Algo vai mal, mas mesmo muito mal, diria pessimamente mal, quando
com tanta matéria relevante por tratar, reportar, anunciar, se perde o tempo
que se perde num telejornal com a transferência de um jogador de futebol,
enviando repórteres para Madrid e Turim num pingue-pongue de não notícias
completamente aparvalhado.
quinta-feira, 5 de julho de 2018
quarta-feira, 4 de julho de 2018
AFONSO CAUTELA (1933-2018)
Afonso Cautela, sendo um poeta que se desinteressou muito cedo da publicação dos seus versos, já que tinha apenas 28 anos quando deu a lume o seu derradeiro livro, nunca parece ter deixado de atribui um alto significado ao fato de escrever versos, como ora se vê pela quantidade de inéditos publicados e que fazem parte das caixas do seu espólio entregue à Torre do Tombo. (...) Há poetas que escrevem para publicar em livro. Têm de passar todos os anos o exame do público e da crítica. São poetas esforçados, que se obrigam a prestar provas do seu talento - o estilo existe aí para dar notícia de si. Há depois os poetas que escrevem e não publicam. Dentro desta categoria há duas classes: os que de momento não publicam mas aguardam a publicação a médio ou longo termo e os que de todo afastam do seu horizonte a possibilidade de editar em livro. Cautela faz parte desta segunda categoria, a única que de verdade escreve para não publicar.
António Cândido Franco, in A "Arte Bruta" de Afonso Cautela, publicado na revista Flauta de Luz, n.º 5, Abril de 2018, pp. 144-148.
terça-feira, 3 de julho de 2018
O GRILO NA VARANDA
Já não se escrevem cartas, ou escrevem-se tão poucas que
fica difícil imaginar o que possa ser a literatura epistolar no futuro. Agora
escrevem-se e-mails, o mais despachados possível e num linguajar de meter
vergonha. E enviam-se sms, recados em post-it, brevíssimos, corriqueiros,
abafados. Aquela coisa da obra epistolográfica parece ter entrado em vias de
extinção, e com ela uma certa autenticidade. Luiz Pacheco, numa das milhentas
cartas por si assinadas, afirma que «numa terra de lápis-azul, a epistolografia (género menor,
concedo) é um dos mais livres, talvez o único livre». Talvez, mas não apenas
«numa terra de lápis-azul». Onde a liberdade parece absoluta, pelo menos no que
tocaria a escrever/dizer, a autocensura toma
as rédeas. A carta exige um compromisso que o e-mail desautoriza, como
recentemente se tem visto. À primeira publicação, a dúvida instala-se como um
escudo protector: verdadeiro ou falso. O e-mail, a mensagem electrónica,
permite à caligrafia e à assinatura uma protecção que a carta não dava. A carta
expunha, estabelecia um contrato indelével entre o autor e o conteúdo. É
verdade que se forjaram cartas, é verdade que estes se fizeram passar por
aqueles. Mas nesse tempo em que a pós-verdade nem miragem era, a mentira configurava calúnia, não apenas
manipulação. Talvez fosse mais fácil desmascarar o fantasma.
Não cabendo aqui
explorar tais mecanismos detectivescos, certo é que o quase completo desaparecimento
das cartas levou consigo algo de muito valoroso. Refiro-me
já não apenas à liberdade mencionada por Luiz Pacheco, mas a um elo confessional,
com qualquer coisa de sagrado, entre remetente e destinatário. Se a carta pode
ser queimada e o e-mail pode ser apagado, há algo que muda radicalmente a
ralação entre os correspondentes. Damos-lhe o nome de pausa dialogal, marcada pelo
tempo que demora entre leitura e resposta, o tempo de chegada, de partida, de
espera, um tempo que entre pergunta e resposta possibilita o pensamento, a
vida, oferece a possibilidade de acrescentar à conversa algo novo, vivido, experimentado. O carácter de urgência é outro, como se na carta o corpo físico de alguém
nos chegasse às mãos transportando cheiros, textura, pele, um corpo ausente por
via tecnológica, aqui transformado em pixel, caractere inolente, anódino, apenas
eco de ecos.
