terça-feira, 22 de maio de 2018

O LIVRO DOS ABRAÇOS


Mestre da narrativa breve, assim descrito na segunda badana de O Livro dos Abraços (Antígona, Março de 2018). Data de 1989 a primeira edição deste livro do uruguaio Eduardo Galeano (n. 1940 – m. 2015). Quem tenha lido as obras do “mestre” anteriormente publicadas pela Antígona, facilmente concordará com a descrição. Mas Galeano é mais que isso. Serve de prova, a título de exemplo, As Veias Abertas da América Latina (Antígona, Abril de 2017). Outras há que, a seu tempo, deixarão claro e evidente o grande escritor que foi, é, será sempre Eduardo Galeano. Não apenas “mestre da narrativa breve”, como tantas vezes também se diz a propósito de Jorge Luis Borges (n. 1899 – m. 1986), correndo-se o risco de reduzir à extensão do texto a incomensurabilidade da observação, no caso de Galeano, ou da imaginação, no caso de Borges.
   A colectânea com o título Mulheres (Antígona, Novembro de 2017) já tinha oferecido um cheirinho de O Livro dos Abraços. Algumas das histórias deste volume foram reintegradas naquele: A Paixão de Dizer 1, Profecias 1, Celebração da Realidade, A Fome 1, A Noite 1, A Noite 2, A Noite 3, Crónica da Cidade de Bogotá, A Cultura do Terror 3, A Cultura do Terror 5, A Televisão 4, Chorar, As Flores, A Avó, Celebração da Amizade 2. Mais coisa, menos coisa, a proveniência dos textos aparece creditada no final de Mulheres. Sucede que nas versões portuguesas, sendo diferentes os tradutores, parecem amiúde diferentes agora os textos. A Avó Bertha Jensen «morreu a amaldiçoar» e viveu «toda a sua vida com pezinhos de lã» na versão de José Colaço Barreiros, enquanto na versão de Helena Pitta a mesma avó «morreu blasfemando» e «viveu toda a vida em bicos de pés». Se de amaldiçoar para blasfemar pode ser pouca a diferença, não tão curta será de viver toda a vida «com pezinhos de lã» ou «em bicos de pés». Ficamos assim com duas Bertha Jensen, sendo que para Galeano eram exactamente a mesma.
   Pelos títulos supracitados podemos, desde já, mapear alguns traços gerais de O Livro dos Abraços. Primeiro, a existência de sequências temáticas. Têm especial relevância os conjuntos A Cultura do Terror (7 textos), A Televisão e Dizem as Paredes (ambos com 5 textos) ou Os Índios (4 textos). Neste caso, serão mais de 4 os textos dedicados ao tema. Os índios ocupam na obra de Galeano um papel relevantíssimo, são a prova viva da desgraça colonialista, são por vezes uma espécie de fantasmas de um mundo extinto, da raiz apodrecida de uma cultura sul-americana devastada pela colonização capitalista e pelas ditaduras militares. São parte integrante de um cenário de miséria contra a qual se ergue a pena do escritor, são a páginas 71:

OS ZÉS-NINGUÉM

   Sonham as pulgas comprar um cão e sonham os zés-ninguém sair da pobreza, que num dia mágico chova a sorte de repente, chova a sorte a cântaros; mas a sorte não chove nem ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem em chuvinha cai a sorte do céu, por mais que os zés-ninguém a chamem, ou que lhes comiche a mão esquerda, ou que se levantem com o pé direito, ou que comecem o ano trocando de vassoura.
   Os zés-ninguém: os filhos de ninguém, os donos de nada.
   Os zés-ninguém: os nenhuns, os ignorados, apertando o cinto, morrendo a vida, fodidos, fodidíssimos.
   Que não são, embora sejam.
   Que não falam línguas, mas dialectos.
   Que não professam religiões, mas superstições.
   Que não fazem arte, mas artesanato.
   Que não praticam cultura, mas folclore.
   Que não são seres humanos, mas recursos humanos.
   Que não têm cara, mas braços.
   Que não têm nome, mas número.
   Que não figuram na história universal, mas nos casos do dia da imprensa local.
   Os zés-ninguém, que custam menos do que a bala que os mata.

   Esta denúncia da miséria humana em defesa dos desfavorecidos faz-se acompanhar de uma celebração da vida e dos valores que mais a dignificam. Textos tais como Celebração da Voz Humana 1, 2, 3 e 4, Celebração da Fantasia, Celebração da Realidade, Celebração da Subjectividade, Celebração das Bodas da Razão com o Coração, Celebração das Contradições 1 e 2, Celebração da Desconfiança, Celebração do Silêncio 1 e 2, Celebração das Bodas da Palavra com o Acto, Celebração do Riso, Celebração do Nascer Incessante, Celebração da Amizade 1 e 2, Celebração da Coragem 1, 2, 3 e 4, testemunham pelo exemplo os alicerces éticos e morais de uma oficina literária que não renuncia ao seu papel mais social e político. Não se confunda papel social e político, porém, com militantismo engajado. Trata-se de uma dimensão filosófica em favor de uma cultura de liberdade, contra a opressão e a humilhação daqueles que por infortúnio não têm defesa:

CELEBRAÇÃO DAS CONTRADIÇÕES 2

   Soltar as vozes, desfantasiar a fantasia: escrevo, querendo revelar o real maravilhoso, e descubro o real maravilhoso no centro exacto do real pavoroso da América.
   Nestas terras, a cabeça do deus Eleguá leva a morte na nuca e a vida na cara. Cada promessa é uma ameaça; cada perda, um encontro. Dos medos, nasce a coragem; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível, e os delírios, outra razão.
   No fim de contas, somos o que fazemos para mudar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrina, mas a sempre assombrosa síntese das nossas contradições do dia-a-dia.
   É nessa fé, fugitiva, que creio. Parece-me a única fé digna de confiança, pelo muito que se assemelha ao bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo. 

(p. 123)

   Advogado dos miseráveis, Eduardo Galeano é igualmente um impressionante arquivista de factos, de lendas, de mitos, de historietas resgatadas de uma invejável experiência de vida. O belo convive nos seus textos com o horroroso, no pântano das desgraças humanas ele colhe sementes de uma poesia cheia de vida. Neste livro, o exemplo mais eloquente dessa incursão pelas memórias do vivido são as crónicas dedicadas a cidades: Crónica da Cidade de Santiago, Crónica da Cidade de Havana, Crónica da Cidade de Quito, Crónica da Cidade de Caracas, Crónica da Cidade do Rio, Crónica da Cidade de Nova Iorque, Crónica da Cidade de Bogotá, Crónica da Cidade do México, Crónica da Cidade de Buenos Aires, Crónica da Cidade de Montevideu, Crónica da Cidade de Manágua. A preferência por cidades sul-americanas em O Livro dos Abraços não pode ser dissociada de uma perspectiva da América Latina que tem no horizonte tanto a experiência autobiográfica do exílio, marcada pela dor da distância e da injustiça, como a esperança de uma democratização constantemente ameaçada pela colonização capitalista, de que são elementos estruturais a burocracia, a cultura do terror, a cultura do espectáculo, a alienação, a civilização do consumo… E no fim fica como que a pairar sobre a elaboração de um sonho a confissão aforística de uma dor íntima:

A FOSSA

   As minhas certezas comem dúvidas ao pequeno-almoço. E há dias em que me sinto estrangeiro em Montevieu ou em qualquer outro lugar. Nesses dias, dias sem sol, noites sem lua, nenhum lugar é o meu lugar e não consigo reconhecer-me em nada nem em ninguém. As palavras não se assemelham ao que nomeiam e nem sequer se assemelham ao seu próprio som. Então, não estou onde estou. Deixo o meu corpo e parto para longe, para lugar nenhum, e não quero estar com ninguém, nem sequer comigo, e não tenho, nem quero ter, nome nenhum: então, perco a vontade de chamar-me ou de ser chamado.

