terça-feira, 19 de dezembro de 2017

SEXTA EXTINÇÃO


A destruição da espécie está ao nível de há 65 milhões de anos, a Quinta Extinção, que acabou com a era dos dinossauros. Também abriu caminho para os pequenos mamíferos, em última análise, nós, uma espécie com capacidades únicas, incluindo, infelizmente, a capacidade de destruir fria e selvaticamente.
   O oponente reacionário do século XIX do Iluminismo, Joseph de Maistre, criticou Thomas Hobbes por ter adotado a frase romana «o homem é o lobo do homem», notando que a frase é injusta para os lobos, que não matam por desporto. A capacidade chega à autodestruição, como testemunhamos agora. Presume-se que a Quinta Extinção foi causada por um grande asteroide que colidiu com a Terra. Agora somos nós o asteroide. O impacto nos humanos é já significativo e em breve tornar-se-á incomparavelmente pior, a não ser que sejam tomadas ações decisivas imediatamente. Além disso, o risco de uma guerra nuclear, sempre uma sombra tenebrosa, está a aumentar. 
   Acabaria com qualquer outra discussão. Lembremo-nos da resposta de Einstein a uma pergunta sobre as armas que seriam usadas na guerra seguinte. Disse que não sabia, mas que a guerra depois dessa seria travada com machados de pedra. Uma inspeção a um historial chocante revela que é quase um milagre que tenhamos evitado o desastre até agora. E os milagres não duram para sempre. E o aumento do risco é, infelizmente, por demais evidente.
   Felizmente, estas capacidades destrutivas e suicidas da natureza humana são contrabalançadas por outras. Há boas razões para crer que figuras do Iluminismo como David Hume e Adam Smith, e o pensador ativista anarquista Piotr Kropotkin, estavam corretas acerca da simaptia e entreajuda como propriedades fulcrais da natureza humana. Em breve descobriremos qual destas características estão no seu ascendente.

Noam Chomsky, entrevistado por C. J. Polychroniou, revista Truthout, 9 de Março de 2016, in Otimismo e não Desespero, trad. Paulo Barata, Elsinore, Novembro de 2017, pp. 128-129.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

NICKI MINAJ


Recebo no e-mail um conjunto vasto de fotografias de uma tal Nicki Minaj. Juro que pensei tratar-se de publicidade a um qualquer museu de bonecos em cera. Mas só depois concluí que, na realidade, era uma instalação com bonecas insufláveis. 

PLANO ESTRATÉGICO


Sendo a natureza humana o que é, e tendo os indivíduos competências, capacidades, motivações e aspirações claramente diferentes, uma sociedade verdadeiramente igualitária será possível e/ou sequer desejável?

A natureza humana tanto engloba santos como pecadores, e cada um de nós possui ambas as capacidades. Não vejo qualquer conflito entre uma visão igualitária e a variedade humana. Poder-se-ia talvez argumentar que aqueles com maiores capacidades e talentos já são recompensados pela sua propensão para os exercer, logo merecem menos recompensas externas — mas não é esse o meu argumento. Quanto à viabilidade de instituições e práticas sociais mais justas e livres, nunca podemos estar certos de antemão; só podemos continuar a tentar testar os seus limites tanto quanto possível, sendo que não vislumbro com clareza razão alguma para antecipar o fracasso.

Noam Chomsky, entrevistado por C. J. Polychroniou, revista Truthout, 19 de Junho de 2016, in Otimismo e não Desespero, trad. Paulo Barata, Elsinore, Novembro de 2017, p. 80.

2017, MÚSICA


   Passaram 50 anos sobre o primeiro álbum dos The Doors. Assim começámos 2017, a celebrar a efeméride. E assim fomos continuando com raríssimas excepções, interrompendo o exercício continuado da revisitação com meia dúzia de novidades. Compro cada vez menos discos. O tipo que me os vende chama-me alienígena, diz que já ninguém compra discos. Mas eu insisto nesta estúpida missão. Não é só o prazer de ter o objecto, é mesmo o prazer de o comprar como se nesse gesto estivesse implicado um acto de resistência. 
   O que seria de mim sem a música? Por certo já teria ido desta para melhor. Nada há no mundo, nem mesmo a poesia, que mais me disfarce o mundo, que mais me faça viajar, que mais me ajude a esquecer. Talvez a pintura. Também viajo muito a folhear livros de arte, a descobrir como outros fintaram os espinhos da existência. 
   Confesso a face difícil do ano que ora finda. Frank Zappa foi, sem dúvida, o músico que mais ouvi. Reencontrei na sua obra a expurgação ideal dos demónios que deformam esta coisa chamada planeta Terra. Os demónios, certos homens. Não admira que Zappa tenha dado início a uma ceita. 
   De pendor satânico, os Black Sabbath penduraram as botas. Nunca fui fã de heavy metal, o que não me impediu de apreciar Vol. 4 (1972) e outros congéneres enquanto exemplares esconjurações musicais. Fique o registo. 
   Em 2017, além dos acima ilustrados, fizeram-me companhia Car Seat Headrest, Suzanne Veja, Savages, Bon Iver, Kate Tempest e, claro, o nosso Salvador Sobral. Não me cansei de Amar Pelos Dois, que a minha Matilde continua a ensaiar ao piano vezes sem conta. Não é a banda sonora dos meus sonhos, mas sabe-me bem sonhar ao som desse romantismo pueril. 
   Seja como for, em termos de música portuguesa a grande descoberta do ano, para mim, foi o acordeonista João Barradas. Vi-o na Festa do Avante e fiquei estupefacto. Nasceu no ano em que eu entrei para a universidade, toca como um mestre. Um músico do outro mundo, ora escutem:


   Dito isto, ficam links para os 6 magníficos acima representados e + 1. Grato pela companhia:

Thurston Moore, Rock N Roll Consciousness (aqui)
Dan Auerbach, Waiting on a Song (aqui)
Fleet Foxes, Crack-Up (aqui)
Benjamin Clementine, I Tell a Fly (aqui)
WPC, Ogilala (aqui)
Micah P. Hinson, The Holy Strangers (aqui)
Tricky, Ununiform (aqui)

