sábado, 9 de fevereiro de 2019

SULCOS

   - Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfacto, e estraga para todo o dia o ar respirável. É um dito que se surpreende num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica colado à alma, como um salpico, lembrando a imensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura intolerável pela pretensão, ou pelo mau gosto, ou pela impertinência, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se não pode sacudir mais a visão repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, são as pequeninas misérias de uma Civilização deliciosa!

Eça de Queiroz, in A Cidade e as Serras, Livros do Brasil, 1.ª edição na Livros do Brasil/Porto Editora, Março de 2016, p. 46.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

ANTÓNIO


   António é discriminado na escola: é o único que não tem os pais divorciados. No recreio todos os amigos gozam com ele. Atiram-lhe frases cruéis à cara: «O António tem os pais juntos! O António tem os pais juntos! O António tem os pais juntos!».
   António sente-se envergonhado. Vai chorar para um canto com a humilhação.
   Na semana passada, António foi chamado a um gabinete: o Gabinete de Apoio a Filhos que Têm os Pais Juntos. Dois técnicos aconselharam-no a arranjar estratagema certo para acabar com o sofrimento:   criar conflitos em casa entre as entidades paternas. Todos os dias, António trabalha para isso - inventando e-mails de amantes, por exemplo. Este ano, acha ele, vai ser finalmente uma criança aceite pela sociedade.

Nuno Costa Santos, in A Mais Absurda das Religiões, Escritório, Outubro de 2017, pp. 189-190.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

UM POEMA DE OLGA OROZCO



DIA PARA ESQUECER

Vai-te, dia maldito;
guarda sob as pálpebras de gesso o olhar de lobo que melhor me esquece;
caminha sobre mim com passo selvagem, simulando um deserto entre fome e sede,
para que todos creiam que não estou,
que sou um sinal de despedida sobre as pedras;
fecha de par em lar, longe de mim, tuas faces sem crueldade e sem misericórdia,
como se fosse já a invulnerável,
aquela que sem pena pode provar os gestos dos outros;
e deita-te a adormecer, debaixo da lona cega dos séculos,
o sonho em que me lançaste de ontem para amanhã:
esta geada que percorre a minha cara.
Ainda assim, hei-de chegar contigo.
Ainda assim, hás-de ressuscitar comigo entre os mortos.


Olga Orozco, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 157.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #7


   Já que estamos com a mão na massa, tomai em vossas mãos, minhas filhas, o único livro de ciência política que realmente vale a pena ler, estudar, aprofundar, reflectir. Evitai considerá-lo apêndice de Uma Apologia dos Ociosos, apesar de ambos datarem da mesma época e focarem, cada um à sua maneira, temas interligados. Se na obra de Stevenson encontramos a apologia de um estado existencial contra a imposição de um modo de vida, na de Paul Lafargue (1842-1911) vislumbraremos a defesa acérrima de um direito fundamental acompanhada da denúncia de uma sociedade empenhada em usurpar aos homens tal direito: a preguiça. Impossível determinar quanto terá trabalhado o autor para atingir o estado de clareza que a brevidade do texto oferece, embora desconfiemos que, dada a profusão de citações, a preguiça não tenha sido dos valores por ele mais cultivados.
   Nos 69 anos de vida vivida, Lafargue, que casou com uma filha de Karl Marx, foi activista comprometido com a defesa dos direitos dos trabalhadores. Nasceu em Cuba, filho de fazendeiro com plantações de café. Na família multicolorida cabiam um índio jamaicano, um mulato refugiado do Haiti, judeus e cristãos, particularidade que lhe ofereceu desde cedo uma panorâmica alargada da cultura humana. Estudos iniciais de medicina levaram-no a apaixonar-se pelo positivismo, tendo a partir de aqui inclinado o coração para o anarquismo político, até ser finalmente assaltado pelas teses sociais de Marx. O casamento com Laura, a filha de Marx, terminou quando ambos resolveram suicidar-se. Talvez preguiçassem menos do que deviam.
   A verdade é que Paul Lafargue entendeu antes de muitos aquilo em que a breve trecho se tornaria a vida da maioria de nós, uma vida dominada a chicote pela moral cristã e sua lastimável paródia, a moral capitalista. Metei isto nas vossas cabeças, minhas filhas, se Cristo morreu na cruz não foi para expiar-nos os pecados, mas sim para que outros espiem a nossa vida, levando-nos a crer que o sentido desta em terra está no seu sacrífico por uma outra algures no céu. E assim se fomenta uma indústria de servidão, das quais tanto as fábricas como as igrejas ou os centros comerciais, são lugares de culto por excelência. Isto mesmo se denuncia em O Direito à Preguiça (Teorema, 11.ª edição 2011), obra publicada originalmente em 1880.
   Vós, que sois já um produto da Revolução Tecnológica, tende cuidado: tal como no passado foram os homens escravos das máquinas, somos nós hoje escravos das tecnologias. A ideia de que os robôs viriam para a nossa libertação está mais que desfeita, reduzindo a mão-de-obra humana aos valores de um salário mínimo que é via verde à escravidão, ao degredo, ao desprezo, à miséria. A religião do trabalho, acompanhada da ideia de utilidade, nada mais tem conseguido do que o embrutecimento das almas humanas, levando-nos o tempo de ócio, censurando-nos o direito à preguiça, coagindo-nos a crer que o progresso é esta mecânica desenfreada de produzir para consumir até termos dado cabo de todos os recursos naturais e, por consequência, da Terra Mãe. Conclusão:

Tal como Cristo, dolente personificação da escravatura antiga, os homens, as mulheres e as crianças do Proletariado sofrem penosamente desde há um século o duro calvário da dor: desde há um século, o trabalho forçado parte-lhes os ossos, mortifica-lhes a carne, arrasa-lhes os nervos; desde há um século, a fome contorce-lhes as entranhas e alucina-lhes a cabeça!... Ó Preguiça, tem piedade da nossa longa miséria! Ó Preguiça, mãe das artes e das nobres virtudes, sê o bálsamo das angústias humanas!

Para mais esclarecimentos: aqui e aqui.

A VIDA


a jacques mamruth

quando o meio-dia
te oferece um mundo vazio
quando um passo a trás é a morte
e ficar quieto é um passo a trás
então
levado pela inocuidade do momento
deixas mover alguma parte do teu corpo

pensaste
deixarei que algo aconteça
se tudo é nada também algo será nada

enganas-te
através dessa lacuna
toda a realidade inteira escoará

se permites o menor movimento à quietude
se deixas entrar no vazio a mais parda molécula
esse movimento essa molécula
nessa quietude nesse vazio
armarão uma festa gloriosa

e festa após festa
o restaurado meio-dia promete a tarde acobreada
sentes-te senhor
e começas a viver novamente

e é assim
nada há a fazer

César Fernández Moreno, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  pp. 150-151.

ET DE PLOMB ET DE PLUME

Já tenho feito referência a esta rubrica do meu amigo Pedro Serpa. Ele explica ali o convite que me fez. O resultado é para ser ouvido aqui, na esperança de que façam bom proveito e tenham um bom dia.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

OS PROBLEMAS DAS PESSOAS


Nove mulheres mortas em contexto de violência doméstica desde o início do ano. Presumo que os assassinos não sejam pretos a viver em bairros degradados, nem as vítimas polícias de profissão. Caso contrário, não se falaria de outra coisa.

