terça-feira, 13 de março de 2018

O ALIMENTO DA BESTA

A caminho do banco, para mais um depósito do dia, escuto três miúdas à conversa. Devem ter a idade da minha Beatriz, não mais de 11 anos:

Mas sabes o que a minha mãe diz?... Diz que o stôr só é stôr porque não consegue arranjar mais nada. Tipo, tirou o curso de desenho e foi para stôr porque não conseguia outro trabalho.

domingo, 11 de março de 2018

UMA SEMANA NOS RIOS CONCORD E MERRIMACK


No final do Verão de 1839, Henry David Thoreau (n. 1817 – m. 1862) empreendeu uma viagem, na companhia do seu irmão John Thoreau, Jr. (n. 1815 – m. 1842), através do rio Concord até à sua foz, no rio Merrimack. Dessa viagem resultou o primeiro livro do autor norte-americano, publicado originalmente em 1849. Disto nos dá conta H. Daniel Peck na introdução à edição que agora se publica com tradução para português por Luís Leitão: “Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack” (Antígona, Janeiro de 2018). Passaram dez anos entre a experiência da viagem e a publicação do livro, intervalo particularmente estigmatizado na vida de Thoreau pela perda do irmão. Mais do que um mero relato de viagem, esta obra de estreia acabará por se estabelecer como porta de entrada para o pensamento de um dos mais relevantes escritores do século XIX. Demorará o seu tempo, como sempre acontece com os melhores. À época, de uma edição de 1000 exemplares, foram precisos quatro anos para se venderem cerca de 200. Estávamos nos Estados Unidos da América do Norte, a penetrar devagarinho a segunda metade do século XIX. Entretanto, tudo mudou para continuar na mesma. E não foi preciso odiar-se saudavelmente os livros, que muitos foram de facto severamente odiados. A ponto de alimentarem gigantescas fogueiras.
Organizado em capítulos que correspondem aos dias de uma semana, o livro está longe de obedecer a um nexo cronológico. O autor não foge à descrição paisagística, ao inventário de flora e fauna contemplados ao longo da viagem, faz-se acompanhar de um dicionário geográfico onde respiga características dos lugares visitados, apontamentos históricos relevantes, os factos fixados por uma história que, por vezes, aparenta ser mais do domínio da ficção do que da realidade. A viagem no rio é também uma viagem no tempo, havendo entre o curso natural das águas e a passagem dos dias associações simbólicas que provêm de eras mitológicas e o presente não renega. “Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack” corresponde a um mergulho profundo nos pensamentos de um homem que de facto pensava. Pensava o seu tempo na relação com o passado, pensava a natureza embrenhando-se nela, pensava de um modo vital por ser nele o pensamento uma forma de respiração, pensava reflectindo sobre o que observava e até observando o que outros antes dele haviam pensado. À componente narrativa sobrepõe-se o impulso da meditação, pautado pela experiência da perda e, por isso mesmo, num tom por vezes elegíaco que aflui invariavelmente num fecundo elogio da Natureza.
São inúmeros e diversos os assuntos tratados por Thoreau nesta obra. Dos mistérios da criação à vida na natureza, das transformações operadas pelo progresso a uma ideia de civilização, desta ao selvagem, da vida humana à vida animal, do «Tempo, esse grande ceifeiro» (p. 66) à decadência da paisagem: «Quem quiser saber alguma coisa dos seus primórdios, o melhor é perguntar às velhas rochas cinzentas na pastagem» (p. 77). A Natureza tem uma linguagem que urge decifrar, entender, as velhas cidades ao abandono, nas margens do rio, são um sinal que não determina o curso das águas. Thoreau interessa-se pelo índio, rejeita os conceitos de civilização impostos pelos pioneiros, questiona a mitologia e as grandes religiões, a fé e as igrejas, relativiza-as no Tempo para torná-las compreensíveis «Todas as pessoas têm os deuses adequados às suas circunstâncias» (p. 93) , pensa a ciência e o seu papel no desenvolvimento da humanidade, elabora uma crítica profunda de um certo cristianismo, contrapondo-o ao budismo e ao hinduísmo, opõe o homem Oriental ao Ocidental, fá-lo sem pregar doutrinas nem impor projectos. Fá-lo da mesma forma que sugere leituras, o “Bhagavad-Guitá”, de preferência, ou empreende distinções entre génio e intelecto: «Há duas classes de homens a que chamamos poetas. Uns cultivam a vida, os outros, a arte uns procuram comida para se alimentarem, outros, para saborearem; uns satisfazem a fome, outros comprazem o palato» (p. 411). Homero, Goethe, Chaucer, Anacreonte, Confúcio, Shakespeare, entre outros, tantos outros, são lidos, criticados, traduzidos como quem atravessa pontes entre séculos para poder chegar de uma margem à outra na História do pensamento humano.
Especialmente interessantes são as reflexões sobre poesia, acompanhadas elas mesmas de inúmeros poemas: «Na minha opinião, se os homens lessem como deve ser, só leriam poemas. Não há história nem filosofia que os possa substituir» (p. 118). Não nos entusiasmemos em vão, o mesmo será dito sobre os Textos Sagrados de todas as nações. Reivindicada a utilidade do poema, importa elogiar-lhe a simplicidade do exemplo enquanto garantia de experiência: «Uma frase deve ser lida como se o seu autor, tivesse ele um arado em vez de uma caneta, pudesse ter aberto um rego profundo de uma ponta à outra» (p. 134). E já então a relevância de uma vida anterior ao poema, fora das quatro paredes que oprimem a respiração e deformam a palavra, tornando-a mais coisa do intelecto do que ânimo e sopro. «Só por milagre a poesia é escrita» (p. 365). Ante o teórico, a experiência vivida, o privilégio do contacto directo, a aventura da descoberta, do desconhecido e do diverso. «O talento da composição é muito perigoso é extrair o coração da vida, como quando o índio arranca um escalpe» (p. 365). E já então o lamento no diagnóstico: «O poeta veio para dentro de portas e trocou a floresta e as escarpas pela lareira, e a cabana do Gael, e Stonehenge com os seus círculos de pedra, pela casa do inglês. Nenhum herói se encontra à porta, preparado para irromper a cantar ou a lançar-se na acção destemida, mas um inglês simples, que cultiva a arte da poesia. Vemos a lareira acolhedora e ouvimos a lenha a crepitar em todos os versos» (p. 404). O resumo perdura no tempo, atravessa épocas e eras como a água do rio que não pára de correr. Por arrasto, as sobras do incêndio, a cinza, um mar de lama onde o caminhante incauto atolará as botas. Até que tudo seja deserto, isto é, apenas memória de haver sido.

