quarta-feira, 19 de setembro de 2018

TRÍPTICO DE ELISABETE MARQUES

DOS INCHADOS

I.

Como um balão, redondo de nada
ou de ar, mas nem para flutuar, só
para inventar volume, aí te cresces
de abdómen para atraíres.
Estimas a ventilação, as meiguices,
a atenção ao gesto teu.

Seco, consegues forjar abrigos debaixo
de raízes, de pedras, sob a folhagem,
onde existas imperceptível.
Emergindo ao crepúsculo, quando outros acusam
cansaço, apenas então, activa e voraz,
a língua como um chicote submete
escaravelhos, moscas, pequenas ossadas.

Porém, não tens dentes.
E és forçado a tudo incluir, para teu alívio.
Tua tarefa cumprida em florestas coníferas,
na densa treva para a camuflagem.

Vejo em ti grotesco e suavidade,
não sei de onde me virá tal impressão.
Bateu-me pela primeira vez a tua imagem
no cinema. Eras tragado aos poucos.

O tempo parecia diferente e ficou-me o resíduo
desse acontecimento.
Mas também a voragem púrpura de quem
te abocanhava não mais me deixou.

Estava escuro na sala, as certezas ausentes,
o sentimento de alarme a trepar-nos as pernas,

fazíamos silêncio. Ainda escuto: «consegue forjar
abrigos debaixo de raízes, de pedras, sob a folhagem,
onde exista imperceptível».

II.

Em pequena, diziam-me que não podias deixar
de inspirar. Mesmo com risco de veneno,
mais querias a agonia do que deixar de acumular
ar nos teus pulmões.

Continuo sem saber se haverá verdade nesse conto,
gosto de pensar que sim.
Porque a tua aparência inflamada
teria aí um motivo mais favorável à arte.

Nunca esqueci uma noite cálida, quando primeira vez te vi
movente a custo numa estrada
e alguém soltou creolina,
projectando morte sobre a tua placidez.

No fundo, compreendi então que a fealdade ofende mais do que a culpa,
e que o receio faz das sombras inofensivas o palco do infortúnio.

Ninguém tomou sublime a tua forma,
apenas a julgaram atípica por não acompanhar as medidas
com que folgamos no universo.
E, contudo, busco essa estranheza
sem concessões e absolutamente real.

Talvez pelas horas passadas junto à argila alaranjada.
Talvez pela figueira que chorei sem consolo num inverno.
Talvez por causa dessa noite desalumiada,
talvez pela infância daí para sempre na minha lembrança,
talvez pela brutalidade por mim reconhecida:
quando enrolavam cobras com estacas
ou atiravam os ovos para fora do ninho,
quando estudavam os limites de um gafanhoto,
a raiz de peónia, a resistência das pinhas,
quando assim era e havia em tudo isso singeleza.

Naquele instante, apenas uma certeza.
Sentindo aquele odor forte, percebi que estava condenada
a lembrar-te e aos pequenos que se atiravam a ti com maior cobiça.

Diante de mim estava uma espécie de mistério sem fundura.
Deixei-me estar quieta, confusa sobre a ideia que me atravessava.
Somente me tocou uma leve intuição. Uma brisa remota, algures.

III.

Era no estio que melhor achávamos a tua espécie.
Um som de reco-reco no tecido da noite sufocando-nos
ainda mais, enchendo-nos a insónia,
com o vibrato das cigarras.

Rebolávamos nas camas,
bebíamos a água pousada na mesa-de-cabeceira
e olhávamos as graduações de obscuridade nas paredes.

Certo é que essa tua toada feia nos fazia companhia,
querida, no seu modo curioso de abafar os restantes terrores.
Eras como que uma claridade negra de presença.

A tua fisionomia invocada pelo eco e nós, na calma,
interrogávamo-nos sobre o deus que teria engendrado essas linhas,
essas vozes e essas dermes ásperas.

Era o grande deus das formas, meditávamos, o dos muitos olhos,
aquele que inventa o impensável e sabe que é verdade.
De tal modo que havia criado também o morcego e o sardão.

Não podia haver outra razão para que tantas patas desiguais
tocassem terreno e trouxessem andante a expectativa de vencer a derrocada.

E as tuas tão brutais quanto a plasticidade de um antúrio.
Ainda não nos assustávamos convenientemente
com a televisão, com a colher, com o copo, com o frigorífico, com o fósforo.
Havia familiar instalado nos olhos.

Que tu persistisses ali na lagoa, tu e os teus confrades,
isso é que era inabitual.
Afligia a presença constante de uma coisa
que respira furtiva e tem apetites
e mexe por sua própria vontade.

Nessa experiência do susto e do espanto,
tecíamos sem saber as imagens.
E por vezes, quando o sono se torna cerrado,
ainda acordo em sobressalto acatando a tua rouquidão.