domingo, 17 de dezembro de 2017

2017, ANO ESQUIZÓIDE


   O ano começou como sempre começa um ano, a contar mortos. Adeus Mário Soares, obrigadinho. E os sonetos de amor da hora triste, de Álvaro Feijó, entraram para sempre no imaginário popular da esquecida poesia portuguesa. Estávamos em Janeiro, ainda se faziam balancetes, promessas, ainda se contava a esperança pelos dedos. A excepção tinha nome de actriz, Meryl Streep com um “powerful speech” sobre Trump fazia adivinhar o que aí vinha: 2017, ano de Trump.
   Para amenizar o nojo, foram chegando às livrarias inúmeras soluções votadas à felicidade dos leitores. Ele era o segredo dinamarquês, dito Hygge, ele era o segredo sueco, dito Lagom, ele era o segredo português, dito Carnaval de Torres Vedras. Algures, um pobre livreiro queixava-se do preço a que está o vinho em esplanadas com vista para o mar. A felicidade sai cara, é o que vos digo.
   Depois perdemos John Hurt, o rosto inesquecível de 1984. Não perdemos o rosto. Somos cada vez mais o rosto de John Hurt em 1984, sem que o notemos enquanto o disfarçamos com uma ida à barber shop da esquina. Um prémio para o barber shopper que consiga fazer alguma coisa com os cabelos de Trump e Kim Jong-un! Talvez uma esfregona.
   Por falar em Kim, morreu Ren Hang. Era chinês, dos bons, tinha apenas 29 anos. Fica a pergunta: por que se mata um conceituado jovem artista plástico chinês? Lá como cá, talvez as formalidades jurídicas o expliquem.
   Vivemos num mundo cada vez mais afogado em formalidades jurídicas. Servem para tudo. Em pleno século XXI, ano da graça ou do demónio de 2017, tivemos em Portugal acesso a acórdãos de juízes que mais parecem ter saído de penas medievais, tivemos lá fora notícias como esta: “Juíza trava deportação de pessoas acabadas de chegar aos Estados Unidos”. Tivemos um eurodeputado polaco para quem as mulheres são menos inteligentes do que os homens. Tivemos Dijsselbloem a acusar-nos de desperdiçarmos dinheiro com copos e gajas. E assim vai o mundo, a discutir a eutanásia. Deste mundo? Duvido.
   Este é o mundo que subitamente se choca com a linguagem nos livros de valter hugo mãe, com cadernos de actividades para meninos e para meninas, com as viagens de finalistas dos nossos adolescentes (todos tão bem criadinhos, Senhor), com imprecações ao balcão das finanças, com coisas assim tipo conferências de Jaime Nogueira Pinto. Não sei se estão recordados, mas a discussão está mais ou menos neste nível: «Se não pedimos para nascer também não temos o direito de determinar quando vamos morrer». E pronto, bem-vindos sejam ao mundo… em 2017.
   Chuck Berry, fazes-nos falta. Nada se compara às tuas noções de rigor. Rock, rock, cada vez mais rock. Abaixo o Putin e o Trump e o Kim e o dia dos namorados e o dia das bruxas e o yoga e o reiki e o feng shui e o mindfulness e o coaching e o parenting e o ho’oponopono e as mil e uma dietas engendradas para um ocidente untuoso que se está nas tintas para 1,4 milhões de crianças subnutridas, à beira de morrerem com fome, para o tráfico de escravos na Líbia, para a exploração de trabalho infantil no Congo, para o genocídio em Myanmar.
   Mais uma vez a excepção tem nome de actriz: «O meu trabalho consiste em estar num ecrã, não em frente.» Catherine Deneuve. Saravá.
   É a vida no Facebook, no Tweet, no Instagram, enquanto por cá ficamos a saber que o país deve muito a um tal de Núncio. Jamais sairemos desta mediocridade. Um arquivo de factos que venha a ser feito de 2017 deixar-nos-á, daqui a 5, a 10, a 15, 20 anos, estupefactos com tamanho infantilismo, com tanta falta de bom senso, com o realismo da desinformação, com a vitória inapelável das fake news (afinal a Svetlana Alexijevich morreu ou não?).
   Morreu Ievguêni Ievtuchenko, a poesia não interessa. Passemos ao próximo. Morreu Maria Helena da Rocha Pereira, parece que foi há anos. Quem lê ainda os clássicos gregos? Morreu Bruce Langhorne. Esqueçam. Morreu o realizador Jonathan Demme, morreu Sam Shepard, Jerry Lewis, Harry Dean Stanton, Tom Petty, o Chris Cornell. Estes, desconfio, não morrerão tão depressa. Morreu Vito Acconci e A. R. Penck, a arte está mais pobre - ainda que poucos dêem por isso.
   Calma. Marcelo abraçar-vos-á a todos, Marcelo reconfortar-vos-á, Marcelo, Marcelo, Marcelo, Marcelo enjoa de tanto Marcelo. Vai uma selfie? Marcelo mistura martelo com marmelada, marmelada martelada. Fazes-nos falta, Baptista-Bastos. E tu também, Manuel de Seabra. E muito tu, Armando Silva Carvalho. E mais tu, Alípio de Freitas. Ao contrário de papas e de Fátima e de intrujices quejandas que não nos fazem falta alguma.
   Com um coração novo no Salvador Sobral, isto vai lá. Teremos autocarros cheios de universitários a cantar o Amar Pelos Dois em noite de queima das fitas, enquanto no banco de trás este filmará aquele a apalpar aquela e alguém virá dizer: violação. E outro replicará: mentira, estavam a ouvir o Amar Pelos Dois. Admirem-se. 
   Estranho, estranho, do mais estranho, é que a palavra "assédio" não tenha sido escolhida pela Porto Editora para palavra do ano. Indignem-se. Trump, Melania e Ivanka escutarão as vossas preces.
   As grandes questões para 2018 serão: durará a geringonça mais um ano? O que é feito de Marinho e Pinto? Os AC/DC continuarão sem o Malcolm Young? E os Xutos sem o Zé Pedro? Entraremos em 2018 com estas e outras dúvidas como estas no ar. Voltaremos a ter autarcas ex-reclusos, muita seca, incêndios, o Prémio Camões, e o terrorismo perdurará mais ou menos assim: 

…Londres calou Manila calou Manchester calou Jalalabad calou Cabul calou Paris calou Yahyakhil calou Istambul calou Balkh calou Estocolmo calou Lahore calou Daguestão calou Berlim calou Jacarta calou Madrid calou Peshawar calou Bruxelas calou Ancara calou Nice calou Sousse calou Grand-Bassam calou Orlando calou Shabqadar calou São Petersburgo calou Mohmand calou Diyarbakir calou Mogadíscio calou Damasco calou Dikwa calou Ninive calou Borno calou Charsadda calou Ouagadougou calou Ceel Cadde…

   Fim de citação.
   Não teremos o Pedro Rolo Duarte nem o Medina Carreira nem o Pedro Passos Coelho a declamar discursos (disto não estou tão certo). Teremos o Henrique Raposo e o Quintino Aires. Este país é sempre a subir. Teremos o D. Manuel Clemente a abençoar o Web Summit no Panteão Nacional. Duvidam? Roubam-nos os paióis para depois devolverem tudo com juros. Quem vê isto, acredita em qualquer coisa.
   2017, ano de fogo, ano de mortos, ano de culpas, ano de drones, ano de Tancos. Está a terminar e não vai deixar saudades. Nenhumas. Assim que me lembre, foi dos melhores piores anos que tive. A título pessoal, tudo na mesma como a lesma. Já não é mau. Estamos vivos. Olhando à volta, até parece um luxo. Não tão raríssimo, mas um luxo.