ANOITECER NO PARAÍSO




   Quando faleceu, Lucia Berlin (1936-2004) era pouco mais do que uma ilustre desconhecida. Granjeou maior reconhecimento com a publicação póstuma de A Manual for Cleaning Women: Selected Stories (2015), prefaciado pela escritora Lydia Davis. A curiosidade acerca da existência de Berlin não se fez esperar, surgindo de imediato uma avalanche de informações que dão conta de uma biografia fascinante. Filha de um engenheiro de minas, nasceu no Alaska mas foi crescendo em vários locais que surgirão, na sua maioria, referenciados nos seus contos: El Paso, Chile, México, Arizona, Novo México, Nova Iorque, Colorado, Los Angeles. Na nota biográfica que acompanha A Manual for Cleaning Women refere-se o alcoolismo da mãe, herdado pela filha. Também se refere a escoliose aos 10 anos de idade, os estudos na Universidade do Novo México, o primeiro casamento com um escultor, os dois primeiros filhos, o abandono do marido. Não é difícil concluir de onde veio a matéria para os contos Lead Street, Albuquerque e As esposas.
   O encontro com o poeta Edward Dorn terá sido determinante para que começasse a escrever, vindo a estrear-se apenas em 1981 com Angels Laundromat: Short Stories. Voltou a casar em 1958, com o pianista Race Newton. O jazz é outra das referências constantes nas suas histórias, quer através da evocação de composições, quer enquanto território onde habitam as personagens. La barca de la ilusión, por exemplo, coloca em cena um heroinómano que toca saxofone, apaixonado pela música de Dizzy, Bird, Jaki Byard, Bud Powell. É muito provável que Paul e Maya Newton, do excelente conto A casa de colmo com telhado de lata, sejam inspirados na relação de Lucia com Race. Mas aconselha-se alguma cautela nas extrapolações. No prefácio que escreveu para Anoitecer no paraíso (Alfaguara, Novembro de 2018), Mark Berlin, filho, não podia ser mais claro: «A mãe escrevia histórias verdadeiras; não necessariamente autobiográficas, mas bastante perto disso» (p. 11). No ciclo de amigos do casal Newton, quando as primeiras histórias começam a surgir em revistas de referência, encontramos o casal beatnik Diane di Prima e Amiri Baraka (LeRoi Jones).
   Em 1960, Lucia deixou Nova Iorque e partiu com os filhos para o México. Casou-se pela terceira e última vez com o saxofonista Buddy Berlin. Serão tempos decisivos. Berlin é viciado em heroína, tal como o personagem de La barca de la ilusión. A relação durará 8 anos, e dela surgirão mais dois filhos. Com o divórcio consumado em 1968, Lucia dedicar-se-á aos filhos e ao trabalho enquanto professora e escritora. Ao longo da vida foi ainda telefonista, auxiliar de enfermagem, mulher de limpezas… A mãe ter-se-á suicidado em 1986, a irmã morreu de cancro, o pai transformou-se numa das figuras ausentes mais interessantes dos seus contos. O final do conto intitulado Itinerário, que relata a saída do Chile a caminho da universidade no Novo México, é especialmente tocante no que diz respeito a essa relação.
   Os primeiros contos de Anoitecer no paraíso são memórias da infância em El Paso, durante a II Grande Guerra, e Santiago do Chile, depois da Guerra. A família, as assimetrias sociais, a sobrevivência, são temas tratados com clareza, sem queixume nem lamentos. Berlin reflecte a vida recordando-a, o seu material provém da experiência vivida e perdura na memória como um cheiro: «Há quem associe sempre o cheiro enjoativo das flores aos funerais. Para mim, precisa de estar misturado com o odor a estrume de cavalo» (p. 77). Cada conto é como que uma “cápsula do tempo” que nos transporta para o passado como quem folheia um álbum de fotografias, sendo que entre essas imagens e a visão que proporcionam há todo um esforço de reconstrução que rasura, mistura, subverte, acrescenta. 
   O olhar que lança sobre a vida doméstica tem, como em Raymond Carver, o encanto nostálgico de um reencontro. É como se o simples facto de termos sobrevivido ao passado agora recordado fosse já a graça suficiente de se estar vivo. E depois há a consciência da relevância do fragmento, pois: «Uma palavra, um gesto, podem mudar uma vida inteira, podem quebrar tudo ou torná-lo inteiro» (p. 100). As casas, os lugares, os objectos, tudo ganha vida nos seus contos por estar em relação directa com a existência das personagens. Há um laço inquebrável entre o lugar e o ser que não deixa de nos impressionar, sobretudo numa autora cuja vida se foi cumprindo em tantos e tão diversos lugares, condicionada pelas circunstâncias e ao sabor das ocasiões.


Impecavelmente iludidos

   Estranho quem nega a dor. Quem nega a dúvida. Quem nega a hesitação e o desconforto. Quem está sempre bem, que não tem depressões e isso. Os que não gostam de filmes tristes porque não são assim como os filmes. Os que recusam discursos sobre a tristeza porque a tristeza é dos «outros», não deles. Estranho os que estão sempre «impecáveis».