Elisabete Marques, in Animais de Sangue Frio, Língua Morta, Abril de 2017, pp. 61-66. Outro poema da autora foi outrora partilhado aqui. Muito diferente do livro de estreia, Animais de Sangue Frio reúne 9 trípticos (3x3) que, à semelhança deste, acolhem personagens de índole aparentemente mitológica, criaturas fantásticas, estranhas, enigmáticas, seres de um mundo crepuscular. Os animais de sangue frio são, por regra, répteis, anfíbios, mas aqui parecem transcender essa condição biológica para penetrarem uma outra, mais simbólica. O sapo que se adivinha no poema já não é apenas um sapo, dissecado na sua forma e essência. Ele é também aquilo que inspira, certa condição mitológica, mais ou menos pessoalizada num contexto de vivências singulares, o seu significado resulta de uma relação estabelecida com quem o evoca. Príncipe sapo, sapo agoirento, ao mesmo tempo suave e grotesco. É nesse limbo algures entre a realidade e a fantasia que melhor se entende este bestiário, conjunto de poemas sob a forma de pinturas onde a bestealidade exibe tanto espanto quanto inspira comiseração. Livro estranho, repleto de seres estranhos, convocando-nos para lugares estranhos: «Esta questão de lugar, / o lugar sempre outro e atravessado e esquivo» (p. 41). Sobre o primeiro livro da autora deixei aqui uma breve leitura.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

HOJE


A próxima sessão do ciclo Diga 33 terá Helena Vieira (Elvas, 1962) como convidada. Editora da Mariposa Azual desde 1998, coordenou, mais recentemente, a antologia de poesia contemporânea Voo Rasante. O primeiro livro publicado pela Mariposa Azual foi Nova Asmática Portuguesa (Agosto de 1998), de Nuno Moura, escrito sob patrocínio de uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura. O primeiro poema, há 20 anos:

é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com a telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.

portugal é um país de poetas ricos.

a poesia dá dinheiro a portugal.

DO INÍCIO, OUTRA VEZ


I

Foi esta portanto a furtiva impureza que herdámos
sem saber como, este espaço, este canto assim vago,
estes espasmos desmaiados, este tempo, este mundo,
estas arestas, estes pedaços de terra, estes dramas
de inércia e dentes pouco aguçados, os mesmos
rostos rasos ao chão, estes remorsos, estes cafés
onde nos recompomos das derrotas, este modo
de despejar os cinzeiros, estas tardes, este aclarar
da garganta para nada e os rebuçados amarelos
e doces para a tosse, a lucidez, os oscilantes sons
das campainhas, a satisfação ardente dos líquidos
raros, a gradação de intensidade das lâmpadas,
a acidez dos risos, os envelopes bem dobrados,
e os dias sempre os dias outra vez os dias.

II

Certas flores, as mais esfarrapadas.
O vento também. Ou já o disse?
E coisas que ainda não têm nome.
Aquela impressão quando os olhos fecham.
Arriscaria dizer que é de sempre
Este tumulto no pestanejar.

Um dia terei feito as contas à vida. 
Mas julgo que muito se passou atrás das costas.

III

Não nos lembramos bem das canções.
Mas fizemos nosso o seu sussurro obscuro

- será pouco mais que a nossa obrigação.

Em tempos a questão era desmurmurar
os sentimentos, enroscar bem a língua
para saborear todo o amargo e o dormente
e o lento e o cuspo e o abrasivo e o asco.
As gengivas em sangue de tanto remoer.
Chega de tanto.

IV

Tanto mais que nos coube
também a metrologia de coisas instáveis
e de utilidade discutível.

Por exemplo, as nesgas, a palidez granulada da alvorada,
os vários modos de encostar o rosto à almofada e assim
sobreviver ao exílio de vez em quando rindo,
os ímans - ou, mais exactamente, o ponto
indiscernível em que a atracção dos pólos
sossega, por instantes, ou melhor,
em que se fixa no equilíbrio dos contrários
- o recorte dos panos atravessados pela luz
ou as saídas necessariamente de emergência
de um certo quarto onde ouvimos os passos
e nos juntámos à multidão. Os gemidos.

Pois coube-nos a observação das multidões,
também a densidade das esponjas ou o chocalhar
luminoso da face enamorada. Outros elementos,
divisões, categorias.

O verbo que descreve
a antecipação do andamento
que se segue, esse

deslizante verbo

V

A nós coube-nos a desmesura, e as coisas
que nela aprenderemos a incomensurar.

Mais uma razão para termos nos dedos
pontas tão estreitas e tão pouco sábias,
e pálpebras assim, efervescentes.
E tudo isto está ainda por estudar.

VI

Este entrever, este antegosto,
este rosto assim
amachucado entre tantos,
risos até, súbitos
súbitos tambores e sustos,
estes estrondos extenuados
de tão pouco.

