quarta-feira, 17 de abril de 2019

APONTAMENTOS PARA UMA CRÍTICA DA RAZÃO POÉTICA



Digamos, por exemplo:
de um dado ponto fora da lua
apenas e tão-somente uma perpendicular
poderá delinear a dita lua.

Ou também:
chama-se barroco a todo aquele
para quem a distância menor
entre dois pontos
é a curva.

Proposição:
passar de uma poética da moral
à moral poética.

Exemplo:
de dois perigos deve precaver-se o homem novo:
da direita quando é destra
da esquerda quando é sinistra.

Em resumo:
mais vale ser cabeça de leão do que cauda de rato.

O melhor modo de esperar é ir ao encontro.

Mario Trejo (n. 1926 – m. 2012), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 224.

ANDAMOS NISTO #4


(…)

Diz ele, com extrema correcção e maior indignação: «o mártir da Abysmo e da Arranha-Céus, que tem mister de recorrer a parcerias com o El Corte Inglês, a INCM, a Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, etc., para publicar quase todos os livros do seu catálogo, é a encarnação do ideal de editor independente, que compromete o seu conforto e segurança em nome da formação cultural do país.» Lá está, o «investigador» nem sabe contar. Nos mais de 140 títulos que publicámos, se 10% resultarem de parcerias é muito, sendo que fica por explicar as diferenças, que nem tudo se resume a dinheiro, nem todos os logótipos. Talvez seja a única afirmação-acusação, logo falsa, por azar. Custa, ao rapaz, que eu seja mesmo editor independente. Agasta-o não ter pedido licença. Prova o contrário as edições apoiadas? Será que aquelas por si organizadas e devidamente apoiadas, as fez sem remuneração?

(…)



João Paulo Cotrim, aqui.

ANTERO DE QUENTAL


(...)

   E um homem afasta-se e sente o silêncio a cair sobre o ruído, sente o ruído a ficar para trás e experimenta a rara e furtiva sensação de conforto que nenhuma poesia oferece, porque toda a poesia, mesmo quando se aproxima do silêncio, resulta de uma interrupção, de um conceito que arrasa a ordem natural do espaço, impondo-lhe os seus fantasmas, os seus edifícios, as suas construções, a sua arquitectura.

(...)


Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, pp. 16-17. Nota: Antero de Quental morreu a 11 de Setembro de 1891, depois de disparar contra si próprio dois tiros. Estava sentado num banco de jardim junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança, em Ponta Delgada. Sofria de distúrbio bipolar. 

terça-feira, 16 de abril de 2019

UMA IMAGEM PARA O DIA


ANNE SEXTON


(...)

   Elle est si belle, os dedos enlouquecem-me, a batida descompassada das sirenes anuncia-me o que há muito eu já sabia: o mundo tem abusado de mim, esta paralisia tímida que nos condena à tristeza e não deixa dançar. Olho as paredes à minha volta e julgo-as almofadadas, tal como as paredes de um manicómio. Atiro-me contra elas, violentamente, abrindo feridas na pele, martelando nódoas negras na carne. Desgasto cada um dos meus dedos na textura estalada das paredes. Sento-me a escutar o coração, fecho os olhos:

É tudo tão estranho, deformado,
que ter descoberto entre estes rostos
a pureza dos teus olhos só pode ser milagre.

(...)

Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 15. Nota: No dia 4 de Outubro de 1974, Anne Sexton trancou-se na garagem de sua casa deixando ligado o motor do carro. Chegou a trabalhar como modelo. Sofria de depressão, tendo sido encorajada pelo seu terapeuta a escrever poesia.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

ÁNGEL ESCOBAR VARELA


   Contra a doença, prescrevo música. Sou médico de almas aquilatadas, pretendo desmesurar tudo o que surja entre a ordem e os aromas enjoativos da lei. É suposto amarmos sem retorno, deixar o espírito embebedar-se de trompetas em surdina, a alma a subir para baixo até aos tectos subterrâneos de um mundo inesperadamente desorganizado. É suposto desorganizarmos o mundo, levar às ondas da rádio as perguntas que nos exigem respostas abertas e não mais questionar os ombros da mãe natureza. Aos ombros dela assentamos o gelo dos nossos crimes.

(...)



Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 11. Nota: Ángel Escobar Varela faleceu no dia 14 de Fevereiro de 1997, na sequência de uma queda do quarto andar onde vivia num bairro de El Vedado de La Habana, Cuba. Sofria de esquizofrenia. Antes dele, um irmão e uma irmã também se suicidaram. A sua mãe foi assassinada pelo marido, pai de Ángel.

HOJE



Manuel Bento às segundas, Henrique Fialho às terças, Henrique Manuel Bento às quartas, Henrique Bento Fialho às quintas, Bento Fialho às sextas, Manuel Bento Fialho aos Sábados… Henrique Manuel Bento Fialho aos domingos. Neste caso, o dos sábados irá a uma segunda.


Nota: com muita pena, não poderei estar presente nesta sessão dedicada à poesia de José Emílio-Nelson. Lamento imenso e deixo as minhas desculpas ao Luís Carmelo, que há muito me convidou, aos restantes leitores, ao cicerone, ao poeta homenageado e àquela mosca que foi de propósito à sessão só para me ouvir. 

AVISO AOS CITADORES DE FACEBOOK



De vez em quando, caem visitas do Facebook neste weblog. Quando caem em catadupa, desconfio que isso se deva a partilhas de links desta página nos perfis de Facebook. Às vezes, por curiosidade, sigo os links. Deparo-me com vários equívocos, os quais se devem sempre a falhas no hábito saudável de citar e verificar fontes. Como muita gente não tem esse hábito, acabo por dar com textos meus atribuídos a outros autores, textos de outros autores que me são atribuídos, traduções minhas sem qualquer referência à origem, etc, etc, etc…

Importa esclarecer: sempre que cito um texto alheio neste weblog, faço questão de deixar junto a referência bibliográfica (título do livro, editora, tradutores, se for o caso, e data de edição). A excepção são os poemas com a etiqueta Séc. XX, ainda que mesmo nesses surja sempre o título do livro de onde provêm. Quanto o texto é meu, só há referência bibliográfica se o texto estiver publicado.

Por exemplo, este texto é de minha autoria (nem sequer está em itálico ou entre parêntesis). Não é do André Gorz. É um texto a pensar numa possível reedição do meu livro Suicidas (Deriva Editores, 2013). Os esqueletos de Mantova foram descobertos no mesmo ano em que Gorz se suicidou, mas não creio que o filósofo se tenha referido à descoberta.

Outra questão que julgo importante esclarecer prende-se com as versões. Tenho vindo a partilhar aqui versões minhas de poemas de autores estrangeiros que julgo não estarem publicados em Portugal, as quais podem ser lidas seguindo directamente para a etiqueta Versões. Ora, trata-se de uma versão em português de um texto escrito originalmente noutra língua. As versões que copiem daqui para partilhar noutras páginas deviam levar referência à origem, não porque me interesse reclamar a autoria da versão. Mas antes porque por vezes entre o original e a versão há uma enorme diferença. Eu não domino nenhuma língua estrangeira, penso que não ficaria mal a ninguém pura e simplesmente referir que aquele texto que estão a partilhar é uma versão de alguém (chamem-me o que quiserem) e não uma tradução literal do original.

Grato.

domingo, 14 de abril de 2019

BIBI ANDERSSON (1935-2019)


Actriz de relevo em vários filmes de Ingmar Bergman, os melhores: O Sétimo Selo (1957), Morangos Silvestres (1957), A Máscara (1966).

ANA CRISTINA CESAR



   Há sempre a hipótese, caro leitor, de aportares nesta insónia e deparares com uma mulher a andar debaixo do temporal. A chuva ensopa-lhe a roupa, escorre-lhe pelo rosto, mas não lhe rouba o cigarro, porque o cigarro vai meticulosamente resguardado debaixo da palma da mão. A mulher caminha sincopadamente na direcção de um carro mal estacionado, podia caminhar na direcção da Rua Tonelero que seria exactamente o mesmo, podia caminhar sentada sobre a loucura dos dias, desprotegida, mas livre. Porque a mulher caminha sem donos e pensa sincopadamente nisso.

(...)

Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 9. Nota: Ana Cristina Cesar faleceu no dia 29 de Outubro de 1983, na sequência de uma queda do apartamento dos pais - um sétimo andar situado na Rua Tonelero, em Copacabana.

sábado, 13 de abril de 2019

ALEJANDRA PIZARNIK


(...)

