quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O PROBLEMA DA ABSTENÇÃO



“Se for preciso tapem a cara [de Soares no boletim de voto] com uma mão e votem com a outra”, pediu Álvaro Cunhal


Uma das maiores fraquezas dos regimes democráticos está estampada na notícia acima. Entre um democrata e um antidemocrata, Cristas não consegue escolher. Abre assim a porta ao antidemocrata. Em tempos, esse terrorista de apelido Cunhal escolheu engolir um sapo. Cristas não está para isso, o seu facciosismo tolda-lhe as vistas. Não ver diferença entre um democrata e um fascista é o primeiro passo para se ser fascista. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #52



A tendência para o inclassificável, seja em que área for, sempre se sobrepôs à necessidade de etiqueta(s), que tanto quanto posso procuro afastar do caminho. No trabalho, os melhores livros têm sido os que desafiam a arrumação por géneros e tipos e sinaléticas. Prefiro organizar-me conforme datas, enquadrando num mapa cá muito meu o curso da História. Na música, faço mais ou menos a mesma coisa. Isto permite-me como que retomar espantos iniciais, recuperar o fácies boquiaberto de quem se interroga ao longo do tempo como foi possível ter havido no tempo o que o próprio tempo tenderia a explicar, regularizar, normalizar. 
Permanece a dúvida: como foi possível uma banda como os Soul Coughing quando andava toda a gente a ressacar Nirvana e quejandos? A origem nova-iorquina talvez permita compreender uma veia experimental, vanguardista, recicladora de géneros a partir dos quais emerge um anti-género. Frank Zappa é a referência mais óbvia. Música monstruosa, a dos Soul Coughing, enraizada num contrabaixo com ressonâncias claramente jazzísticas que a percussão desvia para o groove e para a dança. No limite, são uma banda de jazz a repercutir no final do século XX a missão de fazer dançar que imbuía os músicos de jazz do início do século. A arte dos “samples”, isto é, da colagem, da remistura, e um vocalista em contínuo registo spoken word (raramente canta) conferem a modernidade, abrindo janelas para o hip-hop, para a soul, para o funk. Não estando ausente, a guitarra é o instrumento que menos sobressai neste quarteto atípico. 
Ruby Vroom (1994), o primeiro álbum, está repleto de momentos em que pressentimos o gozo da improvisação, da desconstrução de ambientes à partida encantadores com uma parafernália sonora intencionalmente caótica (gaivotas, ruas, fragmentos quotidianos). Depois de os ter visto ao vivo na Aula Magna de Lisboa, julgo que em 1996, fiquei ainda mais convencido dessa veia inchada de desfocagens e deformações sonoras. Algumas drogas também, sem dúvida. Ficamos a perceber melhor de onde isso vem quando verificamos que alguma desta rapaziada andava na companhia de John Zorn ainda antes de ter sido um corpo (des)conjunto. Mas Uh, Zoom Zip tem um groove do caraças, apetece logo dançar e esquecer o Brasil, os fascistas, a porcaria de um mundo a afundar-se no pântano das suas criações. 
Isto podia ser coisa de um álbum só, como tantas vezes sucede para entreter maus feitios. Não foi o caso. Ainda que o projecto tenha sucumbido ao terceiro tomo, porventura o mais pop dos três, Irresistible Bliss (1996) manteve desperta, ou seja, aberta, a janela da (con)fusão. Com mais guitarra, é certo. Acusados de se terem rendido à pop por quem trazia tímpanos sujos, os Soul Coughing do segundo álbum não se limitaram a copiar os do primeiro nem se preocuparam em agradar a quem desconhecesse o seu passado. O mundo é que era diferente. Basta ouvir o poderosíssimo Super Bon Bon para percebê-lo. Melhor naquele ano só mesmo Odelay, de Beck Hansen.




P.S.: procurem Lazybones. Não se arrependerão.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

A PRÁTICA DA NATUREZA SELVAGEM


Microplásticos detectados nas fezes de indivíduos de oito países, é o título de uma notícia de hoje. Não é preciso ir mais longe, todos os dias somos confrontados com notícias destas que obrigam a repensar a relação do homem com a Natureza. Podíamos aludir, em contraponto, às teses de lunáticos governantes do mundo para quem o progresso se confunde com destruição do meio ambiente, ainda que neguem os efeitos nefastos da poluição na atmosfera, da destruição das florestas, da indústria desgovernada a favor do capital. Todos os dias ao balcão de uma loja há quem reclame pelo preço dos sacos de plástico, que não deviam ser pagos, que é tudo jogada para meter dinheiro ao bolso. Ora aí têm a primeira página do dia: microplásticos detectados nas fezes de indivíduos de oito países, o que significa, trocado por miúdos, que andamos a ingerir plástico. Não deve ser alimento que faça bem à saúde, como à saúde do planeta presumo também não faça bem a desflorestação recentemente denunciada, mais uma vez, por Ailton Krenak, líder da resistência indígena no Brasil. 
Em A Prática da Natureza Selvagem (Antígona, Julho de 2018), Gary Snyder (n. 1930) oferece-nos nove ensaios onde se prova ser possível pensar estas questões com serenidade e sem extremar posições. Resta saber a quem chegará a mensagem. Snyder é um activista da chamada Ecologia Profunda, movimento filosófico com vista à promoção da vida na Terra independentemente da sua utilidade imediata para os seres humanos. O problema da utilidade, aliás, é facilmente desmontável observando as práticas consumistas das sociedades desenvolvidas, que varrem para o lixo toneladas de alimentos sem valor comercial, promovem uma cultura do supérfluo e do desperdício, hipotecando ecossistemas e aniquilando diversas formas de vida. 
Poeta frequentemente associado à Beat Generation, o autor de Turtle Island trabalhou na floresta, viajou, contactou com vários povos pelo mundo inteiro, dedicou-se ao budismo, concebeu uma perspectiva acerca da natureza selvagem com raízes nos ensinamentos de Ralph Waldo Emerson (n. 1803 – m. 1882) e Henry David Thoreau (n. 1817 – m. 1862), desafiando-nos a viajar pelo interior do Eu em busca do que em nós permanece de selvagem e nos liga ao Todo de que somos parte integrante. Um dos aspectos mais curiosos da sua filosofia consiste na superação de uma perspectiva meramente contemplativa e ingénua da Natureza, a qual compreende tanto uma dimensão bela quão ameaçadora. «Para sermos verdadeiramente livres, temos de aceitar as condições fundamentais tal como são dolorosas, impermanentes, abertas, imperfeitas e de nos mostrarmos depois gratos pela impermanência e liberdade que elas nos concedem» (p. 13), afirma logo a abrir. 130 páginas depois apela a uma ecologia profunda que se debruce sobre o lado negro da natureza, acrescentando: «Os seres humanos sobrevalorizaram a pureza e repugna-lhes o sangue, a poluição, a putrefacção» (p. 148). 
Esta desmontagem de uma narrativa purificadora, que não tem em conta o lado nocturno e canibalesco da natureza selvagem, é uma das suas propostas mais enriquecedoras, já que apela a uma panorâmica alargada do nosso próprio papel no mundo natural. Neste sentido, a sua prática da natureza selvagem resulta num exercício de autoconhecimento, o Eu é o seu próprio objecto de estudo enquanto parte integrante de um Todo mais vasto, nada está fora de nada, tudo faz parte de tudo: «O meio selvagem não pode ser tornado sujeito ou objecto do mesmo modo; tem de ser abordado a parir de dentro, enquanto qualidade intrínseca àquilo que somos» (p. 237). Este deve ser o princípio da discussão, o ponto a partir do qual toda a questão ambiental deve ser discutida, pois não podemos continuar a olhar para a Natureza como estando apartados dela, como sendo exteriores a ela com a missão ancestral de a dominarmos e dela sorvermos tudo quanto seja proveitoso às nossas desmesuradas ambições materiais. 
Próximo de certas formas de panteísmo, a filosofia de Gary Snyder procura recuperar uma ideia aglutinadora do corpo e da alma, ambos considerados como inerentemente selvagens, inseparáveis: «Para resolver esta dicotomia do civilizado e do selvagem, primeiro temos de decidir ser inteiros» (p. 35). Ser inteiros significa aceitar a nossa própria natureza sem a tentação de separá-la dos outros seres, sem a tentação de nos colocar num patamar de superioridade que mais tarde ou mais cedo revelar-se-á não só incorrecto, como infrutífero, contraproducente e, no limite, suicida. A lista dos valores inupiaques, enunciados a páginas 78, com o Humor no topo, talvez fosse suficiente para uma urgentíssima mudança de mentalidades. 
Parte fundamental do nosso mundo está a desaparecer rapidamente, não sendo provável a sua recuperação. Este processo acelerado de extinção, impelido pela ganância, pela arrogância, obriga a uma perspectiva cultural que recupere ensinamentos antigos, primitivos, e deles retire o proveito de uma relação pacífica do homem com a sua natureza selvagem. «A natureza selvagem encontra-se inextricavelmente ligada à trama do eu e da cultura» (pp. 93-94). Se a nem todos convém o eremitismo viajante no espaço, a todos ele parece fazer falta interiormente. Em busca precisamente do misterioso elo que leva ao respeito pelo outro, seja ele uma montanha, um oceano, um urso, uma árvore ou uma simples pedra. 
Não deixa de ser paradoxal que a luta dos chamados “povos nativos” contra a avidez de multinacionais que exploram madeiras, petróleo ou outros recursos naturais, seja uma luta em nosso favor, mesmo que muitos de nós não o entendamos, cegos que ficámos com alucinadas visões de progresso e evolução. Benefícios e malefícios têm várias ordens de medida. A proposta é, pois, a de produzir com a natureza em vez de contra ela. O mal pode ser-nos natural, mas não tem de acabar com o bem:

Todos podemos concordar que há um problema com o egoísmo do eu humano. Será este um reflexo do meio selvagem e da natureza? Penso que não, pois a própria civilização consiste na destruição e institucionalização do ego sob a forma do Estado, tanto no Oriente como Ocidente. Não é o caos da natureza que nos ameaça, mas a presunção por parte do Estado de que foi ele que criou a ordem. Além disso, uma ignorância quase autocomplacente no que toca ao mundo natural permeia os círculos empresariais, políticos e religiosos euro-americanos. A natureza é ordenada. O que na natureza parece ser caótico é apenas um tipo de ordem mais complexa.

Gary Snyder, in A Prática da Natureza Selvagem, trad. José Miguel Silva, Antígona, Julho de 2018, p. 125.

AUTOESTRADA DA INDIFERENÇA


(...) Vladimir Safatle, professor de Filosofia na Universidade de São Paulo, assinala que da parte de Bolsonaro existiu uma anticampanha, que se deslocou para o ambiente virtual, baseada no esvaziamento do espaço político, através de provocações e insultos preconceituosos às minorias — negros, mulheres, LGBT — e a transmissão de notícias falsas, em substituição do jornalismo. Safatle realça ainda o potencial fascista mais ou menos recalcado que está a ganhar direito de existência, não só porque “vários sectores da sociedade brasileira expressam um padrão racista e preconceituoso”, como porque a ditadura militar nunca deixou de ter apoiantes. Relativamente a esta, o “Brasil fracassou redondamente em conseguir superar seu passado ditatorial, que o volta a assombrar agora” e, por isso, Vladimir Safatle avisa: “Logo, o que está explodindo hoje era uma bomba-relógio que ninguém quis ver.”
Será expectável que se assista a um longo e duro processo de resistência à agenda de Bolsonaro e dos seus apoiantes, mas convém desde já assinalar a demissão dos políticos do centrão que nada fazem para se erguerem — apoiando Fernando Haddad — contra a catástrofe anunciada, mesmo se serão eles próprios vítimas desta. Já agora, para quem acha que a esquerda é a grande responsável pela ascensão da extrema-direita e desresponsabiliza os votantes em Trump ou Bolsonaro, chamando a atenção para o facto de se não dever insultá-los, posso dizer que os responsabilizo, sem precisar de os insultar. A não ser que se sintam insultados por serem considerados egoístas, xenófobos, de extrema-direita ou fascistas ou cúmplices destes. O historiador do nazismo Ian Kershaw já alertou há anos para o facto de a estrada para o Holocausto ter sido construída pelos nazis, mas pavimentada pela indiferença.


Irene Flunser Pimentel, no Público.

"PÔR O CORAÇÃO NO RITMO DA TERRA"


Ailton Krenak não se esquece de um texto de 1865, atribuído a um chefe indígena da América do Norte quando abordado por um representante do governo de Washington, avisando que queriam comprar as terras dos índios. Não se esquece também de que a resposta do chefe Seatle foi de que os índios não podiam vender a terra porque a terra é maior do que os índios, é a mãe deles. “Disse aos brancos que, se algum dia eles herdassem aquela terra, que a pisassem suavemente, porque se não aprenderem a respeitar, vão acumular detritos sobre detritos até que vão acordar enterrados no próprio vómito.” Reconhece aquele texto como o primeiro manifesto ambiental do século XX, “uma ideia partilhada pelos povos que vivem nas ilhas do Pacífico, nos Andes, nas montanhas dos Himalaias, porque estes povos originários têm isso no coração, antes de ter na cabeça”. Para completar: “Talvez o que as nossas crianças aprendem desde cedo é a pôr o coração no ritmo da terra.”

Para ler, ver, ouvir: aqui.