sábado, 10 de março de 2018

O FIM DA DERIVA


O António Luís Catarino foi meu editor em dois livros, separados por três anos, mas complementares. Se nas “Estranhas Criaturas” me dirigia aos poetas meus contemporâneos, sugerindo-lhes que saíssem de casa, se fizessem à estrada ou seguissem o exemplo de se matarem, no volume cruamente intitulado “Suicidas” lembrei os exemplos. Ser escritor nunca foi fácil, nem ser editor. Na realidade, viver é mesmo uma irónica provocação. O António foi sempre correcto comigo, talvez eu pudesse ter-lhe dado um pouco mais de mim interessando-me mais pelos livros que me publicou. Vivo diariamente rodeado de livros, não me é fácil, enquanto autor, sujeitar o que escrevo à mesma lógica da maioria dos livros que me rodeia. Tento conviver com a realidade afastando-me o mais possível, separando águas, distanciando-me. Fico triste com o fim da Deriva, que publicou muitos e bons livros, ao contrário do que apregoaram os mães deste mundo e calaram os pais do outro. Pode parecer mal que seja eu a dizê-lo, mas dos meus estou já esquecido. Aos dos outros foi um prazer dedicar-lhes atenção. Na poesia, a "Mágoa das Pedras", de Joaquim Castro Caldas, ou os "Compositores do Período Barroco", de José Ricardo Nunes; na ficção, "Os Ciclos do Bambu", de Xavier Queipo, ou "Os Mundos Separados que Partilhamos", de Paulo Kellerman; no ensaio, alguns livros que guardarei para a vida: "O Espírito Nómada", de Kenneth White, ou "Utopias Piratas", de Peter Lamborn Wilson. Toda a colecção Pulsar, de que são exemplo "Para Que Serve a Poesia Hoje?", de Jean-Claude Pinson, ou "Para Que Serve a Literatura?", de Antoine Compagnon. Ainda há dias citava aqui a "Biographia Literaria", de Samuel Taylor Coleridge. Obrigado, António.

[Às vezes existe]


Às vezes existe
uma rima interna
outras a renúncia
de uma vida inteira

Rimar com desistir
não é difícil — basta
escrever ir ou não ficar
O problema é a falta

de capital: não se vai
a lado nenhum sem
algum tipo de crédito


manuel a. domingos (n. 1977), in Interrupção (2014). Natural de Manteigas, estreou-se na poesia com “Entre o Silêncio e o Fogo” (2002). Também escreveu teatro e uma narrativa autobiográfica intitulada “Vala Comum” (2013), com a qual inaugurou o projecto editorial próprio de nome Medula. A este propósito, talvez não seja despiciendo citar Henry David Thoreau: «O poeta é aquele que tem gordura suficiente, como o urso ou a marmota, para lamber os dedos durante todo o Inverno. Hiberna neste mundo, e alimenta-se da sua própria medula». A poesia de manuel a. domingos inscreve-se, porém, numa tradição minimalista que terá em poetas como o norte-americano Raymond Carver ou o português António Reis antecedentes possíveis. Tradutor de Charles Bukowski, domingos assimilou a linguagem clara e irónica, auto-derrisória, amiudadamente cínica, do americano de origem alemã. A tendência para o aforismo será outra componente a ter em conta. Não sendo contemplativa, é uma poesia quase narcisista que desarma o leitor com uma essencialidade tão atenta às coisas do quotidiano, comezinhas, como ao efeito por elas produzido no humano. Com uma linguagem depuradíssima, objectiva, directa, crucial, próxima, por vezes, do silêncio, os poemas de manuel a. domingos resultam de um esforço de concisão que desmistifica o poético e relativiza o sublime.