Eduardo Galeano, in O Livro dos Abraços, trad. Helena Pitta, Antígona, Março de 2018, p. 169.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

ARTE URBANA

DIZEM AS PAREDES 1

No sector infantil da Feira do Livro, em Bogotá:
O locóptero é muito veloz, mas muito lento.
Na marginal de Montevideu, diante do rio-mar:
Um homem alado prefere a noite.
À saída de Santiago de Cuba:
Como gasto paredes recordando-te.
Nas alturas de Valparaíso:
Eu amo-nos.


Eduardo Galeano, in O Livro dos Abraços, trad. Helena Pitta, Antígona, Março de 2018, p. 83.


DIZEM AS PAREDES 2

Em Buenos Aires, na ponte de La Boca:
Todos prometem e ninguém cumpre. Vote em ninguém.
Em Caracas, em tempos de crise, à entrada de um dos bairros mais pobres:
Bem-vinda, classe média.
Em Bogotá, na esquina da Universidade Nacional:
Deus vive.
E em baixo, com outra letra:
Só por milagre.
Também em Bogotá:
Proletários de todos os países, uni-vos!
E em baixo, com outra letra:
(Último aviso.)

Idem, p. 99.


DIZEM AS PAREDES 3

Em Montevideu, no bairro Brazo Oriental:
Estamos aqui sentados, vendo como nos matam os sonhos.
E no molhe, diante do porto do Buceo, em Montevideu:
Safia velha: não se pode viver com medo toda a vida.
Em letras vermelhas, ao longo de todo um quarteirão da avenida Colón, em Quito:
E se entre todos dermos um pontapé a esta grande bolha cinzenta?

Idem, p. 163.


DIZEM AS PAREDES 4

Em pleno centro de Medellín:
A letra com sangue entra.
E em baixo assinava:
O sicário alfabetizador.
Na cidade uruguaia de Melo:
Ajude a polícia: torture-se.
Numa parede de Masatepe, na Nicarágua, pouco depois da queda do ditador Somoza:
Morrerão de saudades, mas não voltarão.

Idem, p. 209.


DIZEM AS PAREDES 5

Na Faculdade de Ciências Económicas, em Montevideu:
A droga provoca amnésia e outras coisas de que não me lembro.
Em Santiago do Chile, nas margens do rio Mapocho:
Bem-aventurados os bêbados, porque eles verão Deus duas vezes.
Em Buenos Aires, no bairro de Flores:
Uma namorada sem mamas, mais que namorada, é um amigo.

Idem, p. 218.

domingo, 20 de maio de 2018

DOENÇA DE BRUNO


   No próximo DSM iremos encontrar, por certo, uma referência à doença de Bruno. Trata-se de uma patologia que associa comportamentos egocêntricos a posturas de vitimação, distúrbios projectivos a tácticas de manipulação, acompanhada, porém, de uma enorme capacidade de se fazer valer das distorções hermenêuticas a que o enfermo está sujeito. Neste caso, lavo as minhas mãos sem qualquer peso na consciência. Como nunca simpatizei com Bruno, como nunca me ouviram apoiá-lo fosse no que fosse, como desde há muito disse que a postura dele não era aconselhável à presidência do que quer que fosse, custa-me agora ter de lhe dar razão num aspecto e só num: a comunicação social portuguesa é habilidosa, tem uma tendência para distorcer o que as pessoas dizem que a gente fica sem perceber se o faz em benefício próprio (achas para uma fogueira que dá audiências) ou em benefício de terceiros (investidores interessados nas fogueiras). São vários os exemplos que podemos dar e que vêm de longe, mas o mais recente talvez seja o mais fácil de compreender. 
   Ouvi atentamente a fastidiosa conferência de ontem e em nenhum momento Bruno de Carvalho atribuiu aos jogadores a responsabilidade pelas agressões de que foram vítimas. Está errado fazer-se essa interpretação, até por mais uma vez se estar a reforçar a postura de um populista face a uma imprensa que o detesta tanto quanto adora (dá assunto). Estão criadas as condições para que o populista se faça novamente de vítima e assim reforce o apoio de quem sempre esteve com ele. O que Bruno de Carvalho disse, e de uma forma muito clara, foi que há uma história por detrás dos acontecimentos na Academia que tem de ser contada para que se perceba o que ali aconteceu. E essa história começa na Madeira com trocas de insultos entre sócios e jogadores, os quais regressaram a Lisboa já sob ameaça. Isto é substancialmente diferente de se dizer que os jogadores são responsáveis por terem sido agredidos, como os media agora veiculam. 
   O que foi dito, e tem lógica, é que perante as ameaças dos cães na Madeira, os felinos da Academia deviam ter permanecido calados, não deviam ter encrespado o pêlo. Isto é uma tentativa de contextualização das coisas que pretende: 1.º ilibar o presidente de quaisquer responsabilidades no sucedido; 2.º demover jogadores de pedidos de rescisão com justa causa. A dimensão projectiva da coisa está em que o mesmo raciocínio pode ser aplicado ao problema da relação do presidente com a equipa de futebol. Ou seja, também Bruno não devia ter reagido como reagiu quando lhe passou pela cabeça anunciar através do Facebook a suspensão de toda a equipa. Em suma, o bom senso não é definitivamente a coisa mais bem distribuída do mundo. 
   Dito isto, continuo a julgar que Bruno de Carvalho devia demitir-se. Mas já o julgo há muito tempo. Não estar hoje presente no Jamor é uma boa decisão, das poucas boas decisões que terá tomado nos últimos tempos.

sábado, 19 de maio de 2018

HOMEM DE CIÊNCIA

   Discussão mais séria foi a que teve com o filósofo alemão Gottfried Leibniz. Tanto este como Newton tinham desenvolvido independentemente o ramo da matemática chamado cálculo, que está na base da maior parte da física moderna. Embora agora saibamos que Newton descobriu o cálculo antes de Leibniz, publicou o seu trabalho muito mais tarde. Começou assim uma enorme discussão sobre quem tinha sido o primeiro, com cientistas a defenderem vigorosamente os dois oponentes. É notável, porém, que a maioria dos artigos que aparecem a defender Newton tivessem sido escritos por ele mesmo e apenas publicados em nome dos amigos! No calor da discussão, Leibniz cometeu o erro de apelar à Royal Society para decidir a disputa. Newton, como presidente, nomeou uma comissão «imparcial» para investigar, formada, por coincidência, apenas por amigos seus! Mas isso não foi tudo: Newton escreveu depois o relatório da comissão e fez com que a Royal Society o publicasse, acusando oficialmente Leibniz de plágio. Como ainda não estava satisfeito, escreveu uma crítica anónima do relatório na publicação provada da Royal Society. Após a morte de Leibniz, diz-se que Newton declarou que tinha ficado radiante «por ter desfeito o coração de Leibniz».

