quarta-feira, 4 de abril de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #39



   A primeira vez que vi Benjamin Clementine (n. 1988) ao vivo foi no Coliseu dos Recreios. Apresentou-se a público sentado ao piano e raramente se levantou. Trazia por companhia um baterista. Piano e percussão chegaram para encher a sala, abarrotada e rendida às canções de At Least For Now (2014). A imprensa referira-se ao álbum e às actuações do jovem compositor enfatizando dados biográficos que não terão sido alheios ao público, gerando por detrás de cada palavra uma intensidade emocional de espanto e comoção.
   I Tell a Fly (2017), o segundo álbum, veio complicar as contas. As baladas despojadas, românticas, deram lugar a composições complexas, a estruturas dramáticas que aproximaram da ópera música e poema.
   Na Praça de Touros do Campo Pequeno, Clementine apresentou-se recentemente acompanhado de bateria e baixo, um guitarrista revezando-se nas programações, uma secção rítmica chamada a espaços. No palco, constavam diversos manequins: crianças, homens, mulheres grávidas. Quando o xamã ficava a solo, os restantes músicos passeavam-se como se fossem transeuntes. Havia toda uma encenação que nos transportava para diversas camadas das canções de Benjamin Clementine. Comunicativo, interventivo, este transformou-se num magnífico performer. A meio de um tema como Condolence, salta do piano para dirigir o público no papel de maestro. Quer ouvir-nos cantar versos que percebe serem determinantes em qualquer parca existência humana: I’m sending my condolence to fear / I’m sending my condolence to insecurities. Ele é o maestro, nós os meninos de coro. Aceitamos o lugar como uma evidência.
   By The Ports of Europe, do segundo álbum, dá lugar a momentos delirantes. À capela, Benjamin junta-se ao baterista, ao guitarrista, ao baixista e imiscuem-se no meio do público. Dão uma volta à Praça cantando repetidamente Porto Bello! / Porto Bello!, pseudo-refrão de uma canção com refugiados em pano de fundo. Tudo isto faz parte do espectáculo, mas é mais do que mero espectáculo. É um momento de comunhão, de catarse, de expurgação, dirigido por um xamã que nos caiu do céu como anjo negro.
   Nascido em Londres, descendente de ganeses, este jovem que, diz-se, há cinco anos andava a viver na rua, enche agora salas rendidas a uma impressionante plasticidade vocal, a voz de um poeta que em canções como London, Nemesis, Adios, God Save the Jungle, Jupiter, Phantom of Aleppovile, percorre cenários, penetra almas, atravessa tempos assimilando formas, géneros, figuras. Quando o ouvimos é como se nos tivesse sido oferecida uma rara oportunidade de sair da caverna, de presenciar a luz por detrás dos objectos. Assistir à verdade para lá das sombras, numa paradoxal relação que a arte, toda ela encenação, logra quando se expõe enquanto oferenda. Benjamin Clementine oferece-se-nos em cada uma das suas interpretações, temos de lhe ficar agradecidos pelo que já nos proporcionou.


terça-feira, 3 de abril de 2018

UMA PERGUNTA


Quando é que um Governo terá a coragem de acabar com os contratos de associação?


Pergunta o Eduardo Pitta, aqui

Resposta possível: quando no Governo não estiverem partidos que são máquinas de distribuir empregos.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

UM JOVEM RAPAZ



Nasceu em 1994. Diz-se autodidacta, apesar de lhe correr música no sangue por via materna. Multi-instrumentista, vem atraindo a atenção de meio mundo no universo musical. É ouvi-lo.

SEMENTES


É claro que me lembro. Havia dois atalhos
pelo meio do pinhal, direcções espantosamente
precisas, animais que não voltei a ver.

Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,
havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio
para tratar certas lesões, uma peça vital
do equipamento. Havia girassóis à volta da casa
e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma
de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro
que era preciso saltar, a manhã gloriosa
da escalada, a ciência das grandes migrações.

Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.
Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.



Vítor Nogueira (n. 1966), in Cantochão (2017). Publicou o primeiro livro de poesia, A Volta ao Mundo em 50 Poemas, em 1999. Praticante de uma linguagem sóbria, sem resquícios de exaltação emocional, opta amiúde por um registo narrativo focado na derrocada da província e do que poderia sobreviver de certa vivência rural em contextos urbanos. Fazendo uso de alguma ironia, tende em diversos momentos para um olhar nostálgico desconfortável, ou seja, inquieto perante o papel da memória na preservação do passado. «A poesia de Vítor Nogueira é do lado da hiponímia, isto é, faz-se porção a porção, já que nenhuma coisa visível se vê toda juntamente. Além de que o que não se vê, residual, não cessa de se perseguir, por isso não se destapa a cortina» (Maria Conceição Caleiro, Público, 28 de Dezembro de 2011).

