segunda-feira, 23 de abril de 2018

DIA MUNDIAL DO LIVRO E DO DIREITO DE AUTOR


Há dias, um amigo andou cá por casa a tirar fotografias ao búnquer. Não apanhou todas as estantes, mas dá para ver que a vida não vai fácil. Este é um "momento Caras" na vida d’Antologia do Esquecimento:










Fotografias de Mário Calado Pedro.

AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM


O escritor húngaro Sándor Márai (n. 1900 – m. 1989) ia completar 89 anos de idade quando resolveu dar um tiro na cabeça. Tinha perdido a mulher há três anos, assim como o filho adoptivo, vivia isolado, contaminado pelo cancro. Deixara a Hungria em 1948, insatisfeito com o regime comunista que então dominava o país. Viveu algum tempo em Itália até se fixar definitivamente em San Diego, nos EUA. Apesar de escrever originalmente em húngaro, foi durante muito tempo proibido no seu país. Só alguns anos depois de falecer, começou a sua obra a ser mundialmente traduzida e reconhecida como uma das mais estimulantes do séc. XX. As velas ardem até ao fim (Publicações Dom Quixote, 1.ª edição, Outubro de 2001) data de 1942. A Europa estava mergulhada na Segunda Grande Guerra, com o Reino da Hungria a fazer parte do eixo que apoiava a estratégia nazi. Uma das características geralmente associadas ao livro de Márai é a nostalgia da multiculturalidade do Império Austro-Húngaro, aflorada em brevíssimas passagens que parecem indiferentes ao corpo do texto. É bom lembrar, no entanto, que as duas personagens centrais do livro provêm de contextos socioculturais diversos. O general Henrik é rico e nobre, vive num palácio com Nini, a velha ama que o criou, filha do carteiro da aldeia, fiel companhia de uma vida solitária. «Havia vinte anos que não recebiam visitas» (p. 13), quando Konrád, amigo de infância, resolve reaparecer passados 41 anos de uma ausência intrigante. No colégio que frequentaram havia rapazes provenientes dos palácios da Boémia, dos solares da Morávia, dos castelos tiroleses e dos palacetes de caça estirianos, das casas de província húngaras, «rapazes eslavos de testa estreita, em cujo sangue se misturavam todas as características humanas do Império» (p. 29). É neste ambiente multicultural que germinará a amizade entre dois seres bem distintos. «Tinham dez anos quando se conheceram» (p. 29). Konrád era filho de um funcionário público da Galícia com título de barão. A mãe era polaca, de origens humilíssimas. 
   O tema da amizade entre Henrik e Konrád é a dimensão mais evidente do romance, o qual desenvolve amiúde meditações de carácter axiológico sobre esse valor que tanto tem ocupado a filosofia ao longo de milénios de especulação metafísica. Apesar das alusões platónicas e kantianas, a referência mais evidente será a Ética a Nicómaco, de Aristóteles, segundo a qual um homem ama o seu próprio bem ao amar um amigo. Mas há uma outra dimensão neste romance que extravasa a questão da amizade. Grande parte do livro é um longo monólogo de Henrik sobre aquilo que terá levado Konrád a desaparecer durante 41 anos. O monólogo ocorre durante o jantar do reencontro, pautado pelo ritmo das velas a arderem até ao fim. Esta marcação do tempo, altamente musical, remete também para algo que começa a separar Henrik de Konrád quando ainda eram jovens. O primeiro foi educado para a espada, é um homem do real, um militar, a sua relação com o mundo apoia-se nos factos, estes são a carne da realidade. Mas por detrás da realidade há algo mais, há uma verdade que lhe escapa. Ele sabe disso e é isso que o frustra. Konrád, ao contrário de Henrik, refugia-se na música. A música é uma linguagem perigosa, dois corpos comunicam através da música de um modo simbólico que Henrik não entende, mas Konrád desenvolve. 
   «A realidade não é a verdade. (…) A realidade é apenas um pormenor» (p. 54), diz Henrik a Nini quando esta o questiona sobre as vantagens do reencontro com Konrád passados 41 anos. Estão agora na casa dos 70, a juventude passou, algo os separou e Henrik quer saber o quê. Não lhe importam os factos, esses ele sabe-os, não lhe importa a realidade, essa ele conhece. «Diz-me, o que há lá no íntimo?» pergunta Henrik a Konrád. Mas este praticamente não fala, limita-se a ouvir. Os leitores saberão apenas a versão da história segundo Henrik, e a versão da história deixa-nos no limbo entre os factos da realidade e uma intimidade impossível de decifrar. «Não se trata de me defender, porque quero saber a verdade, e quem procura a verdade, só pode começar a busca dentro de si» (p. 101). A verdade parece inacessível, está na morte. Pelo meio, o amor a uma mulher, o tema da traição, a fuga, uma eventual tentativa de assassinato, acusações de cobardia esgrimindo exemplos de coragem íntima, desinteressada, sacrificial, a memória de alguém que já não existe, ou existe de certa maneira como elo entre os dois, a vingança… 
   «Tudo o que outrora eram factos, tornam-se em pó e cinzas» (p. 137). A verdade escapa aos factos porque a verdade é muito mais profunda do que a realidade, esta observa-se à superfície, não determinada a amizade entre dois homens. «Li e reli Platão» (p. 81), diz o general. Nota-se. Ele sabe o que é uma ideia. Só a realidade se compreende, as ideias são modelos inalcançáveis até à hora da morte, até à hora da verdade. «Sim, um dia chega o reconhecimento da verdade: e isso significa a velhice e a morte» (p. 142). Muito mais do que uma história de amizade, As velas ardem até ao fim é a partitura a partir da qual ouvimos uma espécie de música que nos oferece simbolicamente um pouco de verdade. A amizade é o pretexto para escutamos essa música composta por Sándor Márai… em solidão. Ficamos sem saber por que voltou Konrád. Qual a sua versão dos acontecimentos? O que o fez regressar? Qual a sua verdade? Tudo o que sabemos é-nos dito por Henrik. Konrád terá fugido por cobardia. Mas fugiu de quê? E em que é que a coragem lhe falhou, se é que falhou? Poderá a morte desfazer o mistério?

sábado, 21 de abril de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #41



Em memória do Basquiat.