Quando ao fim do dia as campainhas zuniam dentro da cabeça, as moscas voavam aos ziguezagues dentro dos seus pulmões, os ratos devoravam-lhe o estômago e a febre crescia em torno das suas unhas, apoderando-se-lhe do corpo como uma espécie de saudade a aterrar sobre a carne, se não a mandava à merda era só porque não queria perturbar o seu sono.

(...)

Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 8. Nota: Alejandra Pizarnik faleceu a 25 de Setembro de 1972 depois de ter tomado uma dose excessiva de comprimidos para dormir. 

sexta-feira, 12 de abril de 2019

UMA IMAGEM PARA O DIA


Às vezes invejo o carácter definitivo da morte. A certeza. E tenho de afastar esses pensamentos, quando me sinto fraca. Nunca nos habituaremos aos caminhos árduos do Senhor, Joseph.

CARIDADE ROMANA


São inúmeras e bastante desiguais as representações da caridade ao longo dos tempos. Encontramos uma das mais controversas em Sete Obras de Misericórdia (1607), de Caravaggio. Diz-se que era violento e grosseiro, que escolhia os modelos entre gente comum. Não perderemos nada em mantê-lo por perto. O quadro em causa envia-nos para o mito da caritas romana, com a figura feminina de Pero a amamentar Cimon, seu pai, enquanto ele aguarda pela morte na clausura. Incesto e altruísmo misturam-se nesta história, a qual se conta às criancinhas enquanto exemplo de piedade. José Emílio-Nelson (n. 1948), que há muito mantém uma relação de proximidade com a pintura na sua poesia, não recupera exactamente esta história em Caridade Romana (Abysmo, Novembro de 2018), mas de algum modo a reconfigura no que ela possa conter de extremamente lascivo: uma filha a amamentar o pai.
   Este pequeno livro é todo ele excessivo e voluntariosamente blasfemo, quer na forma de abordagem do ágape místico, quer na associação que dele faz ao sadismo e ao masoquismo. A evocação de Marguerite Porete (1250-1310) no prólogo, mística francesa condenada à fogueira, autora de O Espelho das Almas Simples, considerada pelo Tribunal da Inquisição como “herética recidiva, relapsa e impenitente”, dá conta do recado: esta é mais uma obra do diabo. Escrito como se de uma peça teatral se tratasse, desafiando todas as normas da construção dramática, intercalando múltiplas vozes com enigmáticas e labirínticas didascálicas, Caridade Romana coloca em cena modelos requisitados nas obras do Marquês de Sade, nomeadamente na Histoire de Juliette, ou Les prospérités du vice (1801), retomando a hipótese do vício como caminho para a santidade.
   Lembremos que a Justine, irmã de Juliette, mais não coube do que uma desesperada existência de abusos por tão recta e virtuosa procurar ser. A Besta e o Velhorro El Señor que se confrontam ao longo da parada marcam o ritmo de uma interpelação repleta de cenas pornográficas, onde não faltam actos necrófilos e coprofágicos, festim de bestialidade espiado pelos flashes de uma Leica fetichista. «Julie, estremecida, celebra Sade», celebra-o e actualiza-o à luz das expiações e actos de contrição levados agora a cabo nas redes sociais. Alguns separadores isso mesmo indicam, sugerindo a transcrição de diálogos facebookianos: «Continue a postar retratos seus, serão sacrificados ao meu narcisismo. (…) Vou actualizar a foto de perfil. (…) A mim ninguém pede adesão, só às vezes algum conhecido».
   Blasfema, heterodoxa, iconoclasta, depravada, heresiarca, esta é uma obra que se lê nas entrelinhas de um fascínio pela maldade e pelo vício, gozo de tudo quanto afronta a moral e os bons costumes, uma obra que revira os mitos para desmistificar, desnudando as faces luxuriante e concupiscente do corpo que deseja. O transe é paixão, o êxtase é orgasmo, a oração é masturbação, a genitália é o terço que nos redimirá do pecado: «Julie é estuprada por Mme Delbène, sempre com o seu godemiché, e é urdida cerimoniosamente com doçura quando cede a desvendar insignes falsidades. À Emma evocam a noção de pertença e tentam sancionar o comportamento avesso aos bons costumes. Claude, frente ao espelho, une três dedos e, em círculos, perdidamente, os afunda em si, e fecha as pernas e logo as escancara, e e… Olympe diz-se ‘ensopada’ e faz carícias a El Señor lambendo-Lhe mais abaixo do ‘escopro’. Laurette é enrabada por Delcour, Genande, Noirceuil, alternadamente. Antonino cede o ‘gel íntimo’. Veio-se» (p. 34).
   Desta orgia de personagens e imagens retiramos também uma fé, a fé de um corpo que se liberta da doçura conventual. O leite que alimenta aquele que em clausura aguarda pela morte pode assumir diversas proveniências. Aqui, a salvação ejacula-se. No prazer da carne está a via de uma santidade que já nada pede ao sacrifício, que não cobra a existência, uma santidade amoral, por assim dizer, na medida em que subverte os padrões contemplativos e ideais de um erotismo sem corpo, insípido, inodoro, anódino, espiritual. Neste sentido, podemos dizer que à Caridade Romana de José Emílio-Nelson corresponde uma glorificação da carne, matéria de que é feito o corpo que deseja, a carne já não apenas enquanto maná da morte anunciada, prisão do espírito, mas antes como lugar de libertação do desejo e desprendimento de uma moral castradora.