CANTOCHÃO


Apesar de ter começado a publicar em 1999, o nome de Vítor Nogueira (n. 1966) apenas começou a tornar-se familiar junto dos leitores de poesia com o livro Senhor Gouveia (Averno, 2006). Nítidos e narrativos, os poemas desse livro resgatavam uma certa ruralidade para a poesia portuguesa. A ironia era também marca visível, particularmente no modo como caracterizavam a província e seus tiques na figura da personagem que emprestou título ao livro. Colectâneas posteriores ampliaram o panorama geográfico desta poesia — natural de Vila Real, o autor tem abordado amiúde a cidade de Lisboa —, a qual se manteve fiel, porém, a um dizer sóbrio, intimista, relacionado com a experiência pessoal de lugares e de situações. Independentemente da familiaridade dos cenários escolhidos, julgo ser precavido guardar alguma distância quanto a chavões como o de “poesia da experiência” relativamente aos poemas de Vítor Nogueira. Mais estimulante será considerá-los a partir de uma perspectiva que se concentre na natureza do sujeito poético e na sua relação com a memória. Os dois conjuntos de Cantochão (Averno, Dezembro de 2017) colocam-nos esse desafio, até pelo que de indiciador de uma certa dissimulação possa estar incluído nos títulos respectivos: Primeira Voz e Segunda Voz.
Os poemas dirigem-se quase invariavelmente a uma segunda pessoa, não sendo certo quem ela possa ser. No poema Vozes, da primeira parte do segundo conjunto, essa segunda pessoa é o próprio sujeito poético: «Pois bem, / sujeito poético, estás de novo dentro / de um maldito livro, a falar com vozes / que não distingues» (p. 65). Quem será este sujeito? De onde virão estas vozes? Sentimo-nos tentados a responder referindo «os vários eus» invocados no poema Cantabile ou «uma inteira multidão num corpo só» do poema Tutti, ambos do primeiro conjunto. Estes “eus” não são exteriores ao sujeito, eles vivem dentro do sujeito, perduram na memória do sujeito. Por vezes, são como fantasmas. No fundo, são a memória de um eu que já não é, são a sombra de um ser em transformação, são a consciência interna dessa transformação, a consciência de haver sido qualquer coisa que se perdeu, que se esfumou com o tempo: «Fragmentos das nossas memórias / como luzes dirigidas ao futuro» (p. 11), lê-se no primeiro poema.
O passado, a infância, a juventude, ou melhor, as memórias do passado, da infância, da juventude, surgem estimuladas pelo regresso a um lugar, uma rua, uma casa que fica nessa rua, o sótão de uma casa que fica nessa rua onde outrora viveu um sujeito real, agora  sujeito poético: «Mas o tempo transformara / a rua da tua infância. Eram já outras as vozes / que no ar se desfaziam» (p. 21). A complexidade desta relação pode ser associada aos ritmos e movimentos que oferecem título aos poemas do primeiro conjunto, poemas no interior dos quais encontramos imagens repetidas como ecos provenientes de uma época ausente. Repletos de interrogações, estes poemas procuram responder ao dilema que toda a espécie de nostalgia coloca: valerá a pena olhar para trás? Não se trata de tentar reconstituir o que foi extinto, não se trata sequer de revisitar um lugar que se perdeu. Pelo menos não tanto quanto se tratará de destacar a natureza enclausurante da memória, tal como sugere a epígrafe roubada a Bernardo Soares: «Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?»
Não há como fugir da memória, ela persegue-nos. Ela persegue um sujeito poético que, em aparência, é uma espécie de fuga (novamente a conotação musical) do sujeito ele mesmo: «Quem és tu e onde estiveste a vida toda?» (p. 45) Jogo de identidades, camuflagem, justaposição de vozes, «a poesia é uma cadência, / há muito que nasceu entrelaçada com a música» (p. 80). E o que podemos dizer que é a música senão o eco da respiração no interior do tempo? Remexendo o passado, Vítor Nogueira penetra o mistério da fantasmagoria identitária em poemas muito mais reflexivos do que tem sido costume na sua poesia: «Quem és tu, por trás da sombra, nesta foto / rejeitada que chegou à nossa mão? / Como eram os teus sonhos? Quem te amou? / Quem te chora desde o dia em que morreste?» (p. 91) Este tu a quem se dirige é um eu anulado pela passagem do tempo, extinto, propriedade de uma memória onde pereceu sem qualquer hipótese de ressuscitar, é poalha, sombra, fantasma, o eco de uma palavra escurecida, pronunciada como que por segundas vozes em tom directo, isto é, sem refrão.

domingo, 1 de abril de 2018

BOA PÁSCOA


Um pormenor das imagens que nos chegam de Gaza é a ausência de perspectiva do lado israelita. Vimos sempre árabes furiosos, com paus e pedras, mulheres e crianças muçulmanas a chorar, vimos bandeiras do Hamas. Nunca vimos militares israelitas a disparar, jamais o rosto furioso, odioso, de um militar israelita. Será que o não têm? Perante isto, é-me indiferente que a ONU se reúna de urgência para discutir Gaza. Preferia que se reunissem em Gaza para discutirem o que andam a fazer no mundo. 

MUNDO ÀS AVESSAS


Razões várias afastaram-me da rede por uns dias. Logo agora, que tanta e tão estimulante matéria andava pelo ar a pedir comentário.

1. O meu Sporting disse definitivamente adeus ao campeonato. Ainda não será desta. Não me preocupa, é só mais um campeonato perdido. O que me preocupa verdadeiramente é a previsibilidade do resultado antes do jogo em Braga. Alguém acreditava que o Sporting ia ganhar aquele jogo?

2. Feliciano Barreiras Duarte deixou de ser assunto. Já ninguém parece ter paciência para estes cagões, saloios que se passeiam de peito cheio pela aldeia e apenas são esfuracados pelo bico da verdade quando se aproximam da capital. Continuem pela aldeia com seus pergaminhos de pechisbeque, ninguém os incomodará.

3. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza… Quantas mais vezes teremos de ouvir isto?

4. Quando cheguei a Lisboa, em 1992, a noite já não era o que foi nos 80. O Frágil lá estava, entrei algumas vezes, mas saí quase sempre sem perceber a piada. Preferia as Primas, ali ao lado, onde a troco de uma moeda de 50$(?) podia ouvir China Girl, comer tremoços, beber minis. E ler Pascal.

5. Temer diz-se perseguido por forças obscuras na justiça brasileira. Tenham medo, tenham muito medo.

6. Foi aberta a guerra de embaixadores com a Rússia. A Cambridge Analytica e o Facebook resolverão o problema.

7. A estação espacial Tiangong-1 vem por aí abaixo, em queda livre, prevendo-se que entre na atmosfera este Domingo. Algures, alguém verá Deus. Outros dirão que devia cair em cima de quem a pôs lá no alto. Os meus desejos são inconfessáveis.

