALÉRIA NO MEIO DAS FLORES

   Valéria acreditava num Deus barbudo, sentado num trono de mármore branco trabalhado ao modo da Renascença, e por isso a sua vida era uma ficção. Levantava-se pelas cinco e meia para recolher as flores que levava para a esquina da praça e aí ficava até às quatro da tarde. Levava mais de cinquenta anos nisso, nessa ficção com flores. Desde que o regime mudara, mas não a sua crença no Deus barbudo, tinha o hábito de frequentar os comícios do Partido Comunista. Desenrolava a sua bandeirinha,  passava-a a ferro, enrolava-a de novo e ia desfraldá-la diante dos seus dirigentes máximos, que falavam para ela, sabia que falavam para ela, enchia-se de orgulho por saber que os dirigentes máximos falavam directamente para ela, para a florista da esquina da praça, embora estivesse diluída no meio dos outros aficionados e quase não pudessem vê-la com a sua impecável bandeirinha desfraldada.
   Eram muitíssimos os que correspondiam, muitos eram católicos, comunistas alguns e muitos mais doutras cores e feitios, eram muitíssimos os que correspondiam à simpatia de Valéria, e o negócio prosperava, das rosas simples aos ramalhetes de múltiplas flores. Era uma florista rica, amada.
   Numa tarde disseram-lhe que Deus tinha morrido, que vinha escrito nos jornais, que as autoridades não podiam fazer nada, que Deus tinha morrido de morte natural e, pronto, havia que viver sem Ele, como se, de repente, uma andorinha deixasse de contar com o seu beiral. Foi uma parte de si que voou. Procurou ajeitar-se com a notícia e sobreviveu, continuando a frequentar as igrejas e a respeitar o compromisso dos gladíolos nas jarras dos altares. Sentava-se nos bancos corridos, junto à coxia central, olhava as imagens dos santos, os vitrais e o tecto arqueado, em pedra, e parecia-lhe que o seu Deus barbudo estava agora mais presente depois de saber que tinha morrido, ou melhor, era igual, igual era ele estar morto ou vivo porque ela deitava a sua fé para além das palavras que lhe diziam, mesmo que fossem ciência ou arte maior.
   Já não se passou o mesmo quando lhe anunciaram que o comunismo tinha falecido, pelo menos aquele que estava pintado na sua bandeirinha. Como fora possível que ninguém lhe tivesse dito antes que havia uma doença infantil no comunismo e que o paraíso terreal, esse jardim onde todos tinham o seu canteiro florido, já não seria decretado proximamente? Ainda se penteava e arrumava o melhor vestido para marcar presença nos desfiles de protesto, e levava a sua pantalha vermelha, mas deixara de a soltar. Enrolada na mão, era agora uma espécie de bandeirinha de chefe de estação e que ela já não erguia, nem para saudar os dirigentes amigos, que já não lhe falavam directamente. Reservou-a junto de um velho petromax e foi-se esquecendo, mas não dos sentimentos que vivera com ela. Compreendeu que ainda podia contar consigo no meio das flores.


Abel Neves, in O Bibliófago e Mais Historietas Breves, Edições Adab, Abril de 2017, pp. 30-31.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

ESCALAR UMA MONTANHA


Estão condenados os comunistas que pensem que é possível empreender uma tarefa tão marcante, do ponto de vista histórico, como a fundação dos alicerces da economia socialista (em particular num país de pequenos camponeses) sem cometer erros, sem retrocessos, sem incontáveis alterações ao que está inacabado e mal feito. Os comunistas sem ilusões, que não se deixam levar pelo desânimo, que preservam a sua força e flexibilidade «para começar do princípio», uma e outra vez, perante uma tarefa de extrema dificuldade, não estão condenados (e quase certamente não perecerão).

Vladimir Ilyich Ulyanov, aka Lenine.

VIVA O CAPITALISMO

Estudava no último ano de Direito e trabalhava na Ikea quando decidiu criar o seu negócio: uma editora onde os autores têm de pagar para publicar os seus livros. (…) O escritório fica no primeiro andar de um edifício de luxo na Avenida da Liberdade, no coração de Lisboa, onde o preço do metro quadrado facilmente chega aos 1.500 euros. É a zona imobiliária mais cara do País, por isso não admira que os lugares de estacionamento estejam reservados a Mercedes, Jaguares e Porsches. Também há um Ferrari, o de Gonçalo Martins, parado justamente à porta da empresa. O edifício de traça antiga, com uma escadaria de madeira e a luz de Lisboa a inundar janelas com vista para a avenida, é o símbolo de tempos prósperos em contraciclo: só no ano passado a Chiado Editora publicou 1.036 livros e teve um volume de negócios superior a 2 milhões de euros.

