sexta-feira, 22 de março de 2019
EURICO, O CAVALEIRO NEGRO
Eurico, o Presbítero teria tudo para ser um enorme êxito
hollywoodesco, não fora ter sido escrito por um português no século XIX. Datado
de 1844, o romance surge normalmente englobado no conjunto de obras que conferem
ao autor o estatuto de primeiro grande cultor do romance histórico entre nós. O
próprio Herculano denota escrúpulos na classificação do livro, referindo-se-lhe
como «crónica-poema, lenda ou o que quer que seja». A acção decorre no fim do
século VII, aquando da chegada dos árabes ao Reino Visigótico. O comandante Ṭāriq
ibn Ziyād é uma das personagens históricas evocadas. Do lado cristão, evoca-se
a figura do suevo Teodomiro e coloca-se em acção Pelágio das Astúrias. Mas a
personagem central, um godo de nome Eurico, é pura ficção, apesar de no séc. V
ter existido um Eurico rei dos visigodos.
Duas existências pelejam no interior de Eurico, uma antes
de ter experimentado o amor por uma mulher, outra depois de esse amor se ter
revelado impossível. Hermengarda é o nome da amada, recusada a Eurico devido à
posição humilde por este ocupada. Convertido à religião e à poesia, Eurico, o
presbítero, recolhe-se na pobre paróquia de Carteia durante dez anos de vida,
até que a vista dos árabes a invadirem terras espanholas, e a tomada de
conhecimento de traições em curso no reino visigótico, o levam a vestir novamente
a farda de cavaleiro negro. Presbítero pela mulher amada, Cavaleiro Negro pela
pátria, Eurico transporta a característica essencial a todos os grandes heróis
de ficção: a ambivalência. Metade humano, metade animal, como as lendárias
figuras mitológicas, cavaleiro solitário com o coração dividido entre a melancolia
e a ferocidade.
«Orgulho humano, qual és tu mais — feroz, estúpido ou
ridículo?», pergunta-se a determinada altura como quem encontra subtítulo para
a história de uma vida. Dito isto, os condimentos estão lançados. Temos intriga
política, brutais cenários de guerra, desconfianças e traições, temos
sequências violentas como a de um suicídio em massa de freiras que recusam
terminar como prostitutas nas mãos dos árabes, temos resgates improváveis, perseguições,
temos batalhas sangrentas, temos muito sangue, muita porrada, donzelas
lindíssimas e frágeis, gente que enlouquece por amor, temos desespero e
esperança, guerreiros resistentes como aço, gritos, maldições, martírios. E temos
um amor impossível em cenário de fundo, do qual retiraremos um sacrifício final
em nome da vingança. Pela pátria? Pelo amor impossível? Pela busca da paz
eterna?
A gente lê e é como se estivesse a ver um Braveheart à
portuguesa. Houvesse por cá máquina de cinema, seria isto um sucesso dos
diabos. Ainda mais agora, neste tempo de discussão civilizacional, com o
fantasma do califado a açoitar o Ocidente através de um terrorismo atroz.
Talvez o politicamente correcto trave o ímpeto comercial da coisa, pelo que
cabe perguntar: «Porque a abelha zumbiu aos ouvidos do caçador faminto,
arrojará ele para longe o mel do seu favo e esmagará o insecto?» Lido o livro,
fica-se com a nítida sensação de que daria um belíssimo filme de acção.
Cenários não faltam onde pudéssemos reproduzir as cordilheiras cortadas, os
algares profundos, as gargantas selvosas, os picos agudos por onde os godos
fugiram dos árabes, por onde os árabes assaltaram os godos. Herculano propôs-se
pintar o último semideus a combater na Terra. O último não terá sido, mas não
restem dúvidas de quão bem pintado foi.
quinta-feira, 21 de março de 2019
BANDA SONORA ESSENCIAL #64
Sobre a música de Bernardo Sassetti (1970-2012) parece
sempre pouco o que possamos dizer, o talento do pianista transcende tudo quanto as palavras
podem apenas ilustrar. Com estudos de piano clássico, acabaria por dedicar-se
mais ao jazz. Com apenas 17 anos já tocava entre os melhores. Tive oportunidade de o escutar
ao vivo algumas vezes, impressionando-me sempre a leveza que inspirava,
perfeitamente apreensível em discos como Indigo (2004) ou Motion (2010).
A
música para cinema foi uma das dimensões importantes do trabalho outorgado por Sassetti.
Neste domínio, um dos seus discos é pura superação. Alice (2005) não é só a
banda sonora para o excepcional filme de Marco Martins, é um monumento à
música. É provavelmente um dos melhores filmes que alguma vez a música nos
ofereceu, sendo o filme, também provavelmente, uma das melhores fontes de
inspiração que alguma vez o músico experimentou.
Podemos dizer que a relação de proximidade com a
sétima arte reforça a carga imagética. Mas ainda que devamos ver o filme,
porque é mesmo muito bom, não é preciso vê-lo para sentir o que a música tem
para oferecer. E ao ouvir a música podemos construir um outro filme, uma outra
história, talvez, mas a emoção profunda que ambos liga mantém-se indestrutível.
Ao voltar a escutar a linha de piano que surge nítida em Noite-Parte V o
coração ressente-se, pelo corpo circula uma melancolia capaz de abrir no peito vazio uma réstia de esperança. Não carece de muito um músico para nos oferecer
música de excelência. Neste caso, além do piano ouvimos por vezes um clarinete,
um contrabaixo e… um copo de cristal. Os temas surgem ligados pelos sons de
fundo do cinema, a respiração do pai à procura da filha desaparecida, o
tiquetaquear do relógio a pautar o ritmo do desespero, a ansiedade, os motores
dos transportes, as ruas, o comboio, os carros, a cidade, a ampla confusão
dentro da qual se busca o ínfimo, um ínfimo que é tudo, um ínfimo maior que o
mundo.
São menos de 40 minutos de pura genialidade, da busca iniciada com
Prólogo: Hoje à tensão do penúltimo tema intitulado Indiferença. O filme é sobre um homem em busca de uma parte de si, a filha desaparecida. A música é uma busca de si mesmo.
"Sabeis o que é esse despertar de poeta?"
É ter entrado na existência com um coração que transborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntarem-se os homens e lançarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, fel e peçonha e, depois, rirem-se dele.
É o ter dado às palavras - virtude, amor pátrio e glória - uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realidade delas neste mundo, só encontrar aí hipocrisia, egoísmo e infâmia.
É o perceber à custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se e a esperança nas cousas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo ténue que ondeia em horizonte aquém do qual está assentada a sepultura.
Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abismos da sua alma só há para mandar aos lábios um sorriso de desprezo em resposta às palavras mentidas dos que o cercam ou uma voz de maldição desabridamente sincera para julgar as acções dos homens.