8. Depois das acusações de plágio que envolveram Tony Carreira, tem sido um ver se te avias. No Festival da Canção era para todos os gostos. Eis que a moda chega ao cinema. João Botelho, esse mesmo, o de “Os Maias” e “Filme do Desassossego”, foi agora acusado de plagiar um romance de Deana Barroqueiro. Não fugiu à questão, dizendo-se altamente inspirado pelo livro em causa, numa carta que, pelos excertos revelados, mais parece um acto de contrição esfarrapado de um aluno do 5.º ano. Ao que parece, no filme “Peregrinação”, que não vi, surgem personagens que são pura invenção da autora de “O Corsário dos Sete Mares”, que não li. Portanto, daqui talvez se possa concluir que o filme vendido como adaptação da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é, afinal, uma adaptação não autorizada de “O Corsário dos Sete Mares”. Anda tudo doido.

9. O Tejo tem vindo a ser sujeito a consecutivos crimes ambientais que passam impunes. O título da notícia é exemplificativo do respeito pela Natureza que as leis deste país consagram: Tribunal substituiu multa aplicada à Celtejo por repreensão escrita. Tal como se fazia na escola primária. Para a puta que os pariu.

quarta-feira, 28 de março de 2018

DIA MUNDIAL DO TEATRO



Não sei se há razões para celebrar este Dia Mundial do Teatro. Nem se haverá razões para celebrar um dia nacional do teatro. (…)O facto de não haver razões globais nem razões nacionais — o estado do mundo é mau, o estado do nosso teatro miserável — tornam a celebração mais significativa como luta: festa e luta coincidem. / Haverá razões para celebrar o teatro, a sua vida? Sim, na perspectiva de sempre: vou ao teatro ver a vida para melhor a entender e poder observar-me a mim e aos outros, em cena, movendo-me entre as “muitas maneiras de enganos” de que se compõe. O teatro é um antídoto esclarecido para a vida imposta pelo mercado, uma escola acerca do todo e do tudo, para todos. E de nível superior universal, sendo teatro. Isso pressupõe que a democracia seja avançada como projecto de governação, culta, que nela o debate acerca dos seus destinos e os modos da sua governação sejam qualificados, não o caos entrópico em que submergimos — podíamos e podemos ajudar a isso. Nem com um periscópio com uma lupa Hubble, iluminada, racional, nos safamos pelo modo como o mundo e o país caminham, a quantidade de lixo informativo, publicitário, “cultural”, a negatividade dos acontecimentos reais, sufoca todos e preenche os canais de comunicação. / (…)Isso implica conceber uma democracia cultural. O que não temos. O teatro, sendo um serviço público geral e universal, merecia hoje estar a celebrar o seu dia com outra liberdade de perspectivas e existência real. Para isso teria de estar entrosado com uma democracia culta e adulta como se diz aí num ecrã. Mas não, somos de facto, à excepção das grandes estruturas — deveriam existir muitas mais, médias e grandes, outras, cobrindo o território e as suas demografias assimétricas —, favelizados, marginalizados e a nossa arte é esmagada nas suas potencialidades. O teatro é grego, o espectáculo é romano.
Fernando Mora Ramos, aqui.

Nota: na imagem ao alto, Miguel Rovisco. “Foi premiado em 1987 como o melhor dramaturgo português. Recusou o dinheiro, protestou de corda ao pescoço e suicidou-se aos 27 anos.” A história toda: aqui.