sexta-feira, 9 de março de 2018

CORPO E ALMA

No que respeita à religião e à arte de curar, todas as nações se encontram ainda num estado de barbárie. Nos países mas civilizados, o padre ainda é um pow-wow, e o médico um Grande Feiticeiro. Pense-se na deferência com que toda a gente aceita a opinião de um médico. Nada denuncia mais claramente a credulidade do ser humano do que a medicina. O charlatanismo é algo de universal e que tem sucesso em toda a parte. Neste caso, torna-se absolutamente evidente que nenhuma impostura é demasiado grande para a credulidade dos homens. Os padres e os médicos nunca se deveriam encarar de frente. Não existe terreno de entendimento possível, nem há ninguém para fazer de mediador entre eles. Quando um chega, o outro sai. Não podiam vir juntos sem começarem a rir, ou sem estarem mergulhados num silêncio eloquente, pois a profissão de um é uma sátira à profissão do outro, e o sucesso de um seria o fracasso do outro. É espantoso que o médico deva morrer e que o padre deva viver. Por que razão o padre nunca é chamado para consultar o médico? É porque os homens acreditam efectivamente que a matéria é independente do espírito. Mas o que é o charlatanismo? Geralmente é a tentativa de curar doenças de uma pessoa tratando apenas do seu corpo. É preciso um médico que se ocupe simultaneamente da alma e do corpo, ou seja, do homem. Agora ele não faz uma coisa nem outra.

Henry David Thoreau, in Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack, trad. Luís Leitão, Antígona, Janeiro de 2018, p. 292. Publicado originalmente em 1849, ao cuidado do Ouriquense.

quinta-feira, 8 de março de 2018

CEREJEIRAS


Para a Ana, para a Matilde e para a Beatriz, as três mulheres cá de casa, aqui fica um poema de Matsuo Bashô, in O Eremita Viajante [Haikus - obra completa], organização e versão portuguesa de Joaquim M. Palma, Assírio & Alvim, Setembro de 2016, p. 140.

RUA ANTES DO CÉU


Aquando da estreia com “Paraíso Apagado por um Trovão” (Edição do autor, 2003), o poeta cabo-verdiano José Luiz Tavares (n. 1967) gerou um entusiasmo que, passados quinze anos e várias obras publicadas, não esmoreceu. A 6 de Março de 2004, António Cabrita referia-se a esse livro de estreia como «a mais “autoritária” primeira obra que li nos últimos anos». E no ano seguinte, entretanto a propósito de “Agreste Matéria do Mundo” (Campo das Letras, 2004), o mesmo Cabrita voltava a escrever sobre esta poesia referindo-se a «uma auto-reflexividade que se compraz na remodelagem de géneros e tropos literários mas com um sentido de oportunidade e uma vivacidade que salva sempre o texto da literatice» (Expresso, 23 de Abril de 2005). “Rua Antes do Céu” (Abysmo/Rosa de Porcelana, Outubro de 2017) não foi o único livro publicado por Tavares no ano passado, sendo também desse ano “Polaroides de Distintos Naufrágios” (Rosa de Porcelana, Setembro de 2017). Aos cinquenta nos de vida, o autor quis assim reafirmar uma vitalidade criativa que só os mais distraídos poderiam julgar ameaçada.
Os dois ciclos ou blocos ou conjuntos, como preferirem, coligidos em “Rua Antes do Céu” são precedidos de um poema intitulado “Umbral”, intróito porventura desnecessário onde se convoca a infância perdida enquanto motivo de questionamento dos «tropeços da vida» na sua relação com a ideia de morte. O tema, caríssimo a um poeta como Ruy Belo, é abordado por Tavares sem redes nem delimitações. Os primeiros trinta poemas, reunidos sob o título “Telhados Longínquos”, dão prova do risco que é o de sujeitar a poesia à reflexão filosófica. Este teste de resistência, que podia, eventualmente, ameaçar a dimensão estética do poema, é levado a cabo com uma linguagem densa, repleta de adjectivos, declaradamente metafórica — «obrigado / pelo vício das metáforas» (p. 16) —, contrastando deveras com a mais óbvia tendência da poesia portuguesa dos últimos vinte ou trinta anos. Mas neste caso o poema não se esgota em floreados lexicais, convoca as musas com o intuito de questioná-las, de repensar a poesia num contexto de dessacralização, reivindicando para a palavra um estatuto que há muito lhe foi  usurpado: o de verbo, origem, fundação, criação.
Assim sendo, estes telhados longínquos remetem para uma situação de desabrigo, de desterro e de desamparo que, enquanto matéria de poesia, é igualmente o retrato de uma fome ontológica (vide p. 75) que o conjunto seguinte aprofunda e reforça. «Esforçado / amanuense do verbo», o poeta convoca a infância como quem procura penetrar num território original, não com intenções memorialistas ou impelido pela nostalgia de um passado longínquo, mas fazendo antes dessa convocação pretexto para pensar/reflectir a vida, o tempo e o lugar da poesia na engrenagem. Se a realidade assalta amiúde o poema, nunca toma definitivamente conta dele. Considerações metafísicas de ordem diversa impõem-se-lhe. Não será por acaso que a palavra naufrágio surge frequentemente, associada, por vezes, à «angústia pacificada / de já não haver povo para a poesia» (p. 49), e, noutras ocasiões, «à criação sem deus» ou sem deuses, já muito distante de concepções órficas, desprovida de heróis, apenas ocupada por e com seres sujeitos à «destilação do passado» (p. 60). O regresso a casa ensaiado no conjunto “Rua Antes do Céu”, acompanhado de irónicas referências homéricas, é como que uma provocação estabelecida pela própria existência: «mas regressar a casa / onde ela já não existe / é só um modo / de se desembaraçar / do passado» (p. 116).
A poesia de José Luiz Tavares surge-nos sistematicamente envolta num tom enigmático, os versos soltam pistas que sugerem sentidos ou apelam a uma decifração impossível de esgotar. No fundo, o problema parte do mesmo princípio que opõe a efemeridade da existência individual a uma ideia de perenidade que já foi a da poesia. O “bafo da transitoriedade” é tudo quanto podemos almejar: «Também eu habituei-me demasiado / ao cimento armado da poesia, / suas regras e prescrições, olvidado / do milagre de estar a sós comigo / nos desalinhos do mundo, buscando / um sentido que coincidisse de novo / com essa rua da infância, // aproximativa imagem de um paraíso / que só em tinta hei divisado, / agora mais perto dos inescapáveis infernos / que um caronte a cair de bêbado, / mas ainda de remo apto à travessia, / personifica no último café da freguesia» (p. 63-64). Este Caronte em minúsculas é quanto sobra, sendo certo que do inferno estaremos um dia a salvo. Nem que seja por cegueira, saldando contas com a beleza numa existência de esquecimento e de silêncio. Porque, afinal, no final, «O inferno são as palavras» (p. 100). Mesmo que, tornadas poesias, residam algures numa “Rua Antes do Céu”.