Nuno Costa Santos, in Vou Emigrar para o Meu País, Escritório, 2014, p. 133.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #6


   Robert Louis Stevenson (1850-1894), deste já ouvistes falar. Foi quem escreveu A Ilha do Tesouro (1883), que por certo já visitastes, tal como O Estranho caso do Dr. Jeckyl e Mr. Hyde (1886), que escusais de ler se vos atentardes ao mundo dos homens em geral e dos artistas em particular. Morreu com a idade que vosso pai tem hoje, mas com uma vida incomparavelmente mais cheia. Naqueles tempos vivia-se menos, mas mais. O que contradiz a lógica aristotélica.
   Nascido em boas famílias da Escócia, teve uma educação privada para protecção dos brônquios. Pretendiam que fosse engenheiro, protegendo a continuidade do negócio de família, mas ele era mais dado a leituras, arte e ócio. Herdou do pai o gosto pelas viagens, encarregando-se de não as conspurcar com a mania dos negócios. A decisão pela literatura deixou a família perturbada, tornou-se evidente quando começou a deixar crescer o cabelo, a adoptar um estilo de vida boémio, a vestir-se como um ateu, a adoptar como lema o de muitos dos seus pares: desrespeita tudo quanto os teus pais te ensinaram.
   Eis, minhas filhas, ensinamento a que deveis prestar a máxima atenção, mais nenhum senão este deveis adoptar se pretendeis ser verdadeiramente livres. É vosso pai quem o diz.
   Desta e de outras máximas nasceram obras eternas, entre as quais deveis especialmente considerar Uma Apologia dos Ociosos (& etc, Junho de 2005). Das várias edições disponíveis a mais bonita é esta, devidamente prologada e seguida do ensaio Conversa e Conversadores. A «defesa pseudofilosófica da preguiça» ensaiada neste livro, surgido inicialmente numa revista publicada em 1877, diz-nos desde logo o que nenhum livro senão este pode ensinar: «Os livros são úteis à sua maneira, porém um substituto bem pálido da vida». E acrescenta: «Basta dizer isto: se um jovem não aprende na rua é porque não tem capacidade de aprender».
   Elogio do nomadismo contra o sedentarismo, da rua contra a academia, da experiência contra a literatura, isto é, de uma literatura com vida e experiência, colhida da terra e não da poalha dos livros. Contra a escolástica, colocando em xeque toda a ideia de Sucesso na Vida que não seja o vivê-la tirando partido das experiências, do contacto com o desconhecido. Um aventureiro, este Stevenson. Um hedonista, talvez: «Os prazeres são mais benéficos do que as obrigações porque, tal como a faculdade de perdoar, não são forçados, e portanto representam uma dupla bênção».
   Podeis contra-argumentar que tal discurso não seria possível sem barriga cheia, que o senhor Robert nos fala lá de um lugar onde não teve de chegar por dele ter partido, podeis desconfiar da sua argumentação crendo que bem diferente seria caso desde cedo tivesse ele sido forçado pelas circunstâncias a fazer pela vida como o comum dos mortais. Todas as críticas são válidas, desde que descanseis o corpo sobre elas. O que nestes casos importa é a mensagem, venha ela de onde vier. Certo é que mais nos valerá sempre um elogio do ócio do que uma defesa do sacrifício. A vida é curta, não merece que a desperdicemos com as despesas do supérfluo.

BOM DIA


domingo, 3 de fevereiro de 2019

UM POEMA DE CÉSAR FERNÁNDEZ MORENO



MADRIGAL

tal como um gato envolto no seu pêlo
se senta na fria calçada da madrugada
ao pé da porta que seu dono ausente fechou à chave

tal como esse gato a miar debilmente enquanto  olha para a alta fechadura
e depois ansioso para os poucos transeuntes que passam a essa hora
quem sabe amigos do seu dono ou mesmo seu dono
quem sabe podendo abrir-lhe a porta inacessível
permitindo-lhe regressar ao calor de que a sua natureza necessita

assim também eu na esperança de tão remotas possibilidades
olhava e observava qualquer pessoa recolhido na calçada
até que por azar tu passaste sensível a todos os animais
me olhaste como eu a ti
me disseste qual era a minha porta verdadeira
e te fizeste minha dona

César Fernández Moreno, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  P. 149.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

WHISKY AND SODA




Levado por circunferências de aço
que rodam sobre complacentes paralelas também de aço
chupo o cilindro, forrado com papel
que contém na ponta iluminadas folhas picadas tostadas
bebo da vasilha de quartzo translúcido
este líquido composto por álcool
misturado com água de onde o gás sobe em pequenas esferas
esgrimo este outro cilindro de madeira com eixo de grafite
aplico-o na plana celulose branca sumamente delgada
elevo finalmente o meu repugnante coração sobre as ondas
da técnica
e consigo dizer amo-te