Stephen Hawking, in Breve História do Tempo, trad. Maria Alice Gomes da Costa, Gradiva,  8.ª edição, Maio de 2011, pp. 220.

PALHAÇADA REAL

Casamento real britânico transmitido em directo na televisão pública portuguesa. Eu não pago impostos para esta merda

sexta-feira, 18 de maio de 2018

DEUS É DO TAMANHO DAS MINHAS DÚVIDAS


Primeiro a desconfiança. Um livro científico onde Deus seja tantas vezes chamado à colação deve deixar-nos desconfiados. Bastou-nos o racionalismo cartesiano a tentar abrir mato para chegarmos a uma ideia clara dessa ideia. Depois, a dúvida antiga sobre o princípio do universo, sobre a necessidade de um princípio. Nunca entendi tal necessidade, continuo sem entender. A espaços, pareceu-me não estar isolado no mundo. A hipótese da inexistência de um princípio parece-me tão forte, pelo menos filosoficamente, como a da sua inutilidade. Portanto, mais do que pretender saber se houve um princípio, mais do que teorizá-lo, postulá-lo com teses como a do big bang, fica sempre no ar a dúvida acerca da utilidade. Quanto vale uma teoria na ausência da observação do objecto? Hawking diz-nos, no entanto, coisas que nos parecem tão prováveis como a nossa insignificância na complexa vastidão universal. Sobre os tempo absoluto, tempo relativo e tempo imaginário, diz-nos que cada um deles será válido conforme a sua utilidade na cadeia de um raciocínio. Desse modo, supera o determinismo com o princípio da incerteza. Em termos literários, parece-me bem que sejamos determinados pelo princípio da incerteza, por uma rede caótica e incognoscível na sua totalidade, efeito respeitável de um acaso que procuramos entender, explicar, sabendo que em última instância nenhuma explicação que encontremos será definitiva. Em termos físicos, não chego lá. É muita areia para a minha cabeça. Parece-me, à distância que se impõe a um leigo, que o cúmulo do relativismo será considerar mais básico o chamado tempo imaginário do que o chamado tempo real, ambos inventados, não necessariamente descobertos, para nos ajudarem a descrever o universo. Porque o tempo será sempre aquela invenção do pensamento que a carne não desmente. Ele passa por nós, como se costuma dizer, e tanto deixa marcas como as apaga, o tempo tem uma dimensão biológica, observável na decomposição de um corpo. Que ganhamos nós, então, com a teorização de uma origem? Comprovada a vastidão do espaço, podemos até conviver bem com a ideia de que somos um partícula minúscula. Qual o nosso lugar? Podemos imaginar que é subterrâneo, que a própria terra é como que subterrânea, que todo este complexo galáctico afinal está no interior de um corpo como células cancerígenas. O sentido da nossa actividade seria, então, ir degustando a matéria à nossa volta até chegarmos às fronteiras do corpo consumível, até darmos cabo dele, até que chegados à pele do corpo a rasguemos e com isso outra coisa surja da extinção desta que é nossa coisa. Outro bicho nasça. Outro verme germine. Tem piada, o nosso destino: «serão precisos 1000 milhões de milhões de milhões de milhões de anos para a Terra colidir com o Sol, pelo que não há motivo imediato para preocupação!» (p. 110) Eis o tempo, Via Crucis da humanidade que um dia julgou ser possível determinar todas as leis da Natureza, que um dia, iludida pela repetição de certos fenómenos, pensou que em tudo havia a mesma estabilidade, o mesmo equilíbrio, a mesma previsibilidade. Ordem, regra, até o imprevisível dar cabo da lei e deixar-nos desamparados com uma única palavra onde apoiar a mente: Deus. Só que Deus não existe, segundo a regra das probabilidades. Pelo que o melhor será aceitarmos de uma vez por todas o desamparo enquanto condição última de estar por aqui, pelo que preferível será abraçarmos de uma vez por todas a nossa insignificância observando-lhe o fim último de um sentido profundo: somos só mais uma pequeníssima partícula na engrenagem de uma bela aventura. Se estivermos enganados, paciência. Haverá sempre um buraco negro onde nos enfiarmos na hora do juízo final. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #43



   I’m Your Man (1988), de Leonard Cohen (1934-2016), há-de ter sido o primeiro CD que comprei na vida. Teria a idade que a minha filha mais velha tem agora, 15 anos. Lembro-me de estar na companhia de um amigo a ouvir First We Take Manhattan, da incredulidade do meu amigo, que não parava de dizer em tom de lamento “que decadência, que decadência”. Decadência significava a voz envelhecida de Cohen, em comparação com os álbuns iniciais, era o sintetizador sobrepondo-se à viola acústica, eram os coros femininos num registo pop inaceitável. Curiosamente, tinha ouvido falar inicialmente de Leonard Cohen num programa de televisão que me capturara por causa da mais pop das suas canções: Bird on The Wire. O tal amigo decepcionado, que já conhecia Songs From a Room (1969) e New Skin For The Old Ceremony (1974), não aceitava nada do que ouvia, excepto talvez o oud à grega em pano de fundo durante Everybody Knows
   Regresso amiúde a Leonard Cohen, por causa das melodias, da ironia, das construções frágeis que suportam letras inquebráveis, espessas. É verdade que o Cohen que come uma banana warholiana na capa de I’m You Man já não é o mesmo de Sisters of Mercy. Nem faria sentido que fosse. Mas se olharmos com atenção encontraremos as mesmas motivações que cativavam sem que agora nos expulsem de um universo onde queremos permanecer para sempre, cativos de uma poesia inteligente, espiritualmente desassossegada, sensual, elegante. E então, além do oud, repararemos na influência de Lorca, nos violinos neo-românticos, no piano de Jazz Police (que mais parece uma homenagem a Serge Gainsbourg), repararemos em versos definidores das contradições humanas como estes de I Can’t Forget: I loved you all my life, and that’s how I want to end it. The summer’s almost gone. The winter’s tuning up. Yeah, the summer’s gone but a lot goes on forever. And I can’t forget, I can’t forget, I can’t forget but I don’t remember whatE repararemos no remate, uma evocação de Hank Williams em estrutura bluesy com letra a rebentar de confessionalismo. 
   Anos depois, os The Jesus and Mary Chain ofereceram uma versão a Tower of Song que de algum modo clarificava o que o tempo faz às coisas. Mais arranjo, menos arranjo, Cohen esteve sempre no imo das canções que escreveu como uma espécie de sombra do grande poeta que foi/é. Sombra no sentido em que a canção projecta a forma da matéria original, o conteúdo de uma personalidade tão romântica quão inquieta. A música, neste caso, será apenas um suporte expressivo. Que importa que dancemos a ouvir alguém declarar-se falhado? É como gritar que se é rastejante com a raiva de um herói. O amor tem destas coisas, leva-nos ao ridículo, faz-nos repetir refrões com o coração repleto de paixão face a objectos distantes, indiferentes. Então entramos na canção como quem entra numa igreja vazia, porventura abandonada, e escutamos no fundo da alma a voz suave de um anjo:

UM LIVRO FELLINIANO



A cada conto há parágrafos finais a selarem o fim com um olhar de assumido e lúcido desencantado presente. Um livro felliniano, a fazer-nos lembrar o filme Amarcord do realizador italiano Federico Fellini. O passado a ser filtrado por uma memória que atua sobre o que ficou para trás e não foi esquecido, nada garantindo que realmente assim tenha sido. No cineasta e no escritor encontramos humor, mas menos conformado nos textos do Henrique.