terça-feira, 6 de março de 2018

GAJAS & COPOS


Por ano, os portugueses passam em média mais três semanas no trabalho do que alemães ou holandeses. Também têm menos dias de férias: 22 dias contra 30 dias dos alemães e os 25 dias dos holandeses. A média europeia (com 28 países da UE) está nos 24,6 dias de férias por ano. (…) Por semana, um português com um contrato de trabalho a tempo inteiro passa em média 41 horas no trabalho – mais uma hora do que passava em 2008. Este é o quinto valor mais elevado da União Europeia. Contas feitas, passamos 1797 horas por ano no trabalho, mais 77 horas do que a média europeia. E gozamos, em média, menos 2,6 dias de férias do que a média comunitária (24,6 dias por ano). (aqui)

segunda-feira, 5 de março de 2018

OSCARS 2018



Taraji P. Henson

Acima de qualquer suspeita.

A CANÇÃO


Não gosto da canção que ganhou o Festival. Já conhecia parcialmente o trabalho de Isaura, que se confunde demasiado com projectos na linha de uns The XX. A letra de “O Jardim” é de uma pobreza aflitiva, parece um exercício de tradução do inglês para português. A melodia é enfadonha, sem ímpeto nem paixão, vai para lá e vem para cá como as ondas de uma baía monótona e desértica. A interpretação de Cláudia Pascoal, que tem uma voz bonita e sabe cantar, lembra-me aqui uma youtuber que a minha filha ouve para adormecer. Registo enjoado a puxar à balada melosa/piegas com retoques electrónicos. Muito pobrezinho.

UM POEMA DE JOSÉ LUIZ TAVARES


TELHADOS LONGÍNQUOS

23.

Do cimo dos telhados vejo
coisas atiradas sobre o mundo:
um livro a arder num incêndio
valente. Muita merda a passar
sob as pontes. (Alguma
é a poesia que se pode).

Uma bicicleta ergue-se entre
o escuro e os meus dentes —
é a musa sem metafísica, e leva
o mundo no guiador. (Agora é bem
preciso arrojo para se ser poeta
sem a almofada do divino).

Olho para o guardador de rebanhos,
que não sabe peva de poesia.
Enfrentando o ofício, cada palavra
sua tem um sentido preciso
que faz mover essa mancha viva.

(Eu sei, posso estar a pedir
demasiado a quem não prescinde
da alta cintilação que revela
o abismal, mas não há como
regressar à grandiloquência
depois da reconhecida justeza
das palavras do pastor).

O rebanho marcha em tenaz harmonia.
Senhor, eu confio nas vossas obras,
mesmo quando decidistes riscar
do mapa cidades inteiras. (Puta
para nero que apenas incendiou roma).

Como fazer justiça aos poetas do meu
tempo, senhor, se o público louvor
vem na folha onde embrulho o magro
jaquinzinho logrado num duelo traiçoeiro?

Por muito que queira ser serviçal
vosso nesta baixa esterqueira,
senhor, o guardador de rebanhos
tomou-me a dianteira e move-se
levando a firmeza na sua esteira.

E é rapinando, senhor, que construo
minha débil melodia. E, acabada
a obra, um piscar de olho vosso
seria suficiente para causar
grandes efeitos no público
palco do entardecer.

O quê?! Dizei-me que a hora
é de desastres? Então retiro-me,
senhor, e vou aprender com
os rebanhos as razões do justo
caminhar, que é deveras  a causa
desta invisível harmonia.


