quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

RENÉ CREVEL


Para o Jorge Aguiar Oliveira

   Obrigaram-me a ver a morte ainda antes de ter nascido. Nada que se compare a pendurar uma casa inteira ao pescoço de um homem. Chegou a ser cómico, ver-me arroxeado como um peixe em sufoco, a agonizar entre as pernas de uma mãe que convocava os deuses em cada grito para que lhe salvassem o menino. Nada que se compare a esse homem transformado em candeeiro decorativo de um negrume a emitir raios de breu. Chegou a ser cómico darem por morto o nado, pedirem-me que respirasse, que chorasse, que dissesse qualquer coisa numa língua pura, inata, sem conceitos nem palavras, somente sons, a harmonia do desespero, a melodia do gozo, expressão de corpo enrugado, deformado, belo corpo deformado. 
   Chegou a ser cómico. Depois chorei e do choro surdiu a tragédia como do jarro de Pandora surgiram todos os males do mundo. Terá alguém percebido que os males do mundo são substâncias libertadas pelo primeiro choro? Se queres atacar os males do mundo, ataca-os ao primeiro choro. Que jamais do choro nasça o uivo. Chega a ser trágico, assistirmos à extinção das matilhas enquanto crescem as ruas da cidade e nelas cães indefesos procuram o lixo que mais lhes convém. Parecem não ter ascendência, esses fiéis exemplares da servidão. Vivem como morrem à nascença. Nada que se compare a uma casa pendurada ao pescoço de um homem. 
   Li algures que os zombies antigos não registavam os filhos, quando alguém nascia perguntavam apenas: tem pulmão? Pobres criaturas, antes que a luz caia sobre nós avivando o choro é bom que nos convençamos do medo em que se arrastam. Nada que se compare com anjos caídos, querubins de voo rasante, poetas entretidos com palavras vãs.
   Desta casa onde talvez o amor nunca tenha verdadeiramente rimado, podeis julgar cómica ou trágica a sombra irradiante. O bolor disseminado pelas paredes é como solidão na pele, materializa-se em pequenas manchas que dão prova do tempo ter passado, do sangue se ter estragado. E a criança que outrora nasceu morta pode agora viver com uma casa pendurada ao pescoço, rindo de tudo como um uivo ecoando para dentro lamentáveis adiamentos. Podeis dizer, pegando em bons exemplos, que o precipício é o melhor horizonte para um mergulho, fazendo do abismo a rede mais segura do acrobata desprevenido. Podeis andar como o funâmbulo a vida inteira, podeis até aproveitar a corda para outros serviços, que nada, absolutamente nada poderá dissuadir a vida de se cumprir na morte e a morte de se cumprir na vida. 
   Portanto, mais vale trazeres o mundo pela mão como pela mão traz a criança um balão roxo, que chega a ser cómico, que chega a ser trágico, que chega a ser tragicómico pensar que era precisamente essa a cor do mundo à nascença.


Imagem ao alto: Jorge Aguiar Oliveira.

TELEGRAMA PARA D. JOÃO V


Eis, real senhor, Amérika;
Refúgio e amparo dos desesperados de europa,
Igreja dos inconfessos, santo e senha dos homicidas,
Capa e coberta dos jogadores,
Azáfama geral das mulheres livres,
Engano universal de todos e remédio particular de alguns;
Aqui maramos onde amarámos
Com âncoras, amarras e ânsias
Doutras enseadas, excelente rei;
Aqui maramos onde amáramos,
Aqui somos: bandeirantes, bandoleiros,
Moradores, mestiços, missionários;
Com a língua, os olhos, o medo, amargos,
Soletramos a selva, a seiva, a cachaça,
Os gritos dos animais, os seus tactos,
A anaconda, a onça, a boa, a barracuda, a tarântula,
Aqui soletramos Maranhão, Minas, Manaus,
Aqui mergulhamos o mar no ânus,
Aqui mergulhamos em vorazes rios de piranhas, mosquitos e suor,
Excelente rei, esta é Amérika;
Aqui maramos onde filtramos
Um pouco de metal, um niagara de sangue, cemitérios de Ameríndios,
Pobres escravos reduzidos;
Aqui onde maramos, praticamos o irremediável ofício de Caronte
Somos apenas aqui seus fuzis pragmáticos, remos de suas barcas,
Aqui maramos onde exercemos todo o duro, brutal e curto
Ofício da imperiosa Europa;
Aqui picamos as baronas dos impérios, excelente rei.
Aqui somos apenas vossos criados, ó hipocondríacos imperadores,
No entanto aqui lavramos o vosso testamento de ferro e sangue:
Por essa geografia de tronos passará um trovão de Átila,
Florescerá na Europa uma fauna de guilhotinas,
Palcos de catafalcos, todo o espectáculo do poder destituído
E, depois, Napoleão varrerá as vossas guerras de Hollywood,
A urina pestilenta da casta militar
               (Gigantescas bastilhas nos arquivos,
               Cigarros americanos no Século XX)
Voltareis, talvez, mas já não sereis vós
E tu, real senhor,
Os teus descendentes comerão os ratos dos esgotos,
Excelente rei;
Não construíste as pirâmides;
Não cozinhaste a comida das legiões de César
Não varreste os corredores dos partidos;
Não escreveste Espinosa;
Não pensaste Aristóteles nem sequer Maquiavel;
Não foste três vezes santo, três mil vezes sábio;
Foste apenas o senhor destes criados burlões, egoístas, ladros; gangsters sequiosos.


