sexta-feira, 8 de março de 2019

GUERRACIVILÂNDIA EM MAU DECLÍNIO


Imaginemos um mundo em que tudo fosse mensurável, em que cada gesto tivesse a sua ordem de medida determinada por um objectivo estipulado, em que a própria respiração fosse avaliada de acordo com taxas de concretização, em que os recursos valessem segundo metas de sucesso burocratizadas nos ficheiros informáticos de gestores obcecados com lucros dos quais eles próprios não retirassem proveito, pois nesse mundo tudo seria de tal modo hierarquizado que nem certos cargos de chefia valeriam mais do que o reconhecimento vazio de mãos invisíveis, financeiras, movidas por uma desumanizada ganância. Num mundo assim, que não será difícil de imaginar, teríamos camadas sobre camadas de cargos intermédios governados por gente subordinada, servente e servil, gente burrocratizada, como  diria o poeta, carregando aos ombros o peso da frustração e no estômago a azia da mediocridade, um mundo de humilhados e ofendidos, como denunciou Dostoiévski, mas agora eles próprios humilhadores e ofensivos, infligindo em quem está por baixo o que lhes seria infligido por quem está por cima. Paremos de imaginar, um mundo assim não é muito diferente do mundo em que vivemos. Nada há nesse mundo que possa ser produto de uma imaginação fértil, nele tudo resulta de uma observação arguta e crítica do mundo em que vivemos, isto é, sobrevivemos. Esse mundo surge nitidamente retratado nos contos do norte-americano George Saunders (n. 1958), reunidos na obra de estreia recentemente vinda a lume em Portugal com o título GuerraCiviLândia Em Mau Declínio (Antígona, Janeiro de 2019). São seis contos e uma novela marcados pelas consequências do capitalismo (selvagem) numa mente com necessidade de se vingar, fazendo-o a partir de uma abordagem dos states que pondera uma sociedade dividida entre Normais e Defeituosos, isto é, gente produtiva e consumista e gente fracassada segundo os parâmetros impostos pelas sociedades consumistas. A ideia de "parque temático" que surge amiúde enquanto cenário de divisões e conflitos mais ou menos hostis dá conta, com impecável sentido de humor, do modo como as relações laborais e o mercado de trabalho neste mundo surgem delimitados por forças desproporcionais que não só potenciam a servidão e a exploração como a promovem. Saunders é exímio na criação de situações alegóricas, embora por vezes aparentemente caricatas, sobre o declínio e o fracasso num universo regido por ideais tontos de sucesso. O conto intitulado O Director Executivo de Cento e Oitenta Quilos é das melhores peças que li nos últimos tempos sobre a legitimação da ofensa e daquilo a que hoje se chama bullying ou assédio moral, práticas tão correntes que chegam a passar despercebidas enquanto máquinas de castração activadoras do conformismo e do abismo existencial: «Eu não sou má pessoa. Se ao menos conseguisse deixar de ter esperanças. Se ao menos conseguisse dizer ao meu coração: Desiste» (p. 59). Numa nota final o autor refere-se aos seus contos como sendo «maldosos, a espaços», cruéis, «ocasionalmente desagradáveis», e talvez tudo isso seja verdade, não pelos contos em si, que vêm sempre acompanhados de um sarcasmo visceroso e de um sentido de humor cativante, mas pelo realismo que denotam em situações aparentemente nonsense e surreais: «Depois avistas uma luz através das árvores. Numa colina vês um sinal de néon e um castelo iluminado. / TERRA DA ABUNDÂNCIA, diz o sinal, ONDE O MÉRITO É REI TAL COMO VOCÊ!» (p. 147) Esta luz existe, estas árvores são de um naturalismo inquestionável, este sinal é vulgar, tudo nesta descrição é de uma plausibilidade atroz quando nos confrontamos com um mérito que se avalia em função da capacidade que cada um adquire para ser indiferente ao outro, para lhe foder a vida de modo a ficar por cima. E a abundância traduz-se numa avidez insaciável, numa histeria materialista, consumista, geradora de cidadãos transformados em meras máquinas de consumo, gente que não diz o que pensa nem o que sente, talvez até porque desaprenda de pensar e de sentir, mas simplesmente o que convém. É nesta Terra que o gesto supostamente mais humano se converte num desastroso e inconveniente equívoco, como no final do magnífico A Fracassada Campanha Terrorista de Mary, A Oprimida. Atribuísse estrelinhas este que vos escreve, seriam cinco garantidas. Incluindo a tradução de Rogério Casanova.

quinta-feira, 7 de março de 2019

UM POEMA DE JORGE LEÓNIDAS ESCUDERO



ÚLTIMA APOSTA

Afastem-se, deixem-me passar,
venho de ir existindo e já sei que
irei empalidecer. Mereço
descanso, mas antes
quero olhar por detrás do horizonte
para não me ver sempre como árvore seca
que nada mais tem para dizer.

Não estorvem, não digam que há bom remédio,
deixem-me sentar no umbral
a ver passar as últimas pessoas. Os pássaros
estão a esconder a cabeça debaixo da asa.

Mandem alguém comprar pão,
não para já mas para amanhã
porque a minha fome derradeira
é do que ainda não vi.

Jorge Leónidas Escudero, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 183.

segunda-feira, 4 de março de 2019

STAGECOACH (1939)



   1939 foi um ano diferente dos outros, marcado pelo início da Segunda Guerra Mundial com os avanços da ameaça nazi por todo o velho continente. Hollywood era uma máquina pujante, John Ford (1894-1973) um dos seus realizadores mais respeitados. Três filmes num ano dão conta do facto: Stagecoach/Cavalgada Heróica (1939), nomeado para os Óscares em várias categorias, entre as quais as de melhor filme e de melhor realização, acabou por valer estatuetas na música e ao actor Thomas Mitchell, pela inesquecível encarnação do médico alcoólico Josiah Boone; Young Mr. Lincoln/A Grande Esperança (1939) ficou-se pela nomeação para melhor argumento original, apesar do extraordinário desempenho de Henry Fonda no papel de Abraham Lincoln; Drums Along the Mohawk/Ouvem-se Tambores ao Longe (1939) valeu duas nomeações, uma para Edna May Oliver como melhor actriz secundária e outra para melhor cinematografia. Destes três filmes, o primeiro ganhou com o tempo o estatuto de obra-prima, western dos westerns num tempo em que 20% dos filmes produzidos anualmente em Hollywood eram filmes de cowboys
   É verdade que a maioria desses filmes eram de baixa produção, os chamados filmes de série B, produzidos com baixos orçamentos e, como recorda Mark Harris no livro Os Cinco Magníficos (Edições 70, Maio de 2018), «geralmente com menos de uma hora de duração, usados nas sessões duplas das cadeias de cinema das zonas rurais», Stagecoach distinguia-se por vários factores, entres os quais destacaremos um guião de primeira, assinado por Dudley Nichols (o mesmo que, anos mais tarde, escreveria The Tin Star para Anthony Mann), e um elenco à altura dos acontecimentos, onde estrelavam John Wayne, John Carradine, Claire Trevor e o já mencionado Thomas Mitchell. Citando novamente Mark Harris: «Cavalgada Heróica contribuiu para fazer de Wayne uma estrela e transformou Ford num realizador de primeira categoria». 
   O argumento é simples, mas de enorme eficácia: a travessia de um território sob ameaça indígena. Foi a estreia de Ford na mítica paisagem de Monument Valley, já por si suficientemente grandiosa para impressionar ainda hoje os olhos do espectador. A ameaça surge desde o início sinalizada pela evocação de um nome: Geronimo, o mais famoso dos líderes da resistência ameríndia. Não obstante as inesquecíveis cenas de conflito, esta ameaça é sobretudo um pretexto para colocar em evidência outros assuntos e temores. No interior da “diligência” seguem uma prostituta proscrita pelos moralistas da cidade onde tem início a acção, um médico alcoólico, a mulher grávida de um militar em teatro de guerra, um ex-combatente da confederação transformado em jogador profissional, um vendedor ambulante de bebidas alcoólicas, um banqueiro corrupto e, por fim, o impetuoso Ringo Kid, evadido da prisão para vingar o assassinato do pai e do irmão. 
   A contingência da personagem interpretada por Wayne é geradora de uma agradável polémica, já que John Ford como que legitimou a vingança na sequência final, transformando um prisioneiro em fuga num herói sem mácula. Não satisfeito, aproveitou ainda para lhe acrescentar o picante de uma relação apaixonada com uma prostituta socialmente proscrita, mas intrinsecamente humana e compassiva. De resto, se tivermos em conta que as personagens mais simpáticas do filme são um médico alcoólico, uma prostituta e um preso em fuga, contra as antipáticas figuras de um banqueiro corrupto e das beatas hipócritas, podemos perceber o quão ousado terá sido na América de 1939 apostar no mais tradicional dos géneros cinematográficos para retratar toda uma sociedade que perante a ameaça da guerra no velho continente se via obrigada a rever os seus valores. Assim sucedeu dois anos depois, com a revisão impulsionada pelo ataque japonês a Pearl Harbor. Tudo terminou da pior maneira, com duas bombas atómicas largadas sobre um inimigo isolado. Mas nessa altura já Ringo Kid e Dallas estavam a gozar segundas núpcias na pradaria americana.

domingo, 3 de março de 2019

UMA BIOGRAFIA


Leio este post e fico sem saber o que esperar de uma biografia. É evidente o trabalho imenso que terá dado a escrita de O Poço e a Estrada, sendo mais que justo reconhecer à autora o mérito de superar constrangimentos diversos apostando numa leitura exaustiva da obra de Agustina. É essa a sua fonte principal para a biografia. Até aqui tudo excelente. Mas por vezes Isabel Rio Novo perde-se em considerações subjectivas, agravadas pela tendência para se colocar a si mesma no centro de uma narrativa onde faz questão de participar. Dei exemplos aqui e aqui. Outro pode ser observado num parágrafo iniciado na página 109. Informa-nos a autora de que fez duas viagens à Régua «Fiz a viagem à Régua, claro.» —, primeiro, de automóvel, e depois, de comboio. Seguem-se as suas impressões pessoais acerca das viagens empreendidas: «A linha férrea acompanhou o meu percurso pela nova marginal, contornando a faixa cristalina do rio. (…) o alto de Fontelas, com a bacia da Régua e o monte de São Domingos, conserva um aspeto grandioso, capaz de me fazer despontar dos lábios banalidades acerca da imponência das montanhas (…)». Não poupando o leitor às banalidades despontadas dos lábios, acrescenta-lhes um êxtase místico: «A bordo do comboio que percorre a linha do Tua, tive a impressão de seguir Agustina e de conhecer a paisagem com que conviveu». E acrescenta ainda que os malmequeres são flores que lhe provocam sempre uma alegria infantil. Por fim, diz-nos que a viagem lhe deu a convicção de compreender melhor alguns romances de Agustina e alguns filmes de Manoel de Oliveira. Não explica porquê, limitando-se a concluir: «E, sim, é verdade, creio que vi uma das paisagens mais bonitas do mundo». Acreditamos que sim. Mas tudo isto é sobre Isabel Rio Novo, numa biografia de Agustina Bessa-Luís.

sábado, 2 de março de 2019

LISTA NEGRA


Será possível legalmente um grupo de cidadãos processar um juiz por ofensas a toda uma comunidade? É que eu sinto-me ofendido ao ler as fundamentações com que o meritíssimo justifica as suas decisões, e mais ofendido me sinto ao saber que o mesmo pretende processar quem, no exercício legítimo do direito à opinião, o critica. Não ter arcaboiço para a crítica pode ser o princípio de uma explicação para as declarações que tem assinado sobre casos de violência doméstica. E o sindicato, tem alguma coisa a dizer?

EIS A QUESTÃO

Serei só eu a imaginar a pequena Agustina a escutar estas histórias, trazidas pelas lavadeiras, com os olhos brilhantes e um meio sorriso nos lábios?

Isabel Rio Novo, in O Poço e A Estrada - Biografia de Agustina Bessa-Luís, Contraponto, Fevereiro de 2019, p. 90. Para acrescentar a estes excessos de emoção. Será só ela a imaginar um meio sorriso?

BRUTO E FERO

Quando era ainda uma menina de doze anos liam-se na aula os poetas portugueses. Entre eles estava Almeida Garrett, alguém de quem Verdi teria feito um personagem operático. Já ouviram o seu poema maior em que confessa um amor desesperado? "Ai! não te amo, não; e só te quero / De um querer bruto e fero / Que o sangue me devora / Não chega ao coração." Por detrás dos óculos com aros de aço, a madre professora olhava com escândalo e cólera as raparigas, mais turbulentas do que o costume. Mas Camila guardava um recato que parecia próprio do seu orgulho. Era mais surpresa, porque se admirava que o amor pudesse ser bruto e fero e, ao mesmo tempo, era assim que o queria. Tudo o mais era intriga vulgar e devaneio de corte. 

Agustina Bessa-Luís, in Os Espaços em Branco, Lisboa, Guimarães Editores, 2003, p. 85, citada por Isabel Rio Novo, in O Poço e a Estrada - Biografia de Agustina Bessa-Luís, Contraponto, Fevereiro de 2019, p. 435.

sexta-feira, 1 de março de 2019

HÁ CUS QUE AGUENTAM


OS GATOS DE SCHOPENHAUER




O fabricante de gatos
quer fazê-los mais baratos:
junta o gato e a gata
para que se reproduzam
mas eles protestam,
juram que não é possível e escapam
até que aturdidos pela lua acedem.

É que crêem ser vítimas de um conto
urdido para inimizá-los com o cão,
assediar ratos e mijar cadeirões.
Tudo sem propósito.

Os gatos contorcem-se e gritam,
bufam asperamente
e por fim copulam a contragosto
sabendo que houve injustiça.

Enfeitam almofadões e alguém os julga felizes
quando na verdade dormitam ressentidos,
aborrecidos com a vida,
conscientes de que estão a cometer
mesquinhices
para glória de ninguém.



Jorge Leónidas Escudero, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 179.

UMA MULHER


Enquanto comprava o Público, ouço uma mulher dizer que está farta de ouvir falar em violência doméstica. Já não há paciência, acrescenta. Julguei normal, também eu estou farto de ouvir falar de violência doméstica. Mas depois ela continuou: há muitas que é bem dado, até mereciam levar mais. Só se perdem as que caem no chão. Então não e? O remate interrogativo ficou a pairar no ar perante a estupefacção de quem me vendia o jornal e o meu olhar inquisidor. Era uma mulher.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

CORPO VESTÍGIO


Concluído o mestrado em Artes Plásticas na ESAD, e após algumas participações em colectivas no Centro Cultural de Cascais, na Galeria Sete (Coimbra) e na Casa Bernardo (Caldas da Rainha), Susana Quevedo (n. 1992) estreia-se individualmente com uma exposição intitulada Corpo Vestígio. A escolha da sala dos retratos no Museu José Malhoa não terá sido fortuita, já que os trabalhos apresentados partem de uma noção de auto-retrato que contempla tanto a fixação de um corpo como a deterioração a que o mesmo está sujeito pela passagem do tempo. A fotografia é a base a partir da qual essa mutação se exprime, ainda que sujeita a diversos tipos de intervenções que vão da justaposição de técnicas à própria destruição da imagem. Num primeiro conjunto de trabalhos, as fotografias surgem claras e evidentes, embora tenham sido submetidas a uma relação com os elementos clássicos essenciais (terra, água, ar, fogo) que exercem sobre o todo um processo de deterioração semelhante ao que observamos ao longo dos anos num corpo vivo. Restam fragmentos desse corpo, o qual surge retratado na sua fragilidade intrínseca:



Expostos entre as molduras mais ou menos anacrónicas que fazem parte do acervo museológico, somos desafiados a penetrar o olhar num segundo conjunto em que o negro predomina sobre a luz. Só olhando com atenção conseguiremos adivinhar formas de rostos, de corpos, bustos, perfis, ao fundo da escuridão. O efeito do carvão prensado sobre a impressão fotográfica é o de uma luz que se define a partir do interior do negrume, como se o negro fosse a placenta onde a imagem germina e nos chega ao olhar como um fantasma, vulto ambíguo, indefinido, indeterminado, que contrasta com a luminosidade dos retratos expostos no museu. É especialmente estimulante o diálogo estabelecido entre algumas destas imagens e os quadros que ao lado delas perduram como exemplos obsoletos de um tempo que passou, relevando-se dessa forma um diálogo entre passado e contemporaneidade cuja conclusão tende para uma ideia onde o apagamento e a fantasmagoria podem ser sinónimos de esquecimento, desmemória, ruína, desolação:



Por contraste à filosofia da perenidade, a arte assume aqui o efémero enquanto condição inerente à sua própria natureza. Nos trabalhos expostos em vitrinas esta condição surge sublevada pela própria destruição da imagem. Olhamos para as fotografias ali expostas como quem olha para pedaços de ruína, vestígios arqueológicos de um passado ao mesmo tempo ausente e presente. A própria submissão da impressão fotográfica a condições de destruição leva a crer numa complexa articulação do retrato com a consciência do tempo, como que pretendendo assumir-se uma impossibilidade de afixação determinada pelas transformações a que tudo quanto é orgânico está sujeito. Neste sentido, estes trabalhos também podem ser lidos como uma reflexão acerca do orgânico, entendendo-se pelos gestos violentos a que as imagens foram sujeitas um exercício de meditação acerca da violência que a Natureza exerce sobre um corpo vivo, violência essa que tende para a morte, para o apagamento, para a destruição absoluta desse mesmo corpo:



Corpo Vestígio termina com um vídeo onde alguns dos retratos expostos surgem em movimento, ou seja, na sua natural condição. Movimentos muito subtis (um dedo que mexe, a respiração de um corpo debaixo de um lençol, uma árvore abanada pelo vento) permitem-nos perceber que já não estamos na presença da fotografia enquanto corpo estático. As imagens seguem-se umas às outras sem nenhuma narratividade aparente, apenas enquanto testemunho de uma relação entre o espaço e o tempo que é definida pelo movimento. Este movimento é a marca última da transitoriedade, de uma fugacidade que reforça a vida entre as balizas da concepção e da morte. As linhas do corpo adivinhado por debaixo de um lençol (símbolo de luto e de abandono, de ausência e de perda), surgem contornadas no vídeo pela marca da respiração. Essa marca resgata o corpo de uma aparente existência marmórea, conferindo-lhe a vida que contrasta com o ambiente fantasmagórico presente na generalidade destes trabalhos:



Corpo Vestígio estará no Museu José Malhoa até dia 31/03/2019. Vale muito a pena descobrir o trabalho de Susana Quevedo: aqui.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

UMA TRETA NACIONAL



Miguel Morgado recusa a ideia de que devemos recear as "fake news", lembrando que estas sempre existiram no passado. Pois eu julgo que devemos recear este tipo de argumentação em alguém que ande na política. Se não devemos recear uma coisa porque ela sempre existiu no passado, então não devemos recear a guerra, a fome, a miséria, a exploração, a escravatura, a tortura, a humilhação… Enfim, não temos razões para recear o que quer que seja, pois o que quer que seja sempre existiu no passado. Expliquem a este palerma a diferença entre fake news e intriga palaciana, a diferença entre fake news e mentira útil. Expliquem-lhe os processos de contaminação que existem hoje que não existiam no passado, e como rapidamente uma mentira se torna viral sem que seja possível desfazê-la junto das massas que atinge. Ou então não lhe expliquem nada, talvez ele já saiba da coisa e pretenda dar-lhe uso para chegar onde ambiciona. Estas ratazanas são uma praga, a mentira é a pior das doenças que transmitem. 

SUPOSTAMENTE

Foi notório o choque entre Huxley e Samuel Wilberforce, bispo de Oxford, em 1860, na reunião da Associação Britânica para o Progresso da Ciência. Wilberforce supostamente perguntou a Huxley se ele descendia de macacos pelo lado do avô ou pelo lado da avó. Huxley supostamente respondeu que preferia descender de um miserável macaco que de um bispo da Igreja Anglicana!

Michael Ruse, in Sobre a Origem das Espécies, prefácio para A Origem das Espécies, de Charles Darwin, trad. Vítor Guerreiro, Guimarães Editores, Novembro de 2009, p. 19. Thomas Henry Huxley, aqui citado, era o avô do romancista Aldous Huxley.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

UM POEMA DE F. S. HILL

24.

Hoje dei início à fundação de um novo país
país-boca
onde o peixe não morre porque sim
onde a palavra não precisa remendar o gesto
onde o teu olhar é toda a luz necessária
para atravessar a noite
a tua ausência-corpo
o teu corpo ausente do meu sexo
também ele boca como o teu
onde todos os sexos são boca
e todas as bocas coração
e quando sorris
o tempo não existe
nem as casas que despimos
por não cabermos dentro delas
e a pele estende-se manta e saboreamos a manhã
fruto plantado no pensamento
agora vou contemplar o meu país
ele que cresce inconsciente de nós.


F. S. Hill, in Gesso, Debout Sur l'Oeuf (DSO), Novembro de 2017, p. 34.

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #11


Se há conselho que me sinto obrigado a vos transmitir nestes tempos desmemoriados, então esse conselho é o de que jamais vos esqueceis de onde vindes. Nas origens perdura a semente, pela raiz chegamos à essência que elucida sobre o lugar por nós ocupado no mundo. Tudo se torna próximo e uno quando de tal lucidez retiramos a conclusão definitiva: as dissemelhanças que nos distinguem à superfície provêm da mesma câmara onde se forma o magma humano. Ficai pois sabendo, queridas filhas, que nas veias nos corre sangue sarraceno, e disso não vos olvideis sob pena de julgardes ser únicas e eleitas onde afinal sois finitas, mortais, efémeras, nesta terra apenas ímpar por nela vinho, pão e música bastarem para que valha a pena ver o sol nascer.
   Muito antes das cruzes do Norte terem pesado sobre os costados dos nossos antepassados, andaram por estas terras povos a que chamaram mouros. Alá era o seu Deus, o vento os guiava, o sol lhes tingia a tez. Deles herdámos cultura, palavras, ciência, pensamento, poesia. Deles herdaram vossos avós a classe saloia à qual pertenceram, abrindo caminho para que pudésseis hoje ler os poetas árabes de Portugal coligidos por Adalberto Alves em O Meu Coração é Árabe – A Poesia Luso-Árabe (Assírio & Alvim, Outubro de 1987). Através destas páginas podeis travar conhecimento com Ibn ‘Ammar e com Al-Mu’Tamid, podeis ficar a conhecer poetisas árabes antigas como Maryam Al-Ansari e As-Silbia, e podeis ainda desfazer o preconceito de que dos árabes nada de bom nos ficou.
   Nascido perto de Silves em 1031, Ibn ‘Ammar teve, conta-nos Adalberto Alves, uma vida que «parece arrancada a um drama shakespeariano». Invulgarmente inteligente, mas muito pobre, tornou-se um dos maiores e mais íntimos amigos do grande Al-Mu’Tamid. Perduram especulações sobre uma relação homossexual entre ambos. Nomeado governador de Silves pelo amigo, Ibn ‘Ammar cedeu ao arrivismo começando a conspirar na ambição de um trono próprio. Aprisionado em Sevilha, acabou executado pelo próprio Al-Mu’Tamid. Entre os versos que dele restam, contam-se estes dedicados ao amigo que o matou:

Nada me move, meu príncipe,
Senão a tua vontade.
Contigo vou,
Como o viajante nocturno
Guiado pelo clarão dos relâmpagos.
Queres voltar para a tua amada?
Vai num rápido veleiro
E seguirei no teu encalço,
Ou salta antes para a sela,
Contigo irei também.
E quando,
Graças à protecção divina,
Chegarmos aos umbrais do teu palácio
Permite que torne sozinho à minha casa.
Não percas tempo a sacar a espada!
Lança-te aos pés da que tem a cintura delicada
E compensa-a do tempo perdido:
Beija-a e aperta-a contra o peito.
E murmurem vossas bocas
Meigas e doces palavras,
Como os pássaros se respondem mutuamente
Em suaves cantos ao romper da alva.

   Quanto a Al-Mu’Tamid, nasceu em Beja, no ano de 1040, numa família de gente culta e influente. Filho do rei Almutadide, foi nomeado pelo pai governador de Silves antes de ascender ao trono do reino taifa de Sevilha. Ele próprio pai dos poetas Al-Ma’Mun, Ar-Radt e Ar-Rasid, caiu em desgraça depois de ser traído por um aliado na luta contra os cristãos. Desterrado para Agmat, perto de Marraquexe, aí passou o resto da vida como poeta eremita. Morreu em 1095. A sua campa é ainda hoje local de peregrinação. Impressionante é o poema que nos outorgou nas vésperas da sua morte:

EPITÁFIO

Túmulo de um forasteiro:

Regue-te o chuvisco vespertino e matinal
Pois conquistaste dos restos de Ibn ‘Abbad.
Em ti jazem razão, sabedoria e generosidade,
Abundância na seca e água para os sequiosos.
E lança e espada e flecha no combate:
O terrível fim para o leão contrário.
Destino na vingança,
Oceano na generosidade,
Plenilúnio na sombra,
Eloquência na multidão.
Chegou o decreto do Altíssimo
E, com ele, o meu fim.
Antes de olhar este esquife
Mal sabia eu que altas montanhas
Sobre tábuas repousaram.

Que isto te baste, tumba:

Sê amável com a nobreza
Que aqui te vai confiada.
Que as taciturnas nuvens
Te reguem entre raios e trovões,
Chorando por seu irmão,
Que agasalhaste da chuva,
Sob esta laje tão larga,
Com lágrimas matinais e vespertinas.
Até as gotas do orvalho te choram
Derramando-se dos astros
Que te não deram sorte.
Para sempre a bênção de Alá
Sobre a tua sepultura
        Incontáveis vezes
                     …para sempre!

Podeis encontrar outros poemas de Al-Mu’Tamid aqui, aqui e aqui. Sugiro a impressão deste último, para guardar na carteira junto aos documentos essenciais.

ANIMAL VEGETAL


F. S. Hill (?) tem publicado com regularidade desde o livro de estreia, intitulado Livro das Coisas Breves (Medula, 2014). Animal Vegetal (Companhia das Ilhas, Fevereiro de 2019) é o quarto que publica. Em si mesma antinómica, a expressão do título exprime os sentimentos contraditórios que esta poesia inspira. Se a brevidade é uma das suas marcas mais fortes, não menos será o facto de nessa brevidade se cometerem excessos. «Toda a escrita inteligente encaminha-se para o silêncio» é a máxima que dá o mote a uma sequência de 57 poemas muitas vezes manchados por ruídos, ainda que o 56 se redima com uma página totalmente em branco. Este caso é particularmente exemplificativo de uma redundância, se tivermos em conta o Poema Branco de Rui Costa ou A parte pelo todo de João Luís Barreto Guimarães. Não se tratando de redundância, podemos pressupor mais uma paródia num livro em que esse recurso é recorrente: «Morrer todos os dias pode ser cansativo / e quase indigesto» (p. 9), «Quando eu morrer batam-me / posso estar apenas a fingir» (p. 37), «Ai que prazer ter um livro para ler / sofrer de vista amarga / não ter com quem foder» (p. 45) ou o poema 53:

Não sou alcoólico
Nunca serei alcoólico
Não posso querer ser alcoólico
À parte isso, tenho em mim todos os poemas do mundo

   Ruidoso e excessivo nesta poesia é tudo quanto concorre para que a irrisão epigramática e os remates aforísticos de belo efeito percam força, acabando secundarizados por desequilíbrios verbais e por um humorismo dissimulador do núcleo lírico dos poemas. Assim sendo, parece-me que os dois últimos versos do poema 7 dispensavam os restantes: «O pior do mundo são as casas vazias / com gente dentro»; e a interrogação do poema 28 também não precisava de mais nada: «Quanto do meu sangue / é tédio feito horror?». Mas a mão do poeta foge amiúde para o lúdico, perdendo-se em trocadilhos e imagens cuja única característica parece ser a sua inocuidade. Exemplos? O poema 20: «Hoje bati uma punheta / mas não pensei em ti; / serei má, Pessoa?» Ou o 37: «A ter uma profissão / gostava de ter uma / das que realmente importam / em que o indivíduo se sente / como os palácios perante os bois / ou as coisas perante ausência de palavra / Eu gostava mesmo era de ter / profissão de fé / Ia rimar tanto com este café» (p. 44). O tom adiliano não convence, sobretudo pela inconsistência.
   Tudo é mais consistente nos poemas onde se tem mão na comicidade, quando se adopta a ironia enquanto ferramenta de eliminação do tédio quotidiano, das dores domésticas, do absurdo existencial. Uma das imagens mais cativantes produzidas nalguns poemas diz respeito a uma relação de volume entre entidades correlacionadas. Neste sentido, o verbo “caber” tem aqui especial relevância. Podemos questionar-nos sobre o que cabe de nós num poema? O que cabe do mundo em nós? O que cabe da realidade numa língua? O que cabe de Deus no homem? O que cabe de morte na vida? O que cabe de vegetal no animal? O problema não é tanto o da fusão entre contrários como parece ser o de um processo de assimilação inerente à definição de ser. Palavras como ventre e boca confundem-se, neste contexto, com a palavra casa, remetendo para uma interioridade que é a essência do poema.
   «Levas-me a casa / pela boca» (p. 17), diz-se no poema 11, «Quantas palavras cabem na boca do poema?», questiona-se no 21, «vem / por aqui / deixa-te de poemas mal resolvidos / faz-te boca / faz-te língua / e boca de novo» (pp. 41-42), sugere-se no 35, «E agora / o que fazer a toda esta lama / que temos na boca?» (p. 54), pergunta-se finalmente no 46, e todas estas bocas são a casa, a morada, a residência de uma língua onde o verbo se materializa. São o ventre onde a palavra germina e se tritura. A obsessão com o órgão onde tem início o processo digestivo animal leva-nos a pensar numa outra extensão irónica destes poemas, os quais parecendo tão enraizados na vida nos transportam subtilmente para os campos da morte e da ruína. É pela boca que o homem se alimenta, é pela boca que a morte nos entra no corpo. Este dúplice sentido que vislumbramos em vários versos torna tudo mais estimulante, relegando para o plano do supérfluo as armadilhas anedóticas a que por vezes se submetem os poemas.

E O ÓSCAR DE MAIOR HIPÓCRITA DA POLÍTICA PORTUGUESA VAI PARA...


   PCP e BE são criticados, com justificação, por serem ou terem sido ambíguos em relação ao percurso de demagogia, autoritarismo e populismo que se tem percorrido na Venezuela desde os tempos de Chávez até ao colapso da democracia venezuelana com Maduro. Com igual razão se pode criticar PS e CDS (sob um governo com o PSD) por terem fechado os olhos a essa deriva em nome dos negócios. Mas nenhum desses partidos partilha organizações partidárias, grupos parlamentares, candidatos e plataformas com Maduro ou Chávez. Ora, Rangel partilha tudo isso com Viktor Orbán da Hungria. O seu partido europeu é o partido de Viktor Orbán. O seu grupo parlamentar é o grupo parlamentar dos deputados de Viktor Orbán, a começar por Jószef Szájer, que é colega vice-presidente do PPE com Rangel, e foi o autor confessado das alterações constitucionais que iniciaram o desfazer do Estado de Direito na Hungria. O candidato de Paulo Rangel para presidente da Comissão Europeia é não só o mesmo que Viktor Orbán apoia, o político bávaro Manfred Weber, como esse candidato tem sido dentro do PPE o grande apoiante tácito de Orbán. E a tudo isto Paulo Rangel fecha os olhos ou critica apenas na medida do mais conveniente possível.
   (…) A degradação do Estado de Direito na Hungria tem consequências diretas para nós e precedeu e contaminou tudo o que se tem passado na Polónia, na Roménia, na Eslováquia, em Malta e por aí adiante.
   Só desde que Rangel se senta com o Fidesz de Orbán no Parlamento Europeu, a constituição húngara foi alterada dezenas de vezes, a lei eleitoral modificada para garantir maiorias constitucionais a Orbán, os tribunais foram decapitados, uma campanha de fundo anti-semita foi iniciada para criar um “inimigo interno” em George Soros, jornais e rádios foram encerrados, uma universidade foi forçada a sair do país, etc. Este último exemplo é particularmente importante porque Manfred Weber em tempos anunciou que essa seria a “linha vermelha” em relação à continuidade de Orbán dentro do PPE. A linha vermelha foi violada, e nada aconteceu.