   Os anos 90, esses saudosos anos em que três malucos de Aberdeen fizeram ressuscitar o rock de guitarras. Bem sei, os Pixies estavam no activo desde 1988 e os Sonic Youth desde 1982. Porém, o sucesso obtido pelos Nirvana com Nevermind (1991) veio redistribuir as cartas sobre a mesa. Nada voltaria a ser como era. Começou a falar-se de grunge, coisa que ainda hoje ninguém sabe bem o que significa. A raiz punk está lá, mas também o heavy metal da década de 1970, o chamado rock alternativo onde podemos incluir tudo aquilo que escape aos velhos rótulos.
   Fuga aos velhos rótulos. 1992 será um ano marcante em termos de fugas. O horizonte tem agora a defini-lo uma linha de fumo, os sonos ficam trocados, há prédios à nossa volta, em vez de árvores, cimento em vez de areeiros. Recordar-se-ão dos Rage Against the Machine e dos Faith No More, cozinhando um som pesadão mas atractivo que apelava tanto a movimentos hip hop como a posturas heavy metal. Certo. Mas 1992 foi também o ano em que do nada apareceu uma banda de rock, isso mesmo, sem guitarras, isso mesmo. E a isso sim, demos o nome de inovação.
   Em 1992, oriundos de Cambridge, os Morphine publicaram o álbum de estreia: Good. Eram um trio, tal como os Nirvana, mas não eram um trio convencional. Em vez de guitarra, bateria e baixo, eram um trio composto por bateria, saxofone e baixo. Porra, ainda por cima por um baixo com apenas duas cordas. Que provocação! À primeira audição era natural a estranheza, o espanto, o desconforto. Chegava-se a um tema como You Look Like Rain e dizia-se: jazz. Escutava-se I Know You e apontava-se o dedo: Tom Waits. Mas a voz e o baixo de Mark Sandman enviavam-nos para regiões mais próximas da pop. E os saxofones de Dana Colley por vezes sopravam com mais intensidade e raiva que duas ou três guitarras em desgoverno punk.
   Os Morphine trouxeram estranheza ao ano de 1992, não encaixavam naquela coisa do grunge. E no entanto… As prestações ao vivo eram igualmente enérgicas, os temas das canções claros, directos, viscerais, pese embora a melancolia distribuída a espaços por versos altamente terapêuticos. Morphine, o nome do trio. Talvez só tenhamos começado a perceber bem ao que vinham estes Morphine ao segundo álbum, quando muita gente dizia que o formato facilmente se esgotaria.
   Cure For Pain (1993) é pura medicina alternativa. É certo que muito a espaços acrescentaram um órgão e uma guitarra acústica discretíssimos, como em Buena tema de inspiração funk, tal como All Wrong , que não fosse o que é podia ser uma coisa assim tipo Rage Against the Machine. Mas logo a seguir deparamos com o refrão pop de I’m Free Now, as melodias sedutoras de Candy e In Spite of Me, os apontamentos de saxofone ao melhor estilo hard bop em A Head with Wings, o rock’n roll de Thursday, a inspiração folk de Mary Won’t You Call My Name, o ambiente soturno de Let’s Take a Trip Together, uma canção-medicamento, a única que por ora nos apetece ouvir, em repeat:


IN MEMORIAM

Cão.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

DÁDIVA


À medida que descemos em direcção ao leito do mar, a água exerce maior pressão, arrefece e predomina a escuridão; se nos elevarmos, o oxigénio rareia até deixar de existir, o ar arrefece e achamo-nos na escuridão; mas é generosa a Terra e a existência o Bem. 


Jorge Muchagato, aqui.

COCHE ARDENTE




Uma noite, no Verão, quando Konrád e a mãe do general tocavam uma peça para quatro mãos no palácio, algo aconteceu. Estavam sentados na sala grande, antes do jantar, e o oficial da guarda e o filho escutavam educadamente a música num canto, com aquela condescendência cortês e aquela paciência de alguém que diz: «A vida é um dever, também se deve suportar a música. Não é conveniente contrariar as senhoras.» A mãe tocava com paixão: interpretavam a Fantaisie polonaise de Chopin. Como se tudo tivesse começado a vibrar no quarto. Pai e filho sentiam, no canto da sala, na poltrona, enquanto esperavam educada e pacientemente, que nos dois corpos, no corpo da mãe e no de Konrád, alguma coisa se estava a passar. Como se a rebelião da música tivesse levantado a mobília, como se uma força atrás da janela agitasse as cortinas pesadas de seda, como se tudo o que os corações humanos haviam enterrado e que era gelatinoso e bafiento, começasse a viver, como se no coração de cada pessoa se ocultasse um ritmo mortal que num terminado momento da vida, começava a pulsar com uma força tremenda. Os ouvintes pacientes perceberam que a música era perigosa. Mas os dois ao piano, a mãe e Konrád, não se preocupavam com esse perigo. A Fantaisie polonaise era apenas um pretexto para que as forças irrompessem no mundo que moviam, fazendo explodir tudo o que a ordem humana escondia tão cuidadosamente. Estavam sentados rígidos diante do piano, direitos, com o tronco esticado e ligeiramente inclinado para trás, como se a música lançasse um coche ardente, puxado por cavalos míticos e invisíveis, e no meio da tempestade e da corrida no espaço fossem eles, de corpo hirto e mãos firmes, a segurar as rédeas das forças desencadeadas. Depois, com o toque de um único acorde, acabaram. Um raio de sol da tarde penetrava na janela grande, no feixe da luz girava a poeira dourada, como se atrás do coche divino da música que corria para longe, guiado por cavalos, se erguesse uma nuvem de pó ao longo do caminho celestial que conduzia à destruição e ao nada.

Sándor Márai, in As velas ardem até ao fim, trad. Mária Magdolna Demeter, Publicações Dom Quixote, 1.ª edição Outubro de 2001, 28.ª edição Janeiro de 2017, pp. 38-39.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

PADRÃO

Presumo que quem relativize o problema falando de casos situados, possa começar a ver em tantos exemplos pelo menos um esboço de padrão:


Sabemos que matar por ciúme é um tema clássico da arte (o do Otelo que mata Desdémona e as suas múltiplas réplicas na literatura, no cinema, no teatro), o que demonstra que tem sido universal e intemporal


Ler o resto: aqui. Eis mais um caso situado da justiça à portuguesa. 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

MAIS UMA TERÇA-FEIRA SE PASSOU


Um texto habitado por fantasmas. Reconhece-se pelo óxido de ferro. 


Longe, junto a um rio, há uma casa feita de palavras. Um castor velho ocupa-se a suprimir-lhe as excrescências.