O BRIOCHE CONGELADO DA ROBOT SOPHIA OU O CALENDÁRIO SOLIDÁRIO DOS TRÊS MACACOS


   A moda dos calendários nus contrasta com a atitude hipócrita das pessoas sensíveis. As pessoas sensíveis, já dizia Sophia, apreciam canja de galinha desde que não trucidem a galinha à sua frente. Também gostam muito de certa indumentária, que compram e vestem e calçam, embora se exibam revoltadas com as condições de trabalho de quem confecciona trapos tais. Degustam o brioche da Padaria Portuguesa, conquanto não sejam lembrados da tacanhez laboral oferecida aos simpáticos trabalhadores da Padaria. O mundo pode estar em ruínas, desde que eles não vejam. Para as pessoas sensíveis, o mundo que desabe desde que não desabe em cima delas. As pessoas sensíveis são como os três macacos sábios de um mal interpretado  provérbio japonês: não ouvir, não ver, não dizer. E o mal pode ir acontecendo. 
   Há nisto um misto de hipocrisia e de extremo egoísmo, motores afinados das sociedades de consumo em que vivemos. Já a moda dos calendários de nus é diferente. Não havendo por detrás deles uma qualquer motivação egoísta, antes pelo contrário, os ditos calendários solidários têm na nossa sociedade um efeito similar ao dos beijinhos e abraços de Marcelo. Fez-se um, achou-se graça. Agora são às toneladas e não têm graça nenhuma. Estudantes de veterinária despem-se para ajudar animais vadios, bombeiras despem-se para ajudar vítimas de incêndios, mães despem-se para ajudar escola… Enfim, qualquer dia despimo-nos todos para garantir educação aos filhos dos funcionários da Padaria Portuguesa.
   E quem diz Padaria Portuguesa pode dizer um sem fim de empresas que fazem uso das mesmas práticas: pagar pelo mínimo exigindo o máximo, sem qualquer tipo de preocupação que não seja garantir o bem-estar das administrações. Por mim falo, que tenho o vencimento congelado há seis anos. Já não falta muito para que um colega que entre para a empresa como estagiário, a ganhar o salário mínimo, tenha o mesmo vencimento base que eu, com 9 anos de serviço ininterruptos, sem uma falta nem um dia de baixa, responsabilidades quintuplicadas. São pormenores que não interessam, desde que continuemos a não ver ou a mostrar tudo. Isto é, a varrer para debaixo do tapete ou a despirmo-nos de preconceitos para calendários solidários.
   Enfim, que relevância podem ter estas coisas quando comparadas com a última capa da revista Cristina? Concentremo-nos no que é verdadeiramente importante, a capa da revista Cristina e a Lili Caneças e um sem fim de parvoeiras e palermices que podem ocupar o nosso pensamento sensível enquanto os funcionários da Padaria Portuguesa mal têm tempo para pensar com tanto trabalho que os espera por um creme e um babygrow a bem das gerações futuras. E assim se constrói um futuro de esperança, risonho, dia a dia, hora a hora, ideal para orgias de empreendedorismo em Web Summits que nos fazem acreditar numa virtualidade que transcende a realidade da maioria - a que anda a servir cafés  nos corredores do recinto enquanto sonha poder ter uma vida com, pelo menos, os mesmos direitos da robot Sophia. Que, ao que consta, não escreve poemas sobre pessoas sensíveis nem apareceu ainda na capa da revista Cristina.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

7 DE NOVEMBRO


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VIVA O CAPITALISMO

Fazemos investimento a sério nas pessoas: uma vez por ano juntamos todos os trabalhadores num arraial de verão e fechamos as lojas mais cedo. Mensalmente, reunimos com as equipas de gestão de loja, de forma absolutamente informal, fazemos um piquenique no jardim da Estrela, onde ouvimos inputs sobre o negócio, até mesmo sobre políticas salariais. Cada vez que nasce um bebé, oferecemos um creme e um babygrow e escrevo um postal de aniversário personalizado a cada um dos trabalhadores. Temos estes cuidados. Somos muito informais e tratamos as pessoas como pessoas. Criamos um espírito de equipa que vale muito mais do que a remuneração base.


Nuno Carvalho, sócio gerente da Padaria Portuguesa (aqui).


Proponho que sempre que forem à Padaria Portuguesa, digam que vão da minha parte e paguem com espírito de equipa. Espírito de equipa vale muito mais do que qualquer outro modo de pagamento. Devíamos até começar a exigir terminais de pagamento por espírito de equipa em todas as padarias portuguesas geridas por Nuno Carvalho. 