Manuel Silva, aqui.


Nota: encomenda directa ao editor (aqui), em stock, com 10% de desconto (aqui), para envio com portes grátis (aqui), indisponível aqui e noutros lugares.

ANTIEU

Pode haver antimundos e antipessoas feitos de antipartículas. Contudo, se encontrar o seu antieu, não lhe aperte a mão! Desapareceriam ambos num grande clarão de luz

Stephen Hawking, in Breve História do Tempo, trad. Maria Alice Gomes da Costa, Gradiva,  8.ª edição, Maio de 2011, pp. 85-86

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A TERÇA DE MAIO

Ontem, com um cinturão negro da poesia portuguesa, o único que conheço, e um indefectível fã dos The Smiths. 






Fotografias do Ricardo Aurélio.

terça-feira, 15 de maio de 2018

DIGA 33: MAIO: DIA 15: HOJE



Em Abril, teremos connosco Miguel-Manso e Pedro Mexia. Sobre o primeiro, leitura de Contra a Manhã Burra (aqui), leitura de Santo Subito (aqui), leitura de Um Lugar a Menos e Ensinar o Caminho ao Diabo (aqui), leitura de Persianas (aqui). Sobre o segundo, um poema (aqui), poema seguido de nota crítica (aqui), leitura de Senhor Fantasma (aqui), leitura de Uma Vez Que Tudo Se Perdeu (aqui). 

QUANTOS PALESTINIANOS VALE UM EX-ESPIÃO?

Dezenas de mortos em Gaza. 50? 60? 70? Que importa o número certo? Há coisa de dias, enorme agitação diplomática por causa de um ex-espião russo alegadamente envenenado pelos antigos patrões. Gaza não interessa. EUA e Israel inauguram a embaixada, pousam para a fotografia, mimam-se, enquanto ao largo israelitas atiram a matar sobre palestinianos armados até aos dentes com fisgas e pedras e paus. Nenhum diplomata nesses países será chamado para casa, dezenas de mortos em Gaza não valem tanto quanto um ex-espião russo envenenado

UM POEMA DE MIGUEL-MANSO

RUA DA ARRÁBIDA

estão a demolir pedra
a pedra o prédio ao lado

quem passa agora na rua
parece lamber com o olhar
a falta de um dente


Miguel-Manso, in Tojo - Poemas Escolhidos, Relógio D'Água, Abril de 2013, p. 24.

GLENN BRANCA (1948-2018)


segunda-feira, 14 de maio de 2018

DIÁLOGOS MARADOS / UM MALUCO VEM POUSAR-ME NA MÃO



Durante largos anos braço direito de Vítor Silva Tavares na editora &etc, Rui Caeiro (Vila Viçosa, 1943) é autor de vários livros onde a poesia e o aforismo convivem sem que se dê conta de grandes males para qualquer uma das formas. Disso são exemplo livros tais como Olhar o Nada, Ver a Deus (Averno, Abril de 2003), o bestiário O Carnaval dos Animais (Letra Livre, Outubro de 2008) ou mesmo a colectânea erótica O Quarto Azul e Outros Poemas (Letra Livre, Março de 2011). Mais recentemente, a Livraria Snob publicou do mesmo autor o díptico Diálogos Marados/Um Maluco Vem Pousar-me na Mão (Livraria Snob, Março de 2018) e um desdobrável em acordeão com três inéditos. São textos basicamente biográficos, memórias, recordações, evocações onde à experiência vivida se acrescentam discretíssimas sentenças pessoais:

Aos poetas categoria particular de malucos olho-os. Olho-os demoradamente.
Conheço-os a todos ou quase (enfim, na medida em que), e olho-os de A a Z, do solar António Barahona ao nocturno Zetho Gonçalves. Olho-os enlevado.
E um pouco desencantado também, devo dizer, com o estranho conjunto.
Olho o triste rebanho dos poetas e dou-me conta. Todos eles estão rezando crentes, ateus, agnósticos, ou coisa nenhuma todos eles rezando. Pedindo a Deus a sua gota de água.
Todos e cada um a um Deus qualquer implorando que não lhes falte nunca a sua gota de inspiração e loucura, água para a sua sede. (Um Maluco Vem Pousar-me Na Mão, p. 59)

   Esta manifestação de desencanto, refira-se, é uma raridade no conjunto dos textos, muito mais empenhados na fixação de historietas onde perpassam o convívio amistoso e o anedótico, encontros inesperados e instantes perdidos algures entre o incómodo e a ternura, numa jornada pelas memórias familiares que inclui momentos de cavaqueira com amigos, recordações de infância, aventuras, desventuras, até flashes televisionados. Nos diálogos, encontramos como interlocutores gente anónima e gente com nome próprio, facilmente identificável, familiares e companheiros inomináveis, tendo como panos de fundo essencialmente Lisboa, mas também Madrid, Paris, Macau... O tom geral é o de uma nostalgia encantadora, sendo que a espaços notamos uma espécie de contabilidade a ajustar com a vida surgindo à superfície do texto como a comoção surge na pele:

   Não sei se algum dos presentes à cena teve consciência de que aquela era a última vez que o meu pai saía à rua.
   Caminha devagar, pesadamente e olha o chão com ar ausente. Não me aproximo e ele também não me vê. Apercebe-se, porém, da presença de alguém que vem a descer a rua em passo rápido: uma rapariga de mini-saia, busto espetado e sorriso de vencedora. Durante meio segundo, não mais, ela olha-o com atenção. Com uma curiosidade distraída (mais um velhinho a morrer: o que é que isso tem?). Ele olha longamente a miúda, durante uns longos poucos segundos. Como quem se despede da vida, nos olhos talvez o brilho de uma curiosidade, de uma avidez antiga.
   Ninguém ali diz palavra. E a força do que não se disse fica a doer no peito de um filho. (Diálogos Marados, p. 113)

   Já na casa dos 70, Rui Caeiro dirige-se deste modo aos seus contemporâneos, contando histórias de vida, a sua, com o descomprometimento de quem, por pouco dever, nada teme. Ateu declarado, mantém uma relação complexa com o tema Deus: «Filhos de Deus também? / Porventura mais enteados que outra coisa» (Um Maluco Vem Pousar-me Na Mão, p. 58). À ideia do sagrado enquanto princípio a partir do qual podemos empreender um sentido da vida, sobrepõe-se nestes textos um elogio do profano na figura da loucura. Em última instância, é na aceitação da anomalia que vislumbramos um sentido para a existência. Impressiona a serenidade do discurso, a tranquilidade que transparece no modo de dizer, como que se no termo da viagem empreendida ficasse por declarar a fatuidade dos grandes empreendimentos filosóficos. Afinal, a vida vive-se de uma forma simples quando se tem por horizonte, desde cedo, a inevitabilidade do fim. À memória caberá registar o passo lento, mas seguro, do caminhante. E daqueles que a seu lado empreenderam a jornada.