Desço a calçada do general. Poupo palavras. Regresso. Confirmo a morada. A casa de passar as tardes. O meu guardião consome oxigénio. Saúdo-o. Na calçada começa a rolar uma esfera de cinza. A náusea vem depois.


O concon é um peixe-crustáceo. A sua captura é um jogo de sedução. Devolve-nos o passado e fere o sabor. Não deveria ter nome.


Uma vontade de chorar quando o corpo se excede. A morada torna-se habitável. Perto do júbilo.


A chuva desagrega a cidade. É preciso olhar de novo. Passado o engano, abrigo-me no escuro.


Ao meu guardião, no seu elemento, entrego as palavras. Todas as palavras. Próximas do limite.


Falamos sobre limites. Sobre elementos. Sobre repetições.


Amanhã, o meu guardião cumprirá, renovando, o seu elemento. Partirei em busca de outras águas. E a eterna dúvida será a nossa comum perturbação. Agora, na noite, pode esboçar-se o risco infinito da morte. À superfície das águas.


Um dia, eu e o meu guardião tornar-nos-emos sábios. De olhos baços, abandonaremos de vez a ilusão de poder ver. 

(...)


Fotografias de Ricardo Aurélio. Texto de Carlos Alberto Machado, de Na Casa de Passar as Tardes (2003-2004), in Registo Civil, poesia reunida, 2000-2006, Assírio & Alvim, Novembro de 2009, pp. 239-240.

Nota: Devo um agradecimento público ao Fernando Mora Ramos por me ter desafiado a organizar estas sessões. Desconfiado no início, à quarta estou convencido do quanto me têm sido gratificantes as terças no teatro. Ontem, com a ajuda preciosa do José Ricardo Nunes, na companhia do Carlos Alberto Machado. Sala cheia, emoções, conversa, leituras, boa onda. Em Maio, dia 15, teremos connosco o Miguel-Manso e o Pedro Mexia. 

AS MIGALHAS DA DÚVIDA


Fantasiado de Grande Reportagem, o jornalismo da SIC achou por bem expor publicamente gravações de interrogatórios. Imagens a que a SIC teve acesso, anuncia o/a jornalista como quem anuncia um número de circo. O animal feroz está no centro da arena, esbraceja, gagueja, leva as mãos à cabeça, indigna-se, levanta a voz, dá murros na mesa… Há chicotes à sua volta que são incapazes de o conter. O espectáculo está montado, as câmaras estrategicamente apontadas, a gravação roda. Em nome de quê? Presumo que em nome da justiça. Mas admito estar enganado. Sócrates já era um caso de estudo, agora é um caso perdido. Quando digo Sócrates quero referir-me a tudo, da marcação cerrada à detenção, da baba noticiosa ao asqueroso espectáculo que estamos condenados a assistir: alguém que é julgado e condenado como num filme de cowboys. O problema de Sócrates é não termos qualquer empatia pela personagem, o problema do caso Sócrates e já nada do que atenta contra certa ideia de Estado de direito nos indignar. Estamos dispostos a tudo, menos a aturar os posts de Bruno de Carvalho no Facebook. A anedota em que este país se tornou, em que esta democracia de fantochada e fachada se tornou, fica evidente neste caso. Um ex-primeiro-ministro, corrupto ou não, movido pela vaidade, uma justiça movida pela arbitrariedade, uma comunicação social movida pelo ódio. Mais segredo de justiça, menos segredo de justiça, o que fica patente é um país de pantanas, a seu tempo saudoso de velhos rigores, pois quando tudo vale nada tem valor. E a justiça, neste momento, não tem valor algum no nosso pseudo-Estado de direito, pois presta-se a que tudo lhe valha em proveito de presunções e ideias feitas. É uma miséria absoluta aquilo que estamos a passar. Podem as pessoas andar distraídas com fados, futebóis, telenovelas, indignadas com crónicas de humoristas, entretidas com notícias de escolas com coberturas de amianto onde faz frio e chove, hospitais sem condições, anúncios de aumentos na função pública, reembolsos de viagens dos deputados, incêndios, seca, a crise no Sporting e as toupeiras no Benfica… Podem. O que lhes sobra ao redor já não é apenas paisagem ardida, é mesmo um regime em chamas. Que não existam bombeiros à vista para nos socorrer é trágico, que tenhamos de perecer enterrados na podridão é torturante. Alimentemos o espírito com as migalhas da dúvida: Como é que a SIC teve acesso às imagens? Pagou por elas? Quem as vendeu? Quem lucrou com o negócio? A quem mais convém este circo?

PASSAR O TESTEMUNHO


A minha filha Matilde comemora hoje 15 primaveras. Por estes dias, o mais vulgar dos exercícios é tentar recordar-me de como era o mundo quando ela nasceu. O meu era a duas cores, é tudo quanto consigo recordar. Esqueci-me do resto. Mas lembro-me que foi no meu 15.º aniversário que a minha irmã Manuela me ofereceu O Papalagui, e que esse livro me influenciou como poucos. A Matilde já leu o quádruplo dos livros que eu tinha lido com a idade dela, mas parece-me importante passar hoje o testemunho. O Papalagui vai deixar de fazer parte da minha biblioteca.

COCÓ


Leio o padre Tolentino aqui citado e sinto-me aliviado. Deus está em mim, que bom. Também espero que esteja em Sócrates e nas grandes reportagens da SIC e na justiça portuguesa… Com sorte, estará até numa qualquer ETAR metamorfoseado naquilo que mais nos une neste mundo: cocó.

CARREGA CALDAS!


terça-feira, 17 de abril de 2018

DIGA 33: ABRIL: DIA 17


Em Abril, teremos connosco o Carlos Alberto Machado. Motivos de conversa não faltarão: o teatro (aqui), as estórias (aqui), o romance (aqui), a poesia (aqui e aqui e aqui), a edição (aqui)... Durante esta semana, continuaremos a ler e a reler Carlos Alberto Machado.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

domingo, 15 de abril de 2018

E É ISTO


O Bjorn também apareceu. Obrigado a todos os que me acompanharam nesta festa. Saúde,

sábado, 14 de abril de 2018

A FESTA DOS CAÇADORES


(clique na imagem para ver melhor)

Prevê-se que a obra venha a ser apresentada por Henrique Manuel Bento Fialho, mas nada garante que não seja o próprio Henrique Fialho ou Henrique Bento Fialho ou Henrique Bento ou Henrique Manuel Bento ou Manuel Bento ou Manuel Bento Fialho ou mesmo HMBF a cumprir o serviço.