LIXO AO AMANHECER


Esta madrugada, na rua
dominado por uma espécie
de curiosidade sociológica
revolvi com um pau o mundo surrealista
de alguns caixotes do lixo.
Verifiquei que mais do que morrerem as coisas são assassinadas.
Vi papéis ultrajados, cascas de fruta, vidros
de cor desconhecida, estranhos e atormentados metais,
trapos, ossos, pó, substâncias inexplicáveis
que a vida rejeitou. Chamou-me a atenção
o tronco de uma boneca com uma mancha escura,
uma espécie de morte num campo rosáceo.
Parece que a cultura consiste
em martirizar profundamente a matéria e empurrá-la
ao longo de um implacável intestino.
Até conforta pensar que nem mesmo o excremento
pode ser obrigado a abandonar o planeta.

Joaquín O. Giannuzzi, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 194.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

A VIDA QUOTIDIANA EM TABLÓIDE


[À porta do meu Banco no patamar, acocorados]

À porta do meu Banco no patamar, acocorados,
um e uma, vendem a pele
de uns pratos encardidos
mesmo no traço que já lhes deu flores garridas.
Eles escorriam chuva, que chovia, para a louça.
Eles nem devem ter sangue pela tez lustrosa
da porcelana dos seus olhos de caveira.
(Até faz rir, leitor, coisa tão triste.)


[Nos corredores das lojas a passear, lá em cima]

Nos corredores das lojas a passear, lá em cima,
arrasta um calçado encharcado,
um saco plástico que verte.
Quando lhe tocam, sujam-se,
mais rápidos caminham fazendo um esgar doentio.
Não tardará que o homem de farda lhe indique a
saída.


[Uma mania, a de andar de olhos no chão]

Uma mania, a de andar de olhos no chão,
Deus esta noite resultado.
Entre baldes do lixo, pequeno como um rato, a minha filha
encontrou o que diz ser
uma gatinha.
Velho de alguns anos, o nosso gato,
que eu penso que ela julga solitário, recebeu-a mal.
(Disse a toda a família que o castramos
e que somos agora a sua fêmea.)


[Vestindo tão de luto como quando o enterraram]

Vestindo tão de luto como quando o enterraram,
a Senhora que o conheceu dava generosa tristeza aos Cristos
alinhados como velas em bolo.
(Cristo de
noiva, a tradição.)
Imperfeitos uns, outros polidos, alguns mais corroídos.
Régio comprou por devoção, à dúzia, e vendeu-os bem.

Deus está atento, já
voltaram para ele,
para o seu nome.


[Lanço o homem à minha frente para a vala]

Lanço o homem à minha frente para a vala?
Que hei-de dizer? Que é da doença.
A cabeça um cacho, a uva grossa já mosto, mas
terá uma forma de cérebro?
(Até a noz a tem.)
Boas maneiras, bilhete de identidade, contribuinte, gravata.
E pouco mais terá de humano, no manual
que dizem? (dlim, dlão).


[Durante toda a noite e dia]

Durante toda a noite e dia
as pancadas penosas do vizinho
nas paredes acolchoadas que o envelheceram. Queixava-se.
Agora espreito-o desta maneira. Mais tarde eu,
(Sob a penugem negra do receio, sonâmbulo,
com estranheza de me ver, mais tarde,
em qualquer espelho.)
em qualquer espelho que nos rodeia, no tédio.