José Luiz Tavares (n. 10 de Junho de 1967, Chão Bom, concelho do Tarrafal, ilha de Santiago, Cabo Verde), in Rua Antes do Céu, Abysmo / Rosa de Porcelana, Outubro de 2017, pp. 44-45.

BANDA SONORA ESSENCIAL #37



   Em matéria de cunhas, confesso já os meus pecadilhos. Durante algum tempo aproveitei borlas para assistir a concertos no Centro Cultural de Belém. A minha mulher é prima de um técnico que trabalhava por lá e nos oferecia bilhetes para as laterais. Houve um espectáculo que me ficou gravado na memória. Foi no dia 27 de Setembro de 1996, com o Wim Mertens Ensemble a interpretar na íntegra um dos meus álbuns preferidos: “Motives for Writing” (1989). Alguns anos antes, tinha assistido no Teatro São Luiz ao concerto que deu origem a “Epic That Never Was” (1994). Mas a actuação do CCB foi particularmente memorável por razões meramente egoístas. No final do concerto, subi ao palco e estive perto do piano a divagar sobre hierarquias e disposições numa sala de espectáculos entretanto vazia. Depois fui levado aos bastidores, onde o pianista belga ainda se encontrava. Só não meti conversa por ser mais forte a timidez do que o descaramento.
   Mertens (n. 1953) é um músico peculiar, que de algum modo intimida e baralha conceitos, fórmulas, teorias. Na sua vastíssima discografia destacam-se vários álbuns com características diversas. É comum ver o seu nome associado ao minimalismo, movimento, aliás, que lhe inspirou o livro “American Minimal Music” (1980). Obras tais como as de Steve Reich, Philip Glass, Terry Riley e La Monte Young são pensadas nesse livro à luz dos fundamentos deixados por John Cage, Arnold Schönberg ou Stockhausen. Mas Mertens, cuja formação académica inclui estudos na área das ciências sociais e políticas, vais mais longe, atribuindo ao movimento minimalista propósitos ideológicos e filosóficos que extravasam o domínio exclusivo da composição musical.
   Ainda que faça sentido perspectivar a sua música a partir de uma relação com os modelos minimalistas, especialmente no que tem de repetitivo e despojado, a verdade é que revela amiúde uma complexidade que a torna mais ecléctica do que a da maioria dos compositores supracitados (a excepção talvez seja Philip Glass). O álbum “Educes Me” (1988) pode servir de exemplo. Se uma peça como a que dá título ao álbum é de raiz claramente minimalista, constituída por melodia para arpa num movimento tão lento quanto o da extinção de um som no silêncio, já “The Fosse” aproxima-se da música popular com uma melodia para piano altamente acessível e um coro de vozes com ressonâncias barrocas.
   “A Visiting Card”, tema de abertura, pode também constituir excelente exemplo de uma música algures entalada entre os universos erudito e popular, fazendo justiça ao idioma singularíssimo adoptado por Wim Mertens. E o que dizer de “No Plans, No Projects”, com um sintetizador a impor-se perante piano e voz numa dinâmica tão típica da música pop? Como referi, “Motives for Writing” é um dos meus álbuns preferidos. Logo, entre os mais de sessenta de Mertens (e eu não devo conhecer nem metade), é provável que seja o meu álbum preferido deste compositor belga. Trago hoje à tona “Educes Me” por me ter recordado ontem de “Usura”, tema para vozes que me perseguiu ao longo de um dia que começou num shopping e acabou em casa a assistir à cerimónia dos Óscares.

sábado, 3 de março de 2018

O TOM DIVERTIDO DA PASSAGEM


Nos últimos um ou dois anos, o meu editor, se assim se lhe pode chamar, tem-me escrito de vez em quando a perguntar que destino deve dar aos exemplares de Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack ainda disponíveis, tendo acabado por dar a entender que precisava do espaço que estavam a ocupar na sua cave. Assim, mandei-os vir, tendo chegado hoje por correio expresso, enchendo todo o carro do homem: 706 exemplares de uma edição de 1000 que comprei à Munroe há quatro anos, que tenho vindo a pagar desde então e que ainda não acabei de pagar. A mercadoria foi-me finalmente enviada e tenho agora a oportunidade de examinar a minha compra. É qualquer coisa de mais substancial do que a fama, como as minhas costas podem testemunhar, que a subiram dois lanços de escadas para um local semelhante àquele em que teve origem. Dos restantes duzentos e noventa e tal, setenta e cinco foram oferecidos e o resto vendido. Tenho agora uma biblioteca de perto de novecentos volumes, dos quais mais de setecentos são da minha autoria. [28 de Outubro de 1853]

Diário de Henry David Thoreau, citado por H. Daniel Peck na introdução a Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack, trad. Luís Leitão, Antígona, Janeiro de 2018, p. 7.

ACADEMIA


Um deputado que é também presidente de uma faculdade contrata como catedrático convidado para os quadros da sua faculdade pertencente a uma universidade pública um licenciado que foi presidente do partido de que é deputado.


Eis um ato que outorga um elevadíssimo prestígio a todos e cada um dos envolvidos, à faculdade, à universidade, a Portugal.


Xilre, aqui.

quinta-feira, 1 de março de 2018

SEMENTES!


