sábado, 5 de janeiro de 2019

O MELHOR DOS LIVROS EM 2018


Lê-se pouco e mal em Portugal. Em não chegando a percepção de amigos que andam lá por fora, podemos sustentar a conclusão com estudos sociológicos internos: «Apesar de concordar que os hábitos de leitura aumentaram, 68 por cento dos portugueses considera que no país se lê menos do que no conjunto da União Europeia. (…) A maior parte dos inquiridos, 79 por cento, reconhece a utilidade da leitura, enquanto menos da metade, 44 por cento, afirma ter hábitos de leitura». O que significa que 56% dos inquiridos afirmam não ter hábitos de leitura. Quem diz a verdade não merece castigo. Mas dos que dizem tê-los, quais serão os seus hábitos? O livro mais vendido em 2018 na livraria onde trabalho foi “A Arte Subtil de Saber Dizer Que se Foda”. Em 2017 foi o das piadas secas. Venha o diabo e escolha. Descontando livros de leitura obrigatória, lá aparecem no top José Rodrigues dos Santos, Ricardo Araújo Pereira, Nicholas Sparks, Raul Minh’Alma e a youtuber Sea3PO. Sejam bem-vindos aos hábitos de leitura dos portugueses. O cenário é tanto mais preocupante quanto de dia para dia nos confrontamos com o encerramento de livrarias ditas independentes, aquelas onde o livro de uma forma geral, por não estar sujeito às regras do marketing contratado, tem alguma oportunidade de exposição. Na maior rede de livrarias do país o espaço encurta-se, os duplos, triplos e quíntuplos facings absorvem território como o mar come a terra. Há um grave problema ambiental no mercado livreiro português. Aguardem pelas redes de arrasto da Amazon que a coisa ainda ficará mais bonita. Dito isto, vamos às escolhas do ano para a Antologia do Esquecimento (foi consultada para o efeito uma vasta lista de personalidades, entre as quais se inclui um cadáver escrevente):

Melhor Cinta

Lucia Berlin, “Anoitecer no paraíso”, trad. Ester Cortegano, Alfaguara, Novembro de 2018.

Ano fraco em matéria de cintas, quase sempre correctivas ou chamando atenção para prémios e adaptações telecinematográficas. Lucia Berlin é a contista do momento. Merece, depois da vida que teve. Acontece aos melhores só serem lembrados quando já não respiram.

Melhor Sobrecapa

Umberto Eco, “Aos Ombros de Gigantes”, trad. Eliana Aguiar, Gradiva, Outubro de 2018.

Certamente um dos livros do ano. A capa rija, envolta em sobrecapa mole, confere-lhe uma dignidade em concordância com o estatuto de Umberto Eco. Lá para o final, refere-se o autor aos êxtases místicos da salesiana Marguerite Marie Alacoque. É de dar a volta ao estômago.

Melhor Capa

Henry David Thoreau, "Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack", trad. Luís Leitão, Antígona, Janeiro de 2018.

O primeiro livro do grande mestre chegou finalmente às livrarias portuguesas. Carolina Celas é a autora da ilustração de capa, onde tudo se equilibra em honra de Thoreau. O verde da natureza, o barquinho cor de fogo, o azul nas letras do título. Como um céu.

Melhor Contracapa

Rui Caeiro, “Diálogos Marados/Um Maluco Vem Pousar-me Na Mão”, Livraria Snob, Março de 2018.

Para sermos exactos, não há capa nem contracapa neste pequeno mas agradabilíssimo livro. Trata-se de um 2 em 1, pelo que a capa tanto pode ser contra como a favor. De um lado memórias com poesia, do outro poesia com memórias. Pequenas histórias.

Melhor Primeira Badana

Julio Cortázar, “Os Prémios”, trad. Isabel Petermann, Cavalo de Ferro, Março de 2018.

Em matéria de badanas o ano também foi fraco, pelo que me sinto obrigado a ceder ao convencional. O primeiro romance publicado por Cortázar chega-nos pela mão da Cavalo de Ferro, com uma primeira badana generosa que não esqueceu a fotografia do autor e uma acutilante síntese da sua obra.

Melhor Segunda Badana

Charles Bukowski, “Os cães ladram facas”, trad. Rosalina Mashall, Alfagura, Novembro de 2018.

Com selecção de Valério Romão, esta antologia da poesia do maldito norte-americano vem preencher uma lacuna nas poucas estantes portuguesas onde cabe poesia traduzida. Na segunda badana optou-se pela reprodução de um poema pedagógico que aqui resumimos em quatro versos: «Vai ao Tibete. / Anda de camelo. / Lê a bíblia. // (…) Mas não escrevas poesia.»

Melhor Lombada

Vitorino Neméio, “Poesia (1916-1940)”, Companhia das Ilhas/IN-CM, Setembro de 2018.

Mistério que não me cabe decifrar: como é que a imprensa portuguesa dita da especialidade persiste em não fazer caso dos esforços levados a cabo por uma pequena editora sediada no Pico? O primeiro volume das anunciadas Obras Completas de Vitorino Nemésio aí está, em lombada elegante e irrepreensível. Tendo em conta a relevância do autor, não é apenas grave o descaso nas listas de fim de ano. É pura incompetência.

Melhor Guarda

Yannis Stiggas, “Exupéry significa perder-se”, trad. José Luís Costa, Douda Correria, Abril de 2018.

Um grego contemporâneo entre nós, graças à mais prolífica das editoras marginais portuguesas. As ilustrações são de Tiago Cutileiro, com base no mito de Pégaso. Um verso: «No fundo, o que mais me interessa são as coisas partidas».

Melhor Corte Superior

Herberto Helder, “em minúsculas – crónicas e reportagens de Herberto Helder em Angola”, Porto Editora, Abril de 2018.