Ler hoje um livro como O Grilo na Varanda — Luiz Pacheco para Laureano
Barros (Correspondência, 1966-2001) pode ser uma experiência altamente
melancólica, tingida de uma nostalgia rameira que desconsola o leitor
desprevenido. Também pode ser uma experiência mitológica, como que empolgando
no íntimo do leitor a reconstrução de uma época extinta, diferente da actual, mais frenética, esvaziada, efémera. Para mais, a edição da Tinta-da-China foi enriquecida com um DVD do documentário de Paulo Pinto: Laureano
Barros, Rigoroso Refúgio. Belo título. Os dois objectos reaproximam-nos de um
mundo em ruínas. Por um lado, Laureano Barros (1924-2008), bibliófilo
empenhado, exilado na província, moralmente vertical, matemático, metódico, introspectivo.
Por outro, Luiz Pacheco (1925-2008), escritor libertino, editor empenhado,
crítico impetuoso, coleccionador de aventuras e desventuras. Ambos são hoje figuras excêntricas com a aura de impossíveis. A miséria material
em que Pacheco viveu grande parte da vida é conhecida, a faceta para uns
caricata, para outros insuportável, do deboche, da alcoolemia, do
desenrascanço, faz já parte da história portuguesa. O que aproxima estes dois é
que pode permanecer misterioso, pelo menos digno de especulação.
Se, por um lado,
a fortuna do bibliófilo sustentava a desgraça do escritor, podendo supor-se uma
relação interesseira entre ambos, por outro lado temos que ao fazer de Laureano
Barros o fiel depositário do seu espólio criativo, Pacheco confiou-lhe o que
por certo de mais precioso tinha além da Comunidade: «Preso, há tempo para
escrever. Ler. Meditar. São vantagens, que não troco pela vida (embora
atormentada) de estar com os restos da minha Tribo» (p. 91). A vasta correspondência
trocada entre 1966 e 2001 dá provas de uma cumplicidade, ainda que à distância,
a extravasar o mero interesse material. A «moralidadezinha católico-policial»
da aborrecida sociedade portuguesa de então ofereceu a Luiz Pacheco um confidente,
um suporte para a vida, aquele elo desinteressado que tanto rareia num mundo já
só movido por interesses, proveitos, vantagens ainda que quase invariavelmente
mesquinhas, corriqueiras, moralmente insultuosas: «Como sair disto? que fazer? uns
malabarismos, de efeito nem sempre gracioso para quem vê ou esperava outra
coisa, melhor. E para os palhaços do circo literário, que somos os que escrevem
por dever de sobrevivência, e porque já agora não sabem fazer outra coisa, a
esperança que os Amigos se lembrem de nós de quando em quando, nos julguem com
dureza e sentido das realidades, que não comunguem na Enorme Aldrabice que isto
é tudo. Logo: nos sirvam de amarras e de faróis» (p. 131).
Estas cartas
chegam-nos de um tempo que tenderíamos a dizer já não existir não fosse a
constatação diária de que a «negra sociedade salazaresca» perdura onde menos a
suporíamos, com outras metodologias, transfigurada, mas igualmente negra. O que
não perdurou é o que de mais precioso atestam as cartas, a intransigência na
verdade e na liberdade de que são exemplo autêntico tanto Laureano Barros como
Luiz Pacheco. Daí que ambos tenham acabado sós, como bem constata um dos
intervenientes no documentário de Paulo Pinto. Disso dão conta várias cartas,
num estilo ora comovido, ora galhofeiro, mas sempre inquestionavelmente
genuíno: «Você não faz ideia — ou faz? — o que lutei por esta casa,
este sol, este silêncio, este filho — tudo o que me resta da Irene, e há
numa carta sua, de há anos, uma interrogação a que não sei se respondi, ou só
os factos, depois: que era isso de eu ficar inteiramente só? mais ou menos
isto. É que eu nem tinha a vantagem da surpresa: sabia-a antes» (p. 120).
segunda-feira, 2 de julho de 2018
PERCURSOS
Luís Portela propõe um percurso da ciência à
espiritualidade. A imprensa dá-lhe eco, admira estes homens de cabeça
matemática com coração de fé. Ou com cabeça de fé e coração matemático. A
verdade é que o autor é chamado a pronunciar-se, tem eco, os livros vendem, as
pessoas ficam curiosas quando o escutam na rádio, quando o vêem na televisão,
quando o lêem nos jornais. Por que gosta tanto a imprensa destas personagens
esotéricas? Um percurso da fé à razão mereceria a mesma atenção? Se a proposta
fosse varrer a espiritualidade da vida apostando na lógica do absurdo, a
imprensa teria o mesmo interesse? As pessoas teriam o mesmo interesse?