Manuel Resende (n. 1948), in Natureza Morta Com Desodorizante (1983). «Se algo define a poesia de Manuel Resende é a forma como não evita as solicitações da História, que tende, aliás, a grafar com maiúscula, num gesto que se foi tornando raro no panorama da poesia portuguesa recente. (...) O que permite que esta poesia da História não ceda ao elenco de boas intenções da poesia política é uma série de práticas herdadas quer da tradição moderna, quer da alta tradição literária que se manifesta em Resende quando menos se espera. (...) Numa linha paralela a esta poderia ainda referir-se a forma como a poesia de Manuel Resende acusa, nos momentos em que se entusiasma com a desarticulação morfológica e fonológica da palavra, ou com a produção de efeitos de paronomásia lúdica, o impacto de formas de experimentalismo literário próximos, no limite, da poesia concreta. (...) Em todo o caso, é claro que em Resende a vanguarda é um princípio de perturbação não apenas do artístico mas sobretudo da vida enquanto quotidiano (...)» (Osvaldo M. Silvestre, in A R(e)alidade e as Cerejas, posfácio a Poesia Reunida, Cotovia, Abril de 2018). Fotografia de Marcos Borga, respigada aqui.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #3


Já vos tendo falado dos discursos de Tuiavii, a que atempadamente pretendo regressar. Quero agora prevenir-vos contra a arte do discurso. Tende a máxima cautela perante compilações tais como “121 Discursos Que Mudaram o Mundo”, “50 Grandes Discursos da História”, “Grandes Discursos da História” e outros que tais. Nessas obras puramente retóricas podeis dar conta de como de palavras está o Inferno cheio, tomando-se aqui a Terra em que vivemos pelas caldeiras de Mefistófeles. Se no discurso vigora a arte de persuadir, nos ouvidos do auditório é bom que vigore a arte de resistir. Cânticos de sereia é o que não falta por onde quer que andemos, no mar ou em terra. E há delas, as mais perigosas, que vestem batina. 
Entre os discursos que vos aconselho está o “Discurso Sobre o Filho-da-Puta”, saído da pena inspirada de Alberto Pimenta (n. 1937). Este homo sapiens que nos idos de 1977 se enjaulou no Palácio dos Chimpanzés, em pleno Zoológico de Lisboa, é dos poucos entre nós que vale a pena escutar sem filtros. Desse gesto performativo retiramos, aliás, sinal daquele cibo de inteligência que leva a considerar o homem o derradeiro estádio na longa evolução dos símios (a qual pode ser entendia no sentido inverso ao comummente e cientificamente propagado). No “Discurso Sobre o Filho-da-Puta” esse sinal agrava-se, quer pela acutilância do pensamento, quer pela pertinência do diagnóstico:

É longa, muito longa, a lista do que pode fazer um filho-da-puta especializado em fazer: desde normas e adendas e emendas de formas, até decretos oblíquos e rectos, e despachos discretos, não há nada, não há praticamente nada que um filho-da-puta especializado em fazer não possa fazer. Em toda a parte, um filho-da-puta especialuizado em fazer encontra ocasião de fazer o que deseja fazer. Desde legislação geral sobre a vida, e respectivos despachos normativos, até à gestão de eventuais e efectivos, passando pela criação e fomento dos «temas voltados para a formação específica e complementar de técnicos vocacionados para a área em questão», ou seja, por manobras de diversão e investimentos complementares, não há nada que o filho-da-puta exclua do seu método de «sensibilização».

   Esta é uma obra preventiva que ajuda a gerar e reforçar resistências contra aquilo a que certo poeta chamou de “burrocracia”, neologismo do nosso tempo que atribui ao comportamento predilecto dos chatos o qualificativo que melhor lhe convém. Ao longo das vossas vidas, poucas personalidades ides encontrar mais perigosas do que aquelas com tomates de burro atacados por chatos. Portanto, preveni-vos. Há deles aos pontapés no nosso país. Agradecei à tia Manuela este exemplar que vos lego. Foi-lhe gamado com muito carinho.

"O HUMANO É O SONHO DE UMA SOMBRA"

PARA ARISTÓMENES DE EGINA, VENCEDOR NA LUTA
446 a.C.

(...)

Quando a alguém cabe em sorte um novo feito esplendoroso,
ele voa para lá da esperança, nas asas da virilidade; a ambição
é mais alta do que a riqueza. Se em pouco tempo cresce a
alegria nos humanos, também em pouco tempo cresce o que
os faz cair por terra, já abatidos pelo derrubar da expectativa.

Tu que existes exposto ao que os dias te trazem, o que é ser
Alguém? O que é não ser Ninguém? O humano é o sonho de
uma sombra.

(...)


Nota: (...) O enunciado de Píndaro substantiva a sombra. Dá-lhe uma existência independente, autónoma. A força metafórica do fenómeno da sombra está investida de um sentido contrário ao comum. O plano supostamente degradado do ponto de vista ontológico é elevado a uma dignidade absoluta. A sombra é uma duplicação que remete para o seu original. Mas nesta operação, detectamos três factores de produção de sombras. Uma fonte de luz, uma sombra e um original interposto entre aqueles dois. A sombra está projectada sobre um plano. O original interfere na irradiação luminosa. A sombra está distante da fonte de luz e contudo sob sua dependência. Este envolvimento de dependência está por sua vez fundado num outro, fenomenalmente mais complexo. O da simultaneidade. A superfície onde a sombra se encontra exposta, a própria sombra, o original e a fonte de luz podem estar afastados, até mesmo muito, no espaço. Mas estão absolutamente sincronizados. Dão-se ao mesmo tempo. De tal sorte que se um desses factores for inibido, se a sincronização for anulada, deixa de haver sombra. Na enunciação de Píndaro, a sombra não é projectada, ela tem uma existência independente. Corresponde ao que para nós é um projéctil e uma fonte de luz. A importância dos factores altera-se. A sombra lança luz. (...)

António de Castro Caeiro, in Píndaro - Odes Píticas, trad. e notas de António de Castro Caeiro, Prime Books, Lisboa, Março de 2006, pp. 107-117.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