SOCIALISMO EM PORTUGAL

Acabo de ouvir nas notícias que um gestor ganha em média mais 45 vezes do que um trabalhador na mesma empresa. É isto o socialismo em Portugal. Vergonha na cara, já sabemos que não têm; o inferno não lhes desejamos, porque somos descrentes; mas sonhamos com o dia em que ficarão com os dedos entalados na gaveta ou intoxicados de marisco ou sós, completamente sós, como o cidadão Kane no termo da vida. Citando o outro, puta que os pariu!

domingo, 13 de maio de 2018

UM POEMA DE JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA


Jorge de Sena olhou para a cadeira de Van Gogh
E escreveu o que viu.
E viu, coisa mais estranha, uma cadeira,
um cachimbo pousado, uns restos de
tabaco e, ao fundo, o caixote com a assinatura Vincent.
Viu a pequenez do quarto, a porta, confirmou a indigência
do ocupante, lembrou-se da loucura já sabida e lida, e da
(mais impressionante do que qualquer pintura) orelha, real, cortada.
É estranho, mas foi isto o que ele viu: uma cadeira, um cachimbo, um quarto, uma
porta, um caixote.
Não viu, não leu a coisa em frente dos olhos: a cadeira bêbeda
a levantar voo no quarto bêbedo, as coisas a palpitar, a dançar
num mundo sem firmeza, não viu a alma esvair-se sob o ácido,
não viu o que Huxley viu sob o efeito do mescal, não viu o que se
vê desvairando um tanto que seja.
E, contudo, coisa mais que estranha, olhou para o quadro e escreveu o poema.


João Paulo Esteves da Silva, in Tâmaras, Douda Correria, Outubro de 2016, s/p

sexta-feira, 11 de maio de 2018

CLARA MENÉRES (1943-2018)


Clara Menéres (n. 1943 - m. 2018) cultiva o sentido do sagrado. A sua escultura intitulada Lapis cognitionis (1988), realizada em mármore e néon branco, é eficaz pela sua singeleza. O impacte da forma elementar tem o seu brutalismo alterado pela «osmose óptica» entre a pedra branca e a luz branca. A pedra maciça simboliza a matéria bruta; e a luz simboliza a energia espiritual. O sentido do sagrado manifesta-se na simplicidade do signo vertical. A relação pedra-luz deixa de ser uma oposição. A pedra «desmaterializa-se» nesta imagem, onde a luz parece «consubstanciar-se» com a rocha.

Rui Mário Gonçalves, in A Arte Portuguesa do Século XX, Círculo de Leitores, Dezembro de 1998, p. 118

SHORT STORY DE HAROLD PINTER

PROBLEMA

   O telefone toca. Ignoro. Persiste. Não sou parvo. O estratagema a que recorro ocorre-me facilmente. Levanto o auscultador. Não digo nada. Silêncio igual, na outra ponta. Ele troca de auscultador. O tom é extraordinariamente estridente.
   Após dar conta de alguns trabalhos decidi fazer um telefonema. Levantei o auscultador. Silêncio morto. Sem precedentes. O sistema telefónico da minha área é normalmente sans pareil. À comunicação da mais pequena falha vêm os técnicos a correr ao local para corrigir. Mas neste caso há um problema palpável. Não posso telefonar para comunicar a falha. A falha é tão vasta, tão impregnante, tão consumada, tão definitiva que impede, sem um resquício de esperança, a ajuda.
   Telefone calado. Noite morta.
   A linha? O telefone fora do descanso? A linha telefónica fora do descanso? Investigo. Linha segura, com uma certa indolência, no descanso. Estou desorientado. Não só isso. Pego numa cadeira e sento-me desorientado. 
   Desorientado. Ausência de sinal. Noite morta.
   Toca.

*

   Saio da biblioteca, vou a uma cabine telefónica e disco o número da minha casa. Linha ocupada.

*

   Alguém anda a tentar lixar-me.

1976

Harold Pinter, in Várias Vozes, Quasi Edições, trad. Miguel Castro Caldas, Maio de 2006, pp. 106-107.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

PALAVRA DE EDITOR

Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, 14 Abril

   A tarde abriu enorme e coube ainda assim aconchegada pela conversa no edifício, primeiro pensado de raiz entre nós para ser museu, não-lugar do novo sagrado destinado a acolher paisagens e figuras de um espaço e um tempo que parecem já só existir aqui. Ainda nos arredores de Imaginário, quase a desmentir esta ideia de ruralidade que se dissipa, ou, pelo contrário, a confirmar fantasmas e dores, trouxemos «A Festa dos Caçadores», do Henrique [Manuel Bento Fialho]. As razões para o meu entusiasmo são múltiplas, mas devo conter-me, contê-lo, ao entusiasmo, lê-lo e relê-lo, afastar-me dele, procurar gralhas e melhor desenho de página, capa ou contracapa, e continuo a falar do entusiasmo. Este livro apresenta-se-nos carregado de livros nas entrelinhas, ou melhor: pejado de leituras. Cheguei ao Henrique por via das suas excelentes leituras, a conferir em Antologia do Esquecimento (http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/). O livro como objecto e entidade aparece aqui e ali, a evocar a sua condição de bom livreiro e portanto observador, olhando de esguelha certas relações com o bicho, e não tanto enchendo a prosa de citações, que também as há, embora na justa medida do bom tempero. Folheando, a Festa é uma colectânea de contos, uns morais, outros de prosa poética, parábolas aqui, anedotas além, relâmpagos luminosos de pensamento, frase ora despojada ora barroca, rica e variada, bem-humorada q.b., com música e várias infâncias a servir de fundo, além da omnipresente pitada de amargor, como agora se aplica à cerveja que abre caminhos. Será tudo isso, sem deixar de ser «retrato fragmentário da primeira geração de portugueses criada em democracia», diz o autor, que continua. «De um mundo rural em vias de extinção à deslocação urbana, acompanhada de sensações de exílio, solidão e desenraizamento, as personagens destes contos acabam por se fixar num lugar sem espaço nem tempo, nos “desastres de uma vida perdida algures pelo caminho como farrapos de roupa comidos pelo tempo”». Será a voz do narrador? Outro jogo, que aproveita com habilidade os farrapos narrativos que podem ou não agregar estes fragmentos, assenta nos saltos de lugar entre autor e narrador, entre a reflexão e o episódio, entre o íntimo e o disperso. Tanto estou na pele de Henrique como me vejo assistir à dissociação na mente das personagens, que duvidam em permanência do que lhes acontece. Além do amargor, a prosa perfuma-se muito de absurdo: talvez existamos apenas na cabeça de alguém, sonho de uma sombra. Parece-me, portanto, único este volume de 320 páginas de contos a acreditar que poderão ser outra coisa. E também por causa do tempo e outros detalhes maneiros: a areia, seu maior sinal. Ou o silêncio. Assim a própria, há por aqui torto e a direito grãos, suavizando ou incomodando, assinalando que mesmo a rocha maior se pode desfazer, que as mãos não conseguem segurar, que os rastros se apagam de um sopro, que o deserto cresce. Lá para o fim, reza assim o riso escondido nas vértebras das pedras: «Pedi desculpa por me estar a meter na conversa e reforcei que sabia do que ele precisava. Ele olhou-me com reprovação, as devotas olharam-me com desconfiança, olham-me sempre com desconfiança, e eu, agora metido num fosso do qual não teria saída, rematei: o senhor precisa de começar a beber e a fumar. E, já agora, precisa de uma mulher. Precisa de se divertir, O senhor precisa de esquecer que o mundo existe, precisa de esquecer-se de si próprio, precisa de criar na sua vida momentos de interrupção, precisa de ler e de escrever como se não houvesse nada mais importante sobre a terra, precisa de alimentar os seus medos e as suas frustrações com o veneno da indiferença, precisa de dizer adeus ao passado e, se lhe não for doloroso, ao próprio futuro. Precisa, desculpe-me a expressão, de cagar para o futuro e procurar no presente o riso escondido nas vértebras das pedras. Desculpe-me estar a fazer poesia, é defeito meu. Não dura muito. Já a seguir vem o silêncio, voltamos as costas uns aos outros e caminharemos, cada qual para a sua vida, como se arrastássemos o deserto inteiro atrás de nós. O senhor não precisa de mim, mas precisa ainda menos de si.»
   O Henrique só conheceu agora, neste fim-de-semana prenhe de intensidades, anedotas e contos de moralidade difusa, o Sal [Nunkachov] que lhe encontrou o rosto exacto para o livro (algures nesta página), além de interstícios, galhos quebrados, rasgões, sinais que exigem atenção total ao objecto-livro. Quando ma mandou era contracapa tímida, mas a colagem dizia de tal modo caminho e corpo, natureza e espelho que me pareceu o lugar certo para dizer festa e silêncio. O tom sépia agrava a nostalgia.