EPIFANIAS #32

32

A multidão pulula no recinto, movendo-se na lama. Uma mulher gorda passa, o seu vestido levanta-se audaciosamente, rosto inundado de laranja. Um jovem pálido com sotaque Cockney faz truques com as mangas da camisa e bebe directamente da garrafa. Um velho atarracado tem ratos no guarda-chuva; um polícia de botifarras aborda-o e apreende o guarda-chuva: o pequeno velho desaparece. Apostadores apregoam nomes e preços; um deles vocifera com a voz de uma criança —‘Bonny Boy!’ ‘Bonny Boy!’. . . Criaturas humanas pululam no recinto, andando para a frente e para trás na lama espessa. Algumas questionam se a corrida já começou; respondem-lhes que ‘Sim’ e que ‘Não.’ Uma banda começa a tocar. . . . . . Um belo cavalo castanho, com um cavaleiro amarelo a montá-lo, cintila distante à luz do sol.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

domingo, 5 de novembro de 2017

#102


Ao segundo álbum, o universo poético de Benjamin Clementine complexifica-se. E por consequência, os labirintos musicais que o sustentam. O que havia de intimista no registo de estreia deu lugar a uma perspectiva sociológica da actualidade. Não nos deixemos ludibriar, porém, pela pop algo ingénua de Jupiter, tema a servir de apresentação para um álbum que nega tudo o que essa canção induz.


Entre o erudito e a pop, as estruturas musicais expostas em I Tell a Fly (2017) são um constante desafio. Logo ao primeiro tema, ironicamente intitulado Farewell Sonata, a melodia romântica é descontinuada por uma bateria em frenético ritmo rock. Os coros e o cravo oferecem um tom barroco ao todo, mas em One Awkward Fish o ritmo é drum and bass à moda dos noventas. O vozeirão de Benjamin Clementine emerge do silêncio como uma espécie narrador de um mundo alienígena, caótico, pandemónio ameaçador da segurança, da liberdade, do bem-estar dos seus actores. Um mundo governado por bárbaros. E a ironia pauta o retrato: «For me, the difference between love and hate, / Weighs the same difference / between risotto and rice pudding». Quem tenha apreciado a simplicidade e certo imediatismo do álbum de estreia, poderá decepcionar-se. Quem gostar de ser surpreendido por metamorfoses inesperadas, poderá sentir-se recompensado. By The Ports of Europe é a grande canção, hino de uma actualidade capaz de deixar meio mundo à beira da demência enquanto à outra metade já nenhum tratamento valerá: «Out of Ports of Europe / A star twinkles not on a tree / But infront of a TV screen / One wonders when it will all end / By the ports of Europe / For much of the day to mend». Há neste álbum momentos verdadeiramente expiatórios, canções orquestradas pelo sonho e por uma realidade alienante. O desafio é mantermo-nos equilibrados no fio que atravessa tal universo.


QUEM VOTOU MARCELO?

Eu explico-me: já não posso com tantos afectos, tanto desejo de estar em cima das pessoas, tanta vontade de envolver tudo e todos numa sopa de pathos, como se fosse o pathos o que mais falta à vida pública portuguesa. Bem pelo contrário, o que falta é um quantum de racionalidade, nem sequer um quantum, que já por si só seria revolucionário, mas uma gigantesca dose de razão, de argumentos, de raciocínios, em vez de tornar a vida pública num festival de beijos e abraços, e de muita lamechice em relação à dor alheia. O problema é que quase se pode fazer uma correlação: quanto mais lamechice, menos reformas e menos mudanças. E de mudanças e reformas é que a nossa vida pública mais precisa.
José Pacheco Pereira, aqui.

Pacheco Pereira é um caso de estudo. Facilmente se concorda com o que diz, embora sejamos quase sempre incapazes de concordar com o que faz. Olhem para ele, ainda há dias, ao lado da "presidenta" dos afectos:


LENINE EM VARSÓVIA

   É tentador contar aqui uma anedota soviética clássica. Numa galeria de arte oficial de Moscovo está exposto um quadro chamado Lenine em Varsóvia, que retrata Nadezhda Krupskaya, a mulher de Lenine, no seu quarto no Kremlin, a ter sexo desenfreado com um jovem do Komsomol. Um visitante, surpreendido, pergunta ao guia: «Mas onde está Lenine, aqui?», ao que o guia responde, calmamente: «Lenine está em Varsóvia».

Slavoj Žižek, in Lenine 2017, trad. Joana Neves, Elsinore, Setembro de 2017, pp. 108-109. 