[Primeiro passa a mulher empinando de grávida, com toucado]

Primeiro passa a mulher empinando de grávida, com toucado.
Depois uma criança rosa, que é da melhor carne da perna.
Por fim, muito estafado, franzino e roxo de ferrugem,
um homem que se senta e pede um copo de café e leite.
Desejo-os a todos.
À mulher prazenteira pelos filhinhos, a ele
como a um brinquedo.


[Um fio de mar, parece-me, inclinava a terra]

Um fio de mar, parece-me, inclinava a terra
num poço de luz silenciosa.
O vulto que chegou de motorizada pela mão
esconde as dunas, a vaguear com a madeira torcida
que encontrou. Esconde-se de si, todos o vêem.
Ouvimos rádio, o guiador colado ao jornal,
os joelhos afastados; ali uns outros num carro sem ruído.
Com a boca ranhosa diz palavrões,
mostra-se e afasta-se.


José Emílio-Nelson (n. 1948), do livro O Anjo Relicário (1999), in A Alegria do Mal (2004). «Nada melhor do que a poesia de José Emílio-Nelson para sujeitarmos às mais duras provas a boa ou má consciência do gosto literário. Poesia do feio e do mal, ela tem sido, desde Polifonia e Penis, Penis, livros de 1979 e 1980, um atentado constante às normas do bom senso e do bom gosto, só ilusoriamente banidas da República literária com a iconoclastia dos modernistas. Os seus poemas atormentados e contorcidos são a prova flagrante de que o gosto, bom ou mau, é uma hidra de mil cabeças com a aparência do diabo nos seus mil e um disfarces. (...) O que agride nesta poesia é a extrema paixão da sensibilidade, nas notações do monstruoso quotidiano, sem os espelhos correctivos que tornam invisíveis as partes malditas do real. Toda a visão da fealdade é uma fidelidade da visão: quando o feio está invisível, encontra-se algures escondido atrás de uma aparência de beleza. Ver o feio é ver a nudez em toda a sua pureza, por mais impura que aparente ser» (Luís Adriano Carlos, in Fisiologia do Gosto Literário, introdução a A Alegria do Mal).

quarta-feira, 10 de abril de 2019

BURACO NEGRO



somos tão nada
pulmões de pó
partícula movida a esmo
por credos fúteis   
ambições

convencidos uns
do valor que não têm
outros lucrando
do custo com que restituem
vida à morte insuspeita
morte à vida que não vivem

do lado de lá
porventura um vazio
como este
onde tudo parece insuprível
por nada ser impossível


Imagem respigada aqui.

ÚLTIMA CABEÇA



Todas as ideologias a açoitaram.
Jamais conheceu a alegria do possível.
Humilharam-na a história do mundo
e a vergonha do seu país,
a calvície, os dentes perdidos,
a obscuridade cavada sob os olhos,
o fracasso pessoal da sua linguagem.
O criador que no seu interior respirou
ávido de oxigénio e de perenidade
deixou cair o martelo. Foi a razão
quem cegou suas próprias janelas. Mas nem
no delírio encontrou qualquer conclusão.
Daí que talvez não tenha sido grosseiro
o modo de negar o mundo ao despedir-se.
Assim sucedeu:
repousando sobre a última almofada
voltou para a parede
o pouco que restava do seu rosto.


Joaquín O. Giannuzzi, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 199.

terça-feira, 9 de abril de 2019

SEM COMENTÁRIOS




Num evento organizado pelo Núcleo de Alunos de Marketing do ISCTE uma empresa colocou um boneco para ser espancado. Há quem diga que o boneco era negro, mas a empresa esclarece nestes termos: “É um boneco de artes marciais que, devido ao uso e ao facto de as pessoas partirem coisas – o que fazemos é aliviar o stress de forma lúdica – e de tanto ter apanhado ficou com esta cor.” A ideia de aliviar o stress a espancar um boneco com figura de pessoa já seria polémica, que o boneco seja negro ou fique negro depois de ser espancado não lembra ao diabo. Quem olhar para a imagem ao alto pode retirar as suas conclusões. Isto passou-se no ISCTE. Há dias, ouvia o Garcia Pereira na televisão dizer que já nada o espanta. Estou na mesma. Fonte: aqui.

