quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

DIGA 33 ÀS TERÇAS


ÀS TERÇAS
NO TEATRO

   Por onde anda a poesia? Quem a escreve? Quem a publica? Quem a lê? Quem são os poetas do nosso tempo? Terá a poesia leitores? Que motivações alimentam os editores de poesia?
   A ideia de organizar um ciclo de poesia no Teatro da Rainha surgiu de uma vontade de explorar territórios pouco explorados, fazer-lhes o reconhecimento e dá-los a conhecer. Propõe-se, numa fase inicial, uma digressão pela poesia contemporânea portuguesa. Queremos ouvir poetas e editores, queremos tentar perceber como mantêm viva a chama de Orfeu numa época em que a vertigem de imagens parece deixar pouco espaço à palavra.
   Condenada à morte por uns, odiada por outros, a poesia foi desde sempre uma arte controversa. Talvez hoje o seja ainda mais, pelo carácter de resistência de que se faz valer. Resistência ao imediatismo, resistência ao mediatismo, resistência ao espectáculo, entendido não como transfiguração, expressão, representação, mas antes como mera exibição de luzes capazes de levar à cegueira. 
   Avessa ao deslumbramento, a poesia espanta, subverte, baralha, desconstrói, a poesia exige daquele a quem se dirige uma predisposição para aceitar o diverso. Ora, estaremos ainda dispostos a aceitar o diverso? Como conciliar tamanha exigência com o quotidiano reducionista das redes sociais? Como manter no pensamento níveis de exigência constantemente traídos pela infantilização social?
   O espaço teatral surge-nos, pois, como um espaço privilegiado para a exploração do território poético. Também hoje o teatro nos surge enquanto modo de resistência. Com a poesia, ele partilha a inquietação e o fingimento de que falava Pessoa. Um fingimento que é a dimensão mais profunda da verdade. O actor, tal como o poeta, vê aparecer a manhã sobre a cama. Citamos Herberto, que foi poeta, que foi actor. 
   Não nos move qualquer veleidade do conhecimento. Sabemos que muitas das perguntas a que tentaremos responder não têm resposta. Não têm, pelo menos, uma resposta definitiva. Mas sabemos também que nunca o infinito foi impedimento à caminhada. Queremos ouvir quem insiste na caminhada, perceber em que direcções seguem os passos de quem caminha, queremos escutar o som das palavras directamente saídas da boca de quem as escreveu. 
   Uma vez por mês, à terceira terça-feira de cada mês, teremos um poeta e um editor de poesia, ou alguém que seja ambas as coisas, ou alguém que, não sendo nenhuma delas, insista em escrever como se fosse poeta e em publicar como se fosse editor. Privilegiaremos o contacto directo e informal através da conversa, do diálogo, da partilha de histórias e, sobretudo, da escuta de poemas. Porque a escrita e a escuta, articuladas uma com a outra, veiculam a aprendizagem. Ao cabo, outra coisa não pretendemos que não seja aprender. 

Henrique Manuel Bento Fialho


16 de Janeiro às 21h30 
Na Sala Estúdio do Teatro da Rainha
1ª sessão com Nuno Moura (autor e editor nas editoras Mia Soave e Douda Correria) e João Paulo Esteves da Silva (músico, autor, tradutor)


(fotografia copiada daqui)


guardião do estilo
a dinâmica sonora e colorida da sua obra
não esconde a água no pântano
penetra sem recorrer a
delicadas construções etéreas
sem recorrer à ajuda
da família
as delicadas construções etéreas servem
apenas para te esconder ó guardião do estilo
a loucura lamenta ter eclipsado
o guardião do estilo
mas é de eriçar
os pêlos dos braços, a sua obra, fatalmente marginal,
sempre presente nas fases de luto para meter o dedo
na ferida, a sua obra, com aquela infame tendência
de repetir, a sua obra
ó guardião do estilo

Nuno Moura, in “Cavalo Alucinado”, Douda Correria, Setembro de 2017.

Nuno Moura (Lisboa, 1970) é poeta, editor, recitador profissional. Começou a publicar em 1993. Em 1997, ganhou uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura. Fundou no ano seguinte, com Helena Vieira, a editora Mariposa Azual. Actualmente, é o editor da Mia Soave e da Douda Correria. Faz parte dos colectivos O COPO, Ventilan, Os Bambi e Batatas Parvas. Organiza eventos de música e de poesia. O seu mais recente livro intitula-se “Cavalo Alucinado”, como no poema de Ângelo de Lima. 


(fotografia copiada daqui)

Tenho visto morrer as livrarias;
pouco a pouco, caindo, sem remédio,
umas de incompetência, outras de tédio
ou indiferença face às correrias

das gentes e das tecnologias.
Também oiço dizer que o livro é um médio
em vias de extinção; e que no assédio
de ebooks e hi-pads, o papel tem os dias

contados. Mas não sei de que se trata
nesta nova maneira de morrer;
há livros a boiar nas prateleiras

de um armazém; o naufrágio desbarata
pérolas de poesia, brasileiras,
que sem a morte eu nunca iria ler.

João Paulo Esteves da Silva, in "Trinta e quatro sonetos e trezentas e cinco redondilhas", Douda Correria, Novembro de 2014.