CANDIDATO ANTICORRUPÇÃO




Vamos acabar com a corrupção? Vamos. Então, toca a votar num escroque que recusa debater, fecha-se em casa, corrompe tudo o que é democracia com uma campanha suja e vigarista. É este o candidato anticorrupção. Burrice! Ontem, entre a turba, um apoiante envergava um cartaz que colocava Jesus como defensor de armas. O que deu a outra face, o que propagava o amor, é na cabeça desta gente um defensor da lei da bala. Vamos acabar com a corrupção? Vamos. Comecemos por corromper as ideias. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

GATOS NO QUINTAL


Que o mundo é um lugar estranho, há muito sabemos. Mas que a época em que vivemos seja essencialmente diferente das anteriores, é matéria discutível. Sob o manto flutuante dos factos permanece intacto o ácido desoxirribonucleico dos homens, constatação que leva a eternas e infindáveis dúvidas acerca dos ínvios caminhos da evolução e do progresso. Para onde tendemos? Uns dirão que para o céu, outros garantirão que para o inferno. Certo é tendermos para algo diferente do que somos, pelo menos em aparência. É da substância do tempo que assim seja. Em essência mantemo-nos selvagens mais ou menos adestrados pelas ferramentas da civilização. Quando menos esperamos, damos por nós brutos que nem nos imaginamos noutras eras. Se as fogueiras medievais parecem ter sido há muito, o holocausto foi ontem. E o Daesh anda por aí usufruindo das mesmíssimas ferramentas para recrutar que os fascistas emergentes. Em tempos, apedrejámos pessoas na rua. Agora damos cabo delas na praça pública com palavras e insultos que pesam tanto quanto pedras. Pode parecer estranho tal intróito para a leitura de um livro com gatinhos na capa, mas a culpa é do autor. Gatos no Quintal é o livro de estreia, em matéria de poesia, de José Pedro Moreira (n. 1983). Se lhe atribuo a culpa do intróito não é para assacar responsabilidades. No limite, a culpa de sermos bestas é de toda a sociedade que não conseguiu desviar-nos da bestialidade. E essa é matéria que podemos adivinhar em poemas com gatinhos dentro, pouco dados, porém, às maciezas do exibível em contexto de rede social:

Francisco

dava de comer aos gatos no quintal
e eles vinham o pior era quando
as gatas escolhiam o quintal para dar à luz
a minha mãe enchia um balde com água
e metia lá os pequeninos até eles deixarem
de miar eles já não miavam e depois
atirava-os para o caixote do lixo
não dês de comer à merda dos gatos
já estou farta de te dizer para
não dares de comer à merda dos gatos
e a gata miava à volta do limoeiro
miava debaixo do tanque
a gata miava até a minha mãe a enxotar
a gata fugia da minha mãe a minha
mãe com a vassoura não voltes
gata de merda nunca mais te quero aqui ver
e a gata fugia mas voltava mais tarde
e eu dava-lhe de comer e quando
a minha mãe me apanhava batia-me
estou farta de te dizer
para não dares de comer à merda dos gatos

Ora aí está um poema pedagógico, educativo. Educar para a sensibilidade, para os afectos, é isto mesmo, como podia ser a memória do porco a guinchar durante a matança ou a avó a lambuzar-nos com beijos. Mas aqui temos uma confrontação de maternidades a mãe que mata as crias da gata e de certo modo filial o filho que assiste ao gaticídio e contra ele actua, alimentando os gatos, como se actuasse pela sua própria sobrevivência. Na primeira de três partes, intitulada Rua da igreja, é quase sempre essa memória da infância que se intromete no sentido de compreender os princípios pelos quais se rege a educação do ser humano. A linguagem dos poemas como que coloca em cena o pensamento de uma criança face aos gestos dos adultos, gestos quotidianos como o do avô a caiar os muros do quintal, ou as queimadas, ou experiências mais ou menos traumáticas que levam à conclusão: «é complicada / a vida dos adultos». Confirmamos. O segundo conjunto de poemas reunidos neste livro intitula-se Uma cerveja na Grécia, jogo de palavras com Uma Cerveja no Inferno (tradução de Cesariny para Une saison en enfer, de Rimbaud). A cerveja, como sabiamente viu Cesariny, relativiza o tempo. No acto de bebê-la há toda uma época que se degusta e desaparece, porque o tempo é esse borbulhar efémero do gás. Pode parecer estúpido afirmá-lo, será estúpido afirmá-lo, mas menos estúpida é a ideia de justapor a Grécia ao Inferno, como que desmistificando estereótipos culturais vindos de há muito (leiam-se os românticos alemães, por exemplo, e o modo como ansiavam por uma "nova antiguidade"). As epígrafes gregas, os envios, as citações, deslocam-nos para um tempo comparativo. Alguns poemas são sequências, outros parecem fragmentários. No prefácio de Simão Valente diz-se que tal como no primeiro conjunto se abordavam diferenças de idade, neste colocam-se em cena diferenças culturais. É uma leitura possível. Não desfazendo, prefiro insistir na relativa matéria do tempo. A morte intromete-se em todos os poemas por oposição à vida, deixando no ar do pensamento um sabor existencial que define limites:

outrora havia os mestres obreiros
erguiam catedrais de beleza a partir da pedra
dos anos para admiração de todos
tanto do vulgo como do senhor
quando calhava fechavam-nos numa caixa
e eles apodreciam no chão

nós os seus netos arrepiámos caminho
sabemos que entre nós e a morte
só há isto
erguer muros e sebes
para que os possamos derrubar
sabemos que esta é uma forma tão válida
como outra qualquer
de medir o tempo

Outrora agora, título de tão grande quanto esquecido livro, a dúvida persiste, a degeneração prossegue, a corrupção continua, como nós a fingir (o verbo surge a páginas 67) que tudo pode ser mais doce e tolerável. Alegres canibais, então, por fim, recordando Montaigne, sábio entre os sábios. Nos poemas do último conjunto todas estas questões ressurgem num tom mais irónico, como o desse poema que coloca Aquiles numa partida de ténis com a tartaruga. Talvez não se resolva a aporia de Zenão, mas a hipótese serve-se de um nonsense capaz de ser solução para tudo isto. Ao lermos o poema Aula de filosofia, escrito na perspectiva do aluno, lembrámo-nos do poema Durante um exercício de filosofia, de João Miguel Fernandes Jorge, escrito na perspectiva do professor. Mais uma vez o conflito geracional, por assim dizer, a impelir-nos para comparações infrutíferas do antes com o depois. Sobre este, há que denunciá-lo no que tem de turístico, patético até, e é isso que José Pedro Moreira faz na desafiante sequência de cinco poemas intitulada Depois de Kaprow. O tema é a arte e no que ela deu. Ou melhor, o tema é a relação que contemporaneamente temos com isso em que deu a arte. Excelente. É destes jogos entre o outrora e o agora que vivem os poemas de Gatos no Quintal, questionando a vida ao mesmo tempo que procuram relativizar a morte, isto é, retirar-lhe toda a gravidade que nos impede de viver por respeito à igreja na rua onde fomos educados.

TODAS AS PALAVRAS


Podeis “ouver” aqui a edição do programa Todas as Palavras, na RTP 3, em que este que vos escreve foi entrevistado. O tique de mexer no nariz é para não o perder, como sucedeu à célebre personagem do mestre Gógol.

sábado, 20 de outubro de 2018

SETE


Este livrinho, uma pequena maravilha, será novamente celebrado no próximo dia 3 de Novembro. A Poesia Incompleta está de volta, nós estaremos com ela. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

ACORDA BRASIL



quinta-feira, 18 de outubro de 2018

DIGA 33 DE OUTUBRO



Na passada terça-feira tivemos uma mão cheia de convidados. A meu lado, como prova a imagem acima da Margarida Araújo, estiveram Rui Ferreira de Sousa, Sousa Fernando e Jaime Rocha, Mário Galego (a quem chamo sempre Delgado, talvez por ser o nome do meu guitarrista português preferido) e m. parissy.