É então que para ele há unicamente uma vida real - a íntima; unicamente uma linguagem inteligível - a do bramido do mar e do rugido dos ventos; unicamente uma convivência não travada de perfídia - a da solidão.
Alexandre Herculano, in Eurico, O Presbítero, MEL Editores, Junho de 2011 (1.ª edição, 1844), pp. 30-31.
UM PROBLEMA DE FRONTEIRAS
Não há argumento, apenas descrição e remate aberto. Mas sendo público que Rentes de Carvalho votou em Wilders, questionamo-nos sobre
a solução do “encerramento de fronteiras”. Devemos fechá-las também a
norte-americanos, noruegueses e australianos? Como todos os países têm os seus
terroristas domésticos, questiono-me até se não deveríamos encerrar aos
portugueses as fronteiras de Portugal?
quarta-feira, 20 de março de 2019
O RAPAZ QUE PRENDEU O VENTO
The Boy Who Harnessed the Wind (2019) marca a estreia de Chiwetel
Ejiofor na realização. Vimo-lo como actor secundário em Amistad (1997), de
Steven Spielberg, já com outro protagonismo em Dirty Pretty Things/Estranhos de
Passagem (2002), curioso filme de Stephen Frears, no inesquecível papel de
Solomon Nortup, em 12 Years a Slave (2013), do impagável Steve McQueen. A
temática africana mantém-se, aparentemente enquanto viagem ao encontro das
raízes. Chiwetel é filho de nigerianos, descendente da etnia Igbo. The Boy Who
Harnessed the Wind baseia-se nas memórias de William Kamkwamba, famigerado
engenheiro do Malawi que em criança salvou da fome a sua aldeia ao construir um
moinho de vento que alimentava uma bomba de onde provinha água para consumo e
cultivo. Sem perder de vista a questão política, Chiwetel preferiu centrar-se
na relação do jovem Kamkwamba com o pai. As questões familiares oferecem às
personagens uma ideia de conflito geracional que permite elaborar o elogio do
conhecimento, a importância da escola e da informação, contra uma atitude
conservadora de arraigamento às tradições rurais. O poder da inovação
tecnológica enquanto superação de limitações físicas e geográficas, mas também
culturais, é uma das possibilidades de leitura deste filme. A temática política,
ilustrada pelo abandono e pelo oportunismo das forças no poder perante uma
situação calamitosa, parece secundária. O que mais importa é a relação entre
William Kamkwamba, interpretado pelo jovem Maxwell Simba, e o pai Trywell
Kamkwamba, recriado pelo próprio Chiwetel Ejiofor. As personagens ora comunicam
no dialecto local, ora falam num inglês carregado de pronúncia. Nota-se o
esforço de recriação de uma paisagem agreste, marcada pela carência de
recursos, pela pobreza generalizada, por um sistema educativo altamente
deficitário. William é um jovem de origens humildes, impedido de desenvolver o
seu potencial intelectual por ser afastado da escola devido à falta de
pagamento de propinas. Por si só, a história já é tocante. O filme
acrescenta-lhe uma dimensão altamente emocional, a espaços refreada pela
necessidade de denúncia de um sistema que em nada contribuiu para que possa
sair da pobreza quem nela nasceu. As imagens que chegam agora de Moçambique
superam em tudo aquilo que um filme destes possa ilustrar. Sabemos que contra a
fúria da Natureza pouco resta aos homens, mas assistir à destruição, em
larguíssima escala, provocada pela passagem de um ciclone, dá bem conta das
fragilidades de um país onde as populações ficam à mercê do azar. Não é só os
telhados que voaram onde havia telhados, as ruas invadidas pela fúria das
águas, as sensações de desamparo e desabrigo deixadas pelo rastro de
destruição, é também tudo o que se lhe segue, a fome e a doença, esta
condenação ao fracasso impossível de aceitar.
terça-feira, 19 de março de 2019
segunda-feira, 18 de março de 2019
UM MINUTO POR MOÇAMBIQUE
Literalmente, nem mais. Qualquer ventania com meia dúzia de estufas danificadas ocupa mais tempo nos telejornais do que a tragédia de Moçambique. Tão estranha, esta distância. Tão difícil de compreender o desinteresse das pessoas por Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, um dos países que mais precisa da nossa atenção.
domingo, 17 de março de 2019
PERCALÇO DO AMOR
As mulheres que amam envelhecer são mais numerosas do que se pode julgar. As que vão deixando de lado os sapatos desconfortáveis e os métodos depilatórios; as que, pouco a pouco, se transformam, como árvores desgrenhadas, com pólipos e rugosidades, musgos e crostas, com sinas cemiteriais nas mãos, com unhas duras como cascos e cheias de veias salientes; as que prescindem das faixas, cintas, bandas e alças; as que se tornam vitoriosas por efeito dum gáudio que emascula os homens; as que acabam com a contracepção e suas infames ciladas e se emancipam deveras do espermatozóide, do ventre, do percalço do amor e do sexo; as que, enfim, concebem num canto da memória essa falta menstrual que foi a vida inteira, a falha da paixão dinâmica e gloriosa que não aconteceu nem acontecerá nunca. A velhice é para elas o prazer que encobre a morte, sem pecado, risco e culpa formada.
Agustina Bessa-Luís, in O Mosteiro, Lisboa, Guimarães Editores, 1980, p. 68, citada por Isabel Rio Novo, in O Poço e a Estrada - biografia de Agustina Bessa-Luís, Contraponto, Fevereiro de 2019, p. 457.
sábado, 16 de março de 2019
CONVOCADO PARA PALRAR
Mais informações: aqui.
Adenda:
EC.ON, Lisboa, 16 Março
Acorro ao ciclo poético da EC.ON e assisto, com prazer,
ao Jaime Rocha desenhar o palco que a Nazaré se tornou para ele, no qual nunca
mais deixou de ouvir conversas com mortos, nem de acompanhar figuras de negro a
passearem medos e angústias, sem esquecer a íntima observação do mar
ininterrupto e o cultivo do silêncio. Vi até uma enxada a passar à beira do
café em Benfica e na mão de um semeador de cães e gatos. Ouvi também o
dodecassilábico Henrique Manuel Bento Fialho defender acesamente a contaminação
entre géneros, a descoberta do verso na prosaica planura da prosa, ou da
centelha da ideia em pleno poema. Pensei, por causa disso, que o gesto poético
surge que nem aquelas utilíssimas placas de sinalização espalhadas pelo nosso
interior. Perdidos, acendemos os faróis para ver melhor a indicação que nos
salvará a pele e eis que surge, brilhando, «outras direcções».
João Paulo Cotrim, aqui.
sexta-feira, 15 de março de 2019
UM POEMA DE PAULO DA COSTA DOMINGOS
CAPELA DOS OSSOS
É o labirinto das medidas drásticas
no domicílio, no casulo controverso
de gente capaz de tudo, nem as feras.
Quase julgam-se felizes no atropelo,
e é que o são mesmo, como animais
enlouquecidos na sua vazia esfera.
Alguém lhes pôs água nas cabeças;
antes os houvesse afogado, mas não,
só fazem isso, a frio, à gataria.
¿Existe por estes lados um' agonia
que possa ser tida por boa, útil,
aprazível, salutar e duradoura?
¿Será um problema d' aerodinâmica
onírica?... quando a coisa única
que nos separa, ou liga, é a polícia...
Crânio sobre crânio, tarso sobre
tarso, cóccix sobre cóccix, vieram
os arquitectos compartimentar
o beco sem saída que esta vida é,
tod' os danos que deixámos para trás,
to-da a men-ti-ra piedosa...
Paulo da Costa Domingos, in A Vau, Companhia das Ilhas, Dezembro de 2018, p. 43.
Etiquetas:
Lidos em 2019,
Os mestres e as criaturas novas
TERRORISTAS
A Wikipédia chama terrorista doméstico a Timothy McVeigh. Já
Anders Breivik é terrorista cristão da extrema-direita. O australiano Brenton
Tarrant ainda não tem a sua página, mas há-de ter. E nela se dirá também que
era de extrema-direita. Estas criaturas existem, assim como aquelas que defendem
a distribuição de armas de fogo pelas populações. A extrema-direita, e não só a
extrema, tem muita gentinha a pensar assim. Com o argumento de que as
populações precisam defender-se, pois claro. Do Brasil de Bolsonaro chegam
notícias sobre um atentado à Escola Estadual Professor Raul Brasi, massacre na
linha do que Michael Moore documentou em Bowling for Columbine (2002).Quando é
que começaremos a chamar terroristas às empresas que lucram com a venda de
armas? E aos políticos que defendem políticas que apenas favorecem os
interesses meramente comerciais dessas empresas? Quando é que toda essa gente
terá uma página na Wikipédia a chamar-lhes o que são: terroristas?
quinta-feira, 14 de março de 2019
ESTÁ NO AR
Mais um Et de plomb et de plume: aqui. É o melhor "programa de rádio" do mundo. E eu a ouvir, enquanto espero pela pizza. Há dias assim.
ÁRVORE EM FLOR
Ainda não fez um ano que enterrámos o corpo debaixo
daquela árvore, calcando bem a terra e sinalizando o lugar com um pedregulho.
Não consigo lembrar-me da árvore, apenas da sombra que fazia. Estava frio, eu
tinha frio. Continha o choro como sempre contenho o choro, uma dor a querer
saltar pela boca, uma dor presa à garganta, o peito a puxar a dor para baixo,
uma dor colada às paredes do peito.
Emociono-me com facilidade, houve um tempo
em que chorei muito. Quase tudo quanto em mim havia para chorar. Com o passar
dos anos, emociono-me mais facilmente. Perdi defesas onde ergui muros. É com
estranheza que constato o facto, parecendo-me até paradoxal que assim possa
ser. Mas não importo nada.
Agora é tempo das árvores em flor, o corpo morto como que
refloresceu na velha árvore. Não sei se alguma vez terá dado fruto, recebe do
céu água e sol, tem acolhido pássaros e aves de criação, domésticas como as
pessoas que entram e saem das casas, como os corpos a seu tempo acolhidos pela
terra.
Fazem-me chegar a imagem da árvore com uma declaração de
amor. Sempre que penso no amor, é curioso, surge-me de imediato no pensamento a
imagem da morte. É assim porque julgo inseparáveis as duas forças, um tender
para fora, um tender para dentro. Amorte será a palavra correcta, como música
que embala a dança das feridas. Penso na morte embaraçado pelo medo da perda,
penso na morte porque amar é querer o bem e querer o bem é desejar vida, até
quando se pede morte. A carta escrita por Gorz é tão bonita. Mas não importa,
nem eu nem a carta importamos.
Agora é tempo de árvores em flor, dos frutos colhidos, do
sumo bebido dos frutos espremidos, é tempo de céus limpos. A visitação da
brisa, como certa vez escrevi num poema que pretendia dizer: se algum dia
morrermos, tenha quem nos ama a lembrança de deixar para sempre os restos
debaixo de uma árvore. Nada de corpos, apenas cinza.
Como uma brisa a visitar
a terra.
Detenho-me na árvore
pouso os olhos nos ramos,
os meus olhos são pássaros
que cantam cada uma daquelas folhas,
diria que as folhas são as notas musicais
deste canto que sai das retinas em flor,
não sei onde chegará a voz do pássaro,
não quero que chegue a lado nenhum,
queria apenas que pudesse ser
escutada debaixo da terra,
se o canto dos pássaros
pudesse ser escutado
debaixo da terra,
em nossos olhos a sombra
alumiaria as formas
e tudo surgiria nítido
como num dia limpo.
quarta-feira, 13 de março de 2019
UM POEMA DE JOÃO RIOS
deram-me
vinte séculos
de heróis
e um nome
mas não encontro
oceano bastante
com que salgar o embuste
desse inebriante património
João Rios, in Os Heróis Transformados em Floreiras, Douda Correria, Março de 2017, s/p.
Etiquetas:
Lidos em 2019,
Os mestres e as criaturas novas
terça-feira, 12 de março de 2019
CLASSICO
Desde o livro de estreia, "Rua 31 de Janeiro
(Algumas Vozes)" (&etc, Dezembro de 1998), que se coloca na poesia de José
Ricardo Nunes (n. 1964) o problema da relação do sujeito com a realidade,
aprofundado no livro intitulado “Apócrifo” (Deriva, Outubro de 2007) e
extremado no volume “Compositores do Período Barroco” (Deriva, Junho de 2013). A
este problema corresponde uma dúvida acerca das possibilidades da própria
poesia enquanto gesto revelador. O poema é composto por palavras, estas são uma
representação do real e, enquanto tal, oferecem-nos apenas simulacros da
realidade. Esta noção é sobretudo relevante se tivermos em conta a hipótese da
poesia enquanto busca da verdade, elemento esquivo, ainda que desafiante, nos
poemas de José Ricardo Nunes. O livro “Andar a Par” (Tinta-da-China, Maio de
2015) tornou ainda mais complexa esta questão, na medida em que nesses poemas
tudo parecia desenvolver-se a partir de um terreno confessional.
Não por acaso, no poema 11. do mais recente “Classico”
(Companhia das Ilhas, Janeiro de 2019) os versos iniciais jogam com a ideia de
confissão desconstruindo-a: «Confesso: era eu / quem fugia e também eu / quem
consumava a ligação directa / enquanto ela segurava o volante / em vez de ter
eu, eu / ainda, o livro nas mãos» (p. 21). Na senda de Rimbaud o Eu destes
versos é um Outro, ou como diria um dos nossos maiores modernistas «Eu não sou
eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio». Este “intermédio” resume a natureza do sujeito
poético, mesmo quando o discurso parece adoptar um tom confessional.
Recordemos, aliás, que um dos livros de José Ricardo Nunes se intitula
precisamente “Confissões” (Companhia das Ilhas, Dezembro de 2013). A confissão
é uma violência exercida sobre o sujeito, a qual no limite pode levar a processos de despersonalização. Disto resulta uma poesia em que o eu se
manifesta sempre por interposta pessoa, tal como sucedia nas vozes de "Rua 31 de
Janeiro" e se declara, mais uma vez, no poema 11. já aqui citado: «Tinha as suas
vantagens, a vida / por interposta pessoa, não há / como negar, tinha, como
gosto de afirmar, / as suas compensações» (p. 21).
"Classico", assim mesmo, sem acento, reúne 24 poemas
escritos entre 2015 e 2018. O autor faz questão de o sublinhar, levando-nos a
crer numa preocupação com a organização que tende a associar o poema a um
período existencial específico. Estes poemas, tal como os do livro anterior,
surgem marcados pelo ferro do tempo vivido, são “consequência do lugar” e da
experiência. Neles encontramos referências concretas a espaços físicos (Casa
Antero, Hotel Classico, Igreja de Nossa Senhora do Pópulo… ) e a pessoas com
nome próprio (Miguel, Jales, Manuel, Margarida, Henrique, Pedro…), como que
oferecendo uma clareza de exposição na qual acabamos por subentender
momentos de reflexão intimistas, obscuros, melancólicos. O dentro (interior, intimidade)
é escuro, não se deixa revelar facilmente. A vida tende para um vazio, para o
desperdício, e é sempre enigma irresolúvel.
Percebemos que na divisão dos poemas em três conjuntos
existem diferentes ordens temáticas, correspondendo o primeiro conjunto ao
quotidiano, o segundo à memória, sobretudo às memórias da infância, com
evocações de familiares, e o terceiro a um presente alumiado pela paixão e pelo
amor enquanto esforços de superação da «rotina da vida». A epígrafe pedida de empréstimo
a Pasolini clarifica a relevância nestes poemas do amor enquanto modo de
conhecer. Classico, o Hotel de Bremen, surge como microcosmo
pautado pela passagem e pela fugacidade. Tal como o Hotel, a vida é lugar de
passagem. Um não-lugar, para usar a famosa expressão de Marc Augé. Mas o Classico
confunde-se no poema com o Eu, o próprio Eu surge como lugar de passagem onde
as pessoas vão entrando, pernoitando, saindo, o Eu é essa entidade
fenomenológica aberta ao mundo através da qual o Outro nos ocupa: «Imagina que
não és tu, / que em vez de seres tu / o hóspede é o quarto do hotel / que te
ocupa» (p. 9). Desta relação que impele o ser para o vazio (entre o início e o
termo do primeiro poema do livro podemos ler qualquer coisa como “Imagina (…) o
vazio”) concluímos o amor como espécie de solução, como única forma de
superação.
No poema 4, que pode ser lido sob a forma de arte poética, os versos
parecem querer sublinhar precisamente as coordenadas a partir das quais o poema se desenvolve: «Nada acerca da poesia, tudo / sobre o
maldito emprego, / (…) tudo sobre a loucura e a ausência / e a ausência de
saudades, / tudo sobre o amor, / a vida, o desgarrado mundo, / a vida perdida,
a vida ainda» (p. 12). É à vida que os poemas de José Ricardo
Nunes se vêm agarrando desde “Andar a Par”, não perdendo de vista
a problematização do ser, mas pretendendo alargar o campo de representação ontológico
às forças concretas da experiência, aos lugares, às pessoas, ao que surde da
relação entre as pessoas no contexto de certos lugares, não apenas à linguagem,
não apenas a uma ideia de linguagem: «Tivesse outra idade, fosse / a
tempo de escolher outra profissão / e seria arrombador, / armaria bombas em
caixas-fortes, // amaria muito mais» (pp. 40-41).
domingo, 10 de março de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #12
Se é importante saber de onde vimos, não menos será que
fiquemos atentos ao modo como os outros nos vêem. Certo que jamais teremos
acesso ao que pensam sobre nós, mal seria se tivéssemos. Imaginai o inferno se outros
acedessem ao que acerca deles pensamos. É saudável e até agradável esta
distância que nos separa do outro, este exílio que obriga à reflexão e à
desconfiança. Mas não menos agradável é assistir a quem fale de nós abertamente, desbravando
terreno à imaginação como ao espelho se abre um rosto. Quando digo nós, minhas
filhas, não me refiro ao indivíduo, que esse será sempre mistério inconfessável
para si mesmo, mas antes ao que no individuo há de influência exercida pelo
colectivo. Refiro-me à cultura, à sociedade, ao ambiente social que nos deforma
e conforma ou que simplesmente nos informa, permitindo-nos que cresçamos em
reacção e conflito ou em acomodação e renúncia.
Miguel de Unamuno (1864-1936) foi um ilustre espanhol que
ousou pensar-nos em voz alta, dedicando-nos o opúsculo com o título Os
Portugueses, Um Povo Suicida. Originalmente escrito em 1908, podeis conhecê-lo
na edição da Ática datada de Abril de 2011. Não é difícil encontrar sensatez no
diagnóstico: «Portugal é um povo triste — e é-o mesmo quando sorri» (p.
7). Classificar-nos de povo suicida não nos socorre na manifesta propensão genética
que temos para a desgraça, mas livra-nos do fardo que leva a concluir a
inutilidade da vida. Com tão cruel evidência não se conformam os fadistas,
encalhados entre o oceano e sucessivas invasões. A solução para os portugueses está
em fugirem de si próprios como o diabo da cruz. Daí que se detestem, daí que se
ocupem tanto zurzindo contra si mesmos, daí que se mostrem tão afáveis e
complacentes para com aquilo que vem de fora e implacáveis para com aquilo
gerado dentro.
Li algures, minhas filhas, um retrato cómico da sociedade
portuguesa: espécie de bolha onde todos dizem mal uns dos outros sem
terem a noção de que os outros são essa massa indefinível entre os quais também
nós nos encontramos. Sendo que cada um de nós é sempre um outro, não resta nada
de bom entre os portugueses. No entanto, a desgraça tem sido nossa força.