INTERVALO DOLOROSO



Gazeta das Caldas, n.º 5221, sexta-feira, 13 de Abril de 2018.

(também aqui)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

TERRA AFOGADA


Deus respondeu às nossas preces. Agora não nos queixemos, ou o Senhor ainda fica confuso. E para confusão, basta a dos homens em terra afogada.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #40



   Regresso amiúde a esta porta. Não preciso bater, abre-se instantaneamente à minha chegada. Teria a idade da minha filha Beatriz quando ouvi pela primeira vez Break on Through. Como pode uma criança de 10, 11, 12 anos apaixonar-se pelos blues de Willie Dixon e Howlin’ Wolf? Como pode ela perceber uma canção de Kurt Weill com poema de Brecht? Learn to forget, learn to forget, learn to forget…
   Ainda antes de ter sido poeta, antes de ter sido estrela do rock & roll, James Douglas Morrison foi estudante de teatro e de cinema, leitor de Rimbaud e de Nietzsche. Alguma coisa há-de ter ficado desses tempos, algo posteriormente repercutido em palco, nas performances, na colocação da voz e nos movimentos do corpo, na inclinação para a spoken word em contextos que lhe eram estranhos. The Unknown Soldier é teatro, The Celebration of the Lizard é poesia, Riders on the Storm a banda sonora por excelência de uma grande aventura.
   O primeiro álbum dos The Doors surgiu em 1967. Nesse mesmo ano publicariam o segundo. Se no álbum homónimo as influências eram evidentes, com as devidas citações e caminho desbravado para o espanto, em Strange Days a singularidade impôs-se sem discussões. Que disco! Hoje talvez seja difícil abstrair os acordes iniciais de The End da mise en scène que Francis Ford Coppola lhes ofereceu em Apocalypse Now, talvez o solo de Ray Manzarek em Light My Fire se tenha tornado redundante, mas quem poderá resistir à letra de Strange Days, ao riff de People Are Strange, à voz de Morrison em You’re Lost Little Girl, à estranheza surrealista de Horse Latitudes a preceder um sereno convite na direcção lunar?
   A questão mantém-se, não foi esquecida. Como pode uma criança apaixonar-se por blues? E pela poesia de Brecht? The Doors. Tantas foram as portas que abriram, tantas foram as janelas que escancararam, mostrando-nos panorâmicas para as quais talvez não estivéssemos preparados. Recordamos com nostalgia esse tempo em que uma canção nos despertava para o diverso e vamos à procura, tentamos reencontrar a porta atrás da qual se esconde um som nunca ouvido, ou talvez apenas esquecido, adormecido. De vez em quando, regressamos em busca desse som e nunca deixamos de nos espantar com a fertilidade do viveiro. Tanta coisa a acontecer por detrás dessa porta que a percepção descerra permitindo-nos ir além dos preconceitos, das ideias feitas, dos lugares comuns com que organizamos diariamente as agendas do tédio e da repetição e da rotina.
   A rapariga infeliz, reclusa numa prisão da sua própria imaginação, está agora mesmo a bater à porta. Perguntamos-lhe em que podemos ajudar, ela responde-nos com uma voz suave que entre o canto e a dança há música inaudível. Música no espaço ocupado pelas sombras. A música ainda não morreu, ainda não morreu, mesmo que os traços do teu rosto tenham esmaecido num recôndito lugar da mente.  

quarta-feira, 11 de abril de 2018

ABYSMO NOS ARREDORES DE IMAGINÁRIO


O programa é vasto, percorre três dias, e tem vários pontos de interesse. Havendo livro novo na forja, cabe-me chamar a atenção para o dia 14, no Museu Malhoa, Caldas da Rainha. Mais notícias em breve:


SEXTA | 13 ABRIL

[Agrupamento de Escolas Rafael Bordalo Pinheiro]
11h00 | [Conferência] António de Castro Caeiro - Éfemero: o esqueleto do Humano

[Casa dos Barcos]
18h30 | Inauguração da exposição de desenhos Atrito, de André Carrilho

[Casal da Eira Branca]
20h00 | jantar-convívio seguido de conversa | A viagem ainda se usa?
António Mega Ferreira, Luís Brito, Luís Maio e Paulo Moura com projecção de fotos e moderação de Carlos Ribeiro

[Atelier - Museu António Duarte]
23h00 | Inauguração da exposição de fotografia Rostos em Sol Maior, de Graça Ezequiel | Intervenção Vitor Reis

SÁBADO | 14 ABRIL

[Capela de S. Sebastião]
10h00 | Inauguração da Feira do Livro | Intervenção Mário Reis

10h30 | Apresentação de Óbidos Vila Literária, por Celeste Afonso

11h00 | Lançamento de O Processo de Camilo, de Carlos Querido

[Museu José Malhoa]
15h00 | Et alors?
Valério Romão conversa com Jean Pierre Hougas, delegado do núcleo do Oeste da UFE (Union des Français de l’Étranger), moderação Carlos Cipriano

16h30 | Lançamento de A Festa dos Caçadores, de Henrique Manuel Bento Fialho

17h30 | Inauguração da exposição Mantraste seguida de conversa com João Soares, a propósito de Sebenta do Diabo

18h30 | A Mosca e outros insectos.
Luís Afonso comenta filmes e cartoons e o que bem lhe apetecer

[Associação recreativa, desportiva e cultural dos Infantes]
21h30 | Concerto - TTTTa + Não Simão + Oppidum Mortuum

DOMINGO| 15 ABRIL

[Capela S. Sebastião]
10h30 | Feira do Livro

11h00 | Participação de Carlos Enxuto

11h30 | Rita Taborda Duarte conversa com Joana Botelho a propósito da vida e obra de Fernanda Botelho

12h30 | Abysmo speed date
Autores da abysmo propõem-se receber, sob inscrição e durante 10 minutos, um leitor que lhe pode pedir não importa o quê: explicação sobre uma personagem, justificação de um capítulo, que leia um poema, que toque, ou...

[Gracal – Gráca Caldense]
15h30 | Lançamento de Una piccola storia d’ amore - Rafael Bordalo Pinheiro e Maria Viscontide Isabel Castanheira

[Biblioteca Municipal]
17h00 | Goraz voraz
Tarde de poesia e música dirigida por José Anjos com participações musicais de Luís Brito, Henrique Fialho e João Maio Pinto e leituras de Cláudia R. Sampaio, Luís Carmelo, Rita Taborda Duarte, António de Castro Caeiro, Luís Gouveia Monteiro, Carlos Querido, Pedro Proença, José Emílio-Nelson, Liliana Ribeiro, Luísa Pires Barreto, José Ramalho, José Ricardo Nunes, Valério Romão e João Paulo Cotrim.

terça-feira, 10 de abril de 2018

TRABALHO


Parabéns Maria João Lopes Fernandes. 
Ordet.