Que e fodam os densos mistérios
que a razão nos foi deixando
sobre inumeráveis secretárias.

Temos muito com que nos entreter,
outras penumbras.

VII

Ou nem isso.

Lá se escovam os triunfos anteriores,
meio desbotados, e se reviram os olhos
a custo. Lá se abrem as gavetas
e se colam as visões a cuspo.

Foram-se amontoando futuros.

O que se poderia talvez traduzir
da seguinte forma:

Há zonas de indistinção onde tudo
se joga em mecanismos
de rigor murmurado e eriçado ânimo.
Dobras, vincos.

VIII

Mas talvez nisto haja subtileza a mais.

E que tal assim:
Eis o mundo.
Eis-nos.
Não chegámos a dizer ao que vínhamos.

Somos muitos e por enquanto dispersos.

Antes de mais
e antes do resto.

IX

Coube-nos começar, mas não do princípio.
Coube-nos amarfanhar todos os mapas
(Ainda que os tenhamos desenhado
a canivete, ao de leve, na palma das mãos).

Pelo que o cicatrizar nem sempre ajuda.
Há nisto uma certa poesia, não muito subtil.
E sempre dá algum estremecimento aos apertos de mão.

É mais ranger de dentes que outra coisa,
lançamento de guitas, cordas, fitas
de toda a espécie e alguns ganchos em metal
(de que não se conhece bem o propósito)
para sítios um pouco escuros e adversos.

Quem é que se lembra ainda
para que servem por exemplo os ponteiros
desencontrados nesta armadura de latão?
E por aí fora.

X

Convirá acentuar o quanto é ainda o início.
Um início: a par do riso, a mais discreta,
a mais comum das utopias.


Miguel Cardoso (n. 1976), in Que Se Diga Que Vi Como A Faca Corta (Mariposa Azual, Junho de 2010). «O seu primeiro livro, Que se Diga que Vi como a Faca Corta, remete logo no título para a órbita de Herberto Helder. Todavia, os evidentes pontos de contacto com a escrita do autor de A Faca Não Corta o Fogo – poemas longos; imagens fortes; linguagem ao mesmo tempo obscura e exaltante, densa, visceral – nunca o reduzem à condição de epígono». (José Mário Silva, LER) «Os seus poemas – quase sempre longos, feitos de acumulações, derivas, apartes, coloquialismos, interrupções – são paredes verbais a ir de encontro ao leitor para o derrubar. São uma coisa física». (José Mário Silva, Expresso) «Esta é uma poesia política, que não negligencia o investimento formal, mas que disponibiliza nos seus versos um relatório fragmentário e eficaz de signos reconhecíveis. Estes, embora não sejam representações excessivamente denotativas de certo estado de coisas, formulam quadros de referência que situam os poemas de Miguel Cardoso numa certa forma de entender o seu próprio tempo». (Hugo Pinto Santos, Público)

SOBRE PULHICE E OUTRAS MATÉRIAS


Como não estou minimamente interessado em conhecer as intenções de voto do Valupi, salto a cassete. Prefiro questões de fundo de gaveta, complexas, eventualmente tão improváveis como a existência de buracos negros no interior de buracos negros. Tipo: como compreender que um partido que se diz socialista governe sempre em reiterada contradição com os princípios mais elementares do socialismo? O Valupi foge à questão com uma questão: de que socialismo estamos a falar? Ora, segundo julgo saber, um princípio básico do socialismo é a igualdade de oportunidades. Valerá a pena falar de caciquismo? Valerá o esforço? O exemplo mais pungente nesta matéria é-nos logo oferecido pelo actual presidente do PS: «É um caso raro na política portuguesa: toda a família mais directa do líder parlamentar socialista, Carlos César, está em cargos de nomeação ou eleição política». Talvez a única coisa que possa ser desmentida na notícia é o tratar-se de caso raro. Quanto a pulhas, talvez não fosse má ideia recordar notícias sobre as mãos largas de alguns empresários neste país (aqui). A troco de quê tamanha caridade? Ou voltar a folhear “Os Donos de Portugal”. Ou espreitar os perfis nas redes sociais de alguns administradores e directores de empresas que engordam à custa dos salários miseráveis que pagam aos seus funcionários. Talvez fazendo tal esforço cheguemos a alguma conclusão, caso não as tenhamos já todas previamente definidas por uma qualquer cega fé na inocência dos pulhas.

VIVA O CAPITALISMO


"De acordo com os dados das Nações Unidas, há disparidades “regionais generalizadas”, que se relacionam com “desigualdades de rendimento”, e que afectam as hipóteses de sobrevivência das crianças".

