quinta-feira, 14 de junho de 2018

UM POEMA DE JOSÉ LUIS GARCÍA MARTÍN


RETRATO DE UM ESCRITOR DE CERTA IDADE

Dou voltas pelo centro, levanto um cheque,
compro uma coleira de cão, bebidas.
Está um belo dia de verão,
muitos rostos amigos me sorriem,
bebo um copo com um conhecido
que me conta uma história que não entendo
de todo e animo-o e sou feliz.
No rádio do carro passam Mozart.
No fim de contas essa puta velha,
a vida, não se portou mal:
vivo do que escrevo, nunca aturo
maus humores de ninguém, durmo bem
quase todas as noites, bebo muito
apenas um dia por semana, vejo
pouco os meus filhos, é verdade, a mãe deles
esconde-os por debaixo da saia,
um sítio a que prefiro não voltar,
mas não os esqueço nem me esquecem.
Era esta a vida que eu sonhava
nos verões da minha adolescência
quando olhava absorto para o céu
e uma fugaz estrela se soltava?
Nem sei nem me importa. Para a noite
talvez solicite companhia,
ainda que prefira ficar só
e beber e beber. Depois, amanhã,
dormirei como um morto o dia todo.
No rádio do carro passam Mozart,
o céu está mais azul que de costume,
não preciso de nada que não possa
pagar e quase não me dão desgostos
o coração, o fígado e os cães.
Em breve vou fazer cinquenta anos.


José Luis García Martín (n. Aldeanueva del Camino, Cáceres, Espanha, 1950), in Trípticos Espanhóis — 1.º, trad, Joaquim Manuel Magalhães, Relógio D'Água, Maio de 1998, pp. 55-57.

ENCOMENDA



Levantei a questão na reunião do júri e toda a gente concordou que não seria um problema. Eu próprio não vi nisso qualquer problema. O trabalho não está publicado, não é premiável. Não existe. Eu tenho uma encomenda para um volume, pode ser péssimo, quando vier a sair”.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

«SCANDAL PAYS OFF»



   — Foste tu que organizaste isto tudo, filho? — Sorriu a Sammy. — Sabes com certeza que é tudo puro lixo. O Super-Homem também é puro lixo, claro. E o Batman e o Blue Beetle. Essa tropa toda.
   — Tem razão — disse Sammy entre dentes. — O lixo vende-se.
   — Olá se vende! — retorquiu Deasey. — Posso testemunhá-lo pessoalmente.
   — Mas é tudo lixo, George? — perguntou Ashkenazy. — Gostei bastante daquele tipo que salta de dentro dos rádios. — Voltou-se para Sammy. — De onde tiraste essa ideia?
   — Tanto me faz que seja lixo como não — disse Anapol. — O que me interessa saber é se é lixo do mesmo género que o Super-Homem.

Michael Chabon, in A Liga da Chave Dourada  — As espantosas aventuras de Kavalier & Clay, trad. Rui Pires Cabral, Gradiva, Abril de 2003, p. 173.

terça-feira, 12 de junho de 2018

DO RUÍDO ENQUANTO OBSCENIDADE COGNITIVA


Se quisermos ser menos cépticos, prudentemente esperançosos, diremos que a política passou a ser também a arte de gerir as imagens que testemunham os seus rituais.
Entretanto, reina a obscenidade cognitiva: a repetição incessante das mesmas imagens (da política ao futebol) ameaça entorpecer-nos, esvaziando não exactamente a nossa atenção ao mundo à nossa volta, mas a própria consciência crítica com que, noutros tempos, observávamos a acção dos políticos e outras figuras do domínio público — grita-se mais, especula-se infinitamente sobre a apoteose de coisa nenhuma, pensa-se menos.


João Lopes, aqui.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

ACIDENTE DE TRABALHO


Interrogava-me ontem sobre o porquê de termos acabado com a possibilidade de jovens menores trabalharem sazonalmente, desde que remunerados de acordo com o trabalho efectuado. Lembro-me que por esta época havia quem recorresse à apanha da fruta para ganhar uns trocos, outros inscreviam-se na apanha do tomate. As vindimas também eram opção, um pouco mais tardia para quem pretendesse angariar fundos para férias de Verão. Bares e restaurantes aceitavam reforços em certas localidades mais procuradas por turistas e visitantes esporádicos. Depois isso acabou. Por um lado, ficou feio os meninos laborarem com pais tão bem sucedidos na vida. Por outro, ficou difícil para o empregador assumir a responsabilidade de aceitar menores como força de trabalho. Já hoje fiquei a saber que morreu um jovem de 14 anos, ao que dizem as notícias piloto. Morreu na sequência de um acidente durante o campeonato espanhol de velocidade. Portanto, um acidente de trabalho. Tinha 14 anos.

E OS LESADOS DA COLONIZAÇÃO, QUEM OS INDEMNIZA?


domingo, 10 de junho de 2018

DIA DA RAÇA

Se, imaginando só tanta beleza,
De si com nova glória a alma se esquece,
Que será quando a vir? Ah! quem a visse!