   Viva a Catalunha! 

sábado, 16 de dezembro de 2017

UM POEMA DE EUGENIO MONTALE


PARA CONCLUIR

Recomendo aos meus vindouros
(se os houver) em sede literária,
o que se me afigura improvável, que façam
uma bela fogueira com tudo o que disser respeito
à minha vida, aos meus feitos, aos meus não feitos.
Não sou um Leopardi, deixo pouca coisa para queimar
e é já demasiado viver em percentagem.
Vivi a cinco por cento, não aumentem
a dose. Demasiadas vezes pelo contrário chove
no molhado.

Eugenio Montale (n. 12 de Outubro de 1896, Génova - m. 12 de Setembro de 1981, Milão), in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Junho de 2004, p. 299.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #29


   A origem do povo rohingya é incerta. Milhares de elementos dessa etnia têm vindo a ser chacinados em Myanmar, ex-colónia do Reino Unido outrora chamada de Birmânia. Os rohingya são muçulmanos, uma minoria num país maioritariamente budista. Parece que a vertente budista em vigor na antiga Birmânia tem pouco que ver com o exotismo pacifista por cá geralmente associado a simpáticos monges carecas embriagados de incenso. A chamada comunidade internacional vem abordando mais este genocídio com pinças, como é típico da comunidade internacional (uma coisa algures entre a Casa Branca e o Kremlin). Também sejamos honestos, com um líder de penteado duvidoso a brincar com armas nucleares como quem brinca com a pilinha é quase certo que ninguém vá preocupar-se com minorias étnicas de inspiração islâmica. Talvez no futuro um cineasta de Hollywood pegue no assunto e faça um filme a pensar na gala dos Oscars, ao jeito de “Hotel Rwanda” – que deixou em estado de choque uma horda de néscios, todos a dormir quando tutsi e hútus andaram a matar-se uns aos outros.
   No romance “And the Ass Saw the Angel” há uma personagem que a determinada altura se questiona sobre o sentido da crueldade no mundo. Por que critérios regerá Deus a sua vontade? Terá critérios? Terá vontade? Como é que chegará Ele a uma decisão? Deus toma decisões, certo? Haverá um padrão nas suas decisões? Constatada a crueldade do mundo, a personagem imaginada por Nick Cave conclui que, enquanto humano, não lhe resta senão sorrir de frente para tudo. Tudo significa maldade, dor, medo, morte. O sorriso enquanto expiação é só uma forma de dizer.
   Nick Cave é um dos mais relevantes escritores de canções da sua geração. Nasceu numa cidade australiana, começou por se afirmar ainda na década de 1970 com os The Birthday Party – grupo de inspiração gótica como à época havia muitos. Em 1983 formou os The Bad Seeds, que, apesar das inúmeras metamorfoses ao longo dos anos, ainda hoje o acompanham. Julgo que comecei a ouvir Nick Cave & The Bad Seeds em 1988, quando adquiri o álbum “Tender Prey”. Não sendo eu pessoa religiosa, antes pelo contrário, sempre me agradou imenso o desassossego existencial exposto na obra de Cave. Deus é para ele uma interrogação que o comportamento dos homens levanta. Isto faz-me sentido, como fazem sentido as dores do mundo que o poeta carrega. O que não me faz sentido algum é pessoas de fé inchadas de certezas acerca de Deus.
   "The Boatman’s Call" (1997) talvez seja o meu álbum preferido de Nick Cave, o mais intimista, desnudado, o menos rockeiro de todos. Surgiu na ressaca do mega e inesperado sucesso alcançado com “Murder Ballads” (1996), consolidando a excelência de Cave enquanto escritor de canções. Sentado ao piano, acompanhado por singelos arranjos de cordas, viola, bateria, baixo, "The Boatman’s Call" questiona tanto a religião como o amor, em busca de respostas para uma alma acossada pelo sofrimento, pelo medo, pela dor, pela crueldade do mundo. Faz tanto sentido, tanto.


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

ONTEM COMO HOJE



Ainda há pouco estava a ler um artigo sobre a perseguição e o genocídio dos rohingyas por parte das autoridades do Myanmar [atual designação oficial da Birmânia]. As atrocidades descritas já constavam nos livros proféticos deste terceiro volume da Bíblia. Mulheres grávidas que são espancadas e forçadas a abortar... Bebés de colo que são trucidados à frente das mães... Pensa-se que no século VIII a.C. as pessoas eram muito cruéis, pois olhem: em 2017, está a acontecer a mesma coisa! 

Frederico Lourenço, in revista LER, Outono de 2017, pp. 31-32.



A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) estima que o número de vítimas mortais da violência sectária entre agosto e setembro deste ano seja de 6700 pessoas, incluindo 730 crianças. Um número bastante superior aos números oficiais do exército de Myanmar, que reconhece apenas a morte de 400 “terroristas”. (aqui)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

LEMBRAS-TE COMO FOI?


Outrora com uma vida modesta, como dizem as revistas do coração, Paula Brito e Costa, que não era ministra, mas estava obrigada a participar em diversos encontros diplomáticos, deve ter ouvido Dias Loureiro muitas vezes e seguiu-lhe as boas recomendações, não fosse ser criticada pelas mesmas revistas do coração que tanto espaço ocupam a falar dos vestidos desta e dos fatos daquele. Como diz o senhor Chomsky, que nada sabe destas coisas, «os crimes de terceiros são sempre bem-vindos, oferecendo oportunidades de postularmos grandiloquentemente acerca dos nossos profundos compromissos morais». E disto não sairemos tão depressa.