SOBRIEDADE E ESPALHAFATO


Referi-me anteriormente a Michael Finkel a propósito do livro “Fora do Mundo” (Elsinore, Maio de 2017), trabalho de pendor jornalístico em torno da misteriosa figura de Christopher Knight (27 anos completamente isolado e incomunicável, por vontade própria). Soube recentemente que a vida de Finkel deu um filme. Jonah Hill é o actor que reencarna o ex-jornalista do The New York Times, despedido depois de se descobrir que forjou a identidade do protagonista de uma das suas reportagens a partir de múltiplas entrevistas a diversas fontes. O tema era a escravatura na África contemporânea, e colocava em causa o papel de várias ONG no terreno. Desacreditado enquanto jornalista, Finkel reencontrou-se como escritor. É o episódio deste reencontro que o realizador Rupert Goold (n. 1972) procura recriar em True Story (2015). Parece mentira, mas no exacto momento em que Finkel andava pelas ruas da amargura chegam-lhe ecos de uma história que ele acabará por transformar em livro. Algures no Oregon, um tipo acusado de assassinar toda a família (mulher e três filhos menores) fizera-se passar pelo jornalista Michael Finkel enquanto fugitivo. Finkel, o próprio, visita Christian Longo (interpretado por James Franco), o recluso, na prisão, ansioso por perceber por que tinha sido escolhido como disfarce de um suposto criminoso. True Story recria com agradável sobriedade o relacionamento entre Michael Finkel e Christian Longo, levantando questões intrincadas acerca do problema da identidade e, acima de tudo, do valor da verdade enquanto matéria jornalística e farol existencial. Num jogo de procura e descobre, o ex-jornalista propõe-se escrever a verdade de Longo em livro. Mas será possível chegar a essa verdade? Estará Longo disposto a revelá-la? Não passará toda a história que diz ter para contar de um ardil para usar em sua defesa no tribunal? Estará Finkel, ex-jornalista acusado de manipular a verdade, a ser usado por Longo? A “true story” prometida por Longo a Finkel terá na sua origem outros motivos que não uma confissão autêntica dos factos? Das entrevistas, acabou por resultar o livro “True Story: Murder, Memoir, Mea Culpa” (2005). Sem nunca perder a sobriedade, Rupert Goold consegue manter-nos em tensão do princípio ao fim. Bom filme.

Nos antípodas, o western  In a Valley of Violence/Terra Violenta (2016), de Ti West (n. 1980). Algo que se lamenta, desde logo, olhando para o elenco: Ethan Hawke no papel de Paul e John Travolta como Marshal. Outra presença marcante é a de Burn Gorman, padre alcoólico, vagabundeando de cidade em cidade, tentando espalhar a palavra de Deus junto de almas vendidas ao Diabo. Ele próprio mais parece agente do Diabo do que um servo de Deus. Desencontrado entre o estilo spaghetti e o misticismo de alguns westerns históricos, In a Valley of Violence nunca chega a encontrar-se. É um filme sem personalidade, manta de retalhos com citações desconexas e pouco inspirado na conjugação das fontes. Paul é um ex-soldado em busca de paz e sossego na direcção do México. Segue na companhia de uma cadela (sem dúvida um dos melhores desempenhos é o da cadela Jumpy) até tropeçar com um bando de gente tonta numa cidade que mais parece o Inferno. Em Denton mandam um Marshal que nunca chegamos a saber se é bruto dos queixos ou simplesmente mais esperto que a cambada de idiotas que o rodeia, entre os quais se destaca o filho de nome Gilly. Quando passa pela cidade, Paul só quer beber água, alimentar os animais, tomar um banho. Mas na sequência de uma provocação, acaba por se envolver com o impetuoso Gilly. A partir daqui começa a sua ligação à cidade, a qual terminará com uma batalha sangrenta de um solitário contra todos. Ou nem por isso. A violência e as deixas humorísticas dos diálogos, acompanhados de uma banda sonora a preceito, colam o filme aos tiques narrativos que Tarantino recuperou em Django Unchained (2012). Mas Ti West está longe de ser Quentin Tarantino, o que se nota, desde logo, na indecisão manifesta entre esse registo e um tom místico na personagem atormentada pelo passado de Ethan Hawke. O passado de violência, os traumas de guerra, o abandono da família perseguem-no como a sombra, são uma densa camada de pó que carrega sobre os ombros e da qual nunca se liberta. Bem que tenta tomar banho, mas dura-lhe pouco a limpeza. Ora, a personagem atormentada de Ethan Hawke não liga com os tiques anedóticos e caricaturais das restantes personagens. Portanto, não chegamos bem a saber quem está mal e onde. O que é certo é que tudo parece desconexo, mero entretenimento sem substância.

domingo, 13 de janeiro de 2019

CRUZES


Entre os mais enigmáticos livros de poesia portuguesa publicados em 2018 conta-se Cruzes (Alambique, Outubro de 2018), de Ricardo Tiago Moura (n. 1978), autor acerca do qual tudo quanto sei me é informado por Enfermaria 6: «Publicou os livros Um gato para dois (Hariemuj, 2013), Epístolas a D. (não edições, 2013), Espaço aéreo (Arqueria, 2014 - Brasil) e pequena indústria (Tea for One, 2016). Tem publicado dispersamente poemas em revistas e antologias. Dedica-se também à colagem. Vive em Køge, Dinamarca.» Do último dos livros mencionados, o qual me revelou uma voz incomum, partilhei aqui um poema. O título do livro mais recente faz uso de uma palavra com forte carga simbólica. A cruz ocupa lugar especial na tradição judaica e cristã, que é a nossa, simbolizando o filho de Deus na Terra. Neste sentido, a cruz é Verbo, sinal de intersecção dentre Céu e Terra, símbolo da intermediação que reúne espaço e tempo. Ao lermos os poemas de Ricardo Tiago Moura estas questões não se colocam senão de um ponto de vista pretensioso, carente de sentido, empenhado em encontrar significação para os espaços vazios deixados por uma linguagem fortemente elíptica. Os poemas são mínimos, tendem para o nulo, para o vazio, para o branco: «página a página / escrever branco» (p. 39). No entanto, deixam-nos intrigados. 
   Ao nível da linguagem, é evidente a opção pelos verbos e pelos substantivos, em detrimento dos adjectivos. Estes são raríssimos. O uso gráfico recorrente dos dois pontos suspende a voz, anuncia inflexões discursivas, desloca-nos para momentos de anunciação que remetem o poema para um lugar de definição indefinida. Estas definições não são claras, como que nos introduzem através de fragmentos num universo com as suas personagens particulares (artista, colaboradores, homem-palhaço, mãe, velho, dona-de-casa, ladrão, rapaz, idosa, vizinhas, fantasma…) em situações descritas com parcimónia, gestos simples que o poema esculpe até ao detalhe: «velho zurzindo / junto dos vasos / promete juntar / paus desavindos / sabe esperar / botões inteiros // não regar / a tempo / cada canteiro: // cavar fundo / todos os dias:» (p. 11). 
   Aparentemente ausentes, as emoções parecem ter sido expurgadas dos versos com intuito preciso: demarcar o campo de uma paisagem onde a intimidade do sujeito se cruza com o outro que lhe é exterior, mas com o qual está em relação. Este carácter fenomenológico dos poemas não deixa de transparecer a condição existencial do sujeito através do emprego de termos tais como solidão e medo. A rasura, radicalmente exposta em versos riscados (páginas 26, 28, 30, 36), é aqui um tratamento de expurgação tal como a poda o é para a jardinagem, resultando por vezes a prática em exercícios líricos bastante sedutores: «escolher um homem / dobrar em quatro / rasgar em oito: / guardar» (p. 33). Outro exemplo, desta feita enviando-nos para algo mais próximo do haiku japonês: «lavar janelas: / limpar o sol / pelo lado / de dentro» (p. 34). 
   Mas a poesia de Ricardo Tiago Moura não está especialmente interessada em cativar o leitor pela beleza das imagens suscitadas, ela antes cativa pelo seu poder sugestivo, pelo modo como ao ser assinada de cruz deixa o leitor perante a indefinição da identidade, pela capacidade que denota de através de intersecções subtis nos colocar no centro de um universo particular. Esta política do mínimo, pautada por silêncios bem ilustrados pelo dístico final «pequena política: / dizer: não dizer» (p. 40) , adensa a curiosidade, coloca-nos num espaço de silêncio que contrasta com a tagarelice e a verborreia tão comuns em grande parte da poesia actualmente publicada. Quando o poema se alonga abre-se a porta ao jogo de reflexos, luz e sombra, espaço e tempo, primeira e segunda pessoas aparecem num cruzamento de modos que traduz a natureza desse símbolo máximo da transversalidade, ou seja, do ser que entronca noutro ser, do encontro do diverso, da revelação do dual que existe no uno. E tudo parece existir em função apenas dos dois últimos versos, como as raízes em função da copa:  