Falámos de Lawrence Ferlinghetti e de Mizé Gandaio, escutámos histórias com a Nazaré em pano de fundo.




Percorremos a Tetralogia da Assombração, do Jaime Rocha, com o pasmo de quem se deslumbra a ouvir contar como se erguem obras.  


O m. parissy não revelou a origens do seu nome, mas explicou como da non nova sed nove, nos anos 90, se chegou à volta d’mar no séc. XXI.


E lemos poemas e ouvimos ler poemas, com diseurs directamente e voluntariamente saídos da assistência.


Sete, a antologia da volta d’mar, anda por aí. Para casa trouxe o sal de mais uma noite bem passada. As duas primeiras fotos são da  Margarida, as restantes do Ricardo Aurélio. A banda sonora era dos Madredeus, por razões que só a mim lembrariam. 

terça-feira, 16 de outubro de 2018

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

ZACARIA KALASH


Mia Couto, in Jesusalém, Leya, coleção essencial, vol. 3,  2016, p. 158.

domingo, 14 de outubro de 2018

«O GRANDE URSO-PARDO CAMINHA CONNOSCO»


O sagrado refere-se àquilo que nos eleva (não apenas aos seres humanos) dos nossos pequenos eus para o vasto universo mandala de montanhas-e-rios. A inspiração, a exaltação e a compreensão não terminam à porta da igreja. Enquanto templo, a natureza selvagem é apenas um começo. Não devemos insistir na singularidade da experiência extraordinária, nem esperar abandonar o pântano político e entrar num perpétuo estado de compreensão superior. O melhor propósito de tais estudos e caminhadas é podermos regressar às terras baixas e ver toda a paisagem à nossa volta — agrícola, suburbana, urbana — como parte do mesmo território — nunca inteiramente destruída, nem jamais inteiramente desnaturada. A terra pode ser restaurada, e os seres humanos podiam viver dela em números consideráveis. Enquanto caminhamos pelas ruas de uma cidade, o Grande Urso-Pardo caminha connosco, o Salmão sobe connosco o rio.

Gary Snyder, in A Prática da Natureza Selvagem, trad. José Miguel Silva, Antígona, Julho de 2018, p. 127.

DOIS POEMAS DE LUÍS FALCÃO




Ocupei o dia com pequenas tarefas
Para silenciar um pedido uma súplica
Pintei o velho alpendre consertei a cancela do jardim
Libertei o cão para que perseguisse os pássaros pelo bosque
Recusou-se a partir
Persiste onde não existe caminho
Ao meu lado
Esperando que um vento frio
Dispa de folhas todos os ramos.

In Pétalas Negras Ardem Nos Teus Olhos, Assírio & Alvim, Março de 2007, p. 9.

O táxi à espera
acendendo e desligando os faróis
depois das sebes de azevinho
o cão impondo-se num latido
impregnado de queixumes
a mala aberta, o nó da gravata
ainda por fazer
optas pela simetria perfeita
pelo equilíbrio elegante do hanôver
selando
numa indiferença discreta
a tua queda no esquecimento

In Bruma Luminosíssima, Artefacto, Maio de 2016, p. 23.

Luís Falcão (n. 1975 – m. 2015). Com uma estreia auspiciosa em 2007, acabaria por publicar apenas dois conjuntos de poemas. O desaparecimento precoce levou a que o segundo volume fosse já edição póstuma. Poemas curtos, marcados por uma linguagem depuradíssima onde sobressaem certo questionamento existencial e interpelações do sagrado. Os versos abrem janelas para panorâmicas onde as ideias de extinção, abandono, perda, destroço, falha, despedida, ausência, restos, apodrecimento, colocam em diálogo o «corpo arruinado» com um princípio de sagrado a desfazer-se. A antítese no título Bruma Luminosíssima é reveladora dos contrastes nesta poesia onde a consciência de finitude (passagem do tempo, morte) impele a uma ideia de infinito/eternidade («essência sagrada das coisas»). Elementos naturais, mormente a neve, surgem como signos decifráveis de um devir na direcção do silêncio e da obscuridade, mas de onde advêm instantes de clareza e de iluminação.

ESCREVO A NOSSA HISTÓRIA

Para continuar a ler: aqui.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

OBRA ABERTA

Podeis ouvir aqui a edição do programa Obra Aberta, da Rádio Renascença, em que este que vos escreve participou. Aproveito para corrigir um lapso. A obra de Paul Lafargue a que aludo intitula-se O Direito à Preguiça, e não O Elogio da Preguiça

PESSOAS MUITO INTERESSANTES

Na cidade, o pensamento reflectiu uma espécie de competição: o modo de ver poético e mítico, comum nas aldeias, versus a argumentação e reportagem diárias que dominam a vida urbana. No fundo, era uma competição entre economias de subsistência e economias excedentárias — os mercadores centralizados. Assim, os filósofos — os sofistas — ensinavam os jovens abastados a argumentarem eficazmente em público. Fizeram um excelente trabalho. São os mestres fundadores de toda a linhagem intelectual do Ocidente. Noventa por cento de tudo o que os chamados «humanistas» fizeram ao longo da história foi perder tempo com a linguagem: gramática e retórica, e depois filologia. Durante dois mil e quinhentos anos, os humanistas acreditaram não só na Palavra, mas num formato correcto para ela. E se alguns franceses tentam hoje desarticular a Palavra, é porque pertencem a essa mesma tradição e são dominados por igual obsessão. Mas houve pessoas muito interessantes nessa tradição: Hipátia, com o seu paganismo intelectual e matemático, e Petrarca, o primeiro montanhista moderno e primeiro poeta lírico em língua vernácula, para referir apenas dois.

Gary Snyder, in A Prática da Natureza Selvagem, trad. José Miguel Silva, Antígona, Julho de 2018, pp. 103-104.

Nota: refira-e que Hipátia morreu na sequência de um ataque perpetrado por cristãos em fúria, zeladores da palavra do Senhor. Arrastada pelas ruas da cidade, foi violentamente torturada. E o corpo lançado a uma fogueira. 