CAIR PARA DENTRO


Valério Romão (n. 1974) iniciou com a publicação de Autismo (Abysmo, 2012) uma trilogia a que deu o nome de Paternidades Falhadas. O da Joana (Abysmo, 2013) foi o segundo volume. A trilogia cumpre-se agora com Cair Para Dentro (Abysmo, Fevereiro de 2018), romance onde a figura paterna prima pela ausência. Virgínia, a mãe, e Eugénia, a filha, são as personagens centrais deste livro. Chamar-lhes personagens centrais pode ser algo redutor. Na realidade, são duas vozes narrativas que se interligam e revezam ao longo do romance. A primeira parte, muito breve, introduz-nos no universo dessas duas figuras femininas. “Com mãos” porque Eugénia ainda vai pela mão de Virgínia, «a mãe que só vestia de preto desde que o pai se fora, viúva precoce sem direito a cadáver» (p. 17). O que para uma poderá ser interpretado como perda, para outra será abandono. Certo é que a ausência da figura masculina neste núcleo familiar é um estigma desde o início. Pouco ficaremos a saber acerca desse pai que não seja através da figura da mãe abandonada e da filha superprotegida. Mas esta superprotecção materna, aprofundada num segundo e extenso momento intitulado “sem mãos”, transporta em si mesma uma fortíssima ameaça.
   Virgínia não se vê apenas obrigada a ser pragmática, como a filha eufemisticamente a caracteriza. Ela chega a ser claustrofóbica, fria e castradora, ele é a frieza da razão impondo-se ao tecido emocional que afasta mãe e filha. Esta, sentimentalmente fragilizada, aprenderá a superar as inclinações poéticas com o chicote da filosofia. Sem mãos ambas, mãe e filha, porque o que ressalta da relação é o desamparo de dois seres ligados pela consanguinidade, mas entregues a si próprios na solidão das suas vidas. 
   Referências ao Facebook, ao Youtube e a Lisboa permitem-nos situar o romance no tempo e no espaço, apesar dos hiatos que Valério Romão introduziu numa narrativa não linear. A linguagem é sóbria, embora o estilo penda amiúde para uma violência emocional segura de si mesma. Um episódio marcante, pelo que tem de definidor das personalidades envolvidas, surge quando Eugénia desespera com a perda de uma gata. O que faz Virgínia? «Trouxe-me um alguidar vazio para o quarto, meteu-mo ao lado da cama e declarou, Eugénia, chore aqui para dentro, não desperdice nem uma lágrima, acendi uma velinha a Santo Antão, padroeiro e protector dos animais e disse-lhe, meu Santo, ajude a minha filha (…) a encontrar a Maria, prometo-lhe um alguidar de amor e sofrimento medido em lágrimas se encontrarmos a gatinha sã e salva, e, apontando para mim, chore, Eugénia, chore como nunca chorou, que um alguidar deste tamanho ainda leva algum tempo a encher» (p. 61). Subitamente, o «alguidar de amor e sofrimento medido em lágrimas» ganha uma dimensão simbólica fortíssima nesta história. É como se ao longo do romance ele fosse sendo preenchido com desastres e frustrações, a doença e a incerteza, amores falhados, ruína e desprezo, agrura, ódio, medo, solidão, ressabiamentos, abandono, desamparo, é como se ao longo do romance aquele recipiente de sofrimento fosse não apenas um talismã da esperança, mas a urna onde mãe e filha depositam os restos mortais de um pai ausente, cadáver perdido em memórias turvas.
   Quando Eugénia chega a casa, vinda da festa de final de curso, Virgínia diz-lhe: «a vida é isto, Eugénia, desordem, confusão, o mundo é isto, a força das nossas mãos sem a tenacidade do coração é espúria e incerta e a força das nossas mãos sem a lucidez da razão é violenta e boçal» (pp. 93-94). Dirá mais este aforismo da mãe ou da filha? Será ele definidor de uma ou de outra? Não poderá resultar do que numa se reflecte da outra? É neste jogo de reflexos que Virgínia determina Eugénia e Eugénia determina Virgínia, ambas reflectindo-se num alguidar repleto de lágrimas — «Animais à espera da redenção pela espora…» (p. 114) —, lágrimas que podiam ser cinza, por no final ficarmos também nós, leitores, sozinhos perante o afastamento das personagens. 
   Talvez seja este o maior conseguimento do livro, gerar entre as personagens e o leitor uma cumplicidade que nunca chega a ser invasiva, para no final tudo reduzir a um quotidiano que é em si mesmo retrato desgastado pela passagem do tempo, um rosto a desfigurar-se na memória, a imagem devorada pelo esquecimento. Se a doença de Alzheimer faz parte do processo, não é o que define a narrativa. Ela é apenas mais um elemento, porventura derradeiro, nesse complexo processo de esquecimento, perda e abandono que excede as fronteiras do que pode ser definido enquanto doença. No limite, é da doença de se estar vivo que aqui se trata: «o acidente que começou no hospital onde nos arrancaram à palmada a primeira respiração» (pp. 193-194).

[UM PUNHADO DE VERSOS NÃO SERVE COMO MOEDA DE TROCA]

Um punhado de versos não serve como moeda de troca
como também não serve o meu punho direito fechado
ou a paralisia dos cinco dedos abertos em estrela
a terra verdadeira terra é só e apenas terra
mesmo a que a tua mão envolve e depois lança
sobre o esquife na fenda de seis palmos de fundo
o sermão apenas fecha o ventre rasgado da terra
mesmo que uns pobres versos ensaiem um canto
mesmo que as cinco pontas estreladas se quebrem
no fechamento em punho da minha mão direita
a terra fragmenta-se inconfessável


Carlos Alberto Machado, in Registo Civil, poesia reunida, 2000-2006, Assírio & Alvim, Novembro de 2009, p. 283.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

VERSÕES ALTERNATIVAS


Não sou homofóbico, até tenho amigos gays.

Não sou racista, até tenho amigos pretos.

etc...

sábado, 7 de abril de 2018

UM POEMA DE TONINO GUERRA


ONDE VAIS?