ANDAMOS NISTO #3

Ainda a propósito de plágios e afins, sonâmbulos e chupistas, esta memória citada que também diz muito acerca do que é ser autor no nosso país: 

   Em Junho de 1990 fui alertado para o facto de que um poema do meu livro A Linguagem da Desordem (1983) fora plagiado por Maria Graciete Besse num livro acabado de publicar. Mal refeito da notícia, que me chegou por intermédio de uma professora de português, fui contactado por O Independente
   Dias depois, em artigo de página inteira, o Indy dava conta do sucedido: 

«Uma poetisa portuguesa em terras de França plagiou Eduardo Pitta. A Caminho editou o livro e tudo foi tratado por correspondência. O lesado deverá receber uma indemnização.» Nunca recebi.

   No dia a seguir à notícia do Indy, Maria Graciete Besse escreveu-me:

   «Acredite que a coincidência entre os dois poemas não foi, de modo nenhum, voluntária [...] devo ter lido, há alguns anos, o seu poema em qualquer sítio e, sem me dar conta, gravei-o inconscientemente na memória [...] o seu texto funcionou como um espelho imediato e incontrolado, como palimpsesto a que recorri de maneira perfeitamente inconsciente. [...] Gostaria de falar consigo ao telefone... etc.» Não falei.

   A 3 de Julho, o Público pegou no caso. Fernando Pinto do Amaral escreveu no «Leituras»:

   «Refiro-me à bizarra coincidência que fez com que a grande parte de um poema de Eduardo Pitta [...] fosse estranhamente comunicada a Maria Graciete Besse alguns anos depois [...]. Curiosamente, os deuses levaram a conjugação dos seus desígnios ao ponto de ambos os textos figurarem na página 19 dos respectivos livros. [...] Perante um eco tão nítido, não há que duvidar da origem transcendente deste poema. O próprio facto de o nome do seu autor original não aparecer na imitação é mais uma prova de que foi uma voz anónima e supra-humana a ditá-la ao ouvido de quem agora o tomou como seu. [...]»

   A 21 de Janeiro de 1991, carta da SPA sobre o teor do texto que a Caminho estaria disposta a inserir no livro de MGB, junto ao poema «que contrafaz o seu». Não houve acordo.
   Ao cabo de oito meses de negociações, o assunto morreu.


Eduardo Pitta, in Um Rapaz a Arder, Memórias 1975-2001, Quetzal Editores, Maio de 2013, pp. 138-139.

domingo, 7 de abril de 2019

AMANTES NA NOITE




Amamo-nos e desligamos a televisão
como que negando a realidade. Mas o mundo
insiste nas suas convicções ou procura-as
por motivos que ignoramos ou talvez
porque o crime deva continuar seu percurso.
Chegadas de fora, suas insones figuras
pressionam as paredes onde nos refugiámos.
Encarnam no vento, uivos
de pneumáticos e, nas imediações
de todas as coisas, tiroteios
que não resolvem a discórdia universal.
Agora folhas secas acumulam-se
ao pé das janelas e uma carta
de origem desconhecida desliza
por debaixo da porta.
Mas nós florescemos nus a meio da noite
que o amor por sua própria vontade decide
e por ele sabemos como fazer da história
um clamoroso escândalo a que somos alheios.



Joaquín O. Giannuzzi estudou engenharia, mas dedicou-se desde cedo ao jornalismo. Dedicou-se à crítica literária e foi um dos colaboradores da relevante revista Sur, dirigida por Victoria Ocampo. Publicou o primeiro livro em 1958, Nuestros días mortalhes, ao qual foi atribuído o prémio da Sociedad Argentina de Escritores. Existem várias reuniões da sua poesia, a qual surge frequentemente descrita como retrato elíptico da sua época. Fluída, prosaica, próxima do linguajar comum, ocupa-se do quotidiano com extrema austeridade verbal e um certo humor de tonalidades negras. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 200.

sábado, 6 de abril de 2019

CANSAÇO


Aqueles dias em que percebemos claramente o que é o cansaço. Não disto nem daquilo, nem sequer de tudo ou de nada: cansaço assim mesmo, ele mesmo. Cansaço.