ESPIÃO NA PRIMEIRA PESSOA


Não sei ao certo quando vi pela primeira vez Paris, Texas (1984), o filme de Wim Wenders. Mas tenho a certeza de que cheguei ao filme através da banda sonora de Ry Cooder. Agora que penso no assunto talvez nunca uma guitarra me tenha aberto portas para tanta coisa boa, entre as quais o primeiro contacto com o nome de Sam Shepard (1943-2017) foi definitivamente uma delas. Argumentista de Paris, Texas, Shepard assinou alguns livros de histórias que entraram directamente para a estante que reservo aos imprescindíveis na minha biblioteca pessoal. Crónicas Americanas (Difel, 2002) é definitivamente um deles.
Julgo que a última vez que me cruzei com o nome de Sam Shepard foi no magnífico western de Andrew Dominik, The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford (2007). Actor, dramaturgo, argumentista, ficcionista, poeta, realizador (são dele Far North, de 1988, e Silent Tongue, de 1993), o autor de Atravessando o Paraíso (Difel, 1997) não quis deixar este mundo sem lhe oferecer um derradeiro testemunho das últimas horas. Espião Na Primeira Pessoa (Quetzal, Agosto de 2018) é isso mesmo. Vítima de Esclerose Lateral Amiotrófica, o autor trabalhou no livro até ao último suspiro. À medida que foi perdendo autonomia, socorreu-se da família e da amiga Patti Smith para finalizar o manuscrito. A edição final aí está, numa belíssima edição com tradução de Salvato Telles de Menezes.
Em capítulos muito curtos, o espião desta narrativa olha para dentro como se olhasse para o outro lado da rua. Vê um homem sentado numa cadeira de baloiço, «limita-se a baloiçar o dia inteiro», e questiona-se sobre quem será esse homem, que fará ele naquela cadeira o dia inteiro. O jogo sugere uma projecção de identidades, podendo aqui a cadeira de baloiço ter exactamente o mesmo efeito que reconhecemos na peça Rockaby (1981), de Samuel Beckett, o efeito hipnótico e repetitivo da passagem do tempo que resta, a caminho de um vazio «Aliás, já estou vazio. Do género de uma concha» (p. 86) , tendendo para a morte de que são símbolo por excelência os corvos, «passarões maus», aludidos logo no final do primeiro capítulo.
A consciência da aproximação da morte é, pois, motivo para uma viagem testemunhal pelos labirintos da memória. O que o espião espia não lhe é exterior, mas sim interior. Ele espia o passado, a memória, a primeira pessoa, ele observa os «Raios X. Imagens fantasmáticas» de um memória urgente, reconstruída em fogachos, oferecida aos que ficam como uma espécie de testamento sobre as origens, sobre o que é possível saber/dizer/revelar acerca das origens. «Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Foi sempre o lugar para se estar. Sei que me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem sempre em partes» (p. 58).
Comoventes manifestações de desamparo, num texto que é todo ele uma comovente manifestação, como que levam a um distanciamento do ser face a si próprio ao mesmo tempo que assistimos a alguém falando de si para si. Projectando-se num outro aparente, o ser como que deixa de se reconhecer. A doença é esse processo a partir do qual o ser deixa de se reconhecer a si mesmo, olha-se e vê outra coisa, algo diferente da ideia que tinha de si, a doença é o ser a perder-se. Como pode ele reencontrar-se? Como pode ele voltar a se reconhecer como quando se via ao espelho?
Partindo em busca de si mesmo nas memórias que retém, nos resquícios de épocas passadas onde perduram lugares, pessoas, sons, a família, moradas, cheiros, o ser afasta-se da sua fragilizada condição existencial e como que recupera parte da autonomia perdida. O paradoxo está em que sendo um exercício de abstracção, este acto de espionagem é altamente físico, material, corporal, pois processa-se no corpo a partir de um acto de resistência à degeneração do corpo. «Tudo está na minha cabeça», diz. Mas é como se dissesse «tudo está no meu corpo». A cadeira de baloiço é também esse lugar estático em movimento que simboliza a relação do ser com a memória, a noção de uma vida confinada a um período temporal.
Espião na Primeira Pessoa é um daqueles livros capazes de nos colocar, com extrema simplicidade, no lugar limite da consciência, não propriamente como um exame mas mais como um exercício derradeiro de compreensão da vida. Do sentido da vida. E desse sentido guardamos nós um horizonte porventura melancólico, mas ao mesmo tempo apaziguador. Afinal pouco mais podemos exigir à vida do que um legado de experiências mais ou menos memoráveis. Que no momento derradeiro, ao olharmos para dentro, não vislumbremos apenas vácuo, é sinal de sucesso. Talvez o maior que possamos almejar. E ainda que a palavra sucesso pouco sentido faça no último texto de Sam Shepard, é ela que ecoa dentro do fracasso óbvio que a morte determina. Como água no meio do deserto.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

HOSTILIDADE E AFECTOS


Pergunta o cínico: é possível admirar ao mesmo tempo Bolsonaro e Marcelo?

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #51



It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine), foi a primeira canção que ouvi dos R.EM.. Faz-me mais sentido hoje do que quando a ouvi pela primeira vez, teria uns 13 ou 14 anos. O tema surgiu no álbum Document (1987), quando ainda se ouvia rádio. E a canção passava na rádio, como também passava, do mesmo álbum, The One I Love.


Oriundos de Athens, no estado norte-americano da Geórgia, os R.E.M. estrearam-se com Murmur (1983). Canções como Radio Free Europe, Pilgrimage, Talk About The Passion, Perfect Circle, deram o mote para uma sonoridade pop-rock com nuances líricas misteriosas e encantadoras. O mega sucesso obtido mais tarde, com os álbuns Out of Time (1991) e Automatic for The People (1992), acabou por de algum modo vulgarizar uma proposta desenvolvida na década anterior com meia dúzia de álbuns. A verdade é esta: só em 1991 lhes prestei a devida atenção, por causa do vídeo de Losing My Religion. Como nada disto é por acaso, refira-se que algumas cenas do vídeo remetem para um filme de Andrei Tarkovsky e para quadros de Caravaggio. Apesar da vulgarização mediática, a banda de Michael Stipe nunca se esgotou nas melodias apelativas que sempre os caracterizaram. Fundindo elementos provenientes da folk tradicional com ritmos pop, recorreram amiúde a arranjos sofisticados posteriormente adoptados por inúmeras bandas. (Don’t Go Back To) Rockville, assinada por Mike Mills, parece uma canção country, já Sitting Still é pura folk rock, Can’t Get There From Here aproxima-se da new wave, mas há também homenagens ao punk , ao rock de garagem, a Patti Smith. A belíssima voz de Michael Stipe oferece aos temas um tom dramático, por vezes melancólico e noutras ocasiões empolgante. Escute-se Finest Worksong, do supracitado Document, como exemplo dessa capacidade de conjugar com ironia um retrato decadente da sociedade e um discurso provocador.  


And I Feel Fine… The Best Of The I.R.S. Years 1982-1987 (2006) compilou em dois CDs quarenta e duas canções dos primeiros tempos, oferecendo uma panorâmica generosa do percurso de uma das mais relevantes bandas de rock alternativo formadas durante a década de 1980. Quem apenas conheça os R.E.M. por causa de Everybody Hurts poderá ter uma bela surpresa ao escutar estas canções, filiadas desde o início numa sensibilidade melódica que nunca se curvou ao facilitismo da cançoneta de salão. Com uma sensibilidade muito própria, mostraram ser possível fazer pop sem sacrificar a dimensão poética de uma canção.