(fotografia de Jorge Aguiar Oliveira)


Escreveu Henry David Thoreau: «Aquele que come o fruto deve pelo menos deitar a semente à terra, e mesmo, se possível, uma semente melhor do que a que deu o fruto que acaba de comer. Sementes!» É de um livro que ando a ler, “Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack”. Mas e se o terreno for infértil? E se à volta medrar apenas a esterilidade de um tempo atroz? Caem bombas na Síria, matam-se crianças, celebram-se novas armas de precisão na Rússia, sugere-se o armamento dos professores na América, raptam-se centenas de meninas na Nigéria, fecham-se livrarias em Portugal… Há tempos, escrevia eu aqui: «Talvez um dia venhamos a ser apanhados de surpresa com a notícia do fecho de um dos mais belos e agradáveis espaços da baixa conimbricense, a livraria antiquário do Miguel de Carvalho. Nessa altura teremos direito a 1700 lamentos, 1700 comentários no Facebook, 1700 likes, 1700 manifestações deindignação sobre o estado a que isto chegou, o fim do comércio tradicional, as cidades invadidas por turistas, as livrarias que fecham, 1700 tretas fiadas para disfarçar o indisfarçável: não há negócio que sobreviva sem vendas». E o anúncio cai como uma bomba no meu coração, porque não consigo entender que numa cidade como Coimbra, isto é, com a dimensão de Coimbra, com a reputada tradição cultural de Coimbra, ó ficções, uma livraria como a do Miguel não se aguente. Há dias em que deixamos de ter paciência para os dias. Este é um deles. Espaço dinâmico, bonito, acolhedor, esmeradamente decorado e apetrechado, e não chega. Onde andam os professores? Onde andam os alunos? Onde andam os 1700 poetas deste país? Por onde andam as pessoas, foda-se?! De que precisamos nós no mundo para que as sementes despontem até ao fruto? Anestesiados, cada vez mais anestesiados, com lixo digital e demais porcarias, deixamos que tudo à nossa volta se vá transformando em ruína e sobras. Nada disto faz sentido, este estado lamentável de coisas não faz sentido. Um miserável € por mês vezes 1700 talvez desse para aguentar uma renda, e assim um terreno fértil de esperança, um espaço fecundo de liberdade e amor contra os cenários de guerra que tomam conta deste filha da puta de mundo patético, absurdo, incompreensível. Lamentos já não chegam, lamentos não nos protegem das armas de destruição em massa apontadas ao pensamento, ao sonho, à alegria de viver. Está anunciado: mais um fim, um encerramento, uma espécie de morte no horizonte. Está anunciado com o peso da tristeza a invadir-nos por sabermos quão injusta é a notícia para todos quantos ainda têm fé nalguma humanidade, a de homens como o Miguel que sonham e fazem e concretizam e cuidam do nosso tempo conferindo-lhe dignidade. Como é possível que não seja possível?

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

"CHRISTINE" (2016)



O menos que se pode dizer de Christine é que se trata de um objecto de cinema que evita transformar a tragédia da sua personagem central em “símbolo” do que quer que seja. Do mesmo modo, o contexto televisivo em que Christine trabalha não pode ser encarado como um retrato de “toda” a televisão: em termos históricos, a realização de Campos interessa-se pelas especificidades da conjuntura audiovisual de meados da década de 70, ao mesmo tempo que, no plano psicológico, observa as nuances mais delicadas da história pessoal de Christine.
João Lopes, aqui.


Baseado numa transtornante história verídica: aqui. Imperdível.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

PERDER O ESQUECIMENTO


A hipótese de um Deus enganador configura-se cada vez mais verosímil. Desbravado o caminho da pós-humanidade, apanhado o ser na rede da pós-verdade, o homem surge aos olhos do artista como uma espécie de cadáver que caberá à arte autopsiar em aula de anatomia. O quadro de Rembrandt anunciou a actualidade como um oráculo, embora aí ainda tenhamos corpo de carne o osso. No futuro, será apenas memória registada num vastíssimo depósito de combinações: palavras e sons, sons e imagens, imagens e cheiros, cheiros e texturas, texturas e palavras… Enfim, memórias. Fragmentos representativos de uma realidade cuja natureza é já a sua falsidade enquanto raiz do autêntico. Um depósito de logros, por assim dizer. Símbolos que combinados com outros símbolos formam representações. A lição de anatomia terá então como objecto anatómico uma representação identitária, pode ser um diário, uma qualquer página numa qualquer rede social, um vastíssimo número de fotografias e de filmes caseiros que terão já ultrapassado a imagem de si para se estabelecerem como o si mesmo, númeno, a essência por detrás da aparência. Dicotomia, aliás, entretanto desfeita. Porque num futuro muito próximo ninguém saberá distinguir aparência de essência, será tudo mera representação. No teatro teremos então a verdade, assim como na poesia a mentira terá os dias contados. Fingir equivalerá a respirar, pelo que os processos de transfiguração artística estarão muito mais ligados ao facto do que à imaginação.