no princípio do rio
que nos é mais próprio
pouco se sabe do caudal:
o tempo corre pela margem
o tempo todo:                            superfície-plasma
                                                  água-de-ecrã
no princípio do rio
duas sombras sabem
serem a mesma                        não-sombra ou não-imagem
no princípio
que nos é mais próprio
estamos eu / tu                           de perfil estudado:
               e a nossa sombra        ou a nossa ausência
somos eu / sombra
propriedades do solo
se assim o soubermos:

               sombra que faz o sol
               no princípio do rio:
                                                        duas sombras
                                                        acreditam melhor

sábado, 12 de janeiro de 2019

UM POEMA DE EDGAR BAYLEY


UM HOMEM TREPA PELAS PAREDES E SOBE AO CÉU

Suspenso por um cabo
o homem que escala as paredes
tem botas resistentes com pitons
Escala as paredes
porque se esqueceu das chaves de casa
e enquanto escala as paredes
até chegar ao piso treze
pára por instantes
nas varandas de cada piso
onde inspira o aroma dos gerânios
das madressilvas
das hortênsias
das sardinheiras
Há sol
galhardetes
vendedores ambulantes
e mais além está o rio
e mais além as pontes
por onde se vai aos pampas
Em baixo estão os meninos
que saem das escolas
e pelo céu passam aviões e pássaros
e chapéus de abas largas
que o vento roubou aos desprevenidos
O cabo foi atado à viga
que sobressai no telhado
Um homem atou-o à cintura
e sobe agarrado ao cabo
com as mãos enluvadas
Usa um colete floreado e um boné aos quadrados
Deve chegar ao piso treze
onde tem de regar uns cravos
pisar milho
escrever umas cartas
e preparar um guisado
Sobe lentamente
e em cada piso pára um pouco para descansar
Entra na varanda de cada piso
e senta-se num cadeirão
ou estende-se numa espreguiçadeira
e conversa com a vizinha ou os vizinhos
e aceita um café ou um chimarrão
ou deixa cair um jorro de um odre de vinho
na sua garganta
ou joga às cartas
ou escuta confidências e dá conselhos
e conta algum episódio da sua vida
até que se despede com uma saudação
e continua a trepar pelas paredes
suspenso por um cabo
É o homem tem botas resistentes com pitons
o homem que escala paredes
e um colete floreado e um boné aos quadrados
que se esqueceu das chaves de casa
e inspira o aroma dos gerânios
e deve chegar ao piso treze
antes que apareçam as corujas
e se iluminem as janelas
Os pássaros e o rio estão longe
e a relva do parque
e os cavalos que galopam pela planície
e esta cadeira decomposta
e a banheira
sem uso
cheia de terra e de flores
e o mar e o navio que se aproxima
e a lagartixa que desaparece entre as rochas
e o vendedor de diários que lá de baixo
grita conselhos e advertências
enquanto o homem voa
ascende
conquista com esforço cada piso
e olha sempre para cima
a terra está longe
o céu está longe
O homem que trepa pelas paredes
suspenso num cabo
quando entra numa casa pela varanda
é bem recebido pelos vizinhos
e trata de lhes ser útil
mas num dos pisos
uma mulher inesperada
que é apenas uma
e ao mesmo tempo
todas as mulheres da sua vida
pede-lhe que a leve com ele
Então também ela se ata ao cabo
e sobe com o homem
para lá do piso treze
até às nuvens
ao ar livre
ao céu
ao vento
entre os gerânios
as sombrinhas as espreguiçadeiras
sobre pontes e quiosques
e mastros
e videiras
e algumas gotas
e sementes
e sonhos
com seu boné aos quadrados
com seu colete floreado
com o seu amor de sempre


Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, pp. 127-130. Versão de HMBF. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