terça-feira, 27 de março de 2018

AUSENTES-PRESENTES


Apercebo-me da composição numa peça de Carlos Alberto Machado (n. 1954) intitulada 5 Cervejas Para Virgílio (& etc, Junho de 2009), diálogo a 5 tempos com a obra e a pessoa de Virgílio Martinho (n. 1928 – m. 1994). Apresentado como pertencente «ao agrupamento surrealista-abjeccionista», Martinho surge na História da Literatura Portuguesa enquanto autor de «peças de alegoria concentracionária». Na obra de Machado ele mesmo pode ser entendido como um ausente-presente, condição dúplice para quem mantenha inscrita na memória certa forma de estar e ser. A voz do narrador alterna com a sua própria voz (imaginária? reproduzida?), enquanto outras figuras desfilam no diálogo como peças de um puzzle narrativo onde várias identidades se justapõem. Talvez não seja exacto considerar dúplice a condição do ausente-presente. A agregação dos opostos apaga essa duplicidade, torna uno o que era duplo. O estar presente estando ausente será antes a condição misteriosa da voz que ecoa pela memória, nos textos, num espaço/tempo próprio e singular. Talvez por isso Carlos Alberto Machado dê o nome de tempos ao que poderíamos dar o nome de actos. Num primeiro tempo, as memórias de infância, o pai, a mãe, a experiência de uma paixão exorcismada e a sentença marcante do escritor: «E quando as palavras enfraquecerem dentro de nós haveremos de morrer de morte definitiva» (p. 11). Será errado antever aqui uma declarada confiança na força vitalizante das palavras? A palavra é o corpo do ausente-presente, a palavra feita imagem, resquício de voz no imo da memória, pensamento que resiste ao estômago do tempo, o esquecimento. Sofia, a prostituta, pela ironia do nome poderá também ser entendida como uma alegoria do saber:
SOFIA Olhas-me como se eu fosse morrer!
VIRGÍLIO E não vais?
Esta consciência irredimível da morte é o campo de batalha de todo pensamento, terreno a partir do qual surdem e no qual tombam crenças, máximas, teses, teorias, teoremas. Não é assim desde sempre? Já noutra peça do autor o problema de colocava. Em Restos. Interiores. (Edição do autor, Dezembro de 2002) três mulheres enlutadas recordam os amantes desaparecidos. «Agora é preciso esquecer, esquecer-te» (p. 8), diz a primeira. «Vou cortar os meus cabelos. Uma parte deles irá com o teu corpo em busca da eternidade» (p. 12), diz a segunda. «Dar um nome às coisas é criá-las. Preciso de dar-lhes um nome para sentir que aconteceu alguma coisa. Uma verdade» (p. 14), diz a terceira. Debatendo-se com a memória, desesperando de eternidade, protegendo o ser num nome, o luto destas mulheres presentifica a ausência, recupera para um estado porventura fantasmagórico, mas vivo, o ser daqueles a quem a morte provocou separação sem determinar ausência. Os mortos permanecem no interior dos vivos. Alguém se ausenta porque morre ou se distancia, de certo modo nós próprios nos ausentamos de nós com o passar dos anos. O que é a memória da infância perdida senão uma prova dessa ausência, desse processo de ausentar-se de si mesmo? Mas a morte, a distância, o passado, não delimitam o corpo do ser. Os presos de 5 Cervejas Para o Virgílio indicam outra forma de ausência: «Da rua vem silêncio. Como se a cidade dormisse ou se tivesse ausentado» (p. 29). Há uma diferença entre a aparência (como se) e a realidade, uma diferença ténue para quem, como os presos, esteja separado pela força dessa cidade que se imagina na clausura de uma cela. Caso apreciássemos metafísica, podíamos estabelecer aqui um paralelo entre a cela e o corpo. O corpo é a cela que nos separa do outro, que torna o outro ausente. Mas a palavra recoloca-nos em presença de, a palavra tem esse poder de tornar ausente-presente o que, de outro modo, seria tão-somente perda. Como não apreciamos metafísica, sentimo-nos mais tentados a estabelecer uma relação entre palavra e corpo. O próprio corpo é uma palavra que, para todos os efeitos, se forma no interior do corpo. É também esta a condição do militante resistente, escondido, exilado, isolado, como a palavra corpo no interior do corpo.
No prefácio a Aquitanta (Edição do autor, Fevereiro de 2003), Manuel de Freitas (n. 1972) sublinhou com pertinência esta relação: «Aquitanta, breve “monólogo teatral” de Carlos Alberto Machado, confronta-nos implacavelmente com esse estranho limite em que corpo(s) e palavra(s) se indistinguem no luto provisório de um palco» (p. 5). Nesse drama-poema (poema dramático?) a mulher que fala/pensa/recorda mantém uma relação de proximidade com o seu interlocutor ausente-presente. E diz: «O esquecimento é a verdadeira morte» (p. 10). Tal como nas outras peças agora convocadas, esta ideia da memória como elemento que dá vida pode ser pensada por oposição ao esquecimento como princípio da «morte definitiva». A determinada altura, a mulher que fala em Aquitanta recorda a mãe: «Só sentias a sua presença invisível. Mesmo distante esteve sempre entre nós» (p. 15). Novamente a ausência-presença é uma marca que fortalece nas personagens situações de desamparo e de solidão. Porque, apesar de serem vivas as palavras incorporadas na memória, ou, talvez, a memória de palavras, faltam-lhes membros. O corpo imaterial de que são feitas está incompleto. O toque não é corpo a corpo, o cheiro deixa de ser um estímulo para passar a ser um esforço da imaginação, a matéria como que se dissolve numa substância que o tempo se encarregará de deformar. «A verdade? Talvez os mortos a saibam…», diz Virgílio. Ao mesmo tempo que insiste numa condição última que, afinal, é a daquele que escreve: «inventar a porra da vida». Que outra coisa será o teatro senão tornar ausente-presente a vida num palco onde possa esta ser representada?  

segunda-feira, 26 de março de 2018

“PORTUGAL É DOS PORTUGUESES”


Não pense que sou xenófobo ou racista, não há nas minhas palavras um mínimo sequer de nacionalismo. Puta que pariu essa gente. Só que Portugal tornou-se insuportável para um português. Há dez anos que não me mexem no salário. De ano para ano, às vezes de mês para mês, tudo aumenta. Menos o salário. Um tipo enche o depósito do carro e fica a tremer. As rendas das casas atiram-nos para a rua ou para a periferia ou para a periferia da periferia, com os custos que isso acarreta em transportes. Expulsam-nos do centro das nossas cidades. Isto faz sentido? Você quer ir com a família a um restaurante e fica com dores no estômago só de pensar no estrago que vai fazer. Não sei se hipotecámos o país ou se o vendemos, sei que isto já não é nosso. Não é para nós. Percebo o turismo, compreendo o investimento nessa indústria dos mares, flutuante e provisória, mas nada disso justifica que estejamos a dar cabo da vida dos nossos, roubando-lhes o que é deles, tudo em nome de uns gananciosos que acham que daqui a uns anos os estrangeiros vão adorar ver-se a si próprios nas esplanadas. Qual é o português que pode sentar-se hoje numa esplanada num qualquer centro histórico a beber um café e uma água? Só se for maluco ou ladrão. Você não acha isto um pesadelo? Qualquer dia, vai ver, começam a cobrar-nos entrada nas praças públicas. Nas praças públicas…

UM POEMA DE CARLOS ALBERTO MACHADO

[tomei a decisão de não morrer]

Tomei a decisão de não morrer
pelo menos até ao final do ano
não quero aumentar as dívidas
que deixarei aos meus herdeiros
por desembolsarem mais dinheiro
com o meu funeral tudo incluído
causado pelo imprevisto aumento
imposto pela concorrência americana
muito ao contrário do expectável
portanto decidi não morrer por agora
e esperar por outras consequências
do funcionamento invisível do mercado
que morte em conta agora só no alto mar
coisa que por aqui no meu bairro não há.


Carlos Alberto Machado (n. 1954), in Uma Viagem Românica a Moscovo, 3.ª edição revista com uma sequência inédita, Setembro de 2017, p. 41.

domingo, 25 de março de 2018

DIZ-ME QUEM COMES, DIR-TE-EI QUEM ÉS


A ver se encontro hoje para almoço um peixinho muito cool e groovy e cheio de swing. 