ASSÉDIO

Subitamente veio à tona um arquipélago de lixo que, tal como o avistado por Charles Moore a sul do Pacífico, também merecia a sua bandeira. Por cá, os comentadores de serviço anseiam assédios à portuguesa. Não se passa nada? Para os moralistas, o problema será verem-se a breve trecho no papel daqueles que agora criticam por durante anos terem silenciado crimes que sabiam perpetrados. Vivem num dilema: o de serem bufos ou o de serem mesquinhos. Anda tudo em surdina, embuchado, ou não sabem mesmo de nada e é um diz que disse à maneira de balés Rose e casas pias. Há uma terceira e até uma quarta hipóteses, a de termos nos corredores do poder artístico, político, empresarial, mais tarantinos do que julgávamos. A quarta hipótese, talvez a que mais convenha a uma nação de beatos, é a de sermos todos santos, puros, eunucos, a quem penas suspensas expiam pecados mortais. Não é a isto que se chama hipocrisia? Olha que bela bandeira para o arquipélago de lixo vindo à tona lá fora, submerso cá dentro. 

sábado, 4 de novembro de 2017

«depois dos campos queimados»

298.

depois dos campos queimados
eu e as folhas de inhame
aguardamos pela chegada da lua


Nota do tradutor: Os campos, depois das últimas colheitas, eram queimados, para limpeza e desinfestação. O poeta e as folhas de inhame, tendo estas talvez resistido ao fogo, são os únicos seres que sobrevivem a essa queimada.


Matsuo Bashô, in O Eremita Viajante [haikus - obra completa], organização e versão portuguesa de Joaquim M. Palma, Assírio & Alvim, Setembro de 2016, p. 128. Nota na p. 329.

A REVOLUÇÃO DE 1917

A Revolução de 1917, em particular a sua dimensão que foi projetada a partir da experiência fundadora de Outubro, configura, no trajeto da história humana, apesar dos fracassos e até das sombrias perversões que o seu trajeto consentiu, uma possibilidade única, que remete para processos de transformação no sentido de um ideal humano de justiça social e de emancipação. Karl Marx via em Prometeu, o titã da mitologia grega, um símbolo da capacidade de rebelião contra o poder divino. Ela representou um momento histórico, um momento de esperança na possibilidade desse grito, capaz de descer dos céus para a vida humana, libertando-a da prisão que é viver sem a perspetiva da felicidade e da liberdade que vem com esta. É, pois, como sinal de uma hipótese que constituiu um momento memorável. Os males que também trouxe são só pedras no seu caminho.

Rui Bebiano, aqui.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #23


   Ao dia em que escrevo, ó posteridade, a notícia do dia é a ordem governamental de encerramento da discoteca Urban Beach, lugar protegido por indivíduos que, fazendo-se valer da posição de seguranças, arreiam forte e feio a quem passa nas imediações. Sobretudo se for preto. A história não é nova. Há anos, o nosso campeão Nélson Évora ficou à porta por, argumentou um dos tais seguranças, ter demasiados amigos pretos. A notícia valeu um pedido de desculpas, daquelas que enchem o inferno de pecadores.
   Podíamos também referir, já que estamos com a mão na porcaria, o caso dos 18 agentes suspensos por acusação de racismo e tortura. São apenas exemplos que desmentem os brandos costumes da nação. Na realidade, quem ande na rua, frequente redes sociais ou simplesmente tenha uma televisão em casa, fácil e rapidamente se aperceberá que por cá a porcaria não é diferente da que entope as vias respiratórias no resto mundo. Talvez a dimensão do país nos proteja da claustrofobia total, encantados que vamos indo com serial killers de Aguiar da Beira, banqueiros de consciência tranquila, pirómanos à solta. Valham-nos Sócrates e outros megalómanos como ele para que a esperança seja a última a morrer, nem que seja espancada por um segurança no cumprimento das suas funções.
   Tricky, que já este ano publicou um tonificante Ununiform, vem desde meados da década de 1990 retratando este estado alienante das sociedades modernas com um olhar clínico onde nojo e raiva são servidos em doses equilibradas. O inferno está ao virar da esquina, nas mãos dos gananciosos que detêm poder e se alimentam de dinheiro como nós de ar. A base electrónica da sua música, enraizada naquilo que se convencionou catalogar como trip-hop, é só uma forma de travestir com sedutores contrastes artísticos o que o rock denuncia desde a sua fundação: o desespero da juventude face à génese conservadora do mundo dito civilizado.
   Maxinquaye (1995), álbum de estreia, catapultou-o para o panteão dos mensageiros de uma nova forma de estar na indústria musical. Pre-Millennium Tension (1996) confirmou o estatuto, ao fazer a síntese possível de um extraordinário momento de tensão que a poucos é dado experienciar. Findo o século XX, o século de todas as tiranias e fábricas de morte, que esperar do século XXI? A linguagem de Tricky é a dos subúrbios, a do gueto que ele tão bem caracterizou em temas como Ghetto Youth. É a linguagem da escória, dos desapossados, dos marginalizados, dos servos de um sistema que prospera sobre os alicerces da desigualdade social. Can hardly breathe, repete-se exaustivamente no claustrofóbico Vent. Liberdades poéticas de um génio que, afinal de contas, seria barrado à porta do Urban Beach por não ter uma cor de pele de acordo com os códigos exigentes de certos seguranças à portuguesa.