O DOMÍNIO MATERIAL

«Se há uma frase que cheire mal, não é pondo-lhe perfume que a vamos resolver. O que interessa é perceber porque é que cheira mal». Quem o afirma é Frederico Lourenço, em resposta a uma pergunta de Filipa Melo onde se citava uma tal de frei Herculano Alves. Desconfio que João Paulo de Jesus (n. 1967) subscreva a afirmação de Lourenço, a favor de uma tradução do texto bíblico que permita olhar certo tempo ancestral em função do que nele vigorava e não do que a historiografia foi cristalizando ao longo dos séculos. Nos primeiros parágrafos de O Domínio Material (Companhia das Ilhas, Setembro de 2017) somos enviados para a Jerusalém de Herodes. Maria, uma virgem de quinze anos, é levada do Templo para casa do noivo, de seu nome José. Dez soldados abordam-na, dizendo-lhe que foi escolhida. Por quem? Para quê? Levam-na até Jericó, onde Herodes passaria os meses de Inverno. Aí será violada pelo próprio rei, antes de ser reconduzida a Nazaré. José, o noivo, receberá de um oficial um papiro onde se ordena que case com Maria a troco de vinte denários de prata. Maria estava grávida. Neste romance de estreia, o papiro de Herodes será o leitmotiv a partir do qual a acção se desencadeará. José guardá-lo-á numa arca, «dobrado em quatro e protegido por uma bolsa de pele de cordeiro» (p. 13). Só após a sua morte, a criança parida por Maria, inicialmente dada como morta, terá acesso ao texto. O confronto com as palavras de Herodes abrirá as portas de uma obscura indagação acerca das origens, do eu, da identidade. 
   João Paulo de Jesus é meticuloso na descrição das paisagens, transporta-nos com as personagens pelas montanhas da Judeia, leva-nos a Damasco, mostra-nos a planície de Jizreel, conduz-nos como se fôssemos ao acaso de aldeia em aldeia, percorrendo encostas, no meio de rebanhos, a pernoitar em estábulos. Apesar do referencial bíblico, o cuidado com a linguagem e com certos elementos narrativos resgata a obra desse poço sem fundo que é o das chamadas aproximações literárias, mais ou menos fantásticas, a uma história que estará sempre por contar. O ritmo não é de intriga nem de romance pseudo-histórico, é antes o de um relato sequencial, mas elíptico, do conjunto de acções que inspiram verosimilhança na figura da personagem central: um homem em busca da sua identidade. A esse homem não é dado nome, apenas são atribuídas acções, deslocações, parcas falas: «Tornara-se impenetrável a qualquer questão vinda daqueles com quem partilhava a casa» (p. 86). Vemo-lo entre gente andrajosa, suja, descarnada, ao lado de indigentes como se fosse um deles, e talvez seja. Observamo-lo enquanto vagabundeia no encalço de uma explicação para um destino obscuro. Partilha os pastos e as fogueiras com outros pastores, visita o primo João, aceita a refeição de um leproso, tenta aclarar o que permanece obscuro dormitando de abrigo em abrigo, percorre sozinho e sem montada as estradas do Jordão, perscrutando o mundo em redor. 
   De cada vez que a personagem central deste livro se afasta de um lugar, é como se nos aproximasse da sua essência. Porque este homem é um pastor sem rebanho, é um bastardo, é alguém que conhecerá a fome, a privação material, a indigência e a miséria dos seus semelhantes sem entender o que ele próprio é e representa entre os demais. Certa vez, ao cruzar-se com os soldados da legião: «Teve a certeza de que a vida não seria outra coisa senão aquilo, uma orla esboroada em cujo centro definharia o pouco amor que os poderia resgatar, mas que remotamente os vergava, abreviando a luz e os dias, soprando as candeias para que a escuridão fosse testemunha dos gestos que aí ocultavam» (p. 90). Que fé poderemos nós, leitores, antever em personagem assim pensada? 
   Do encontro com Baptista pouco resultará. Sobre os baptizados, diz a um indigente a seu lado sentado: «Não ficaram mais limpos por ele os mergulhar no rio. O peixe só cheira a peixe depois de sair da água» (p. 118). É duvidoso que quem assim fala transcenda “o domínio material” da sua condição. Parece ser nesse mesmo domínio que João Paulo de Jesus pretende encerrar a sua personagem, da qual nos é dado apenas saber que ao longo da peregrinação vai sendo tomado por mendigo. E é como mendigo que se reconhece entre os outros. Nós sabemos que a sua condição aparentemente mendicante tem pouco que ver com as vestes ostentadas, com o aspecto, com a errância. É a condição de quem busca identidade num mundo de perdidos, um cabrão acagaçado, como lhe dirão os discípulos do Baptista, escondido como um proscrito, talvez, que ao saber por quem foi gerado porventura preferisse manter a verdade dobrada em quatro dentro de uma bolsa feita com pele de cordeiro. No final, a grande questão que se nos coloca é se um homem se define pelos genes? Se assim for, este herdeiro (ainda que bastardo) de Herodes deverá ser considerado Rei dos Judeus.  

VIVA O CAPITALISMO


A cantora britânica Daniella Obeng foi encontrada morta num quarto de hotel, no Qatar, para onde havia viajado seis dias antes. Obeng, de 32 anos, assinava com o nome artístico Devi Ka e emigrou para o Qatar após lhe terem sido retirados os subsídios de desemprego no Reino Unido. À cantora, mãe de uma criança, havia sido diagnosticado um tumor cerebral e epilepsia, mas as autoridades britânicas declararam-na "apta para trabalhar".


Toda a notícia: aqui.

NÃO TÃO RARÍSSIMAS ASSIM

Toda a gente a cascar na Raríssimas. Outrora santa, a ex-presidente da instituição surge agora no papel de cortesã. Manuel Delgado, secretário de Estado da Saúde, já deu de frosques. De braço dado com a jornaleira no Brasil, ficou a perceber quão caras podem sair as selfies. Em todo este caso e dentre a vociferação geral só não consigo entender uma coisa. Acabei de ouvir um reputado comentador dos assuntos económicos afirmar que as IPSS cumprem um importantíssimo papel, fazendo o que o Estado não consegue fazer. Mas com que dinheiro? Não é com dinheiros públicos? Por que não consegue o Estado (com o seu dinheiro) fazer o que fazem as IPSS (com dinheiro que não é delas)? Fica a dúvida. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

THE CARIBOO TRAIL (1950)

A história podia começar com um homem a construir uma ponte entre dois mundos, o do sonho e o da realidade. Depois da ponte construída, o homem contrataria alguns capangas para cobrarem taxa a quem pretendesse fazer a travessia. Até que um dia, vindos da realidade a caminho do sonho, dois homens com uma manada de gado decidiriam não pagar as taxas. Poderiam atravessar o rio sem passar pela ponte. O caudal ia baixo, não haveria problema. Mas a história da John Rhodes Sturdy, escritor sem história, é diferente. Complica o que poderia ser simples ou simplificado, trabalho que o realizador Edwin L. Marin (n. 1899 – m. 1951) não esteve para fazer. The Younger Brothers (1949), sobre a saga de dois irmãos ao serviço do gangue liderado por Frank e Jesse James, é o seu western com melhor cotação. Não foram poucos os que assinou, sempre com pequenos orçamentos e engenho desigual. Entre os restantes, são de sublinhar aqueles em que dirigiu o actor Randolph Scott. Colt. 45 (1950), por exemplo, ou Fort Worth/Contra o Crime (1951), o derradeiro dos seus filmes. The Cariboo Trail (1950) tem ainda um outro aliciante, foi o último filme do carismático actor George ‘Gabby” Hayes (n. 1885 – m. 1969). 