UMA VOZ DIFERENTE E AUTÊNTICA
As dificuldades para um autor português são tremendas. A nossa cultura é marginal. Imitar o Faulkner e tutti quanti de sério que se publica no Lá Fora um rematado disparate. Li, aqui em Massamá, Kafka e Beckett, por exemplo. Anotei o que é que não se pode fazer aqui — com esta gentinha, esta luz, esta paz (mesmo podre e mesquinha). Encontrar o tom nosso, a necessidade de nos definirmos e manifestarmos perante esses modelos e descobrir outros princípios, logo uma voz diferente e autêntica, eis a minha preocupação. Tudo o mais é paródia e humilhante. Mas vá lá dizer-se isto a estes literatos lisboetas dos cafés e das páginas literárias!
Luiz Pacheco, numa carta a Laureano Barros, datada de 1/11/70, in O Grilo na Varanda — Luiz Pacheco para Laureano Barros (Correspondência, 1966-2001), Tinta-da-China, Junho de 2017, p. 98.
UM POEMA DE MARGARIDA VALE DE GATO
MUTILAÇÃO
Se por fora não pareço oca dentro
podre ao centro estou.
Sem querer armar-me em modernista tenho Alturas
em que experimento a lúcida perceção
quase materialista e táctil
do progresso da loucura
sou tal película sobre-
posta sobre-exposta,
precipitado cálculo de abertura —
aí o pânico a insónia eu cindida.
Só escrever me alivia um pouco
e dantes inclusive consolava;
agora é mais um corte
que sob a pele se exerce a prevenir
a coisa mais violenta que me pulsa na cabeça
e compulsivamente desta forma se escoa
mas não seca nunca estanca apenas se desloca.
E quanto disto não assenta na suspeita
de que me torno assim pior pessoa?
Margarida Vale de Gato, in Mulher ao Mar e Grinalda, 1.ª edição, Mariposa Azual, Março de 2018, p. 34.
domingo, 1 de julho de 2018
BANDA SONORA ESSENCIAL #46
Podia dar-me para pior, deu-me para isto. Em 1994 ainda
não vivia em Caldas da Rainha, longe disso. Andava por Lisboa no segundo ano de
exílio urbano. Foi por essa época que emergiu a chamada “cena das Caldas”. Da
fornalha caldense destacavam-se, entre tantos que a história guardará nos corações
de uma mão cheia de adultescentes, os Red Beans e os Tina and The Top Ten, do
artista plástico João Paulo Feliciano & C Lda. Com colaboração do
experimentador sónico Rafael Toral, Teenage Drool (1994) não marcou
necessariamente uma posição nessa coisa anacrónica do “rock português”. De
nacional, havia apenas a coincidência da quadrilha ser lusitana. O som praticado por estes das Caldas assimilava outras
latitudes, assumindo a influência de uns Sonic Youth ou de uns Buffalo Tom ou
de uns Dinosaur Jr. (ouça-se o solo de guitarra em No More) sem regatear
direitos de autor.
Resgatado da gaveta, Teenage Drool denota uma inocência que
dispara pelos ouvidos dentro tremendas correntes de nostalgia. Por onde anda
aquela devoção desinteressada pela melodia submersa em ruídos embaladores? Onde
ficou o gozo do riff e das relações inusitadas, como a que em Where the blue
coloca no ringue uma guitarra desembrenhada em wah wah e uma gaita-de-beiços
neil younguesca? Onde ficou o ritmo adolescente que fazia sair de casa rapazes
e raparigas com vontade de abanar o capacete ao som de guitarras ruidosas? Em
suma, onde ficou o feeling? Vestiu pijama, voltou as costas, ressonou a noite inteira.
Dir-me-ão que está tudo na mesma... como a lesma. Não serei eu a discordar. A gente é
que envelheceu, o tempo passou. O tempo passou como sempre passa, a
gente envelheceu como sempre envelhece, a lesma deixou o seu rasto de langonha,
que nada tem que ver com a baba adolescente desses tempos. De resto, defendo-me
já advertindo que a única versão “naquele tempo é que era bom” admitida cá por
casa é a que diz respeito aos amplificadores. Naquele tempo os amplificadores
eram realmente melhores. Estou a ouvir If I hold e vêm-me lágrimas aos olhos.