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #14


Chegados aos 40, é inevitável que se instaure em nós o desespero da rotina. Pensamos naqueles cujas existências foram curtas, mas aparentemente intensas e repletas das peripécias que julgamos serem o suco da vida: viagens, paixões, aventura, risco, limite. A solidão que cresce dentro de um corpo arreado pela consciência do dever, a insatisfação daí advinda, a ideia de que tudo poderia haver sido diferente mediante opções menos conformadas, frustrantes, logra em pequenos instantes de surpresa o consolo que garante valer a pena o esforço. Um amigo que nos chega com aquele filme que toda a vida procurámos e não encontrámos, uma paixão inesperada que nos assoma pela janela, um dia levado de jorro com fúrias e rompantes, aquela precipitação para o abismo que os prazeres do corpo oferecem à mente, sol onde se aguardava negrume, chuva onde se esperava sol, são lâminas que rompem o hábito confortando-nos no confronto com o desespero.
   A caminho dos 45, confesso-vos, já pouco me surpreende. Dormi na rua e em hotéis de cinco estrelas, concluindo que independentemente do lugar nada tem mais valor do que o sono pesado que nem miséria nem luxo garantem. O sono pesado vem de andarmos bem connosco e com o mundo, parecendo-me hoje que o desequilíbrio entre ambos seja a razão última das insónias. Em não podendo estar de bem com o mundo, com as injustiças, iniquidades e desigualdades universais, como poderá um homem andar de bem consigo mesmo? Só em lhe faltando a tal consciência do dever, falta que tanto pode redundar numa libertinagem eternamente insatisfeita como numa indolência impossível de suportar. Mas as surpresas acontecem, e por vezes pouco mais basta do que um livro que nos chegue inesperadamente às mãos.
   Mulheres nascidas de um nome (LX Vinte Oito, Fevereiro de 2019) interrompe a rotina, abre a porta a um universo de personagens onde se manifestam todas as contradições possíveis de imaginar dentro de um ser humano. A ilustradora Beatriz Bagulho (n. 1997) já nos é conhecida de outras andanças. Deveis lembrar-vos dos seus desenhos para esse Simão sem medo Os Jardins das Cerejeiras (Douda Correria, Outubro de 2018) com que há coisa de meses presenteei a Beatriz. O talento é o mesmo, ainda que os motivos surjam diversos:



   Quanto a Claudio Hochman (n. 1958), argentino de Buenos Aires, chega-nos originalmente pela mão destas mulheres. Podeis aqui verificar que um livro não é apenas um conjunto de folhas dobradas manchadas de tinta, com riscos a que atribuímos sons e sons dos quais retiramos significados. Um livro não é apenas e tão-somente um aglomerado de palavras. É um objecto onde a beleza se acomoda ou se ausenta. Neste caso, podeis encontrá-la nas avenidas do texto, nas esquinas do recorte gráfico, nas praças da ilustração. À pergunta “o que se esconde por detrás de um nome?”, Hochman responde com verbos, inventários de acções, que vão do mínimo a uma ideia de máximo. Se «Sofia é o Sol» e basta, Maria, a última das personagens convocadas, é muito mais do que essa luz que ilumina quem a vislumbra. Porque «Maria é uma vaca, como Renata» (p. 235) e «Às vezes Maria pensa que gostaria de reencarnar num pássaro, como Camila e como Martina» (p. 238). Não há preocupações de coerência nem de concordância na descrição destas mulheres, a qual se desenvolve anaforicamente em textos que tanto podem ser contos como poemas, com frases quebradas onde a narrativa não se perde nem se esgota, automatismos e associações livres que transformam cada nome numa hipótese de mulher, cada mulher numa hipótese de universo. E o universo é uma multiplicidade de hipóteses.
   Por vezes os nomes sugerem os verbos: «Sílvia silva uma canção de Jacques Brel enquanto prepara uma mousse de chocolate» (p. 10), «Sandra sangra-se» (p. 18), «Rita ri-se» (p. 28). Noutras ocasiões, a poesia intromete-se imageticamente com divertidas conexões: «Quando Lua tinha três meses teve varicela, coçou as borbulhas e por isso ficou com marcas na cara» (p. 23). Há nomes que remetem para gente de facto, mas onde os factos surgem minados pela força lúdica da imaginação: «Frida esconde-se para ver Diego que está a pintar um mural, não sabe o que a atrai mais, se esse homem gordo, se o que ele está a pintar ou se a vertigem de ser descoberta» (p. 12). Isabel pode ser Isabel a Católica, mas tanto quanto Benedita, a minha preferida, é irredutivelmente ateia. E «Helena tem um cavalo em Tróia» (p. 34). Não ides encontrar no livro, minhas filhas, nenhuma Matilde ou Beatriz, mas se o lerdes podeis perceber que nem todos os nomes vivem sós: «Elsa tem três filhas como Violeta» (p. 142), «Violeta disfarça-se de Mickey, como Ramona, e passa o dia na praça para que as pessoas tirem fotografias com ela» (p. 117), Camila tem a mesma professora de Benedita, conhece Violeta e apaixona-se por Rosa… Entrai no mundo destes nomes e descobri-lhes os elos, as ligações, traçai com eles o mapa da imaginação que nos anima a existência. Concreto, experimental, divertido, inteligente, belo, deste livro que vos deixo bebei o gozo das múltiplas possibilidades: «Aurora escreve com sangue na parede do seu quarto uma frase que diz: / O melhor já passou» (p. 51).