BEM-VINDOS AO SÉC. XXI





domingo, 7 de outubro de 2018

TETRALOGIA DA ASSOMBRAÇÃO



   A palavra assombração sugere-nos, desde logo, um território fantasmagórico, povoado por entidades sobrenaturais e imaginárias. É terreno onde os mitos fertilizam, causando estranheza e deslumbramento, provocando espanto, obrigando a um esforço de decifração que mais não é do que tentativa, tantas vezes gorada, de trazer à luz a realidade própria das sombras. Assombrar pode também assumir esse significado porventura mais literal de tornar sombrio. Nesse caso é verbo, e enquanto tal consiste em obscurecer. Do obscuro nasce o fascínio, já que obscuro é tudo quanto carece de explicação. E nada mais fascina do que aquilo que carece de explicação.
   A poesia de Jaime Rocha (n. 1949) inscreve-se neste território contra tudo quanto é habitual encontrarmos na poesia portuguesa (não só contemporânea), nomeadamente se tivermos em conta os quatro livros que compõem a tetralogia denominada da assombração: Os Que Vão Morrer (Relógio D’Água, Junho de 2000), Zona de Caça (Relógio D’Água, Setembro de 2002), Lacrimatória (Relógio D’Água, Novembro de 2005), Necrophilia (Relógio D’ Água, Março de 2010). São poemas-sequência, compostos geralmente por 50 fragmentos, onde vamos reencontrando diversas personagens e entidades em torno da relação central de um homem com uma mulher: «O homem quase perdeu / o medo, porque o que ele fazia era explicar-lhe / as diversas formas de morrer antes do amor» (Os Que Vão Morrer, p. 17)
   Mais ajuizado seria, porventura, aconselhar a excelente leitura para esta tetralogia proposta por João Barrento no prefácio a Necrophilia, ou sugerir a leitura do ensaio de Joaquim Manuel Magalhães que serviu de prefácio à reedição do livro Do Extermínio (Relógio D’ Água, Novembro de 2003; 1.ª edição, Black Sun Editores, 1995). Nada do que aqui possa dizer-se irá acrescentar o que quer que seja ao que nesses prefácios foi dito, ainda que as pistas de leitura para uma obra ao mesmo tempo tão complexa e fascinante sejam inesgotáveis. Há algo, porém, que liga estes livros e deve ser reforçado enquanto exercício de compreensão das formas possíveis de construção de um poema.
   Jaime Rocha inicia a tetralogia com um conjunto de poemas a que deu o título de visões. Neste sentido, ele legitima a perspectiva demiúrgica do poeta. A visão, neste contexto, não tem um significado meramente técnico, ela remete para o campo das alucinações, das revelações xamânicas, ou seja, remete para um campo extra-sensorial, onírico, profético. A visão pode ser sonho, o que aproximaria esta poesia da aventura surrealista. Sucede que na torrente de imagens justapostas, aglutinadas em cada um dos fragmentos destes livros, essa dimensão surrealista é superada por uma disposição formal que pouco tem que ver com automatismos, tornando-se muito mais provável a sua ligação a uma imagética proveniente de leituras clássicas, fundadoras, originárias, como seja a mitologia de onde o poeta resgata Ártemis e Aqueronte para Zona de Caça, ou Pentesileia e Perséfone para Lacrimatória. Noutras ocasiões, as imagens surgem de dentro de pinturas (ver poema 17 de Zona de Caça), sugerindo uma relação do poema com a pintura que a breve trecho ficará esclarecida.
   Estas visões/assombrações partem da apropriação de figuras fundadoras de um imaginário que o poeta penetra e procura entender, mormente no que possam ter de embrionário esforço de explicação do "grande tema" aqui retratado: o da relação entre o amor e a morte, o da relação entre as forças criadoras e a tendência para a destruição de tudo quanto vive, Eros e Thanatos. Nunca devemos perder de vista os últimos versos do Poema inicial, em Os Que Vão Morrer: «dois homens / matam-se num anfiteatro / e dos seus gritos nascem / as visões do mundo» (p. 8). Da violência do gesto surgem as visões, o mundo que surge é já não apenas o mundo real de coisas vivas tendendo para a morte, mas de coisas ao mesmo tempo vivas e mortas, porque vivem na morte como fantasmas, almas perdidas, espíritos vagueantes.
   Como na Ofélia de John Everett Millais, a modelo que representa a morta não está morta: «Lizzie anda pela humidade com as / veias expostas ao calor» (Lacrimatória, p. 60). A violência a que foi sujeita, passando horas dentro de uma banheira, provocar-lhe-á uma doença que o quadro não revela, pois a natureza dos detalhes favorece apenas a representação de uma cena literária. Desta aproximação ao universo pré-rafaelita colhe a poesia de Jaime Rocha a riqueza de um onirismo medievalista, com figuras típicas tais os cavaleiros arturianos de Edward Burne-Jones, figuras pálidas, andróginas, como o anjo, ou uma paisagem fortemente enraizada no mundo natural que nos permite observar «criaturas / cobertas de musgo» (Os Que Vão Morrer, p. 24), bandos de corvos, cavalos florescendo no meio de árvores, colmeias, javalis, «cães de caça» (Zona de Caça, p. 22), sacrifícios de cordeiros, ilhas, falésias, garças, «pássaros cegos» (Lacrimatória, p. 32), abutres engolindo outros abutres, urtigas, campos de juncos, peixes…
   «Mas o homem ouve uma outra voz, uma voz / que vem da terra como um hino. O céu / abre-se como se uma enxurrada o tivesse / cortado em dois. E todas as outras figuras / do poema saltam desse espaço e se juntam / de novo para cantá-lo, o pedreiro, o cavaleiro, / o guerreiro, o homem da montanha» (Necrophilia, p. 39). E é como se ao longo dos quatro livros todas estas figuras cumprissem um ritual iniciático, talvez de iniciação à morte, talvez de iniciação ao silêncio, ao qual corresponde a sua própria desmaterialização. Tanto a mulher como o homem em torno dos quais a acção se desenrola, numa catadupa de imagens e cortes e cruzamentos difíceis de acompanhar, surgem frequentemente num estado de descorporalização que é talvez a sua principal característica. São fantasmas, daí que provoquem assombrações. Neles, o corpo já não é a prisão que os afasta da verdade. Porque neles o corpo já não é, a sua verdade é uma verdade obscura, sombria, é pura assombração.
   Não será despropositado falar de discurso alegórico a propósito destes poemas. Mas alegoria de quê? Do amor? Da morte? Dos ciclos que confinam a existência? Do real? Repare-se como os quatro títulos nos colocam em relação directa com o problema da morte, sendo o último aquele onde a morte mais se aproxima de uma ideia de amor. Com a Tetralogia da Assombração, Jaime Rocha ofereceu-nos uma paisagem complexa que possibilita a especulação acerca da própria germinação do poema. Deste modo, esta poderá ser uma alegoria da criação. Trata-se de exemplo raro. Raras vezes os poetas portugueses arriscam uma cosmologia própria, singular, preferindo concentrar o discurso na observação do real, na expressão do sentimento, ou na fulguração da linguagem. Nada disso vamos encontrar nestes livros desprovidos de eu, distantes tanto do lirismo como de ornamentações vocabulares, mas cúmplices de um sentido da criação enraizado em fontes que apesar de serem identificáveis não esgotam a singularidade do poema.