A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi «onde vais?»
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e minha mãe.

Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.


Tonino Guerra (n. 16 de Março de 1920, Santarcangelo di Romagna, Itália - m. 21 de Março de 2002, idem), in Histórias Para Uma Noite de Calmaria, trad. Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, Novembro de 2002, p. 78.

INCONTINÊNCIA SOCIAL


O incontinente social é alguém incapaz de se conter nas redes sociais. O caso mais paradigmático de incontinente social é Donald Trump, para quem um país pode ser governado via Twitter. Em Portugal, Bruno de Carvalho é de há muito o mais conhecido dos incontinentes sociais. Governa um clube de futebol via Facebook. Lamentavelmente, a incontinência social tem os seus adeptos, praticantes, e causa estragos. O principal dos estragos é a subversão lógica patente em qualquer discurso. Bruno de Carvalho diz que ninguém está acima do Sporting, mas na prática não faz outra coisa senão colocar-se ele próprio acima do Sporting. O mais recente conflito com parte considerável do plantel da equipa de futebol profissional podia ser também interpretado à luz das relações laborais. A velha metáfora do Senhor e do Escravo aplica-se aqui, com suas nuances muito específicas. O Senhor julga que o Escravo lhe deve não só obediência como fidelidade, mas mostra-se incapaz de aceitar que para tal o Escravo tem, pelo menos, o direito de sentir-se respeitado na sua servidão. Bruno de Carvalho deve julgar que cada um dos jogadores que se manifestaram descontentes com as suas declarações não tem para onde ir se o Sporting não lhes der guarida. É como aquele patrão que diz "ou estás comigo ou contra mim"; "não gostas, venha o próximo"; "aqui quem manda sou eu, tu comes e calas". Onde devia haver cooperação e lealdade passa a haver desconfiança e desagregação. É este o resultado da incontinência social de Bruno, o rapazola que se julga protagonista sem conseguir compreender o seu verdadeiro lugar. No fundo, é um incapaz. E pouco há de  pior num ser humano do que a constatação de que não percebe o seu verdadeiro lugar.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O PEQUENO-ALMOÇO

   A dois passos de Sogliano o dono da loja onde se vende de tudo comprou uma pequena igreja abandonada na floresta que lhe serve de armazém para as pias a vender às pensões da praia.
   Um domingo de manhã abre o cadeado e fecha-se lá dentro para contar os montões de pias que cobrem as paredes e os frescos corroídos pelo bolor.
   Acabada a contagem vai descansar no degrau do altar e descobre que ali ao pé há um tabuleiro com uma chávena fumegante e duas fatias de pão com manteiga. Olha em redor de olhos arregalados porque precisamente nessa manhã não tinha tomado o pequeno-almoço. «Bem, entrei sozinho e fechei-me à chave cá dentro. Então quem terá sido?» Desde esse dia a sua cabeça está cheia de preocupações que antes não tinha.

Tonino Guerra, in O Livro das Igrejas Abandonadas, trad. José Colaço Barreiros, intr. Vicente Jorge Silva, Assírio & Alvim, Maio de 1997, p. 27. 

UMA FOTOGRAFIA


«Fotografar é um acto, reflectir é uma meditação crítica, anterior e posterior ao acto. Fotografar é um acto essencialmente emotivo, reflectir é cosa mentale. Escrever é reduzir a papel o resultado da reflexão», explicava Gérard Castello-Lopes. Entre o acto emotivo de fotografar e o exercício delimitador de escrever, a reflexão surge em diversos momentos. Antes da fixação de um fragmento da realidade, depois da imagem revelada, desbravando caminho para a escrita, após a escrita. E são tantos os olhares cruzados neste processo. No olhar do fotógrafo estará a origem da reflexão, a qual provocará ao longo do tempo, sob a forma de imagem revelada, encontros mais ou menos acidentais com outros olhares e com novos modos de reflectir.
   Organizadas por temas, as fotografias surgem-me a salvo do caos característico de qualquer espólio. Noto que num dos envelopes foi escrita a palavra “ruína”, conceito poético por excelência. Naquele que é ainda hoje considerado o grande poema do pós-Guerra, vindo a lume em 1922, escrevia T. S. Eliot: «Vou mostrar-te o medo num punhado de poeira». A poeira eram os cenários de destruição e de devastação projectados pela I Grande Guerra, experiência limite de um momento de crise na putativa harmonia do mundo. A poeira era uma civilização em ruínas. E o medo era o de ir vivendo entre destroços: «Nós que éramos vivos agora vamos morrendo / Com alguma paciência».
   Ali, um soldado procura orientar-se na encruzilhada do território desfigurado; acolá, a fachada de um edifício tal corpo mutilado nas trincheiras; além, homens fardados, uns a pé, outros montando cavalos, circulam numa avenida ornada de entulho e de escombros. Num dos edifícios em ruínas percebe-se a palavra “menuiserie”, que em francês significa carpintaria. Apontamento de uma ironia desconcertante. Mas entre todos estes fragmentos de um tempo ruinoso, há uma imagem que me cativa em particular. Disposta na vertical, mostra-nos o ângulo parcialmente desfeito que liga a fachada de um edifício a uma das suas laterais. No topo da fachada, resiste a palavra “gare” de um letreiro que se supõe mais extenso. A meio da lateral, observamos à lupa um anúncio às Clément Cycles. Encostados a essa parede, sentados, em posição descontraída, uma fila de seis militares a ler.
   Podemos imaginar o que liam, jornais, revistas, livros, correspondência, instruções. Manuais de sobrevivência. Observamos ainda um outro militar, ligeiramente afastado, de pé. Não conseguimos perceber exactamente a sua postura, supomos que observe o horizonte com as mãos em pala sobre a testa. Por que me cativa esta imagem? Por haver nela uma poética do instante. Por detrás da objectiva que fixou o instante, havia o olhar inteligente de um homem capaz de perceber a poesia do momento. Um momento de suspensão, de interrupção, um momento em que o tempo escoroado na paisagem de ruína surge descontinuado por homens com os olhos postos num horizonte de esperança. Um livro, uma carta, um jornal, transportá-los-á dali para outro lugar como uma espécie de Clément Cycles do pensamento. Que mais se pode pedir à arte?