Lembro-me das múltiplas ocasiões em que ouvi aqueles acordes iniciais e
apetece-me fugir, partir ao encontro da despreocupação que ficou para trás,
desembaraçar-me dos trabalhos e das servidões que hoje perturbam ossos e nervos. Está tudo na mesma? Está tudo lesma.
Vocês já olharam/ouviram bem para/os amplificadores de
agora? Não cospem fogo, vêm protegidos por cuidados médicos. Que tristeza! São
amplificadores light, sintéticos, paramédicos, têm garantia de estabilidade
emocional, munidos de purificadores ambientais, capazes de disfarçar o mínimo
ruído, o mínimo grão, a mínima desventura. São um nojo de pureza. Antigamente,
os amplificadores eram melhores. Que me chamem reaccionário. É a minha teoria,
é a minha constatação. A prova está em If I Hold e nos cartazes que preenchem
as centenas de festivais de Verão. A prova está em que sempre que surge alguma
coisa a lembrar-nos o grão daqueles amplificadores, a gente logo declara a
categoria do “retrô”. As fadistas agora têm tatuagens onde antes tinham
bordados. Porra, se isto não é retrocesso civilizacional ao nível dos
amplificadores… então não sei o que será:
POPLÍTICA: POLÍTICA POP À PORTUGUESA
Marcelo desloca-se à flash interview para comentar jogos
de futebol, Marcelo sobe ao palco do Rock In Rio para actuar ao lado dos Xutos,
Marcelo esteve com Costa e Ferro e mais uns tantos a representar o Estado num
concerto dos Xutos, os Xutos são uma instituição, a selecção de futebol
profissional é uma instituição, onde tudo é mau o mau deixa de existir, passa a
ser bom. Agora percebo a política de Marcelo, vai baixar tanto, tanto, tanto,
tanto o nível que a gente há-de julgar-se gigantes quando formos animais
rastejantes. O ridículo desapareceu da vida pública portuguesa, que é tão
ridícula que já não tem noção do ridículo. Marcelo abraçou um boneco na Rússia
e a gente ficou sem perceber quem era o Presidente da República Portuguesa, se
Marcelo ou o boneco.
JOGAR SEM BOLA
No rescaldo da partida com o Uruguai, Rui Santos (quem
mais?) assevera que Portugal foi fraco a jogar sem bola. Sinto-me obrigado a
discordar. Na realidade, julgo que os melhores momentos do jogo de Portugal
sucederam quando não tínhamos bola. As estatísticas dizem que tivemos uma posse
de 60 e qualquer coisa % para 30 e picos %, pelo que aqueles 20 e tal % sem
bola terão sido cruciais. Mas isso é estatístico. Neste momento, neste preciso
momento, assisto a toda uma vizinhança sem bola à janela. São todos campeões de
alguma coisa, como dizia o poeta. Eu é que não sei o quê. Aquele ganhou a taça
do dia a fumar um cigarro na varanda, o outro exibe aceleradelas no Peugeot
turbinado, aquela mostra as pernas a quem queira contemplá-las, a outra estende
a roupa e chama putas às vizinhas, este passeia o cão, além há quem engendre
uma espécie de funk favela cigano e acolá, perdoem-me a presunção, a vizinha do
44, 2.º dt.º acabou de me fazer um sinal que leva a crer na possibilidade de
uma vida feliz. Diz o outro que Portugal jogou pouco sem bola, eu não posso
senão discordar. Julgo que sem bola fomos campeões, ninguém nos bate sem bola.
Com bola é que é o carvalho, mas isso são outros campeonatos.