João Paulo Esteves da Silva (Lisboa, 1961) é músico profissional, tendo o Curso Superior de Piano do Conservatório Nacional (1984). São inúmeras as colaborações, em concertos e discos, com músicos nacionais e estrangeiros. Desde 2009 lecciona na licenciatura em Jazz da ESML. Tem vindo a trabalhar noutras áreas como a poesia — publicando dois livros, dos quais o mais recente é o volume “Vertem-se Bíblias em Quimbundo” (2017). Traduziu dois livros do poeta israelita Mordechai Geldman. 



Próxima sessão, dia 20 de Fevereiro, com Paulo da Costa Domingos (autor e editor da Frenesi).

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

CALDAS


"Yah, eu não sou muito de ver futebol", disse um jogador do Caldas à Sport TV. E isto é bonito pa' caralho.

UM POEMA DE JOHANNES BOBROWSKI


SOB A ORLA DA NOITE

Sob a orla da noite as pequenas
cidades ao vento, de labirínticos
telhados, paredes amarelecidas,
torres. Afundando-se na paisagem.

Tendas, a desfazer-se contra o céu,
com o eco de vozes mortas,
de bocas de sinos rasgadas,
caídas e geladas da idade.

E a planície entra
pelas suas ruelas, detém-se
nas praças em frente de
portas abertas, sobre as fontes.

Mas é de noite que elas
descem os rios, na hirta
floresta das velas nos mastros,
húmidas, bandeiras pintadas
esvoaçando. Eu cheguei

sob a orla da noite, lá fora,
acocorada à entrada da
floresta, uma aldeia, igual
à cigana morena que roda a frigideira
no reflexo da luz, no meio
das faúlhas do fogo, o fumo
a traçar-lhe o risco do cabelo.


Johannes Bobrowski (n. 9 de Abril de 1917, Sovetsk, Rússia, antiga Tilsit, Prússia Oriental - m. 2 de Setembro de 1965, Berlim Leste, República Democrática Alemã), in Como Um Respirar - Antologia Poética, trad. João Barrento, Cotovia, Abril de 1990, p. 55.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O MELHOR DOS LIVROS EM 2017

Dando continuidade à opção tomada em 2015, voltarei a elencar aqueles que foram, para mim, os melhores livros do ano, de acordo com categorias que fogem às tradicionais listas da imprensa especializada. Dessas, confesso, não fiz qualquer leitura. Chegaram-me, via amigos, brevíssimos ecos, por nelas se incluir um livro muito querido acerca do qual, curiosamente, ainda não tive o prazer de ler uma única recensão crítica. A vida como ela é, como diria o outro. Este não deverá ser considerado, porém, um momento de balanço, quer-se antes um momento de celebração do livro enquanto objecto mais do que comercializável. É também um momento de expurgação na existência do singelo livreiro que vos escreve, passado mais um ano rodeado de papéis imprimidos ao desbarato. Acrescentei algumas categorias, deixei cair no olvido outras tantas. Vou já adiantando que foi um ano fraquíssimo em sobrecapas.

Melhor cinta/Melhor Reedição

“Poemas Quotidianos”, de António Reis (Tinta-da-china, Julho de 2017)

Assim como foi um ano fraco em sobrecapas, podemos também dizer que foi parco em boas cintas. A excepção será a cinta que acompanhou a saudada reedição dos "Poemas Quotidianos", de António Reis (n. 1927 – m. 1991), com uma citação de Manuel António Pina a colocar no devido lugar a relevância desta obra. É ainda da colecção de poesia da Tinta-da-china, que tem vindo a impor-se como uma das melhores, o livro seguinte.

Melhor dedicatória

“Alguma Coisa Negro”, de Jacques Roubaud (Tinta-da-china, Fevereiro de 2017)

Não abuso se disser que todo este livro é uma extensa e pungente dedicatória a Alix Cléo Roubaud, companheira de Jacques Roubaud levada pela morte, aos 31 anos, na sequência de uma embolia pulmonar. Caído “num profundo estado de afasia”, o poeta recuperou-se nos poemas em diálogo com as memórias e os objectos de uma relação abruptamente interrompida. Foi o livro de poesia traduzida que mais apreciei em 2017.

Melhor primeira orelha/badana & Melhor Tradução

“Leviatã ou O Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros”, de Arno Schmidt (Abysmo, Outubro de 2017)

Arno Schmidt chegou finalmente à língua portuguesa, através de um exigente trabalho de tradução levado a cabo por Mário Gomes. O pormenor gráfico da primeira badana, onde não se lê senão o nome do tradutor, é uma rara mas merecidíssima homenagem a quem teve o trabalho de mudar para o idioma de Camões palavras que resistem altamente a essa mudança. Uma nota, ainda no campo da tradução, para “Nada Natural”, a pequena antologia de Gary Snyder que Nuno Marques e Margarida Vale de Gato traduziram e a Douda Correria publicou.