César Fernández Moreno (n. Buenos Aires, 26 de Novembro de 1919 – m. Paris, 14 de Maio de 1985), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 140. Diplomata de profissão, era filho do poeta Baldomero Fernández Moreno. É um dos nomes mais destacados da chamada Geração de 40, tendo dirigido as revistas Contrapunto, Correspondencia, e integrado o grupo da revista Zona de la poesía americana. O primeiro livro foi Gallo ciego (1940), com prefácio do pai. Colaborou na imprensa escrita como crítico de cinema. A sua poesia revelará algumas inflexões na década de 50, optando por um registo irónico de cunho social. Uma das suas obras mais aclamadas é Argentino hasta la muerte (1963). Fundou e dirigiu a colecção Fontefriada.

DIA DE CHUVA

   Bolas, este centro fica cheio, quando chove. Estou farto de estar na rua, sabes? A minha patroa e eu fomos para as arquibancadas... é simpático — muito sossegado e montes de espaço. Depois, começou a chover e ela pôs-se a chorar. Eu só lhe perguntava: O que se passa, 'mor? O que se passa? Sabes o que é que ela acabou por me dizer? «As beatas estão a ficar todas molhadas.» Merda, então bati-lhe. Ela ficou louca, os bófias levaram-na para a cadeia e a mim para aqui. Eu aguento uma ressaca. O problema é que, quando fico sóbrio, começo a pensar. Os alcoólicos pensam mais do que a maior parte das pessoas, essa é que é a verdade. Eu bebo só para calar as palavras. Merda, e se eu era mesmo baterista? Na última vez que aqui estive, havia uma Psychology Today que falava sobre bêbados sem-abrigo. Provava que os bêbados pensavam mais. Dizia que tinham melhores pontuações nos testes do que as pessoas normais e eram melhores em retenção. Havia só uma coisa em que tinham uma má pontuação, não valiam mesmo nada, mas não me lembro do que era.

Lucia Berlin, in Anoitecer no paraíso, — Mais histórias, trad. Ester Cortegano, Alfaguara, Novembro de 2018, p. 233.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

HOSTILES (2017)



   Só há dias dei pela existência deste Hostiles/Hostis (2017), de um tal Scott Cooper que se estreou na realização com o prometedor Crazy Heart (2009). Jeff Bridges era um decadente músico de country, papel que lhe valeu o Oscar depois de várias nomeações. Passava por acaso num canal de televisão quando me deixei prender pela presença de Christian Bale. Pouca gente se recordará dele como Jim, o jovem rapaz que Steven Spielberg imortalizou em Empire of the Sun/Império do Sol (1987). É um dos meus actores preferidos. Hostiles, curiosamente, não é a sua estreia no western. Em 2007 já encantara no remake 3:10 to Yuma/O Comboio das 3 e 10 (2007) ao lado de Russell Crowe. Desta feita, entre os rostos mais conhecidos com os quais contracena temos o inconfundível Wes Studi. A ascendência cherokee tem-lhe valido alguns papéis relevantes como índio, sendo exemplo os desempenhados em Dances with Wolves (1990), The Last of the Mohicans (1992), Geronimo: an American Legend (1993), The New World (2005), e até uma aparição fugaz em The Doors (1991).
   Neste Hostiles, Wes Studi dá corpo ao chefe Yellow Hawk. Não consegui apurar até que ponto a história do filme se aproxima dos factos, embora o tom naturalista leve a crer na existência de ligeiras aproximações. Bale é o capitão Joseph J. Blocker, destacado para transportar Yellow Hawk e a família de uma reserva no Novo México às terras de origem no Montana. Blocker passou a vida a combater índios, transformando-se num herói de guerra dentro da estrutura militar. Mas o sentido do dever impõe-se. Depois de alguma resistência, parte em viagem. Pelo caminho, a caravana cruza-se com uma mulher desesperada que acabou de perder toda a família (marido e três filhos menores, entre os quais um bebé) na sequência de um cruel ataque indígena. Resolvem acolhê-la na caravana. Rosamund Pike tem na personagem de Rosalee Quaid um inesquecível momento de inspiração. O mote está dado.
   Esta é uma história de expiação. Há várias formas de olharmos para um filme destes, a pior de todas é procurar julgá-lo pelo que possamos supor ser a sua moral. A verdade é que Scott Cooper teve a capacidade de ser superior a qualquer forma de maniqueísmo oportunista. Interessa-me muito mais, porém, o modo como vai expondo os sucessivos choques emocionais ocorridos dentro de cada uma das personagens. O final do sargento Thomas Metz, companheiro de longa data de Blocker, é um bom exemplo do turbilhão de emoções que persegue estas pessoas. Mais do que entre opositores, a tensão é interior, inerente a cada um deles. E os cenários são excelentes, fazendo com que tudo pareça verosímil e humano, ou seja, frágil e ambíguo. Certa, só mesmo a morte. A morte que Rosalee Quaid diz por vezes invejar, pelo seu carácter definitivo.
   Hostiles é mais uma tentativa de manter vivo um género tão antigo quanto o cinema. Neste século, mesmo excluindo os remakes (3:10 to Yuma, True Grit, em certo sentido The Revenant), já temos alguns exemplos de como o western pode renovar-se sem perder a sua essência. Não é um grande filme como The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford (2007), de Andrew Dominik, que pegando num tema clássico conseguiu oferecer-nos poesia numa paisagem agreste. Mas está perfeitamente ao nível de The Homesman (2014), de Tommy Lee Jones, e supera as incursões de Ti West e Michael Winterbottom no género. Sobra Tarantino, mas com esse a conversa é outra.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