sexta-feira, 29 de junho de 2018
LAUREANO BARROS
(...) Na realidade, Laureano Barros era uma estranha personagem. Perfeccionista e rigoroso até ao exagero, não tolerava a incerteza nem os atrasos (era capaz de cortar relações de amizade por o terem feito esperar alguns minutos para além da hora combinada), nada lhe aborrecia mais que a desonestidade, por ele considerada uma traição aos seus princípios humanistas e sociais-democratas (não podendo, em boa verdade, dizer-se comunista — embora tena acolhido na morada da Foz o comunista na clandestinidade Rogério de Carvalho, e se tenha encontrado, a meio da noite, num pinhal de Vila do Conde, com a também comunista Cândida Ventura, porque se comprometera a entregar-lhe uns documentos secretos, Laureano afirmava-se socialista na sua versão social-democrata). (...) De certa maneira, Laureano Barros era um excêntrico: proibiu que lhe desejassem Feliz Natal ou lhe dessem os parabéns no dia de aniversário (e não aceitava presentes); nunca teve carta de condução, mas tinha um taxista às ordens, com quem dava grandes passeios pelo Gerês; costumava almoçar no luxuoso restaurante Elevador, no Bom Jesus de Braga, aonde frequentemente levava os jornaleiros da quinta (incluindo o lenhador José Corga, conhecido pela proeza de comer três quilos de batatas à refeição), o que inspirava grande consideração aos olhos dos empregados; comprou as dez primeiras edições da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, um luxo extravagante; obrigou Arnaldo Sousa, amigo e director do jornal da terra, O Povo da Barca, a prometer que não publicaria qualquer notícia sobre a sua morte; e manifestou a vontade de ser sepultado nos terrenos da quinta, sem caixão, sem discursos e sem cerimónia religiosa. (...) Laureano Barros procurou incutir nos filhos o gosto pelos livros, a ponto tal que chegou a comprar mais de um exemplar da mesma obra para evitar futuros problemas de partilhas. Cedo, porém, teve de lutar contra a evidência de que nenhum dos três filhos iria preservar inteira a biblioteca. (...)
João Pedro George, na Introdução a O Grilo na Varanda — Luiz Pacheco para Laureano Barros (Correspondência, 1966-2011), Tinta-da-China, Junho de 2017, pp. 23-39.
quinta-feira, 28 de junho de 2018
OITENTA FLECHAS PARA ATRAIR A COTOVIA
Em 1959, Portugal havia assimilado a lição modernista a
ponto de ter germinado segundos e terceiros modernismos, mais sabe-se lá
quantas digestões congéneres. Em 1959, o neo-realismo e um surrealismo tardio
batiam-se em país retardado política e socialmente (com repercussões
insuspeitas nos domínios da alta cultura, que está para a baixa como os estilistas
estão para as costureiras). Dentro de momentos, Ruy Belo (1933-1978)
estrear-se-ia com Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e Herberto Helder, que um
ano antes ameaçara a eternidade com O Amor em Visita, tornaria pública
A Colher na Boca (1961). Quaisquer diferendos poderiam estar sanados, não fosse
a teimosia de uns quantos em medidas de grandeza. Se as casas de apostas não
cessaram foi por não lhe terem faltado apostadores. Mas sejamos honestos:
depois de uma primeira metade do século como foi a do nosso XX, para quê
continuar a apostar? O mais que viesse seria peixe em rede estreita. Em 1959,
nasceu António Cabrita. E mais depois dele, dando continuidade a uma arte que
não carece de medidas de grandeza para se afirmar. A poesia tem destas coisas, mesmo
morta gera seus inúmeros filhos, exército de resistentes num mundo afivelado
por castrantes mediações: o espectáculo, o ruído mediático, a tirania da
popularidade social, com ou sem rede, a cilada do sucesso imediato, das
plateias ilusórias onde pontificam os pares com um pé na academia e outro na
imprensa.
E de António Cabrita não se pode dizer que não tenha andado pelos
jornais (20 anos no Expresso?) ou pela Universidade (a de Moçambique), distribuindo
talentos que pariram livros de contos, de ensaio, romance, novela, poesia. Que
agora reapareça numa editora que já deu provas de nada querer com o institucional,
abdicando de depósitos legais e de ISBN tanto quanto parece estar-se nas tintas
para números de página, só diz do bom gosto na escolha das companhias. Um homem
tem que fazer pela vida, certo de que da poesia colherá apenas alimento para o
espírito, o tal maná da liberdade que torna suportável o viver.
Oitenta Flechas
Para Atrair a Cotovia (Douda Correria, Abril de 2018) é o Livro I de um
projecto ambicioso que procura recolher poesia espalhada aos quatro ventos,
dezoito anos depois de ter sido reunida no volume Arte Negra (Fenda, 2000). São
quatro os conjuntos agora coligidos, dois dos quais devidamente datados: Harpo
Marx na Jaula do Leão (sequência de oito poemas de 2013, outrora anunciada aqui), Hölderlin de Verão
(sequência de 11 poemas), Bar La Fontaine (Prémio Natércia Freire de 2009) e Os Testamentos Apátridas e Outros Cordéis Sem
Alma (conjunto mais vasto, datado de 2017).