João Paulo Cotrim, aqui.

terça-feira, 8 de maio de 2018

SEGUNDO REZA A CRÓNICA

   Segundo reza a crónica, que pode ser verdadeira ou fantasista, a escritora Sophia de Mello Breyner e a escritora Agustina Bessa-Luís tiveram o seguinte diálogo:
   — Agustina, o sexo é para si uma coisa porca?
   A resposta terá sido pronta e elíptica:
   — Sim, se for bem feito.

Rui Caeiro, in Diálogos Marados, Livraria Snob, Março de 2018, p. 26.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O SENHOR TESTE


Dentre o caos de excitação e depressão, uma das boas notícias dos últimos dias, a contribuir para o equilíbrio possível de um país cada vez mais bipolar, é a reedição de O Senhor Teste (Relógio D’Água, Março de 2018), obra imortal de um tal Paul Valéry (n. 1871 – m. 1945), celebrado a seu tempo como o maior dos poetas franceses. As opiniões dividem-se. Por cá, a título de exemplo, Jorge de Sena chamou-lhe escritor «público a metro e finança». Aníbal Fernandes, o tradutor, lembra na introdução os 261 Cahiers vindos a lume. A desconfiança de Jorge de Sena contrasta com a admiração de Jorge Luis Borges, ainda que acautelada: «A sua poesia talvez está menos organizada para a imortalidade da sua prosa». Desta, destaca-se La Soirée avec monsieur Teste (1896), acerca da qual Borges sentencia: «Esse personagem (…) é talvez a invenção mais extraordinária das letras actuais». A personagem é o Senhor Teste, «herói tranquilo» segundo Borges, alter-ego segundo o tradutor Aníbal Fernandes, «personagem de fantasia» de acordo com o próprio Valéry, que no prefácio revela ter a criatura surgido numa era de «estranhos excessos de consciência de si». Também podemos especular sobre O Senhor Teste como o produto de um homem sem biografia, a partir de certa altura embrenhado em si mesmo, exclusivamente dedicado ao pensamento e à escrita, à relação possível entre ambas, porventura à impossibilidade de a segunda exprimir o primeiro. 
   O Senhor Teste, tal como a poesia de Valéry, é forma, jogo de espelhos, linguagem velada na sua aparente nudez. Enquanto tal, dispensa carne, ossos, veias, emoções, paixões, dispensa até a vontade, é coisa mental reflectindo-se a si mesma. Num belíssimo ensaio intitulado De Poe a Valéry, T. S. Eliot colocou bem a questão, ainda que centrando-a no contexto de uma análise acerca do interesse de alguns poetas franceses pela poesia de Poe. Diz-nos o autor de Four Quartets que mais do que o homem ou a poesia ela mesma, enquanto expressão das emoções experimentadas pelo homem, é a teoria da poesia aquilo que mais prende Valéry. E acrescenta: «À extrema autoconsciência de Valéry deve somar-se outro traço: o seu extremo cepticismo». Autoconsciência e cepticismo parecem ser as palavras-chave para um enquadramento de O Senhor Teste
   Do conjunto de textos que hoje compõem o enigma Teste, é no texto principal que damos com um encontro entre o narrador e o tal Sr., homem de «maneiras singulares», leitor de jornais, frequentador de teatros e bordéis, talvez pelos quarenta anos, casado, embora solitário, sem riso no rosto ou ar de infortúnio, com ódio à melancolia… vazio. Tudo o que nos é dito acerca deste homem é vago e incerto, por vezes até incoerente, porque nada é possível saber acerca dos homens. O movimento é introspectivo, o narrador volta-se para si mesmo e encontra o Senhor Teste. É no interior da sua condição de narrador que se processa a consciência de uma impossibilidade, a do contacto com o outro. O outro que está dentro de si é incognoscível, tal como incognoscíveis são todos os demais além de mim. 
   Vejamos como se lhe refere a mulher com quem está casado, na Carta da Senhora Émile Teste: «Vivemos muito à vontade, cada qual no seu absurdo, como peixes na água, e só por acidente a notarmos quanta estupidez a existência de uma pessoa razoável contém. Nunca pensamos que o que pensamos nos esconde o que somos» (p. 40). O Senhor Teste ensaia uma consciência da impossibilidade do conhecimento, tendendo para o tal cepticismo declarado por Eliot a propósito de Valéry. Personagem interior, como que põe em xeque a rainha da razão, a reflexão, arrastando para o vazio das impossibilidades o próprio pensamento, a metafísica, a lógica, a filosofia, enquanto capazes de conhecimento. Porque o pensamento é essencialmente linguagem, e esta a todo o momento trai os objectos da representação. Enquanto fruto do pensamento, O Senhor Teste surge para anular a possibilidade do próprio pensamento. Esta é a sua dimensão mais radicalmente paradoxal e labiríntica. Não admira o entusiasmo de Borges. 
   Num dos Extractos do Log-Book do Senhor Teste podemos ler, em resumo, a ironia desta personagem: «Não sei o que é a consciência de um tolo, mas a de um homem de espírito está cheia de tolices» (p. 56). Diria o Senhor Teste acerca de Paul Valéry? Diria Paul Valéry acerca de o Senhor Teste? Não importa sabê-lo. O exercício que nos propõe o texto é de outra ordem, não é um exercício de compreensão ou de percepção, é um exercício de aceitação do nada, da nulidade última à qual tudo se reduz quando ousamos transpor as fronteiras que garantem a lógica da coerência a um pensamento. Restam as dúvidas: «Quem sabe se a verdadeira «filosofia» de alguém é… comunicável?» / «Por que razão, no teatro mental, tu és Tu? Tu e não eu» (p. 101)? Perguntas às quais Ludwig Wittgenstein (n. 1889 - m. 1951), contemporâneo de Valéry, procurou responder. Filosoficamente. 