MALDIÇÃO


Chegará o dia em que a tua actividade sexual equivalerá às vezes que vais ao cinema.

domingo, 16 de setembro de 2018

EM NOME DO PAI, DO FILHO, DO ESPÍRITO SANTO E DE BUDA


[A tia de um amigo meu]


A tia de um amigo meu
Que deus a tenha
Apesar de eu não saber
Se faleceu

Falou-lhe um dia
Depois de ver as notícias
De um grande tsinami na ilha de Sinatra

Assim que ele ouviu aquilo
Foi projectado pelo ar
Escavacou a casa toda
E saiu pela janela

Disparou o sobrinho da culatra

Mas mais
Muito mais que isso

Fê-lo à maneira dela.



Sebastião Belfort Cerqueira (n. 1987), in RSO&SBC (Douda Correria, Abril de 2018). «O leitor viciado em ecos talvez possa pressentir aqui o jovem Nemésio esperando o Navio de Sal, ou a batida sincopada do Navio de Espelhos de Cesariny, mas se esta poesia alude, e às vezes expressamente, a poemas doutros autores, de Sá de Miranda a Manuel Bandeira, essas apropriações são sempre desviadas em benefício de um mundo verbal singular e inconfundível» (Luís Miguel Queirós, Público).

sábado, 15 de setembro de 2018

A PERGUNTA É

O que vai acontecer a estes patrões? Se julgam ser caso único, desenganem-se. Já agora, chegam-me ecos alarmantes sobre as condições de trabalho de quem produz o famoso pão de Rio Maior. Amigos jornalistas, não querem investigar? Mexam-se, caralho, dignifiquem a vossa profissão de jornalistas. 

JOCASTA & DIZIMAR



   Após a publicação de Sumo de Limão — Silva de Versos (frenesi, Setembro de 2017), em edição conjunta de que demos conta aqui, Paulo da Costa Domingos (n. 1953) regressa com duas plaquettes vindas a lume com poucos meses de diferença: Jocasta (frenesi, Maio de 2018) e dizimar (frenesi, Agosto de 2018). A primeira, tendo como figura central uma personagem mitológica, inicia com o poema intitulado O Verbo Se Fez Carne. Anteriormente publicado na revista Cão Celeste, este poema indica-nos logo no título uma perspectiva cosmogónica que o léxico dos versos confirma. De um modo irónico, o sopro da criação é desmontado pela vontade de questionar o lugar da mulher na história do mundo. A última estrofe não deixa dúvidas quanto à vertente heterodoxa do poema: «Quem regressa do vale / e seus olhos viram / coisas nunca vistas, / só lhe diz ser altura / de soprar menos» (p. 5).
   A convocação de Jocasta, de certo modo explicada em nota marginal, leva a um questionamento da historiografia burocrática. Se é pacífico ter sido Sófocles quem, entre os poetas trágicos, mais se esforçou por oferecer à mulher um primeiro plano na significação das dores humanas, não tão pacífico será sobrepor a relevância de Jocasta a Antígona neste domínio. De facto, se um dos principais conflitos na tragédia de Sófocles é aquele que opõe a lei do Estado ao direito familiar, Jocasta foi estupidamente secundada por quem sempre preferiu relevar o papel desobediente de Antígona. Afinal, é a mãe de Antígona, nascida de uma relação incestuosa, quem melhor poderá simbolizar posteriormente uma crítica da estrutura base das sociedades judaico-cristãs. Jocasta que se desfez de um filho, pedindo que o matassem, para acabar posteriormente casada com ele, dele tendo filhos, acabará por se suicidar, enforcando-se no quarto: «Voraz, absoluta entrega e / único feminismo sem o sofisma / do horror aos trilhos do coração, / nasce de si mesma: carnívora, / nuamente infame como feixe / d’espinhos coroando a Natureza» (p. 10).
   Este hino orquestrado por Paulo da Costa Domingos concorda com o que conhecemos da sua poesia anterior pela sobreposição dos valores do corpo às leis morais impostas por forças externas à consciência individual, num epicurismo anárquico que não prescinde de sobrelevar o indivíduo a uma qualquer ideia de Estado. Do mesmo modo, no conjunto intitulado dizimar, verbo com conotações etimológicas também elas apelando a certa noção de tragédia humana, o indivíduo surge colocado na posição do condenado que o carrasco se presta a executar. Neste caso, o carrasco tanto pode ser uma ideia de cidade (malha urbana) como os «urbanistas com seus compassos» (p. 11): «¿Que posso eu dizer-vos?... / Que esta maneira de civilização / pinga como uma torneira lassa, / e o seu laço nos estrangula» (p. 5). Quem acaba estrangulado é o rebelde, vítima da normalização que tudo higieniza, tornando a paisagem asséptica, amorfa, monótona, sufocante. A própria poesia acaba posta em causa neste cenário de desolação: «Desta rebeldia / com véus  que encobrem a raiva / e o desespero» (p. 9).
   O espectáculo entristecedor das sociedades de consumo, eufemismo para sociedades autodestrutivas, tem também no centro do seu imenso palco aqueles que se lhe opõem, por vezes perdidos em labirintos de consciência, outras vezes vitimados pelo sufoco a que são sujeitos pelos algozes da normalização. O poeta é uma dessas figuras, não apenas por insistir na prática de uma arte antiprodutiva, logo desconsiderada como esperdício excessivo, mas sobretudo por na sua zona restrita se manter fiel a um propósito antigo, que já vem dos tempos de Jocasta, o de desviar da lógica idealista todos quantos prefiram o veneno do sonho erótico ao veneno do sacrifício redentor. Neste contexto, a poesia de Paulo da Costa Domingos pode também ser lida como esconjuração, grito de rebeldia, espécie de exorcismo proferido contra todas as forças que se oponham à liberdade individual, à autoconsciência, aos prazeres de um corpo que é garantia de estarmos vivos:

¡Vai embora! ¡Larga-nos!,
larga o teu inimigo.

Teu ganho e nossa perda
já mal se distinguem.

Na desolação dos oásis as bocas
abrem-se e são grutas em f’rida.

Solidão de vozes gastas
no sussurro conspirativo.

¡Nem na noite há refúgio!
¡Larga!, larga o teu inimigo.

Fatiga, a luta, e ainda
não chegou o pavor.

Certo. Teremos bebido;
muito menos que mentiras

dizem os poetas durante
uma greve selvagem.

Resta referir, até por respeito a velhas cumplicidades que nestas coisas são o que mais conta, que a capa de Jocasta tem na sua origem uma fotografia de Rui Baião. E de Carlos Ferreiro é a ilustração na capa de dizimar.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #49



   Os Bauhaus estão a comemorar 40 anos de actividade, nós cantamos os parabéns aos Bauhaus. In The Flat Field (1980), álbum de estreia, surgiu em 1980. Nem tudo foi mau nos eighties. Acrescente-se que surgiu a par de um selo que viria a ser sinónimo de “qualidade”, o selo da 4AD. Oriundos do reino-unido, absorveram a revolução punk, assimilaram a estética glam de uns T. Rex ou de Bowie, e acrescentaram-lhe um tom gótico. Mary Shelley e Bram Stoker podem ser tidos como fontes inspiradoras de águas sacramentais, num género de reverência heterodoxa tendo como patrono o anjo caído que Goethe imortalizou no Fausto.
   As “dark entries” anunciadas pela voz inconfundível de Peter Murphy não nos levariam a outro lugar senão o das adoráveis trevas que assumem como virtuosos todos os pecados declarados pela ortodoxia católica. Se os punks tinham por alvo a sociedade, entendida como construção política, os góticos apontaram flechas à influência da igreja sobre essa mesma sociedade, considerando que os poderes, ao contrário do que advogam as repúblicas, ainda não tinham sido separados. O culto prestado é aos excomungados, em jeito de provocação, talvez, mas também sob uma perspectiva cínica que vem de há muito.
   A dança de São Vito assume a tradição, incorporando-a pelo lado festivo, quase pagão, dionisíaco. Quem escute Dive está no território punk, mas quem logo de seguida apanhe com Spy In The Cab perceberá que algo ficou para trás na mera fúria anti-social. A suportarem a postura ritualística de Peter Murphy, a guitarra de Daniel Ash perdia-se em devaneios capazes de transcender a síntese dos três acordes. O baixo de David J e a bateria de Kevin Haskins garantiam uma secção rítmica poderosa, à qual devemos acrescentar efeitos secundários então vanguardistas numa banda de rock.
   Todos eles tiveram projectos paralelos ou a solo, confirmando competências singulares que vão muito além do que fizeram enquanto banda. A título de exemplo, podemos referir um álbum como Express (1986), assinado pelos três Bauhaus para além de Murphy, que a páginas tantas enveredou por registos mais pop com discos a solo tais como Deep (1989) e Holy Smoke (1992). Belíssimo álbum de canções é Songs from Another Season (1990), de David J. O que tudo isto prova é a versatilidade dos músicos por detrás dos Bauhaus, a capacidade que tiveram de acrescentar ao rock uma atitude literária, conferindo-lhe dignidade artística.
   Quem agora escute um tema como Nerves não poderá ficar insensível à ousadia dos arranjos, às palavras desoladoras, aos ambientes soturnos, ao piano minimalista, às sombras, ao teatralismo vocal de Peter Murphy, às explosões rítmicas, aos cenários de ruína, à dramatização das alterações rítmicas tendendo para um apocalipse sonoro. Os Bauhaus estão a comemorar 40 anos, mas é como se por eles o tempo não passasse. Ou não fossem discípulos do imortal Conde Drácula.