MEU DEUS




o que me queres dizer quando me apertas a cabeça meu deus
com essa garra excessivamente doce
há coisas que posso compreender mas não conduzir
como modelar meu ser com polegares tão desajeitados
como mudar a carga de tantas células perdidas

não dês tantas voltas meu deus para que chegue o calor
deixa-o vir
deixa-me ser assim
não arrastes a dor até à perfeição
eu simplesmente não vou ensombrecer o teu mundo
já sei que o eu dói
que matando-o não doeria

assim dizia um homem apertando a cabeça
a cambalear ao acaso com os olhos fechados
falando para um cão morto

César Fernández Moreno, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 146.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #5


Fixai este nome, estranho e longo nome: Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut (1719-1791). Historiador, gramático, professor de Latim na Escola Militar, escreveu obras literárias, de filologia, de história, de medicina, mas quis o destino que ficasse para a posteridade como autor de um pequeno livro intitulado L’Art de Péter (1751). Não é caso único neste estranho mundo que um homem se torne imortal pelas mais inusitadas razões. Outro exemplo é Métrocles, que ter-se-á peidado na estreia como orador junto dos seus camaradas cínicos. Tanta foi a vergonha que quis fechar-se para sempre em casa numa derradeira greve de fome. Acabou por ser salvo da morte por Crates, depois de este lhe oferecer tremoços explicando-lhe que um peido era algo de que não devia envergonhar-se por ser a mais natural das manifestações humanas. E então o próprio Crates se peidou.
   Salvo da fome por tremoços, Métrocles fixou-se para sempre na História da Filosofia por um peido. Se julgais, minhas filhas, ser de pouca monta o feito, pensai bem antes de cederdes a julgamentos precipitados. Para nos explicar a relevância da flatulência escreveu Hurtaut A Arte de Dar Peidos (Orfeu Negro, Novembro de 2010). Jorge Lima Alves, no preâmbulo à edição portuguesa, chama-lhe “poeta dos gases” e “sábio da flatulência”, expressões modestas para classificar o verdadeiro alcance deste Ensaio teórico-físico e metódico. São onze capítulos espirituosos e de indubitável rigor científico que esta obra oferece, permitindo-nos, desde logo, entender que «Dar peidos é uma arte e, por conseguinte, algo útil à vida, como afirmam Luciano, Hermógenes, Quintiliano, etc» (p. 19).
   Não sendo fácil cotejar a alusão com as fontes, parece-me compreensível que em nada mudaria nossa opinião acerca destas matérias se concluíssemos que etc jamais proferiu as afirmações que Hurtaut lhe atribui. A verdade é que pelo peido toda a humanidade se liga, sem olhar a género, etnia, estrato social, idade. Trata-se não apenas da mais universal e democrática das manifestações humanas, como também a prova que desmascara as peneiras e desfaz, por assim dizer, a cagança. Da definição alargada de peido ao problema das suas origens, passando pela divisão e estratificação dos mesmos quanto a volume e fragrância, Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut não esgota o tema assumindo as despesas de um potencial estético que não devemos descurar:

Um cientista alemão propôs uma questão difícil de resolver: saber se é possível haver música nos peidos. Respondemos com convicção: com certeza que há música nos peidos ditongos. Não esse tipo de música que se produz com a boca ou recorrendo a um qualquer artefacto, como um violino, uma guitarra, um cravo, etc., mas a que se obtém soprando, por exemplo, numa trompa ou numa flauta. A fim de provar o que afirmo, citarei o exemplo de dois rapazes que se divertiam, realizando, de vez em quando, concertos singulares, aos quais assisti na minha qualidade de colega de turma dos actores. Um deles arrotava a seu bel-prazer, nos mais variados tons, enquanto o outro se peidava com o mesmo talento. Este último, para dar mais elegância ao seu instrumento, punha no chão da sala uma pequena bacia para coar queijos, sobre a qual estendia uma folha de papel. Sentava-se em cima dela, nu, e, meneando as nádegas, soltava sons orgânicos de todo o género. Ouso afirmar que um habilidoso mestre de música poderia ter extraído daqui noções originais e dignas de ser transmitidas à posteridade, e de passarem a figurar nas regras da composição. Poderiam igualmente ser anotadas no modo diatónico, na condição de se proceder por uma dimensão pitagórica.

Das lições que podeis reter deste ensaio satírico, guardai esta: o riso é uma das armas mais eficazes contra o preconceito, faça-se ele ou não acompanhar da música do traseiro.  

HELLER IN PINK TIGHTS (1960)



   A história divide-se quanto aos méritos do realizador George Cukor (1899-1983). O mesmo não sucede quando está em causa o bom gosto que mostrou na selecção de actrizes. Em My Fair Lady (1964), que lhe valeu um Oscar, filmou Audrey Hepburn. Katharine Hepburn foi por ele filmada antes, em The Philadelphia Story (1940). Uma das estrelas de Gaslight (1944) é Ingrid Bergman. Já em A Woman’s Face (1941) o protagonismo foi para Joan Crawford. As mulheres são a figura central dos seus filmes, como facilmente se comprova percorrendo os títulos que assinou enquanto realizador. Um deles é o mal-amado Heller in Pink Tights/Agarrem Essa Loira (1960), com a mais bela das actrizes de todos os tempos no papel principal: Sophia Loren. Infelizmente, com o cabelo pintado de louro. Mas já lá iremos.
   Convém lembrar que Cukor começou na Broadway. Só posteriormente migrou para Hollywood, levando na bagagem a ligeireza da comédia e a alegria do musical. O historiador e crítico francês Georges Sadoul, sempre severo para com os maneirismos da indústria norte-americana, foi bastante generoso para com a obra do autor de A Star Is Born (1954), sublinhando-lhe as “excelentes adaptações”. A acção de Heller in Pink Tights (a ironia do título perde-se na versão portuguesa) decorre no Antigo Oeste, sendo algo forçoso considerar-se este um filme do género western se nos cingirmos a uma perspectiva convencional. O desvio dos padrões fica patente logo na cena de abertura, com dois carroções em fuga, não de um batalhão de índios selvagens, mas de dois senhores bem compostos e respeitadores da delimitação dos mandatos judiciais. E quem segue nos carroções? Uma companhia de teatro. E quem os persegue? Só mais tarde saberemos.
   Podemos no entanto adiantar que algures entre a comédia de costumes e o romantismo inerente ao estilo, a companhia de teatro significa neste contexto muito mais do que uma mera trupe ambulante a fazer pela vida. A luta pela sobrevivência da companhia a cargo de Thomas Healy, interpretado por Anthony Quinn, tem no seu seio uma aliada fortíssima, uma arma tão poderosa como as que Jesse James e Wyatt Earp usavam para fins diversos. Essa aliada chama-se Angela Rossini, simplesmente Angie para os amigos, bela, provocante, sedutora, irresistível. E quem menos capacidade mostra para lhe resistir torna-se sua presa, estejamos nós a falar de empresários do mundo do espectáculo, empreendedores corruptos ou assassinos a soldo. Tal como na mesa de póquer ela aposta-se a si mesma, na vida o jogo estabelece-se constantemente nas jogadas de risco e no bluff. Poderia a vida de uma actriz no Old West ser de outra maneira?
   Neste filme que na era Harvey Weinstein seria politicamente incorrecto, desde logo pelo papel de assédio que aqui recai sobre a mulher, não com carga negativa, mas como arma a seu favor, os produtores são quem mais se ridiculariza. Era típico da época, aliás, como também sublinha Sadoul na sua História do Cinema Mundial, ao lembrar as comédias ligeiras que faziam o público acreditar no sonho americano e ofereciam dos milionários a imagem de «inocentes patetas cuja extravagância não excluía nem a caridade nem a bondade». Agarrem Essa Loira encaixa que nem uma luva neste tipo de leituras, não sendo por isso que perde o seu interesse.
   Sophia Loren lá está, na graça dos seus 26 anos, com um sotaque italiano irresistível, olhos penetrantes, linhas curvas tão naturais quanto o seu sorriso contagiante. E Anthony Quinn, que um ano antes tinha contracenado com Kirk Souglas no magnífico Last Train from Gun Hill (1959), surge agora com as fragilidades típicas de um amante das artes, sem qualquer domínio sobre a realidade, sonhador, utópico, incapaz de disparar uma arma. E acrescente-se que o filme tem a sua origem numa história de Louis L’Amour, sem dúvida um dos escritores que mais se dedicou a reescrever a mitologia do faroeste.  