AO OUVIDO DO DIABO


Do pacto entre Dr. Fausto e Mefistófeles herdámos uma paixão cega, consumada pela criação de ferramentas que prometendo o caminho dos céus vêm transformando a terra num Inferno. Se a Revolução Industrial modernizou as técnicas de servidão, transformando a paisagem das cidades em acumulações de lixo produzido para satisfação da avidez consumista, a Revolução Tecnológica permitiu transpor fronteiras espaciais, acelerar os ritmos, estendendo pelo mundo inteiro o tapete imundo das nossas cidades industrializadas. O progresso está à vista, incluindo dos cegos, eloquentemente simbolizado pelo ventre descerrado de uma Moby Dick a rebentar já não de óleos e gorduras, mas de plásticos. Os negativos da ruína há muito sustentam os laboratórios da poesia, mas nunca é excessivo lembrá-lo assinalando revelações que vêm surgindo a partir desses mesmos negativos. Quem sussurra Ao Ouvido do Diabo (Companhia das Ilhas, Novembro de 2018), desta feita, é Rui Xerez de Sousa (n. 1979), poeta familiarizado com os domínios da representação teatral. Ainda que nos seus poemas sejamos tentados a desvendar um teatro de guerra, não é pelo lado dramático que melhor se nos impõem. Escutemos o poema que oferece título ao conjunto:

AO OUVIDO DO DIABO

Nem mesmo sei por que somos amigos.
Talvez por partilharmos a frieza de quem trocaria tudo
por um amanhã com migalhas de sonho.
Talvez porque num dia cinzento
vendemos à melhor oferta
os deuses que nos quiseram impingir
e diante de um deserto só nosso
sussurrámos ao ouvido do diabo:
Tudo isto pode ser teu…

   Logo no primeiro verso é-nos sugerido um outro subjectivo, próximo do sujeito poético por amizade. Como certa apresenta-se igualmente a transacção de deuses impingidos por terceiros, da qual resultou um deserto particular. É o processo de secularização a que fomos sujeitos, simbolizado também por pactos com o demónio que nos desampararam a queda e aumentam incertezas aqui ilustradas pelo uso repetido do advérbio de dúvida. Mas tal hesitação é superada noutros poemas pelo tom declarativo dos versos. Tanto em Nunca Serei Um Poeta como em Escrevo Umas Coisinhas, primeiro e último poemas do livro, há uma afirmação da escrita enquanto fuga ao tédio, descomprometida e sem redes, ciente de limitações que não deixam de ligar-se a uma imagem algo batida do que possa ser isso de “ser-se poeta”. O que importa salientar é o descomprometimento, a despreocupação, até um voluntário desleixo lírico do autor na declaração dos seus propósitos. 
   Noutras ocasiões, a actualidade intromete-se no poema fixando-o temporalmente: «Deixaremos de ser escravos na falência da Europa sonho de reis decapitados / enquanto Inna Shevchenko ao derrubar a cruz de Holodomor grita FREE RIOT / sonhando-se talvez La liberte guidant le peuple» (p. 7). Anárquica, voluntariosa, heterodoxa, iconoclasta, esta poesia traduz um sinal destes tempos em que apenas a besta parece apta a dizer a verdade. E essa verdade é cruel, bruta, desmistificadora, violenta, é uma verdade niilista onde se pressente a falência do papel humano no curso da História: «Sherlocks de segunda a ver quem é que estragou tudo. Mas o tédio é o menos. / Malhas dois copos de whisky e já és o Colombo num assombro de novo mundo. / Mas depois, / ultrapassa-nos o naufrágio de sermos apenas isto: / reféns numa história ridícula. Uma vida juntos e nem um olhar» (p. 13). Já o poema Álbum de Memórias pode ser lido como uma sátira ao Portugal desta época, enquanto em muitos outros se faz tábua rasa da moralidade hipócrita que contamina relações familiares e sociais. 
   Na ironia latente vislumbramos momentos de frustração e, como refere Abel Neves no posfácio, «um afiar de lâmina para um qualquer ajuste de contas». Os poemas imprimem uma urgência do dizer que nos leva a pensar numa qualquer linha de separação entre a normalidade e a loucura que foi apagada, restando os destroços da doença e da alienação, os efeitos do estado do mundo no estado de um homem. A fotografia da capa é de Jorge Aguiar Oliveira, e dialoga lindamente com o poema seguinte:

A LINHA

A minha mãe gritava da janela
gesticulando aflições
Cuidado ao atravessar a linha!
E eu sonhava com engarrafamentos
comboios de buzina grave num trote de manada africana
e ao volante
jovens coquetes de macacão e cigarro slim nas ventas.
Mas nem isso. Apenas uma linha deserta.
Sempre nos perguntámos onde ficaria o seu fim.
Chegámos a colocar pedregulhos para descarrilamentos
e se o comboio parar a tempo
ameaçamos o maquinista:
Leve-nos ao fim do mundo!
E ai dele se não levar.

BUFFALO BILL (1944)