O cinema documental de Chris Marker (n. 1921 – m. 2012) antecipa esse futuro aproveitando-se da noção de jogo. Em Level Five (1997) um homem e uma mulher, ausentes um do outro, ligam-se através de um jogo de estratégia cujo objectivo é a reconstituição da batalha de Okinawa. Ela refere-se-lhe como se ele não existisse, fala para uma câmara. Ele, em voz off, refere-se a ela no final como se estivesse a falar de um fantasma. A relação entre ambos é tão lúdica como a que se estabelece entre nós e as personagens. Afinal quem nos fala? E de onde? De que tempo? De que realidade? De que vida? De que morte? Pode alguém ser tão adorável como uma imagem? questiona ela, enquanto reconstrói a partir da estrutura do jogo pedaços da sua própria existência. Ele apaixonou-se por uma imagem e colocou uma mulher no lugar da imagem, colocou-a a ela. A via não é a do idealismo tradicional, a imagem não surge enquanto modelo, já que surge da vida e não de uma ideia. É esta a direcção do cinema de Marker, da vida para a ideia. Não o inverso. E assim temos que entre um jogo de estratégia e a realidade histórica realiza-se o autêntico, em ambos é a perda, a derrota, a paradoxal relação do homem com a derrota que emerge como uma imagem poderosa, indestrutível.


Os jogos de estratégia são feitos para ganhar batalhas perdidas, tal como os suicídios em massa na batalha de Okinawa. A batalha estava perdida para quem caísse na mão do inimigo, o suicídio era o nível derradeiro de um jogo com a morte de premeio. O sucesso equivale ao fracasso. Não será também este o enigma estabelecido por Sans soleil (1983)? A viagem no espaço, mais uma vez com o Japão em fundo, tem na sua origem a força de uma imagem inaugural: três crianças islandesas, representação da felicidade. O poder da Natureza equivale aí ao poder do Tempo, tal como na paisagem desértica de Cabo Verde. Se o Tempo cura feridas? Não. O Tempo tudo arrasa, tudo deixa em ferida, ruína. A história do filme resulta, aliás, de uma intensa reflexão histórica acerca do poder da memória. Há uma cena a destacar-se das demais, a cena do abate de uma girafa. Um primeiro tiro atordoa-a, um segundo atravessa-a de um lado ao outro, levando-a a esvair-se em sangue até por fim tombar. Um terceiro tiro fatal, na cabeça, retira-lhe a vida. E o sofrimento. O plano final mostra-nos dois abutres a comerem-lhe os olhos. É esse órgão directamente ligado à visão, princípio de todo o cinema, de toda a arte visual, que é questionado. A impossibilidade da memória equivale à impossibilidade da História, o cinema é um documento que busca o reconforto melancólico de uma imagem originária.


Teatro de sombras, este cinema de pendor etnográfico com intuitos documentais. O que aqui se documenta não é tanto o facto como é a reflexão sobre o facto, partindo da vida, da realidade, da História. Mesmo quando surge no formato de ficção científica. A curta-metragem La jetée (1962) é hoje considerada uma obra-prima do género. Muito por causa, suponho, do seu processo de montagem. Em La jetée o movimento das imagens não corresponde ao de um filme convencional. O movimento, aqui, é sugerido como quem folheia um álbum de fotografias ou de banda desenhada. O movimento das imagens está na sua relação com o texto. Num cenário pós-apocalíptico, o que resta da humanidade sobrevive em túneis onde são levadas a cabo experiências com o intuito de fazerem sobreviver a humanidade num plano extraterritorial e "extratemporal": o plano da memória. Um homem é escolhido para viajar através do tempo nas suas memórias. A escolha recai sobre ele por viver obcecado com uma imagem da infância. Esta obsessão com as imagens, com o poder da imagem, percorre os filmes de Marker paralelamente a uma meditação profunda sobre a relação da memória com o passado. Será possível recuperar o passado? Reconstituí-lo? Não será a própria fixação do presente uma forma de recuperação do passado? Afinal, uma imagem gravada hoje não será no futuro um pedaço de passado em estado de conservação? A inocência cósmica ambicionada sobreviverá então nesse pedaço de história porventura poupado à lava do tempo. A viagem sugerida na ficção de Chris Marker não é outra senão a que o próprio levará a cabo nos seus documentários posteriores, tanto em Sans Soleil como em Level 5. Após muitos casos de homens que perderam a memória, eis o exemplo de um que parece ter perdido o esquecimento…