Com um império alicerçado na produção de livros escolares, a Porto Editora imbuiu-se de espírito de missão e açambarcou para si a obra de Herberto Helder. Em 2018 recuperou textos jornalísticos publicados entre 1971 e 1972. Que mais irá recuperar, é dúvida que não nos assiste.

Melhor Corte Dianteiro

António Cabrita, “Oitenta flechas para atrair a cotovia – Livro I”, Douda Correria, Abril de 2018.

Surge anunciado como o primeiro de vários volumes cuja missão consistirá em reunir a obra poética de António Cabrita. O editor diz que o autor é o maior dos vivos entre nós. O autor diz que se pudesse não tinha escrito estes livros, foram-lhe impostos. Bem-aventurada servidão.

Melhor Corte Inferior

Eduardo Quina, “Maligno”, Cosmorama, Maio de 2018.

Quase tudo é negro neste pequeno livro, editado com descrição mas inquestionável devoção à arte poética. Nele se retoma a questão levantada por Adorno acerca das possibilidades da poesia depois de Auschwitz. A poesia morreu? A poesia não interessa? Será possível a poesia?

Melhor Folha de Guarda

Valério Romão, "Cair Para Dentro", Abysmo, Fevereiro de 2018.

O homem do ano para a revista não sei quantos é autor de um dos melhores romances do ano em língua portuguesa. A edição cuidada da Abysmo abre com um caderno de ilustrações de Alex Gozblau que resulta numa belíssima síntese do excelente título “Cair Para Dentro”.

Melhor Folha de Rosto

Hugo Milhanas Machado, “Um longo tempo nos pulos do mar”, com ilustração de Patrícia Guimarães, Douda Correria, Fevereiro de 2018.

Nesta entusiasmante incursão pela prosa, Hugo Milhanas Machado não se afastou um milímetro do seu universo solar: praia, férias, pescadores, amigos, mar. Os movimentos marítimos oferecem ritmo aos textos, que se lêem como quem flutua. Belíssima solução para a folha de rosto, numa composição assinada por Joana Pires.

Melhor Dobra

Rui Baião, “qb”, Sismógrafo, grafismo de Paulo da Costa Domingos, Dezembro de 2018.

A derradeira grande surpresa de 2018 foi-nos reservada por um poeta avesso à exposição. Trata-se de uma folha-volante, integrada na Colecção Panorama coordenada por Paulo da Costa Domingos e por Óscar Faria. Uma folha A3 dobrada em 8 partes, um poema.

Melhor Formato

António Miranda, “Só Esperava a Viagem Prometida”, volta d’mar, Junho de 2018.
Joseph Brodsky, “Marca de Água — Sobre Veneza”, trad. Ana Luísa Faria, Relógio D’Água, Janeiro de 2018.

Dois formatos semelhantes que representarem realidades distintas: os livrinhos de poesia da marginal volta d’mar e a colecção de literatura de viagens da Relógio D’Água. Em ambos coincide a temática da viagem. O livro de Brodsky é uma pérola que não pode passar despercebida.

Melhor Impressão

Amalia Bautista, “Coração Desabitado”, trad, Inês Dias, Averno, Maio de 2018.

Já não é novidade para ninguém o cuidado e o amor que a Averno coloca nos livros que vai editando. Com desenhos de Débora Figueiredo, esta antologia de Amalia Bautista está entre o que de mais respirável se vislumbra no claustrofóbico ambiente nacional.

Melhor Miolo

Manuel Resende, “Poesia Reunida”, Edições Cotovia, Abril de 2018.

O gesto de reunir a poesia de Manuel Resende é em si mesmo um acontecimento. Acompanhados, no final, por um ensaio de Osvaldo M. Silvestre, estes poemas voltam a ter uma mais que devida oportunidade. Clique na imagem para conferir.

Melhor Título

Valério Romão, "Cair Para Dentro", Abysmo, Fevereiro de 2018.
Nuno Dempster, “Há rios que não desaguam a jusante”, Companhia das Ilhas, Outubro de 2018.

Um ex aequo. O encerramento de uma trilogia de Valério Romão e a estreia no romance do poeta Nuno Dempster. Sobre o primeiro já tudo foi dito, sobre o segundo ainda não ouvi nada a ninguém. Dada a extensão do volume, damos o benefício da dúvida. Aguardemos.

Melhor Dedicatória

António Cabrita, “A Paixão Segundo João de Deus”, Editora Exclamação, Maio de 2018.

Toda esta paródia de António Cabrita é uma homenagem ao universo do cineasta João César Monteiro. Assim sendo, poderei considerar o livro inteiro uma extensa dedicatória. Não lhe fica mal, até pelo assumido gesto lúdico do texto.

Melhores Epígrafes

Fernando Machado Silva, “Um Espelho Para Reproduzir as Mutações da Vida”, Companhia das Ilhas, Abril de 2018.
Eduardo Galeano, “Espelhos – Uma História Quase Universal”, trad. Helena Pitta, Antígona, Junho de 2018.

Como se escolhe uma epígrafe? Buscando síntese ou mote, testemunho por identificação, referência, assumida influência. A seu tempo, dedicarei maior atenção a estes dois livros. Resta esclarecer que a do lado esquerdo é do Silva, a do direito reporta ao Galeano. Clique para ver melhor.

Melhores Agradecimentos

Tatiana Faia, “Um Quarto Em Atenas”, Tinta-da-China, Janeiro de 2018.

Foi o livro de poesia portuguesa contemporânea que mais gostei de ler durante o ano que passou. A diferença entre o que considero ser poesia e fogo-de-artifício podia ser explicada através de uma leitura comparada entre dois livros desta mesma colecção. Infelizmente não tenho tempo. Nos agradecimentos finais, a autora faz o sublinhado acima reproduzido.