Sabemos rir da aspereza com que nos crucificamos. Talvez aí germine o gene desta
lúgubre inclinação para o suicídio, não necessariamente físico, mas também
moral, espécie de “genocídio” focalizado no ânimo com que poderíamos encarar a
inutilidade das nossas existências. A aceitação desta inutilidade afigura-se elementar,
na medida em que se impõe como a única atitude verdadeiramente útil à fatal
condição elegíaca.
Há neste povo «mais apaixonado do que sentimental» de que
falava Unamuno uma matemática inquestionável: «os sonetos são um grande
purgante das paixões excessivas, pois sabe-se de sonetistas que morreram de fome
mas de nenhum que tenha morrido de amor» (pp. 8-9). Podeis imaginar quanto
disto vale num país que se diz de poetas! O resto é História e alternância
democrática, aquele masoquismo de passarmos o tempo a vituperar quem elegemos reiteradamente,
a indolência com que tratamos tudo quanto nos indigna, um deixar andar na
esperança de melhores dias que virão, porventura, como virá o tal que se perdeu
nas áfricas, embrulhado em bruma invisível. Sabemos rir, excepto de nós
próprios. Por isso nos suicidamos.
Como pode não ser suicida um povo assim? Os suicídios de
Antero, Soares dos Reis, Camilo, Mouzinho de Albuquerque, Trindade Coelho,
enumerados por Unamuno, são resíduos numa sociedade toda ela suicidária, mero
exemplo lacónico, previsível, sucinto. A orgânica não poderá ser outra enquanto
persistirmos na saudade, no lamento, nesse pó cavernoso que a todos inspira
versos tristonhos e esmorecidas elegias. Sobre toda essa tralha, um lençol de
gargalhadas estridentes e a consciência interna da maior das forças vitais:
nada há de mais útil nesta vida efémera que a inutilidade decretada às coisas
que dão prazer e fazem rir. O resto subentende-se no opúsculo: «Não falta mesmo por aí
quem diga que isto não é já um povo, mas sim — o cadáver dum povo» (p. 13).
Portanto, ride, ride de vós próprias e do espanhol que nos define, ride do
mundo e da vida, ride com alegria e paixão, pois só rindo de tudo e com todos
os dentes à mostra podeis um dia dizer ter estado próximas da felicidade. Isto é, da alegria de viver.
sábado, 9 de março de 2019
BANDA SONORA ESSENCIAL #63
Há dias um amigo telefonou-me com uma daquelas novidades
que eu julgava perdidas para sempre nos idos da adolescência: comprou uma
guitarra. Queria saber quais os acordes básicos das intermináveis performances
que, não tantas vezes quanto eu gostaria, costumam juntar três ou quatro ou
cinco malucos com a mania de que sabem tocar, ao que lhe respondi prontamente:
Mi – Lá – Si. Em boa verdade poderia ter dito Sol – Lá – Ré ou Dó - Fá – Sol
que ia dar ao mesmo. Para começar, talvez seja preferível a mais tradicional,
básica e mágica sequência dos blues. Mas importa, desde logo, desfazer o mito.
Sendo básica a sequência, as variantes são múltiplas. Rapidamente o que parece
fácil pode transformar-se num pesadelo. O mito segundo o qual tocar blues é fácil devia ser abolido de uma vez por todas, obrigando quem o proferisse
a ouvir vezes sem conta as gravações primitivas de um Jelly Roll Morton ao piano
ou de um Robert Johnson na guitarra. Pela parte que me toca, expurguei de uma
vez por todas a cagança quando comecei a prestar atenção ao legado de McKinley
Morganfield, isto é, Muddy Waters.
Nascido algures no Mississipi, Waters foi influenciado
por Blind Lemon Jefferson e por Robert Johnson. A sua versão de Walkin’ Blues é
uma pequena maravilha. O vozeirão e a harmónica ajudaram a singularizar o
estilo, transformando-o num dos músicos mais influentes do universo bluesístico.
Não sendo exímio guitarrista, conseguiu apontamentos únicos e inconfundíveis. Percebemos
que tinha algo diferente ao ouvirmos êxitos como Rollin’ & Tumblin’, Louisana
Blues, Baby Please Don’t Go ou Stuff You Gotta Watch (puro rock & roll pré-histórico).
A guitarra eléctrica providenciou-lhe um volume de som adequado à potência da voz,
permitindo-lhe experimentar novos ritmos sem perder a profundidade daquilo a
que vulgarmente damos o nome de feeling e não sabemos exactamente o que é.
Algumas composições de Willie Dixon tornaram-se hits universais na sua voz. São
disso exemplo (I’m Your) Hoochie Coochie Man e I Just Want To Make Love To You.
Mas mais importante foi a influência exercida sobre bandas como os The Doors,
The Rolling Stones (que devem o nome ao tema Rollin’ Stone), e sobre guitarristas
de excelência como Jimi Hendrix, Jimmy Page (Led Zeppelin), Eric Clapton, Gary
Moore, Angus Young (AC/DC)… Na Wikipédia cita-se B. B. King: “Vai levar anos e
anos até que as pessoas percebam quão enorme foi o contributo de Muddy Waters
para a música norte-americana”. The Anthology (2001) recupera 50 gravações efectuadas
entre 1947 e 1972, acompanhadas de um ensaio assinado por Mary Katherine Aldin
que explica tudo muito melhor. All Aboard é o penúltimo tema:
HYALINOBATRACHIUM YAKU
Foi descoberta uma nova espécie, a rã transparente
— nela observamo-nos tal como somos —
um sistema de órgãos funcionais,
tubagens e ligamentos
se a perfurarmos veremos nitidamente
como sofre cada pedaço do corpo,
o que nos faz retroceder
e desejar deixá-lo intacto,
museu escancarado de frangibilidades orgânicas
de onde ao mesmo tempo a ideia de corpo está excluída,
remetida às representações humanas
em que a dor se revolteia sob capas e peles,
e o sangue fulge só entre brechas
perfurar este batráquio revelaria uma simples destruição,
a quebra das acoplagens,
o fim da palpitação cronometrada
ainda que a transparência,
ao ser rasgada,
nos arrojasse de frente o halo da vida desprotegida
Catarina Costa (n. 1985), in Essas Alegrias Violentas
(Companhia das Ilhas, Março de 2019). Desde Marcas de Urze (Cosmorama, 2008)
que vem publicando com regularidade em editoras de distribuição restrita, o que
explicaria alguma desatenção da crítica especializada não obedecesse esta a uma
selectividade que pouco ou nada tem que ver com o âmbito de distribuição das
editoras em causa. Na sua poesia vislumbramos jogos de contrastes entre luz e
sombra, entre tempos e espaços diversos, ora oníricos, ora materiais, entre os
domínios da loucura e da normalidade, da saúde e da doença. Destes contrastes retiramos
a ideia de uma inclinação para o anómalo, por vezes detectado na alusão a
disformidades corpóreas, na sugestão de um pathos determinado por imagens
violentas, desfocadas e desfiguradas como sejam as que dão corpo à memória. O
poema é ponto de encontro entre uma primeira e uma segunda pessoas, por vezes
desdobradas numa terceira que abre os campos da intimidade e da
confidencialidade, ainda que nunca de um modo absolutamente claro ou óbvio:
«violo o laço da ínfima voz entre nós / perante um terceiro / na tentativa de
obter uma resposta externa / aos fragmentos de adivinhas que me deste e não
resolvi» (E. A. V., p. 34). Não violentando a leitura com exasperações e fúrias,
Catarina Costa deixa subentendida nos seus versos uma violência à qual
corresponde um processo de atrofia do ser. A solidão, o isolamento, o exílio, o
afastamento, o desamparo, surdem de uma ideia de desejo não consumado, latente,
que é o que realmente violenta o sujeito na sua intimidade.
sexta-feira, 8 de março de 2019
GUERRACIVILÂNDIA EM MAU DECLÍNIO
Imaginemos um mundo em que tudo fosse mensurável, em que
cada gesto tivesse a sua ordem de medida determinada por um objectivo
estipulado, em que a própria respiração fosse avaliada de acordo com taxas de
concretização, em que os recursos valessem segundo metas de sucesso
burocratizadas nos ficheiros informáticos de gestores obcecados com lucros dos
quais eles próprios não retirassem proveito, pois nesse mundo tudo seria de tal
modo hierarquizado que nem certos cargos de chefia valeriam mais do que
o reconhecimento vazio de mãos invisíveis, financeiras, movidas por uma desumanizada
ganância. Num mundo assim, que não será difícil de imaginar, teríamos camadas
sobre camadas de cargos intermédios governados por gente subordinada, servente
e servil, gente burrocratizada, como diria
o poeta, carregando aos ombros o peso da frustração e no estômago a azia da
mediocridade, um mundo de humilhados e ofendidos, como denunciou Dostoiévski,
mas agora eles próprios humilhadores e ofensivos, infligindo em quem está por
baixo o que lhes seria infligido por quem está por cima. Paremos de imaginar,
um mundo assim não é muito diferente do mundo em que vivemos. Nada há nesse
mundo que possa ser produto de uma imaginação fértil, nele tudo resulta de uma
observação arguta e crítica do mundo em que vivemos, isto é, sobrevivemos. Esse
mundo surge nitidamente retratado nos contos do norte-americano George Saunders
(n. 1958), reunidos na obra de estreia recentemente vinda a lume em Portugal
com o título GuerraCiviLândia Em Mau Declínio (Antígona, Janeiro de 2019). São
seis contos e uma novela marcados pelas consequências do capitalismo (selvagem) numa mente
com necessidade de se vingar, fazendo-o a partir de uma abordagem dos states
que pondera uma sociedade dividida entre Normais e Defeituosos, isto é, gente
produtiva e consumista e gente fracassada segundo os parâmetros impostos pelas
sociedades consumistas. A ideia de "parque temático" que surge amiúde enquanto
cenário de divisões e conflitos mais ou menos hostis dá conta, com impecável
sentido de humor, do modo como as relações laborais e o mercado de trabalho
neste mundo surgem delimitados por forças desproporcionais que não só potenciam
a servidão e a exploração como a promovem. Saunders é exímio na criação de
situações alegóricas, embora por vezes aparentemente caricatas, sobre o
declínio e o fracasso num universo regido por ideais tontos de sucesso. O
conto intitulado O Director Executivo de Cento e Oitenta Quilos é das melhores
peças que li nos últimos tempos sobre a legitimação da ofensa e daquilo a que
hoje se chama bullying ou assédio moral, práticas tão correntes que chegam a
passar despercebidas enquanto máquinas de castração activadoras do conformismo
e do abismo existencial: «Eu não sou má pessoa. Se ao menos conseguisse deixar
de ter esperanças. Se ao menos conseguisse dizer ao meu coração: Desiste» (p.
59). Numa nota final o autor refere-se aos seus contos como sendo «maldosos, a
espaços», cruéis, «ocasionalmente desagradáveis», e talvez tudo isso seja
verdade, não pelos contos em si, que vêm sempre acompanhados de um sarcasmo visceroso
e de um sentido de humor cativante, mas pelo realismo que denotam em situações
aparentemente nonsense e surreais: «Depois avistas uma luz através das árvores.
Numa colina vês um sinal de néon e um castelo iluminado. / TERRA DA ABUNDÂNCIA,
diz o sinal, ONDE O MÉRITO É REI — TAL COMO VOCÊ!» (p. 147) Esta luz
existe, estas árvores são de um naturalismo inquestionável, este sinal é
vulgar, tudo nesta descrição é de uma plausibilidade atroz quando nos
confrontamos com um mérito que se avalia em função da capacidade que cada um
adquire para ser indiferente ao outro, para lhe foder a vida de modo a ficar
por cima. E a abundância traduz-se numa avidez insaciável, numa histeria
materialista, consumista, geradora de cidadãos transformados em meras máquinas
de consumo, gente que não diz o que pensa nem o que sente, talvez até porque
desaprenda de pensar e de sentir, mas simplesmente o que convém. É nesta Terra que
o gesto supostamente mais humano se converte num desastroso e inconveniente
equívoco, como no final do magnífico A Fracassada Campanha Terrorista de Mary,
A Oprimida. Atribuísse estrelinhas este que vos escreve, seriam cinco garantidas.
Incluindo a tradução de Rogério Casanova.
quinta-feira, 7 de março de 2019
UM POEMA DE JORGE LEÓNIDAS ESCUDERO
ÚLTIMA APOSTA
Afastem-se, deixem-me passar,
venho de ir existindo e já sei que
irei empalidecer. Mereço
descanso, mas antes
quero olhar por detrás do horizonte
para não me ver sempre como árvore seca
que nada mais tem para dizer.
Não estorvem, não digam que há bom remédio,
deixem-me sentar no umbral
a ver passar as últimas pessoas. Os pássaros
estão a esconder a cabeça debaixo da asa.
Mandem alguém comprar pão,
não para já mas para amanhã
porque a minha fome derradeira
é do que ainda não vi.
Jorge Leónidas Escudero, versão de HMBF a partir do
original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX
en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 183.
segunda-feira, 4 de março de 2019
KEITH FLINT (1969-2019)
Bailarino e vocalista dos The Prodigy, banda fundada nos idos de 1990, aliou uma atitude punk à música electrónica com actuações enérgicas e beats irresistíveis nas pistas de dança. Experience (1992) marcou a estreia, mas foi Music for the Jilted Generation (1994) que garantiu o sucesso com o tema Voodoo People. Segundo Liam Howlett, principal compositor da banda, Keith Flint suicidou-se. Vi-os três vezes ao vivo, no festival Super Bock Super Rock de 1996, no Festival
Sudoeste de 2007 e um ano depois no Marés Vivas. Incendiavam a plateia com temas tais como Smack My Bitch Up e Firestarter, do álbum The Fat of the Land (1997).
Etiquetas:
Ilhas Desertas,
Os mestres e as criaturas novas
STAGECOACH (1939)
1939 foi um ano diferente dos outros, marcado pelo início da
Segunda Guerra Mundial com os avanços da ameaça nazi por todo o velho
continente. Hollywood era uma máquina pujante, John Ford (1894-1973) um dos
seus realizadores mais respeitados. Três filmes num ano dão conta do facto:
Stagecoach/Cavalgada Heróica (1939), nomeado para os Óscares em várias categorias,
entre as quais as de melhor filme e de melhor realização, acabou por valer
estatuetas na música e ao actor Thomas Mitchell, pela inesquecível encarnação
do médico alcoólico Josiah Boone; Young Mr. Lincoln/A Grande Esperança (1939)
ficou-se pela nomeação para melhor argumento original, apesar do extraordinário
desempenho de Henry Fonda no papel de Abraham Lincoln; Drums Along the Mohawk/Ouvem-se Tambores ao Longe (1939) valeu duas nomeações, uma para Edna
May Oliver como melhor actriz secundária e outra para melhor cinematografia. Destes
três filmes, o primeiro ganhou com o tempo o estatuto de obra-prima, western
dos westerns num tempo em que 20% dos filmes produzidos anualmente em Hollywood
eram filmes de cowboys.
É verdade que a maioria desses filmes eram de baixa produção,
os chamados filmes de série B, produzidos com baixos orçamentos e, como recorda
Mark Harris no livro Os Cinco Magníficos (Edições 70, Maio de 2018),
«geralmente com menos de uma hora de duração, usados nas sessões duplas das
cadeias de cinema das zonas rurais», Stagecoach distinguia-se por vários
factores, entres os quais destacaremos um guião de primeira, assinado por
Dudley Nichols (o mesmo que, anos mais tarde, escreveria The Tin Star para
Anthony Mann), e um elenco à altura dos acontecimentos, onde estrelavam John
Wayne, John Carradine, Claire Trevor e o já mencionado Thomas Mitchell. Citando
novamente Mark Harris: «Cavalgada Heróica contribuiu para fazer de Wayne uma
estrela e transformou Ford num realizador de primeira categoria».
O argumento é
simples, mas de enorme eficácia: a travessia de um território sob ameaça
indígena. Foi a estreia de Ford na mítica paisagem de Monument Valley, já por
si suficientemente grandiosa para impressionar ainda hoje os olhos do espectador.
A ameaça surge desde o início sinalizada pela evocação de um nome: Geronimo, o
mais famoso dos líderes da resistência ameríndia. Não obstante as inesquecíveis
cenas de conflito, esta ameaça é sobretudo um pretexto para colocar em
evidência outros assuntos e temores. No interior da “diligência” seguem uma
prostituta proscrita pelos moralistas da cidade onde tem início a acção, um
médico alcoólico, a mulher grávida de um militar em teatro de guerra, um
ex-combatente da confederação transformado em jogador profissional, um vendedor
ambulante de bebidas alcoólicas, um banqueiro corrupto e, por fim, o impetuoso Ringo Kid, evadido da prisão para vingar o assassinato do pai e do
irmão.
A contingência da personagem interpretada por Wayne é geradora de uma agradável polémica, já que John Ford
como que legitimou a vingança na sequência final, transformando um prisioneiro em fuga num herói sem mácula. Não satisfeito, aproveitou ainda para lhe acrescentar o picante de uma relação apaixonada com uma prostituta socialmente proscrita, mas intrinsecamente humana e compassiva. De resto, se tivermos
em conta que as personagens mais simpáticas do filme são um médico alcoólico,
uma prostituta e um preso em fuga, contra as antipáticas figuras de um banqueiro
corrupto e das beatas hipócritas, podemos perceber o quão ousado terá sido na
América de 1939 apostar no mais tradicional dos géneros cinematográficos para
retratar toda uma sociedade que perante a ameaça da guerra no velho continente
se via obrigada a rever os seus valores. Assim sucedeu dois anos depois, com a
revisão impulsionada pelo ataque japonês a Pearl Harbor. Tudo terminou da pior
maneira, com duas bombas atómicas largadas sobre um inimigo isolado. Mas nessa
altura já Ringo Kid e Dallas estavam a gozar segundas núpcias na pradaria americana.
domingo, 3 de março de 2019
UMA BIOGRAFIA
Leio este post e fico sem saber o que esperar de uma
biografia. É evidente o trabalho imenso que terá dado a escrita de O
Poço e a Estrada, sendo mais que justo reconhecer à autora o mérito de superar constrangimentos
diversos apostando numa leitura exaustiva da obra de Agustina. É essa a sua
fonte principal para a biografia. Até aqui tudo excelente. Mas por vezes Isabel
Rio Novo perde-se em considerações subjectivas, agravadas pela tendência para se
colocar a si mesma no centro de uma narrativa onde faz questão de participar. Dei
exemplos aqui e aqui. Outro pode ser observado num parágrafo
iniciado na página 109. Informa-nos a autora de que fez duas viagens à Régua —
«Fiz a viagem à Régua, claro.» —, primeiro, de automóvel, e depois, de
comboio. Seguem-se as suas impressões pessoais acerca das viagens empreendidas:
«A linha férrea acompanhou o meu percurso pela nova marginal, contornando a
faixa cristalina do rio. (…) o alto de Fontelas, com a bacia da Régua e o monte
de São Domingos, conserva um aspeto grandioso, capaz de me fazer despontar dos
lábios banalidades acerca da imponência das montanhas (…)». Não poupando o leitor às
banalidades despontadas dos lábios, acrescenta-lhes um êxtase místico: «A bordo
do comboio que percorre a linha do Tua, tive a impressão de seguir Agustina e
de conhecer a paisagem com que conviveu». E acrescenta ainda que os
malmequeres são flores que lhe provocam sempre uma alegria infantil. Por fim,
diz-nos que a viagem lhe deu a convicção de compreender melhor alguns romances
de Agustina e alguns filmes de Manoel de Oliveira. Não explica porquê,
limitando-se a concluir: «E, sim, é verdade, creio que vi uma das paisagens
mais bonitas do mundo». Acreditamos que sim. Mas tudo isto é sobre Isabel Rio Novo, numa biografia de
Agustina Bessa-Luís.
sábado, 2 de março de 2019
BANDA SONORA ESSENCIAL #62
Quando a MTV era canal frequentável, a gente podia ficar
noite dentro sintonizados a ver e a ouvir boa música. Foi numa dessas noitadas
que ouvi falar pela primeira vez de Polly Jean Harvey, a inglesa escanzelada que
tocava guitarra e cantava com fúria rara de observar no género feminino. Amor à
primeira vista. Assim que amanheceu, pus-me a caminho da Bimotor e comprei o LP
Dry (1992). Vim para casa
ouvi-lo e dei com isto: «Oh, my lover / Don't you know it's all right? / You
can love her / And you can love me at the same time» (Oh My Lover). No
tema Sheela-Na-Gig, que para quem não saiba evoca figuras femininas com vulvas desmesuradas,
ouvia-se isto: «I've been trying to show you over and over / Look at these, my
child-bearing hips / Look at these, my ruby red ruby lips». E desta forma se
desmontava toda uma ideia de mulher pensada e propagada por homens para servir
homens num mundo de homens.
O feminino nas canções de P. J. Harvey libertava-se do
grilhão moral cerrado pelos zeladores de Deus, apologizava a bigamia e o sexo
livre, desobstruído do palavrório machista que dá tesão a juízes mentalmente castrados. É
a banda sonora perfeita para oferecer a certa criatura que tenho cá no
pensamento. Rid of Me (1993), que também adquiri ainda no formato LP, não
ficava atrás na provocação, na desmedida, na desconstrução irónica de máximas
bíblicas, nos desafios à imaginação. No tema Legs, por exemplo, o feitiço de um
Hey Joe que mata a mulher e foge para o México vira-se contra o feiticeiro.
Aqui é ela quem dá cabo dele, a mulher assume a dianteira da crueldade
permitindo que no casulo da delicadeza germine o gesto violento e a borboleta
se metamorfoseie em águia. Rid of Me é um álbum poderoso, com a produção de
Steve Albini a favorecer uma crueza musical que é o suporte ideal para as
letras de Harvey. Um dos momentos fortes do álbum era Man-Size, título cínico
com vídeo à altura.
Entre Rid of Me (1993) e o regresso com To Bring You My
Love (1995) há uma pérola que não pode ser esquecida. 4-Track Demos (1993), que
não é tanto uma compilação como parece ser um testemunho frontal do imediatismo
que a autora pretendia para as suas canções, resulta no mais cristalino dos álbuns.
Tal como o título indica, tudo aqui surge do registo caseiro num gravador de 4
pistas. Alguns temas de Rid of Me (1993) ressurgem próximos do momento de
concepção, acompanhados de inéditos que acabariam por figurar entre as melhores
canções escritas por P. J. Harvey. Hardly Wait é bom exemplo: «Lips cracked dry / Tongue blue burst / Say
angel come / Say lick my thirst / It's been so long / I've lost my taste / Here
Romeo / Make my water's break». Com os anos, os temas foram-se
diversificando e o foco foi sendo distribuído por outras áreas de interesse.
Mas a P. J. Harvey já ninguém retira o estatuto de grande "cronista" da mulher na
viragem do século, contra as mentes conservadoras, obtusas, anacrónicas dos detraídos
machos deste mundo.
LISTA NEGRA
Será possível legalmente um grupo de cidadãos processar um juiz por ofensas a toda uma comunidade? É que eu sinto-me ofendido ao ler as fundamentações com que o meritíssimo justifica as suas decisões, e mais ofendido me sinto ao saber que o mesmo pretende processar quem, no exercício legítimo do direito à opinião, o critica. Não ter arcaboiço para a crítica pode ser o princípio de uma explicação para as declarações que tem assinado sobre casos de violência doméstica. E o sindicato, tem alguma coisa a dizer?
EIS A QUESTÃO
Serei só eu a imaginar a pequena Agustina a escutar estas histórias, trazidas pelas lavadeiras, com os olhos brilhantes e um meio sorriso nos lábios?
Isabel Rio Novo, in O Poço e A Estrada - Biografia de Agustina Bessa-Luís, Contraponto, Fevereiro de 2019, p. 90. Para acrescentar a estes excessos de emoção. Será só ela a imaginar um meio sorriso?
BRUTO E FERO
Quando era ainda uma menina de doze anos liam-se na aula os poetas portugueses. Entre eles estava Almeida Garrett, alguém de quem Verdi teria feito um personagem operático. Já ouviram o seu poema maior em que confessa um amor desesperado? "Ai! não te amo, não; e só te quero / De um querer bruto e fero / Que o sangue me devora / Não chega ao coração." Por detrás dos óculos com aros de aço, a madre professora olhava com escândalo e cólera as raparigas, mais turbulentas do que o costume. Mas Camila guardava um recato que parecia próprio do seu orgulho. Era mais surpresa, porque se admirava que o amor pudesse ser bruto e fero e, ao mesmo tempo, era assim que o queria. Tudo o mais era intriga vulgar e devaneio de corte.
Agustina Bessa-Luís, in Os Espaços em Branco, Lisboa, Guimarães Editores, 2003, p. 85, citada por Isabel Rio Novo, in O Poço e a Estrada - Biografia de Agustina Bessa-Luís, Contraponto, Fevereiro de 2019, p. 435.
sexta-feira, 1 de março de 2019
OS GATOS DE SCHOPENHAUER
O fabricante de gatos
quer fazê-los mais baratos:
junta o gato e a gata
para que se reproduzam
mas eles protestam,
juram que não é possível e escapam
até que aturdidos pela lua acedem.
É que crêem ser vítimas de um conto
urdido para inimizá-los com o cão,
assediar ratos e mijar cadeirões.
Tudo sem propósito.
Os gatos contorcem-se e gritam,
bufam asperamente
e por fim copulam a contragosto
sabendo que houve injustiça.
Enfeitam almofadões e alguém os julga felizes
quando na verdade dormitam ressentidos,
aborrecidos com a vida,
conscientes de que estão a cometer
mesquinhices
para glória de ninguém.
Jorge Leónidas Escudero, versão de HMBF a partir do
original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX
en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 179.
UMA MULHER
Enquanto comprava o Público, ouço uma mulher dizer que está
farta de ouvir falar em violência doméstica. Já não há paciência, acrescenta. Julguei normal, também eu estou farto de ouvir falar de violência doméstica. Mas
depois ela continuou: há muitas que é bem dado, até mereciam levar mais. Só se perdem as que caem no chão. Então não e? O remate interrogativo ficou a pairar no ar perante a estupefacção
de quem me vendia o jornal e o meu olhar inquisidor. Era uma mulher.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



















