segunda-feira, 14 de maio de 2018

SOCIALISMO EM PORTUGAL

Acabo de ouvir nas notícias que um gestor ganha em média mais 45 vezes do que um trabalhador na mesma empresa. É isto o socialismo em Portugal. Vergonha na cara, já sabemos que não têm; o inferno não lhes desejamos, porque somos descrentes; mas sonhamos com o dia em que ficarão com os dedos entalados na gaveta ou intoxicados de marisco ou sós, completamente sós, como o cidadão Kane no termo da vida. Citando o outro, puta que os pariu!

domingo, 13 de maio de 2018

UM POEMA DE JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA


Jorge de Sena olhou para a cadeira de Van Gogh
E escreveu o que viu.
E viu, coisa mais estranha, uma cadeira,
um cachimbo pousado, uns restos de
tabaco e, ao fundo, o caixote com a assinatura Vincent.
Viu a pequenez do quarto, a porta, confirmou a indigência
do ocupante, lembrou-se da loucura já sabida e lida, e da
(mais impressionante do que qualquer pintura) orelha, real, cortada.
É estranho, mas foi isto o que ele viu: uma cadeira, um cachimbo, um quarto, uma
porta, um caixote.
Não viu, não leu a coisa em frente dos olhos: a cadeira bêbeda
a levantar voo no quarto bêbedo, as coisas a palpitar, a dançar
num mundo sem firmeza, não viu a alma esvair-se sob o ácido,
não viu o que Huxley viu sob o efeito do mescal, não viu o que se
vê desvairando um tanto que seja.
E, contudo, coisa mais que estranha, olhou para o quadro e escreveu o poema.


João Paulo Esteves da Silva, in Tâmaras, Douda Correria, Outubro de 2016, s/p

sexta-feira, 11 de maio de 2018

CLARA MENÉRES (1943-2018)


Clara Menéres (n. 1943 - m. 2018) cultiva o sentido do sagrado. A sua escultura intitulada Lapis cognitionis (1988), realizada em mármore e néon branco, é eficaz pela sua singeleza. O impacte da forma elementar tem o seu brutalismo alterado pela «osmose óptica» entre a pedra branca e a luz branca. A pedra maciça simboliza a matéria bruta; e a luz simboliza a energia espiritual. O sentido do sagrado manifesta-se na simplicidade do signo vertical. A relação pedra-luz deixa de ser uma oposição. A pedra «desmaterializa-se» nesta imagem, onde a luz parece «consubstanciar-se» com a rocha.

Rui Mário Gonçalves, in A Arte Portuguesa do Século XX, Círculo de Leitores, Dezembro de 1998, p. 118

SHORT STORY DE HAROLD PINTER

PROBLEMA

   O telefone toca. Ignoro. Persiste. Não sou parvo. O estratagema a que recorro ocorre-me facilmente. Levanto o auscultador. Não digo nada. Silêncio igual, na outra ponta. Ele troca de auscultador. O tom é extraordinariamente estridente.
   Após dar conta de alguns trabalhos decidi fazer um telefonema. Levantei o auscultador. Silêncio morto. Sem precedentes. O sistema telefónico da minha área é normalmente sans pareil. À comunicação da mais pequena falha vêm os técnicos a correr ao local para corrigir. Mas neste caso há um problema palpável. Não posso telefonar para comunicar a falha. A falha é tão vasta, tão impregnante, tão consumada, tão definitiva que impede, sem um resquício de esperança, a ajuda.
   Telefone calado. Noite morta.
   A linha? O telefone fora do descanso? A linha telefónica fora do descanso? Investigo. Linha segura, com uma certa indolência, no descanso. Estou desorientado. Não só isso. Pego numa cadeira e sento-me desorientado. 
   Desorientado. Ausência de sinal. Noite morta.
   Toca.

*

   Saio da biblioteca, vou a uma cabine telefónica e disco o número da minha casa. Linha ocupada.

*

   Alguém anda a tentar lixar-me.

1976

Harold Pinter, in Várias Vozes, Quasi Edições, trad. Miguel Castro Caldas, Maio de 2006, pp. 106-107.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

PALAVRA DE EDITOR

Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, 14 Abril

   A tarde abriu enorme e coube ainda assim aconchegada pela conversa no edifício, primeiro pensado de raiz entre nós para ser museu, não-lugar do novo sagrado destinado a acolher paisagens e figuras de um espaço e um tempo que parecem já só existir aqui. Ainda nos arredores de Imaginário, quase a desmentir esta ideia de ruralidade que se dissipa, ou, pelo contrário, a confirmar fantasmas e dores, trouxemos «A Festa dos Caçadores», do Henrique [Manuel Bento Fialho]. As razões para o meu entusiasmo são múltiplas, mas devo conter-me, contê-lo, ao entusiasmo, lê-lo e relê-lo, afastar-me dele, procurar gralhas e melhor desenho de página, capa ou contracapa, e continuo a falar do entusiasmo. Este livro apresenta-se-nos carregado de livros nas entrelinhas, ou melhor: pejado de leituras. Cheguei ao Henrique por via das suas excelentes leituras, a conferir em Antologia do Esquecimento (http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/). O livro como objecto e entidade aparece aqui e ali, a evocar a sua condição de bom livreiro e portanto observador, olhando de esguelha certas relações com o bicho, e não tanto enchendo a prosa de citações, que também as há, embora na justa medida do bom tempero. Folheando, a Festa é uma colectânea de contos, uns morais, outros de prosa poética, parábolas aqui, anedotas além, relâmpagos luminosos de pensamento, frase ora despojada ora barroca, rica e variada, bem-humorada q.b., com música e várias infâncias a servir de fundo, além da omnipresente pitada de amargor, como agora se aplica à cerveja que abre caminhos. Será tudo isso, sem deixar de ser «retrato fragmentário da primeira geração de portugueses criada em democracia», diz o autor, que continua. «De um mundo rural em vias de extinção à deslocação urbana, acompanhada de sensações de exílio, solidão e desenraizamento, as personagens destes contos acabam por se fixar num lugar sem espaço nem tempo, nos “desastres de uma vida perdida algures pelo caminho como farrapos de roupa comidos pelo tempo”». Será a voz do narrador? Outro jogo, que aproveita com habilidade os farrapos narrativos que podem ou não agregar estes fragmentos, assenta nos saltos de lugar entre autor e narrador, entre a reflexão e o episódio, entre o íntimo e o disperso. Tanto estou na pele de Henrique como me vejo assistir à dissociação na mente das personagens, que duvidam em permanência do que lhes acontece. Além do amargor, a prosa perfuma-se muito de absurdo: talvez existamos apenas na cabeça de alguém, sonho de uma sombra. Parece-me, portanto, único este volume de 320 páginas de contos a acreditar que poderão ser outra coisa. E também por causa do tempo e outros detalhes maneiros: a areia, seu maior sinal. Ou o silêncio. Assim a própria, há por aqui torto e a direito grãos, suavizando ou incomodando, assinalando que mesmo a rocha maior se pode desfazer, que as mãos não conseguem segurar, que os rastros se apagam de um sopro, que o deserto cresce. Lá para o fim, reza assim o riso escondido nas vértebras das pedras: «Pedi desculpa por me estar a meter na conversa e reforcei que sabia do que ele precisava. Ele olhou-me com reprovação, as devotas olharam-me com desconfiança, olham-me sempre com desconfiança, e eu, agora metido num fosso do qual não teria saída, rematei: o senhor precisa de começar a beber e a fumar. E, já agora, precisa de uma mulher. Precisa de se divertir, O senhor precisa de esquecer que o mundo existe, precisa de esquecer-se de si próprio, precisa de criar na sua vida momentos de interrupção, precisa de ler e de escrever como se não houvesse nada mais importante sobre a terra, precisa de alimentar os seus medos e as suas frustrações com o veneno da indiferença, precisa de dizer adeus ao passado e, se lhe não for doloroso, ao próprio futuro. Precisa, desculpe-me a expressão, de cagar para o futuro e procurar no presente o riso escondido nas vértebras das pedras. Desculpe-me estar a fazer poesia, é defeito meu. Não dura muito. Já a seguir vem o silêncio, voltamos as costas uns aos outros e caminharemos, cada qual para a sua vida, como se arrastássemos o deserto inteiro atrás de nós. O senhor não precisa de mim, mas precisa ainda menos de si.»
   O Henrique só conheceu agora, neste fim-de-semana prenhe de intensidades, anedotas e contos de moralidade difusa, o Sal [Nunkachov] que lhe encontrou o rosto exacto para o livro (algures nesta página), além de interstícios, galhos quebrados, rasgões, sinais que exigem atenção total ao objecto-livro. Quando ma mandou era contracapa tímida, mas a colagem dizia de tal modo caminho e corpo, natureza e espelho que me pareceu o lugar certo para dizer festa e silêncio. O tom sépia agrava a nostalgia.




João Paulo Cotrim, aqui.

terça-feira, 8 de maio de 2018

SEGUNDO REZA A CRÓNICA

   Segundo reza a crónica, que pode ser verdadeira ou fantasista, a escritora Sophia de Mello Breyner e a escritora Agustina Bessa-Luís tiveram o seguinte diálogo:
   — Agustina, o sexo é para si uma coisa porca?
   A resposta terá sido pronta e elíptica:
   — Sim, se for bem feito.

Rui Caeiro, in Diálogos Marados, Livraria Snob, Março de 2018, p. 26.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O SENHOR TESTE


Dentre o caos de excitação e depressão, uma das boas notícias dos últimos dias, a contribuir para o equilíbrio possível de um país cada vez mais bipolar, é a reedição de O Senhor Teste (Relógio D’Água, Março de 2018), obra imortal de um tal Paul Valéry (n. 1871 – m. 1945), celebrado a seu tempo como o maior dos poetas franceses. As opiniões dividem-se. Por cá, a título de exemplo, Jorge de Sena chamou-lhe escritor «público a metro e finança». Aníbal Fernandes, o tradutor, lembra na introdução os 261 Cahiers vindos a lume. A desconfiança de Jorge de Sena contrasta com a admiração de Jorge Luis Borges, ainda que acautelada: «A sua poesia talvez está menos organizada para a imortalidade da sua prosa». Desta, destaca-se La Soirée avec monsieur Teste (1896), acerca da qual Borges sentencia: «Esse personagem (…) é talvez a invenção mais extraordinária das letras actuais». A personagem é o Senhor Teste, «herói tranquilo» segundo Borges, alter-ego segundo o tradutor Aníbal Fernandes, «personagem de fantasia» de acordo com o próprio Valéry, que no prefácio revela ter a criatura surgido numa era de «estranhos excessos de consciência de si». Também podemos especular sobre O Senhor Teste como o produto de um homem sem biografia, a partir de certa altura embrenhado em si mesmo, exclusivamente dedicado ao pensamento e à escrita, à relação possível entre ambas, porventura à impossibilidade de a segunda exprimir o primeiro. 
   O Senhor Teste, tal como a poesia de Valéry, é forma, jogo de espelhos, linguagem velada na sua aparente nudez. Enquanto tal, dispensa carne, ossos, veias, emoções, paixões, dispensa até a vontade, é coisa mental reflectindo-se a si mesma. Num belíssimo ensaio intitulado De Poe a Valéry, T. S. Eliot colocou bem a questão, ainda que centrando-a no contexto de uma análise acerca do interesse de alguns poetas franceses pela poesia de Poe. Diz-nos o autor de Four Quartets que mais do que o homem ou a poesia ela mesma, enquanto expressão das emoções experimentadas pelo homem, é a teoria da poesia aquilo que mais prende Valéry. E acrescenta: «À extrema autoconsciência de Valéry deve somar-se outro traço: o seu extremo cepticismo». Autoconsciência e cepticismo parecem ser as palavras-chave para um enquadramento de O Senhor Teste
   Do conjunto de textos que hoje compõem o enigma Teste, é no texto principal que damos com um encontro entre o narrador e o tal Sr., homem de «maneiras singulares», leitor de jornais, frequentador de teatros e bordéis, talvez pelos quarenta anos, casado, embora solitário, sem riso no rosto ou ar de infortúnio, com ódio à melancolia… vazio. Tudo o que nos é dito acerca deste homem é vago e incerto, por vezes até incoerente, porque nada é possível saber acerca dos homens. O movimento é introspectivo, o narrador volta-se para si mesmo e encontra o Senhor Teste. É no interior da sua condição de narrador que se processa a consciência de uma impossibilidade, a do contacto com o outro. O outro que está dentro de si é incognoscível, tal como incognoscíveis são todos os demais além de mim. 
   Vejamos como se lhe refere a mulher com quem está casado, na Carta da Senhora Émile Teste: «Vivemos muito à vontade, cada qual no seu absurdo, como peixes na água, e só por acidente a notarmos quanta estupidez a existência de uma pessoa razoável contém. Nunca pensamos que o que pensamos nos esconde o que somos» (p. 40). O Senhor Teste ensaia uma consciência da impossibilidade do conhecimento, tendendo para o tal cepticismo declarado por Eliot a propósito de Valéry. Personagem interior, como que põe em xeque a rainha da razão, a reflexão, arrastando para o vazio das impossibilidades o próprio pensamento, a metafísica, a lógica, a filosofia, enquanto capazes de conhecimento. Porque o pensamento é essencialmente linguagem, e esta a todo o momento trai os objectos da representação. Enquanto fruto do pensamento, O Senhor Teste surge para anular a possibilidade do próprio pensamento. Esta é a sua dimensão mais radicalmente paradoxal e labiríntica. Não admira o entusiasmo de Borges. 
   Num dos Extractos do Log-Book do Senhor Teste podemos ler, em resumo, a ironia desta personagem: «Não sei o que é a consciência de um tolo, mas a de um homem de espírito está cheia de tolices» (p. 56). Diria o Senhor Teste acerca de Paul Valéry? Diria Paul Valéry acerca de o Senhor Teste? Não importa sabê-lo. O exercício que nos propõe o texto é de outra ordem, não é um exercício de compreensão ou de percepção, é um exercício de aceitação do nada, da nulidade última à qual tudo se reduz quando ousamos transpor as fronteiras que garantem a lógica da coerência a um pensamento. Restam as dúvidas: «Quem sabe se a verdadeira «filosofia» de alguém é… comunicável?» / «Por que razão, no teatro mental, tu és Tu? Tu e não eu» (p. 101)? Perguntas às quais Ludwig Wittgenstein (n. 1889 - m. 1951), contemporâneo de Valéry, procurou responder. Filosoficamente. 

TAMBÉM CONTA?


Sporting bate Benfica e é campeão no voleibol; Sporting sagra-se bicampeão nacional de futebol feminino; Andebol: Sporting de novo bicampeão como há 37 anos…

«o tempo e as suas incompreensões e distracções colaboram com o poeta morto»

Não sei de um exemplo melhor que o alto verso de Cervantes:


¡Vive Dios, que me espanta esta grandeza!


Quando o redigiram, «vive Dios» era uma interjeição tão vulgar como «caramba», e «espantar» queria dizer «assombrar». Suspeito que os seus contemporâneos o sentiriam assim:

Vejam só o que me assombra este aparelho

ou coisa parecida. Nós vemo-lo firme e vistoso. O tempo — amigo de Cervantes — soube corrigir-lhe as provas.

Jorge Luis Borges, de Textos Cativos (1986), in Obras Completas, 1975-1988, Vol. IV, trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Círculo de Leitores, Janeiro de 1999, pp. 376-377.

UM POEMA DE GOLGONA ANGHEL

AGORA QUE NADA MAIS IMPORTA,
consolamos as tardes de Domingo
com as bifanas das tasquinhas montadas antes do jogo,
alguns boatos frescos, discussões sobre Sartre,
o pós-estruturalismo e essa piada
que qualquer marxista parolo
parece esperto ao pé de um anarquista.
O único interesse que ainda temos realmente em comum
é dividir o aluguer
e uma garrafa de tinto.
Às vezes, ainda recebemos algum convite,
e olha, não é fácil, com o miúdo e tal.
Mas acabamos por ficar em casa.

O desinteresse acumula-se à minha volta
como as camadas seculares
no tronco de um sequóia. 
Fico imune a queixinhas.
Lavo sozinho a minha roupa.
A minha língua está a ganhar uma espessura lenhosa.
No lugar do grito,
uma greta.
Mãos nos bolsos,
bico calado.
Evito vitrinas e espelhos.
Tenho medo que a verdade
me possa desfigurar o rosto.


Golgona Anghel (n. 1979, Iliria Oriental, Roménia), in Como uma flor de plástico na montra de um talho, Assírio & Alvim, Maio de 2013, pp. 53-54.

sábado, 5 de maio de 2018

ADENDA

A isto, acrescentou alexandra g: isto.

"PODERMOS SER PATETAS A DOIS"

   Não há mulher no mundo chamada como eu. Sabe que palavras ridículas os amantes trocam; que as chamadas de cães e papagaios são frutos naturais das intimidades da carne. As palavras do coração são infantis. As vozes da carne são elementares. Aliás, o Sr. Teste pensa que o amor consiste em podermos ser patetas a dois — toda a licença de ingenuidade e bestialidade. Por isso me chama a seu modo. Quase sempre me designa de acordo com o que quer de mim. Só o nome que me chama basta para eu saber, numa palavra, o que me espera ou tenho de fazer. Se não deseja nada em especial, diz-me: Ser ou Coisa. E às vezes chama-me Oásis, o que me agrada. 
   Pateta é que nunca me chama — o que muito profundamente me sensibiliza.

Paul Valéry, in O Senhor Teste, trad. Aníbal Fernandes, Relógio D'Água, Março de 2018, p. 47.

UMA TREMENDA INJUSTIÇA


No século vinte, escreveram, na língua portuguesa falada deste lado do Atlântico, três — e apenas três — grandes poetas que foram igualmente capazes de alinhar prosa tão cintilante, consistente e universal quanto a respetiva poesia: Pessoa, Fiama e Herberto.



Quem o afirma é o Xilre, aqui. Uma tremenda injustiça reduzir o leque a três, desde logo porque no grupo modernista temos o Mário de Sá-Carneiro de A Confissão de Lúcio e o Almada Negreiros de Nome de Guerra. Não foram grandes poetas? Bem, e Jorge de Sena? Sinais de Fogo é só o melhor romance português do séc. XX. E Carlos Oliveira? Que ande esquecido, não é problema que macule a estatura da obra. E Vitorino Nemésio? E José Gomes Ferreira? E Miguel Torga? E Sophia? E as crónicas do O'Neill? Todos grandes poetas com prosa igualmente cintilante...

sexta-feira, 4 de maio de 2018

INTERVALO DOLOROSO


Gazeta das Caldas, n.º 5224, sexta-feira, 04 de Maio de 2018.

(também aqui)

UM POEMA PELA MANHÃ

ATITUDE


Olá, não é para todos isto
de ser selvagem com o volume
da bagagem ocidental;
no clímax da meia-idade
é previsível já a quase-
-invariável rotina: i)
achar que não é para mim; ii)
aquiescer, eu, treinada
em variações de bardo (Deus,
faz com que eu nunca seja
uma mulher ressabiada),
na recondução ao redil; iii)
aceitar semi-lerda a classe
de trânsfuga descoberta; iv)
fingir que sou estrangeira
e não me altera esta bodega.



Por dama: aqui.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

O SENHOR QUE SE SEGUE


SUSTENTO


É um dos temas do momento: por que fecham as livrarias? Por terem muitos clientes não há-de ser, pelo que talvez fechem por não terem os suficientes para se manterem abertas.

Talvez a questão devesse ser reformulada: por que não têm clientes suficientes certas livrarias, de modo a que lhes seja possível manterem-se abertas, oferecendo a quem nelas trabalha sustento para a vida?

UM LONGO TEMPO NOS PULOS DO MAR



   De um escritor espera-se, antes de mais, que seja corajoso o suficiente para não vogar ao sabor da corrente, perseguindo modas e tendências com o intuito de conquistar a simpatia de alguns dos seus pares. Espera-se que descubra dentro de si algo que o distinga dos demais, que insista na descoberta sem renegar o encontro com a diversidade, com o outro. Ninguém que escreva o faz em completo isolamento, a língua que pratica liga-o a uma comunidade. Mas não lhe usurpa a identidade, não determina o caminho, conquanto possa condicionar traços culturais por vezes facilitadores de generalizações abusivas. Por exemplo, quando falamos de uma literatura portuguesa como se fosse possível vislumbrar-lhe um padrão definidor. Esta mania académica das generalizações raramente nos desvia da rotunda que leva da saudade à melancolia, varrendo para as bermas tudo o que siga em contramão. Maldito fado.
   Há dias, li num artigo de jornal que a poesia portuguesa ameaça tornar-se enfadonha. É óbvio que o decreto pretendia sublinhar a excepcionalidade dos nomes apontados como “lufadas de ar fresco”, mas ao ler aquilo ocorreu-me de imediato quão enfadonha deverá realmente ser a poesia portuguesa para quem passe a vida a ler autores oriundos das mesmas regiões estéticas e expressivas. A homogeneidade é a maior inimiga da arte, chega-me até a parecer que são incompatíveis. Do heterogéneo retiramos maior experiência dessa liberdade que está na raiz de qualquer obra artística. É pois com tristeza que constatamos tantas vezes não só uma tentativa de escamoteação dessa homogeneidade, promovendo tudo quanto se assemelhe ao vigente, olvidando o que se lhe oponha pela diferença, como também uma incompreensível resistência ao diverso que, por não encaixar nos padrões de certo tempo, é relegado para o plano da presunção debaixo de um toldo de desconfiança absoluta.
   Da poesia de Hugo Milhanas Machado (n. 1984) não desconfiamos nós, por há muito lhe havermos vislumbrado a singularidade que escapa à rotunda. Vai pela berma? Que se lixe! Enquanto assim for, vai muito bem. Tem tudo contra a maioria relativa que governa a sua época. Desde logo, a opção por uma sintaxe estropiada. Um aspecto relevante deste Um Longo Tempo Nos Pulos do Mar (Douda Correria, Fevereiro de 2018), pelo menos em comparação com o que conhecíamos dos livros anteriores, é o facto de aqui os versos elípticos terem cedido lugar a uma espécie de prosa que o não é bem assim. Talvez o seja na aparência formal, mas no seu íntimo estas frases longas pontuadas por vírgulas não deixam de ser versos, versos que são estrofes inteiras, estrofes que dão parágrafos. E lá pelo meio damos tanto com esta limpidez: «(…) só vinha dizer que daqui em diante é um circo de clareza que veio parar a frase e nela amolecer textos e poemas que tu já conheces (…)». Como damos com esta desbunda sintáctica: «(…) eu meto o gosto das madeiras duro para sempre nessas praias de brutas batalhas e desforras e chego a gostar nos bons dias (…)».
   Os temas mantêm-se em contramão: praia, férias, acampamentos, mar, alegria, «(…) pequenas magias que depois por nós ficam a mexer (…)», folas, guitarras, bicicletas, cantigas, o Verão, pistas de atletismo, «(…) longas caminhadas praia fora (…)», barcos, vinho, joie de vivre, «(…) a voz tão pegada à recordação nela emprestada (…)», isto é, tudo aquilo que de algum modo se opõe à tal melancolia servida em genéricos ou à lenitiva saudade, ainda que aqui a memória, as recordações, as lembranças, sejam raiz a partir da qual também o texto se constrói. E constrói em retorno, como as marés, repetindo na sua música «(…) o coração das férias (…)» quando Setembro chega e inaugura o princípio de qualquer coisa que não pode ser dita como fim. Que outro poeta português arriscaria colocar num texto seu uma referência a La La Land? Não há enfado que vingue com os textos de Hugo Milhanas Machado, há um desafio reiterado para encaixar algures o que não encaixa em lado nenhum. Apanhará o barco quem quiser, como é óbvio, podendo até vir a queixar-se de ondulação excessiva ou, como que por maldade, de mansas águas. Por aqui, olhamos para as ilustrações de Patrícia Guimarães e sentimo-nos logo melhor do coração. Começamos a ler os textos, e é como se embarcássemos «(…) no colo das ondas (…)». Ficará sempre, como é óbvio, a nostalgia da alegria lembrada como corola de um Verão onde colhemos o pólen que alimenta a esperança. Mas com a nostalgia de um sorriso podemos nós bem. 

P.S.: deste livro diria ainda que tem uma prosa com métrica perfeita.

HOMEM FEITO DEUS



Enquanto folheavam livros na feira, dois alunos da ESAD falavam um com o outro. Este lamentava-se daquilo a que chamava “paleio dos contemporâneos”, o outro dizia-lhe:

O teu problema é que não te sabes vender. Hoje em dia é fundamental um gajo saber vender-se.

Lembrei-me da Lamentação sobre o Cristo Morto, de Mantegna, e de como sempre me pareceu ser mais aquela obra acerca da condição do homem no mundo do que sobre Cristo, que, para todos os efeitos, terá sido Deus feito homem.

terça-feira, 1 de maio de 2018

1.º DE MAIO


Por todos os camaradas que neste dia estão a dar o litro, a troco de salários miseráveis pagos por empresas gananciosas com administradores avarentos e insensíveis.