Melhor Prefácio & Melhor Posfácio

Eduardo Guerra Carneiro, “Mil e Outras Noites”, prefácio e posfácio de Vitor Silva Tavares, Língua Morta, Maio de 2018.

Foi o livro de poesia que mais gostei de ler em 2018. O prefácio e o posfácio são involuntários, resultam de uma inteligente opção editorial. Ninguém melhor que Vitor Silva Tavares para alumiar Eduardo Guerra Carneiro. De ambos, restam-nos as palavras. E não é pouco.

Melhor Nota de Rodapé

José Sesinando, “Obra Perfeitamente Incompleta”, Tinta-da-China, Junho de 2018.

José Sesinando, isto é, José Palla e Carmo, é um desconstrutor por excelência. Incluído na colecção de humor coordenada por Ricardo Araújo Pereira, o tal que salva os tops da absoluta mediocridade, este livro está repleto de excelsas notas de rodapé. Fica uma, ao alto, como mera ilustração. Clique-se.

Melhor Sumário

Sam Shepard, “Espião na Primeira Pessoa”, trad. Salvato Telles de Menezes, Quetzal, Agosto de 2018.

Um livro que é uma comoção, todo ele perfeito. Podia levar também os prémios de melhor capa, melhor formato, etc.. O sumário vem no fim e reproduz-se aqui. Shepard foi um dos autores que, a dada altura, mais influenciou a escrever contos este vosso anfitrião. Portanto, respect.

Melhor Cólofon

COPO, “Poesia de Entretenimento Científico”, Boca, algures num mês de 2018.

Que me recorde, foi o pior ano em matéria de “colofões” desde que me meti nesta aventura. Podia ter-me metido nas drogas, o que seria bem melhor. Neste livrinho amistoso, a última página reproduz índice, ficha técnica, agradecimentos. Consideremos colofão o CD apenso no final.

Melhores Colecções

Colecção Mão Dita, Abysmo.
Série mundo da Colecção azulcobalto/teatro, Companhia das Ilhas.

Poesia e teatro, duas formas resistentes no campo de batalha do mercado literário. Se poucos compram poesia, quase nenhuns lêem teatro (quanto mais comprá-lo). Neste caso, o teatro tem ainda contra si não ser facilmente partilhável através do copy que a poesia inspira nas redes sociais. Parabéns à Abysmo por insistir na poesia, parabéns à Companhia das Ilhas por insistir no teatro.

Melhor Bibliografia

Gary Snyder, “A Prática da Natureza Selvagem”, trad. José Miguel Silva, Antígona, Julho de 2018.

Não é extensa, mas está recheada de bons e nutritivos conselhos. Serve a categoria igualmente, confessemos, para recordar um dos melhores livros publicados entre nós no ano que passou. Convém lê-lo e divulgá-lo antes que por incúria e politiquices deixemos que dêem cabo da maior de todas as nossas mães.

Melhor Tradução

Henri Michaux, “Moriturus e Outros Textos”, trad. Rui Caeiro, Língua Morta, Abril de 2018.

Num ano que terminou agitado em torno das traduções de Rimbaud, talvez fizesse sentido olhar comparadamente para as que foram sendo dedicadas a Henri Michaux. Esta edição de “Moriturus” recupera textos já anteriormente publicados em português e junta-lhe outros. Escutemos o tradutor: «não é nada fácil traduzir a poesia de Henri Michaux, dar em português a frescura e o terror do seu universo, das suas imagens». Rui Caeiro foi mais um a tentar. Agradecido.

Melhor Ilustração de Capa

Cláudia R. Sampaio, “Outro nome para a solidão”, com ilustrações da autora, Douda Correria, Novembro de 2018.

Mais do que a ilustração em si, surpreendeu-me a autoria da mesma. Desconhecia o duplo talento de Cláudia R. Sampaio. Uma ilustração de capa que vem da contracapa, fazendo o percurso invertido que mais convém à poesia.

Melhor Fotografia de Capa

Marta Chaves, “Varanda de Inverno”, com fotografia de Daniel Blaufuks, Assírio & Alvim, Abril de 2018.

Digamos que assim é fácil, Blaufuks é um dos nossos melhores fotógrafos. Mas esta fotografia assenta especialmente bem neste livro de Marta Chaves, por lhe captar o tom nostálgico, o romantismo das sombras, da luz que penetra a escuridão como a palavra o silêncio.

Melhor Texto de Contracapa

José Pedro Moreira, “Gatos no Quintal”, Enfermaria 6, Fevereiro de 2018.

É um dos meus ódios de estimação, a selfie. Prática repugnante agravada pelo uso de um instrumento que dá pelo nome de stick. Já me apeteceu andar à porrada por causa destas coisas. Que um livro de poesia dê tão pertinentes conselhos em texto de contracapa, só pode ser considerado uma lufada de ar fresco. Faça o favor de clicar na imagem, mas depois não se esqueça de colocar em prática.

Melhores Ilustrações

Eduardo Galeano, “As Palavras Andantes”, trad. Helena Pitta, gravuras de J. Borges, Antígona, Junho de 2018.

Miguel Granja, “Simão sem medo”, ilustrações de Beatriz Bagulho, Douda Correria, Outubro de 2018.

Seria injusto esquecer as gravuras de J. Borges, das quais tivemos conhecimento através deste livro de Eduardo Galeano. Mas mais injusto seria não dirigir a nossa atenção para as ilustrações de Beatriz Bagulho. O n.º 3 da colecção Puto Xarila é um mimo a pensar na juventude, mas perfeitamente acessível a gente mais crescida. Uma delícia.