São inúmeros os westerns em que participou nas décadas de 1930 e 1940. É ele, velho garimpeiro ao deus-dará, quem acolhe nas terras de Cariboo dois temerários amigos com uma manada de gado, avisando-os, desde logo, do perigo que ali corriam: gado e ouro não se misturam
   Cariboo foi durante algum tempo um dos destinos eleitos por aventureiros assaltados pela febre do ouro. A localidade de Carson Creek, no filme, poderá ser entendida como uma referência a Williams Creek, a mais importante mina de ouro no interior da British Columbia. Completamente dominada e controlada por um arrivista da pior espécie, de seu nome Frank Walsh, Carson Creek será o cenário de uma acção onde, como manda a tradição, os sonhadores farão oposição ao establishment. Vindos do Montana, dois jovens amigos transportam gado para Cariboo com os olhos postos também na possibilidade do ouro. Os problemas começam a surgir quando, ao atravessarem a ponte sem pagarem o que lhes estava a ser cobrado, são alvo de uma emboscada e perdem o gado. Além disso, um deles perde também um braço. A partir daqui, os dois prosseguirão separados com um deles a tentar restabelecer a amizade perdida. O que só acontecerá, como é óbvio, na sequência final. Pelo meio há ainda algumas sequências bastante estilizadas que metem confrontos com indígenas da nação Blackfoot (ou Blackfeet, se preferirem), os índios que durante séculos habitaram a British Columbia. Numa das cenas mais apalermadas da história do western, três brancos são salvos da execução por um burro aos coices a uma tribo indígena. A imaginação não tem limites. 
   The Cariboo Trail nada tem que ver com outros westerns que sabiamente enalteceram os esforços dos pioneiros na conquista de rotas comerciais, transportando gado por percursos agrestes e longos, longe de casa durante semanas, meses, dando força e realismo ao mito do velho cowboy. Entre esses, o melhor de todos os westerns é Red River (1948), com realização do enorme Howard Hawks (n. 1896 – m. 1977). Não ficaria bem exigir a Edwin L. Marin o mesmo talento ou até a mesma ambição. Cinematograficamente, o valor de um filme como The Cariboo Trail só pode ser avaliado enquanto peça de entretenimento. A exaltação dos mitos norte-americanos, a estilização do inimigo, o traço épico conferido aos heróis, enquanto conquistadores de uma paisagem selvagem, é inerente a uma narrativa que não estaria tão preocupada com a verdade como estaria em agradar a um público desejoso de se ver engradecido pela maior das suas artes. Os maus também fazem parte desta história, mas acabam sempre mal. Mesmo quando morrem ao lado dos bons e em circunstâncias similares, deles lembrar-nos-emos apenas conquanto sirvam para enaltecer a generosidade do lado bom da história. Não fugindo minimamente aos clichés, Edwin L. Marin deverá ser lembrado como um dos seus mestres. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

NÓS, OS NÓRDICOS

   Só agora fiquei a saber dos deslumbramentos de Marcelo, que, questionado pelo El País sobre a eleição de Mário Centeno para o Eurogrupo, saiu-se com esta: “Somos os nórdicos do século XXI”. Aparentemente, temos aqui apenas mais uma frase engraçada coleccionável para futuras antologias das coisas que os políticos dizem. Mas Marcelo é Presidente da República, nada do que ele diga pode ser interpretado como um faits divers. O problema é que ele tagarela imenso, construindo à sua volta uma capa protectora de “deixa lá, é só mais uma gracinha à Marcelo”. O que quereria o homem dizer aquilo? “Somos os nórdicos do século XXI”? 
   Antes de mais, podemos encher-nos de boas intenções e pensar que ele quis apenas dizer “somos muito bons, estamos em forma”. Com isto, Marcelo puxa para cima os portugueses , enleva a alma lusa, faz-nos acreditar em nós próprios. Ou talvez não. Portugal tem ainda uma das maiores taxas de analfabetismo da Europa. Estudos recentes revelam que não vamos no bom caminho, os indicadores de iliteracia são preocupantes. Nada que permita comparações com os do Norte.
   Ora, Marcelo fala ao El País sabendo que só a nós vai chegar, ou seja, a um país de iletrados. Os iletrados não se preocuparão com o que ele diz, desde que ele continue a distribuir abraços e sopas e sorrisos e conforto. O nosso actual Presidente da República está consciente das características da República a que preside. Só isso explica que para nos enlevar ele nos compare com outros, indo sacar os nórdicos para nos atribuir qualidades que nunca foram as nossas. Mas são agora, no século XXI. 
   Ao mesmo tempo, Marcelo legitima com esta frase o preconceito dos nórdicos relativamente ao sul. Para se ser bom, é-se nórdico. Não se é mediterrânico. Os portugueses são os nórdicos do século XXI quer dizer que os nórdicos tinham razão quando nos chama(va)m porcos, os pigs, mas agora nós estamos cada vez mais limpos e perfumados, saímos das pocilgas e ficamos mais louros, estamos mais redondamente nórdicos. Presidimos a essa coisa monumental que dá pelo nome de Eurogrupo. 
   Ninguém vai preocupar-se com a frase de Marcelo porque na metamorfose anunciada não cabem preocupações. Marcelo pode continuar a dizer o que bem entender. Ninguém irá parar para, por um segundo que seja, o observar e o interpretar. Ele é uma barata tonta com o poder de nos entontecer. Estaremos todos ocupados a cumprir o nosso papel de nórdicos. Tivesse sido Cavaco a afirmá-lo, talvez o orgulho nacional fosse posto em causa. Ao simpático Marcelo tudo se perdoa.
   Pela boca do nosso Presidente da República ficámos então esclarecidos, nós não somos o que somos nem quem somos, não fazemos o que fazemos. Se agora somos excelentes e até presidimos a essa coisa monumental que é o Eurogrupo, isso só foi possível porque abdicámos de ser quem somos. Temos mais frio, ainda que rodeados de chamas. Substituímos o barrete pelo capacete viking, deixámos de enfiar o barrete para exibirmos uma parelha de cornos. Traídos já fomos, há muito. Nórdicos ou atlânticos ou mediterrânicos ou sulistas ou coisa nenhuma. Talvez apenas analfabetos, iletrados, disfuncionais, amarcelados. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