ÁGORA, A RUA, AGRURA, A GRUA




   Antes de me dirigir à Malaposta para mais uma leitura integral de A Grua, passei pelo Jardim da Parada, em Campo de Ourique, onde decorre uma Feira do Livro de Poesia. Trouxe livros da Averno, da Douda Correria, da não (edições), da Livraria Snob, da Pianola, da Mariposa Azual. Hoje, pelas 17h, a Margarida Vale de Gato estará por perto a apresentar Mulher ao Mar e Grinalda (Mariposa Azual, Março de 2018). É na Casa Fernando Pessoa. 
   Lido A Grua, depois de meia dúzia de palavras trocadas com amigos, durante o jantar olhava para as minhas filhas e pensava no futuro. Será que quando elas tiverem 20, 30, 40 anos ainda haverá malucos a publicar poesia? São indispensáveis grandes doses de obstinação, resistência, perseverança, “amadorismo”, para publicar poesia onde há tanto quem a escreva e tão poucos que a leiam. Os eventos sucedem-se, as comemorações, os lançamentos fazem-se, mas os livros circulam ao ritmo do caracol. A indiferença e o descaso genéricos só não derrotam definitivamente os poemas por haver neste mundo excepções com crostas impermeáveis ao ferrão venenoso da regra. 
   Mas depois lembrei-me desta história que aconteceu com Thoreau e das palavras de Gualter Cunha na introdução a A Terra Devastada, de T. S. Eliot: «Prufrock and Other Observations, em 1917, numa edição de quinhentos exemplares que demoraria cinco anos a esgotar». Foi há um século. 
   Portanto, sobrando ainda umas dezenas de exemplares de A Grua não me resta senão persistir no convite a um e-mail para voltadmar@gmail.com. É simples, basta dizerem ao que vão e o maluco do editor encarregar-se-á de dar resposta às vossas solicitações. Seria interessante ver o livro esgotado em menos de cinco anos. Seria mesmo muito deveras assaz interessante.

sábado, 24 de março de 2018

MORRER DEVAGAR


No ano de 1979, José Martins Garcia (n. 1941 – m. 2002) já havia publicado o ensaio Linguagem e Criação (Assírio & Alvim, 1973), com que se estreou, o livro de poesia Feldegato Cantabile (Paisagem, 1973), as narrativas de Katafaraum É Uma Nação (Assírio & Alvim, 1974). Para trás tinha também ficado a colaboração com Fernando Ribeiro de Mello nas Edições Afrodite, onde publicou os romances Lugar de Massacre (1975) e A Fome (1977), assim como os contos de Alecrim, Alecrim aos Molhos (1974) e Revolucionários e Querubins (1977). Morrer Devagar (Arcáfia, 1979) surgiu numa fase de plena maturidade criativa, no ano em que partiu para os EUA na categoria de professor visitante da Brown University (Providence). Um visiting scholarship, como agora se diz até de quem nunca o foi.
Os contos de Morrer Devagar (Companhia das Ilhas, Dezembro de 2017) abarcam um largo período, facilmente identificável na biografia do autor: raízes açorianas, experiência militar na Guiné, emigração. Talvez seja esta a marca mais forte destes contos, por neles sobressair a condição de exilado que terá tanto que ver com certa condição de isolamento geográfico e pessoal como com a relação de desconforto mantida com o seu tempo no seu mundo. A maior parte destes 22 contos (o conto intitulado Justiça, da página 139, escapou ao índice) remete para a paisagem insular açoriana. Nascido no Pico, Martins Garcia jamais prescindiu desse legado biográfico que tanta matéria vivida ofereceu à matéria literária. Mesmo quando resvala para um surrealismo aparentemente sem território (leia-se O Vómito), ele deixa vir à tona as componentes de uma mitologia localizável na tradição de um Portugal rural entregue a si mesmo, isto é, aos costumes, às lendas, aos hábitos, às crenças, aos estereótipos, aos preconceitos que dão forma e deformam a vida comunitária.
No centro dessa amálgama social, o poder determinante da Igreja e o poder subserviente do Estado. Subserviente, claro está, à Igreja: «Deus fizera o homem à sua imagem e semelhança, mas isso fora no começo do mundo. Com o andar dos tempos, a degradação acentuara-se tanto que, da primitiva semelhança, nada restava ao macaco moderno» (p. 178). É, portanto, um Portugal atrasado e miserável aquele que se nos apresenta, retrógrado nos valores e, por natural consequência, nos hábitos. O peso da tradição sufoca a liberdade, os doutores manifestam um saudosismo que a ralé desconhece, por nela não haver saudades senão de um futuro capaz de ser sonhado quando o destino não o barra fatalmente: «Éramos cruéis e pobres, duma pobreza cruel, e mentirosos» (p. 27). Nas memórias da infância confundem-se o abjecto e o picaresco, «homens paralisados de medo» e outros desafiadores da ordem, conflitos violentos, cenas de pancadaria, mexericos, maledicência, o diabo à solta em machos assaltados pelos feitiços de fêmeas infernizadas, o sexo, a bebedeira, a tirania da opinião pública «nesse mundo pouco alfabetizado», o medievalismo das relações institucionais e a sua subsequente projecção na vida das famílias. E, sobretudo, uma enorme e crescente vontade de ir dali para fora, emigrar.
Mas o que mais impressiona nestes relatos é a voluptuosidade da linguagem, o equilíbrio que estabelece entre pensamento e emoção, a riqueza das metáforas, o entusiasmo na descrição: «As pernas das mulheres, vistas à luz submarina, desenhavam deformações carnais, carnívoras, carnifluentes e fluorpenetradas, assim rendilhadas de cor e som, como só a linguagem violada se exprimirrompe na deflagrejaculação da mordaça» (p. 104). O exemplo, respigado do conto A Piscina, é talvez o mais radical possível de uma escrita onde as palavras fluem livremente como uma espécie de anomalia, pois, afinal, reflectem justamente uma enorme vontade de dizer obstruída pela força de calar. Disto resulta uma moral, talvez a única que possamos admitir como certa em toda a obra de José Martins Garcia: «Meço o mundo em função dum só desejo: o de que não me perturbem o sonambulismo» (p. 167).

HOJE



CAFÉ-TEATRO

19h00 – Leitura de “12 histórias para Inês”, Não Edições, com texto de Carlos Alberto Machado e ilustrações de João Concha (com projecção das ilustrações) vocacionado para público infantil;

19h20 – O autor Luís Ochoa vai falar da obra “Inversões”, ed. Omega – uma obra poética, focando as várias temáticas desenvolvidas ao longo da obra. Seguidamente abordará a estrutura tripartida da obra, justificando a simbologia dessa divisão, bem como se irá reportar à justificação do título da mesma;

19h40 – Leitura pelo autor de “Nova Asmática Portuguesa” de Nuno Moura, ed. Mariposa Azual;

20h00 – Leitura pelo autor de “A Grua” de Henrique Manuel Bento Fialho, ed. Volta d’ mar;

20h20 – Leitura encenada pelo colectivo “A Morte da Artista” (Carina Bernardo, Firmino Bernardo, João Eduardo Ferreira, Manuel Halpern, Paulo Romão Brás).

sexta-feira, 23 de março de 2018

UM CONTO DE JOSÉ MARTINS GARCIA

O VÓMITO

   Da primeira vez, vomitou um rolo de cabelo, tão negro e tão enrodilhado que de uma ponta à outra do povoado se conheceram detestáveis efeitos. Nas casas cimeiras, lá para as bandas onde Mariela embruxava os homens, foram vistos cabelos rodopiando ao pôrdosol, por cima das chaminés. Nas casas da parte baixa, onde Francisco definhava a olhos vistos, alguns pêlos lograram introduzir-se no ânus do sacristão. Julgaram os parentes que, depois de tão fantásticas demonstrações, o moço Francisco se curaria daquela infernal paixão. Erradamente. Magro de amor e revolta, Francisco tornou a rondar Mariela, a qual, cada vez mais saudável, mais risonha, desafiava os vivos e os mortos com a oscilação das tetas e das ancas.
   Da segunda vez, vomitou um animal de feio cariz, uma pequena rã sem olhos nem patas. O coaxar dessa imundície perturbou quem tivesse ouvidos para ouvir. Era inverno e a nortada lembrava um charco podre quando, alta noite, se punha a sacudir os tectos e as almas. E afirmam ainda que a dita rã, armada de poderes superdivinos, proliferou em minúsculos diabos, capazes de resistir à água benta, pois foram achados dois desses exemplares no fundo da pia baptismal. Desta vez, era a sagrada pessoa do abade que se via a contas com o poder satânico. Mandou sepultar os demónios na parte não benzida do cemitério, a ver se a vizinhança das cruzes lhes abortava a ressurreição. O que parece ter acontecido.
   Da terceira vez, vomitou uma lagartixa, cuja cauda ultrapassava os dois metros. As mulheres honradas e as beatas passaram a sofrer perseguições nocturnas, tão atrozes como as de virgens lançadas aos leões. Ao meterem-se em suas honestas camas, sentiam o visco da lagartixa a procurar-lhes as partes recônditas, e a cauda de dois metros, forjando e multiplicando nós infinitos, deixava-lhes nas carnes profundas marcas de flagelação, além de penetrar selvaticamente todas as bocas do corpo. Reuniram-se em penitência, confessaram-se, comungaram, jejuaram e choraram. Mas de quando em quando, em noite fria, em leito casto, uma malvada lagartixa troçava da moral, maculava os lençóis e ia-se embora antes do alvorecer.
   Da quarta vez, vomitou uma negra moreia, peixe repelente parecido com a cobra; parente, por conseguinte, do bem conhecido tentador de Adão e Eva. Perante a progressão dos fenómenos apontados, a mãe Elvira, que paria oito vezes sem conhecer as delícias conjugais, resolveu guardar segredo. Estava a morei negra no pátio da pobre casa, num abandono tão evidente que o coração de Elvira se enterneceu. Enroscadinha, com a tristonha cabeça sob a cauda, doméstica. Elvira foi à cozinha buscar a faca maior. Esticou o animal adormecido e ia cortar-lhe a cabeça, quando a fera, abrindo uns olhos descomunais, a mordeu no pulso fazendo cair a faca. Elvira levantou a comprida saia para se pôr em fuga. Mas o gelo dos membros paralisou-a. A morei espreguiçou-se e, brusca, entrou inteira na vulva de Elvira, começando logo a roer cavidades e vísceras. Era uma fábula ao invés da de Jonas no ventre da baleia.
   Enquanto Elvira garantia a infinita dor das suas entranhas, Francisco comportava-se com filial ingratidão. Seguia Mariela com obsessão canina, até à transparência. Cuspia nas admoestações. Mariela descia, Mariela subia, Mariela enchia as ruas, Mariela sorria, Mariela gargalhava, Mariela era uma estátua reincarnada em dezasseis primaveras, sem sofisticação nem bafo de cidade, carne cheirando a terra antiga, Vénus sem Milo, braços roliços, umas ancas de louvar a Deus e uns seios nunca vistos. As mulheres honradas e as beatas odiavam-lhe principalmente os seios, duas montanhas, dois orgulhos acima duma cintura fina. E puseram a circular que Mariela não usava soutien. O que Francisco desmentiu, por lho ter visto, túmido e irritado pela calúnia.
   — Diz a essa puta que os amarre com uma toalha! — gritou Elvira, sentindo uns dentes de moreia cravados no coração de mãe.
   Francisco sumiu-se, transparente e febril. Elvira tornou à bruxa, solicitando um contra-bruxedo mais forte, uma beberagem absolutamente eficaz. A bruxa pôs os olhos em alvo e deixou correr as chispas de adivinhação.
   — No café! — disse.
   E entregou a Elvira a mais da desembruxante das bebidas, vagamente doirada, numa garrafa de litro.
   Da quinta vez, Francisco vomitou um elefante. Nunca ninguém avistara monstruosidade comparável. Tinha três metros de altura e cinco de comprimento. As orelhas terminavam em gume e a cauda exibia uma flecha. Os dentes eram de prata e os olhos rodeados por pestanas de fogo. A tromba mediria uns cinquenta metros, de modo que tanto a bruxa como o abade sentiram estranhas comichões nos sexos. Quanto às partes vergonhosas do monstro, eram de fêmea: vagina transcendental e tão albergue que meio povoado macho por ela entrou sem nunca mais ter sido detectado.
   Rezam crónicas fidedignas que Mariela e Francisco se casaram e tiveram muitíssimos filhos. Por isso a terra se repovoou, compensando amplamente os estragos causados pelo elefante. Quanto a outras consequências desse matrimónio, registou-se ainda o seguinte: Francisco, saciado o amor, começou a engordar; Mariela, começando a parir, deixou pender os seios.
   Um ano após a noite de núpcias, já eram pessoas normais.


José Martins Garcia (n. 1941 - m. 2002), in Morrer Devagar, 1.ª edição, Arcádia, 1979, 2.ª edição, Companhia das Ilhas, Dezembro de 2017, pp,. 113-117. José Martins Garcia é um escritor extraordinário que não faz sentido manter esquecido. A Companhia das Ilhas tem vindo a reeditar toda a sua obra, em volumes que podem ser adquiridos: aqui. Leituras de algumas dessas obras foram partilhadas neste weblog: O Medo, A Fome, Lugar de Massacre. Encontrei uma entrevista ao autor nos arquivos da RTP: aqui

quinta-feira, 22 de março de 2018

(…) 72, 73, 74 (…)


Morto e enterrado o dia mundial da poesia, vamos a ela. Três vozes femininas, portuguesas, publicadas por uma mesma editora no espaço de dois meses. Na verdade, Sarah Adamopoulos (n. 1964), de origem grega, nasceu em Roterdão. Por cá, foi jornalista, tradutora, autora de livros com características e propósitos dissemelhantes.
Auguste Comte (n. 1789 – m. 1957), pai do positivismo, surge como interlocutor no poema A Única Palavra (Douda Correria, Outubro de 2017). Comte, convém recordar, foi um anti-individualista interessado na reflexão da sociedade de um ponto de vista científico. No entanto, a fase final do seu percurso gerou polémica na sequência de algumas opções críticas. A divisão dos entusiastas do positivismo teve como origem uma ideia de Humanidade mais devedora da metafísica do que da sociologia. A noção de Grand-Être, a Humanidade entendida enquanto todo, levou Comte a enveredar por uma espécie de religião da Humanidade com seus dogmas respectivos, decalcados amiúde do catolicismo. É verdade que nada disto é indispensável à leitura de A Única Palavra, embora tenda a tornar mais claro «o saber metafísico / do mistério» introduzido pelo poema. O seu objecto é poético, e ainda que possamos entendê-lo como aposto à ciência e até a uma concepção religiosa da ciência, ele não deixa de manifestar fé na razão que sustenta a palavra poética: o mistério. Em poesia, os conceitos (con)fundem-se, as fronteiras transpõem-se, os termos adquirem uma plasticidade e um extensão inconveniente ao discurso científico. Deixa de ter lógica a separação dicotómica do religioso (que liga, unifica, reaproxima) e do científico (que separa, distingue, individualiza). Sarah Adamopoulos recupera, deste modo, o estatuto epifânico do poema numa época em que a poesia parece ter abdicado da sua raiz filosófica: «já não sei o que é mais triste: / se os teus herdeiros, Auguste, / se eu ali a afundar-me / no lodo centrípeto, / se o muro / (casulo, cegueira, vertigem, doença / hesito) / que nos separa». Das companhias declaradas no final, a mais óbvia é o poema-sequência A Terceira Miséria (Relógio D’Água, Fevereiro de 2012), de Hélia Correia (n. 1949), por também aí se vislumbrar uma acutilante crítica da actualidade face à degenerescência de certo sentido poético do mundo. Observado de perto, no seu habitat sociológico natural, as ruas, o Outro surge esvaziado da sua ligação ao Grand-Être: «É preciso descriar essa tropa / que vive entrincheirada na palavra / eu». Comte é não apenas um interlocutor passivo, tipo confessor, mas também princípio a partir do qual o poema se desenrola reflexivamente, assumindo o mistério, a magia, a dúvida, o mundo de possibilidades que determina «a natureza da palavra». Ponham os olhos neste poema. Seria tremendamente injusto que passasse despercebido.
O mais extenso dos três livros agora convocados é de Catarina Costa (n. 1985), que já havia publicado Chiaroscuro (Julho de 2016) na Douda Correria. Analema (Novembro de 2017) reúne três conjuntos de poemas: Primeiras Travessias (14 poemas), Cristalização: A Casa (16 poemas), Dos Despojos (20 poemas). Embora autónomos, os poemas de Analema mantêm entre si uma unidade temática e de tom por vezes desdobrada em breves sequências. No conjunto inicial, que me parece o mais irregular dos três, percebemos a necessidade de um afastamento materializado na dissimulação do sujeito poético em vários pronomes pessoais. O eu e o tu, mais raramente um nós, um eles, intercalam-se em fragmentos intimistas que remetem para um passado revisitado «com um toque / de melancolia à superfície». Encontra-se nesse passado a origem do pathos que os conjuntos subsequentes radicalizam. No segundo, a aventura adiada surge traída pela domesticação do impulso. A esta domesticação corresponde a cristalização do ser. A partida (fuga? libertação?) não chega a consumar-se, a solidão apodera-se daquele que permanece entre os quais já não se revê. Poemas como A Sala de Jantar, Uma Casa que Não é Tua, A Incompreensão do Desastre, fazem da família o núcleo celular de um sentimento de desterritorialização. A casa é «território estrangeiro», o sujeito poético metamorfoseia-se em coisa anómala, solitária, isolada, incompreendida, afastada dos outros por nele crescer um aglutinador sentimento de desagregação. Não por acaso, Kafka é citado a determinada altura num poema em que o fantasma do suicídio, colocado como possibilidade, é ultrapassado pela força reveladora do acidente. Se a morte não se teme, «o que temes é a perda do que não é da sua natureza / perfazer-se». Pergunto-me se tal perda não ocultará um derradeiro sinal de esperança, se nela a fragilidade do sujeito não engendra forças que o mantêm de pé. O problema do doméstico na poesia de Catarina Costa não se esgota no tédio da vida quotidiana, é colocado nas fundações de uma dor silenciosa que lança o sujeito em estados de desamparo e de absoluta solidão. A observação dedicada ao outro, aos adereços, à quotidianiedade, remete invariavelmente para esse si mesmo ferido de melancolia, colocando-o numa desconfortável situação de reconhecimento: «vi a velha na fila do supermercado» (…) «e então senti-me como ela, uma figura patética».
Por fim, Catarina Santiago Costa. Dela saíram na Douda Correria, em 2016, os livros Estufa e Tártaro. Como não há duas sem três, aí temos Filha Febril (Novembro de 2017). Podemos falar em três partes informais neste livro, sendo que em todas elas assistimos, de uma forma mais ou menos evidente, ao diálogo da morte com a vida. De índole narrativa, a primeira parte situa-nos num tempo definido pela perda. Neste caso, da mãe. Ao contrário do que sucede em muitos outros livros dedicados ao tema, neste não é a memória o que mais se impõe, nem a morte enquanto questão ontológica. A perda da mãe inaugura no início do livro um momento alucinatório com repercussões demenciais. Opera-se um processo de transmutação que faz da filha o corpo onde se aloja agora o espólio materno: «O lobo comeu o colibri. / Agora, quando abre as mandíbulas, / o canto da avezinha escapa-se-lhe / o colibri é o lobo / e o lobo o colibri. // Também o colibri pode comer o lobo / porém, ao abrir o bico, / morrerá com o uivo». Em diálogo com a “peça” Pierrot e Arlequim, de José de Almada Negreiros, surge sob a forma de interlúdio um tríptico que liga a primeira à terceira partes deste livro. É na mais extensa das duas que vem à tona uma fúria característica da poesia de Catarina Santiago Costa. Outrora filha aquela que se encontra agora no papel de mãe. O envio é pungente: «Filha querida, / urge que percebas que / só fujo de mim / deste eu esfacelado e químico / deste eu desfigurado, delirante moderado / deste eu trágico / ossos pneumáticos esvaziados / olhos queimados / sexo a um tempo sobrepovoado e deserto / fome e sede cretáceos». O movimento é o das coisas vivas, erguidas da morte como herdeiras de uma perda a que cabe dar continuidade. Esse o absurdo da existência a que geralmente se atribui o nome de descendência, mesmo quando se nega à família «leviatã áspero e mesquinho» o valor conferido aos amigos: «A minha linhagem é a dos amigos, / espécie marsupial atípica com cronologia aleatória / solitários com encontros marcados / gestei-os e eles a mim. / Temos sangue dourado e isso / nem os deuses». Ao questionar o conceito atávico de família, fundador de modelos sociais mais preocupados em assegurar a manutenção dos seus alicerces do que em garantir a liberdade e a felicidade dos indivíduos, Filha Febril traz para a poesia portuguesa uma nova abordagem do problema da maternidade, expurgado da sentimentalidade e das emoções que geralmente o configuram. Desassossegado, inquieto, eventualmente cruel: «Nada a fazer: / somos omnívoros / somos necrófagos /  mas não temos de ser / sacanas nem mesquinhos / diz-te este fantasma voraz / que já foi filha».

quarta-feira, 21 de março de 2018

DIA MUNDIAL DA POESIA


   Julgo que foi Hazlitt quem disse que, superior a esta cidade de água, só mesmo uma cidade construída no ar. Era uma ideia calviniana, e quem sabe se, na esteira das viagens espaciais, não virá ainda a ser posta em prática. Enquanto isso não acontece, talvez o melhor testemunho deste século, a par do desembarque na Lua, seja o ter deixado intacta esta cidade, o tê-la deixado em paz. Eu, pessoalmente, desaconselharia até mesmo as intervenções mais benignas. É certo que os festivais de cinema e as feiras do livro condizem com o tremular da superfície dos canais, com os seus rabiscos floreados, atentamente lidos pelo sirocco. E é certo que converter este lugar numa capital da investigação científica seria uma opção agradável, especialmente se levarmos em conta as prováveis vantagens da dieta local, rica em fósforo, para qualquer tipo de esforço mental. Poderia usar-se o mesmo isco para transferir de Bruxelas para aqui o quartel-general da CEE, e de Estrasburgo o Parlamento Europeu. E é certo que seria melhor solução ainda atribuir a esta cidade e a uma parte dos seus arredores o estatuto de reserva nacional. Eu diria, porém, que a ideia de converter Veneza num museu é tão absurda como a ânsia de a revitalizar com sangue novo. Para começar, aquilo a que se chama sangue novo não passa nunca, no fundo, de velha urina. E, em segundo lugar, esta cidade não se presta a ser um museu, sendo ela própria uma obra de arte, a maior obra-prima que a nossa espécie criou. Não se renova um quadro, e menos ainda uma estátua. Há que deixá-los em paz, guardá-los dos vândalos — de cujas hordas talvez nós próprios façamos parte.

Joseph Brodsky, in Marca de Água — Sobre Veneza, trad. Ana Luísa Faria, Relógio D'Água, Janeiro de 2018, pp. 90-91.

EM MARÇO FOI ASSIM




Venha Abril, com o Carlos Alberto Machado.


Fotografias do Ricardo Aurélio.

terça-feira, 20 de março de 2018

HOJE


Sobre manuel a. domingos, neste weblog: leitura de Mapa, leitura de Teorias, um texto sobre panfletos, com cinco anos, aqui, leitura de Vala Comum, um poema seguido de apontamento biobibliográfico: aqui. E um micróbio de minha autoria que lhe foi dedicado: aqui.