UM POEMA DE PIER PAOLO PASOLINI


A MADRUGADA MERIDIONAL

Passeava nas proximidades do hotel — era ao entardecer —
e quatro ou cinco rapazes surgiram,
na pele de tigre dos campos, sem
um penhasco, uma cova, um resto de vegetação
que fosse abrigo para eventuais disparos: que
Israel estava ali, sobre a mesma pele de tigre,
semeada de casas de cimento e muros
inúteis, como em todos os subúrbios.
Fui ter com eles, àquele lugar absurdo,
longe da estrada, do hotel,
da fronteira. Foi mais uma amizade,
daquelas que duram uma noite
e atormentam depois toda uma vida. Eles,
deserdados, e também crianças
(que, dos deserdados têm o saber
do mal — o furto, a rapina, a mentira —
e, das crianças, o idealismo ingénuo
de sentir que se consagram ao mundo),
tiveram logo a velha luz do amor
— como de gratidão — no fundo dos seus olhos.
E falando, falando, até
cair a noite (e já um me abraçava,
ora dizendo que me odiava, ora que não,
que me amava, me amava), soube, por eles, todas as coisas,
todas as coisas mais simples. Eles eram os deuses,
os filhos de deuses, que misteriosamente disparavam,
por um ódio que os faria descer das montanhas de argila,
como noivos sedentos de sangue, sobre os Kibutz invasores
na outra metade de Jerusalém...
Maltrapilhos, que agora vão dormir
ao relento, no fundo de um baldio dos subúrbios.
Com os irmãos mais velhos, soldados
armados de uma velha espingarda e bigodes
de mercenários resignados com mortes antigas.
São estes os Jordanos, terror de Israel,
estes que à minha frente choram
a dor antiga dos foragidos. Um deles,
emissário do ódio, já quase burguês (ao moralismo
chantagista, ao nacionalismo que empalidece de raiva
neurótica) canta-me o velho refrão
que aprendeu na sua rádio, com os seus reis —
outro, no meio dos seus trapos, ouve concordando,
enquanto, como um cachorrinho, se encosta a mim,
não sentindo, naquele campo de fronteira,
no deserto jordano, no mundo,
mais do que um mísero sentimento de amor.

Pier Paolo Pasolini (n. 5 de Março de 1922 - Quartiere Santo Stefano, Bolonha, Itália - m. 2 de Novembro de 1975, Óstia, Roma, Itália), in Poemas, trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Assírio & Alvim, Março de 2005, pp. 433-435. Mais sobre Pasolini: aqui, aqui e aqui.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A LER



Há uma frase do Lacan sobre a paixão. Era qualquer coisa do género: “a paixão – ou o amor, já não sei – é dar o que não se tem a quem não quer receber”. E eu acho que a função pedagógica é da mesma ordem. É dar o que não se tem, porque ninguém sabe tudo… sabe-se umas coisas, tem-se umas ideias, umas impressões, melhor ou pior organizadas. Portanto, dá-se o que não se tem a pessoas que não querem totalmente receber o que se está a dar. E têm toda a razão, porque têm mais que fazer na vida, têm outras ideias, etc. Ponhamos as coisas assim: dentro daquilo que eu posso fazer, o mais que posso é manter esta forma de fazer as coisas, trabalhar o melhor possível dentro desta forma, e não procurar fazer doutra maneira, encontrar outro estilo que eventualmente não teria tanto que ver comigo. Ou seja, isto não é resistência, mas mais persistência. Enquanto me deixarem e tiver condições para o fazer, irei fazendo, da melhor forma possível, nestes moldes. Mas tenho ideia de que tudo isto é muito relativo, que a minha maneira não é necessariamente melhor ou pior do que outras formas de fazer a mesma função. Acima de tudo, acho que devem vir outras pessoas que consigam fazer isto de uma forma mais orgânica e equilibrada.


Fernando Guerreiro, entrevistado aqui.

#106



Abdiquemos do nome por detrás do rosto. As rugas, os sinais, os cabelos brancos, as olheiras, os olhos embaciados, perscrutadores, indiciam a passagem do tempo. O rosto de um homem por quem o tempo passou deixando marcas inevitáveis. De certo modo, é como se nos víssemos ao espelho com algumas décadas de atraso. Que esperar deste homem? Que nos conte histórias, que partilhe experiências, até exortações, sem que ceda à tentação de fechar-se no passado como se aí tivesse ficado o que de melhor há no mundo. Então esperamos também que mostre a sabedoria dos melhores escultores, percebendo o que há no hoje que se diferencia do ontem. Não para que se adapte cinicamente às circunstâncias, ou se acomode, mas para que possamos continuar a acreditar nas vantagens de haver amanhã. Sérgio Godinho é entre os nossos escritores de canções aquele que melhor soube acompanhar a mudança dos tempos, rodeando-se de músicos mais novos sem colocar no prego a sua identidade. Nação Valente (2018) repercute tal saber. Mesmo quando resvala para o "clássico", oferece algo de refrescante. Nota-se isso em duas excelentes canções deste álbum: Mariana Pais, 21 Anos, com música de José Mário Branco e um belíssimo arranjo para cordas de Filipe Melo, e Tipo Contrafacção, desta feita com Filipe Melo a assinar o arranjo para sopros, divertimento jazzy, e Nuno Rafael rubricando a composição. E desta apetece citar a última estrofe: «Disse: o nosso amor / Era de paixão / Prazer e razão / Era sempre agora / E agora é contrafacção / Tipo Tipo / Tipo contrafacção». Também noutras canções o amor já era… Artesanato, contrito, azedado. E talvez essa seja uma das marcas mais fortes de Nação Valente, o amor traído pela banalidade dos dias, pelo quotidiano torturador de Noite e Dia (filha da puta de canção). Mas entre Grão da mesma mó e Até já, até já não se intromete nenhuma espécie de fatalismo, os lamentos não são determinações. São dez canções que incitam, logo à abrir, a decidir por uma das opções: «Fazes que fazes / Ou pões sementes a crescer?» Há um optimismo nas canções de Godinho que me agrada, solução final para dores e frustrações, boa companhia com olhos postos no horizonte, sem fatalismos nem destino pré-determinado, um optimismo que estimula, exorta, impele à construção de algo positivo, afirmativo, vivo, num mundo estreito com a consciência de ser única a vida que se tem. Valeu: