Natural de Zurique, tornou-se estrela do cinema alemão com realizadores
tais como Wim Wenders e Werner Herzog. Excelente em O Amigo Americano (1977) e
As Asas do Desejo (1987). É Alexandros no magnífico A Eternidade e Um Dia
(1998), de Theo Angelopoulos. Oliver Hirschbiegel ofereceu-lhe o papel de uma
vida em A Queda: Hitler e o Fim do Terceiro Reich (2004). Tem lugar reservado na história do cinema europeu.
sábado, 16 de fevereiro de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #9 & #10
Desconheço as razões, minhas filhas, que fazem com que
neste nosso país tantas vezes os melhores versos surjam em prosa e a melhor prosa
surja em verso. Deve haver algo que o explique, matéria na qual não sou versado
nem me inspira empenhos para lá do gozo proporcionado pela leitura. Com o
pensamento ocupado noutras elucubrações, prefiro entreter-me com objectos
ambíguos na forma, híbridos no género, paradoxais na moral. Sempre me atraiu o
indefinido, na literatura ainda mais. Daí o deslumbre com tudo quanto alente a androginia
do espírito, mais ainda se acarretar aquela força do iconoclasta capaz de abalar
os pilares dos bons costumes (que são, quase sempre, maus conselheiros).
Um
nome: Mário-Henrique Leiria (n. 1923 – m. 1980).
Dois títulos: Contos do
Gin-Tonic (Estampa, 2.ª edição, Outubro de 1976) e Novos Contos do Gin seguido
de Fábulas do Próximo Futuro (idem, 2.ª edição, Janeiro de 1978).
Sobre o nome
pouco se sabe e muito se diz, o que é comum entre as nossas gentes. Terá sido
expulso das Belas Artes, em 1942, por más inclinações políticas. No surrealismo
à portuguesa também não se manteve muito tempo, saindo em dissidência para
formar um segundo grupo com aqueles que são hoje por todos tomados como os
primeiros: António Maria Lisboa, Mário Cesariny, etc. Na nota biográfica
oficial diz-se que «teve vários empregos, marinha mercante, caixeiro de praça,
operário metalúrgico, construção civil» e que andou à deriva por vários cantos
do mundo. O que não se diz tão oficialmente é que a fome lhe terá corrido as
entranhas. Numa das primeiras pequenas histórias dos Contos do Gin-Tonic,
percebemos ao que vinha no Portugal do Carreirismo:
Após ter
surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter
roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na
rua.
Voltou passados
vinte e dois anos, com chofér fardado.
Era Director
Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.
Conclusão: se um homem tem de começar por algum lado,
pois que comece por conhecer os métodos do inimigo. Sobre as viagens com
carteira nada abastada, há quem diga que vinham do patrocínio comunista. Não
tenho provas. Certo é ter morrido só e magro. Andou nove anos pela América
Latina, para onde partiu em 1961, fazendo sabe Deus o quê. Ou talvez nem Deus o saiba, tão distraído que sempre anda. Minhas filhas,
Portugal também tem esta coisa curiosa de serem poucas as biografias
disponíveis de quem realmente teve vida para contar. Salvo raríssimas
excepções, o que vai surgindo pouco acrescenta ao ramerrão das pessoas comuns.
Pessoa essa que este Mário-Henrique não era, não podia ser, jamais terá sido.
Caso contrário, como poderia ele em tão poucas palavras definir o sentido da
existência num conto em verso que coloca em cena uma nêspera e uma velha?
RIFÃO QUOTIDIANO
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o acontece
Portanto, se não quereis ser devoradas por uma velha,
erguei-vos da cama e protestai, não fiqueis mudas à espera do que
acontece, fazei acontecer. É deste caminhar caminhando, é deste fazer fazendo,
é desta vontade, deste desejo, desta paixão, que toda e qualquer existência
necessita se não quiser resumir-se ao pouco mais que nada de por cá andar com
a cabeça entre as orelhas. Aproveitai a lição, ide ou deixai que as pernas vos
levem, com a autonomia que é delas, para onde os "tiranos" da consciência
jamais vos levarão: uma aventura sem portos.
BIÓGRAFA OU BIOGRAFADA?
Ando a ler O Poço e a Estrada — Biografia de Agustina
Bessa-Luís (Contraponto, Fevereiro de 2019), de Isabel Rio Novo. Logo no capítulo
de apresentação a autora faz questão de nos informar: «Eu, que para este livro
reli a obra completa de Agustina, ficcional e não ficcional (…)». Não espera o
leitor outra coisa de um biógrafo, pelo que é escusado dizê-lo. Pouco depois:
«Respirei Agustina; digo-o sem medo e sem rebuços». Respirou Agustina?
Esperemos que não lhe crie nenhum problema pulmonar. Mas o cúmulo desta
obsessão com o eu, estranho numa biografia, surge a páginas 50 (e ainda só vou
na 56): «Digamos que não me foi difícil compreender Agustina. Também eu, na
minha pequena infância, cresci longe de outras crianças, recolhida por longos
períodos numa aldeia minhota». E a quem isso interessa?
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
A CIDADE E AS SERRAS
Campo ou cidade? A questão coloca-se como se fosse
obrigatório optar por uma das alternativas, como se não fosse possível
conciliá-las. O maniqueísmo nesta questão, como noutras, aliás, surge
contaminado por preconceitos e por ideias feitas. Os apologistas do campo são
quase sempre aqueles que não têm de sobreviver no campo, vivem na cidade
alimentando uma nostalgia bucólica de sossego, paz e silêncio, como se a vida
no campo pudesse ser reduzida à pureza do ar. Os do campo olham para a cidade
sonhando com riquezas e confortos, ambicionando aceder aos lustres da fama,
pensam na cidade como um mar de oportunidades. Até nelas naufragarem. Diz-se
que no campo se é livre e saudável, que na cidade se leva uma vida doentia de
servidão. Mas será mesmo assim? Eça de Queiroz (1845-1900), em A Cidade e as
Serras, obra póstuma de 1901, parece não escapar ao padrão nesta
divisão entre campo e cidade. A Paris de Jacinto, a que ele chama Civilização,
surge retratada no início como palco da «vantagem de viver». O campo é dos
brutos e das bestas, a cidade é dos homens cultos, das gentes instruídas, é de
uma cultura académica, livresca, de biblioteca que fascina até ao ponto de o tumulto se
tornar tédio absoluto. Também em Baudelaire encontramos o tédio como o sangue
que corre nas veias da cidade. O fascínio pelas máquinas, pela indústria, pelas
tecnologias, o gozo da novidade, das modas, a febre de ter e de aparecer, preenchem a agenda daquele que dela se torna escravo. Às tantas só ouvimos
Jacinto suspirar: que maçada! Tudo se torna repetitivo, a multidão esboroa-se
numa monotonia previsível, as máquinas falham, as tecnologias começam a
desiludir, entram em desuso, e as pessoas, sobretudo as pessoas, adquirem em
vida a lividez dos mortos. A cidade é uma paisagem de marcas, de montras, de
teorias inúteis, a erudição revela-se vazia, supérflua, até o amor se resume à
transacção comercial, uma infecção sentimental curável com distância, solidão,
exílio. Da «vantagem de viver» chegamos ao «embaraço de viver», sobretudo
quando a consciência se abre a uma contemplação que acabará por descobrir nas
avenidas e nos becos da Cidade um acumular de lixo e de miséria, exploração,
ruína, poluição: «E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacinto? Considera esses
vastos armazéns com espelhos, onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao
arrátel, como a de vaca!» (p. 95) E isto é dito como se no campo não houvesse
casas de putas, o campo, esse paraíso na terra onde se conserva a doçura dos
gestos em gente bruta, animal, mas pura. Tretas! Tanto o campo como a cidade
têm as suas abundâncias, e parece inegável que nesta o tempo vale mais do que
naquele por serem acelerados os ritmos da vida. É o tempo, a experiência do
tempo, aquilo que melhor nos permite separar ambas as realidades. Porque quanto
ao mais são, o campo e a cidade, palcos onde os homens definham nesse processo
de viver que consiste em fracassar, ou seja, em subir o mais alto possível para
continuar constatando quanto se é ínfimo, porque se é efémero, finito, mortal. Façamos
justiça ao escritor, que também no Campo viu misérias denunciáveis. Mas nem a
sua panorâmica de Paris, nem as vistas de Tormes, encerram o problema: no limite,
todo o espaço ocupado por homens se torna humano, deixa de ser selvagem ou
civilizado, passa simplesmente a ser humano. E, enquanto espaço humanizado, não
é senão organismo degradável, perecível. Hoje, os que da cidade migram para o
campo em busca de tempo talvez busquem uma vontade de viver que o ruído das
buzinas não permite como permitirá o ruído da passarada. E essa vontade de
viver talvez seja uma fuga ao tédio, um tédio que a província desde cedo incute
a quem nela nasce: aqui não se passa nada. Uma maçada. Mas tal como não se passa
nada no campo, nada se passa na cidade, desde que abramos o pensamento a ambas
as realidades constatando que tudo se resume a uma repetição fastidiosa de
gestos, estações sobre estações, que não nos livrarão da tristeza, do
pessimismo, da melancolia enquanto não adoptarmos aquela humildade de saber que
a nossa grandeza está na nossa insignificância, que por ser tão curta a vida,
tão passageira, a despeito de teses e teorias opostas, o melhor mesmo é
aproveitá-la provando de tudo quanto há para provar. Não resumir a vida a uma mecânica de casa, trabalho, casa, trabalho, casa, trabalho... É isso, não é? A questão coloca-a Eça do
seguinte modo: «Sendo tudo inútil, e não conduzindo senão a maior desilusão,
que podia importar a mais rutilante actividade ou a mais desgostada inércia?» E
esta mostra-se como sendo a questão definitiva, a mais profunda e urgente, a
verdadeira questão para a qual ninguém precisa de uma biblioteca de 30000
livros. Melhor fora que tivesse uma boa garrafeira, pão caseiro e bom queijo ou
um chouriço. A Natureza encarregar-se-á de oferecer o resto, a pontuação certa. Isto se não dermos
cabo dela antes de ela dar cabo de nós.
MENINOS
O cumprimento é uma das formas que tenho de apurar o
carácter de uma pessoa. Não me refiro ao tipo de cumprimento, mas ao cumprimento ele
mesmo. Alguém que te conhece e te vê em algum lado fingindo que não viu,
evitando o cumprimento ou adiando-o à espera, porventura, de ser cumprimentado,
não é propriamente um cretino. É só uma pessoa infantil. Como não suporto gente
adulta com comportamentos infantis, faço questão de mostrar o que é ser
homenzinho e estendo a mão com complacência e afecto. Às vezes até faço uma festinha no ombro, como quem afaga o pêlo ao cão. É uma questão de educação, assim como quem diz: vês, não custa nada, só fica bem, depois podemos voltar a
ignorar-nos para o resto das nossas vidas.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019
BANDA SONORA ESSENCIAL #61
Quem será esta estranha figura com perfil de sombra? Tem nome:
Noel Scott Engel. No mundo da música, onde aterrou muito jovem, ainda nos anos
de 1950, fez um percurso hoje difícil de acreditar. Começou como baixista e
segunda voz de bandas pop, até saltar para a frente do palco como cantor principal
dos The Walker Brothers. Música simples, melódica e harmonicamente balanceada ao
estilo easy listening de Burt Bacharach. O sucesso rapidamente lhes bateu à
porta, tornando-se a voz de Scott Walker, como então passou a ser conhecido Noel
Scott Engel, numa das mais ouvidas durante o início da década de 1960. Baladas
com orquestrações pomposas, ambientes neo-românticos, abriram as portas a uma
carreira em nome individual com considerável sucesso por terras de Sua
Majestade. Iniciou-se com quatro discos simplesmente intitulados Scott (1967),
Scott 2 (1968), Scott 3 (1969), Scott 4 (1969), sendo perceptíveis tanto a
influência de cantores como Jacques Brel e Frank Sinatra como do cinema de
Bergman ou da poesia Beatnik.
Muitos anos depois, na trilogia iniciada com Tilt (1995),
pouco, muito pouco, restará dos primeiros tempos, embora as sementes tenham
sido lançadas com letras negras e instantes indiciadores de uma mente
atormentada. Uma personalidade obsessiva levou-o a estudar música erudita e canto
gregoriano, afastando-se progressivamente das metodologias impostas pelo reino
do entretenimento. O sucesso esvaneceu, a pressão colocou-o no
limite do que o sistema nervoso de um homem pode suportar. Sem que nunca
tivesse deixado de trabalhar, Tilt marca uma inflexão no percurso
musical de Scott Walker. Obscura, enigmática, misteriosa, é o menos que pode
ser dito desta música. Farmer in the City, o tema inicial, homenageia o poeta
italiano Pier Paolo Pasolini com arranjos de cordas melodramáticos,
repetindo-se o registo no tema Patriot (a single), ainda que com algumas variantes
ao nível da complexidade da estrutura musical. No tema Bolivia ’95 envereda por
ambientes étnicos num ritual de expurgação mental: «opiate me / with that / key
doctor / babaloo».
O imaginário de Scott Walker é um desafio constante,
levando-nos a crer que ao ouvirmos estes discos estamos a penetrar numa
dimensão onírica povoada por criaturas desfiguradas, informes, indefinidas. Se
Tilt encerra o seu esoterismo com a simplicidade de um tema onde Walker se faz
acompanhar apenas da guitarra, sendo o último verso revelador de um estado de
alma que os anos de exílio faziam prever — «And I gotta / quit» —, The
Drift (2006) adensa a percepção de uma desistência com composições completamente
alienadas do ouvinte. Que pensar deste percurso que levou um artista do easy
listening a uma música tão abstracta que chega a ferir?
O interesse pela
cultura italiana mantém-se, mas desta feita com uma evocação de Clara Petacci
(amante de Mussolini que fez questão de ser executada com o ditador). Os
arranjos melodramáticos de alguns temas anteriores dão lugar a ressonâncias
industriais, elevam o drama a tragédia, evocam personalidades obscuras,
secundárias, mas sugestivas psicanaliticamente, como o irmão gémeo nado morto
de Elvis Presley. The Drift é expressionismo abstracto, habitado por cenas de
violência e gestos bruscos, é uma ópera da crueldade com momentos assustadores,
aterradores. Walker já não está interessado em seduzir e entreter, a pop foi radicalmente
largada no lixo, as melodias acabaram estilhaçadas pelos pesados martelos da impiedosa
realidade. Palavras que se escutam em Cue: vírus, verme, herpes, ossos,
gorjetas, sémen, tumor… E tudo isto sugere um olhar sobre o mundo que começa
com a mais simples das perguntas: o que têm Seoul e o Sudão em comum? Ambas as
palavras começam por S:
Bish Bosch (2012) é o derradeiro tomo da trilogia
iniciada com Tilt (1995) e prosseguida com The Drift (2006), resultando todos
de uma estreita colaboração com o produtor Peter Walsh. Nos três álbuns encontramos
referências que se impõem como coordenadas de um universo singularíssimo, dos
assassinatos de Pasolini e Mussolini, da Guerra do Golfo ao 11 de Setembro, passando
por conversas com cadáveres, atmosferas surrealistas, combinações aparentemente
aleatórias de orquestrações clássicas com elementos rock, vozes distorcidas como
nos filmes de terror (o pato Donald possesso no tema The Escape), até cenas de
tortura, radiografias de corpos doentes, cancerosos, momentos minimalistas como
nos temas Rosary e A Lover Lovers.
Bish Bosh podia ser compreendido enquanto síntese deste mundo
perturbado e perturbador. Mas não há tese nem antítese, pelo que seria erro
crasso esperar uma síntese. A trilogia é antes a santíssima trindade de um
mundo colapsado. O tomo final abre num registo industrial, com percussão
repetitiva e uma guitarra distorcida a ameaçar riffs logo descontinuados. From
Here to Eternity, o filme de Fred Zinnemann, dá o mote. Logo a seguir a voz de
Walker surge isolada numa espécie de oração, perdendo-se posteriormente num
longo labirinto de imagens com sons sobrepostos entre os quais seria frustrante
tentar encontrar alguma ligação harmónica. A única tese é o silêncio, a única
antítese é o ruído. Talvez a música seja então a síntese.
Free rock, como
dizemos do free jazz, sustentando uma lírica da violência sumamente ilustrada
pelo som de catanas amoladas. No tema Phrasing o verso «Pain is not alone» é exaustivamente
repetido, acompanhado de referências ao KKK e a Khrushchev que culminam com a
sentença: «Here’s to a lousy life». Talvez o sentido de tudo isto seja impenetrável,
conquanto admitamos haver nesta trilogia o testemunho de uma guerra contra a
indústria, ávida de produtos descartáveis e avessa a uma noção artística da
música. Este Scott Walker é para ser ouvido com calma, de quando em vez,
levando-nos a pensar sobre e através da música no que possa ser, afinal, o
sentido de uma arte suprema:
"Certamente, meu Príncipe, uma ilusão!"
E a mais amarga, porque o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trémulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda — esse ser em que Deus, espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência: pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular; vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel... A sua tranquilidade (bem tão alto que Deus com ela recompensa os santos) onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar — e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota?
Eça de Queiroz, in A Cidade e as Serras, Livros do Brasil, 1.ª edição na Livros do Brasil/Porto Editora, Março de 2016, pp. 94-95.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
A REALIDADE E O DESEJO
A Luis Cernuda
A realidade, sim, a realidade,
esse relâmpago do invisível
que em nós revela a solidão de Deus.
É este céu que foge.
É este território adornado pelas borbulhas da morte.
É esta mesa larga à deriva
em que os comensais perduram ataviados pelo prestígio de
não estar.
A cada qual seu copo
para medir o vinho que acaba onde começa a sede.
A cada qual seu prato
para acabar com a fome que se extingue sem que jamais seja
saciada.
E a divisão do pão aos pares:
o milagre ao contrário, a comunhão somente no impossível.
E no meio do amor,
a queda entre um e outro corpo,
algo semelhante ao batimento sombrio de umas asas que
voltam da eternidade,
ao pulso da despedida debaixo da terra.
A realidade, sim, a realidade:
anúncio de encerrado em todas as portas do desejo.
Olga Orozco (n. 17 de Março de 1920, Toay, Argentina – m.
15 de Agosto de 1999, Buenos Aires), versão de HMBF a partir do original
coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en
Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 157.162-163.
Estudou na Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires, integrando desde
cedo o grupo surrealista Terceira Vanguarda. Esteve associada à revista Canto
nos anos 40. Foi uma famosa actriz de teatro radiofónico, usando vários pseudónimos
na imprensa escrita onde se dedicou à crítica teatral. Nos anos 70, elaborava
horóscopos e respondia a consultas sentimentais praticando tarot. Amiga de Pizarnik,
de Amelia Biagioni, de Alberto Girri e de Enrique Molina, dedicou-se também à
crítica literária e à tradução. Desde lejos (1946) foi o seu primeiro livro.
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Volta ao mundo em poesia
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #8
Por mais voltas
que dêmos iremos invariavelmente parar na casa do amor, pelo que livro mais
útil não ides encontrar na vida. A Ars amatoria servir-vos-á em dois partidos,
já que o mestre escreveu-a a pensar tanto nos interesses dos homens como nos
das mulheres. Nisso descansai, nada tendes aqui que conflitue com as novas
tendências da política de equidade de género. E pela voz de um homem ser-vos-ão
abertas as portas da mente máscula.
Públio Ovídio
Nasão nasceu numa pequena cidade italiana em 43 a. C., vindo a falecer em Tomos
(Constança), na Roménia, já 18 anos depois de Cristo ter andado pela terra. Os
parabolanos bem que tentaram silenciá-lo, mas os versos foram mais fortes que
as pedras e aí estão perdurando na eternidade. Expulso de Roma por Augusto,
condenado ao exílio na terra onde viria a morrer, não baixou armas contra caluniadores, dedicando-lhes versos verrinosos bem diferentes da dissolução de
costumes cantada na Arte de Amar.
Encontrareis
nesta obra três livros, dois dirigidos aos homens e um terceiro votado às
mulheres. Dos primeiros podeis colher o pensamento, as tácticas e manhas no
processo de sedução, as regras que comandam o jogo levando o jogador a actuar
deste modo ou daquela maneira. São ensinamentos indispensáveis a quem pretenda
precaver-se contra as investidas do depredador, pelo que deveis tê-los em boa
consideração:
O vinho põe o coração a jeito e torna-o pronto para a
fogueira;
os cuidados desvanecem-se e diluem-se numa boa dose de
vinho puro;
chega, então, o riso, então o pobre ganha coragem,
então a dor e os cuidados e as rugas desaparecem do
rosto,
então a simplicidade, tão rara no nosso tempo, abre os
corações, sacudidos que foram os artifícios pelo deus.
Dos versos
aproveitai tamanho saber: «a bebedeira, tanto é nefasta, se verdadeira, como é
útil, se fingida». Corroboro. Mas são inúmeros os conselhos, julgai-lhes a
utilidade colocando-os em prática. Sobre tudo quanto tem que ver com o amor nos
fala Ovídio, e não é de um amor dito platónico ou ideal que ele fala, mas sim
do amor que corre no sangue e dá vida à carne, movido pelo desejo e alentado pela paixão, é do amor tal qual o
vivem e experimentam todos quantos possam ter neles o que de animal herdámos.
Esta arte de
amar não se dirige aos hipócritas, muito menos aos moralistas, para quem
o amor do espírito pretende impor sacrifícios à carne. Ela dirige-se aos
amantes, ao corpo dos amantes, pelo que deveis considerar todas as
possibilidades: «Odeio o acto de amor que não faz soltar ambos os parceiros /
(eis por que me apraz menos o amor com rapazes); / odeio aquela que se entrega
por ser preciso entregar-se / e que, na sua secura, só pensa na sua lã; /
prazer cedido por dever não é prazer que me dê gozo; / um dever, que nenhuma
mulher o pratique comigo».
Dito como na
canção, para haver amor não pode haver obrigação. Portanto, minhas filhas,
cuidai de meter na agenda:
Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;
e não deixeis, por isso, esvair-se tempo algum na
ociosidade;
enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a
idade da Primavera,
gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;
nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,
nem a hora que passou logra tornar atrás.
Há que aproveitar a idade.
E o resto são cantigas.
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100 livros para as minhas filhas,
Lidos em 2019
domingo, 10 de fevereiro de 2019
BANDA SONORA ESSENCIAL #60
O álbum mais ouvido na escola
em 1987/1988 foi A Momentary Lapse of Reason, levando muita rapaziada da minha
geração a descobrir os Pink Floyd por esses anos. Para mim não foi uma
descoberta absoluta, já que Another Brick in the Wall era um dos singles mais
rodados lá em casa. Os Pink Floyd dos anos 1980 espelhavam a desintegração do
agrupamento original, com o afastamento de Roger Waters após The Final Cut
(1983). Mas a verdade é que foram canções como Learning to Fly e On the Turning
Away que me despertaram a curiosidade para o que ficou para trás.
Comecei a
coleccionar a discografia da banda britânica desde The Piper at the Gates of
Dawn (1967), disco que me introduziu no universo psicadélico através do fascínio
exercido por um génio atormentado chamado Syd Barrett (1946-2006). As drogas e
subsequente descompensação psíquica afastaram-no da banda, sendo difícil imaginar
o que esta poderia ter sido se David Gilmour não tivesse substituído Barrett. Mas
se a década de 1960 foi de absoluta experimentação e descoberta para os Pink
Floyd, com uma criatividade repartida que o álbum Ummagumma (1969) registou
magistralmente, já a de 1970 foi de consolidação de ideias, enveredando o grupo
por registos mais sinfónicos e menos psicadélicos, assumindo posições políticas
e de intervenção social, descendo do espaço sideral aos factos terrenos como um
meteorito caído do céu.
Waters impôs-se enquanto principal compositor, dividindo
atenções com Gilmour. The Dark Side of the Moon (1973) e Wish You Were Here
(1975), que toda a gente considera hoje obras-primas, são fruto dessa sinergia
nem sempre pacífica entre dois excelentes compositores. Assim sendo, a década
de 1970 não podia ter terminado de melhor maneira para os Pink Floyd. O duplo
álbum The Wall (1979) não só condensa a história da banda como a teatraliza,
elevando a música rock a um estatuto operático que não muitos conseguiram
lograr sem caírem no ridículo.
São múltiplas as leituras que podemos fazer
deste disco, parecendo certo que o muro aqui desenhado simboliza todas as
barreiras erguidas entre a natureza humana e o desejo de liberdade. O problema
é inerente ao ser, é de consciência, mental, mas desenvolve-se na relação com o
exterior. O julgamento final da personagem retratada remete-nos para O
Estrangeiro, de Albert Camus, ao mesmo tempo que expõe as ameaças a que o ser
social está sujeito. A família, as leis de uma suposta justiça, a política, a
religião, tudo se questiona neste disco com um imaginário filosófico cuja pertinência
se mantém inquestionável. Os temas sucedem-se sem intervalos silenciosos, como
se cada canção fosse um acto e cada acto fizesse parte integrante de uma
sequência que tem no tema Outside The Wall a sentença final.
A vida de Roger
Waters parece ser o que motivou a distribuição de matérias, embora me pareça
algo redutor ler um disco destes fixando o interesse numa perspectiva
biográfica. Prefiro lê-lo/ouvi-lo colocando em perspectiva um problema
universal, ainda que sumariado na existência de uma personagem.
sábado, 9 de fevereiro de 2019
SULCOS
- Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfacto, e estraga para todo o dia o ar respirável. É um dito que se surpreende num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica colado à alma, como um salpico, lembrando a imensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura intolerável pela pretensão, ou pelo mau gosto, ou pela impertinência, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se não pode sacudir mais a visão repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, são as pequeninas misérias de uma Civilização deliciosa!
Eça de Queiroz, in A Cidade e as Serras, Livros do Brasil, 1.ª edição na Livros do Brasil/Porto Editora, Março de 2016, p. 46.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
ANTÓNIO
António é discriminado na escola: é o único que não tem os pais divorciados. No recreio todos os amigos gozam com ele. Atiram-lhe frases cruéis à cara: «O António tem os pais juntos! O António tem os pais juntos! O António tem os pais juntos!».
António sente-se envergonhado. Vai chorar para um canto com a humilhação.
Na semana passada, António foi chamado a um gabinete: o Gabinete de Apoio a Filhos que Têm os Pais Juntos. Dois técnicos aconselharam-no a arranjar estratagema certo para acabar com o sofrimento: criar conflitos em casa entre as entidades paternas. Todos os dias, António trabalha para isso - inventando e-mails de amantes, por exemplo. Este ano, acha ele, vai ser finalmente uma criança aceite pela sociedade.
Nuno Costa Santos, in A Mais Absurda das Religiões, Escritório, Outubro de 2017, pp. 189-190.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
UM POEMA DE OLGA OROZCO
DIA PARA ESQUECER
Vai-te, dia maldito;
guarda sob as pálpebras de gesso o olhar de lobo que
melhor me esquece;
caminha sobre mim com passo selvagem, simulando um
deserto entre fome e sede,
para que todos creiam que não estou,
que sou um sinal de despedida sobre as pedras;
fecha de par em lar, longe de mim, tuas faces sem
crueldade e sem misericórdia,
como se fosse já a invulnerável,
aquela que sem pena pode provar os gestos dos outros;
e deita-te a adormecer, debaixo da lona cega dos séculos,
o sonho em que me lançaste de ontem para amanhã:
esta geada que percorre a minha cara.
Ainda assim, hei-de chegar contigo.
Ainda assim, hás-de ressuscitar comigo entre os mortos.
Olga Orozco, versão de HMBF a partir do original coligido
por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina,
vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García
Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 157.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #7
Já que estamos
com a mão na massa, tomai em vossas mãos, minhas filhas, o único livro de
ciência política que realmente vale a pena ler, estudar, aprofundar, reflectir.
Evitai considerá-lo apêndice de Uma Apologia dos Ociosos, apesar de ambos
datarem da mesma época e focarem, cada um à sua maneira, temas interligados. Se
na obra de Stevenson encontramos a apologia de um estado existencial contra a
imposição de um modo de vida, na de Paul Lafargue (1842-1911) vislumbraremos a
defesa acérrima de um direito fundamental acompanhada da denúncia de uma
sociedade empenhada em usurpar aos homens tal direito: a preguiça. Impossível determinar
quanto terá trabalhado o autor para atingir o estado de clareza que a brevidade
do texto oferece, embora desconfiemos que, dada a profusão de citações, a
preguiça não tenha sido dos valores por ele mais cultivados.
Nos 69 anos de
vida vivida, Lafargue, que casou com uma filha de Karl Marx, foi activista comprometido
com a defesa dos direitos dos trabalhadores. Nasceu em Cuba, filho de
fazendeiro com plantações de café. Na família multicolorida cabiam um índio
jamaicano, um mulato refugiado do Haiti, judeus e cristãos, particularidade que
lhe ofereceu desde cedo uma panorâmica alargada da cultura humana. Estudos
iniciais de medicina levaram-no a apaixonar-se pelo positivismo, tendo a partir
de aqui inclinado o coração para o anarquismo político, até ser finalmente
assaltado pelas teses sociais de Marx. O casamento com Laura, a filha de Marx,
terminou quando ambos resolveram suicidar-se. Talvez preguiçassem menos do que
deviam.
A verdade é que
Paul Lafargue entendeu antes de muitos aquilo em que a breve trecho se tornaria
a vida da maioria de nós, uma vida dominada a chicote pela moral cristã e sua
lastimável paródia, a moral capitalista. Metei isto nas vossas cabeças, minhas
filhas, se Cristo morreu na cruz não foi para expiar-nos os pecados, mas sim
para que outros espiem a nossa vida, levando-nos a crer que o sentido desta em
terra está no seu sacrífico por uma outra algures no céu. E assim se fomenta
uma indústria de servidão, das quais tanto as fábricas como as igrejas ou os
centros comerciais, são lugares de culto por excelência. Isto mesmo se denuncia
em O Direito à Preguiça (Teorema, 11.ª edição 2011), obra publicada
originalmente em 1880.
Vós, que sois já
um produto da Revolução Tecnológica, tende cuidado: tal como no passado foram
os homens escravos das máquinas, somos nós hoje escravos das tecnologias. A
ideia de que os robôs viriam para a nossa libertação está mais que desfeita, reduzindo a
mão-de-obra humana aos valores de um salário mínimo que é via verde à escravidão,
ao degredo, ao desprezo, à miséria. A religião do trabalho, acompanhada da
ideia de utilidade, nada mais tem conseguido do que o embrutecimento das almas
humanas, levando-nos o tempo de ócio, censurando-nos o direito à preguiça, coagindo-nos
a crer que o progresso é esta mecânica desenfreada de produzir para consumir até termos dado
cabo de todos os recursos naturais e, por consequência, da Terra Mãe.
Conclusão:
Tal como Cristo, dolente personificação da escravatura
antiga, os homens, as mulheres e as crianças do Proletariado sofrem penosamente
desde há um século o duro calvário da dor: desde há um século, o trabalho
forçado parte-lhes os ossos, mortifica-lhes a carne, arrasa-lhes os nervos;
desde há um século, a fome contorce-lhes as entranhas e alucina-lhes a
cabeça!... Ó Preguiça, tem piedade da nossa longa miséria! Ó Preguiça, mãe das
artes e das nobres virtudes, sê o bálsamo das angústias humanas!
A VIDA
a jacques mamruth
quando o meio-dia
te oferece um mundo vazio
quando um passo a trás é a morte
e ficar quieto é um passo a trás
então
levado pela inocuidade do momento
deixas mover alguma parte do teu corpo
pensaste
deixarei que algo aconteça
se tudo é nada também algo será nada
enganas-te
através dessa lacuna
toda a realidade inteira escoará
se permites o menor movimento à quietude
se deixas entrar no vazio a mais parda molécula
esse movimento essa molécula
nessa quietude nesse vazio
armarão uma festa gloriosa
e festa após festa
o restaurado meio-dia promete a tarde acobreada
sentes-te senhor
e começas a viver novamente
e é assim
nada há a fazer
César Fernández Moreno, versão de HMBF a partir do
original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX
en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 150-151.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
OS PROBLEMAS DAS PESSOAS
Nove mulheres mortas em contexto de violência doméstica
desde o início do ano. Presumo que os assassinos não sejam pretos a viver em
bairros degradados, nem as vítimas polícias de profissão. Caso contrário, não se
falaria de outra coisa.
ANOITECER NO PARAÍSO
Quando faleceu, Lucia Berlin (1936-2004) era pouco mais
do que uma ilustre desconhecida. Granjeou maior reconhecimento com a publicação
póstuma de A Manual for Cleaning Women: Selected Stories (2015), prefaciado pela
escritora Lydia Davis. A curiosidade acerca da existência de Berlin não se fez
esperar, surgindo de imediato uma avalanche de informações que dão conta de uma
biografia fascinante. Filha de um engenheiro de minas, nasceu no Alaska mas foi
crescendo em vários locais que surgirão, na sua maioria, referenciados nos seus
contos: El Paso, Chile, México, Arizona, Novo México, Nova Iorque, Colorado,
Los Angeles. Na nota biográfica que acompanha A Manual for Cleaning Women
refere-se o alcoolismo da mãe, herdado pela filha. Também se refere a escoliose
aos 10 anos de idade, os estudos na Universidade do Novo México, o primeiro
casamento com um escultor, os dois primeiros filhos, o abandono do marido. Não
é difícil concluir de onde veio a matéria para os contos Lead Street,
Albuquerque e As esposas.
O encontro com o poeta Edward Dorn terá sido determinante
para que começasse a escrever, vindo a estrear-se apenas em 1981 com Angels
Laundromat: Short Stories. Voltou a casar em 1958, com o pianista Race Newton.
O jazz é outra das referências constantes nas suas histórias, quer através da
evocação de composições, quer enquanto território onde habitam as personagens. La
barca de la ilusión, por exemplo, coloca em cena um heroinómano que toca
saxofone, apaixonado pela música de Dizzy, Bird, Jaki Byard, Bud Powell. É
muito provável que Paul e Maya Newton, do excelente conto A casa de colmo com
telhado de lata, sejam inspirados na relação de Lucia com Race. Mas
aconselha-se alguma cautela nas extrapolações. No prefácio que escreveu para
Anoitecer no paraíso (Alfaguara, Novembro de 2018), Mark Berlin, filho, não
podia ser mais claro: «A mãe escrevia histórias verdadeiras; não
necessariamente autobiográficas, mas bastante perto disso» (p. 11). No ciclo de
amigos do casal Newton, quando as primeiras histórias começam a surgir em revistas de referência, encontramos o casal beatnik Diane di Prima e Amiri
Baraka (LeRoi Jones).
Em 1960, Lucia deixou Nova Iorque e partiu com os filhos
para o México. Casou-se pela terceira e última vez com o saxofonista Buddy
Berlin. Serão tempos decisivos. Berlin é viciado em heroína, tal como o
personagem de La barca de la ilusión. A relação durará 8 anos, e dela surgirão
mais dois filhos. Com o divórcio consumado em 1968, Lucia dedicar-se-á aos
filhos e ao trabalho enquanto professora e escritora. Ao longo da vida foi
ainda telefonista, auxiliar de enfermagem, mulher de limpezas… A mãe ter-se-á
suicidado em 1986, a irmã morreu de cancro, o pai transformou-se numa das
figuras ausentes mais interessantes dos seus contos. O final do conto
intitulado Itinerário, que relata a saída do Chile a caminho da universidade no
Novo México, é especialmente tocante no que diz respeito a essa relação.
Os primeiros contos de Anoitecer no paraíso são memórias
da infância em El Paso, durante a II Grande Guerra, e Santiago do Chile, depois
da Guerra. A família, as assimetrias sociais, a sobrevivência, são temas
tratados com clareza, sem queixume nem lamentos. Berlin reflecte a vida
recordando-a, o seu material provém da experiência vivida e perdura na memória
como um cheiro: «Há quem associe sempre o cheiro enjoativo das flores aos
funerais. Para mim, precisa de estar misturado com o odor a estrume de cavalo»
(p. 77). Cada conto é como que uma “cápsula do tempo” que nos transporta para o
passado como quem folheia um álbum de fotografias, sendo que entre essas
imagens e a visão que proporcionam há todo um esforço de reconstrução que
rasura, mistura, subverte, acrescenta.
O olhar que lança sobre a vida doméstica
tem, como em Raymond Carver, o encanto nostálgico de um reencontro. É como se o
simples facto de termos sobrevivido ao passado agora recordado fosse já a graça
suficiente de se estar vivo. E depois há a consciência da relevância do fragmento,
pois: «Uma palavra, um gesto, podem mudar uma vida inteira, podem quebrar tudo
ou torná-lo inteiro» (p. 100). As casas, os lugares, os objectos, tudo ganha
vida nos seus contos por estar em relação directa com a existência das
personagens. Há um laço inquebrável entre o lugar e o ser que não deixa de nos
impressionar, sobretudo numa autora cuja vida se foi cumprindo em tantos e tão
diversos lugares, condicionada pelas circunstâncias e ao sabor das ocasiões.
Etiquetas:
Leituras,
Lidos em 2019,
Os mestres e as criaturas novas
Impecavelmente iludidos
Estranho quem nega a dor. Quem nega a dúvida. Quem nega a hesitação e o desconforto. Quem está sempre bem, que não tem depressões e isso. Os que não gostam de filmes tristes porque não são assim como os filmes. Os que recusam discursos sobre a tristeza porque a tristeza é dos «outros», não deles. Estranho os que estão sempre «impecáveis».
Nuno Costa Santos, in Vou Emigrar para o Meu País, Escritório, 2014, p. 133.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019
BANDA SONORA ESSENCIAL #59
Não sendo banda de um só álbum, é como se fosse. Nunca
quis saber o que ficou para trás do álbum The Opiates (2001), dos suecos
Anywhen. A razão para tal desinteresse tem que ver com algo tão simples quanto
isto: The Opiates é perfeito. Repito: perfeito. A gente escuta o arranjo de
cordas logo na abertura do tema The Siren Songs e percebe ter chegado a um
lugar especial, uma música caída do céu como do céu caem estrelas refulgentes,
uma flor a desabrochar na terra, brisa ligeira a espalhar sementes pelo deserto
da nossa melancolia.
As orquestrações de Manfred Honetschläger, músico curiosamente
associado ao universo jazz, são um dos pontos fortes de um álbum que se
aproxima muito mais de certa tonalidade clássica do que da música improvisada.
Pouco sei sobre os Anywhen, a não ser que têm na linha da frente a maravilhosa
voz de Thomas Feiner. O que será feito dela? A informação na Wikipédia não
explica o desaparecimento em projectos menores. Sobre o baterista Kalle
Thorslund as informações ainda são mais lacónicas. Ficando neste vazio,
resta-nos a música. Aí está, nada mais importa, só a música a valer por si
mesma.
Passaram 18 anos e esta música continua a perfurar-nos o corpo chegando até ao
coração, obsidiando-o com letras simples e melodias cativantes, arranjos de
cordas e sopros em camadas sobrepostas. Num tema intitulado Toy escutamos a voz de Feiner sobre os sopros, um contrabaixo em discreta tonalidade
jazzística, as cordas lá no fundo como que procurando afinar-se e uma percussão
tão simples que parece reflectir na perfeição o estado emocional convocado na
letra: I’m a toy / I am just a toy / Nothing but a toy / For this brain / And
it’s pure pain. Um arrepio sobe-nos pela espinha, podendo até chegar a
desfazer-se em água em torno do globo ocular.
Tudo é perfeito neste álbum,
tudo. Os nove temas sucedem-se como se fossem um só, a gente chega ao fim
e quer ouvir de novo, uma e mais uma e outra vez. All That Numbs You, o último,
chegou a ter direito a videoclip. Talvez seja o que mais se aproxima de uma
estrutura pop, que não desfazendo o todo também não o representa. É como se
quiséssemos mostrar a mais bela das mulheres arrancando-lhe um membro, exibindo-o
ao mundo, dizendo: vejam, é a mais bela das mulheres. The Opiates é para ser
tomado na íntegra, em noites frias como a de hoje, em manhãs de chuva como a de
ontem, em tardes ventosas como a que se adivinha… sempre que o corpo reclamar remédio
para a alma. Tipo hoje.
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #6
Robert Louis
Stevenson (1850-1894), deste já ouvistes falar. Foi quem escreveu A Ilha
do Tesouro (1883), que por certo já visitastes, tal como O Estranho caso do Dr.
Jeckyl e Mr. Hyde (1886), que escusais de ler se vos atentardes ao mundo dos
homens em geral e dos artistas em particular. Morreu com a idade que vosso pai
tem hoje, mas com uma vida incomparavelmente mais cheia. Naqueles tempos
vivia-se menos, mas mais. O que contradiz a lógica aristotélica.
Nascido em boas
famílias da Escócia, teve uma educação privada para protecção dos brônquios. Pretendiam
que fosse engenheiro, protegendo a continuidade do negócio de família, mas ele
era mais dado a leituras, arte e ócio. Herdou do pai o gosto pelas viagens,
encarregando-se de não as conspurcar com a mania dos negócios. A decisão pela
literatura deixou a família perturbada, tornou-se evidente quando começou a
deixar crescer o cabelo, a adoptar um estilo de vida boémio, a vestir-se como
um ateu, a adoptar como lema o de muitos dos seus pares: desrespeita tudo
quanto os teus pais te ensinaram.
Eis, minhas
filhas, ensinamento a que deveis prestar a máxima atenção, mais nenhum senão
este deveis adoptar se pretendeis ser verdadeiramente livres. É vosso pai quem o diz.
Desta e de
outras máximas nasceram obras eternas, entre as quais deveis especialmente considerar
Uma Apologia dos Ociosos (& etc, Junho de 2005). Das várias edições
disponíveis a mais bonita é esta, devidamente prologada e seguida do ensaio
Conversa e Conversadores. A «defesa pseudofilosófica da preguiça» ensaiada
neste livro, surgido inicialmente numa revista publicada em 1877, diz-nos desde
logo o que nenhum livro senão este pode ensinar: «Os livros são úteis à sua
maneira, porém um substituto bem pálido da vida». E acrescenta: «Basta dizer
isto: se um jovem não aprende na rua é porque não tem capacidade de aprender».
Elogio do
nomadismo contra o sedentarismo, da rua contra a academia, da experiência
contra a literatura, isto é, de uma literatura com vida e experiência, colhida da terra e não da poalha dos livros. Contra a escolástica, colocando em xeque
toda a ideia de Sucesso na Vida que não seja o vivê-la tirando partido das
experiências, do contacto com o desconhecido. Um aventureiro, este Stevenson.
Um hedonista, talvez: «Os prazeres são mais benéficos do que as obrigações
porque, tal como a faculdade de perdoar, não são forçados, e portanto
representam uma dupla bênção».
Podeis contra-argumentar
que tal discurso não seria possível sem barriga cheia, que o senhor Robert nos
fala lá de um lugar onde não teve de chegar por dele ter partido, podeis
desconfiar da sua argumentação crendo que bem diferente seria caso desde
cedo tivesse ele sido forçado pelas circunstâncias a fazer pela vida como o
comum dos mortais. Todas as críticas são válidas, desde que descanseis o corpo
sobre elas. O que nestes casos importa é a mensagem, venha ela de onde vier. Certo
é que mais nos valerá sempre um elogio do ócio do que
uma defesa do sacrifício. A vida é curta, não merece que a desperdicemos com as despesas do supérfluo.
domingo, 3 de fevereiro de 2019
UM POEMA DE CÉSAR FERNÁNDEZ MORENO
MADRIGAL
tal como um gato envolto no seu pêlo
se senta na fria calçada da madrugada
ao pé da porta que seu dono ausente fechou à chave
tal como esse gato a miar debilmente enquanto olha para a alta fechadura
e depois ansioso para os poucos transeuntes que passam a
essa hora
quem sabe amigos do seu dono ou mesmo seu dono
quem sabe podendo abrir-lhe a porta inacessível
permitindo-lhe regressar ao calor de que a sua natureza
necessita
assim também eu na esperança de tão remotas
possibilidades
olhava e observava qualquer pessoa recolhido na calçada
até que por azar tu passaste sensível a todos os animais
me olhaste como eu a ti
me disseste qual era a minha porta verdadeira
e te fizeste minha dona
César Fernández Moreno, versão de HMBF a partir do
original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX
en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, P. 149.
sábado, 2 de fevereiro de 2019
WHISKY AND SODA
Levado por circunferências de aço
que rodam sobre complacentes paralelas também de aço
chupo o cilindro, forrado com papel
que contém na ponta iluminadas folhas picadas tostadas
bebo da vasilha de quartzo translúcido
este líquido composto por álcool
misturado com água de onde o gás sobe em pequenas esferas
esgrimo este outro cilindro de madeira com eixo de grafite
aplico-o na plana celulose branca sumamente delgada
elevo finalmente o meu repugnante coração sobre as ondas
da técnica
e consigo dizer amo-te
César Fernández Moreno (n. Buenos Aires, 26 de Novembro
de 1919 – m. Paris, 14 de Maio de 1985), versão de HMBF a partir do original
coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en
Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 140. Diplomata de
profissão, era filho do poeta Baldomero Fernández Moreno. É um dos nomes mais
destacados da chamada Geração de 40, tendo dirigido as revistas Contrapunto,
Correspondencia, e integrado o grupo da revista Zona de la poesía americana. O
primeiro livro foi Gallo ciego (1940), com prefácio do pai. Colaborou na
imprensa escrita como crítico de cinema. A sua poesia revelará algumas inflexões
na década de 50, optando por um registo irónico de cunho social. Uma das suas
obras mais aclamadas é Argentino hasta la muerte (1963). Fundou e dirigiu a
colecção Fontefriada.
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César Fernández Moreno,
Versões,
Volta ao mundo em poesia
DIA DE CHUVA
Bolas, este centro fica cheio, quando chove. Estou farto de estar na rua, sabes? A minha patroa e eu fomos para as arquibancadas... é simpático — muito sossegado e montes de espaço. Depois, começou a chover e ela pôs-se a chorar. Eu só lhe perguntava: O que se passa, 'mor? O que se passa? Sabes o que é que ela acabou por me dizer? «As beatas estão a ficar todas molhadas.» Merda, então bati-lhe. Ela ficou louca, os bófias levaram-na para a cadeia e a mim para aqui. Eu aguento uma ressaca. O problema é que, quando fico sóbrio, começo a pensar. Os alcoólicos pensam mais do que a maior parte das pessoas, essa é que é a verdade. Eu bebo só para calar as palavras. Merda, e se eu era mesmo baterista? Na última vez que aqui estive, havia uma Psychology Today que falava sobre bêbados sem-abrigo. Provava que os bêbados pensavam mais. Dizia que tinham melhores pontuações nos testes do que as pessoas normais e eram melhores em retenção. Havia só uma coisa em que tinham uma má pontuação, não valiam mesmo nada, mas não me lembro do que era.
Lucia Berlin, in Anoitecer no paraíso, — Mais histórias, trad. Ester Cortegano, Alfaguara, Novembro de 2018, p. 233.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
HOSTILES (2017)
Só há dias dei pela existência deste Hostiles/Hostis
(2017), de um tal Scott Cooper que se estreou na realização com o prometedor
Crazy Heart (2009). Jeff Bridges era um decadente músico de country,
papel que lhe valeu o Oscar depois de várias nomeações. Passava por acaso num
canal de televisão quando me deixei prender pela presença de Christian Bale. Pouca
gente se recordará dele como Jim, o jovem rapaz que Steven Spielberg imortalizou
em Empire of the Sun/Império do Sol (1987). É um dos meus actores preferidos. Hostiles,
curiosamente, não é a sua estreia no western. Em 2007 já encantara no remake
3:10 to Yuma/O Comboio das 3 e 10 (2007) ao lado de Russell Crowe. Desta feita,
entre os rostos mais conhecidos com os quais contracena temos o inconfundível
Wes Studi. A ascendência cherokee tem-lhe valido alguns papéis relevantes como
índio, sendo exemplo os desempenhados em Dances with Wolves (1990), The Last of
the Mohicans (1992), Geronimo: an American Legend (1993), The New World (2005),
e até uma aparição fugaz em The Doors (1991).
Neste Hostiles, Wes Studi dá corpo ao chefe Yellow Hawk.
Não consegui apurar até que ponto a história do filme se aproxima dos factos,
embora o tom naturalista leve a crer na existência de ligeiras aproximações.
Bale é o capitão Joseph J. Blocker, destacado para transportar Yellow Hawk e a
família de uma reserva no Novo México às terras de origem no Montana. Blocker
passou a vida a combater índios, transformando-se num herói de guerra dentro da
estrutura militar. Mas o sentido do dever impõe-se. Depois de alguma
resistência, parte em viagem. Pelo caminho, a caravana cruza-se com uma mulher
desesperada que acabou de perder toda a família (marido e três filhos menores,
entre os quais um bebé) na sequência de um cruel ataque indígena. Resolvem acolhê-la
na caravana. Rosamund Pike tem na personagem de Rosalee Quaid um inesquecível
momento de inspiração. O mote está dado.
Esta é uma história de expiação. Há várias formas de
olharmos para um filme destes, a pior de todas é procurar julgá-lo pelo que
possamos supor ser a sua moral. A verdade é que Scott Cooper
teve a capacidade de ser superior a qualquer forma de maniqueísmo oportunista.
Interessa-me muito mais, porém, o modo como vai expondo os sucessivos choques
emocionais ocorridos dentro de cada uma das personagens. O final do sargento Thomas
Metz, companheiro de longa data de Blocker, é um bom exemplo do turbilhão de emoções
que persegue estas pessoas. Mais do que entre opositores, a tensão é interior,
inerente a cada um deles. E os cenários são excelentes, fazendo com que tudo
pareça verosímil e humano, ou seja, frágil e ambíguo. Certa, só mesmo a morte. A morte que Rosalee Quaid diz por vezes invejar, pelo seu carácter definitivo.
Hostiles é mais uma tentativa de manter vivo um género
tão antigo quanto o cinema. Neste século, mesmo excluindo
os remakes (3:10 to Yuma, True Grit, em certo sentido The Revenant), já temos
alguns exemplos de como o western pode renovar-se sem perder a sua essência.
Não é um grande filme como The Assassination of Jesse James by the Coward
Robert Ford (2007), de Andrew Dominik, que pegando num tema clássico conseguiu
oferecer-nos poesia numa paisagem agreste. Mas está perfeitamente ao nível de
The Homesman (2014), de Tommy Lee Jones, e supera as incursões de Ti
West e Michael Winterbottom no género. Sobra Tarantino, mas com esse a conversa
é outra.
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