A PALAVRA ASSÉDIO


A palavra assédio aparecerá muito nos balanços que hão-de ser feitos de 2017, por culpa dos escândalos de assédio sexual envolvendo nomes importantes de Hollywood. É como se o assédio fosse coisa de gente fina, actores, produtores, actrizes, músicos, artistas. Por cá, o assédio não existe. Não temos gente fina. Somos um país de brandos costumes povoado por saloios e singelíssimas elites, paraíso plantado à beira da Europa. Não há portugueses nos Panama Papers, a WikiLeaks é para gente do topo. Estará Portugal no mapa? Nós somos da base, isto é, somos do buraco onde há muito nos enfiámos. O turista gosta de Portugal porque Portugal não tem dessas coisas ruins que se vêem lá fora, tem a Madonna à procura de casa. Chega. E baladas comoventes que conquistam festivais, e a luva branca do Éderzito. Certo, temos incêndios. Mas que é isso comparado com Allahu Akbar? Eucaliptos em chamas não gritam Allahu Akbar! Se o maior defeito de Portugal é esbanjar dinheiro em copos e gajas, aí estamos nós presidindo à instituição que inda agora nos acusava de esbanjarmos dinheiro com copos e gajas. Como se fosse defeito. Os estupradores portugueses não assediam nem violam, fazem festinhas. Ninguém leva mal. Entretanto, um poema da brasileira Nina Rizzi para balanço de 2017:

e danço um tango com você

eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas
acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.

tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca
vai chegar.
não sai nos jornais, inúmeras gentes — essas mulherzinhas também —
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. Hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.

toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo
do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

penso nas normalidades desses senhores

ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe — viver a vida
ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada

uma maria como todas as outras, pronta pra violação.

maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas

eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.



Nina Rizzi, in geografia dos ossos, Douda Correria, Fevereiro de 2015, s/p. 

BANDA SONORA ESSENCIAL #28


   A relação entre o cinema e a música vem de há muito, quando a sétima arte era uma criança em desenvolvimento. Ainda nos tempos do mudo, a projecção dos filmes era frequentemente acompanhada por uma orquestra instalada na coxia. Alguns compositores ficaram para a história ou afirmaram-se plenamente como autores daquilo a que hoje se dá o nome de bandas sonoras. 
   Dificilmente falaremos de western spaghetti sem que nos ocorra o nome do compositor italiano Ennio Morricone. O ucraniano Dimitri Tiomkin fez praticamente toda a sua carreira em Hollywood, assinando muitas das melodias inesquecíveis que ofereceram ritmo aos filmes aí produzidos. Assim de repente, ocorrem-me igualmente os enormes sucessos das composições de Michael Nyman para o filme “The Piano” ou as peças do francês Yann Tiersen para filmes como “Good Bye Lenin!” e “Amélie”. Não deve imenso o realizador sérvio Emir Kusturica ao talento musical de Goran Bregovic? 
   Ryuichi Sakamoto é outro extraordinário compositor que nos habituámos a ouvir nas salas de cinema. Filmes como “The Last Emperor”, “Merry Christmas Mr. Lawrence”, que contava com David Bowie no elenco, ou o mais recente “The Revenant”, ficarão para sempre associados a melodias concebidas por Sakamoto para cenários cujo efeito visual seria inevitavelmente diferente não fossem os apontamentos musicais que os acompanharam. 
   Em meados da década de 1990, o músico japonês resolveu rever a matéria dada num álbum que levou o título seco do ano em que surgiu: “1996”. Despido de efeitos, Ryuichi Sakamoto sentou-se ao piano e fez-se acompanhar apenas por um violinista e do nosso conhecido violoncelista brasileiro Jaques Morelenbaum. Os temas estão lá e não enganam, são exactamente os mesmos que ilustraram imagens mais ou menos sumptuosas na sala de cinema. Ouvimo-los e vêm-nos à memória, como se fosse inevitável, cenas, rostos, personagens, até diálogos. Mas agora temos apenas a música, e apercebemo-nos de quão visual é também a sua linguagem. 
   No tema "A Tribute to N. J. P." a introdução de Morelenbaum sublinha isso mesmo, a imagética da linguagem musical. Não precisamos de ter visto o filme para o qual o tema foi composto para começarmos a imaginar cenários e a estabelecer relações. Antecede “High Heels”, escrito para “Tacones Lejanos” de Pedro Almodóvar. Aí a experiência já é diferente, a música embala-nos como uma espécie de memória auditiva. Embarcamos numa digressão melancólica por territórios de um imaginário familiar. 
   Tão trágicos quanto introspectivos, na mesma medida épicos e intimistas, os temas de “1996” proporcionam, pelo despojamento dos arranjos, uma viagem ao centro da música. Tal como Júlio Verne outrora nos levou ao centro da Terra.


sábado, 9 de dezembro de 2017

UMA IMAGEM PARA O DIA


UM POEMA DE JOÃO ALEXANDRE LOPES

POST-DOMINICAL

Domingos de bola, rádio no carro,
crochê delicado da mãe.
Do seminário vinham rapazes
arejar a alma pastoral.
Corava-se muito.

Depois veio o shopping
aumentar as possibilidades:
um sorriso pequeno,
uma coxa bem modelada,
um peito farto.

Hoje ataca-nos a modorra
de uma final do Grand Slam,
fazem-se McAlmoços divertidos
e vamos todos de braço dado
passear pelo Face.

João Alexandre Lopes, in Hora Zero, Medula, Outubro de 2017, p. 30. 

JERUSALÉM

Ontem adormeci a ver "Silêncio". Foi a primeira vez que adormeci a ver um filme de Martin Scorsese, o que me leva a concluir que o filme deve ser muito melhor do que todos os outros. Talvez estivesse cansado. Acordei a meio da noite e fui para a cama. Ainda delirei com algumas cenas do filme, mas julguei-me na Jerusalém actual. Não compreendo aquela fé. Não a aceito. Se esses são homens de Deus, prefiro dormir.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