A poesia de António Cabrita
coloca-nos em diálogo continuado com as referências cinematográficas,
literárias, musicais, artísticas do autor, resvalando por vezes para a écfrase,
sendo que muito mais frequentemente essas referências surgem como focos e
identificação. Exemplos: «Daí ter sempre admirado o primeiro verso / de Tranströmer:
a realidade / é um pára-quedista que desperta
dentro / do sonho» ou «Também eu, meu caro williams, / preferia viver numa
cidade bordejada / de fábricas de seda». A citação, neste caso, empreende um
reconhecimento identitário que tem no poema Os Avatares (Em Definitivo) exemplo maior de como a auto-ironia pode ser instrumento sem instrumentalizar,
ou seja, ao parodiar-se o poeta não se coloca no centro do mundo, antes dá
conta de uma tomada de consciência do seu lugar no mundo. Lugar precário, como sói
ser o de qualquer mortal. Mais ainda se for poeta. A inclinação humorística,
brincalhona, galhofeira, de alguns poemas sublinha esse facto, ainda que não
afaste uma crença (que nada tem de religiosa) no poema como força expressiva do
pensamento. Desse modo, nos versos deste livro encontramos mais divagações,
diversões, desvios literários, do que observações quotidianas, as quais não
estando ausentes encontram-se quase sempre a meio do caminho com uma qualquer
alusão cultural que as localiza.
António Cabrita é um poeta-leitor, exímio no
tratamento das palavras que melhor garantem o ritmo certo para cenários provenientes
tanto da realidade vivida como de uma imaginação povoada por mitos pessoais. O
riso satírico do olhar, a raiva contida da consciência histórica, certa
melancolia de espírito, mas também um comovente lirismo familiar, sobressaem
nos seus poemas sem que o Eu se ensimesme na lamentação do tempo ou se desfaça
na citação redundante:
A MOSCA E O SANGUE DO LEÃO
A mosca não pode aterrar no sangue do leão,
escreveu breyten breytenbach, nome de granito
onde ecoam uns sincopados cascos de cavalo
mas o que interessa é a renúncia do insecto,
a renúncia de quem escolhe a equidistância,
e como eu se abstém de afogar-se
nas encordoadas veias de Deus. Toda a vida
desejei que me fosse anunciado: «Eis
o que chega da floresta!», apontando aquele
que de si mesmo se perdeu e recolhe
por sob a língua os braseiros da ausência
e a culminação do mais escarpado Nome,
e foi-me, nesta espera, dessorando a pobreza.
E, se ouvia zunir aprestados os vampiros,
julgava-me protegido como a sentinela
a quem só a manhã quebra os ossos.
Assim me habituei aos rumores ocultos
da noite como a árvore aos veios que a impelem.
Mas agora impõe-se-me um direito de nada
mais aguardar, e de desposar a acção,
não a que sob a embriaguez e a macieira levou Will
a decorar com o seu punhal em carne viva o relicário
de Anne Hathaway, mas a que mesmo de esguelha
perdura na memória dos homens em letras exaltadas.
Sinto amiúde que me falha ter exercido qualquer
actividade venatória, como ter sido caçador furtivo
ou guardião do segredo de um crime de grande porte,
e de xisto é o meu coração carecido, mas espero
que o arpão da imaginação abra a porta duma taberna
onde se possa ser mais que borrachão e espirituoso
e o mal e o bem entrancem nos dedos o tabaco
enquanto o cuspo chega à língua, na limpidez
com que o mar doba a espuma branca.
Nota: quem tiver seguido o autor no weblog Raposas a Sul, lembrar-se-á, por certo, de uma primeira versão deste poema e da explicação que
o precedia: aqui.
ENTRE LER MAL E NÃO LER...
Hoje há mais leitores que nunca no mundo, embora o seu nível médio seja espantosamente baixo. A aposta das editoras na exclusiva mecânica do enredo e na prioridade das estruturas funcionais, em detrimento da grande liberdade da criação, já levou o Kundera a falar em «testamentos traídos», e o grave é que não se ache grave que a enorme maioria dos milhões de pessoas que hoje consomem Dan Brown não esteja à altura de ler Rabelais, Cervantes ou Shakespeare. É desastroso, parece-me, que não se considere lastimável que, cinco séculos depois dos foliões analfabetos que o citavam nas tabernas, se considere Shakespeare como um espectáculo para elites. Ora, não se tenham dúvidas: é mais grave ler mal do que não ler.
António Cabrita, in Para Que Servem os Elevadores e outras indagações literárias, Alcance Editores, Maputo, Setembro de 2012, pp. 21-22.
quarta-feira, 27 de junho de 2018
terça-feira, 26 de junho de 2018
A LIGA DA CHAVE DOURADA
Quando o Super-homem surgiu no primeiro
número da revista Action Comics, em 1938, o mundo estava longe de imaginar o
poder que os super-heróis iriam exercer sobre toda uma geração de jovens
norte-americanos. Três anos depois, os agora famosos Joe Simon e Jack Kirby
deram à luz Capitão América. A capa com Hitler a levar uma murraça deste herói
made in América tornou-se icónica, dando a entender que as histórias de
quadradinhos eram mais do que mero entretenimento adolescente. Elas continham poderosos
elementos de propaganda que procuravam demarcar as forças do bem (aliados) das
forças do mal (nazis), contribuindo desse modo para uma consciencialização
popular de um conflito em emergência. A chamada época de ouro dos super-heróis deu-se,
precisamente, durante o período da II Grande Guerra, acabando não só por perder
folgo no pós-guerra como por gerar sentimentos contraditórios acerca da
influência exercida sobre os leitores mais novos. O paternalismo
norte-americano vislumbrou nos comics, tal como na música rock ou noutras
manifestações artísticas, a influência do diabo, actuando sobre os criadores de
modo a controlar conteúdos e reprimir metáforas.
A censura nunca foi um
exclusivo dos Estados totalitários. O escritor Michael Chabon (n. 1963),
norte-americano de origem judaica, dedicou ao tema 660 de páginas. The Amazing
Adventures os Kavalier & Clay
(2000), Prémio Pulitzer de Ficção em 2001, foi publicado em Portugal com o
título A Liga da Chave Dourada (Gradiva, Abril de 2003). Coloca em cena Samuel Louis Klayman e Josef Kavalier, dois primos
de origem judaica que tornar-se-ão numa das mais famosas duplas de revistas de
quadradinhos. A acção decorre entre 1939, quando Joe Kavalier chega aos EUA
vindo da República Checa, e 1954, o ano em que a influência dos super-heróis sobre
a juventude começou a ser questionada de um ponto de vista persecutório. Joe
deixou para trás a família, carregando consigo a vontade de os libertar das
garras nazis. Sammy, espantado com as qualidades do primo para o desenho, abriu-lhe as portas do universo das revistas de quadradinhos. Do encontro entre ambos surgirá o
Escapista, super-herói inspirado em Harry Houdini.
Chabon oferece-nos um quadro que coloca ao
mesmo nível o plano das possibilidades, vinculado ao real, e o dos heróis,
assente na necessidade de fuga à realidade. Alicerçada no ilusionismo, a mente
juvenil destes criadores oferecia a quem os lesse a possibilidade de escapar.
Mas mais que isso, oferecia aos próprios um modo de evasão que era, também, o
sonho de poderem estar de algum modo a combater os inimigos que haviam deixado
numa Europa distante, mas presente. Joe Kavalier e Sammy Clay têm tudo para se
tornar inesquecíveis, num romance que extravasa o domínio da ficção quando nos
transporta para o ambiente criativo de uma Nova Iorque efervescente, onde encontraremos
Salvador Dalí e respectiva trupe surrealista, o génio de Orson Welles e a
influência de Citizen Kane (1941)... Certo que as fórmulas para escapar ao tédio
existencial aqui aludidas não negligenciam o oportunismo comercial de uma
indústria ávida de fenómenos populares, embora esta dimensão não fira a magia
de um encontro essencial de jovens criativos com a sua própria condição. Esta,
aliás, encontra na homossexualidade de Sam Clay um processo de descoberta
paralelo à libertação operada em Kavalier. O que parece estar em causa é o modo
como as personagens escapam a um mundo opressor, a forma como se libertam de
correntes que os oprimem e impedem de ser eles próprios.