Melhor Índice

Ricardo Tiago Moura, “Cruzes”, Alambique, Outubro de 2018.

Livro enigmático, misterioso, ao qual dedicarei mais atenção em breve. O índice escapa à vulgaridade geral, apelando para um exercício de ligações, cruzamentos, possíveis construções poéticas.

Melhor Qualquer Coisa

Éric Vuillard, “A Ordem do Dia”, trad. João Carlos Alvim, Abril de 2018.

Foi o livro que mais gostei de ler em 2018, sendo muito provável que a ele regresse várias vezes nos próximos tempos. Num texto curto e incisivo, a ascensão do nazismo explicada aos meninos. Devia ser de leitura obrigatória nestes tempos em que o politicamente correcto está a dar asas aos inimigos da democracia.

O Livro do Ano

Amadeo de Souza-Cardoso, “XX Déssins”, Ponto de Fuga, Outubro de 2018.


Ruppert & Mulot, “O Reino”, trad. José Luís Costa, Douda Correria, Março de 2018.

São dois. O primeiro não é bem um livro. Trata-se da edição fac-similada de “XX Déssins”, um álbum de gravuras produzido por Amadeo de Souza-Cardoso, em Paris, no ano de 1912. A edição da Ponto de Fuga procura reproduzir fielmente o original. 
O segundo é um álbum de banda desenhada, 24 páginas num formato monumental, assim tipo edição antiga do jornal Expresso, a dar um ar da vastidão do Universo e da pequenez destes nós que o ocupamos. Só tendo o objecto nas mãos se perceberá a sua real grandeza. Fim.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

#111



Oriundos de Duluth, no Minnesota, os Low são responsáveis por algumas das canções mais lentas e melancólicas dos últimos 25 anos. Publicaram o primeiro álbum em 1994. Sobre o irónico I Could Live in Hope os críticos falaram com entusiasmo, sublinhado a sensibilidade e a austeridade instrumental. Estas foram durante vários anos as características principalmente apontadas ao trio, que partilha na linha da frente as vozes de um casal composto por Alan Sparhawk e Mimi Parker. Ele também toca guitarra e ela é a baterista de serviço. Ao longo dos anos, juntaram-se-lhes vários instrumentistas de proveniências diversas. No mais recente Double Negative (2018) temos Steve Garrington no baixo e Maaike van der Linde na flauta, mas não podemos deixar de notar a influente produção de BJ Burton. Tendo em conta a base electrónica de todo o disco é justo considerá-lo o arranjador invisível por detrás de um álbum que ecoa amiúde experiências já anteriormente levadas a cabo com Bon Iver. Isso nota-se, antes de mais, na manipulação das vozes, as quais surgem sobre ritmos desconstrutivistas gerando atmosferas melódicas celestiais (por vezes lembram canto gregoriano). Temas como FlyAlways Trying to Work It Out e Dancing and Fire (carregado de delays) são o que de mais próximo do formato tradicional de canção encontramos neste álbum. Os restantes temas podem até a espaços soar desconfortáveis, tal a manipulação electrónica a que foram sujeitos. A prova a que o ouvinte fica exposto é a de compreender as formas ocultadas sob um espesso manto de fumo, de modo a que lhe seja possível decifrar o corpo melódico e harmónico dissimulado pelo ruído, pelas atonalidades, pelos ecos e pelas dissonâncias. É, sem dúvida, o mais surpreendente disco dos Low até à data. Como teste, escute-se este Always Trying To Work It Out:

OS DESERTOS REAIS


os desertos reais
os mares imaginários:
não há palavras para elogiar esta magnólia
tampouco há forma de destruir as palavras
ou o ofício de florista

(guardem compostura:
na corda de pendurar agita-se a flor branca)
uma tez de flores de cerejeira
a última gota de sangue
os desertos reais
os mares imaginários
não são comparáveis a esta magnólia

Edgar Bayley nasceu em Buenos Aires no ano de 1919. Dramaturgo, contista, tradutor, foi ainda ensaísta empenhado na defesa das vanguardas. Fez parte da redacção da revista Arturo, órgão fundamental do movimento concreto argentino. Redigiu manifestos opondo-se ao realismo, ao expressionismo, ao simbolismo, defendendo a corrente emergente do invencionismo. Publicou os primeiros poemas na revista Arte Concreto-Invención. Estreou-se em livro com En común (1949). Em 1977, foi-lhe atribuído o Gran Premio de Honor de la Fundación Argentina para la Poesía. O poema acima transcrito foi copiado da Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 125. Versão de HMBF. 

THOMAS HARDY NO CINEMA


Por falar em Thomas Hardy (1840-1928), a Relógio D’Água publicou em 2018 dois romances da sua autoria em Portugal: O Mayor de Casterbridge, que mencionei aqui, e O Pregador Atormentado. Talvez não seja má ideia pegar neles entretanto. Já em 2015, a Presença editou Longe da Multidão. Este foi adaptado ao cinema pelo dinamarquês Thomas Vinterberg (n. 1969), o mesmo de Festen/A Festa (1998). Far From The Madding Crowd/Longe da Multidão (2015) desloca-nos para a Era Vitoriana, numa Inglaterra rural onde o moralismo sexual não se impôs tão veementemente como na cidade dos aristocratas. A história de Thomas Hardy desafia precisamente essa moralidade nos domínios da paixão amorosa, oferecendo a uma personagem feminina o papel principal. Carey Mulligan, que, curiosamente, no mesmo ano deste filme teve um outro desempenho relevante em Suffragette/As Sufragistas (2015), de Sarah Gavron (n. 1970), dá corpo à independente Bathsheba Everdene. Órfã de pai e de mãe, habituou-se a viver sozinha e a desenrascar-se pelos próprios meios. É uma mulher a tentar vingar num mundo de homens. Logo no início, a sequência em que surge montando a cavalo é assaz reveladora da personalidade em causa. A paisagem e os cenários são lindíssimos, a fotografia excelente, mas nem sempre o corpo de actores é convincente. Tom Sturridge, por exemplo, falha redondamente no papel de Sergeant Francis Troy. Não só não tem corpo de militar, como nos gestos mais se assemelha a uma borboleta do que a um oportunista. É um dos três pretendentes a Bathsheba, juntando-se ao fiel pastor de ovelhas Gabriel Oak (Matthias Schoenaerts) e ao riquíssimo, mas solitário, latifundiário William Boldwood (Michael Sheen). Deste será o desempenho mais convincente. Os três quase nunca estão em conflito entre eles, o conflito processar-se-á dentro da cabeça e no interior do coração da livre, autónoma e independente Bathsheba. Dando ares de história de princesas, Far From The Madding Crowd tem o final que se prevê em todos os dramalhões românticos. Não obstante, o argumento em si não me parece ser o mais relevante neste filme. O olhar de Thomas Vinterberg, esse sim, merece ser relevado, por através dele nos serem oferecidos ambientes e paisagens de um naturalismo encantador. A banda sonora é de Craig Armstrong.

AUDIÊNCIAS



Vale tudo na guerra das audiências. Começamos o ano a promover como espectáculo e entretenimento o líder dos neonazis portugueses. A ascensão da extrema-direita no mundo está associada a estes mecanismos de solidariedade, como facilmente se tem percebido nos últimos tempos mas já sabia quem lê livros de história. O canal defender-se-á com a bandeira da informação. Nestes casos, julgo mesmo que quanto menos barulho melhor. Importa mais chatear e pressionar quem está por cima, com descrição mas eficácia, do que mergulhar numa dinâmica de ruído que apenas favorecerá o animal ávido de audiências. Numa sociedade de príncipes, há que aprender a ser príncipe. Estamos todos obrigados à hipocrisia nos tempos futuros. A imagem foi captada há dias em Castelo de Vide.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A MORTE DIFÍCIL


A obra é curta, como o foi a vida. René Crevel (1900-1935) suicidou-se quando ainda não tinha completado 35 anos de vida. “Na nossa família suicidamo-nos muito”, é uma das suas frases que ficou. Por ser verdadeira, literal. O pai enforcou-se em 1914, e Crevel conta no mais célebre dos seus livros, o segundo, publicado em 1925, que «a obsessão do suicídio permanecerá (..) como a melhor e a pior garantia contra o suicídio» (O Meu Corpo e Eu, Sistema Solar, Outubro de 2014). Já antes, Aníbal Fernandes, a quem devemos o esforço de divulgação desta obra em Portugal, tinha mencionado na apresentação de As Irmãs Brontë, Filhas do Vento (Assírio & Alvim, Abril de 2005) que Crevel fora obrigado pela mãe a ver o corpo do pai enforcado. A impressão ter-lhe-á ficado, então, como uma obsessão, uma impressão incrustada na mente, cinzelada no corpo pela dor, expandida pela obra que pode toda ela ser lida como uma espécie de carta de despedida.
A Morte Difícil, o terceiro livro, foi originalmente publicado em 1926. Nesta versão portuguesa da Sistema Solar, datada de Outubro de 2018, Aníbal Fernandes brinda-nos novamente com uma apresentação impagável que aclara a relação profunda e conflituosa do autor com o surrealismo e com o comunismo. Razões de ser do conflito: desde logo, a homossexualidade manifesta; depois, a mania dos romances. A Morte Difícil não esconde nada. Antes pelo contrário, parece querer mostrar tudo. O jovem Pierre Dumont é a personagem central. Burguês de herança, é filho de um coronel que a sífilis enlouqueceu condenando-o a escrever repetidamente a mesma carta a Madame de Pompadour. Se a loucura do pai merece de Pierre alguma condescendência, por lhe garantir um quotidiano menos entediante, já o burguesismo da mãe só lhe inspira desprezo. Madame Dumont-Dufour também não tem a melhor opinião do filho, que começa por censurar pelas más companhias. A excepção talvez pudesse ser Diane, filha da “irmã na miséria” Madame Blok. Viúva de um suicida.
Mas Diane também «anda sempre por montes e vales entenda-se por isto o cinema, o teatro, a casa de amigos e Deus sabe que outros lugares» (p. 20). Extraordinariamente irónico, o primeiro capítulo do livro oferece espaço à perspectiva das duas mães apoquentadas. Esposas falhadas, investem nos filhos todo o seu desespero. O que as separa dos filhos não é apenas geracional, tem que ver com modos de encarar a vida e as paixões. Se para Madame Dumont-Dufour e Madame Blok o amor é sujo e cheira mal, para Pierre e Diane é uma aventura que merece ser explorada para lá de qualquer limite. A transgressão estimula-os, o gozo da transgressão é um valor que permite superar o tédio forçado pela família. Degenerado, diz Madame Dumont-Dufour do filho. Por causa das drogas que o acusa de tomar e das más companhias que lhe censura, entre os quais esse vadio vindo das Américas de seu nome Arthur Bruggle. O vadio que Pierre ama.
Neste romance, René Crevel persegue a sua personagem como a sombra persegue o corpo. Guia-nos de um estado de ironia e aparente autoconfiança até à dissolução de um ser fragilizado, desintegrado, só. O percurso é o da ilusão do amor ao amor desiludido, do qual restará apenas confusão e desespero. Entediado com o “folclore de família”, Pierre Dumont corta relações com a mãe para se lançar nos braços do amado. Mas esses braços querem-se livres, soltos, sem fardos. Afasta-se de Diane como a sensatez se afasta na mente de um louco: «Diane sabe tudo, pelo menos tudo o que Pierre deve fazer, ver, ouvir, ler para se sentir feliz. Diane é o bom senso de Pierre, que se enternece e pensa ter acabado por encontrar nela a felicidade» (p. 75). Interrogamo-nos até que ponto esta herdeira de um suicida não possa ser uma das faces do rosto dividido e atormentado de Crevel: «a obsessão do suicídio permanecerá (..) como a melhor e a pior garantia contra o suicídio».
Em qualquer uma das faces predomina uma necessidade de libertação, ambas surgem acorrentadas a forças exteriores que condicionam o ser. Se o suicídio é o problema filosófico por excelência, talvez o seja precisamente por esta razão. Talvez na consciência daquele que se mata a morte surja como a única via possível para a liberdade absoluta. Daí que os surrealistas o tenham acolhido com especial eloquência. A necessidade tem na liberdade o seu elemento essencial, o artista respira dela como apenas do ar vivem as pessoas vulgares. E Pierre, como a páginas tantas se afirma, tem dificuldades de respiração. O ciúme entope-lhe as vias respiratórias, deixá-lo-á só e desamparado, em contradição consigo mesmo. O final é previsível: «Agradeçamos portanto aos senhores nossos pais. Ao teu o suicídio, ao meu a loucura» (p. 153), diz Pierre a Diane.