Melhor capa

“Antro”, de Rui Baião (Averno, Outubro de 2017)

Não é de agora a colaboração do poeta Rui Baião com o fotógrafo Paulo Nozolino, inquestionavelmente um dos melhores fotógrafos portugueses. A capa de "Antro" é uma fotografia de Nozolino, à qual inteligentemente não se sobrepôs absolutamente nada. Nem o nome do autor, nem o título do livro, nem a assinatura da editora. Impossível reproduzir aqui a luminosidade original

Melhor guarda

“Um Útero é do Tamanho de um Punho”, de Angélica Freitas (Douda Correria, Setembro de 2017)

Poderá não ser exactamente uma guarda, mas é como se fosse. No verso de capa e sobrecapa, as ilustrações de Xueh Magrini Troll adquirem uma relevância à qual será difícil escapar. São uma espécie de introdução visual ao texto, neste caso com especial pertinência. Transpõem, deste modo, o papel decorativo tantas vezes exigido à ilustração. Angélica Freitas é uma poeta e tradutora brasileira nascida em 1973. Em Portugal, tinha já publicado “Rilke Shake” (Douda Correria, Agosto de 2015).

Melhor folha de guarda/Melhor lombada

“Assassinos da Lua das Flores”, de David Grann (Quetzal, Julho de 2017)

O porte Osage, num livro que infelizmente terá escapado a leitores interessados. Reportagem jornalística aprofundada sobre um esquema de matança dos índios Osage, sequência de crimes que de algum modo esteve na origem da instituição hoje conhecida pela sigla FBI. O mesmo rosto surge na lombada, a observar-nos como um espírito que nos julga pelo peso que traz à tona em consciências adormecidas.

Melhor corte superior

Editoras de poesia independentes

Cada vez mais a edição de poesia em Portugal resulta de uma espécie de espírito de missão. Ao alto, três livros de três projectos editoriais distintos — Língua Morta, Medula, Do Lado Esquerdo — estão em representação de muitos outros, os quais afrontam o métier com aquele amadorismo, do verbo amar, que não chega às grandes superfícies comerciais. Porque estas, na sua incomensurável grandeza, têm o espaço alugado a quem reduz o livro a fonte de rendimento exclusivamente material. Apostando em valores relativamente reconhecidos, dando a conhecer outros nunca publicados ou traduzindo autores estrangeiros, estas pequenas editoras vão realizando um enorme trabalho pelo bem comum.

Melhor corte dianteiro

“O Bibliófago e mais historietas breves”, de Abel Neves (Adab edições, Abril de 2017)

O que acima afirmámos para a poesia, podíamos agora afirmar para o conto. Abel Neves tem uma vasta obra publicada, dispersa por diversas editoras com influência distinta no meio literário português. “O Bibliófago” foi talvez o melhor livro de contos que li em 2017. Não me parece que tenham sido muitos a dar por ele, escondido que andou nas estantes mais refundidas das livrarias portuguesas.

Melhor corte inferior

“Resgate”, de Fátima Maldonado (Averno, Janeiro de 2017)

Logo a abrir o ano, a editora Averno resgatou alguns textos críticos de Fátima Maldonado. As palavras de Manuel de Freitas, no prefácio, não enganam: «Não querendo parecer demasiado pessimista, receio que a liberdade (de espaço, de expressão, de estilo e de ritmo próprios) que se dava a ler nos textos de Fátima Maldonado seja hoje uma total impossibilidade. Refiro-me, claro, à imprensa, no que esta ainda possa ter de cultural. Talvez noutros lugares, embora também improváveis ou raríssimos, o livre exercício crítico possa continuar a ser praticado». Quem discordar, levante o braço.

Melhor folha de rosto

“O Grilo na Varanda — Luiz Pacheco para Laureano Barros (Correspondência, 1966-2001)”, de Luiz Pacheco, com notas de João Pedro George (Tinta-da-China, Junho de 2017)

Está toda a informação que é necessária, acompanhada de um grilo cuja autoria desconhecemos. Mas o grilo faz a diferença, neste livro que traz como bónus um filme de Paulo Pinto: “Laureano Barros, Rigoroso Refúgio”. Ainda havemos de voltar a ele por aqui.

Melhor dobra

“Diário de Um Zé-Ninguém”, de George e Weedon Grossmith (Tinta-da-china, Junho de 2017)

A colecção de humor que Ricardo Araújo Pereira coordena para a editora Tinta-da-china tem toda uma identidade gráfica que a torna inconfundível. As primeiras edições, com capa em cartolina grossa, deixam de fora as tradicionais lombadas, revelando as costuras de que são feitas estas edições. São livros onde a dobra faz a diferença. Tradução de Margarida Vale de Gato.

Melhor segunda orelha/badana

“Factotum”, de Charles Bukowski (Alfaguara Portugal, Março de 2017)

2017 foi um ano paupérrimo em matéria de segundas orelhas. O mau tratamento oferecido a esta componente do livro é generalizado, sugerindo-se a criação de uma associação pela defesa das segundas orelhas. Repetem-se soluções, abandona-se a orelha ao vazio, faz-se dela uma continuação da primeira. Segunda orelha que é segunda orelha quer-se autónoma e independente. "Factotum" surge aqui como exemplo de uma alternativa, tendo à segunda orelha sido atribuído um propósito singular e congruente. Já agora, a primeira vez que vi tal solução foi num livrinho da saudosa OVNI.

