A primeira vez que vi Benjamin Clementine (n. 1988) ao
vivo foi no Coliseu dos Recreios. Apresentou-se a público sentado ao piano e
raramente se levantou. Trazia por companhia um baterista. Piano e percussão
chegaram para encher a sala, abarrotada e rendida às canções de At Least For
Now (2014). A imprensa referira-se ao álbum e às actuações do jovem compositor
enfatizando dados biográficos que não terão sido alheios ao público, gerando
por detrás de cada palavra uma intensidade emocional de espanto e comoção.
I Tell a Fly (2017), o segundo álbum, veio complicar as
contas. As baladas despojadas, românticas, deram lugar a composições complexas,
a estruturas dramáticas que aproximaram da ópera música e poema.
Na Praça de Touros do Campo Pequeno, Clementine
apresentou-se recentemente acompanhado de bateria e baixo, um guitarrista revezando-se
nas programações, uma secção rítmica chamada a espaços. No palco, constavam diversos
manequins: crianças, homens, mulheres grávidas. Quando o xamã ficava a solo, os
restantes músicos passeavam-se como se fossem transeuntes. Havia toda uma
encenação que nos transportava para diversas camadas das canções de Benjamin
Clementine. Comunicativo, interventivo, este transformou-se num magnífico
performer. A meio de um tema como Condolence, salta do piano para dirigir o
público no papel de maestro. Quer ouvir-nos cantar versos que percebe serem
determinantes em qualquer parca existência humana: I’m sending my condolence to
fear / I’m sending my condolence to insecurities. Ele é o maestro, nós os
meninos de coro. Aceitamos o lugar como uma evidência.
By The Ports of Europe, do segundo álbum, dá lugar a
momentos delirantes. À capela, Benjamin junta-se ao baterista, ao guitarrista,
ao baixista e imiscuem-se no meio do público. Dão uma volta à Praça cantando
repetidamente Porto Bello! / Porto Bello!, pseudo-refrão de uma canção com
refugiados em pano de fundo. Tudo isto faz parte do espectáculo, mas é mais do
que mero espectáculo. É um momento de comunhão, de catarse, de expurgação,
dirigido por um xamã que nos caiu do céu como anjo negro.
Nascido em Londres, descendente de ganeses, este jovem
que, diz-se, há cinco anos andava a viver na rua, enche agora salas rendidas a
uma impressionante plasticidade vocal, a voz de um poeta que em canções como London,
Nemesis, Adios, God Save the Jungle, Jupiter, Phantom of Aleppovile, percorre
cenários, penetra almas, atravessa tempos assimilando formas, géneros, figuras.
Quando o ouvimos é como se nos tivesse sido oferecida uma rara oportunidade de
sair da caverna, de presenciar a luz por detrás dos objectos. Assistir à
verdade para lá das sombras, numa paradoxal relação que a arte, toda ela
encenação, logra quando se expõe enquanto oferenda. Benjamin Clementine oferece-se-nos
em cada uma das suas interpretações, temos de lhe ficar agradecidos pelo que já
nos proporcionou.



