ABSOLUTAMENTE

(...)


Não há diferença de natureza, apenas de grau, entre a 'indignação' destes talibãs ocidentais e, por exemplo, a selvajaria do caso dos cartoons do Maomé.


(...)

Ricardo António Alves: aqui.

UM POEMA DE FERNANDO MACHADO SILVA


(…)

estou vivo e amo e celebraria a vida
mesmo se o meu amor e paixão fossem só por
isso que é a vida


(…)


Para ler na íntegra: aqui.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

VIVA O CAPITALISMO


Pelo terceiro ano consecutivo, há mais gente com fome no mundo

As alterações climáticas, conflitos e as crises económicas põem em causa a saúde e a subsistência de milhões de pessoas em todo o mundo, especialmente em África e na América do Sul.

Há cerca de 821 milhões de pessoas no mundo a passar fome, a maior parte das quais em África e na América do Sul. Pelo terceiro ano consecutivo, aumentou o número de pessoas com fome no mundo, segundo o último relatório sobre a Segurança Alimentar e Nutrição das Nações Unidas, divulgado esta terça-feira e relativo a 2017.
(…)
Cerca de 672 milhões de adultos, ou 13% do total, são obesos e 38,3 milhões de crianças com menos de cinco anos também. A obesidade é mais sentida na América do Norte, mas também está a aumentar na África e na Ásia, onde coexiste com a subnutrição

(Notícia completa: aqui)

VOLUME DELICIOSO, LIVRO RARO



Revista LER, Verão 2018, n.º 150.
(clique nas imagens para ver melhor)

O MUNDO NUNCA MAIS FOI O MESMO


   Insistimos nos ataques suicidas contra os EUA, de 11 de Setembro de 2001, como tendo mudado definitivamente o mundo. O mundo nunca mais foi o mesmo, dizemos. Como se isso quisesse dizer alguma coisa, como se aí estabelecêssemos uma fronteira histórica. Qual o verdadeiro significado dessa fronteira?
   Ao que se sabe, os ataques terão sido organizados pelos fundamentalistas islâmicos da al-Qaeda. Esta mesma organização foi financiada pelos EUA quando o objectivo principal era a expulsão de tropas russas do território afegão. Bin Laden, líder da al-Qaeda, foi outrora visto como um herói pelos americanos, que não só o treinaram militarmente, como lhe ofereceram armas. 
   Só depois da Guerra do Golfo, em 1991, com a instalação dos americanos na península arábica, é que Bin Laden se começou a opor aos americanos. E quem se opõe aos americanos torna-se inimigo dos americanos. Para sermos exactos, foi a Guerra do Golfo que mudou a face do mundo. Desde logo, foi a primeira a que pudemos assistir em directo com maratonas televisivas épicas. 
   Na sequência da Guerra do Golfo, o Iraque de Saddam Hussein ficou no goto dos americanos até à ocupação de 2003. Esta ocupação teve na sua origem uma “guerra global contra o terrorismo” assente numa mentira: a de que o Iraque possuiria armas de destruição em massa. Depois desta ocupação o mundo também nunca mais foi o mesmo, pois foi a partir daqui que se formaram movimentos como os do chamado Estado Islâmico, ISIS ou Daesh. 
   Da al-Qaeda anti-soviética ao Daesh antiocidental não passaram muitos anos, um dos intervenientes foi sempre o mesmo e o mundo foi mudando na sequência dos interesses particulares desse interveniente. Que insistamos na ideia de que o mundo nunca mais mudou depois do 11 de Setembro de 2001 é uma patetice. Pior, é de uma insensibilidade gritante face aos problemas do mundo. 
   Os atentados às torres nova-iorquinas são particularmente horríveis por condensarem em poucas horas o terror de atentados perpetrados ao longo de anos, dos quais não nos chegam senão fragmentos. Em Nova Iorque caíram torres, em todo o Médio Oriente são cidades, países inteiros, o que tem tombado. Sem grandes percalços emocionais para a história de um mundo em mudança, acrescente-se. Ou julgam que os migrantes afogados no Mediterrâneo vêm do nada? Não morrem carbonizados em torres, morrem afogados no mar enquanto fogem de guerras nos seus países. Guerras que têm uma história, uma origem. Ainda que dessa história insistamos em contar só a parte que nos interessa.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

PORNO-RIQUISMO

Num país com um salário mínimo (médio?) de 580 €, maná de opulenta classe empresarial, é tudo menos pornográfico deparar com tais realidades: «O porno-riquismo é a nova fase do consumo conspícuo num tempo de capitalismo multi-escalar com desigualdades pornográficas, onde o dinheiro assim concentrado é sempre quem mais ordena, incluindo na dimensão pessoal, que é sempre política». A pornografia sempre estimula o tesão, isto desmoraliza por completo. Enoja. Daí que talvez fosse preferível falar de riquismo-abjeccionista. 