Luís de Camões

O resto está aqui.

UM POEMA DE JORGE SOUSA BRAGA

Aqui.

UM POEMA DE JORGE DE SENA

L'ÉTÉ AU PORTUGAL

Que esperar daqui? O que esta gente
não espera porque espera sem esperar?
O que só vida e morte
informes consentidas
em todos se devora e lhes devora as vidas?
O que quais de baratas e a baratas
é o pó de raiva com que se envenenam?

Emigram-se uns para as Europas
e voltam como se eram só mais ricos.
Outros se ficam envergando as opas
de lágrimas de gozo e sarapicos.

Nas serras nuas, nos baldios campos,
nas artes e mesteres que se esvaziam,
resta um relento de lampeiros lampos
espanejando as caudas com que se ataviam.

Que Portugal se espera em Portugal?
Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios como o bem e o mal

— mas com que há-de pagar-se quem se agacha e mente?

Chatins engravatados, peleguentas fúfias
passam de trombas de automóvel caro.
Soldados, prostitutas, tanto rapaz sem braços
ou sem as pernas — e como cães sem faro
os pilhas poetas se versejam trúfias.

Velhos e novos, moribundos mortos
se arrastam todos para o nada nulo.
Uns cantam, outros choram, mas tão tortos
que a mesquinhez tresanda ao mais singelo pulo.

Chicote? Bomba? Creolina? A liberdade?
É tarde, e estão contentes de tristeza,
sentados em seu mijo, alimentados
dos ossos e do sangue de quem não se vende.

(Na tarde que anoitece o entardecer nos prende).

Lisboa, Agosto 1971

Jorge de Sena, de Exorcismos (1972), in Poesia - III, Edições 70, Agosto de 1989, p. 177-178.

UM POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal, 
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem matizes, sem perdizes,
rocim engraxado, 
feira cabisbaixa,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill, de Feira Cabisbaixa (1965), in Poesias Completas, Assírio & Alvim, Novembro de 2000, p. 211.

sábado, 9 de junho de 2018

[Olha os impressos, os envelopes.]


Olha os impressos, os envelopes. Não te esqueças do registo para as cartas e da cabeça que te deixei na caixa de correio. Ordena as capas. Cuidado com os separadores. São cinco e sem cinco o pescoço à guilhotina. O sono sepultado neste cortejo percorrido a nojo. Vais para casa e não dormes, encostado às costelas doentes do quarto. Sentes que alguém está para morrer brevemente e que a arte do mundo foi esquecida num tropeção de labaredas triangulares. Acotovelas-te nesta velhice de nenhuma idade para contar. Percorres as livrarias vazias da cidade e caminhas apressadamente para um lugar escuro onde possas finalmente chorar. Acomete-te, por fim, a visão de um farol no núcleo de uma paisagem africana. Leopardos à cabeceira de um astro apontado ao sangue roído da terra. Ainda assim, não consegues escrever. Meses e meses sem escrever, até que enlouqueces de olhar pregado numa cervejaria decrépita nos arrabaldes da cidade. Com o polegar anuncias a vinda do Outono e colhes, de desmaio em desmaio, o mosto que por esses dias te enfeita o rosto trémulo como uma peste. Revelas a uma criança que não cortas as unhas dos pés. Não por indolência, mas por saberes que essa é talvez a única forma possível de iludir o itinerário da morte.



Pedro Magalhães (n. 1981), in Cárcere. Natural de Guimarães, publicou Imaginários Corvos de Sangue (Edita-me, 2011) e Cárcere (Debout Sur l’Oeyf, 2017). Está representado na antologia Casa (do lado esquerdo, 2016). Autor de poemas em prosa por vezes narrativos, com suas personagens vagas (Valéria, Senhor Clemente, etc…), noutras ocasiões cifrados por uma linguagem altamente metafórica, carregada de imagens violentas e de ricas associações sinestésicas (cor de uivo). A intimidade surge nestes poemas sem que o discurso se incline para o intimismo, sendo perceptível as marcas da saudade, da ausência, da incomunicabilidade: «Esbichar as ervas daninhas das palavras enquanto vou trauteando derrotas diárias de uma vigilância empobrecida». Luís Miguel Nava será porventura na literatura portuguesa o autor que mais se aproxima de uma referência para estes textos, os quais não recusam no seu vigor caudaloso ecos de um mundo real (a escória deste país) e ressonâncias imaginárias com dragões, magos e monges à mistura.


FUTEBOL vs POLÍTICA




Um dos meus problemas com discursos acintosos acerca do futebol, entendido na generalidade e genericamente, pode ser exemplificado com este fragmento de um texto de JPP. Substituam a palavra futebol por política e perguntem-se: qual a diferença? Nenhuma, zero, nomeadamente no nosso país, em que a máfia de futebol tem muito a aprender com a máfia da política. Principalmente no que diz respeito a estragos provocados na vida de todos. 