Rui Tavares, aqui.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

GÉNIOS HÁ POUCOS



   Vincent van Gogh deve ser o pintor mais vezes retratado cinematograficamente. Cá em casa moram Van Gogh (1991), de Maurice Pialat, numa antiquada VHS, e Lust for Life/A Vida Apaixonada de Van Gogh (1956), de Vincente Minnelli e George Cukor, num sofisticado DVD (ok, ok, bem sei que o DVD também já caiu em desuso). Gosto mais do francês, com Jacques Dutronc no papel do malogrado pintor. Curiosamente, o americano arrecadou um Oscar para melhor actor secundário: Anthony Quinn no papel de Paul Gauguin. Coube a Kirk Douglas fazer de Van Gogh.
   Alain Resnais abordou o tema em Van Gogh (1948), a curta documental que mereceu uma estatueta da academia norte-americana. Está disponível no Youtube. Mais recentemente, pudemos ver o belíssimo filme de animação de Dorota Kobiela e Hugh Welchman com o título Loving Vincent/A Paixão de Van Gogh (2017). Não vi Van Gogh: Painted with Words (2010), de um tal Andrew Hutton, mas o trailer não me inspirou curiosidade, apesar do papel principal ter ficado a cargo do excelente Benedict Cumberbatch. Há outros, de Paul Cox, de Robert Altman, e sabe-se lá de mais quantos.
   Eis que chegamos At Eternity’s Gate/À Porta da Eternidade (2018), de Julian Schnabel. O que podemos esperar sobre Van Gogh que não nos tenha sido já oferecido? Schnabel é um especialista no filme biográfico, tendo abordado outro pintor num filme de boa memória: Basquiat (1996). Dediquei-lhe algumas palavras em tempos, para sublinhar a sua inclinação por personalidades complexas. Em Before Night Falls/Antes que Anoiteça (2000) retratou o escritor cubano Reinaldo Arenas e em Le scaphandre et le papillon/O Escafandro e a Borboleta (2007) baseou-se na vida de Jean-Dominique Bauby, ex-director da revista Elle. São filmes esteticamente diferentes deste último sobre Van Gogh, muito mais lineares e convencionais no modo de colocar a câmara.
   À Porta da Eternidade tenta oferecer à imagem cinematográfica os movimentos bruscos da pintura de Van Gogh, adoptando amiúde efeitos visuais e sonoros que parecem pretender reproduzir a mente perturbada e atormentada do pintor. O efeito é inspirador, nomeadamente se tivermos em conta as dificuldades que, neste caso em particular, o movimento da pintura coloca à imagem em movimento do cinema. Como fixar o movimento de uma coisa fixa? Paradoxo? Antinomia? Este é, sem dúvida, o desafio que Van Gogh colocou a si mesmo, percebendo-se que Julian Schnabel não lhe tenha querido fugir. Antes pelo contrário, adoptou-o para si oferecendo-nos sequências de fotografias, alternando entre o close-up e a paisagem, e planos-sequência em constante movimentação.
   Coube a Willem Dafoe, um dos melhores actores da sua geração, o papel de Vincent van Gogh. Pode parecer estranho que um homem com 63 anos interprete um pintor que morreu aos 37, mas é bem provável que o corpo de Van Gogh aos 37 não fosse muito diferente do de Dafoe aos 63. Actor fetiche de Julian Schnabel, entrou em praticamente todos os seus filmes. Tem um rosto peculiar que assenta que nem uma luva neste papel, desempenhado num registo que consegue o equilíbrio dos desequilíbrios da personagem. Ora paranóico, ora afectuoso, aqui desesperado, além místico, Dafoe é o meu Van Gogh preferido. O diálogo com Mads Mikkelsen, a fazer de padre, nos claustros do hospício de Saint-Rémy, dificilmente passará despercebido a quem aprecie os mistérios da genialidade.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

COM ESTA BOCA, NESTE MUNDO



Não mais te pronunciarei, verbo sagrado,
ainda que tenha as gengivas azuis,
ainda que ponha debaixo da língua uma pepita de ouro,
ainda que sobre o meu coração derrame um caldeirão de estrelas
e à minha frente passe a secreta corrente dos grandes rios.

Talvez tenhas fugido para o lado nocturno da alma,
esse que nenhuma lâmpada ilumina,
e não há sombra que guie meu voo no umbral,
nem memória que chegue de outro céu para encarnar nesta neve dura
onde apenas se inscrevem o rumor da ramagem e o gemido do vento.

E nem um só tremor que sobressalte as pedras mudas.
Temos falado de mais do silêncio,
condecorámo-lo como a um vigia no arco final,
como se nele o esplendor jazesse depois da queda,
o triunfo do vocábulo, com a língua cortada.

Ah, não se trata da canção, nem do soluço!
Já disse o amado e o perdido,
com cada sílaba trabalhei os bens e os males que mais temi perder.
Ao longo do corredor soa, ressoa a melodia tenaz,
retumbam, propagam-se como o trovão
umas poucas moedas caídas de visões ou arrebatadas à obscuridade.
O nosso longo combate também foi um combate à morte com a morte, poesia.

Ganhámos. Perdemos,
porque como nomear com esta boca,
como nomear neste mundo com esta única boca neste mundo com esta única boca?

Olga Orozco, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 173-174.

E NA TERÇA FOI ASSIM


E na terça foi assim, com o Nuno Costa Santos: encenámos o melancómico, falámos de e lemos Fernando Assis Pacheco, explorámos a ideia de marginal ameno...


...ficámos a conhecer a revista Grotta, citámos Emanuel Jorge Botelho, vimos e lemos e lembrámos Ruy Belo e Teresa Belo, ouvimos, tornámos presente...


...andámos algures entre os Açores, São João da Ribeira, Lisboa, com o apoio técnico do Miguel Costa e do Filipe, com a ajuda do actor  Nuno Machado, com um público *****. Espero que tenha sido tão bom para os outros quanto foi para mim. As fotografias são da Margarida Araújo.