Melhor contracapa

“Somos contemporâneos do impossível”, de José Anjos (Abysmo, Dezembro de 2017)

A Abysmo é outra editora que vem apostando na poesia portuguesa. Regressando à poesia de José Anjos, de quem havia publicado, em 2015, o “Manual de Instruções para Desaparecer”, fá-lo com um extenso e, por isso mesmo, arriscado volume. Quando o que geralmente vem na capa é deixado para a contracapa, temos, então, a melhor contracapa. Assim se fez neste livro, que, tal como sucede na melhor capa do ano, deu à obra plástica de Simão Palmeirim Costa toda a primazia.

Melhor colecção

Eduardo Galeano, na Antígona

Repito-me: em 2017, a editora Antígona anunciou que iria publicar uma colecção de obras de Eduardo Galeano. Foi uma das melhores notícias que tive. Galeano é um Mestre, em maiúscula. Saíram “As Veias Abertas da América Latina”, “O Caçador de Histórias” e “Mulheres”. Noutros tempos, chamaríamos a isto um acontecimento literário. Seria celebrado com gosto e inumeráveis razões. Agora parece haver uma certa indiferença, como se fosse pouco ou nada, como se fosse irrelevante tamanho investimento em tempos de indigência.

Melhor ilustração de capa

“Siringe”, de Rosa Maria Martelo (Averno, Março de 2017), ilustração de Luís Manuel Gaspar

É extensa a colaboração de Luís Manuel Gaspar com várias editoras portuguesas, entre as quais se destaca a Averno. A ilustração que acompanha a capa de “Siringe” comprova uma mestria no desenho que poucos ousarão questionar. Neste caso, o resultado é especialmente inquietante devido à difícil relação de estabelecer entre a ilustração e o título do livro.

Melhor nota de rodapé/Melhores ilustrações

“Alucinar o Estrume”, de Júlio Henriques (Antígona, Janeiro de 2017)

Clique na imagem para ver melhor. Num ano em que tanto se falou de turismo, esta não é apenas uma mera nota de rodapé. Pode ser um tratado político, um slogan, pode ser um grito de revolta. Os desenhos de José Miguel Gervásio que acompanham “Alucinar o Estrume” fazem justiça aos textos de Júlio Henriques, observador conscientíssimo da nossa imparável decadência.

Melhor miolo

“Meninos Impossíveis”, de João Pedro Gomes (Douda Correria, Setembro de 2017)

Que dizer deste pequeno volume da colecção Puto Xarila? Os textos e os desenhos de João Pedro Gomes subvertem inteligentemente e com graça o estereótipo de menino bem comportado, tão difundido em inúmeras colecções de livrinhos para a infância. Os meninos aqui descritos têm algo especial que os torna especiais, fisionomicamente são um reflexo das manias interiores. O Fialho, por exemplo, é metade menino, metade alho. Já a Raquel, alberga passarinhos no cabelo. Clique na imagem para ver melhor.

Melhor impressão

“A cidade dos paleólogos e as viagens nocturnas do capitão Dodero”, de Miguel de Carvalho (Debout Sur L’Oeuf, Dezembro de 2017)

A Debout Sur L’Oeuf, ou simplesmente DSO, é outra das editoras que podia fazer parte das mencionadas no melhor corte superior. Miguel de Carvalho, livreiro antiquário, autor, surrealista, coloca um cuidado nos seus livros que não pode ser negligenciado. “A cidade dos paleólogos e as viagens nocturnas do capitão Dodero” é um romance-collage, dedicado a Max Ernst, iniciado em Abril de 2016 e terminado em Dezembro de 2017. Surgiu inicialmente em formato A4, adquirindo agora um formato mais convencional que não deixa de ser regalo para os olhos.

Melhor formato

“CONTEMSPOILERS”, de Luca Argel (Mia Soave, Agosto de 2017)

Um livro e um CD, interpretado como bónus editorial: “Livro de Reclamações”. Regressaremos a ele em breve. As edições da Mia Soave são sempre assim, juntam o melhor de dois mundos: o da palavra poética e o da música. Um objecto não repete o outro, complementam-se, dialogam, repercutem-se. E são quase sempre dois bens inestimáveis.

Melhor prefácio

“Lenine 2017”, de Slavoj Žižek (Elsinore, Setembro de 2017)

No ano do centenário da Revolução Russa, foi muita a bibliografia associada às comemorações. Mas raramente com o sentido devido da reflexão crítica. “Lenine 2017” é uma recolha de textos do próprio Lenine, introduzidos pelo filósofo Slavoj Žižek a partir da única questão à qual importa responder: como nos devemos relacionar hoje com o acontecimento a que chamamos Revolução de Outubro? As respostas não são fáceis nem unívocas, como Žižek bem o demonstra na sua ampla introdução.

Melhor texto de contracapa

“História Natural da Estupidez”, de Paul Tabori (BookBuilders, Março de 2017)

Palavras para quê? Clique na imagem para ler melhor.