CYBERPUNKS E COWBOYS


Chego finalmente a The Girl With The Dragon Tattoo/Millennium 1: Os Homens Que Odeiam as Mulheres (2011), adaptação de David Fincher (n. 1962) do primeiro volume da famigerada trilogia do nórdico Stieg Larsson. Se não sou especialmente fã do género em livro, aprecio-o sobremaneira em filme. E Fincher já nos ofereceu garantias de qualidade. A sua linguagem começa por ganhar consistência na realização de videoclips, sendo a música uma das componentes mais fortes transportada desse universo para a longa-metragem. Filmes como Alien 3 (1992), Se7en (1995), The Game (1997), Panic Room (2002) e Zodiac (2007) ajudaram a consolidar a aura de mestre do suspense nos nossos tempos. The Girl with the Dragon Tattoo tem contra si Daniel Craig no papel do jornalista Mikael Blomkvist. É uma embirração pessoal, aqui justificada pelos inegáveis tiques de agente "double 0 seven" de que o autor não se conseguiu libertar. O tom ligeiro do agente ao serviço de sua majestade não convém nada ao jornalista caído em desgraça do romance de Larsson. Felizmente estão por perto Christopher Plummer e Stellan Skarsgård para salvarem a honra do convento. E, mais que todos, acima de todos, está a surpreendente Rooney Mara no papel de Lisbeth Salander, tão fragilzinha que parece nas fotografias, tão vigorosa que se apresenta na tela. Gosto destas personagens desviadas com uma sabedoria acima da média, tipos com historiais de vida desgraçados que se revelam inteligentíssimos contras as expectativas mais doutrinais do comportamento. Recordo, a título de exemplo, o Good Will Hunting (1997) de Gus Van Sant (n. 1952). A Lisbeth Salander a quem Rooney Mara oferece consistência é uma dessas personagens onde a fragilidade e a capacidade de resistência estão em constante duelo, jamais sendo perceptível qual delas poderá sair vencedora porque, no final, a solidão tomará conta de ambas. O crime desvenda-se, mas a heroína da história acaba só. Bom final.

Também vi ontem, pela primeira vez, The Claim/Ameaça do Passado (2000), incursão de Michael Winterbottom (n. 1961) pelo western. Do realizador britânico recordo com especial interesse 24 Hour Party People (2002), recriação do ambiente explosivo que esteve na origem da cena musical de Manchester. Curiosamente, The Claim é anterior. A história baseia-se num livro de Thomas Hardy (1840-1928) que já tinha inspirado uma série de televisão em 1978 e um filme, também para televisão, em 2003, com o título original The Mayor of Casterbridge. Winterbottom parece ter uma predilecção pelo pessimista inglês, já que em 1996 adaptou-lhe outro romance com o filme Jude. The Claim transporta-nos para dois temas complementares na história do western, a chamada febre do ouro e a monumental construção da ferrovia. Algures num pequeno povoado atapetado de neve, um pioneiro troca a mulher e a filha bebé por uma concessão onde pretende encontrar ouro. Mais tarde, rico e com toda a povoação local a seus pés, é revisitado pela ex-mulher e pela filha já crescida. Só ele e a ex-mulher sabem do sucedido, encontrando-se esta gravemente doente. Nastassja Kinski, que até a vomitar sangue não perde a compostura, é a Elena Dillon outrora trocada por ouro. Peter Mullan tem a seu cargo o exigente papel de Daniel Dillon, mas falta-lhe estaleca. O homem atormentado pela consciência do passado nunca surge convincente. Quem também não passa despercebida é Milla Jovovich, no papel muito justo e agradável de se contemplar de dona de bordel. Infelizmente para nós, Winterbottom coloca-a a cantar fado em duas cenas de péssima memória. Wes Bentley vacila como um sinal intermitente na postura determinada a que está obrigado e na figura de galã desenxabido a que as circunstâncias obrigam. A música de Michael Nyman, neste caso, também não ajuda. Ao desviar-se dos excessos de violência tantas vezes acusados no western, Michael Winterbottom resvala para um excesso de romantismo nada cativante. Num género que se quer essencialmente apaixonado, ele moraliza. São demasiados os coitadinhos, os casamentos improváveis, os amores inverosímeis. Neste sentido, tem mais de western a personagem de Lisbeth Salander do que qualquer uma das aqui representadas.