ESGOTO A CÉU ABERTO


No esgoto a céu aberto das notícias sobre futebol nada parece ter já gravidade. E por isso ninguém se pergunta como pode uma claque ser apoiada por uma instituição de utilidade pública como é um clube de futebol, ainda que em crise, e ao mesmo tempo admitir a candidatura à sua presidência de um criminoso. E ninguém se pergunta como podem jornalistas fingir que caem na armadilha de divulgar essa candidatura apenas e só porque dá audiências.


Rui Tavares, para ler na íntegra, aqui.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

ANTHONY BOURDAIN (1956 - 2018)


Este fez-me ver televisão com prazer, gesto cada vez mais raro. As notícias avançam com a possibilidade de suicídio. Não está fácil o mundo.

UM POEMA DE JOHN MATEER


OS LIVROS

Nem todos os livros foram lançados às fogueiras.
Alguns, como Ibn Zumbul conta, foram guardados em mesquitas abandonadas.
O nosso Viajante, ouvindo isto, foi levado a uma mesquita,
e através do buraco da fechadura não viu nada
mas ouviu — não o vento — o restolhar de vermes.
Talvez, pensou, todos os livros sejam o Não-criado.


John Mateer (n. 1971, Roodepoort, África do Sul), in Drescrentes, Debout Sur l'Oeuf (DSO), Outubro de 2015, p. 46.

PROIBIR NÃO É SOLUÇÃO


Não tenho telemóvel. Ando com um que é da empresa para a qual trabalho, porque a tal me obrigam. Odeio telemóveis, um ódio que não tolda minimamente uma das regras que tenho na vida: proibir não é, nunca foi, nunca será solução para nada. A solução é educar, pelo que preferia que a notícia fosse: escolas educam o uso de telemóveis. Mais uma vez, desinvestimos na educação apostando na repressão. Erro crasso.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

ALBANO MARTINS (1930 - 2018)


CHÃO DE LARVAS

Devolvo 
à nascente o fluxo, ao mar a indomável
surpresa da corrente
                                Posso
agora olhar
ileso os poros, repousar
a cabeça entre os líquenes — substância
minha austera, meu
chão de larvas e fadiga.


Albano Martins, in Hífen — cadernos semestrais de poesia, n.º 1, Outubro de 1987 / Março de 1988, direcção de Inês Lourenço e de Maria das Graças Mano, Novembro de 1987, p. 2.

TRUMP AND KIM JONG-UN'S NUCLEAR SUMMIT


Blue Noses (colectivo de artistas russos fundado em 1999)
An Epoch of Clemency (Kissing Policemen)
Da série The Era of Mercy, 2005

quarta-feira, 6 de junho de 2018

POMBOS LERDOS (actualizado)


Pombos Lerdos
Vários Autores
Medula, Abril de 2018
(para encomendas ver: aqui)

[O meu talento é bater palmas], pp. 9-10. 

   A esta publicação dedicou Diogo Vaz Pinto duas páginas no jornal I, contribuindo para o diagnóstico certeiro recentemente levado a cabo por João Pedro George: «o cadáver que é preciso enterrar, hoje, é a crítica jornalística». Numa das duas páginas, misturam-se «lenda rural» e Machado de Assis. Seriam indispensáveis para a compreensão do objecto em análise, pretendesse o Bicho analisar alguma coisa. Não quer. Analisar não é para quem quer, é para quem pode. E DVP não quer nem pode, o que não tem mal. Confunde tudo como normalmente faz, dizendo que os outros é que estão confundidos. E da confusão resulta que folhetins e folhetos passam a cumprir o mesmo papel na História da Literatura, como se fossem uma e a mesma coisa. Mete-se a plaquete (meio) e o folhetim (género) no mesmo saco e sai: folheto. Estamos falados. A este, chamou-lhe «pífio manifesto», o que nos parece um manifesto exagero, não pelo que possa ter de pífio, mas pelo que claramente não tem de manifesto. Tem desculpa o Bicho, diz que se deitou de costas a tirar macacos e a olhar para as estrelas. É provável que com a distracção os macacos tenham ido parar-lhe à boca, depois mascou-os e cuspiu-os para a folheca do jornal. Saiu a macacada do costume. 
   Chama atenção sobre si mesmo, como sempre faz, e diz que lhe deram uma alegria. A ele. Ao crítico. Até pensámos que estava a falar de outrem, já que de crítico do que quer que seja este tem tanto como eu tenho de engenheiro aeronáutico. A primeira página foi para os pardais, isto é, para os pombos. A segunda não merece melhor destino. Novamente a chamar atenção sobre si, dizendo que a edição de Pombos Lerdos quis visá-lo, o Bicho não percebe, nunca perceberá, a distância que vai entre o que ele é e o que ele afirma. Pombos Lerdos teve um motivo, a preocupação inusitada de Vaz Pinto com a proliferação de plaquetes de poesia publicadas por pequenas editoras. A este propósito, questionámos o "visado" sobre a origem da preocupação. Lembrámo-lo de que ele próprio tinha publicado várias dessas plaquetes. Mas ele nada disse, fechou-se em copas como se nada fosse com ele. Não gosta dos tijolos publicados pela Assírio à laia de obras completas, acha que a Praça vem sendo conspurcada pela disseminação de pequenas editoras, vive incomodado com o dinheiro que as pessoas gastam nestas coisas. Não podemos levar-lhe a mal, é um teólogo da justa medida. Logo ele, todo desmesurado na prosa, surge-nos completamente comedido na moral. Quer dar ares de Pacheco, mas parece-se com José-Augusto França. 
   E assim temos que, das duas páginas, sobram três parágrafos e uma citação de Joaquim Manuel Magalhães. Quem mais?! Como um dos parágrafos me é inteiramente dedicado, dispenso-me dos restantes (onde encontramos mais uma referência, desta feita a G. K. Chesterton, sem a qual o poema de João Alexandre Lopes também não seria inteligível). Pela parte que me toca, só tenho a dizer bem do Bicho. A minha história com ele vai longa de mais para que me alongue. Tem-me dedicado uma atenção que não mereço, desproporcional à atenção que não lhe presto e ele por certo mereceria. Sou a «besta de estimação» do Bicho, e até já tive direito a poema, apesar de ser «água-choca» e «brutinho» (esta mania de projectar-se nos outros deve ter uma qualquer designação psiquiátrica que desconheço). É só seguir os links para se ficar com uma percepção do amor que me tem, a despeito da consideração que não lhe mereço ainda que aqui venha debicar amiudamente. Levou o Nicanor Parra,  o Patrick Kavanagh, o Olav H. Hauge, e queira Deus saber que mais... eu dispenso.
   Também me chegam ecos de que lá no Facebook, onde o Bicho passa a vida a agitar águas, sou visado com espantosa frequência (já que sem direito a resposta por não frequentar esse pardieiro onde intelectuais da melhor safra se sentem como peixe na água). Há tempos, fizeram-me chegar uma a que achei piada: «Professor Doutor Ressabiadíssimo». Enfim, eu sou estas coisas todas ignorando o Bicho. Ele é nada disto, atirando-se-me ao nome, depois de ter ameaçado atirar-se-me à pessoa, con-ti-nua-da-men-te. Digamos que cada qual sabe como ocupa o tempo da vida que tem, assim como cada qual sabe onde aplica os seus investimentos. Tomaria eu que o Bicho me desse de uma vez por todas por morto, morto dessa morte a que alude no tal parágrafo que me foi dedicado. Morto para o Bicho seria sinal de boa morte. Dêmos-lhe o mérito de não fingir que não vê, o único que tem. Pois quando começa a dizer o que viu, a gente apercebe-se de que viu tudo ao contrário e é uma chatice, um tédio, uma modorra, um aborrecimento, uma maçada, uma estopada, um enfado, um fastio e demais sinónimos que o word desenrasque para aquilo que o Pinto é. Podia ser bom rapaz, soubesse dar às leituras o tempo que não dá ao pensamento. Todo ele é agitação. A pressa leva-lhe o gás.

P.S.1.: E agora sou «cadáver», mais uma vez sem que nada de essencial tenha sido respondido. Eu perguntei claro, o Bicho (sic) responde no velho estilo rococó que lhe conhecemos para não responder a nada.

P.S.2.: Desfazendo eventuais equívocos, sugeridos pela seguinte passagem:

Resta que, ou ignoram muito vermelhuscos, ou a ideia é revogar-me a carta, licença, prostrar-me na indigência de eu ser uma qualquer abominação, “Bicho”, monstro que ligam com tudo o que é baixo, e mesmo assim paira sobre eles sem explicação. Um chernobyl encarnado.

            ... aqui se reproduz o talão de uma transferência efectuada para o Bicho em Janeiro do ano passado. Supomos que não tenha mudado de nome:





P.S.3.: 
O importante é, tanto quanto possível, partilhar um agrado pelas pessoas e coisas que o merecem. Não acrescentamos nada à merda atirando mais merda para essa “mirífica montanha”. A merda despreza-se.
Diogo Bicho Duarte Vaz Pinto, aqui, a 10 de Março de 2009, muito antes do Facebook:





Levanta o braço a oeste, baixa-o a este (aqui). E quando lhe convém pousa para a fotografia em threesome.



Com o pormenor delicioso, entre outros, de ter Fernando Pinto do Amaral sido convidado a apresentar o n.º 2 da revista Criatura, como aqui ficou registado.



Não fizeram nada. Mal ou bem, só divulgaram para cima de 80 poemas de Parra sem cobrarem nada por isso: aqui. E o Bicho, dando por isso, levou lá para a terra dele: aqui




Palavras para quê? É um artista português.

TRÊS VEZES BRASIL


Os números não enganam, o interesse recente pela poesia contemporânea brasileira trouxe-nos livros de Angélica Freitas (Pelotas, 1973), Fabiano Calixto (Garanhuns, 1973), Carla Diacov (São Bernardo do Campo, 1975), Ricardo Domeneck (Bebedouro, 1977), Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979), Adelaide Ivánova (Recife, 1982), Diego Moraes (Manaus, 1982), Nina Rizzi (Campinas, 1983), Júlia de Carvalho Hansen (São Paulo, 1984), Luca Argel (Rio de Janeiro, 1988)… A este inventário acelerado devemos ainda acrescentar as antologias “Naquela Língua — Cem Poemas e Alguns Mais”, organizada por Francisco José Viegas, e “É Agora Como Nunca”, da responsabilidade de Adriana Calcanhoto. Mais abrangente no tempo e restrita no tema, temos a “Antologia da Poesia Erótica Brasileira”, de Eliane Robert Moraes. Sintomático também que tenham sido essencialmente pequenas editoras, tais como a Douda Correria e a Mariposa Azual, a recuperarem este interesse pela poesia brasileira, certamente mais movidas pelas relações de aparente proximidade proporcionadas pelas redes sociais do que por qualquer interesse comercial. De resto, está por verificar se à difusão de novos poetas brasileiros entre nós corresponde um real interesse dos leitores portugueses. O que não é necessário verificar é a variedade de registos que esta poesia nos oferece, comprovável nos três livros que estimulam este texto.
Ninguém vai poder dizer que eu não disse – Vol. I (Douda Correria, Setembro de 2016), de Carla Diacov, subtrai o sentido ao ímpeto de dizer. Fragmentários, os poemas surgem-nos cifrados pela urgência do que se diz. As maiúsculas irrompem da prosa como gritos, sugerindo automatismos, instantes de fúria, histeria, que mandam às favas o lirismo da poética amorosa: «quero que você se foda. diferente do mundo . também /quero que o mundo se foda. o mundo: PIADA DE BOM / GOSTO. inda esses idiomas de infrutífera búfala: QUERO / QUE VOCÊ FODA TODO O TEU SORRISO CAVALAR / ROÇANDO A MINHA PALMA o mundo que se foda sem / você por umas horas: UMA CADEIRA SOBRE A OUTRA / UMA CADEIRA SOBRE A OUTRA UMA CADEIRA / SOBRE A OUTRA SOBRE A MESA SOBRE A FESTA DE / DESANIVERSÁRIO: assim o mundo se fodendo todo na / espera de uma colisão que não que nunca que cão que merda / que hora e que buraco: QUEM É VOCÊ QUE TANTO SE / FODE E NUNCA DEBULHA A RESPEITO?» (s/p). Talvez faça sentido associar a este dizer a noção de catarse, entendida não apenas como “purificação”, mas como a própria dramatização de um sentimento expresso pela palavra, ou seja, libertação da palavra aprisionada no espaço silencioso do recalcamento. Carla Diacov disse, e ninguém vai poder dizer o contrário.
Já Ricardo Domeneck, de quem havíamos lido "Medir com as própriasmãos a febre" (Mariposa Azual, Outubro de 2015), remete-nos para um território que lembra o "Manual de Civilidade para Meninas", da autoria de Pierre Louÿs (n. 1870 – m. 1925). Só que no Manual para Melodrama (Douda Correria, Março de 2017), dedicado a Adelaide Ivánova, rosto reproduzido na capa, a civilidade foi substituída por «técnicas de sobrevivência ao abandono» (o «método medeico», inspirado na figura mitológica de Medeia, o «método didoico», a partir de Dido, rainha de Cartago) e outras sugestões de utilidade inquestionável para quem tenha sido traído, abandonado, esquecido, preterido… Com estes aforismos de inclinação irónica, Domeneck coloca a mulher num patamar de superioridade ante a figura opressora do amante desleal. A vingança é um prato que pode e deve ser servido com subtileza. Tanto este livro como o de Carla Diacov podem colocar-nos perante um tipo de texto que não identificamos de imediato como poesia. O primeiro desafio é formal. Aforismos? Fragmentos? Axiomas? O que os torna poéticos, mesmo não o sendo intencionalmente, é o uso da linguagem, o ímpeto de dizer anterior à precisão de sentido:  «Deste mesmo peito será você a expectorada» (s/p).
Não será também assim com Um útero é do tamanho de um punho (Douda Correria, Setembro de 2017), de Angélica Freitas? A condição feminina, transversal a estes três livros, é tanto aqui a da mulher-cão, de Paula Rego, como a da mulher social e culturalmente espartilhada num universo patriarcal, que facilmente identificamos com a poesia de Adília Lopes. O recurso a canções populares e a formatos clássicos surge-nos, precisamente, como modo de questionamento dessa tradição cultural, aqui contestada, subvertida, rejeitada pela figura da «mulher limpa» que deseja, que peca, que deita para o lixo as imagens de pureza artificial disseminadas pelos media e cultivadas num figurino de beleza que reduz a mulher à condição de servente: «eu me sinto tão mal / eu vou lhe dizer eu me sinto tão mal / engordei vinte quilos depois que voltei do hospital / quebrei o pé / eu vou lhe contar eu quebrei o pé / e não pude mais correr eu corria 10 km/dia / aí um dia minha mãe falou: regina / regina você prexcisa fazer um regime você está enorme / você fica aí na cama comendo biscoito / e usando essa roupa horrível que aprece um saco de batatas / um saco de batatas com um furo pra cabeça / também não precisava óbvio que fiquei magoada / primeiro fiquei muito magoada depois pensei: ela tem razão / daí eu comecei regime porque me sentia mal / eu me sinto mal eu me sinto tão mal / troquei os biscoitos por brócolis queijo cottage e aipo / coragem eu não tenho de fazer uma lipo / eu me sinto tão mal por tudo que comi esse tempo todo / tão mal e tem tanta gente passando fome no mundo» (s/p). In mulher regime. A identidade de género, também retratada nestes poemas sob a perspectiva de condição feminina, parece-nos especialmente pertinente no momento que o Brasil atravessa, momento de retrocesso civilizacional plasmado nas afirmações de Marcela Temer, mulher do presidente Michel Temer, acerca do lugar da mulher na sociedade brasileira. Ecoam nestes poemas sinais de um tempo detergente, alicerçado numa hipocrisia consentida e promovida. A linguagem banal e quotidiana aqui plasmada não é apenas um reflexo desse tempo, é um modo de o retratar revolvendo-lhe as entranhas, dissecando-o, aproveitando ressonâncias que estilhacem a autoridade da hipocrisia. Chamemos-lhe ironia, chamemos-lhe cinismo, será sempre uma poética da desconstrução do discurso vigente.

LUGAR DE PERTENÇA


Belíssimo artigo de Fernando Gonçalves sobre a poesia de Simon J. Ortiz, na Flauta de Luz, n.º 5: “Por Amor ao Povo, Por Amor à Terra”: a geografia do sacrifício e do desapossamento na poesia de Simon J. Ortiz. Um excerto:

O que distingue as estórias de criação/origem dos americanos nativos das de outras culturas é o facto de os acontecimentos àquelas associados se situarem em lugar particular e distinto: o nascimento de uma criança, por exemplo, é um acontecimento que pertence à terra. Apesar de cada ser individual «emergir» do útero de uma mãe biológica, a cultura Acoma entende que cada ser corpóreo alberga espíritos que emergem de outras fontes que hão-de habitar aquele corpo ao longo da sua vida, sendo que uma dessas fontes é a terra, o lugar particular onde esse ser nasceu.

Nota para reflexão: como conciliar os conceitos de nomadismo e lugar de pertença?

terça-feira, 5 de junho de 2018

em minúsculas


   Portugal defeca ídolos semanalmente, concebe heróis ao mês, germina génios de ano a ano. Resultado: olhamos para o passado e dificilmente se enxerga o que quer que seja, a neblina da actualidade não permite, tudo obnubilado pela pressa, pela urgência, pela necessidade de um sucesso descartável, o maior inimigo do saber. Este prefere o ócio, como queria Stevenson, ou a preguiça, como advogava Lafargue, na senda de uma herança deixada por gregos e esbanjada por romanos. Na pior das hipóteses, exige paciência e menos boca do que ouvidos e olhos. Seria talvez aconselhável, antes de mais, um elogio da lentidão. Ou do vagar, como o vislumbrou Herberto Helder nos pescadores de uma Angola que foi a do seu tempo. Sob o Signo dos Peixes é o título da memorável reportagem, agora coligida num volume onde cabem igualmente outras fainas jornalísticas do poeta. Com um mínimo de literatura e um máximo de observação, sem prescindir de pensar aquilo que se vê com a inteligência de um humor distante.
   em minúsculas crónicas e reportagens de Herberto Helder em Angola (Porto Editora, Abril de 2018) oferece-nos a possibilidade de um Herberto mais telúrico do que aquele que certa imprensa hiperbólica foi incensando como se faz aos deuses. O grande poeta que foi não carece de olimpos para continuar a sê-lo. Um rosto humano cai-lhe melhor do que a máscara sagrada, ainda que sejamos tentados, aqui e acolá, a admitir-lhe a veleidade, por nele entendermos uma nostalgia do sagrado, da origem, do imemorial, da ancestralidade, que deve mais a certo paganismo panteísta do que a estranhas noções de santidade. Corremos o risco, porém, de fazermos com ele o que ele viu fazerem com Hemingway: «Não somos tão ingénuos que nos irritemos com a reedição da história: os abutres comem alegremente o cadáver» (p. 52). Os abutres somos nós, os leitores, é a Porto Editora, que editou, é Daniel Oliveira, o filho, é Diana Pimentel e Raquel Gonçalves, que investigaram, digitalizaram, transcreveram, reviram e seleccionaram o maná.
   A dúvida é: não seria uma injustiça para os abutres manter na penumbra estas crónicas, estas reportagens, estes artigos, estas entrevistas? Não merecem os abutres viver até eles próprios se tornarem cadáver? Pela parte que me toca, dou descanso à consciência. Foram bem empregues os 17,70 €. Desde logo pelas gargalhadas arrancadas com entrevistas a Carlos do Carmo e Nelson Ned, Um homem com um metro de altura, mas também com Um passeio no campo onde o Benfica deu 3 ao Sporting ou com essa pérola simplesmente intitulada Seca. Depois, há os elogios a Agustina e a Manuel de Castro e à música pop (p. 97): «Para se estar bem em qualquer parte essencial, sobretudo quando se é jovem, é necessário ser espontâneo, imaginativo, revulsivo. Ser malcomportado. Ser contra todas as gramáticas, a favor da vitalidade. É então que o corpo fala ao corpo que compreende» (p. 100). Era assim na Luanda de 1971, é assim no Portugal de 2018. E sublinhamos: «Ser contra todas as gramáticas, a favor da vitalidade». Mas há mais, muito mais a justificar a exumação destes textos. Da crítica social, de tendências, e política, a peças universais, sem tempo: Aprender ou Não, Museu do Café: «A poesia não habita apenas os livros de poemas, nem se abre só nas intenções» (p. 152).
   Dirão uns que este livro é para fazer render o peixe. Terão as suas razões e a sua razão ninguém a nega. Mas se tudo quanto se faz para render um peixe oferecesse tanto ao leitor como este em minúsculas, estaria o mundo melhor e as livrarias mais aliviadas. Dirão outros que Herberto Helder deve principalmente ser lembrado como um “mago da palavra”, referindo-se à sua poesia. Pois bem, se Os Passos em Volta e Photomaton & Vox não causaram mossa na poesia, consideremos em absoluto a expressão “mago da palavra”. Em poema, em prosa, Herberto Helder é um dos nossos melhores escritores do séc. XX. Com altos, com baixos, com nem tudo genial (isso é que era bom!), um escritor, um homem que lidou com palavras e delas fez a matéria-prima de um poema contínuo que agradará mais numas curvas do que noutras. Dizê-lo é meio caminho andado para que o consigamos encarar de frente, como devem ser encarados os homens, que são da terra, que não são monstros, os homens que escrevem, deste mundo humano, precário, fragmentário, duvidoso, tão belo quão terrível, ainda assim emocionante, vivível até à exaustão de ser vivido.

UM POEMA DE JACK D. FORBES


ILUMINAÇÕES DO RIO TEJO

Cruzando o Tejo
com Lisboa à vista
e Cacilhas por trás
observo os portugueses
como eles me vão observando
a mim:
um índio
de cabelo comprido
um estranho
que eles não aprovam
ou não podem situar
no altar do camponês
ou no saco de plástico do trabalhador urbano.

Caem sobre eles as minhas cogitações.
Tão pobres vejo tantos deles
que uma cisma me acomete
sobre o que terá acontecido
àquele outro todo
e por que terão morrido
às vossas mãos
todos aqueles índios do Brasil
e os escravos de África e de Goa

— por que razão terão eles morrido
para de vós fazerem´
gente tão pobre?

Portugal parece-se muito
com o México, ou com partes
do Terceiro Mundo.
Não parece estar na Europa.
Os grandes conquistadores
estão mortos e enterrados
e o ouro sumiu-se
no sorvedouro inglês
ou noutros sorvedouros
— ou nas goelas dos ricos
que não consigo enxergar
e vivem porventura lá pra cima
por detrás do Sheraton.
Ponho-me pois a cismar
em todos aqueles índios do Brasil
mandados como escravos
pra Lisboa e pergunto-me
vendo aqui tanta gente de pele escura
e até negra
quantos terão sangue índio
— mas talvez essa cor apenas venha
dos mouros ou dos goeses.

Têm cafés e bares
a que chamam Brasil e O Brasileiro
mas isto que significa?

Dizem que uma terça parte desta gente não sabe ler
e que muitos outros lêem mal.
Após séculos de tirania e depois do fascismo
quantos saberão alguma coisa
sobre os índios?
Só trampa e trafulhices
ou propaganda romântica
sobre o maravilhoso império
tão morto agora e enterrado.

Quantos livros do Brasil
narrando a história dos seus primeiros habitantes
lerão eles?
Ou quantos filmes estadunidenses
na televisão lhes deformam as mentes?
E a mim de cabelo comprido
não me podem situar:
só me podem olhar fixamente
como criatura aqui caída da selva.

E penso em como essas pessoas comuns
abalaram de viagem
há tanto tempo
para assaltarem
corpos acobreados e escuros
e dominarem o tráfico
de carne humana,
das especiarias,
do açúcar.