LEVIATÃ / ESPELHOS NEGROS

Qualquer boa surpresa guardada para final de ano arrisca-se a passar despercebida, arrastada pela voragem de lixo instalada nas livrarias durante o período da quadra natalícia. É uma injustiça que não pretendemos para Leviatã ou O Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros (Abysmo, Outubro de 2017), de Arno Schmidt (n. 1914 – m. 1979), com tradução aplicada de Mário Gomes. Acontecimento literário, desde logo, por nunca o autor alemão ter sido traduzido para língua portuguesa. Ele próprio tradutor, arquitecto de uma prosa altamente experimental, surge amiúde comparado aos irlandeses Laurence Sterne e James Joyce. A nível de experimentação, poderíamos ainda referir o francês Georges Perec ou o Leminski de “Catatau”. Não estamos a falar de influências literárias. Essas, o próprio Arno Schmidt encarregou-se de sublinhar exaustivamente no corpo dos seus textos. Em Leviatã, por exemplo, «Kant limitou-se a demonstrar que as provas da existência de um Deus «bom» eram piadas mal contadas» (p. 19). O autor das três críticas surge ainda referido a par de Schopenhauer, Bernhard Riemann, Goethe, Darwin, naquela que se apresenta como uma escola inspiradora da heterodoxia abraçada por Schmidt. 
   Sublinhe-se, de igual modo, a irónica alusão a Leibniz no subtítulo do livro de estreia. Leviatã ou O Melhor dos Mundos foi publicado em 1949, na ressaca de uma devastadora guerra em que Schmidt serviu. O texto sugere qualquer coisa de catártico no tom furioso e sarcástico das reflexões propostas. Leviatã, que tanto pode ser aqui entendido como o Criador ou como a Natureza (vide p. 39), gerou um monstro chamado humanidade. A ideia de vivermos no melhor dos mundos possíveis não pode senão ser uma patranha desmentida quer pela razão, quer pela mera observação. Do leque germânico, Nietzsche é quem sai mais mal tratado. Acusado de inspirar o nazismo, foi, e passo a citar, um simplório, o idólatra do poder, patife de focinho loquaz… «Ele e Platão foram dois grandes parasitas (para além de ignorantes: veja-se nas ciências da natureza)» (p. 25). 
   Destacado para a Noruega em 1940, já depois de ter casado, Arno Schmidt acabou como prisioneiro de guerra durante oito meses. Perdeu tudo durante esse período, instalando-se posteriormente com a mulher em Cordingen. Aí iniciou a sua carreira literária com Leviatã. A ideia de fuga, associada à de sobrevivência, marcam o texto. Ainda num estilo não tão complexo como o de Espelhos Negros, o livro de estreia é uma narrativa «pautada por uma acção com forte carga alegórica e laivos de estudo social» (Mário Gomes, no prefácio). Algo semelhante pode ser dito de Espelhos Negros, prosa desenvolvida já num estilo elíptico que se caracteriza pela fragmentação do discurso. Cada fragmento como que corresponde a um parágrafo, desenvolvido a partir de uma ideia ou tema colocados em itálico no início do texto. 
   Espelhos Negros data de 1951 e corresponde, em termos biográficos, a uma espécie de prenúncio do isolamento a que Schmidt se dedicou, a partir de 1958, na aldeia de Bargfeld. A narrativa inicia-se no dia 1/5/1960, formando uma espécie de diário com forte componente autobiográfica a que o autor não se furta. «No fim hei-de ficar sozinho com o Leviatã (ou até transformar-me eu nele)», diz-se a páginas 50. Esta metamorfose surge de um voluntário isolamento no seio da Natureza, que Arno Schmidt descreve em belíssimos fotogramas ao mesmo tempo que afirma a humanidade como uma personificação do mal: «Isto é o mais bonito na vida: profundidade nocturna e lua, orlas de florestas, águas resplandecentes e silenciosas, ao longe, na modesta solidão de um prado fiquei acocorado durante algum tempo, ocioso, com a cabeça inclinada para a direita; de quando em quando uma estrela lançava uma chispa muito para lá de Stellichte; por vezes uma ventania desengonçada surpreendia-me e despenteava-me, como uma amante adolescente e malcriada; mesmo quando tive de ir atrás de um arbusto, foi atrás de mim» (p. 52).
   Dividido em duas partes, Espelhos Negros narra no primeiro tempo a fixação de um homem no seio da natureza, a construção de um abrigo, os momentos de total isolamento, a busca de mantimentos, instantes de auto-reflexão, por vezes assaz autocríticos, o elogio do trabalho braçal e dos esforços físicos, com espaço, sempre e de forma contundente, para a desmistificação dos mitos alemães: «finalmente um livro: Rilke, Histórias do Bom Deus, vens mesmo a calhar; e arranquei logo as páginas necessárias àquela prosa de ourives: só o título já me revoltou: palavreado finório; este é mais um pneumatómaco: vai mas é prós guácharos!» (p. 63). Categorias como as de pessimismo e optimismo não são para aqui chamadas. Arno Schmidt manifesta uma profunda desconfiança da humanidade, mas não se pode dizer que seja um pessimista. A segunda parte de Espelhos Negros, pautada pelo encontro amoroso com «uma cigana daquelas de verdade», recoloca-o com extrema evidência num espaço de contradição que é o seu. 
   Já antes, este literato que passou a vida a remexer no sem-sentido declarara: «Ai do homem que não se tenha arrependido pelo menos 10 vezes na vida de não ter escolhido o ofício de carpinteiro!» (p. 73). O que os dois textos reunidos neste volume manifestam é um total desprezo pela maldade, a qual não pode senão ser imputada à ignorância dos homens cuja vida se faz em função dos interesses de grupo. Schmidt viu até onde o homem pode ir no ofício da maldade, não está minimamente interessado em desculpar-se ou em mergulhar num exercício de auto-negação. Porque espertos são os eremitas, depreendemos que a burrice seja o social. Lisa, a cigana de verdade, personifica também ela a beleza do anti-social ou, se preferirem, do solipsismo. Com ela, o protagonista de Espelhos Negros partilhará as memórias. E nisto há também uma noção do que é esse impulso de escrever sem qualquer perspectiva de chegar a uma massa de leitores, ou seja, a possibilidade de um encontro isolado dos ruídos do mundo, a contradição de um encontro entre duas solidões que não se esvaziam de identidade por se verem ao espelho. A um espelho negro. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ESTE É O NOSSO MUNDO


Roubado aqui, onde se lê:


O mundo tem coisas de gente burra. A espécie, quando vista em geral, parece tender para a anulação. O que se lê é maioritariamente lixo — e é quem lê alguma coisa para além dos faces desta vida. O pessoal vai desertificando das ideias e baixando o nível de exigência. Aceita-se tudo, convive-se bem com o lixo. Não sei onde é que isto vai parar mas a sítio bom não é, de certeza.

MORRER DE JUVENTUDE

Morrer de juventude aos 61 anos não me parece bem. Curiosamente, a má-nova do passamento de Zé Pedro trouxe-me à lembrança um tal António Variações & um tal (esse sim, genial) Bernardo Sassetti. Ardis da memória.
Para todos nós, com ou sem milhões de euros e/ou admiradores, a Lei é material, concisa, orgânica & inexorável: nascendo, cometemos o primeiro acto necrológico.


Daniel Abrunheiro, aqui.

A IDEIA - LANÇAMENTO


(clique na imagem para ver melhor)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

UMA IMAGEM PARA O DIA


IMPRENSA ESPECIALIZADA

Em quê? Gostava de folhear jornais pela manhã. Infelizmente, o hábito pariu o monstro da decepção. É tal a mediocridade, a pobreza, que, dado o estado geral de coisas, um tipo só se admira como os jornais não têm mais leitores. Na página cultural, assim mesmo, no singular, o cenário é confrangedor. Os especialistas devem ter-se especializado em lerem-se uns aos outros. Patético, de tão fraco.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

AMAI-VOS UNS AOS OUTROS!