  Devemos o modo como imaginamos o Velho Oeste à elaboração de lendas em torno de personalidades como William Frederick Cody, eternizado Buffalo Bill pelas histórias de cordel, pelo circo que ele próprio erigiu em 1883, com digressão europeia a partir de 1887, e pelo cinema. Cecil B. DeMille dedicou-lhe The Plainsman (1936), com James Ellison no papel de Buffalo Bill. Quarenta anos depois, Robert Altman encarregou-se de desconstruir o mito com o hilariante Buffalo Bill and the Indians, or Sitting Bull’s History Lesson (1976). Entre um filme e o outro encontramos Buffalo Bill/Aventuras de Buffalo Bill (1944), de William A. Wellman, tentativa de recriação histórica com maior preocupação factual.
   O actor Joel McCrea ficou com o papel principal, dividido com a enorme Maureen O’Hara no papel de Louisa Frederici Cody. Bill e Louisa casaram em 1866, não tendo a história entre ambos sido tão romântica quanto o filme de Wellman sugere. Mas isso é o menos. Ele representa aqui o lado selvagem do Oeste, é o aventureiro que respeita os índios e procura compreendê-los, ela representa o Leste, a civilização e uma noção de progresso que não está preocupada com a preservação da natureza selvagem nem com nenhum tipo de tolerância para com os seus habitantes. Antes procura dominá-la/dominá-los e transformá-la/transformá-los. Têm um filho, que Louisa tenta proteger da selvajaria deslocando-se para Leste. A criança acabará por morrer com disenteria, uma doença da civilização.
   Grande parte do filme desenvolve-se em torno das guerras indígenas, recriando com naturalismo os cenários de conflito através de sequências captadas com a câmara no centro da peleja. Cavalos, índios em fúria, lanças e disparos parecem vir todos na nossa direcção. A imagem que hoje formamos daqueles tempos tem neste filme uma matriz indubitável: o forte de madeira no meio da planície, rodeado de montanhas vigiadas por índios de rosto pintado e com longos cocares na cabeça, as tranças das mulheres, os tipis montados junto aos rios, as planícies pejadas de búfalos, os sinais de fumo entre tribos, as movimentações da cavalaria, a caça indiscriminada aos búfalos patrocinada por empresários gananciosos do leste norte-americano, tudo isto concorre para um quadro que fez história e perdura enquanto ilustração de uma certa concepção de progresso levando de arrasto o mundo natural com seus povos e nações dele inseparáveis, por se sentirem parte integrante desse meio natural a que os colonos chamavam selva.
  William A. Wellman, a quem devemos alguns westerns sobre temas clássicos (The Ox-Bow Incident, de 1943, era sobre os linchamentos públicos) e metafísicos (Yellow Sky, de 1948, é o melhor de todos eles), parece inclinar-se aqui para as clivagens fundadoras da América. Anthony Quinn, no papel de Chefe Yellow Hand, é outra das personagens preponderantes no conflito. Muitas sequências assumem uma postura algo condescendente para com os métodos índios, levando-nos a crer que os actos bárbaros e guerreiros por eles praticados surgiram sempre na sequência de aproximações traiçoeiras do homem branco. Embora não possamos afirmar que exista no filme uma qualquer predisposição para a sentença, a verdade é que Wellman denota especial afecto pelos mais fracos da História.
   No final, ainda que sobre (de sobrar) o agradecimento a Buffalo Bill enquanto figura inspiradora de uma espécie de confluência multiétnica, fica-nos na retina o processo civilizacional operado sobre o próprio homem das planícies. Bill não é índio, mas é como se fosse. Logo no início ele não encaixa na formalidade dos comportamentos entre os de leste, que o convidam para jantar. Ao longo do filme, nunca parece encaixar nas atitudes, nas opções, nas decisões de um exército ao serviço de interesses económicos devastadores. Mas quando chega a altura de escolher um lado, ele escolhe o lado Bill. Não escolhe o lado Buffalo. Percebemos os efeitos da opção quando o observamos a deambular nas ruas da cidade, quando depois de ter sido elevado a herói cai em desgraça e desacreditado por dizer umas verdades acerca do tratamento dado aos índios pelo homem branco. A decadência e a ruína deste homem deslocam-no para o centro da arena. Com o circo montado, recriando para inglês ver as aventuras vividas no Oeste Selvagem, ele transforma-se numa anedota de si mesmo. 
   «Aprende a tornar-te naquilo que és», aconselhava Píndaro. Buffalo Bill aprendeu-o da pior maneira, tornando-se palhaço com rosto de lenda.

EM QUE PENSA HMBF?

Está um "solinho" que é uma maravilha.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #2



Tão útil quanto uma enciclopédia, que não esgota a sabedoria mas garante boa figura, é um dicionário. A indispensabilidade da ferramenta obriga a critérios rigorosos de selecção, os quais deverão ter em conta, antes de mais, os pergaminhos do organizador e o fontanário de significados. Deve ser usado com rigor e prudência, parcimoniosamente, de modo a não desgastar eventuais interlocutores sintonizados em frequências distintas da nossa. Como neste mundo em que vivemos Deus é quem vigora, para mal dos nossos pecados comandando à hipocrisia quem na terra lhe obedeça, manda a inteligência que dominemos a linguagem do seu mais vetusto oponente. Assim sendo, minhas filhas, deixo-vos de herança o “Dicionário do Diabo”, com o qual e através do qual podeis desbravar caminho para que vossos bondosos corações toquem vossas inocentes inteligências. Lede com atenção este Dicionário e rapidamente estareis munidas de material para a vida e, quem sabe, para a morte. Ora dizei lá uma palavra começada pela letra A:

AMOR, n. Demência temporária que se cura com o casamento, ou afastando o paciente das influências que provocaram a enfermidade. Esta doença, tal como a cárie e outras, prevalece apenas entre as raças civilizadas que vivem em condições artificiais; as nações bárbaras que respiram ar puro e comem alimentos simples são imunes aos seus ataques. Chega a ser fatal, embora mais para o médico do que para o paciente.

Ora experimentai outra começada por L:

LIBERDADE, n. Um dos bens mais valiosos da Imaginação.

           O povo insurgido, exaltado e forte,
Gritava para o palácio: «Liberdade ou morte!»
«Se é a morte que quereis, deixai-me reinar»,
Disse o Rei, «pois não tereis mais que vos queixar.»
                                                               Martha Braymance

Tão valorosa investigação devemo-la, por ironia, a um norte-americano. Nem tudo o que provém das terras do Demo é mau, apesar de por lá jurarem com as patas sobre a Bíblia (obra a todos os títulos desaconselhável). Ambrose Bierce (n. 1842), desaparecido no México (boas terras) em 1914, vendeu a alma ao chifrudo durante 3 décadas, tendo originalmente compilado o pensamento do mestre em 1911 (em 1906, surgiu uma primeira versão com outro título). Por cá, só conheço uma edição truncada, a da Tinta-da-china, que é de Janeiro de 2006 e foi prefaciada pelo estimável Pedro Mexia (católico, conservador, pessimista, não necessariamente por esta ordem). Ora digam lá uma palavra começada por P:

PESSIMISMO, n. Uma filosofia que se impõe às convicções do observador devido à preponderância desanimadora do optimista, com a sua esperança idiótica e o seu sorriso disforme.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #1



Para a Matilde & para a Beatriz.