Melhor título

“Mike Tyson para Principiantes”, de Rui Costa (Assírio & Alvim, Setembro de 2017)

Resisti à tentação de o guardar para livro do ano, embora, por razões afectivas, assim o seja para mim. Foi, sem dúvida alguma, o livro de poesia portuguesa que mais gostei de ler em 2017. Era um livro aguardado e surgiu na forma em que surgiu, com introdução do André Corrêa de Sá e prefácio da Margarida Vale de Gato. Os versos dizem o resto: «Descompreender o mundo, ou seja, seduzir / por dentro do imparável sono como a água / nasce». Sei que apareceu mencionado em algumas das tais listas especializadas, mas não me recordo de o ver objecto de qualquer recensão crítica – o que não só diz muito do país em que vivemos, como daquilo que a citação de Manuel de Freitas aponta no melhor corte inferior.

Melhor posfácio

“Antologia da Poesia Erótica Brasileira”, organização de Eliane Robert Moraes (Tinta-da-china, Novembro de 2017)

Com o sugestivo título “Da Lira Abdominal”, o posfácio de Eliane Robert Moraes para a antologia por si organizada é uma lição sobre bem ler poesia. Naquelas cerca de 36 páginas reside muito do valor desta antologia, onde o erótico, o pornográfico, o obsceno, adquirem o mais elevado grau do lirismo em língua portuguesa. Imperdível.

Melhor cólofon

“A Balada do Velho Marinheiro”, de S. T. Coleridge (Edições do Saguão, Setembro de 2017)

Clique na imagem para ler melhor. Eis um exemplo de como até o pormenor mais técnico num livro pode resultar num belo exercício criativo.

Dito isto, deixarei de fora categorias menos relevantes e altamente subjectivas. O melhor sumário, os melhores agradecimentos, a melhor epígrafe a melhor bibliografia… Menções honrosas para os livros de Simone Weil surgidos na Antígona, para a insistência no ensaio por parte de editoras tais como a Relógio D’Água ou a Cotovia, para o trabalho impressionante de uma pequena editora sediada em Lajes do Pico, a Companhia das Ilhas. Não é qualquer um que ousa dar oportunidade a obras de ficção como a “Nova arte de conceitos”, de Luís Miguel Rosa, e “O domínio material”, de João Paulo de Jesus, ambos obras de estreia, ou “Hotel do Norte”, de Rui Ângelo Araújo, romance do qual se fez uma primeira tiragem de 250 exemplares. Assim vai o nosso mundo.



Livro do ano

“Frida”, de Sébastien Perez e Benjamin Lacombe (Kalandraka, Setembro de 2017)


Com texto de Sébastien Perez e ilustração de Benjamin Lacombe, “Frida” é muito mais do que um livro. E, por ter sido publicado numa editora especializada em literatura infantil, devemos sublinhar que é muito muito mais do que um livro infantil. O texto de Sébastien Perez é um longo poema em prosa sobre a vida e a obra da pintora mexicana Frida Kahlo, ao passo que as ilustrações de Benjamin Lacombe são autênticos poemas visuais sobre exactamente os mesmos temas. Uma capa que parece ter sido bordada, os recortes no miolo, o diálogo caleidoscópico de página para página, fazem deste livro uma autêntica obra de arte. Só folheando, que dizendo não dá para acreditar.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #31


   Morreu France Gall. Quem foi France Gall? Os jornais apresentam-na como rainha do yéyé, estilo de música pop vindo a lume em França durante a década de 1960. Nascida em Paris, France Gall representou o Luxemburgo no Festival da Eurovisão em 1965. Cantou Poupée de cire, poupée de son, composição de Serge Gainsbourg. Maldito entre os malditos, Gainsbourg é hoje inquestionavelmente considerado um dos nomes maiores da pop francesa. A influência exercida sobre inúmeros músicos, de nacionalidades diversas e estilos distintos, garante-lhe imortalidade.
   Para perceber tamanha influência, bastará ouvir uma colectânea de homenagem como o voume 16 de Great Jewish Music. Estão lá Mike Patton, dos Faith No More, o percussionista brasileiro Cyro Baptista, o mestre da improvisação Fred Frith, o saxofonista norte-americano John Zorn, o ecléctico guitarrista Marc Ribot, a banda de rock alternativo Blonde Redhead. Os franceses Air, os britânicos Black Box Recorder ou, mais recentemente, os Warhaus do belga Maarten Devoldere, são herdeiros directos do exotismo sensual e do erotismo legados por Serge Gainsbourg. Mick Harvey, para dar mais um exemplo, parte integrante dos The Bad Seeds que acompanham Nick Cave, publicou em 1995 um excelente álbum intitulado Intoxicated Man, todo ele composto por canções de Gainsbourg vertidas para a língua inglesa.
   O génio musical de Serge Gainsbourg pode ser apreciado numa antologia como Comic Strip (1996), colecção de 20 canções, três versões inéditas (Comic Strip, Chatterton, Torrey Canyon), gravadas entre 1965 e 1968. Muitas vezes limitando-se a falar como quem canta, Gainsbourg faz-se acompanhar de vozes femininas com as quais proporcionou duetos inesquecíveis. Com Brigitte Bardot e Jane Birkin chegou a proporcionar mais que meros duetos, afrontando costumes, desbravando o mato grosso do conservadorismo, provocando, causando escândalo. Je T’Aime… Moi Non Plus, canção que em 1976 viria a marcar a estreia cinematográfica do compositor francês, foi proibida em diversos países. Inspirada numa citação de Salvador Dalí, foi inicialmente dedicada a Bardot. O conteúdo sexualmente explícito, com Birkin a simular um orgasmo no decorrer da melodia, foi denunciado pelo Vaticano. A nação portuguesa, sempre obediente e reverencial, acarretou as recomendações banindo o tema das rádios.
   Arranjos de cordas e de sopros para temas tais como Bonni and Clyde, Initials B.B., 69 Année Érotique (título que é todo um programa), também fizeram história. São a imagem de marca de uma música descomplexada, abraçando o ar dos tempos de uma revolução sexual que então marchava pelos quatro cantos do mundo. Les Sucettes também foi escrita para France Gall, que mais tarde viria a dizer que jamais a teria cantado se tivesse percebido o conteúdo da letra: a nobre prática da felação.