MINHOCAS

Imaginemos que um indivíduo aceita participar numa experiência sobre alteração de hábitos alimentares para combater a fome no mundo. Chegado ao laboratório, é-lhe pedido que engula uma minhoca viva, e é-lhe ainda recordado explicitamente que, se o achar repugnante, pode sempre, claro, recusar, pois tem plena liberdade de escolha. Na maior parte dos casos, vai aceitar fazê-lo, e depois racionalizar essa escolha dizendo a si mesmo algo como: «Aquilo que me pedem que faça é realmente nojento, mas não sou nenhum cobarde, devo mostrar coragem e autocontrolo; caso contrário, estes cientistas vão achar que sou uma pessoa fraca, que desiste ao mais pequeno obstáculo! Seja como for, as minhocas têm muitas proteínas, por isso podiam realmente ser usadas como fonte de alimento para os mais pobres - quem sou eu para impedir uma experiência tão importante só por causa da minha sensibilidade mesquinha? E, se calhar, o nojo que tenho de minhocas é só um preconceito, talvez as minhocas não sejam assim tão más; não seria uma experiência nova e ousada provar uma? E se isso me permitir descobrir uma dimensão inesperada e desconhecida, ainda que algo perversa, de mim mesmo?»


Slavoj Žižek, in Lenine 2017, trad. Joana Neves, Elsinore, Setembro de 2017, pp. 49-50. 

AS PESSOAS TÊM PIADA

Sendo sempre o melhor da festa o dia seguinte, demos também os parabéns ao povo de Caldas da Rainha. Conseguiram fazer o que a maioria do país não consegue, oferecer a sua confiança a uma equipa que logo pela manhã de segunda-feira fez questão de dar um ar de sua graça e competência com duas tampas de esgotos a saltar, quais rolhas de garrafas de champanhe, em plena Rotunda da Rainha


Escrevi isto há quatro anos, num post intitulado Autárquicas 2013. Este ano, às primeiras chuvas, desejadas e até algo tímidas, as ruas de Caldas da Rainha ficaram alagadas. As pessoas mostram-se indignadas, partilham os seus melhores vídeos nas redes sociais. Há dias, foram às urnas votar nos mesmos de sempre. As pessoas têm piada. 

