Para o Jorge Aguiar Oliveira
Obrigaram-me a ver a morte ainda antes de ter nascido.
Nada que se compare a pendurar uma casa inteira ao pescoço de um homem. Chegou
a ser cómico, ver-me arroxeado como um peixe em sufoco, a agonizar entre as
pernas de uma mãe que convocava os deuses em cada grito para que lhe salvassem
o menino. Nada que se compare a esse homem transformado em candeeiro decorativo
de um negrume a emitir raios de breu. Chegou a ser cómico darem por morto o
nado, pedirem-me que respirasse, que chorasse, que dissesse qualquer coisa numa
língua pura, inata, sem conceitos nem palavras, somente sons, a harmonia do
desespero, a melodia do gozo, expressão de corpo enrugado, deformado, belo
corpo deformado.
Chegou a ser cómico. Depois chorei e do choro surdiu a
tragédia como do jarro de Pandora surgiram todos os males do mundo. Terá alguém
percebido que os males do mundo são substâncias libertadas pelo primeiro choro?
Se queres atacar os males do mundo, ataca-os ao primeiro choro. Que jamais do
choro nasça o uivo. Chega a ser trágico, assistirmos à extinção das matilhas
enquanto crescem as ruas da cidade e nelas cães indefesos procuram o lixo que
mais lhes convém. Parecem não ter ascendência, esses fiéis exemplares da
servidão. Vivem como morrem à nascença. Nada que se compare a uma casa
pendurada ao pescoço de um homem.
Li algures que os zombies antigos não
registavam os filhos, quando alguém nascia perguntavam apenas: tem pulmão? Pobres
criaturas, antes que a luz caia sobre nós avivando o choro é bom que nos
convençamos do medo em que se arrastam. Nada que se compare com anjos caídos,
querubins de voo rasante, poetas entretidos com palavras vãs.
Desta casa onde
talvez o amor nunca tenha verdadeiramente rimado, podeis julgar cómica ou
trágica a sombra irradiante. O bolor disseminado pelas paredes é como solidão
na pele, materializa-se em pequenas manchas que dão prova do tempo ter passado,
do sangue se ter estragado. E a criança que outrora nasceu morta pode agora
viver com uma casa pendurada ao pescoço, rindo de tudo como um uivo ecoando
para dentro lamentáveis adiamentos. Podeis dizer, pegando em bons exemplos, que
o precipício é o melhor horizonte para um mergulho, fazendo do abismo a rede
mais segura do acrobata desprevenido. Podeis andar como o funâmbulo a vida
inteira, podeis até aproveitar a corda para outros serviços, que nada,
absolutamente nada poderá dissuadir a vida de se cumprir na morte e a morte de
se cumprir na vida.
Portanto, mais vale trazeres o mundo pela mão como pela mão
traz a criança um balão roxo, que chega a ser cómico, que chega a ser trágico,
que chega a ser tragicómico pensar que era precisamente essa a cor do mundo à
nascença.
Imagem ao alto: Jorge Aguiar Oliveira.
Imagem ao alto: Jorge Aguiar Oliveira.