A FACE NOJENTA DE UM PAÍS


Uma semana depois de a Der Spiegel ter publicado uma investigação jornalisticamente irrepreensível (talvez muita gente tenha falado sem a ter lido), muitos intelectuais portugueses expuseram à luz do sol a sua cabeça cavernícola, habitualmente disfarçada por uns livros e umas citações, mas muito a fazer pendant com a cabeça do juiz da Relação do Porto autor do famoso acórdão da “sedução mútua”. 
Se Henrique Monteiro, ex-director do Expresso, manifestou que a queixosa, por ter aceitado subir a um quarto de hotel de um homem, “não é nenhuma santa”, Raquel Varela prontamente desqualificou a acusação de Mayorga por ela ser uma “prostituta”, o que não está provado em nenhuma parte do texto da Der Spiegel. Apesar de insistir que “a violação é um crime de enorme gravidade”, o ponto de argumentação de Varela é que Mayorga recebeu dinheiro e que ela, Varela, nunca recebeu dinheiro de “um homem com quem tivesse tido uma relação”: “Jamais andarei lado a lado numa manifestação ao lado destas tipas [sic].”
O problema com este discurso desta professora universitária é a reprodução fidelíssima, de uma forma maquilhada para o século XXI, da tese de que as “mulheres sérias” não podem ser vistas ao lado das prostitutas, sob pena de perderem o seu estatuto social. Se fosse só Raquel Varela a debitar estas alarvidades, estaríamos todos bem. Mas as redes sociais encheram-se nos últimos dias de mulheres (algumas intelectuais, como Teresa Rita Lopes, que refere “os azares de Ronaldo de que os seus advogados hão-de tratar”) a reproduzirem ipsis  verbis o mesmo.


Ana Sá Lopes, aqui.

BOLSONARO E RONALDO



Como dizê-lo? Talvez o problema esteja no tempo. Quero dizer, não no clima, mas na nossa relação com o tempo, isto é, com a forma que damos ao tempo. As "altercações climáticas" também estarão relacionadas com o mesmo problema, mas concentremo-nos nisso do tempo. Imaginemos que estamos na sala de espera de um consultório, pegamos numa revista, pode ser a Maria, e começamos a folheá-la. Fazemo-lo para passar o tempo, para que o tempo passe depressa, para nos mantermos entretidos enquanto a assistente do médico não chama por nós. Acontece que ultimamente, de há uns tempos a esta parte, grande parte da nossa vida é passada a folhear revistas ao acaso, como a Maria ou a Nova Gente, para passar o tempo. Grande parte do tempo de que dispomos é ocupado a folhear revistas, a passar os dedos pelas imagens, a ver fotografias, a ler títulos, letras grossas desprovidas de nutrientes básicos, apenas gordura e mais gordura e mais gordura. 


Não duvido que este modus vivendi seja de algum modo responsável pela ascensão do chamado populismo, que mais não é do que entretenimento para quem passa a vida a folhear revistas no consultório. A guerra passa a ser entre o entretenimento e a ideia de fake news, que mais não é do que um eufemismo para desligar. Sim, desligar. Desligar o pensamento, isto é, aceitar qualquer frase, imagem, notícia como sendo um retrato da realidade, como sendo possível. A guerra já não é entre o verdadeiro e o falso, pois o verdadeiro saiu do mapa. A guerra é mero entretenimento. O que está em causa é termos deixado de parar, termos abdicado do ócio, aquele ócio que levava ao pensamento e do pensamento nos levava à crítica e da crítica à desconfiança. Hoje não desconfiamos de nada porque desconfiamos de tudo, passamos uma grande parte, uma enorme parte, a maior parte do tempo de que disporíamos para pensar a evitar o pensamento, folheando revistas, esfregando os monitores onde a ilusão medra e o falso desafia. Evitamos o pensamento e a reflexão para andarmos entretidos.

Trump é o fenómeno dos fenómenos nesta espécie de novo mundo, Bolsonaro há-de seguir-se.  Qualquer pessoa que o ouça, isto é, qualquer pessoa que pare para o ouvir, facilmente reconhece um burgesso a debitar preconceitos, estereótipos, lugares comuns. O que ele diz é o que dizem muitas pessoas sem a responsabilidade de governar países inteiros. Às pessoas a gente habitua-se a dar desconto, andam pelas caixas de comentários dos weblogs, dos jornais, das revistas, das televisões, dos órgãos de comunicação social, como podiam andar na taberna onde exibem o machismo, o racismo, a xenofobia e, hélas, a ausência de pensamento crítico, isto é, de tempo, porque todo o tempo de que dispõem é ocupado a fintar o pensamento, a distraí-lo, a “espetacularizar” em vez de especular. 

A tal horda de gente vem juntar-se uma outra, supostamente mais esclarecida, com a obrigação de ser mais esclarecida porque, supostamente, teria tempo para pensar. Supostamente. Sucede que essa gente, a que damos o nome de fazedores de opinião ou, como agora se diz noutros contextos, influenciadores, ou simplesmente comentadores, essa gente é de tal forma chamada a perorar sobre tudo e mais alguma coisa que fica sem tempo para pensar os assuntos acerca dos quais se vê na obrigação de opinar. Depois damos no triste espectáculo da realidade, onde o mundo se assemelha a um abrigo de alucinados, quero dizer, a um lugar de alucinados à solta dizendo coisas incompreensíveis, corrijo, coisas compreensíveis à luz dos tais taberneiros que por não terem tempo para pensar sempre têm alguma desculpa. 

Exemplo: como desculpar essa gente que perante o actual caso Ronaldo se mete a sentenciar com argumentos que a gente julgava perdidos numa qualquer lixeira medieval? Tipo: pôs-se a jeito (o que, já de si, aceita a tese da violação, desprezando-a por ter a vítima estimulado o crime); ou: é puta (como se por alguém ter a mais velha profissão do mundo devesse estar disponível para todo o tipo de atentados, o que, aliás, seria uma forma de justificar a tortura). Talvez devêssemos começar por fazer notar que Ronaldo é um jovem jogador de futebol que ganha muito dinheiro, que o dinheiro por vezes sobe às cabeças, que nem sempre as duas cabeças de um homem estão devidamente equilibradas. Ou talvez nem seja necessário penetrarmos esses territórios dúbios da psicanálise, mandando alguma, apenas um poucochinho de prudência que concedamos à queixosa o benefício da dúvida como ao acusado a presunção de inocência. Isto de não resistirmos a colocar-nos logo de um lado é um pouco como a conversa supra acerca do equilíbrio entre cabeças. 