Para esclarecer isto de uma vez por todas: a belíssima, se bem que pouco original máxima do «amai-vos uns aos outros!», enquanto prática viva e eficaz, sempre mereceu e obviamente sempre merecerá a aprovação e o apoio de qualquer pessoa honesta. Nunca as vãs ambições epistemológicas da cartilha dos cristãos; nunca o aparelho de poder perfeitamente arbitrário da Igreja e os vários séculos de um terrorismo espiritual horroroso e sem precedentes. Porque na verdade o campo de concentração  não foi invenção, nem de Estaline, nem de Hitler, nem da Guerra dos Boéres, mas nasceu no ventre da Santa Inquisição; e a primeira descrição fiel feita no Ocidente de um exemplar campo de concentração devêmo-la à cristianíssima fantasia de Dante — por favor, não falta lá nada: os poços de excrementos, as torturas de água gelada, a cadência dos estalos na eterna marcha dos açoitados; para os cépticos existem caixões de fogo e os curiosos em demasia — Ulisses — são majestosamente fulminados: — porque «esses acabam por ser os argumentos mais robustos dos senhores teólogos: e desde que lhos roubaram, as coisas começaram a andar para trás que não é brincadeira!» Não venha daí exigir tolerância quem nunca a exerceu durante 1500 anos que «esteve no poder»!

Arno Schmidt, in Leviatã ou o Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros, trad. Mário Gomes, Abysmo, Outubro de 2017, pp. 38-39.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

JOGO DE TABULEIRO

Vejo e escuto os comentadores do costume, é quase impossível escapar-lhes. Falam de política como se fossem miúdos a jogar um jogo de tabuleiro. Se calhar, foi ingenuidade minha pensar que a política era algo mais do que um jogo de tabuleiro. Aqui chegado, não posso senão concluir: prefiro jogos de tabuleiro. 

OS LIBERAIS

Os liberais exigem que o estado os proteja, pelo menos enquanto houver estado. Quando o estado deixar de existir, os liberais terão os seus seguranças pessoais e imporão as suas regras a quem não tiver como delas se defender. Até lá, os liberais queixam-se de serem agredidos pelo estado ao mesmo tempo que lhe exigem protecção. Estão absolutamente convencidos de que cabe ao estado, a bem da estabilidade do mundo, não deixar que os liberais definhem, garantir até que eles prosperem, ao mesmo tempo que reclamam por um estado cada vez mais mínimo. Os liberais vivem numa espécie de esquizofrenia, de uma mesma fonte reivindicam os lucros e lavam as mãos dos prejuízos. São muito espertos, os liberais. 

FORMAS DE LUTA

Há dias ouvi, não me recordo a quem, que Che Guevara foi um manipulador e um assassino (ou terá dito criminoso?). Enfim, é aquele tipo de afirmação que não me apetece discutir. Mas acabei agora mesmo de ler esta entrevista, da qual me apetece sublinhar este excerto:

A experiência da História é de que nunca um povo teve a possibilidade de se libertar sem que fosse de alguma forma uma resposta de baixo à violência de cima. Pode ter sido com guerrilha, com guerra, com insurreição, com greves gerais, mas nunca foi amavelmente. Nunca o poder disse “tomem, já me dei conta que é injusto”. A essência do capitalismo é ser como é: fazer trabalhar os demais (países ou povos) e acumular riqueza.


Não é fácil a quem detém o poder ter a percepção das injustiças que comete, mas muito menos fácil é a quem quer estar com o poder perceber que há formas de luta que se justificam pela força do inimigo enfrentado. É assim desde que há história das conquistas humanas, embora os acomodados dos tempos modernos prefiram pensar que não enquanto compõem o casaco Armani. 

domingo, 3 de dezembro de 2017

HOMENAGENS

Fui seguindo, tanto quanto possível, as imagens da despedida. À porta do mosteiro, o PR falou numa grande homenagem, o presidente da AR falou em odiáveis minutos de silêncio, outros falaram pouco e bem… Têm todos as suas razões, obviamente. Mas eu acabei de assistir à melhor homenagem que pode ser feita a um artista como o Zé Pedro. Num concerto dos Resistência, em Portimão, o Miguel Ângelo filmou em directo o momento em que toda a gente cantava Não Sou o Único. São imagens arrepiantes, mais ainda pelo cuidado que o ex-vocalista dos Delfins teve em não focar o elemento dos Xutos ali presente. Pouco depois de ter estado no funeral, ali estava Tim a dar o peito às balas perante um público imenso. Merece um forte elogio e abraço, esse Tim que poucas horas depois de enterrar um compagne de route lhe prestou corajosamente a maior homenagem possível: tocando e cantando. 


OS DOMINGOS

— Tem o livro do Agualusa?
— Qual deles?
— O africano.
— Esse não conheço.
— O Agualusa…


(e um estranho silêncio se interpôs entre os interlocutores)

sábado, 2 de dezembro de 2017

EPIFANIA #40


De uma viagem a Dublin, trouxe um livro de James Joyce: Poems and Shorter Writings (Faber and Faber, 2001), organizado por Richard Ellman, A. Walton Litz e John Whittier-Ferguson. A edição original data de 1991. Recolha diversa de poemas, aforismos, textos curtos entre os quais se destacam as Epifanias. Na introdução, diz-se que as 40 epifanias estão entre os mais relevantes textos da juventude de Joyce que sobreviveram no tempo. 40 de um total de 71, a servirem de ponte entre a primeira poesia e a ficção posterior. Muitos destes fragmentos, garatujados entre 1901 e 1904, acabaram por integrar a bibliografia posterior. Enquanto os vertia para português, tomando liberdades várias que não vale a pena justificar, fui recordando partes de livros tais como Ulisses, Dublinenses ou o Retrato do Artista Quando Jovem. Algumas aproximam-se de poemas em prosa, outras serão meros apanhados circunstanciais, há momentos dramáticos, líricos, eróticos, espirituais. A. Walton Litz sublinha dois tipos fundamentais de epifania, representativos dos pólos gémeos da arte joyceana: ironia dramática e sentimento lírico. Em suma, serão, terão sido, manifestações de um olhar atento às suas circunstâncias. O que há de epifânico nestes textos é tanto a revelação do objecto que leva ao texto como do próprio texto. Na sua aparente banalidade, estes textos desmistificadores manifestam anatomicamente a  sua estrutura enquanto representantes de uma determinada situação. Eis a última:

40

                                                         na Rua O’Connell:
                                                   [Dublin: ᴧ na farmácia
                                                   Hamilton, Long]

Gogarty — Isso é para Gogarty?
                                                                                             pagá-lo
O empregado de farmácia — (olha) — Sim, senhor. . . Vai levá-lo
                          consigo?  agora?
Gogarty — Não, envie-o ponha na
                         conta; envie-o depois. Você sabe
                         a morada.
                                        (pega numa caneta)
O empregado de farmácia — Sim       Si-im.
Gogarty — 5 Praça Rutland.
                                                                                        enquanto
O empregado de farmácia — (de si para si enquanto à medida que escreve)
                                                    . . 5 . .Praça. . .Rutland.