UM POEMA DE PHILIP LARKIN


TRISTES PASSOS

Tropeçando de volta à cama depois de uma mija
Afasto as grossas cortinas e surpreendo-me
Com as nuvens que correm, com a lua tão limpa.

Quatro da manhã: jardins de sombras oblíquas, jazendo
Sob um céu cavernoso e rasgado pelo vento.
Há nisto uma faceta ridícula,

Na lua a lançar-se através de nuvens fugazes
E soltas como fumo de canhão, para logo se apartar
(A luz pétrea aguçando, cá em baixo, os telhados)

Alta e soberba e separada — 
Pastilha de amor! Medalhão de arte!
Ó lobos da memória! Imensidões! É certo,

Há um leve arrepio, quando se olha para o alto.
A dureza e a claridade e o alcance,
A singularidade de tão vasto e fixo olhar

É lembrança da força e da dor
De ser jovem; do que não se pode ter de novo,
Mas que é vivido por outros, em pleno, nalgum lugar.


Philip Larkin (n. 9 de Agosto de 1922, Radford, Coventry, Reino Unido - m. 2 de Dezembro de 1985, Kingston upon Hull, Reino Unido), in Janelas Altas, trad. Rui Carvalho Homem, Cotovia, Março de 2004, p. 77.

domingo, 7 de janeiro de 2018

MULHERES

Por esta altura do ano, já todos os balanços foram realizados. Cada ser humano deste mundo encarrega-se de colocar o ano que passou num lugar distante, guardando factos, acontecimentos, situações, recalcando outras tantas ocorrências, procurando esquecer o que é do esquecimento e recordar o que é da memória. Uns listam filmes, cds, espectáculos, livros, outros listam palavras, homens, imagens, lugares, os feitos, as realizações, as pessoas, os eventos. Listam-se acidentes, tragédias e crimes, ficam de fora as vítimas. Tudo pode servir o nosso gosto de organizar ou o nosso pesadelo de lembrar. Os resumos das redes sociais são especialmente reveladores de uma ausência de lágrimas na história do mundo, a qual é cada vez mais feita de sorrisos e de poses artificiais. Mesmo quando aparecem, as lágrimas são de uma comoção de tal modo plástica que não deixa espaço à reflexão. E tudo fogo de artifício e alegria e bom viver. Assim filtrado, o mundo até parece aprazível, um sítio onde apetece estar, não aquele lugar distante que passou e é bom que tenha passado.
Em 2017, a editora Antígona anunciou que iria publicar uma colecção de obras de Eduardo Galeano. Foi uma das melhores notícias que tive. Galeano é um Mestre, em maiúscula. Saíram As Veias Abertas da América Latina, O Caçador de Histórias e Mulheres. Noutros tempos, chamaríamos a isto um acontecimento literário. Seria celebrado com gosto e inumeráveis razões. O uruguaio Galeano não é um escritor qualquer, estar acessível em língua portuguesa é um bem inestimável. Nasceu em Montevideu no dia 3 de Setembro de 1940, e na mesma cidade despediu-se desta vida a 13 de Abril de 2015. Falaram dele para Nobel da Literatura. Não aconteceu, como quase sempre sucede aos melhores. Ficção, história, jornalismo, filosofia política, misturam-se nos seus livros com naturalidade, elegância, clareza. As Veias Abertas da América Latina (1971) valeram-lhe prisão e exílio durante o golpe militar que tomou conta do Uruguai entre 1973 e 1985. Estava na lista dos esquadrões da morte, uma dessas que raramente se faz em época de ano novo.
Mulheres é um volume especial. Resulta da compilação de vários textos que foram surgindo em diversas obras do autor, tendo por tema central a mulher. São pequenas histórias, verbetes biográficos, um inventário de mulheres que por alguma razão se destacaram num mundo regido por homens. Algures entre a lenda e a verdade histórica, estes textos não são mero panegírico do feminino. São, antes, o retrato cru da realidade machista que desde sempre nos governa. Lá estão Safo e Joana d’Arc, Mata Hari e Eva Perón, mulheres que tiveram de disfarçar-se de homens para poderem fazer o que lhes era proibido enquanto mulheres, mulheres que obedeceram e se sujeitaram ou que recusaram e desobedeceram, pagando cada uma delas com as mesmas consequências: o ostracismo dos homens. Estão a escrava María de la Cruz, cubana anónima que agradece a Fidel ter podido aprender a ler e escrever aos 106 anos, porque antes da revolução «os patrões mandavam para o cepo os negros que queriam letras» (p. 43), Alexandra Kollontai, «a única mulher com cargo de ministro no governo de Lenine», graças a quem «a homossexualidade e o aborto deixaram de ser crime, o matrimónio deixou de ser uma condenação perpétua» (p. 95), Rosa Maria, levada de África para o Brasil num navio negreiro, violada por donos e patronos, comprada, vendida, a primeira negra alfabetizada do Brasil, que acabou por desaparecer em Lisboa nos cárceres da Santa Inquisição.
Num excerto destacado de Patas arriba. La escula del mundo al revés (1998), os números não desmentem a tradição do monopólio masculino: mulher é sinónimo de mentira, de luxúria, Deus manda que tais pecados sejam tratados com fogo. «Um dos mitos mais antigos e universais, comum a muitas culturas de muitas épocas e de diferentes lugares, é o mito da vagina dentata. O sexo da fêmea como boca cheia de dentes, insaciável boca de piranha que se alimenta de carne de machos» (p. 153). Assim teriam querido uma em cada três mulheres casadas que nos países do sul apanham pancada dos maridos, assim teriam querido cada uma das mulheres violadas nos EUA (uma a cada seis minutos) ou no México (uma a cada nove minutos). 18 mulheres assassinadas em Portugal, durante o ano que passou, e das quais não se fazem balanços. Não aparecerão em livros, embora livros como este também as representem. 1,6 homicídios por mês, a média da morte, embora todos os dias, afirmam os registos, 14 mulheres sejam vítimas de violência em Portugal. Outro número: 9 em cada 10 vítimas de violência doméstica não pedem ajuda ao sistema público de apoio à vítima.