SIRINGE

A história foi-nos contada pelo uruguaio Eduardo Galeano (n. 1940 – m. 2015) no livro O Caçador de Histórias (Antígona, Setembro de 2017). Um caçador, perdido nos labirintos da selva amazónica, deixou-se adormecer. Foi despertado por um som nunca antes ouvido. Um pica-pau tinha debicado um ramo, abrindo nele buracos através dos quais o vento passava produzindo uma música lindíssima. Assim terá nascido a primeira flauta. Esta história coloca em cena três actores: um homem, um pica-pau, o vento. O que os aproxima é a música, uma música inesperada, matéria invisível que chega aos ouvidos do homem como efeito de causas espontâneas, naturais, que interligam a acção do vento sobre uma construção do pica-pau e a faculdade de espanto inerente ao homem. Por espanto entendamos aqui a capacidade de se emocionar com o que ouviu, o que lhe exige algo mais do que ser dotado de ouvidos. Antes de ter sido transformada em arte, a música era a “matéria do ar”. Tal como a luz, de resto, antes de a pintura e a fotografia e o cinema se terem lançado na missão de a transfigurarem tentando apropriar-se da sua natureza esquiva.
Siringe, explica-nos o dicionário, é o órgão que nas aves permite a emissão de sons. Uma espécie de ramo, presumo, através do qual o ar produz o canto. Estamos no campo da biologia, mas podíamos estar no da mitologia. Siringe é também a flauta de Pã, o deus dos bosques, e, na forma de Sírinx, a ninfa por quem Pã se apaixonou, ninfa que cansada de fugir do pretendente foi transformada num caniço pelas divindades. Daí a flauta de Pã. Tudo isto nos é relatado na primeira parte de cinco que formam o poema Siringe, onde Rosa Maria Martelo (n. 1957) encontrou título para o seu mais recente livro. Siringe (Averno, Março de 2017) reúne, além desse poema que lhe deu título, os livros A Porta de Duchamp (2009) e Matéria (2014).
São de ordem diversa os elementos que ligam os textos incluídos neste volume, justificando-se a sua edição conjunta. Desde logo a desmontagem de um tom reflexivo que só em aparência surge como marca principal destes poemas. Se devemos pressupor essa reflexividade como anterior ao texto, não podemos deixar de notar nele a força do acidente enquanto elo capaz de reunir no poema dados decorrentes da ciência com outros provenientes da mitologia. Extravasando os limites da reflexividade, o texto assume uma outra dimensão, liberta de constrangimentos científicos, independente até de emoções que o transportariam para domínios exclusivos da poesia. O texto testa os princípios da lógica: «A face exterior do lado de dentro / não se distingue da / face interior do lado de fora; / fina membrana, a mesma vibração» (p. 71). Nisto, os versos de Siringe coincidem com o mote dado pelas prosas de A Porta de Duchamp.
Porte, 11, Rue Larrey data de 1927, foi construída por um carpinteiro de acordo com as instruções determinadas por Marcel Duchamp. A característica única desta porta era a de que podia estar aberta e fechada ao mesmo tempo, subvertendo assim o princípio aristotélico da não contradição: duas afirmações contraditórias não podem ser ambas verdadeiras. Mas sobre a porta de Duchamp podíamos ao mesmo tempo dizer: a porta está fechada, a porta está aberta. A oposição estava desfeita pela prática. Na sua forma, os próprios textos de Rosa Maria Martelo colocam-nos perante uma realidade similar: são prosa, são poesia, são poema, são aforismo. E no interior desses textos encontramos por diversas ocasiões a negação dos opostos, como nesse belíssimo texto que levou o pertinente título de Sombras: «A noite não é o avesso do dia, sequer o seu contrário — de noite os motores do dia trabalham ainda, desengatados, um pouco como bate o coração de quem dorme» (p. 13).
É nesse primeiro conjunto que somos apresentados à figura do “fotógrafo celeste”. Ele surge nos textos com os títulos Nuvens, Lama, Retrato com Espelho, como alguém que procura capturar a cor do céu. A cor é outro dos motivos essenciais nesta poesia. No livro Matéria são vários os poemas que remetem directamente para cores: Negro, Verde, Vermelho, Amarelo, Azuis, Branco… E no poema A Última Cor lemos: ««Venenoso escuro» disse a criança / ao mergulhar na água o pincel sujo de tinta. // Aviso, sinal, apocalipse, rio sem futuro, / pequeno muro onde cor nenhuma / fechava a toda a luz um copo de água» (p. 65). Tanto a cor como o som são materiais por excelência desta poesia, materiais sem matéria, ou, se quisermos, os materiais do vazio e do nada que percorre os textos como sentença final. A função, se assim podemos dizer, desse vazio consumado no texto é abrir «caminho para o outro lado do visível» (p. 10). Que lado será esse? Talvez convenha à resposta a subjectividade de cada leitor, como convém à criança que por vezes surge nos poemas um enquadramento do mundo diferente daquele que lhe é dado pela lógica do pensamento amadurecido pela idade.

Não podemos, no entanto, deixar de fazer notar a relevância que nestes poemas assume a observação da natureza. Com maior clareza nos poemas de Matéria, a natureza é o princípio através do qual se chega, paradoxalmente, à densidade imaterial da imagem poética, tal como à música chegámos pela passagem do vento nos ramos depenicados pelo pica-pau. Um fruto a desprender-se de uma árvore, a árvore despida de inverno, a vibração dos troncos, assistir ao crescimento de uma folha, o passar das estações constatado na transformação das plantas do jardim, são estímulos a uma experiência sinestética do mundo: «Mais tarde ainda, um poeta escreveu isto de outra maneira. Disse ele que «defronte dos limoeiros crescia o ar amarelo / dedicado / a quem por lá se luzia». Como se humanamente falasse pelos olhos dos insectos atordoados no calor. Foi quando eu soube que a sinestesia é o mais humano dos pontos de vista não humanos: ver com os sentidos todos juntos, como se ver não exigisse crença nenhuma. Como a música» (p. 42). Esta experiência é já um paradoxo poético, na medida em que ao observar os elementos da natureza observa em si mesmo a capacidade de um ver autónomo do órgão directamente associado à visão. Como sucede em muitos haikus de Bashô, os sons passam a ter cores, os sentidos misturam-se, a imagem poética «é (e não é) / a sombra de uma ideia projectada» (p. 73). É (e não é) a cor e o som feitos palavra. 