Como a biblioteca cá de casa não pára de crescer, fazendo parecer que a casa não pára de encolher, surgiu a ideia de antecipar as partilhas. Vou oferecer 100 livros às minhas filhas, na esperança de que possam contribuir para a sua educação. Serão 100 manuais escolares de insuspeito valor pedagógico. Começo por uma enciclopédia. É sempre útil e sinal de inteligência trazer uma enciclopédia à mão, desde logo porque, não sendo muito inteligentes, as pessoas munidas de enciclopédias sugerem um conhecimento e domínio das matérias capaz de impressionar e convencer. Entre muitas e diversas, a mais útil de todas é a “Antologia do Humor Negro” organizada por André Breton. Dizem as boas línguas que o autor tinha mau feitio, queria o surrealismo todo para ele. Que lhe tenha caído bem no estômago é o que desejamos. Por cá, o livro saiu com a famigerada chancela das Edições Afrodite (um amor de chancela). Ficai atentas, queridas filhas, desde logo aos tradutores. Tudo gente de boa cepa: Aníbal Fernandes (é tanto o que lhe devemos que nem com Estádio da Luz pejado de euros lhe pagaríamos), Ernesto Sampaio (autor do mais belo livro de amor), Luísa Neto Jorge (tenha s, tenha z, uma poeta do… vocês sabem do quê), Manuel João Gomes (traduziu os melhores), Jorge Silva Melo (vosso pai já lhe disse, com cara de parvo, que o admira como a poucos)… Se os tradutores são janelas abertas para o mundo inteiro, topem o mundo: Alfred Jarry (a seu tempo, hei-de apresentar-vos ao rei Ubu), Swift (gigante entre anões), Rimbaud (aquele que escreveu tudo enquanto o diabo esfrega um olho), Baudelaire (quando fomos a Paris, deixámos-lhe uma flor do mal no túmulo), Poe (o do corvo e das pessoas enterradas vivas), Kafka (o das pessoas transformadas em bichos), Isidore Ducasse (cuidado com este), Sade (ainda mais cuidado com este), Duchamp (o da obra de arte para fazer xixi), Lewis Carroll (este vocês sabem)… e tantos, tantos, tantos outros que deveis explorar, visitar, com os quais podeis e deveis dialogar, porque tendes muito a aprender sobre coisas tão básicas como ser-se livre, que é uma forma de se ser maluco nesta sociedade que impõe que sejamos rectos à maneira de quem deixa a parte terminal, posterior, do tubo intestinal, à disposição dos mandantes. Podeis aqui aprender coisas elementares, mas esquecidas: «Os abetos que se usam para fazer caixões são plantas de folha verde e perene» (Xavier Forneret). Só a morte é para a eternidade, que entremos nela no melhor dos confortos é o desejo dos parvos. O mais vulgar dos desejos. Mas falemos de matéria positiva, que a procissão ainda vai no adro. Sobre um tal de Jean-Pierre Brisset, lembra o arcebispo Breton: «A ideia mestra de Jean-Pierre Brisset é a seguinte: «A palavra que é Deus conservou dentro das suas obras a história do género humano, desde o seu dia primeiro; e, em cada idioma, a história década povo, com tal segurança e tal irrefutabilidade que confunde os simples e os sábios». Para começar, a análise das palavras permite-lhe estabelecer que o homem descende da rã. Essa descoberta, que ele tenta legitimar e seguidamente explorar através de um jogo de associações verbais de uma riqueza inaudita, vem corroborar, a seu favor, a constatação anatómica de que «o sémen humano visto ao microscópio dá a aparência de um charco de água cheio de girinos, cuja forma e aspecto os pequenos seres existentes nesse mesmo sémen nos recordam, sem tirar nem pôr». Portanto, que mais precisamos nós de saber para a vida acerca da vida senão que descendemos de rãs, e que tudo isto que tanto nos faz sofrer não passa de um charco onde chafurdam girinos, que somo nós?  

SOM & FÚRIA

O manuel a. domingos tem um weblog novo. Diz que é sobre música, à maneira dele. Começou com uma iguana, prosseguiu com uma quadrilha. Passem por: ali

PRESIDENTE DOS AFECTOS


O primeiro gesto de Marcelo Rebelo de Sousa como vencedor das eleições presidenciais foi transformar a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa – fazendo-se o legítimo e actualizado herdeiro de uma dada herança moral – em sede de campanha. Sabia-se eleito, tudo se tratou, em suma, de um plebiscito. Não é pois de admirar que o Presidente da República telefone a felicitar uma “estrela” televisiva no seu programa inaugural. A indignação de hoje só confirma o engano de ontem.


Jorge Muchagato, aqui.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

VIVEMOS DENTRO DE UMA ANEDOTA


A fome no mundo acabou, o clima está ameno, guerreiros depuseram armas, guerras fizeram greve, as máfias converteram-se em instituições de caridade, já não há governos, apenas organizações não-governamentais patrocinadas pela bem-aventurança de filantropos com consciências maiores do que o universo. Dito isto, o que há para noticiar? A transferência da Cristina para a SIC, o início do programa da Cristina, a entrevista da Cristina ao presidente do Benfica, o telefonema do presidente da república portuguesa à Cristina. Neste país em minúsculas que assimila os comentários da Moura Guedes e do Machado neonazi com o mesmo estômago e não vomita, já tudo é possível porque o sentido está em não haver sentido algum. Divirtam-se até que dê.

O MUNDO É UM LUGAR ESTRANHO


Quem pode extrair algum prazer ou ter o mórbido interesse em ver fotografias da dor alheia, imagens de um funeral?


Malomil, aqui.

WINCHESTER 73 (1950)