TAMBÉM CONTA?


Sporting bate Benfica e é campeão no voleibol; Sporting sagra-se bicampeão nacional de futebol feminino; Andebol: Sporting de novo bicampeão como há 37 anos…

«o tempo e as suas incompreensões e distracções colaboram com o poeta morto»

Não sei de um exemplo melhor que o alto verso de Cervantes:


¡Vive Dios, que me espanta esta grandeza!


Quando o redigiram, «vive Dios» era uma interjeição tão vulgar como «caramba», e «espantar» queria dizer «assombrar». Suspeito que os seus contemporâneos o sentiriam assim:

Vejam só o que me assombra este aparelho

ou coisa parecida. Nós vemo-lo firme e vistoso. O tempo — amigo de Cervantes — soube corrigir-lhe as provas.

Jorge Luis Borges, de Textos Cativos (1986), in Obras Completas, 1975-1988, Vol. IV, trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Círculo de Leitores, Janeiro de 1999, pp. 376-377.

UM POEMA DE GOLGONA ANGHEL

AGORA QUE NADA MAIS IMPORTA,
consolamos as tardes de Domingo
com as bifanas das tasquinhas montadas antes do jogo,
alguns boatos frescos, discussões sobre Sartre,
o pós-estruturalismo e essa piada
que qualquer marxista parolo
parece esperto ao pé de um anarquista.
O único interesse que ainda temos realmente em comum
é dividir o aluguer
e uma garrafa de tinto.
Às vezes, ainda recebemos algum convite,
e olha, não é fácil, com o miúdo e tal.
Mas acabamos por ficar em casa.

O desinteresse acumula-se à minha volta
como as camadas seculares
no tronco de um sequóia. 
Fico imune a queixinhas.
Lavo sozinho a minha roupa.
A minha língua está a ganhar uma espessura lenhosa.
No lugar do grito,
uma greta.
Mãos nos bolsos,
bico calado.
Evito vitrinas e espelhos.
Tenho medo que a verdade
me possa desfigurar o rosto.


Golgona Anghel (n. 1979, Iliria Oriental, Roménia), in Como uma flor de plástico na montra de um talho, Assírio & Alvim, Maio de 2013, pp. 53-54.

sábado, 5 de maio de 2018

ADENDA

A isto, acrescentou alexandra g: isto.

"PODERMOS SER PATETAS A DOIS"

   Não há mulher no mundo chamada como eu. Sabe que palavras ridículas os amantes trocam; que as chamadas de cães e papagaios são frutos naturais das intimidades da carne. As palavras do coração são infantis. As vozes da carne são elementares. Aliás, o Sr. Teste pensa que o amor consiste em podermos ser patetas a dois — toda a licença de ingenuidade e bestialidade. Por isso me chama a seu modo. Quase sempre me designa de acordo com o que quer de mim. Só o nome que me chama basta para eu saber, numa palavra, o que me espera ou tenho de fazer. Se não deseja nada em especial, diz-me: Ser ou Coisa. E às vezes chama-me Oásis, o que me agrada. 
   Pateta é que nunca me chama — o que muito profundamente me sensibiliza.

Paul Valéry, in O Senhor Teste, trad. Aníbal Fernandes, Relógio D'Água, Março de 2018, p. 47.

UMA TREMENDA INJUSTIÇA


No século vinte, escreveram, na língua portuguesa falada deste lado do Atlântico, três — e apenas três — grandes poetas que foram igualmente capazes de alinhar prosa tão cintilante, consistente e universal quanto a respetiva poesia: Pessoa, Fiama e Herberto.



Quem o afirma é o Xilre, aqui. Uma tremenda injustiça reduzir o leque a três, desde logo porque no grupo modernista temos o Mário de Sá-Carneiro de A Confissão de Lúcio e o Almada Negreiros de Nome de Guerra. Não foram grandes poetas? Bem, e Jorge de Sena? Sinais de Fogo é só o melhor romance português do séc. XX. E Carlos Oliveira? Que ande esquecido, não é problema que macule a estatura da obra. E Vitorino Nemésio? E José Gomes Ferreira? E Miguel Torga? E Sophia? E as crónicas do O'Neill? Todos grandes poetas com prosa igualmente cintilante...

sexta-feira, 4 de maio de 2018

INTERVALO DOLOROSO


Gazeta das Caldas, n.º 5224, sexta-feira, 04 de Maio de 2018.

(também aqui)

UM POEMA PELA MANHÃ

ATITUDE


Olá, não é para todos isto
de ser selvagem com o volume
da bagagem ocidental;
no clímax da meia-idade
é previsível já a quase-
-invariável rotina: i)
achar que não é para mim; ii)
aquiescer, eu, treinada
em variações de bardo (Deus,
faz com que eu nunca seja
uma mulher ressabiada),
na recondução ao redil; iii)
aceitar semi-lerda a classe
de trânsfuga descoberta; iv)
fingir que sou estrangeira
e não me altera esta bodega.



Por dama: aqui.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

O SENHOR QUE SE SEGUE


SUSTENTO


É um dos temas do momento: por que fecham as livrarias? Por terem muitos clientes não há-de ser, pelo que talvez fechem por não terem os suficientes para se manterem abertas.

Talvez a questão devesse ser reformulada: por que não têm clientes suficientes certas livrarias, de modo a que lhes seja possível manterem-se abertas, oferecendo a quem nelas trabalha sustento para a vida?