Darão maus frutos os actos de ruindade?
Que destino se revela
em esclavagistas e gatunos?
E todos em declínio, Portugal,
Espanha, a Inglaterra,
os grandes impérios
todos se sumiram.
E Portugal, o primeiro,
foi alfim o último e o mais pobre,
com que justiça?

Não devo porém mostrar-me amargo:
estas pessoas, 
estivadores, condutores de autocarros,
camponeses,
desempregados,
nada fizeram e não vivem
em São Paulo ou no Rio
— mas como seriam eles
se acaso lá vivessem?

E em todas as paredes
e nos caixotes do lixo
há sinais de protesto
contra o imperialismo ianque.
Contra isto também eu protesto
mas de mim a dúvida não sai:
poderei eu crer em ex-imperialistas?
Terão eles sofrido o bastante
para alcançarem a sabedoria
ou apenas para na cupidez
mostrarem ambição?

Ninguém me atirou
«Oh, nós ajudámos a civilizar
os índios, os africanos»
mas diz-me o meu espírito
que as palavras se escondem da audição
e sendo verdade que me ofende uma tão baixa impostura
caso o não seja
declaro estar pronto para a amizade.

Aqui me vejo pois em Lisboa
mas onde estou eu?
Entre amigos
ou entre inimigos,
entre outras vítimas do império,
entre os que nunca dele beneficiaram,
entre os que nunca violaram nem roubaram?

Em Lisboa me vejo
ainda sem saber.


[Lisboa, Maio de 1982]


Jack D. Forbes (n. 7 de Janeiro de 1934, Long Beach, Califórnia, EUA - m. 23 de Fevereiro de 2011, Davis, Califórnia, EUA), in revista Flauta de Luz, n.º 5, trad. Júlio Henriques, Abril de 2018, pp. 75-76.

"UM SUPLEMENTO PORNOGRÁFICO"

Com os melhores actores em Março.


E direito a sequela em Maio.


Tenham vergonha na cara, pá. E ganhem juízo!

segunda-feira, 4 de junho de 2018

VOLUNTÁRIOS INVOLUNTÁRIOS

Em Botafogo existe, como vocês todos sabem, a Rua Voluntários da Pátria. Seu nome provém de uma iniciativa empreendida pelo Império em sua guerra genocida (e etnocida) contra o Paraguai - o Brasil sempre foi bom nisso de matar índios, do lado de cá ou de lá de suas fronteiras. Carente de tropas para enfrentar o exército guarani, o Governo imperial criou corpos militares de voluntários, «apelando para os sentimentos do povo brasileiro», como escreve o verbete da Wikipedia sobre a iniciativa. Pedro II apresentou-se em Uruguaiana como «o primeiro voluntário da pátria». Não demorou muito e o patriotismo dos voluntários da pátria arrefeceu; logo o Governo central passou a exigir dos presidentes das províncias que recrutassem cotas de «voluntários». A solução para esta lamentável «falta de patriotismo» dos brancos brasileiros foi, como se sabe, mandar milhares de escravos negros como voluntários. Foram eles que mataram e morreram na Guerra do Paraguai. Obrigados, escusado dizer. Voluntários involuntários.

Eduardo Viveiros de Castro, in Os Involuntários da Pátria, revista Flauta de Luz, n.º 5, Abril de 2018, p. 19.

INTERVALO DOLOROSO


Gazeta das Caldas, n.º 5228, sexta-feira, 1 de Junho de 2018.

(também aqui)

GARANTA #1


Garanta
Revista de Letras, Artes e Cultura
N.º 1, Território & Escrita
Vários Autores
Janeiro de 2018

Inútil Território, pp. 52-60. 

ERRAR PELAS ESQUINAS



«Esta é a verdadeira história de Zé Petinga, o homem que não parava de escrever». A imagem assim escrita por Henrique Manuel Bento Fialho, no início de uma das histórias do seu mais recente livro, é o mais fiel, simples e absoluto retrato do Zé Petinga. Nada mais se poderá dizer dele, pelo menos quem se cruza com ele nas esquinas e ruas da Nazaré. Henrique, no entanto, revela mais. E faz dele personagem até de uma outra história que contracena com Taranta (quem é do Sítio reconhece o nome). Mas é na página 227 do livro «A Festa dos Caçadores» que está este «amante de baronesas a tempo inteiro». Não uma biografia completa, é somente um relato com expressão do que o homem pode ser. Um breve diálogo e destreza de imaginação, um lirismo que compromete todos os seus amigos, uma vida contada sob um nome, mas que tem vários mundos lá dentro. De resto, vale a pena ler as mais de 330 páginas deste livro escrito por um autor que também erra pelas esquinas quando o vento o empurra até à praia.


Mário Galego, aqui.


Adenda: e a Maria, no Jardim de Luz, partilha um excerto do conto O Homem Que Anotava a Cor dos Cabelos, pp. 151-153.