   Não é difícil perceber as razões que fizeram de Winchester ’73 (1950) um clássico dos clássicos, com o carimbo de Anthony Mann (1906-1967) em pico de actividade. Só no ano de 1950 estreou 4 filmes, três dos quais no estilo western. Dois ficaram para a história do género como obras fundamentais: The Furies/Almas em Fúria e este Winchester ’73. Referi-me a ele anteriormente numa menção ao escritor Borden Chase (Vera Cruz, Backlash, The Far Country, Red River, Bend of the River…), um dos principais contribuidores do ideário nacionalista que contaminou o cinema sobre o Velho Oeste. Winchester ’73 não foge à regra, podendo hoje ser lido como uma insustentável apologia das armas. Mas no início da década de ouro do western a perspectiva era outra. A espingarda que ajudou a conquistar o Velho Oeste aparece antes como um tesouro perdido, símbolo do poder tal qual um ceptro real ou uma varinha mágica, a espada do Rei Artur.
   O filme de Anthony Mann fez escola, estabelecendo paradigmas, fixando modelos, fundando estereótipos que outros se encarregaram de desconstruir posteriormente. O local da acção começa por ser Dodge City, ainda hoje conhecida como a capital mundial dos cowboys. Michael Curtiz dedicou-lhe um filme homónimo datado de 1939. A aura mítica de Dodge City está também associada à presença de Wyatt Earp no território, o qual surge em papel secundário neste filme de Anthony Mann. Oferece-lhe corpo o actor Will Geer. O protagonismo fica para outros. Não devemos também perder de vista o facto de as personagens serem colocadas inicialmente numa celebração do 4 de Julho, Dia da Independência dos Estados Unidos, de 1876, ano da célebre batalha de Little Bighorn. É o ano do centenário da Independência e da monumental derrota do general Custer nas Guerras indígenas.
   Todos estes factos são elementos decorativos no pano de fundo de um filme que coloca em primeiro plano a disputa entre dois irmãos desavindos. James Stewart é o lado bom da história no papel de Lin McAdam, Stephen McNally é o lado mau no papel de Dutch Henry Brown. Da perseguição que o primeiro faz ao segundo resulta a dinâmica da obra, pautada pela deriva de uma Winchester ganhada por Lin McAdam num torneio de tiro. Dutch rouba-a, este acaba por ter de a vender a um traficante de armas, os índios com quem o traficante negoceia lançam-lhe mão, perdem-na numa peleja contra a cavalaria, o cobarde Steve Miller fica com ela, que a perde para o fora da lei Waco Johnny Dean… Saltando de mãos em mãos, a famigerada Winchester de 1873, única entre um milhão, transporta-nos de cena em cena pelas matrizes do western.
   Temos Wyatt Earp a tentar impor a lei em Dodge City, temos atiradores implacáveis, temos os fora da lei, o assalto a um banco, temos os traficantes de armas, temos índios em guerra, temos a cavalaria a proteger cidadãs indefesas, temos cenas de perseguição a alta velocidade, temos cobardes e heróis, mulheres, uísque, batota, temos amigos que são fieis como cães, temos o bom cowboy solitário em busca de vingança, temos planos em contraluz que parecem pintados a tinta-da-china, temos Caim e Abel. E neste conflito clássico temos uma recriação da luta entre o bem e o mal que sempre fez do western um género essencialmente moral. Não moralista, que isso é outra coisa. Antes um género que se preocupa em reflectir e pensar os caminhos do bem e do mal, os paradoxos, as contradições, a forma como nesses caminhos se cruzam a justiça e a injustiça, o amor e o ódio, a coragem e a cobardia.
   São vários os filmes de Anthony Mann que tenho sugerido. Além deste, dediquei já atenção a The Furies (a obra-prima), Bend of the River, The Far Country, The Tin Star (o melhor dos menos conhecidos). O que mais aprecio nestes filmes é a capacidade por eles denotada de abordar os grandes temas clássicos num contexto de puro entretenimento. Elementos populares como a velocidade das perseguições, os tiroteios e os duelos, nunca esgotam por absoluto o campo onde se desenrola a principal batalha. Esta é mais psicológica do que física, sendo interior mostra-se através de planos focados nos pequenos gestos que sugerem atitudes, receios, anseios, segredos. Há uma cena em Winchester ’73 de que gosto particularmente e que pode servir de exemplo. A personagem interpretada por James Stewart fala com o Sargento Wilkes, responsável por um regimento em situação de inferioridade face ao cerco dos índios. Wilkes conta em poucas palavras o seu historial militar, Stewart escuta-o atentamente. Percebemos no olhar do cowboy uma certa nostalgia, misturada com uma ironia e um respeito que não chegamos a entender de onde vêm. Apercebemo-nos apenas, porque isso é sugerido, que daquela conversa surge um encontro inesperado. Só mais tarde perceberemos porquê. Lin McAdam e o Sgt. Wilkes, agora no mesmo lado da barricada, tinham outrora sido inimigos durante a guerra civil. Ironias do destino que o cinema transforma em magia.  

JOSEF SUDEK, THE WINDOW OF MY STUDIO [SERIES], 1940-1954


A janela do estúdio está aberta. Por um instante,
aqueles dois mundos desviam-se do reflexo
que um é do outro e conectam-se. Definem-se,
dissolvendo-se. Não há interior e exterior.
Um plano onde a chuva escorre e outro onde
o ar é condensação. Não há o homem e um duplo
que se contempla, essa árvore de torso retorcido,
defeituoso, que o tempo, só por milagre, cura
quando floresce a Primavera.

As vidraças nada separam, nada aproximam.
Dois mundos, as estações que se sucedem,
o dia e a noite afectados pela luz interior e exterior,
o que é inteiramente abstracto à superfície
e delicadamente lírico, emotivo, quase espiritual,
no olhar que se prolonga.

Por tudo isto, são pormenores o muro e as casas
para além do jardim ou a composição de natureza
morta no parapeito de madeira. O que importa
é a janela do estúdio, que está aberta, e como
a indeterminação, esse movimento que o
mundo respira, ali se revela.



Sandra Costa (n. 1971), in Untitled. A estreia em 2002, com Sob a Luz do Mar (Campo das Letras), revelou uma voz transparente, contida, depurada. Untitled (volta d’mar, Dezembro de 2017) persegue os caminhos da luz, desta feita em diálogo com fotografias a preto e branco de autores diversos (Elliott Erwitt, André Kertész, Vivian Maier, Dorothea Lange…) A écfrase processa-se a partir de uma complexa ralação de olhares, o do autor da fotografia e o da poeta que a contempla. O poema surge desta relação como uma imagem no decorrer do processo de revelação, da indefinição nublada e sombria das formas até à sua absoluta definição. O título do primeiro livro já havia assumido a relevância da luz nesta poesia, agora novamente sublinhada por uma noção do poema enquanto reflexo. Mantendo-se a natureza no lugar da paisagem preferencial, ela surge enquadrada por uma contemplação afectada pelo silêncio e pela solidão. Os jogos de luz permitem-nos ainda vislumbrar em alguns versos um tom nostálgico que resiste à melancolia, inclinando-se mais para uma noção de espera onde podemos adivinhar certa forma de fé na beleza: «Nesse instante, compreendes: o único caminho / possível até à madrugada insubmissa / também se faz de esperas, // ou de um detalhe que nos salva» (p. 18). Também por isto, podemos dizer que esta é uma poesia que aparece em contramão com as tendências dominantes do seu tempo.