UM POEMA DE JAIME ROCHA

RUÍNAS

É um espaço de morte onde vai um corvo
comer todas as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e procura no meio
da vegetação algumas larvas e o cheiro
de outros corvos. É um cheiro novo, azeitado,
que consegue surpreender quem pára um carro
junto a uma montanha.

Nessas ruínas passa um rio que está sujo
e que mostra ao longo das margens mais
de duzentos peixes mortos. É um rio esverdeado
sem vegetação, apenas com uma baba, onde
os corvos vão beber. Tem sons que desaparecem
de repente. Dentro dessas ruínas existem vários
objectos de ferro, outros de plástico.

Tudo está ordenado conforme o seu tempo de uso
e o espaço que ocupam. A um canto que é o canto
mais antigo das ruínas existe já uma grande
quantidade de musgo e cogumelos castanhos
dispersos subindo por uma árvore. É a árvore
dos corvos e é dali que se vê o horizonte,
umas vezes deserto outras com um vento
acinzentado. Os objectos de plástico mudam
de sítio e de cor durante a noite. Quase sempre
são levados pelos ratos para um esconderijo
escavado na terra, sem saída.

É um rio podre, embora nas palavras se possa
inventar uma lenda com um monge de branco
e uma estátua enfeitada de organdi, cheirando
a tabaco. Quando está cheio, ele reflecte
as ruínas com exactidão, as cores, os volumes,
os ácidos, uma temperatura quase quente,
como se as pedras e o barro fervessem para dentro.
Quando seca, as crostas aparecem circulares,
levantadas pelos bichos. E toda a força da terra
então resplandece chamando os lenhadores
e os machados. Os corvos fogem no chão do rio.
Uma cobra de água rodopia da nascente para a foz,
amaciando as ruínas. Todo o espaço está morto
sem barcos, um corpo que é um osso apenas
e que aguarda a chuva.

Esse rio existe nas ruínas, não está desenhado
num livro. Os corvos que lá vão também existem
porque bebem a água todas as manhãs. E isso
é um alimento sedutor. Alguém escreveu a tinta
junto à árvore do canto mais antigo das ruínas.
É onde antes íam mulheres lavar a roupa
e se banhavam mergulhando com os corvos,
quase sempre para nunca mais voltar.


Jaime Rocha, in Lâmina, Língua Morta, Março de 2014, pp. 103-105.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

ATÉ JÁ





INTERVALO DOLOROSO



Gazeta das Caldas, n.º 5242, sexta-feira, 7 de Setembro de 2018.

(também aqui)

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

BURT REYNOLDS (1936-2018)



Em 1966, "estrelou" em Navajo Joe. Deliverance, de John Boorman, marcou toda uma geração. Reynolds era o homem do arco, na descida de um rio marcada pela sodomização de Ned Beatty. Jon Voight integrava o elenco. O filme acabou nomeado para três “Óscares”. Trabalhou com Woody Allen e Robert Aldrich. A última aparição de monta foi no excelente Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson. Nunca foi um dos maiores, mas só por Deliverance já merece ser lembrado.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

SÓCRATES vs BENFICA

E agora, benfiquistas anti-Sócrates? Estamos com a justiça ou ficamos com o clube? Culpados? Inocentes até trânsito em julgado? As respostas a estas e outras perguntas num psiquiatra junto de si.

ESTE ANO VOU AO FOLIO




Dia 28, na Livraria da Adega (onde mais?). Programa disponível: aqui.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

RIO MAIOR, 1918



Perdão, é mesmo 2018.

SOBRE A MUDANÇA DA HORA

Se for para trabalhar menos, aprovo. Se não for, estou contra.

"AI A MINHA VIDA"


Lado a lado, dois livros anunciam-se como «um dos melhores livros do ano», mas o leitor hesitante terá ainda que se debater com «um romance magistral», com «um aclamado romance» e com «um dos livros mais importantes e denso de consequências de toda a história moderna». E isto apenas numa fila, num de entre os muitos expositores, cada um deles abaulado sob o peso de tais hipérboles. «Uma das características mais salientes da nossa cultura é a existência de tantas lérias», diz Harry Frankfurt, de Princeton, em que «lérias» é a minha tradução aguada para «bullshit». Os editores, todos eles, lançam a rede à pesca do incauto comprador impulsivo, atropelando-se numa escalada de adjetivos que tende para o bocejo. «E todos sabemos isso», afirma Frankfurt logo de seguida. Aquilo que no século vinte e um almeja a ser cultura, mais não é que uma caixa de ressonância de mistificações, digo eu.