Eis um balanço que está por fazer, o das mulheres que foram assassinadas em 2017 por seus maridos ou namorados, vítimas de um amor sem fundamento, algumas delas reiteradamente agredidas ao longo dos anos, executadas das mais diversas e cruéis formas depois de tortura prolongada. Foram mártires de uma causa que o Deus das igrejas não reconhece, tão ágil que sempre foi a relegar a mulher para o plano da subjugação. Presas ao matrimónio, escravas do prazer masculino, condenadas à castidade, as mulheres que nascem servas e servas têm de morrer. Que crimes terão cometido? De que males padecerão para que se justifiquem acórdãos de juízes a desculpabilizar os agressores? Mártires de uma praga cultural, civilizacional, essas mulheres que ousaram ser humanas morreram não para que as esqueçamos, mas para que nos lembremos diariamente da maldição há muito sobre nós lançada. Não poderão morrer mudas, para sempre silenciadas, como se tivesse sido por nada o que sofreram.

sábado, 6 de janeiro de 2018

INTRODUÇÃO AO MACHISMO


DESALMADAS

   Aristóteles sabia o que dizia:
   — A fêmea é como um macho disforme. Falta-lhe um elemento essencial: a alma.
   As artes plásticas eram reinos proibidos aos seres sem alma.
   No século XVI, havia em Bolonha quinhentos e vinte e quatro pintores e uma pintora.
   No século XVII, havia na Academia de Paris quatrocentos e trinta e cinco pintores e quinze pintoras, todas esposas ou filhas de pintores.
   No século XIX, Suzanne Valadon foi vendedeira de hortaliça, acrobata e modelo de Toulouse-Lautrec. Usava corpetes feitos de cenouras e partilhava o seu estúdio com uma cabra. Ninguém se surpreendeu que ela tivesse sido a primeira artista que se atreveu a pintar homens nus. Tinha de ser uma chanfrada.
   Erasmo de Roterdão sabia o que dizia:
   — Uma mulher é sempre mulher, o que é o mesmo que dizer: é louca.

Imagem ao alto: pormenor do atelier de Suzanne Valadon, que pode hoje ser visitado no Museu de Montmartre.

Le Déjeuner sur l'herbe, 1863

FORA DE SÍTIO

   Uma cena típica de domingo é o quadro que dá fama a Édouard Manet: dois homens e duas mulheres num piquenique na relva, nos arredores de Paris.
   Nada de estranho, salvo um pormenor. Eles estão vestidos, impecáveis cavalheiros, e elas estão completamente nuas. Eles conversam entre si, algum tema sério, coisa de homens, e elas têm menos importância do que as árvores da paisagem.
   A mulher que aparece em primeiro plano está a olhar para nós. Talvez nos pergunte, do alto do seu alheamento, onde estou, o que faço aqui.
   Elas estão a mais. E não é só no quadro.