Em suma, não vos admireis que Bolsonaro, o tal que defende a tortura, exibe tiques racistas, fala de estupro como quem fala de direitos, acha que a homossexualidade se cura à reguada, julga que as mulheres provêm de espermatozóides débeis, é favorável à pena de morte e etc, etc, etc, não vos admireis que esse indivíduo chegue a presidente do Brasil. Não estais lembrados do triste espectáculo que foi o processo de impeachment de Dilma Rousseff? Julgais improvável que um burgesso chegue ao poder naquele país? Então andais a desperdiçar demasiado tempo folheando revistas. Quando à nossa volta é tudo espectáculo mediático, quando as regras desse espectáculo são a urgência da opinião, o tempo para reflectir foi-se. E quando o tempo para reflectir se foi, tudo é possível. Até um homem ser acusado de violar uma mulher e haver mulheres que o desculpem porque a violada quis deitar-se com o homem numa cama. Trump e Bolsonaro não são, pois, a origem do mal, são a consequência de um mal que é anterior a eles. E esse mal é simples de identificar quando ligamos televisões, percorremos o feed de notícias, lemos os mais populares fazedores de opinião.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

APENAS UM EXERCÍCIO


Em grande, o amigo Manuel. Agora discutam o assunto nas aulas.

PERMITIR A ENTRADA DO SAGRADO

A ignara manipulação dos poderes da vida e da morte por parte do cientista-engenheiro-governante ocidental, em vez de tornar o mundo mais seguro para a humanidade, deixou o planeta inteiro à beira da degradação. A maior parte da humanidade — recolectores, camponeses ou artesãos — sempre tomou a outra rota. Significa isto que eles compreendiam o desempenho do mundo real, com todo o seu sofrimento, não nos termos básicos de uma «natureza de dentes e garras ensanguentadas», mas nos de uma celebração do que há de troca de presentes no nosso dar-e-receber. «Como é grande o potlatch de que todos somos membros!» Reconhecer que cada um de nós à mesa fará mais tarde parte da refeição não é apenas ser «realista». É permitir a entrada do sagrado e aceitar o aspecto sacramental do nosso frágil e transitório ser pessoal.

Gary Snyder, in A Prática da Natureza Selvagem, trad. José Miguel Silva, Antígona, Julho de 2018, pp. 30-31.

INTERVALO DOLOROSO



Gazeta das Caldas, n.º 5245, sexta-feira, 28 de Setembro de 2018.

(também aqui)

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO DE DEUS


Como não raramente acontece com os melhores, o cineasta João César Monteiro (1939-2003) há-de ficar na memória colectiva dos portugueses pelas razões mais caricatas. Aquele tipo que fez um filme sem imagens e, em dia de estreia, respondeu a uma jornalista que o abordava: “eu quero que o público português se foda”; esse tipo era João César Monteiro, autor de uma trilogia que ofereceu ao cinema português a mais singular das suas personagens. João de Deus começou por aparecer em Recordações da Casa Amarela (1989), anti-herói de uma Lisboa melancólica com suas gentes a fazerem pela vidinha. Solitário, (des)enrascado, metido em estratagemas de duvidosa índole moral, depravado com a tara de coleccionador de pentelhos. O facto de o próprio João César Monteiro interpretar este João de Deus confere à personagem a dimensão de alter-ego, leitura alternativa a uma talvez mais metafísica hipótese de ser João de Deus o filho do criador que na terra se entrega às coisas do Diabo. Espécie de Fausto, portanto, este João de Deus reaparecido em A Comédia de Deus (1995) e As Bodas de Deus (1999).
O escritor António Cabrita (1959), cuja relação com o cinema vem de há muito, nomeadamente enquanto crítico, resolveu ressuscitar João de Deus com propósitos previamente declarados: «treino para afeiçoar a mão ao fôlego do romance» (p. 8). Tomara a muitos tais treinos. A Paixão Segundo João de Deus (Exclamação, Maio de 2018) propõe-se enquanto «biografia paródica», falhando como biografia mas capitalizando enquanto paródia. Talvez fizesse por isso mais sentido falar de paródia biográfica de uma personagem de ficção, da qual resulta uma novela de contornos picarescos em tom de divertimento, repleta de aventuras improváveis e de situações bufonas. O tom de sátira não interessa tanto aqui como interessará o de aventura da imaginação, polvilhada de um sentido de humor tão capaz de pôr duas personagens a fazer sexo na lua como de sugerir tendências necrófilas e sessões de sexo anal em homenagem ao «mais sublime ladrão das letras universais» (p. 57): «Ah Genet do catano, o res-pei-tin-ho com… com… que te es-tou…» (p. 58)
Cabrita transforma João de Deus num libertino on the road, exagerando traços como é apanágio do caricaturista. Começa por dizer que o encontrou a tocar realejo e a recitar a Tabacaria numa rua de Lisboa, que daí partiu para uma entrevista de que resultaram 7 capítulos com João de Deus a falar na primeira pessoa. Artista que cita Steiner e Cesariny, frequenta salas de cinema, anda com os Diários Secretos de Wittgenstein debaixo do braço, declama Almeida Garrett, é expulso de uma sessão de ballet na Gulbenkian, convocado a identificar um morto do qual acaba por roubar um pentelho, mete-se num peep show e persegue uma prostituta… Isto nos idos de 1975, 1976, com ambientes que não serão estranhos a certa literatura portuguesa que fixou os retratos lisboetas desses dias. 
Sucede que António Cabrita desloca a personagem da Lisboa onde mais facilmente a reconhecemos, leva-a em fuga para a Suíça, onde terá as suas origens franco-húngaras, coloca-a em Madrid numa entrevista falhada com John Wayne, senta-o à mesa de sessões espíritas, mete-o à conversa com Victor Hugo, no encalço de Hugo Claus e Sylvia Kristel, a actriz de Emmanuelle (imagine-se para quê), passa por Amesterdão, e de filosofia é isto: «Eu enterro o verbo amar no vaso dos orégãos…» (p. 56) Ou isto: «Fodei sem temor, entregai-vos ao mal, que o bem só deve ser usado em medidas homeopáticas…» (p. 80) Ou ainda isto, mais à frente: «O que faço eu aqui? Ou porque estou aqui? Vai um burrié? Nada disso interessa: a vida é uma piada que não gosta das rugas que tem, não gosta de oxidar. E só por isso inventamos a memória» (p. 91).
Tânger, por causa de Paul Bowles, será a próxima paragem. E pelas arábias andará o alucinado João de Deus, metido em aventuras que não lembrariam ao Diabo. Lembraram a António Cabrita, que não tem peias na desbunda e se deixa perder por completo nos desvarios da imaginação. O que ele nunca perde, porque disso está seguro, é a mão de prosador, aqui com uma vertente humorística a fazer justiça à personagem, acompanhando o seu carácter imoral, o frenesim libertino, a libertinagem de um ser que a gente dificilmente imaginaria fora de Lisboa, mas Cabrita coloca nas arábias no papel de um Ali Babá que salva do harém seis raparigas cegas. Inesperado feito moralizante num tipo absolutamente amoral. Se em ficção tudo é permitido, então Cabrita levou-o à letra nesta novela. De umas boas gargalhadas aqui e acolá não se livrará por certo quem o leia

terça-feira, 2 de outubro de 2018

F(O)LIO, 02 DE OUTUBRO DE 2018




Hoje, na gravação do programa Obra Aberta, a falar sobre livros como gosto de falar sobre livros. Julgo que irá para o ar no próximo Domingo. Darei conta. Grato ao fotógrafo, pelo naturalismo dos registos.