quarta-feira, 6 de junho de 2018

TRÊS VEZES BRASIL


Os números não enganam, o interesse recente pela poesia contemporânea brasileira trouxe-nos livros de Angélica Freitas (Pelotas, 1973), Fabiano Calixto (Garanhuns, 1973), Carla Diacov (São Bernardo do Campo, 1975), Ricardo Domeneck (Bebedouro, 1977), Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979), Adelaide Ivánova (Recife, 1982), Diego Moraes (Manaus, 1982), Nina Rizzi (Campinas, 1983), Júlia de Carvalho Hansen (São Paulo, 1984), Luca Argel (Rio de Janeiro, 1988)… A este inventário acelerado devemos ainda acrescentar as antologias “Naquela Língua — Cem Poemas e Alguns Mais”, organizada por Francisco José Viegas, e “É Agora Como Nunca”, da responsabilidade de Adriana Calcanhoto. Mais abrangente no tempo e restrita no tema, temos a “Antologia da Poesia Erótica Brasileira”, de Eliane Robert Moraes. Sintomático também que tenham sido essencialmente pequenas editoras, tais como a Douda Correria e a Mariposa Azual, a recuperarem este interesse pela poesia brasileira, certamente mais movidas pelas relações de aparente proximidade proporcionadas pelas redes sociais do que por qualquer interesse comercial. De resto, está por verificar se à difusão de novos poetas brasileiros entre nós corresponde um real interesse dos leitores portugueses. O que não é necessário verificar é a variedade de registos que esta poesia nos oferece, comprovável nos três livros que estimulam este texto.
Ninguém vai poder dizer que eu não disse – Vol. I (Douda Correria, Setembro de 2016), de Carla Diacov, subtrai o sentido ao ímpeto de dizer. Fragmentários, os poemas surgem-nos cifrados pela urgência do que se diz. As maiúsculas irrompem da prosa como gritos, sugerindo automatismos, instantes de fúria, histeria, que mandam às favas o lirismo da poética amorosa: «quero que você se foda. diferente do mundo . também /quero que o mundo se foda. o mundo: PIADA DE BOM / GOSTO. inda esses idiomas de infrutífera búfala: QUERO / QUE VOCÊ FODA TODO O TEU SORRISO CAVALAR / ROÇANDO A MINHA PALMA o mundo que se foda sem / você por umas horas: UMA CADEIRA SOBRE A OUTRA / UMA CADEIRA SOBRE A OUTRA UMA CADEIRA / SOBRE A OUTRA SOBRE A MESA SOBRE A FESTA DE / DESANIVERSÁRIO: assim o mundo se fodendo todo na / espera de uma colisão que não que nunca que cão que merda / que hora e que buraco: QUEM É VOCÊ QUE TANTO SE / FODE E NUNCA DEBULHA A RESPEITO?» (s/p). Talvez faça sentido associar a este dizer a noção de catarse, entendida não apenas como “purificação”, mas como a própria dramatização de um sentimento expresso pela palavra, ou seja, libertação da palavra aprisionada no espaço silencioso do recalcamento. Carla Diacov disse, e ninguém vai poder dizer o contrário.
Já Ricardo Domeneck, de quem havíamos lido "Medir com as própriasmãos a febre" (Mariposa Azual, Outubro de 2015), remete-nos para um território que lembra o "Manual de Civilidade para Meninas", da autoria de Pierre Louÿs (n. 1870 – m. 1925). Só que no Manual para Melodrama (Douda Correria, Março de 2017), dedicado a Adelaide Ivánova, rosto reproduzido na capa, a civilidade foi substituída por «técnicas de sobrevivência ao abandono» (o «método medeico», inspirado na figura mitológica de Medeia, o «método didoico», a partir de Dido, rainha de Cartago) e outras sugestões de utilidade inquestionável para quem tenha sido traído, abandonado, esquecido, preterido… Com estes aforismos de inclinação irónica, Domeneck coloca a mulher num patamar de superioridade ante a figura opressora do amante desleal. A vingança é um prato que pode e deve ser servido com subtileza. Tanto este livro como o de Carla Diacov podem colocar-nos perante um tipo de texto que não identificamos de imediato como poesia. O primeiro desafio é formal. Aforismos? Fragmentos? Axiomas? O que os torna poéticos, mesmo não o sendo intencionalmente, é o uso da linguagem, o ímpeto de dizer anterior à precisão de sentido:  «Deste mesmo peito será você a expectorada» (s/p).
Não será também assim com Um útero é do tamanho de um punho (Douda Correria, Setembro de 2017), de Angélica Freitas? A condição feminina, transversal a estes três livros, é tanto aqui a da mulher-cão, de Paula Rego, como a da mulher social e culturalmente espartilhada num universo patriarcal, que facilmente identificamos com a poesia de Adília Lopes. O recurso a canções populares e a formatos clássicos surge-nos, precisamente, como modo de questionamento dessa tradição cultural, aqui contestada, subvertida, rejeitada pela figura da «mulher limpa» que deseja, que peca, que deita para o lixo as imagens de pureza artificial disseminadas pelos media e cultivadas num figurino de beleza que reduz a mulher à condição de servente: «eu me sinto tão mal / eu vou lhe dizer eu me sinto tão mal / engordei vinte quilos depois que voltei do hospital / quebrei o pé / eu vou lhe contar eu quebrei o pé / e não pude mais correr eu corria 10 km/dia / aí um dia minha mãe falou: regina / regina você prexcisa fazer um regime você está enorme / você fica aí na cama comendo biscoito / e usando essa roupa horrível que aprece um saco de batatas / um saco de batatas com um furo pra cabeça / também não precisava óbvio que fiquei magoada / primeiro fiquei muito magoada depois pensei: ela tem razão / daí eu comecei regime porque me sentia mal / eu me sinto mal eu me sinto tão mal / troquei os biscoitos por brócolis queijo cottage e aipo / coragem eu não tenho de fazer uma lipo / eu me sinto tão mal por tudo que comi esse tempo todo / tão mal e tem tanta gente passando fome no mundo» (s/p). In mulher regime. A identidade de género, também retratada nestes poemas sob a perspectiva de condição feminina, parece-nos especialmente pertinente no momento que o Brasil atravessa, momento de retrocesso civilizacional plasmado nas afirmações de Marcela Temer, mulher do presidente Michel Temer, acerca do lugar da mulher na sociedade brasileira. Ecoam nestes poemas sinais de um tempo detergente, alicerçado numa hipocrisia consentida e promovida. A linguagem banal e quotidiana aqui plasmada não é apenas um reflexo desse tempo, é um modo de o retratar revolvendo-lhe as entranhas, dissecando-o, aproveitando ressonâncias que estilhacem a autoridade da hipocrisia. Chamemos-lhe ironia, chamemos-lhe cinismo, será sempre uma poética da desconstrução do discurso vigente.

LUGAR DE PERTENÇA


Belíssimo artigo de Fernando Gonçalves sobre a poesia de Simon J. Ortiz, na Flauta de Luz, n.º 5: “Por Amor ao Povo, Por Amor à Terra”: a geografia do sacrifício e do desapossamento na poesia de Simon J. Ortiz. Um excerto:

O que distingue as estórias de criação/origem dos americanos nativos das de outras culturas é o facto de os acontecimentos àquelas associados se situarem em lugar particular e distinto: o nascimento de uma criança, por exemplo, é um acontecimento que pertence à terra. Apesar de cada ser individual «emergir» do útero de uma mãe biológica, a cultura Acoma entende que cada ser corpóreo alberga espíritos que emergem de outras fontes que hão-de habitar aquele corpo ao longo da sua vida, sendo que uma dessas fontes é a terra, o lugar particular onde esse ser nasceu.

Nota para reflexão: como conciliar os conceitos de nomadismo e lugar de pertença?

terça-feira, 5 de junho de 2018

em minúsculas


   Portugal defeca ídolos semanalmente, concebe heróis ao mês, germina génios de ano a ano. Resultado: olhamos para o passado e dificilmente se enxerga o que quer que seja, a neblina da actualidade não permite, tudo obnubilado pela pressa, pela urgência, pela necessidade de um sucesso descartável, o maior inimigo do saber. Este prefere o ócio, como queria Stevenson, ou a preguiça, como advogava Lafargue, na senda de uma herança deixada por gregos e esbanjada por romanos. Na pior das hipóteses, exige paciência e menos boca do que ouvidos e olhos. Seria talvez aconselhável, antes de mais, um elogio da lentidão. Ou do vagar, como o vislumbrou Herberto Helder nos pescadores de uma Angola que foi a do seu tempo. Sob o Signo dos Peixes é o título da memorável reportagem, agora coligida num volume onde cabem igualmente outras fainas jornalísticas do poeta. Com um mínimo de literatura e um máximo de observação, sem prescindir de pensar aquilo que se vê com a inteligência de um humor distante.
   em minúsculas crónicas e reportagens de Herberto Helder em Angola (Porto Editora, Abril de 2018) oferece-nos a possibilidade de um Herberto mais telúrico do que aquele que certa imprensa hiperbólica foi incensando como se faz aos deuses. O grande poeta que foi não carece de olimpos para continuar a sê-lo. Um rosto humano cai-lhe melhor do que a máscara sagrada, ainda que sejamos tentados, aqui e acolá, a admitir-lhe a veleidade, por nele entendermos uma nostalgia do sagrado, da origem, do imemorial, da ancestralidade, que deve mais a certo paganismo panteísta do que a estranhas noções de santidade. Corremos o risco, porém, de fazermos com ele o que ele viu fazerem com Hemingway: «Não somos tão ingénuos que nos irritemos com a reedição da história: os abutres comem alegremente o cadáver» (p. 52). Os abutres somos nós, os leitores, é a Porto Editora, que editou, é Daniel Oliveira, o filho, é Diana Pimentel e Raquel Gonçalves, que investigaram, digitalizaram, transcreveram, reviram e seleccionaram o maná.
   A dúvida é: não seria uma injustiça para os abutres manter na penumbra estas crónicas, estas reportagens, estes artigos, estas entrevistas? Não merecem os abutres viver até eles próprios se tornarem cadáver? Pela parte que me toca, dou descanso à consciência. Foram bem empregues os 17,70 €. Desde logo pelas gargalhadas arrancadas com entrevistas a Carlos do Carmo e Nelson Ned, Um homem com um metro de altura, mas também com Um passeio no campo onde o Benfica deu 3 ao Sporting ou com essa pérola simplesmente intitulada Seca. Depois, há os elogios a Agustina e a Manuel de Castro e à música pop (p. 97): «Para se estar bem em qualquer parte essencial, sobretudo quando se é jovem, é necessário ser espontâneo, imaginativo, revulsivo. Ser malcomportado. Ser contra todas as gramáticas, a favor da vitalidade. É então que o corpo fala ao corpo que compreende» (p. 100). Era assim na Luanda de 1971, é assim no Portugal de 2018. E sublinhamos: «Ser contra todas as gramáticas, a favor da vitalidade». Mas há mais, muito mais a justificar a exumação destes textos. Da crítica social, de tendências, e política, a peças universais, sem tempo: Aprender ou Não, Museu do Café: «A poesia não habita apenas os livros de poemas, nem se abre só nas intenções» (p. 152).
   Dirão uns que este livro é para fazer render o peixe. Terão as suas razões e a sua razão ninguém a nega. Mas se tudo quanto se faz para render um peixe oferecesse tanto ao leitor como este em minúsculas, estaria o mundo melhor e as livrarias mais aliviadas. Dirão outros que Herberto Helder deve principalmente ser lembrado como um “mago da palavra”, referindo-se à sua poesia. Pois bem, se Os Passos em Volta e Photomaton & Vox não causaram mossa na poesia, consideremos em absoluto a expressão “mago da palavra”. Em poema, em prosa, Herberto Helder é um dos nossos melhores escritores do séc. XX. Com altos, com baixos, com nem tudo genial (isso é que era bom!), um escritor, um homem que lidou com palavras e delas fez a matéria-prima de um poema contínuo que agradará mais numas curvas do que noutras. Dizê-lo é meio caminho andado para que o consigamos encarar de frente, como devem ser encarados os homens, que são da terra, que não são monstros, os homens que escrevem, deste mundo humano, precário, fragmentário, duvidoso, tão belo quão terrível, ainda assim emocionante, vivível até à exaustão de ser vivido.

UM POEMA DE JACK D. FORBES


ILUMINAÇÕES DO RIO TEJO

Cruzando o Tejo
com Lisboa à vista
e Cacilhas por trás
observo os portugueses
como eles me vão observando
a mim:
um índio
de cabelo comprido
um estranho
que eles não aprovam
ou não podem situar
no altar do camponês
ou no saco de plástico do trabalhador urbano.

Caem sobre eles as minhas cogitações.
Tão pobres vejo tantos deles
que uma cisma me acomete
sobre o que terá acontecido
àquele outro todo
e por que terão morrido
às vossas mãos
todos aqueles índios do Brasil
e os escravos de África e de Goa

— por que razão terão eles morrido
para de vós fazerem´
gente tão pobre?

Portugal parece-se muito
com o México, ou com partes
do Terceiro Mundo.
Não parece estar na Europa.
Os grandes conquistadores
estão mortos e enterrados
e o ouro sumiu-se
no sorvedouro inglês
ou noutros sorvedouros
— ou nas goelas dos ricos
que não consigo enxergar
e vivem porventura lá pra cima
por detrás do Sheraton.
Ponho-me pois a cismar
em todos aqueles índios do Brasil
mandados como escravos
pra Lisboa e pergunto-me
vendo aqui tanta gente de pele escura
e até negra
quantos terão sangue índio
— mas talvez essa cor apenas venha
dos mouros ou dos goeses.

Têm cafés e bares
a que chamam Brasil e O Brasileiro
mas isto que significa?

Dizem que uma terça parte desta gente não sabe ler
e que muitos outros lêem mal.
Após séculos de tirania e depois do fascismo
quantos saberão alguma coisa
sobre os índios?
Só trampa e trafulhices
ou propaganda romântica
sobre o maravilhoso império
tão morto agora e enterrado.

Quantos livros do Brasil
narrando a história dos seus primeiros habitantes
lerão eles?
Ou quantos filmes estadunidenses
na televisão lhes deformam as mentes?
E a mim de cabelo comprido
não me podem situar:
só me podem olhar fixamente
como criatura aqui caída da selva.

E penso em como essas pessoas comuns
abalaram de viagem
há tanto tempo
para assaltarem
corpos acobreados e escuros
e dominarem o tráfico
de carne humana,
das especiarias,
do açúcar.

Darão maus frutos os actos de ruindade?
Que destino se revela
em esclavagistas e gatunos?
E todos em declínio, Portugal,
Espanha, a Inglaterra,
os grandes impérios
todos se sumiram.
E Portugal, o primeiro,
foi alfim o último e o mais pobre,
com que justiça?

Não devo porém mostrar-me amargo:
estas pessoas, 
estivadores, condutores de autocarros,
camponeses,
desempregados,
nada fizeram e não vivem
em São Paulo ou no Rio
— mas como seriam eles
se acaso lá vivessem?

E em todas as paredes
e nos caixotes do lixo
há sinais de protesto
contra o imperialismo ianque.
Contra isto também eu protesto
mas de mim a dúvida não sai:
poderei eu crer em ex-imperialistas?
Terão eles sofrido o bastante
para alcançarem a sabedoria
ou apenas para na cupidez
mostrarem ambição?

Ninguém me atirou
«Oh, nós ajudámos a civilizar
os índios, os africanos»
mas diz-me o meu espírito
que as palavras se escondem da audição
e sendo verdade que me ofende uma tão baixa impostura
caso o não seja
declaro estar pronto para a amizade.

Aqui me vejo pois em Lisboa
mas onde estou eu?
Entre amigos
ou entre inimigos,
entre outras vítimas do império,
entre os que nunca dele beneficiaram,
entre os que nunca violaram nem roubaram?

Em Lisboa me vejo
ainda sem saber.


[Lisboa, Maio de 1982]


Jack D. Forbes (n. 7 de Janeiro de 1934, Long Beach, Califórnia, EUA - m. 23 de Fevereiro de 2011, Davis, Califórnia, EUA), in revista Flauta de Luz, n.º 5, trad. Júlio Henriques, Abril de 2018, pp. 75-76.

"UM SUPLEMENTO PORNOGRÁFICO"

Com os melhores actores em Março.


E direito a sequela em Maio.


Tenham vergonha na cara, pá. E ganhem juízo!

segunda-feira, 4 de junho de 2018

VOLUNTÁRIOS INVOLUNTÁRIOS

Em Botafogo existe, como vocês todos sabem, a Rua Voluntários da Pátria. Seu nome provém de uma iniciativa empreendida pelo Império em sua guerra genocida (e etnocida) contra o Paraguai - o Brasil sempre foi bom nisso de matar índios, do lado de cá ou de lá de suas fronteiras. Carente de tropas para enfrentar o exército guarani, o Governo imperial criou corpos militares de voluntários, «apelando para os sentimentos do povo brasileiro», como escreve o verbete da Wikipedia sobre a iniciativa. Pedro II apresentou-se em Uruguaiana como «o primeiro voluntário da pátria». Não demorou muito e o patriotismo dos voluntários da pátria arrefeceu; logo o Governo central passou a exigir dos presidentes das províncias que recrutassem cotas de «voluntários». A solução para esta lamentável «falta de patriotismo» dos brancos brasileiros foi, como se sabe, mandar milhares de escravos negros como voluntários. Foram eles que mataram e morreram na Guerra do Paraguai. Obrigados, escusado dizer. Voluntários involuntários.

Eduardo Viveiros de Castro, in Os Involuntários da Pátria, revista Flauta de Luz, n.º 5, Abril de 2018, p. 19.

INTERVALO DOLOROSO


Gazeta das Caldas, n.º 5228, sexta-feira, 1 de Junho de 2018.

(também aqui)

GARANTA #1


Garanta
Revista de Letras, Artes e Cultura
N.º 1, Território & Escrita
Vários Autores
Janeiro de 2018

Inútil Território, pp. 52-60. 

ERRAR PELAS ESQUINAS



«Esta é a verdadeira história de Zé Petinga, o homem que não parava de escrever». A imagem assim escrita por Henrique Manuel Bento Fialho, no início de uma das histórias do seu mais recente livro, é o mais fiel, simples e absoluto retrato do Zé Petinga. Nada mais se poderá dizer dele, pelo menos quem se cruza com ele nas esquinas e ruas da Nazaré. Henrique, no entanto, revela mais. E faz dele personagem até de uma outra história que contracena com Taranta (quem é do Sítio reconhece o nome). Mas é na página 227 do livro «A Festa dos Caçadores» que está este «amante de baronesas a tempo inteiro». Não uma biografia completa, é somente um relato com expressão do que o homem pode ser. Um breve diálogo e destreza de imaginação, um lirismo que compromete todos os seus amigos, uma vida contada sob um nome, mas que tem vários mundos lá dentro. De resto, vale a pena ler as mais de 330 páginas deste livro escrito por um autor que também erra pelas esquinas quando o vento o empurra até à praia.


Mário Galego, aqui.


Adenda: e a Maria, no Jardim de Luz, partilha um excerto do conto O Homem Que Anotava a Cor dos Cabelos, pp. 151-153. 

terça-feira, 29 de maio de 2018

O SAL DA TERRA

   «Vós sois o sal da terra.» Quem é o sal da terra? Por mim, acho que são as pessoas mais ou menos (ou até completamente) marginais: as que protestam contra, contestam, põem dúvidas sobre, ignoram ou não levam a sério, riem de, gozam com - a sociedade onde (por acaso, dizia o outro) se encontram. Vê a gente uma cidade e repara logo que ela respira pelo lado da irregularidade. A irregularidade que cria, evidentemente. Os lugares estão cheios de bom comportamento, entradas e saídas nos escritórios, tanto de largura e altura para as intenções e os actos, os respeitosos cumprimentos a vossências - e a irremediável venda de cada um, a curto ou a longo prazo. Ele é tudo almas à comissão ou à consignação. Mas eis que aparecem os extravagantes, os originais, os bizarros, os exóticos, os despassarados, os que não, os que trazem uma lá deles no meio da cabeça esfuziante. Eles são o sal da terra.


Herberto Helder, in em minúsculas - crónicas e reportagens de Herberto Helder em Angola, Porto Editora, Abril de 2018, p. 112.

URBI ET ORBI

Parece haver qualquer coisa de infantil no fascínio que no mundo actual as máquinas exercem junto de um grande número de pessoas. No contexto do industrialismo virtual e do capitalismo internético, a associação da máquina a um brinquedo é quase inevitável. Quando no fim dos anos 90 se propagou urbi et orbi a deslumbrada excitação com um aparelhómetro digital chamado Tamagochi, fabricado por uma empresa japonesa de brinquedos e jogos electrónicos (a quarta mundial deste sector), esse comercial fenómeno de adesão não pôde deixar de surpreender quem o observasse de fora, ao ver a dependência que imediatamente criou entre os «adeptos», adultos e crianças. Este objecto (que em 2017 foi relançado pela mesma empresa, obviamente com belas inovações técnicas e de imaginário) consiste em criar uma ficção compulsiva: cuidar, a tempo e horas, de um «animalzinho», como se ele fosse real - dar-lhe «comida», «bebida», «banho», «carinhos», tudo virtual. Na nova versão, o Tamagochi é vendido «com uma opção de família»: comunicando com outro, pode ter filhos, os quais poderão depois casar, etc. E este novo produto já promoveu «aplicações» graças às quais o usuário (ou deveremos dizer utente?) pode cuidar de um alienígena, entrando assim em contacto com os tão apetecidos mundos extraterrestres para onde os humanos irão, um dia destes, morar e reproduzir-se, quando a Terra estiver finalmente inabitável...

Júlio Henriques, in Humano Aumentado, revista Flauta de Luz, n.º 5, Abril de 2018, pp. 10-11.

domingo, 27 de maio de 2018

PAISAGENS POSSÍVEIS PARA A CONSTRUÇÃO DA MINHA CASA


Falemos de Casas
texto para catálogo da exposição
Paisagens possíveis para a construção da minha casa
de Luís Rodrigues

24 de Maio da 28 de Junho de 2018
no Espaço António Borges Coelho
do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa

(mais informações: aqui)

(...)

   Há quem não se contente com a superfície e então escava, mete o braço de fora, força, sobe e desce, arromba, desbrava, à procura do que possa estar para lá da superfície. E então a superfície surge-nos com a textura do relevo. Para lá da superfície há sempre mais superfície. Esta tendência de andarmos para lá dos nossos passos, de imprimirmos o nosso corpo nas sombras, transformando-o numa espécie de fantasma carnívoro, é algo que se nos apresenta indecifrável. Por que razão não nos contentamos com a superfície das coisas? Não nos chega sabermos onde metemos o pé, temos sempre de saber o que se esconde por baixo do terreno onde assentamos o pé. Julgo haver melancolia nesta ansiedade, a mesma que nos reprime junto do outro. Os relevos, nestes trabalhos de Luís Rodrigues, oferecem à superfície um exterior que, paradoxalmente, parece vindo de dentro das casas como um som que atravessa as paredes pela fresta da intimidade. São a figuração do desejo, espécie de utopia da serenidade.

(...)

A LER

Eutanásia: o liberal no seu labirinto, por Vasco M. Barreto, aqui:


Uma boa lei da eutanásia, que previna as derrapagens que foram entretanto identificadas na Holanda e na Bélgica, que evite decisões tomadas em estado de depressão ou influenciadas por parentes perversos e atenda também às preocupações dos médicos e enfermeiros que praticarão o acto, parece-me uma medida sensata e inevitável a prazo numa sociedade em que haja verdadeira separação entre o Estado e a Religião e em que a liberdade individual seja um primado.


P.S.: entretanto, fui recordado do que escrevi sobre o filme Mar Adentro (aqui).

sábado, 26 de maio de 2018

O PROBLEMA DA EUTANÁSIA

   O debate acerca da eutanásia é dos mais difíceis de manter sob o jugo exclusivo da razão, na medida em que está sujeito a percepções íntimas, altamente subjectivas, e emocionais acerca do mais antigo dos problemas humanos: o sentido da vida. Não é possível pensar o sentido da vida humana sem o relacionar com a morte, a única certeza, afinal, que a natureza nos oferece sobre isto de estar vivo. Estar vivo é estar à morte, dizia o poeta. Deixemos de lado credos e convicções sobre aléns inverosímeis. Concentremo-nos na vida na Terra, a única de que estamos certos por ser aquela que experimentamos... em vida.
   Eutanásia significa morte serena, morte pacífica. Partimos do princípio de que nenhum ser humano deseje à hora da morte outra coisa senão paz e serenidade. Já que temos de abandonar este mundo, que o façamos em sossego. Medo da morte não tenho, tenho é do sofrimento, diz-se. Nos funerários, muitas vezes consolamos os vivos referindo-nos aos mortos nestes termos: coitadinho, estava a sofrer tanto, foi melhor assim. Até prova em contrário, devemos presumir que toda a gente no mundo ambicione uma morte serena e pacífica. A questão etimológica não é meramente académica, ela recoloca-nos no lugar certo do debate. Quando se discute a possibilidade da eutanásia não se discute outra coisa senão o direito que todos devem ter a uma morte serena, pacífica.
   “Desvalorizar a vida humana” não pode ser, portanto, pretender oferecer-lhe paz e serenidade num determinado momento, o mais importante de todos, o momento em que a vida humana se transforma noutra coisa (independentemente de qual seja). Por “desvalorizar a vida humana” entendeu eu, por exemplo, submetê-la à servidão, explorá-la economicamente, impedi-la de se afirmar, desenvolver, consolidar na pessoalidade, enquanto livre, singular, única. Por outro lado, para que a valorizemos também não é necessário adoptar uma doutrina da “santidade da vida humana”. Ao fazê-lo, estaremos a ceder a uma perspectiva única da vida humana, uma perspectiva aniquiladora da pluralidade de perspectivas que a nossa vida não só deve aceitar como promover.
   Facilmente se constata no comunicado do PCP acerca da “provocação da morte antecipada” esta necessidade de distinguir uma noção de “santidade da vida humana” de uma noção de “valor da vida humana”, a qual nos leva a admitir decisões que parecem entrar em contradição com uma recusa da eutanásia: «O PCP continuará a lutar para a concretização, no plano político e legislativo, de medidas que respondam às necessidades plenas dos utentes do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente (…) na garantia do direito de cada um à recusa de submeter-se a determinados tratamentos; na garantia de a prática médica não prolongar artificialmente a vida; (…)». Ou seja, admitimos que um doente recuse submeter-se a determinado tratamento e que um médico não prolongue artificialmente a vida. Porquê? Primeiro, porque julgamos que um doente tem o direito a não querer ser tratado, ou seja, tem o direito a decidir sobre as condições em que quer viver; segundo, porque a vida artificial já não é vida.
   Julgo não ser este o espaço para uma discussão exaustiva sobre os vários tipos de eutanásia questionáveis (voluntária, involuntária, não voluntária), mas não vejo como possamos não chamar “eutanásia voluntária” à recusa consciente de tratamentos que implicarão uma antecipação da morte, assim como não percebo a diferença entre “eutanásia não voluntária” e a decisão de um médico não prolongar uma vida artificial. No limite, estamos a falar exactamente das mesmas coisas. Poder-se-á argumentar que estando ambas previstas na lei, será escusado uma nova lei que regule a eutanásia de um modo mais abrangente. De certo modo, é isso que faz o PCP:

«A ciência já hoje dispõe de recursos que, se utilizados e acessíveis, permitem diminuir ou eliminar o sofrimento físico e psicológico. Em matérias que têm a ver com o destino da sua vida, cada cidadão dispõe já hoje de instrumentos jurídicos (de que o “testamento vital” é exemplo, sem prejuízo dos seus limites) e de soberania na sua decisão individual quanto à abstinência médica (ninguém pode ser forçado a submeter-se a determinados tratamentos contra a sua vontade). A prática médica garante o não prolongamento artificial da vida, respeitando a morte como processo natural recusando o seu protelamento através da obstinação terapêutica. Há uma diferença substancial entre manter artificialmente a vida ou antecipar deliberadamente a morte, entre diminuir ou eliminar o sofrimento na doença ou precipitar o fim da vida».

   De acordo, até à última frase. A redacção está correcta, mas leva-nos a questionar qual a diferença entre interromper uma vida artificial e antecipar a morte? Nenhuma. Qual a diferença entre recusar um tratamento vital e precipitar o fim da vida? Nenhuma. Logo, não me parece lógico estar contra a eutanásia admitindo-a em certas circunstâncias. «A oposição do PCP à eutanásia tem o seu alicerce na preservação da vida», excepto quando esta preservação implique um prolongamento artificial da mesma ou a coacção de um doente obrigando-o a tratamentos que ele não quer fazer. Dignificar a vida em vida, portanto, admite excepções ao próprio valor que damos à vida. Aceitamos que uma vida artificial não vale tanto como uma vida natural, aceitamos que o livre arbítrio de um ser humano vale mais que a sua própria vida (ou o prolongamento dela em circunstâncias de enfermidade). Não percebemos, deste modo, por que é que nestas duas circunstâncias concretas o «valor intrínseco da vida» não se sobrepõe. Ou percebemos. É porque, na realidade, sabemos que o valor intrínseco da vida tem os seus limites.
   O problema estará em definir os limites do valor intrínseco da vida. Para uns, o direito a viver sem sofrimento delimita esse valor. Por si só não é grande argumento. Há demasiada subjectividade no sofrimento (daí que cada projecto de lei o tabele de modo diferente). Para outros, não há limites ao valor intrínseco da vida (estão no seu direito, até podem condenar o suicídio). Por fim, há aqueles para quem o valor intrínseco da vida se submete à liberdade que cada um deve ter sobre a decisão do que é uma vida digna. Se alguém que não está no uso pleno das suas capacidades e faculdades julgar que a sua vida não é digna, que direito tenho eu de lhe impor o contrário? Não será muito mais indigna está imposição? O exemplo de Ramón Sampedro pode servir de paradigma. Com base em que direito poderia eu impor àquele homem uma noção de vida digna? Eu não estava a viver a vida dele, ele é que estava a viver a sua vida. Logo, só ele poderia julgar se era digna ou não a vida que estava a viver. Tendo Ramón escolhido a morte, não será nossa obrigação garantir que ela se realize da melhor forma possível?
   Penso igualmente em André Gorz, que perante o sofrimento da sua amada (cancro endométrio) resolveu pôr-lhe um fim, suicidando-se de seguida. Tinham ambos mais de 80 anos. Gorz deixou um testemunho tremendo desta vivência: “Carta a D.”. Poderá alguma coisa indignar-nos na sua decisão? Não vejo como o direito a matar ou a matar-se, mediante circunstâncias delimitadas pela lei, possa ser considerado um «retrocesso civilizacional». Parece-me muito mais discutível o direito à tortura, o direito a prolongar essa tortura que é viver quando se julga já não fazer qualquer sentido a vida. Parece-me muito mais humanista compreender e aceitar as decisões de Gorz e Ramón do que condená-los, parece-me muito mais solidário estar ao lado deles no sofrimento de uma decisão que em nenhum momento foi leviana. Quanto ao «princípio da igualdade», cabe-nos questionar: que igualdade pode haver entre alguém que em querendo se mata e alguém que em querendo matar-se o não consegue/pode fazer? Novamente o caso Ramón Sampedro é um bom exemplo de como não faz sentido advogar o princípio da igualdade em matéria onde tudo é desigual.
   Por fim, gostaria de referir um forte argumento das pessoas que estão contra a eutanásia. É também um forte argumento em matéria de pena de morte. As pessoas que estão contra a eutanásia, por vezes, argumentam que os médicos podem enganar-se, o veredicto médico pode estar errado, Stephen Hawking não tinha parcos meses de vida quando lhe diagnosticaram a doença, o que parece irreversível por vezes torna-se reversível, a ciência está sempre a progredir, etc… É, quanto a mim, um forte argumento, daqueles que reforçam a dimensão problemática do debate. Quanto a isto, não podemos senão apoiar-nos na fé, aqueles que a têm, ou na razão, partindo do princípio de que ninguém foi privado dela à nascença. Como matérias de fé não sustentam leis, devemos dar mais valor ao que a razão nos diz. E o que a razão nos diz parece-me bem explicitado na citação de Peter Singer com que terminarei este texto:

Ao número muito pequeno de mortes desnecessárias que podiam ocorrer no caso da legalização da eutanásia devemos contrapor a grande quantidade de dor e de aflição que sofrerão os pacientes que se encontram de facto em fase terminal de doenças se a eutanásia não for legalizada. (…) Talvez um dia seja possível tratar todos os doentes terminais e pacientes incuráveis de uma forma tal que ninguém requeira a eutanásia e a questão deixe de se pôr; mas de momento não passa de um ideal utópico e não constitui, de forma alguma, um motivo para recusar a eutanásia a todos aqueles que têm de viver e de morrer em condições muito menos confortáveis. Em todo o caso, é altamente paternalista dizer a pacientes às portas da morte que são agora tão bem tratados que não precisam da opção da eutanásia. Seria mais consentâneo com o respeito pela liberdade e pela autonomia individuais legalizar a eutanásia e deixar os pacientes decidir se a sua situação é insuportável ou não.

(In Ética Prática, trad. Álvaro Augusto Fernandes, Gradiva, 2.ª edição, Setembro de 2002, pp. 217-219)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #45



   Antes de mais, convém esclarecer o que é isso da minha geração. Penso na primeira geração de portugueses que cresceu em democracia, os nascidos na década de 1970, ensinados num sistema massificado. Nascidos já depois de 25 de Abril de 1974, ou pouco antes, apanhámos pela frente um mundo promissor, o qual se fazia acompanhar do peso das expectativas, de ambições familiares, de credos sociais e políticos. Os nossos pais queriam-nos doutores, deram-lhes a possibilidade de oferecer aos filhos tudo aquilo de que haviam sido esbulhados durante a ditadura. Queriam os filhos doutores, engenheiros, faziam gala na exibição dos canudos e dos títulos. Era assim.
   Entrei para a universidade em 1992, terminei o curso de Filosofia em 1997. Em teoria, esperava-me um futuro de docência quando ser-se professor era ainda coisa respeitável. Rapidamente nos apercebemos da sombra de ilusão arrastada por uma ideia de futuro, não havia ligações directas entre formação académica e exercício profissional. Havia nepotismo oligárquico, havia cunha, havia catequese, em contraste com a parangona da política de mérito à qual se submetiam mentes ingénuas e anódinas. Portugal fartou-se de formar (farta?) licenciados sem emprego, sem trabalho, uma geração outrora apelidada de rasca com a corda da frustração a apertar o gasganete.
   Depois, apanhámos pela frente a emergência de um novo génesis. A revolução tecnológica em curso tornou obsoleta e anacrónica grande parte da nossa formação, transfigurou o mundo, provou-nos que estávamos deslocados, teríamos de reaprender a vida a breve trecho. Velhos valores caíram em completo desuso. Que valor tem hoje isso a que chamamos privacidade quando são as próprias pessoas a exibirem nas redes cada passo que dão nas suas existências ditas privadas? A paisagem transformou-se, a paisagem geográfica e a paisagem humana. Hoje, trazemos o mundo no bolso das calças. Não se ouve música como se ouvia, as lojas de discos estão a fechar como fecharam os clubes de vídeo. São espécies em vias de extinção.
   A minha geração é essa geração que se observou dessincronizada do mundo, a primeira a aperceber-se de que o velho mundo não tinha retorno, o mundo novo era uma aventura de acasos e de acidentes e de incertezas, o corpo social fora deformado por uma vontade de futuro cativa de nostalgias inconsequentes. À pressão do sucesso adicionámos a compressão da rede, do estar em cima do acontecimento, da agitação diária, do ruído descontínuo da visibilidade. O tempo acelerou-se. Não admira que comecem a surgir tantos elogios do silêncio e da lentidão, mesmo provindos de meios onde o ruído e o tumulto são traves mestras. 
   1998, para mim, não foi apenas o ano da Expo 98, essa ideia de um Portugal moderno a surdir do lixo. Foi também o ano em que durante um interrail pude aperceber-me do quão incipiente era a modernidade no meu país. Foi o meu primeiro ano de trabalho, numa escola no Alto da Damaia onde praticamente todos os professores resistiam ao uso de computadores e criticavam acintosamente as primeiras experiências no sentido de informatizar serviços administrativos. 1998 foi um ano de abre olhos, a Filosofia valer-me-ia para pouco mais do que para olhar criticamente o mundo à minha volta. E sofrê-lo em solidão, à distância. O resto era reaprendizagem, aceitar o que se perdera como curso dos tempos ou resistir à perda teimando naquilo que acreditava fazer sentido preservar.
   O processo pedia banda sonora a propósito, a qual chegou, imagine-se, da cidade menos provável, a mais clássica e erudita da Europa no que a música diz respeito: Viena. O improvável aconteceu, o espanto mantinha-se vivo e actual, nem tudo era já visto. Foi nesse território classista e conservador que a revolução electrónica irrompeu com estilo e sabedoria. Com groove, sossego, frescura, fleuma. The K&D Sessions (1998), da dupla Kruder & Dorfmeister, fazia da remistura o que os dadaístas fizeram com o ready-made. O trabalho de colagem, programação, remistura, produção, respondia aos sinais dos tempos com arte e engenho. Ouvimos hoje The K&D Sessions com a mesma serenidade com que o recebemos no início, e lembramo-nos da escola que então formou Tosca, Peace Orchestra, Madrid de Los Austrias, Sofa Surfers, dZihan & Kamien… O mundo 'inda agora (re)começara.


quinta-feira, 24 de maio de 2018

"O EXEMPLO À MÃO:"

«Quando eu crescer, vou cortar as flores grandes, para não haver vento.» A história é esta: fazia muito vento, e por isso a mãe não deixara a filha ir brincar para a rua. Como o sinal do vento o via ela nas árvores a abanar («as flores grandes»), cortando-as desapareceria o sinal, quer dizer: a própria coisa (o vento). Então, já ela poderia ir brincar para a rua. Mas como o poder é dos adultos (a «quantidade milagrosa» - a idade), só quando ela «crescesse» poderia cortar as árvores. Modificaria a realidade segundo o princípio do desejo. E isto é não só o princípio mesmo da poesia, mas o das relações do homem com a realidade - o significado do trabalhador criador. Adaptar o mundo ao nosso desejo, através de um acto radical. E é quando o trabalho se faz jogo.

Herberto Helder, in em minúsculas - crónicas e reportagens de Herberto Helder em Angola, Porto Editora, Abril de 2018, p. 47.

POSIÇÃO POLÍTICA SOBRE EUTANÁSIA


Posição Política do PCP sobre a provocação da morte antecipada: ler aqui. Como será óbvio para quem me conheça, discordo desta posição. A seu tempo direi porquê. 

ROBERT INDIANA (1928-2018)


Setembro de 1997, Centro Cultural de Belém. No catálogo da exposição The Pop '60s - Travessia Transatlântica, organizado por Marco Livingstone:

Robert Indiana, americano, nasceu em 1928. Estudou no Art Institute of Chicago entre 1949 e 1953 e na University of Edinburgh (1953-54). O National Museum of American Art, Smithsonian Institute, Washington, D.C., dedicou-lhe uma importante exposição em 1984. Viveu e trabalhou em Nova Iorque durante a década de 60. Hoje, vive e trabalha na ilha de Vinalhaven, Maine. E aí morreu no passado dia 19 de Maio do ano corrente. As obras de Indiana que integraram a exposição no CCC:


Terre Haute, 1960



Black Diamond American Dream N.º 2, 1962


Love, 1966


USA 666, 1964-66

quarta-feira, 23 de maio de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #44



   Vem na Wikipédia, pelo que não deve ser verdade: «Enfrentando um processo de despejo por conta de pagamentos atrasados, João Gilberto deixou o apartamento em que morava, no Leblon, na zona sul do Rio. O músico foi levado para um imóvel cedido por uma amiga da família. Aos 86 anos, ele vive numa situação de fragilidade física e mental, agravada pela condição de miserabilidade financeira, relatou, no dia 2 de maio de 2018, a advogada de sua filha Bebel Gilberto, Simone Kamenetz». Saltamos da enciclopédia de todas as desconfianças para a imprensa e nada desmente o testemunho, apenas o agrava. Como é possível? O pai da bossa nova, pelo menos segundo quem a historiou leia-se Chega de Saudade, de Ruy Castro —, desafinou sempre na vida, a introspecção levou-o para um mundo só seu, quis cantar tão baixinho, contra o ruído e a dispersão, que acabou silenciado num mundo onde é tudo estrondoso, aparatoso, espectacular. 
   Deixemos de lado a história, os acidentes, os factos, a especulação melómana. Concentremos esforços na imagem do homem sem recursos artificiais, só ele e o violão em palco, aqui e acolá um arranjo de cordas, o piano que maravilhou a malta do jazz a ponto de ir parar à Blue Note essa obra-prima que dá pelo título de O Pato. Deixemos de lado a náusea que nos toma conta do pensamento e do pensamento chega às mãos e das mãos passa para o teclado. Poupemos o leitor à náusea, chamemos antes atenção para este facto: João Gilberto, esse mesmo, o que reinventou o violão com puxadas ao ritmo do swing solar, autor de Bim Bom e Hô-Bá-Lá-Lá, vive na miséria, isolado do mundo, porventura exilado de si mesmo, num direito que sempre foi seu. Dever seria, pelo que deu à humanidade, que a humanidade se reunisse em torno deste homem e lhe desse tudo o que se deve a um Deus. Em vez disso, voltamos as costas como se nada e quadruplicamos lamentos e carpideira inconsequentes. 
   Afinal, quantos génios produz o mundo num século? Não seria, no mínimo, exigível que tendo eles sofrido o que de sofrimento pode ser exigido a um ser que cria e se recria e inventa, não seria, no pelo menos mínimo dos mínimos, expectável ou digno de se ver que esses seres raríssimos pudessem pelo menos morrer em paz e conforto, quer dizer, no consolo burguês de não terem despesa e a fome saciada à mão de semear? Parece haver uma incompatibilidade entre o génio e o consolo, entre a criação e o conforto. 
   Adivinha: quem foi o suicida que disse ser o artista aquele que nasce para carregar os males do mundo? Estou contra este artista cristianizado, messiânico, estou contra, ninguém merece morrer na cruz, muito menos quem passou a vida a carregar com ela para que à sua volta crescessem papoilas de vento, fragmentos de beleza. Não pode ser, não é justo nem compreensível que essa voz que nos serena e tranquiliza pereça em miséria, em crise, em tão precária condição. Onde estão os artistas instalados que outrora tanto elogiaram Gilberto? Que têm feito por Gilberto? Não seria um mínimo dos mínimos que se juntassem e fizessem uma vaquinha para lhe oferecerem a vista que merece no Leblon? 
   Ó mundo injusto que Sá de Miranda tão certeiramente definiu, só premeias quem não te merece. Que nos sobra? O desejo que na face de todo o discurso laudatório à hora do necrológio escorra o escarro da nossa náusea.


JÚLIO POMAR (1926-2018)


Entre os artistas figurativos mais valorizados nas Exposições Independentes (1943-1950) e nas Exposições Gerais (1946-1956), encontravam-se Júlio, Avelino Cunhal (1887-1966), Manuel Ribeiro de Pavia (1910-1957), Júlio Pomar, Lima de Freitas (1927-1998), João Abel Manta (n. 1928), Rolando Sá Nogueira (n. 1921), Mário Dionísio, Alice Jorge (n. 1924), Augusto Gomes (1910-1976), João Hogan (1914-1988), Nikias Skapinakis (n. 1931), Rui Filipe (n. 1928), Rogério Ribeiro (n. 1930), Lagoa Henriques (n. 1923), Bartolomeu Cid (n. 1931), António Charrua (n. 1925), António Domingues (n. 1921), Querubim Lapa (n. 1925), Arlindo Vicente (1906-1978) e, prolongando o naturalismo, Falcão Trigoso (1879-1956) e António Saúde (1875-1958).
   Júlio Pomar foi o que mais se distinguiu. O seu quadro O Gadanheiro (1945) revela o entendimento do americano Thomas Benton. A apresentação de O Almoço do Trolha, em 1947, constitui um triunfo do neo-realismo. O quadro revela a assimilação da lição do brasileiro Cândido Portinari, na matéria áspera, na acentuação anatómica das mãos e dos pés.
   Outro marco importante foi a experiência colectiva feita por Pomar, Cipriano Dourado, Rogério Ribeiro, António Alfredo, Lima de Freitas e o escritor Alves Redol. Em 1953 partiram em demanda da gente dos arrozais do Ribatejo, num inquérito que procurou registar histórias, tarefas e pessoas, reveladoras da vida camponesa. Esta experiência ficou conhecida por «Ciclo do Arroz» (1953).
   Seguiu-se o levantamento dos heróis populares, notável no quadro intitulado Maria da Fonte (Pomar, 1957), nome de uma mulher nortenha que, no século XIX, chefiou uma rebelião popular. Neste quadro, de tons escuros, alguns admiradores de Pomar viram a conjugação e a actualização de valores picturais de Columbano e Goya.
   Depois, a pintura de Pomar passou a procurar sugerir o movimento com pinceladas rápidas, numa figuração fragmentária e descontínua. As cores, inicialmente abafadas, adquiriram grande vivacidade, acabando por alastrar-se em grandes áreas, matissianamente, já nos anos sessenta


Rui Mário Gonçalves, in A Arte Portuguesa do Século XX, Círculo de Leitores, Dezembro de 1998, pp. 69-70