Nota: originalmente publicado na Gazeta das Caldas, n.º 5219, de 30 de Março de 2018. Também aqui. Um agradecimento a Isabel Xavier, dedicada investigadora do Património Histórico-Grupo de Estudos, em Caldas da Rainha, pelo convite. Mais informações sobre Fernando da Silva Correia podem ser obtidas: aqui.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #39



   A primeira vez que vi Benjamin Clementine (n. 1988) ao vivo foi no Coliseu dos Recreios. Apresentou-se a público sentado ao piano e raramente se levantou. Trazia por companhia um baterista. Piano e percussão chegaram para encher a sala, abarrotada e rendida às canções de At Least For Now (2014). A imprensa referira-se ao álbum e às actuações do jovem compositor enfatizando dados biográficos que não terão sido alheios ao público, gerando por detrás de cada palavra uma intensidade emocional de espanto e comoção.
   I Tell a Fly (2017), o segundo álbum, veio complicar as contas. As baladas despojadas, românticas, deram lugar a composições complexas, a estruturas dramáticas que aproximaram da ópera música e poema.
   Na Praça de Touros do Campo Pequeno, Clementine apresentou-se recentemente acompanhado de bateria e baixo, um guitarrista revezando-se nas programações, uma secção rítmica chamada a espaços. No palco, constavam diversos manequins: crianças, homens, mulheres grávidas. Quando o xamã ficava a solo, os restantes músicos passeavam-se como se fossem transeuntes. Havia toda uma encenação que nos transportava para diversas camadas das canções de Benjamin Clementine. Comunicativo, interventivo, este transformou-se num magnífico performer. A meio de um tema como Condolence, salta do piano para dirigir o público no papel de maestro. Quer ouvir-nos cantar versos que percebe serem determinantes em qualquer parca existência humana: I’m sending my condolence to fear / I’m sending my condolence to insecurities. Ele é o maestro, nós os meninos de coro. Aceitamos o lugar como uma evidência.
   By The Ports of Europe, do segundo álbum, dá lugar a momentos delirantes. À capela, Benjamin junta-se ao baterista, ao guitarrista, ao baixista e imiscuem-se no meio do público. Dão uma volta à Praça cantando repetidamente Porto Bello! / Porto Bello!, pseudo-refrão de uma canção com refugiados em pano de fundo. Tudo isto faz parte do espectáculo, mas é mais do que mero espectáculo. É um momento de comunhão, de catarse, de expurgação, dirigido por um xamã que nos caiu do céu como anjo negro.
   Nascido em Londres, descendente de ganeses, este jovem que, diz-se, há cinco anos andava a viver na rua, enche agora salas rendidas a uma impressionante plasticidade vocal, a voz de um poeta que em canções como London, Nemesis, Adios, God Save the Jungle, Jupiter, Phantom of Aleppovile, percorre cenários, penetra almas, atravessa tempos assimilando formas, géneros, figuras. Quando o ouvimos é como se nos tivesse sido oferecida uma rara oportunidade de sair da caverna, de presenciar a luz por detrás dos objectos. Assistir à verdade para lá das sombras, numa paradoxal relação que a arte, toda ela encenação, logra quando se expõe enquanto oferenda. Benjamin Clementine oferece-se-nos em cada uma das suas interpretações, temos de lhe ficar agradecidos pelo que já nos proporcionou.


terça-feira, 3 de abril de 2018

UMA PERGUNTA


Quando é que um Governo terá a coragem de acabar com os contratos de associação?


Pergunta o Eduardo Pitta, aqui

Resposta possível: quando no Governo não estiverem partidos que são máquinas de distribuir empregos.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

UM JOVEM RAPAZ



Nasceu em 1994. Diz-se autodidacta, apesar de lhe correr música no sangue por via materna. Multi-instrumentista, vem atraindo a atenção de meio mundo no universo musical. É ouvi-lo.

SEMENTES


É claro que me lembro. Havia dois atalhos
pelo meio do pinhal, direcções espantosamente
precisas, animais que não voltei a ver.

Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,
havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio
para tratar certas lesões, uma peça vital
do equipamento. Havia girassóis à volta da casa
e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma
de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro
que era preciso saltar, a manhã gloriosa
da escalada, a ciência das grandes migrações.

Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.
Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.



Vítor Nogueira (n. 1966), in Cantochão (2017). Publicou o primeiro livro de poesia, A Volta ao Mundo em 50 Poemas, em 1999. Praticante de uma linguagem sóbria, sem resquícios de exaltação emocional, opta amiúde por um registo narrativo focado na derrocada da província e do que poderia sobreviver de certa vivência rural em contextos urbanos. Fazendo uso de alguma ironia, tende em diversos momentos para um olhar nostálgico desconfortável, ou seja, inquieto perante o papel da memória na preservação do passado. «A poesia de Vítor Nogueira é do lado da hiponímia, isto é, faz-se porção a porção, já que nenhuma coisa visível se vê toda juntamente. Além de que o que não se vê, residual, não cessa de se perseguir, por isso não se destapa a cortina» (Maria Conceição Caleiro, Público, 28 de Dezembro de 2011).