QUASE INVERNO OUTRA VEZ


Era quase inverno outra vez,
eu escrevia pequenas frases, sobre nada

pois nada havia que se pudesse dizer:

tudo te faria lembrar a vida ou a morte
— e era sempre a mesma pouca delicadeza

escrevia-te
pequenos bilhetes sem poder dizer
não te vejo mais, não te vejo nunca mais,
tu respondias sem nunca dizeres
já não importa

Nada que se pudesse dizer:
escrevia como se fosse possível,
respondias como se não fosse nada

Dizias — quando estivermos juntos outra vez,
e eu lia — nunca mais, não te vejo nunca mais

pequenas frases, feitas de nada

tudo parecia demasiado vivo
para não lembrar que a morte
ia apagando do mundo
tudo quanto se pudesse dizer

escrevia,
e em frente da janela
as árvores perdiam folhas de vidro,
de um vermelho nítido, definitivo

escrevia — não te vejo nunca mais, e
traduzia tudo em palavras inofensivas, banais
— nada que se pudesse dizer 

depois a morte levava as cartas


Rosa Maria Martelo (n. 1957), in Matéria (2014). «A poesia de Rosa Maria Martelo é abstracta, culta, algo irónica; há um sujeito poético que se dissolve num “nós”, que interpela um “tu” ou se transmuta no objecto. O universo antes e depois desse sujeito é irremediável e irreparavelmente disparatado, desunido. O eu retrai-se, recua, desinveste, elegantemente. Delicadeza, elegância, aparente leveza e voo constituem o húmus desta poesia que se depura, passo a passo, até ao osso, até à morte, essa presença antecipada. E não cessa de repetir o mesmo, a não-identidade perene de nenhuma impressão do mundo, nos múltiplos traços da sua diferença, desordem e impossível unidade» (Maria Conceição Caleiro, Público). «Tal como Adorno mostra com a noção de dialéctica negativa, ou Derrida com o conceito de différance, aquilo que está em causa é a impossibilidade de totalizar no discurso ou no mundo qualquer movimento da história ou do conhecimento: a relação com a língua e com o mundo é constitutivamente da ordem do desfasamento. É esta consciência do desfasamento como matriz da língua que encontramos em Rosa Maria Martelo. Não há na língua promessa de revelação, antes a consciência da penetração do dentro pelo fora, e do fora pelo dentro. Do mundo pela língua e da língua pelo mundo. Este é um movimento de reenvio e de subtracção da língua a si mesma, da razão à sensibilidade e da sensibilidade à razão» (H. G. Cancela, Contra Mundum).

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #22


   Num poema intitulado “L-E-T-R-A-S para Sigur Rós”, Rui Costa, de quem recentemente se publicou a antologia “Mike Tyson para Principiantes” (Assírio & Alvim, Setembro de 2017), refere-se a elementos essenciais como a água e o ar, colocando-os a par do amor. Quando escutamos um álbum como Ágætis Byrjun (1999), o segundo dos islandeses Sigur Rós, é precisamente do fundo do mar que nos lembramos, porque a marcar o ritmo ouvimos logo desde início uma espécie de sonar como aqueles que se ouvem nos filmes com submarinos.
   O belíssimo teledisco realizado para o tema Svefn-g-englar começa por mostrar-nos o ar como é possível mostrá-lo, na imagem de um tecido branco agitado pelo vento. Depois aparecem várias pessoas com síndrome de Down vestidas de anjo, fazem uma espécie de tai chi em câmara lenta. O tai chi chuan é uma arte marcial chinesa que remete para técnicas de meditação em movimento. Podemos interpretar essa técnica como uma forma de dança embalada pelo ar. O teledisco dos Sigur Rós é também ele uma espécie de dança que, como no poema do Rui, nos leva a respirar “rente ao ar, ao amor”.
   Não precisamos perceber a língua islandesa, em que os Sigur Rós se exprimem, para nos encantarmos com a sua música. Da mesma forma, dispensamos lições de gramática poética para que a poesia nos encante. Basta estarmos dispostos ao encantamento. Com a música talvez seja mais fácil, a música convence-nos pela viagem que nos propõe sem qualquer exigência de pensamento. Vai-nos directamente à pele. A poesia também pode ser assim, quando nela vislumbramos arranjos de cordas capazes de abrir à nossa frente imensos espaços de luz. E então respiramos rente ao ar, sentimos o bater do coração a prolongar-se pelo corpo inteiro como o sangue que nos corre nas veias.
   Sobre o que é Starálfur, a terceira canção de Ágætis Byrjun? E Hjartaõ Hamast? Qual o tema destas canções? Qual a mensagem? Falam-nos de quê? Não interessa. Sabemos apenas ao que nos falam, porque isso experimentamos directamente no coração. É uma viagem ao interior de um útero onde assistimos à germinação de um anjo, debaixo de água os pulmões começarão a funcionar como lhes exige a biologia. Por breves instantes, somos todos peixes, subaquáticos, estamos todos envolvidos num líquido que nos alimenta e tem a forma de música. O mais puro dos ares.
   Ao vivo, constatamos que o arco de violino pode produzir efeitos hipnotizantes quando aplicado nas cordas distorcidas de uma guitarra eléctrica. Mas essa constatação é já a do curioso. Melhor será fecharmos os olhos, ganharmos uma espécie de asas brancas e deixarmos o som fluir como um líquido que alimenta. Como o ar. Respira rente ao ar, escreveu o Rui para os Sigur Rós.