UM POEMA DE JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA

À BEIRA DO LAGO DE TIBERÍADES

Aquele rapaz judeu, daqui, da Galileia,
que os romanos mataram para exemplo,
que curava pessoas, contava histórias,
aos que já não precisavam de as ouvir
por já acreditarem nele, enquanto
os descrentes, mais cegos e mais surdos
ficavam perante a luz e o som; esse rapaz,
nunca veria a beleza possível da justiça?
Seria todo ele, e só, amor divino?
Não vou discutir se era deus ou não.
A ideia de ter vindo para nos salvar,
sofrendo por todos, por amor de todos,
é uma ideia bonita, forma pregnante, fértil,
fundadora das nossas vidas ocidentais,
que já leva dois mil anos de carreira;
e quase que me levava pelo mito fora,
não fosse o pormenor, tantas vezes despercebido,
de o corpo escolhido para sofrer por todos
ser, como quem não quer a coisa, um corpo judeu.
Nisto, o meu coração tropeça, e desconfia.
Se a salvação depende do sofrimento dum judeu,
então não a quero, deus me livre de salvações destas.
E também não quero um mundo de amor puro
em que o Hitler e o imperador Constantino
que matou o filho, cozendo-o como uma lagosta,
tenham o mesmo lugar no seio da misericórdia
do que a Dona Ana, que enlouqueceu de dor e desamor,
ou aquela puta de olhos tão duros e tristes,
ou eu com sonhos de matar cavalos feridos.
Aliás, contam os sábios de Israel, que deus tentou
fazer o mundo só com amor, e a coisa não pegou;
tentou fazer o mundo só de justiça, e foi ainda pior.
Terá, então, feito este mundo que há, de mistura explosiva.
E é o que temos, e que talvez possa melhorar.
A dever escolher entre os dois mitos, prefiro o último,
mas compreendo que este mar de luz sobrenatural
deixe imensas saudades de um amor puro.


João Paulo Esteves da Silva, in Dois Bois e Uma Arma na Mão, Douda Correria, Abril de 2018, s/p.

GRAMÁTICA RACIAL


Se agentes da autoridade ameaçarem dirigentes políticos por delito de opinião choca menos do que “a bosta da bófia” é porque o Estado de direito já não nos interessa muito. Se quem nos deve proteger nos ameaça, só porque deles não gostamos, dificilmente podemos achar que vivemos numa democracia. E se nada acontecer aos agentes de forças de segurança que fizeram estas ameaças públicas (e privadas) temos boas razões para acreditar que ninguém defenderá Mamadou Ba

Daniel Oliveira, aqui. Tenham a gentileza de ler tudo.

Adenda: para conhecer melhor Mamadou Ba, ouvir aqui.