UM POEMA DE RAQUEL SALAS RIVERA


PENETRO

meu braço é o órgão potente da minha feminidade
posso chegar até ao fígado com o meu braço

quando aponto [estando dentro de mim] posso sangrar-me
posso criar um [crac] buraco na minha saúde
por onde sairão líquidos fermentadores
emprenharão o rio com seus
ajustes odoríficas suficiências

agarrajuste dor-madura

desgarrei teu sol de seu segundo centro sombra(terra)
e quando tanto pó-luz far-se-á do mundo
levar-nos-á ao túmulo predilecto e far-nos-á amor
após nos enfiar o dedo do meio como um sinal comum


Raquel Salas Rivera (n. Mayagüez, Porto Rico, 1985) publicou o primeiro livro em 2011: Caneca de anhelos turbios. Fixou-se nos EUA, onde estudou Literatura Comparada. Grande parte da sua obra tem surgido no país de acolhimento em edições bilingue. São disso exemplo os volumes oropel/tinsel (2016), lo terciário/the tertiary (2018), nomeado para o National Book Award, e x/ex/exis (poemas para la nación), vencedor do Ambroggio Prize da Academy of American Poets. É co-editora da revista The Wanderer e poeta laureada da cidade de Filadélfia. O poema acima reproduzido foi copiado do primeiro livro da autora publicado em Portugal: Desdomínios (Douda Correria, Julho de 2019). Sobre esta poesia, diz o tradutor Mariano Alejandro Ribeiro: «Na sua poética, o género deixa de ser uma definição para passar a ser uma questão, uma questão que se estende pelos meandros dos seus versos a temas que vão da política ao amor, em tons mais bucólicos ou em tons mais violentos, sem nunca deixar de estar latente, inclusive nas formas mais inusitadas, a representação do género nas experiências do quotidiano». 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

MUDAR DE VIDA


Há um padrão nestas histórias que preenchem rubricas de telejornal, revelam invariavelmente pessoas mudadas da cidade para o campo. Não se poderá mudar de vida de outra forma? Por onde andam as pessoas que mudaram de vida deslocando-se do campo para a cidade? Gostava de ver essas histórias nos telejornais, histórias de gente grande em lugares pequenos que pensa grande.

MAIS UM POEMA DE EDGAR BAYLEY



NÃO POSSO DIZÊ-LO DE OUTRO MODO

virá um dia um dia virá um dia
haverá um dia
uma manhã
e teremos o que fomos somos
houve um dia
um boto
um escabelo um pâmpano no ar
não posso dizê-lo de outro modo

quando me ponho a falar destas coisas
a minha intenção é ser muito claro e muito resoluto
não posso dizê-lo de outro modo
virá um dia um dia virá um dia
uma manhã
e tudo será muito claro e muito desperto

Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 124. Versão de HMBF. 

OS MORTOS



Entre balanços, repete-se o dos que foram desaparecendo ao longo do ano. Prática de uma nostalgia lúgubre, enrolada no manto confortável das memórias devidas, a lista convoca num mesmo saco gente admirável e personalidades que não deixarão saudade. Aqui já não impera a lei dos melhores. Como escolher os melhores mortos de um ano, assim como quem enumera os melhores filmes ou os melhores livros? São simplesmente pessoas que viveram, fizeram coisas, morreram. Não importa o que fizeram, pelo menos neste momento de confirmação da morte. Sobre os factos fará a história seus julgamentos. Por isso lembramos Oskar Gröning e Anthony Bourdain como se fossem peças de um mesmo puzzle, sem estarmos particularmente interessados em como levaram as suas vidas, no que fizeram ou em como morreram. São apenas nomes de rostos conhecidos, gente da qual nos sentimos mais ou menos próximos por termos ouvido falar deles mais ou menos vezes. Ao alto, uma imagem de Helena Almeida.

BANDA SONORA ESSENCIAL #55



   Em termos de correntes musicais, a mais entusiasmante das criações nas últimas décadas ficou catalogada como post-rock. Ninguém sabe definir o género com precisão, nem isso é especialmente relevante. Música predominantemente instrumental, enraizada no rock mas com aproximações evidentes ao jazz e à música electrónica. Podíamos simplesmente chamar-lhe jazz de fusão ou rock progressivo, mas não seria exactamente a mesma coisa.
   Entre os projectos pioneiros do post-rock contam-se os Tortoise, por onde passaram ao longo dos anos inúmeros músicos com projectos diversos: John McEntire (The Sea and Cake, Gastr del Sol), Dan Bitney (Isotope 217º), John Herndon (Isotope 217º, The For Carnation), Douglas McCombs (The For Carnation, Eleventh Dream Day), David Pajo (Slint, Zwan, The For Carnation), Jeff Parker (Isotope 217º, Chicago Underground Quartet). São todos músicos de excepção da escola jazzística que tem Chicago como principal referência geográfica.
   A estreia em 1994, com álbum homónimo, demarcou o universo da editora Thrill Jockey, afirmando-a enquanto viveiro de bandas com origens distintas mas uma mesma vontade de renovar o rock. O segundo álbum, intitulado Millions Now Living Will Never Die (1996), ofereceu-lhes a popularidade que sempre surge quando a imprensa converge no anúncio da descoberta da next big thing. Sucede que a música dos Tortoise não é consumível como fast food, resiste ao tempo por nela se misturarem os melhores ingredientes.
   TNT (1998) é não só um álbum paradigmático do espírito da banda como desafia os padrões de uma música dita alternativa, menos acessível às massas. A melodia de I Set My Face to the Hillside é altamente sedutora. E essa não é a excepção num álbum onde vislumbramos constantemente a balança que se tenta equilibrar com os pesos da abstracção e do imediatismo. Em termos rítmicos, os Tortoise socorrem-se tanto das linhas graves do dub como de um krautrock ao estilo minimal e repetitivo. O jazz está presente desde o primeiro segundo, com solos de bateria e de trompete, o contraste da obscuridade com a clareza em temas tais como Ten-Day Interval e Four-Day Interval proporciona experiências sonoras hipnotizantes, as guitarras tanto se repetem em riffs como andam à deriva sobre programações electrónicas a puxar à dance music.
   No vídeo abaixo podemos "ouvê-los" a interpretar ao vivo Swung From The Gutters, o segundo tema do álbum TNT:

CÁ POR CASA TUDO NA MESMA


O primeiro dia do ano foi passado a ver filmes, na vã esperança de adormecer sobre balanços repetitivos e promessas insignificantes. House at the End of the Street (2012), de um tal Mark Tonderai (n. 1974), chamou-me a atenção por causa de Elisabeth Shue, que gostei muito de ver em Leaving Las Vegas (1995), e Jennifer Lawrence, que gosto sempre muito de ver desde que a vi pela primeira vez em American Hustle (2013). São mãe e filha, qual delas a melhor, neste thriller fraquito que nunca chega a amedrontar e raramente escapa à previsibilidade. Mudam-se para uma casa nova (primeiro cliché) que fica paredes-meias com o local de um terrível e enigmático crime (segundo cliché). À volta das casas há uma floresta (terceiro cliché). E na casa misteriosa vive o único sobrevivente da família dizimada, pelo qual a jovem interpretada por Jennifer Lawrence se apaixona (quarto cliché) com a desaprovação da mãe (quinto cliché). Um filme de clichés, portanto, que sobrevive da paisagem agradável. Pelo meio também surge Gil Bellows no papel do polícia. Talvez se recordem dele como Tommy em The Shawshank Redemption (1994).

O nome de Mike Flanagan (n. 1978) não é desconhecido entre os fãs do terror. Before I Wake (2016) acaba por se revelar levezinho em matéria de sustos, mas tem um atraente argumento de contornos psicanalíticos. Na sequência da perda inesperada de um filho, um jovem casal resolve adoptar uma criança com vasto historial de abandono. Jacob Tremblay, que tem entrado em vários filmes bastante populares, tais como Room (2015) e Wonder (2017), é o fofinho Cody desta história. Sucede que o fofinho tem uma característica muito especial. Quando sonha, os seus sonhos manifestam-se na realidade. São sonhos deslumbrantes, com borboletas multicoloridas a passearem dentro de casa. Menos agradável quando os sonhos se transformam em pesadelos. Caberá à mãe adoptiva tentar perceber o porquê dos pesadelos, já que acerca da característica especial de Cody nada parece haver a perceber. Toda a gente simplesmente a assume como uma característica especial. Before I Wake coloca algumas questões pertinentes sobre a adopção e as dificuldades de integração numa família. O recalcamento da perda é outro dos temas abordados com perspicácia.

Disseram-me que Bird Box (2018), de Susanne Bier (n. 1960), tem causado alguma polémica. Não se percebe bem porquê. Filmado ao estilo Lost, que é assim como quem diz entre o registo de aventura e suspense de contornos místicos, Bird Box envia-nos para os ambientes pandémicos de A Peste ou Ensaio Sobre a Cegueira. Baseado num romance de Josh Malerman, publicado entre nós com o título Às Cegas (TopSeller, 2018), conta com alguns nomes sonantes no elenco: Sandra Bullock, no papel principal, e John Malkovich, num papel que lhe assenta que nem uma luva. Trevante Rhodes, que estrelou em Moonlight (2016), é outra mais-valia de um filme cuja carga metafórica nos deixa na dúvida sobre se tem algo a dizer ao mundo ou simplesmente quer parecer que tem. O mundo é invadido por uma coisa que leva as pessoas ao suicídio sempre que a contemplam. O efeito é imediato, pelo que escapa quem não olhar para a coisa. Ou quem for cego. A espaços, surgem também uns adoradores da coisa que não se suicidam, são loucos, psicopatas, gente doida que fica ainda mais doida, transformando-se em adoradores proféticos da coisa. O que é a coisa? Esta parece ser a questão. Há quem diga que é a depressão. Por que se suicidam as pessoas quando a vêem? Este é o mistério. Há quem diga que é por ficarem deprimidas. Não me parece que valha a pena tentar desvendar o mistério.

Lembram-se de Festen (1998), de Thomas Vinterberg (n. 1969)? Retirem-lhe a carga trágica de contornos nórdicos, apliquem-lhe um tom de comédia mediterrânica. Têm A casa tutti bene (2018), de Gabriele Muccino (n. 1967). Reunidos na casa de família numa ilha italiana, tipo Berlenga com estilo, irmãos, tios e primos reúnem-se para festejar as bodas de ouro de Pietro e Alba. Cenário encantador, a alegria da comunhão e da família reunida. Depois vem a tempestade. Retidos na ilha, os problemas surgem à tona quando as invejas, os ciúmes, os rancores, as traições recalcados entre todos começam a trovejar. O tom de graça mistura-se com alguma histeria, a festa dá lugar a uma nostalgia inofensiva, estamos todos em família a tentar aguentar os vícios uns dos outros. Não há desfechos abruptos nem violência, apenas paixão. Italianos aos gritos. O resultado é agradável, pese embora o tom conservador do papel da mulher na família. E à excepção de um problema de finanças, todos os outros são problemas de cama. Portanto, nada que não se resolva com mais cama. Ou no sofá, a ver filmes.