L-E-T-R-A-S PARA SIGUR RÓS

para J

é dágua
de-água
o meu vestido
o teu
soprado am-ar
líquido
um gás azul
o ponho aos pés
os teus pés e
os teus tornozelos
(teu-o fantasma
predilecto)

são sem
nada
não incomodam ar
não pressionam
(onde a cabeça
insiste, e então)
e respira
rente ao
ar
ao amor
de-o-ar a inspira-
te a expirar
e assim…- e
tu?


Rui Costa
(Insónia, 17 de Abril de 2006)

JUBAL (1956)


Delmer Daves (n. 1904 – m. 1977) assinou alguns westerns relevantes, entre os quais 3:10 to Yuma/O Comboio das 3 e 10 (1957), com direito a remake em 2007, talvez seja o mais conhecido. Mas antes dessa obra, Broken Arrow/A Flecha Quebrada (1950), nomeado para três Oscars, é considerado uma obra-prima da reabilitação dos índios nas telas de Hollywood. Jubal (1956) é um outro belíssimo exemplo da inclinação de Delmer Daves para temas invulgares no universo western. Baseado numa história de Paul Wellman, escritor com vasto currículo na recriação literária do Velho Oeste, Jubal traz para o centro de acção o problema da infidelidade conjugal. O argumento exibe várias influências bíblicas, das quais o nome da personagem central é a mais evidente. No entanto, o Jubal interpretado por Glenn Ford transcende a conotação bíblica para se transformar numa verdadeira personagem trágica. Por um lado, sente-se obrigado pelo dever de fidelidade ao melhor amigo. Por outro, é tentado pela mulher desse amigo. No caldo do conflito, acaba por se afundar num pântano de traições, de ciúme e de inveja com o qual pouco tem que ver.

Vítima das circunstâncias, Jubal não se mantém desde o início inabalável nas suas convicções. Isso só acontecerá quando aprende a deixar de fugir do passado, do azar que o persegue, e se concentra em viver uma vida de verdade. Neste sentido, é um típico herói do western norte-americano. Mas o interesse de Jubal não está apenas na elevação do seu herói. A personagem interpretada por Valerie French justificaria por si só o filme. Mae Horgan é o símbolo da tentação numa quinta que poderia ser a terra prometida não fosse antes um inferno humano. Casada com Shep Horgan, o homem que acolhe Jubal Troop rapidamente o promovendo a capataz, Valerie deixou o Canadá em busca de uma vida próspera que nunca alcançou. O casamento com Shep revelou ser mais um passo a caminho do tédio. Valerie trai Shep com ‘Pinky’ Pinkum, o ambicioso cowboy da quinta de Shep que vê o lugar de capataz lhe fugir com a chegada de Jubal. Mas ‘Pinky’ também verá fugir-lhe Valerie, a qual passará a tentar junto de Jubal a história de uma paixão que nunca passará de sonho e de intenção.

A história de Jubal é, pois, a história de um homem só. Invejado por ‘Pinky’, desejado pela mulher do melhor amigo, acusado de traição por Shep, resta-lhe confiar na infiel Valerie para escapar a um linchamento público engenhado pelo seu principal inimigo. Mas Valerie não está menos só. Ela trai Shep com ‘Pinky’ e trai ‘Pinky’ com Jubal, traindo-se, sobretudo, a si própria sempre que nos braços de Shep aceita uma vida que nunca desejou. Ela ainda não aprendeu a enfrentar o passado, carrega-o como um fardo arrastando-o pelo presente. O fim trágico adivinha-se-lhe. Não como expiação, nem como sacrifício. A infidelidade de Valerie não é sequer julgada neste filme segundo padrões ancestrais que porventura à época seriam menos estranhos ao público do que hoje são certos acórdãos judiciais. Também a jovem Naomi Hoktor, filha do pregador de uma caravana parqueada nas terras de Shep Horgan, se apaixona por Jubal apesar de já estar prometida a um outro jovem. O fim trágico de Valerie é o fim de uma mentira da qual a sua própria vida é a expressão mais severa.


Jubal não é um western moralista, apesar do tom melodramático e do carácter humanamente inabalável do herói que lhe deu nome. É antes um filme que eleva a verdade a valor absoluto, colocando em personagens capturadas numa teia de mentiras e de infidelidades várias o desafio último de ou serem verdadeiras, e sobreviverem, ou insistirem na mentira, e acabarem mais mortas do que já estavam nas suas vidas insignificantes.