NOITES DE HARÉM

   A escritora Fátima Mernissi viu, nos museus de Paris, as odaliscas turcas pintadas por Henri Matisse.
   Eram carne de Harém: voluptuosas, indolentes, obedientes.
   Fátima viu as datas dos quadros, comparou, comprovou: ao mesmo tempo que Matisse as pintava assim, nos anos vinte e trinta, as mulheres turcas tornavam-se cidadãs, entravam na universidade e no parlamento, conquistavam o divórcio e arrancavam o véu.
   O harém, prisão de mulheres, tinha sido proibido na Turquia, mas não na imaginação europeia. Os virtuosos cavalheiros, monogâmicos na vigília, mas polígamos no sonho, tinham entrada livre nesse exótico paraíso, onde as fêmeas, tontas e mudas, estavam encarregadas de dar prazer ao macho carcereiro. Qualquer medíocre burocrata fechava os olhos e via-se logo transformado num poderoso califa, acariciado por uma multidão de virgens desnudadas que, fazendo a dança do ventre, suplicavam a dádiva de uma noite junto do seu dono e senhor.
   Fátima tinha nascido e crescido num harém.


Eduardo Galeano, in Mulheres, tradução de José Colaço Barreiros, Antígona, Novembro de 2017, pp. 122, 213, 222. Sobre Fatema Mernissi: aqui.

INTERVALO DOLOROSO


Gazeta das Caldas, n.º 5207, sexta-feira, 5 de Janeiro de 2018
(também aqui)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

CONCEPCIÓN


   Passou a vida a lutar, com alma e vida, contra o inferno das prisões e pela dignidade das mulheres, presas em cárceres disfarçados de lares.
   Contra o hábito de absolver por generalização, ela chamava pão ao pão e vinho ao vinho:
   — Quando a culpa é de todos, não é de ninguém — dizia.
   Assim arranjou uns quantos inimigos.
   E embora a longevidade do seu prestígio fosse já indiscutível, no seu país ninguém acreditava. E não só no seu país: na sua época também não.
   Por volta de 1840, Concepción Arenal tinha frequentado o curso da Faculdade de Direito, disfarçada de homem, com o peito esmagado por uma cinta dupla.
   Por volta de 1850, continuava a disfarçar-se de homem para poder frequentar as tertúlias madrilenas, onde se debatiam temas impróprios a horas impróprias.
   E por volta de 1870, uma prestigiosa organização inglesa, a Sociedade Howard para a Reforma das Prisões, nomeou-a sua representante em Espanha. O documento que a credenciou foi expedido em nome de Sir Concepción Arenal.
   Quarenta anos depois, outra galega, Emilia Pardo Bazán, foi a primeira mulher catedrática numa universidade espanhola. Nenhum aluno se dignava ouvi-la. Dava aulas para ninguém.

Eduardo Galeano, in Mulheres, tradução de José Colaço Barreiros, Antígona, Novembro de 2017, pp. 50-51.

UM POEMA DE MEDBH MCGUCKIAN


FUMO

Deitaram fogo às silvas ao longo da estrada.
Interrogo-me sobre o que o domina, pode o vento
Segurar aquela fulva cobra nas colinas,
Longe das casas?

Parecem tão seguros do que conseguem fazer.
Eu sou incapaz inclusive
De me conter a mim própria, corro
Até que o fumo alaranjado se fixe na terra.


Medbh McGuckian (n. 12 de Agosto de 1950, Belfast, Irlanda do Norte), Contemporary Irish Poetry, edited by Paul Muldoon, Faber and Faber, 2006, p. 373. Versão de HMBF.

UM CONTO, UMA LIÇÃO

LIÇÃO II

MICRO-CONTO DESPACHADO CURRENTE CALAMO COM UMA
AVENA LACÓNICA, DEPURADA, SIMPLES, CLARA, TÃO LÍMPIDA
QUANTO LIMPA, ESCORREITA, ECONÓMICA E SEM NECESSIDADE
DE RECURSO A CIFRANTE, SEM GORDURAS NEM ANTEROLOGIAS
ESPICLONDRÍFICAS, NEM ESCOS ANFIGURIS, NEM ÉCFRASES
INTERMINÁVEIS, NEM AUXESES PEDANTES, NEM BRAQUILOGIAS
MARINISTAS, NEM CIRCUNLÓQUIOS GONGÓRICOS, NEM SEQUER
UMAS ALUSÕES EUFUÍSTAS A PLÍNIO, MAS REDUZIDO AOS
DETALHES ESSENCIALMENTE ESSENCIAIS, PORÉM INOBSTANTE ISSO
COMPLEXO E FERVILHANDO DE VASTAS NUANCES E GIGANTESCOS
SUBTEXTOS, COMPROVANDO DERRADEIRAMENTE QUE MENOS É
SEMPRE MUITÍSSIMO  MAIS; OU O AUTOR TENTA SER UM ESCRITOR
CONTEMPORÂNEO BEM-COMPORTADO E FAZ UM ESFORÇO GENUÍNO
PARA ESCREVER À MODA DA MODA LITERÁRIA DESTA QUADRA.


Não sou eu o primeiro que o disse, que já o poeta se quei-
xou que, quando queria ser breve, ficava escuro.
Francisco Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia


Cê gostou paca — ronronou Dalton.
       Lydia, looking up, nodded ambiguously.


Luís Miguel Rosa, in Nova arte de conceitos. Contos, Companhia das Ilhas, Julho de 2017, pp. 51-53.