Sam Clay e Joe
Kavalier são, eles mesmos, a personagem que engendraram a determinada altura
das suas vidas. Eles são o Escapista, ainda que no limite de uma força que lhes
permitirá salvarem-se apenas a si próprios. Tudo o mais falha porque tem de
falhar, tudo o mais se reduz a «sonhos de fuga, transformação e evasão» traídos
por um a magia que é truque, que é ilusão, que é prestidigitação, que é
charlatanice. «Josef era uma dessas desafortunadas criaturas que se tornavam escapistas não para provar a superioridade dos seus corpos relativamente às
restrições exteriores às leis da física, mas por razões perigosamente
metafóricas. Os homens desse tipo sentiam-se prisioneiros de correntes
invisíveis —
emparedados, enclausurados» (p. 49). O mesmo podemos afirmar de Sam Clay, o
primo, que a única memória viva que guarda do pai é a da visita a uma sauna,
recordada 400 páginas depois de ter sido referida como recalcamento de uma homossexualidade
finalmente assumida. Entre tantos heróis mascarados, são estes anti-heróis de
rosto descoberto quem mais acaba por sobressair num romance riquíssimo em
parábolas inspiradas nas velhas histórias de quadradinhos.
FLANZINE N.º 17
Flanzine, n.º 17
Tema: Cinzas
Edição de João Pedro Azul
Produção de Cabe Cave - Associação Cultural
Junho de 2018
Índice Demográfico, pp. 54-55.
domingo, 24 de junho de 2018
20 - DO SILÊNCIO DOS RATOS
Eles ficam calados, ratos nos seus cantos, remordendo as armadilhas que a si mesmos montaram, incapazes de desabocanhar as tábuas de queijos, multicolores e, sem excepção, discretamente fedorentos, que tomaram por tábuas de salvação. Queijos pasteurizados, está bom de ver. Ao abrigo de micro-organismos patogénicos, sejam eles a generosidade, a abnegação, o amor ou a verdade. Não: nos seus cantos, onde até o sol é ensombrado e nunca assombra, não penetram tais maleitas e, por isso, nunca terão de escolher entre a alma e o coração, ambos frágeis construções feitas de filamentos de bolor. Decadente. Vivificante. Crescendo a olhos vistos. Fazendo de tudo a mesma coisa. Sem dissimulações. Digno como não pode ser o que bole pela calada. Os sinos sem badalo, não vá a gente acordar. As falinhas mansas com que conquistar sopeiras, baronesas e eleitores de ambas as freguesias. Eles ficam calados, à espera de que os esqueçamos enquanto operam a nossa remoção para parte incerta. Mas eu não me esqueço. E, apesar de tudo, continuo a acreditar que é possível trazê-los, de volta ou pela vez primeira, para o mundo dos vivos. O meu mundo. Iluminado por olhos doces e doridos e infinitamente luminosos. Os vossos, que me ledes de coração aberto.
Miguel Martins, in Lérias, Averno, Agosto de 2011, p. 31.
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Lidos em 2018,
Os mestres e as criaturas novas
POR AMOR AO SPORTING
Os 71,36% dão-me algum alívio, posso sonhar com um Sporting
sem o grunho. Como nunca simpatizei com a personagem, que desde a primeira hora
julguei arrogante, oportunista, mentirosa, insidiosa, a perder-se em
declarações conflituosas contraproducentes, de uma verborreia incontinente nas
redes sociais, ateando fogos com rivais, sócios, figuras históricas do clube,
jogadores, adoptando um estilo populista anti-media, sinto um certo alívio na
possibilidade de ver-me livre de mais esta figurinha tóxica da vida pública
portuguesa. Por outro lado, os 28,64% inquietam-me. Tal como sucede com
Sócrates, há-de haver sempre quem apoie Bruno. Esses jamais reconhecerão no seu
ídolo a figurinha nociva que ele revelou ser. São os que assobiam, ameaçam, agridem,
uma espécie de jagunços ao serviço das suas próprias obsessões e mais nada. Já disse e
repito: depois do que aconteceu, a destituição do presidente não chega. É
preciso extinguir a Juve Leo e marcar todos quanto possam ter estado envolvidos
na invasão da Academira, de modo a que nunca mais lhes seja permitido colocarem
um pé no estádio. A bem da segurança, da pacificação do clube e dos
serviços mínimos de limpeza social.
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