CANTOCHÃO


Apesar de ter começado a publicar em 1999, o nome de Vítor Nogueira (n. 1966) apenas começou a tornar-se familiar junto dos leitores de poesia com o livro Senhor Gouveia (Averno, 2006). Nítidos e narrativos, os poemas desse livro resgatavam uma certa ruralidade para a poesia portuguesa. A ironia era também marca visível, particularmente no modo como caracterizavam a província e seus tiques na figura da personagem que emprestou título ao livro. Colectâneas posteriores ampliaram o panorama geográfico desta poesia — natural de Vila Real, o autor tem abordado amiúde a cidade de Lisboa —, a qual se manteve fiel, porém, a um dizer sóbrio, intimista, relacionado com a experiência pessoal de lugares e de situações. Independentemente da familiaridade dos cenários escolhidos, julgo ser precavido guardar alguma distância quanto a chavões como o de “poesia da experiência” relativamente aos poemas de Vítor Nogueira. Mais estimulante será considerá-los a partir de uma perspectiva que se concentre na natureza do sujeito poético e na sua relação com a memória. Os dois conjuntos de Cantochão (Averno, Dezembro de 2017) colocam-nos esse desafio, até pelo que de indiciador de uma certa dissimulação possa estar incluído nos títulos respectivos: Primeira Voz e Segunda Voz.
Os poemas dirigem-se quase invariavelmente a uma segunda pessoa, não sendo certo quem ela possa ser. No poema Vozes, da primeira parte do segundo conjunto, essa segunda pessoa é o próprio sujeito poético: «Pois bem, / sujeito poético, estás de novo dentro / de um maldito livro, a falar com vozes / que não distingues» (p. 65). Quem será este sujeito? De onde virão estas vozes? Sentimo-nos tentados a responder referindo «os vários eus» invocados no poema Cantabile ou «uma inteira multidão num corpo só» do poema Tutti, ambos do primeiro conjunto. Estes “eus” não são exteriores ao sujeito, eles vivem dentro do sujeito, perduram na memória do sujeito. Por vezes, são como fantasmas. No fundo, são a memória de um eu que já não é, são a sombra de um ser em transformação, são a consciência interna dessa transformação, a consciência de haver sido qualquer coisa que se perdeu, que se esfumou com o tempo: «Fragmentos das nossas memórias / como luzes dirigidas ao futuro» (p. 11), lê-se no primeiro poema.
O passado, a infância, a juventude, ou melhor, as memórias do passado, da infância, da juventude, surgem estimuladas pelo regresso a um lugar, uma rua, uma casa que fica nessa rua, o sótão de uma casa que fica nessa rua onde outrora viveu um sujeito real, agora  sujeito poético: «Mas o tempo transformara / a rua da tua infância. Eram já outras as vozes / que no ar se desfaziam» (p. 21). A complexidade desta relação pode ser associada aos ritmos e movimentos que oferecem título aos poemas do primeiro conjunto, poemas no interior dos quais encontramos imagens repetidas como ecos provenientes de uma época ausente. Repletos de interrogações, estes poemas procuram responder ao dilema que toda a espécie de nostalgia coloca: valerá a pena olhar para trás? Não se trata de tentar reconstituir o que foi extinto, não se trata sequer de revisitar um lugar que se perdeu. Pelo menos não tanto quanto se tratará de destacar a natureza enclausurante da memória, tal como sugere a epígrafe roubada a Bernardo Soares: «Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?»
Não há como fugir da memória, ela persegue-nos. Ela persegue um sujeito poético que, em aparência, é uma espécie de fuga (novamente a conotação musical) do sujeito ele mesmo: «Quem és tu e onde estiveste a vida toda?» (p. 45) Jogo de identidades, camuflagem, justaposição de vozes, «a poesia é uma cadência, / há muito que nasceu entrelaçada com a música» (p. 80). E o que podemos dizer que é a música senão o eco da respiração no interior do tempo? Remexendo o passado, Vítor Nogueira penetra o mistério da fantasmagoria identitária em poemas muito mais reflexivos do que tem sido costume na sua poesia: «Quem és tu, por trás da sombra, nesta foto / rejeitada que chegou à nossa mão? / Como eram os teus sonhos? Quem te amou? / Quem te chora desde o dia em que morreste?» (p. 91) Este tu a quem se dirige é um eu anulado pela passagem do tempo, extinto, propriedade de uma memória onde pereceu sem qualquer hipótese de ressuscitar, é poalha, sombra, fantasma, o eco de uma palavra escurecida, pronunciada como que por segundas vozes em tom directo, isto é, sem refrão.

domingo, 1 de abril de 2018

BOA PÁSCOA


Um pormenor das imagens que nos chegam de Gaza é a ausência de perspectiva do lado israelita. Vimos sempre árabes furiosos, com paus e pedras, mulheres e crianças muçulmanas a chorar, vimos bandeiras do Hamas. Nunca vimos militares israelitas a disparar, jamais o rosto furioso, odioso, de um militar israelita. Será que o não têm? Perante isto, é-me indiferente que a ONU se reúna de urgência para discutir Gaza. Preferia que se reunissem em Gaza para discutirem o que andam a fazer no mundo. 

MUNDO ÀS AVESSAS


Razões várias afastaram-me da rede por uns dias. Logo agora, que tanta e tão estimulante matéria andava pelo ar a pedir comentário.

1. O meu Sporting disse definitivamente adeus ao campeonato. Ainda não será desta. Não me preocupa, é só mais um campeonato perdido. O que me preocupa verdadeiramente é a previsibilidade do resultado antes do jogo em Braga. Alguém acreditava que o Sporting ia ganhar aquele jogo?

2. Feliciano Barreiras Duarte deixou de ser assunto. Já ninguém parece ter paciência para estes cagões, saloios que se passeiam de peito cheio pela aldeia e apenas são esfuracados pelo bico da verdade quando se aproximam da capital. Continuem pela aldeia com seus pergaminhos de pechisbeque, ninguém os incomodará.

3. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza… Quantas mais vezes teremos de ouvir isto?

4. Quando cheguei a Lisboa, em 1992, a noite já não era o que foi nos 80. O Frágil lá estava, entrei algumas vezes, mas saí quase sempre sem perceber a piada. Preferia as Primas, ali ao lado, onde a troco de uma moeda de 50$(?) podia ouvir China Girl, comer tremoços, beber minis. E ler Pascal.

5. Temer diz-se perseguido por forças obscuras na justiça brasileira. Tenham medo, tenham muito medo.

6. Foi aberta a guerra de embaixadores com a Rússia. A Cambridge Analytica e o Facebook resolverão o problema.

7. A estação espacial Tiangong-1 vem por aí abaixo, em queda livre, prevendo-se que entre na atmosfera este Domingo. Algures, alguém verá Deus. Outros dirão que devia cair em cima de quem a pôs lá no alto. Os meus desejos são inconfessáveis.

8. Depois das acusações de plágio que envolveram Tony Carreira, tem sido um ver se te avias. No Festival da Canção era para todos os gostos. Eis que a moda chega ao cinema. João Botelho, esse mesmo, o de “Os Maias” e “Filme do Desassossego”, foi agora acusado de plagiar um romance de Deana Barroqueiro. Não fugiu à questão, dizendo-se altamente inspirado pelo livro em causa, numa carta que, pelos excertos revelados, mais parece um acto de contrição esfarrapado de um aluno do 5.º ano. Ao que parece, no filme “Peregrinação”, que não vi, surgem personagens que são pura invenção da autora de “O Corsário dos Sete Mares”, que não li. Portanto, daqui talvez se possa concluir que o filme vendido como adaptação da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é, afinal, uma adaptação não autorizada de “O Corsário dos Sete Mares”. Anda tudo doido.

9. O Tejo tem vindo a ser sujeito a consecutivos crimes ambientais que passam impunes. O título da notícia é exemplificativo do respeito pela Natureza que as leis deste país consagram: Tribunal substituiu multa aplicada à Celtejo por repreensão escrita. Tal como se fazia na escola primária. Para a puta que os pariu.