E diz muito bem, o Xilre.

domingo, 2 de setembro de 2018

DANÇAR


Pensá-lo é mau, dizê-lo talvez seja pior. Mas que se lixe. Vejo Theresa May a dançar e só me ocorre como devem ser tristes e enfadonhas certas vidas. Volta Elaine, estás perdoada:


sábado, 1 de setembro de 2018

MANUAIS ESCOLARES


   Por mais tempo que trabalhe numa livraria, jamais conseguirei compreender a relação paranóica dos encarregados de educação com a aquisição de manuais escolares. Antes de mais, não entendo sequer a necessidade dos manuais escolares. Num país onde meio mundo se indigna por dá cá aquela palha, é estranho que não exista um movimento associativo forte (de encarregados de educação, professores, etc) que se oponha veementemente à aquisição de manuais escolares a cada novo ano lectivo. Fala-se no peso nas carteiras das famílias, eufemismo para roubo autêntico. Um roubo que tem na sua origem um Estado fraco, incapaz de fazer frente à influência dos grandes grupos editoriais. 
   Os manuais escolares nãos servem para nada, facilmente seriam substituídos por sebentas iguais para todas as escolas. Que existam professores que não sabem trabalhar sem recorrerem aos manuais também diz muito do estado do nosso ensino. O problema começa precisamente aqui, mas estende-se e complexifica-se. Obrigadas a adquirir a porcaria dos manuais, muitas pessoas surgem aos balcões frustradas, vão gastar um dinheiro que não queriam gastar. Apanha-se de tudo, sendo que aquilo que mais se apanha é o cliente apressado. A pressa na aquisição dos livros é um mistério que não entendo senão aceitando a tese de que os portugueses são particularmente masoquistas. Sucede que muitas vezes as pressas redundam em precipitação. Quando assim é, depois de terem aceitado um contrato de compra em que são informadas de que os manuais não estão sujeitos a trocas ou devoluções, há inúmeros encarregados de educação que nos abordam com a intenção de desfazer esse contrato. Muitas vezes com a desfaçatez do chico-esperto que se defende argumentando que não tinha sido informado, quando a informação está toda ao dispor e é passada no acto da encomenda. Ou porque alguém lhes ofereceu os livros, ou porque os viram à venda num qualquer sítio online com preços mais acessíveis, ou porque foram informados da oferta por escolas, freguesias, municípios, surgem-nos com a intenção de desfazer o que foram eles que quiseram fazer antes de todos os outros. 
   O mais grave, porém, não é este tipo de minudências. É mesmo o sinal de desresponsabilização que sucessivamente recebemos de uma sociedade civil que ou anda a dormir ou não quer saber se anda acordada ou simplesmente enferma de estupidez generalizada. Desde gente que não sabe o ano escolar dos filhos, a gente que não sabe o nome das escolas que os filhos frequentam, e exigem que sejam os vendedores de manuais a sabê-lo, porque esses estão obrigados a saber tudo, são omniscientes e devem assumir pelos papás a responsabilidade que os papás não têm, é um ver se te avias. Há deles revoltados que chegam a ser cómicos: querem que o mundo seja à sua imagem e semelhança, não aceitam nem compreendem um não, procuram fintar regras que nem estão dispostos a conhecer.
   Há dias, a propósito de vouchers oferecidos pelo Ministério da Educação, uma senhora dizia-me que só utilizaria os vouchers se lhe garantissem que os livros vinham novos, pois jamais aceitaria que a filha andasse na escola com livros usados. Perguntei-lhe se sabia que os livros tinham de ser devolvidos no final do ano para que outros meninos depois os pudessem utilizar. Disse-me que sim. E perguntei: acha que os meninos que vão usar posteriormente os livros que a sua filha usou devem fazê-lo? Respondeu-me que não era com ela, cada um sabe de si. E o Estado sabe de todos. Estou para ver no que vai dar este presente (envenenado?) dos manuais trocados por vouchers. Menos despesas na educação significam mais IRS, sendo que no final os livros têm de ser devolvidos em condições às escolas. E se não forem? As escolas cobram aos pais o valor dos mesmos? Conseguem imaginar no que isto vai dar?... 
   Toda esta comédia é trágica e facilmente se ultrapassaria, para isso bastando que o Estado não baixasse as calças sucessivamente ao lobby de grupos empresariais que facturam milhões, crescendo de ano para ano à custa do sufoco de uma sociedade que lhes é servil. Tão servil que não se contenta com os manuais, acrescenta-lhes livros de preparação para testes, exames, livros de trabalhos para casa, uma parafernália de livros de apoio escolar absolutamente inúteis. Sou de uma geração em que nada disso existia, ou pelo menos eu não conheci nada disso. Andamos a sobrecarregar os miúdos com testes, preparações, exames, vão todos ficar com cabeça de equação e coração de teorema. Gerações de tecnocratas preparados para servir e perpetuar a engrenagem do império editorial.