UM LONGO TEMPO NOS PULOS DO MAR



   De um escritor espera-se, antes de mais, que seja corajoso o suficiente para não vogar ao sabor da corrente, perseguindo modas e tendências com o intuito de conquistar a simpatia de alguns dos seus pares. Espera-se que descubra dentro de si algo que o distinga dos demais, que insista na descoberta sem renegar o encontro com a diversidade, com o outro. Ninguém que escreva o faz em completo isolamento, a língua que pratica liga-o a uma comunidade. Mas não lhe usurpa a identidade, não determina o caminho, conquanto possa condicionar traços culturais por vezes facilitadores de generalizações abusivas. Por exemplo, quando falamos de uma literatura portuguesa como se fosse possível vislumbrar-lhe um padrão definidor. Esta mania académica das generalizações raramente nos desvia da rotunda que leva da saudade à melancolia, varrendo para as bermas tudo o que siga em contramão. Maldito fado.
   Há dias, li num artigo de jornal que a poesia portuguesa ameaça tornar-se enfadonha. É óbvio que o decreto pretendia sublinhar a excepcionalidade dos nomes apontados como “lufadas de ar fresco”, mas ao ler aquilo ocorreu-me de imediato quão enfadonha deverá realmente ser a poesia portuguesa para quem passe a vida a ler autores oriundos das mesmas regiões estéticas e expressivas. A homogeneidade é a maior inimiga da arte, chega-me até a parecer que são incompatíveis. Do heterogéneo retiramos maior experiência dessa liberdade que está na raiz de qualquer obra artística. É pois com tristeza que constatamos tantas vezes não só uma tentativa de escamoteação dessa homogeneidade, promovendo tudo quanto se assemelhe ao vigente, olvidando o que se lhe oponha pela diferença, como também uma incompreensível resistência ao diverso que, por não encaixar nos padrões de certo tempo, é relegado para o plano da presunção debaixo de um toldo de desconfiança absoluta.
   Da poesia de Hugo Milhanas Machado (n. 1984) não desconfiamos nós, por há muito lhe havermos vislumbrado a singularidade que escapa à rotunda. Vai pela berma? Que se lixe! Enquanto assim for, vai muito bem. Tem tudo contra a maioria relativa que governa a sua época. Desde logo, a opção por uma sintaxe estropiada. Um aspecto relevante deste Um Longo Tempo Nos Pulos do Mar (Douda Correria, Fevereiro de 2018), pelo menos em comparação com o que conhecíamos dos livros anteriores, é o facto de aqui os versos elípticos terem cedido lugar a uma espécie de prosa que o não é bem assim. Talvez o seja na aparência formal, mas no seu íntimo estas frases longas pontuadas por vírgulas não deixam de ser versos, versos que são estrofes inteiras, estrofes que dão parágrafos. E lá pelo meio damos tanto com esta limpidez: «(…) só vinha dizer que daqui em diante é um circo de clareza que veio parar a frase e nela amolecer textos e poemas que tu já conheces (…)». Como damos com esta desbunda sintáctica: «(…) eu meto o gosto das madeiras duro para sempre nessas praias de brutas batalhas e desforras e chego a gostar nos bons dias (…)».
   Os temas mantêm-se em contramão: praia, férias, acampamentos, mar, alegria, «(…) pequenas magias que depois por nós ficam a mexer (…)», folas, guitarras, bicicletas, cantigas, o Verão, pistas de atletismo, «(…) longas caminhadas praia fora (…)», barcos, vinho, joie de vivre, «(…) a voz tão pegada à recordação nela emprestada (…)», isto é, tudo aquilo que de algum modo se opõe à tal melancolia servida em genéricos ou à lenitiva saudade, ainda que aqui a memória, as recordações, as lembranças, sejam raiz a partir da qual também o texto se constrói. E constrói em retorno, como as marés, repetindo na sua música «(…) o coração das férias (…)» quando Setembro chega e inaugura o princípio de qualquer coisa que não pode ser dita como fim. Que outro poeta português arriscaria colocar num texto seu uma referência a La La Land? Não há enfado que vingue com os textos de Hugo Milhanas Machado, há um desafio reiterado para encaixar algures o que não encaixa em lado nenhum. Apanhará o barco quem quiser, como é óbvio, podendo até vir a queixar-se de ondulação excessiva ou, como que por maldade, de mansas águas. Por aqui, olhamos para as ilustrações de Patrícia Guimarães e sentimo-nos logo melhor do coração. Começamos a ler os textos, e é como se embarcássemos «(…) no colo das ondas (…)». Ficará sempre, como é óbvio, a nostalgia da alegria lembrada como corola de um Verão onde colhemos o pólen que alimenta a esperança. Mas com a nostalgia de um sorriso podemos nós bem. 

P.S.: deste livro diria ainda que tem uma prosa com métrica perfeita.

HOMEM FEITO DEUS



Enquanto folheavam livros na feira, dois alunos da ESAD falavam um com o outro. Este lamentava-se daquilo a que chamava “paleio dos contemporâneos”, o outro dizia-lhe:

O teu problema é que não te sabes vender. Hoje em dia é fundamental um gajo saber vender-se.

Lembrei-me da Lamentação sobre o Cristo Morto, de Mantegna, e de como sempre me pareceu ser mais aquela obra acerca da condição do homem no mundo do que sobre Cristo, que, para todos os efeitos, terá sido Deus feito homem.

terça-feira, 1 de maio de 2018

1.º DE MAIO


Por todos os camaradas que neste dia estão a dar o litro, a troco de salários miseráveis pagos por empresas gananciosas com administradores avarentos e insensíveis.

DÚVIDAS


Por que correm debaixo de chuva as duas raparigas encharcadas?
*
Dois corvos aos saltos nas imediações do Hospital. Um crocita pelos que nascem, outro crocita pelos que morrem.
*
Episódio de urgência: espera.
*
Na sala de triagem, dão-te uma pulseira com a cor dos girassóis de Van Gogh depois de ouvirem queixas, medirem tensão e temperatura. O enfermeiro abana a cabeça e sorri ligeiramente, como quem nos desafia a tentar perceber o que lhe vai no pensamento.
*
Na ausência de lugares sentados, encostas-te à parede a fingir que lês um livro. Felizmente o livro é bom. De fingir, passas mesmo a lê-lo.
*
Os corredores estão cheios de macas. Escutas os velhos em surdina, lamentos, gemidos, gritos. Nada te incomoda tanto como a respiração ofegante de quem espera.
*
Comprimido debaixo da língua, análises à urina e ao sangue, cateter, raio x. Os olhos da enfermeira.
*
Por que correm debaixo de sol, aos pares, em fila, sozinhos, os atletas domésticos? São uma espécie de arte urbana.
*
Sentado a teu lado, um homem queixa-se de não ter falta de ar. Não percebe por que lhe deram bombas. Ele tem líquido nos pulmões, não tem falta de ar.
*
Subitamente julgas ouvir o mar na sala de onde chegava o choro das crianças. Será alucinação? Serão as mães?
*
Momento zen: o segurança senta-se numa cadeira de rodas a pedido da utente, que quer saber se o cu do marido cabe onde ela julga ser impossível caber. O cu do segurança serve de modelo.
*
O homem que não tem falta de ar mostra-se deveras revoltado. Queira Deus que alguém lhe explique a razão das bombas, ainda tem um ataque de coração. E como que por contágio, provocará outros à sua volta.
*
Um conhecido aborda-te com perguntas sem resposta: então, o que se passou? Passou-se, passa-se, que não tens resposta para esta dúvida insistente, recorrente, obsessiva, teimosa, persistente, patológica: por que correm debaixo de chuva as duas raparigas encharcadas?
*
O melhor remédio está na rua, quando finalmente respiras fundo e caminhas breves minutos em silêncio. Olhas para o céu e acompanhas com o olhar o passo vagaroso das nuvens, escutas as gaivotas como se estivesses numa sala de concertos, a lua espreita-te com a ameaça de uma noite luminosa. Ainda trazes palpitações no peito, alfinetes espalhados pelo corpo, dúvidas.