sexta-feira, 5 de abril de 2019

JOAQUÍN O. GIANNUZZI



TEORIA DO JARDIM

Nenhum jardim fala do seu dono:
aqui, uma pálida zona de rosas
que denunciam sua própria beleza;
uma fila de gladíolos amarelos, gerados
pela torção de espadas verdes
e ao pé do muro circundante
um sussurro húmido de violetas. Em nada disto
reconheço a minha política depressiva
nem na sua organização
as ironias do meu cérebro. A cena respira
ao ritmo inverso dos meus pulmões:
seu presente são folhas matizadas de sol
que apenas com o vento falam
enquanto, para sempre afastado desse reino,
meu passado jaz debaixo da erva.

Joaquín O. Giannuzzi (n. Buenos Aires, 29 de Julho de 1924 – m. Campo Quijano, Salta, 26 de Janeiro de 2004), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 202.

UMA IMAGEM PARA O DIA


quinta-feira, 4 de abril de 2019

O POÇO E A ESTRADA


O Poço e a Estrada — Biografia de Agustina Bessa-Luís (Contraponto, Fevereiro de 2019) inaugura uma colecção de biografias profusamente propagandeadas, estando já anunciados futuros volumes sobre José Cardoso Pires, Herberto Helder, Manoel de Oliveira, Amália Rodrigues e Natália Correia. Coube a Isabel Rio Novo (n. 1972) biografar a escritora Agustina Bessa-Luís (n. 1922), daí resultando 503 páginas sem o apoio da família da biografada nem do seu actual editor. A própria autora da biografia o esclarece nos agradecimentos. É muito provável que as circunstâncias tenham condicionado as opções tomadas, resultando esta biografia, primeiro, numa tentativa de reconstrução das raízes a partir das personagens da própria Agustina e, depois, num exaustivo trabalho de recolha. Setenta e nove páginas de notas de rodapé dão conta do serviço, remetendo estas para os livros da escritora, entrevistas, documentários, cartas, notas de imprensa, depoimentos públicos, numa profusão de citações que parecem aceitar como premissa primeira as próprias considerações de Agustina sobre o acto de biografar: «Nem por um momento chego a admitir que pode ser aproximado à verdade um traço que eu descrevo; isso era iludir os meus leitores, fazer um pastiche em que a imaginação se prestigia e merece o seu nome. O pastiche é uma imaginação delinquente mas apreciada pelo seu lado artesanal; é o patchwork no sentido mais engenhoso, mais tributário da mistificação. A maior parte das biografias são pastiches duma realidade pessoal que se vai encontrando com factos casuais. Na verdade, os factos não são importantes numa biografia a não ser como o seu folclore» (Agustina Bessa-Luís, in Longos Dias Têm Cem Anos. Presença de Vieira da Silva, citada por Isabel Rio Novo em nota de rodapé na p. 419). Esta biografia parece não querer fugir à regra enunciada, o que explica, por exemplo, a ausência de uma cronologia e de uma bibliografia. Quem quiser saber quais os livros publicados por Agustina e quando, então que recorra à Wikipédia. Mesmo o Índice Onomástico não é exaustivo. 
   Não sendo certo, como se afirma na nota de contracapa, que esta «biografia se lê como um romance», é claro e assumido que em diversas circunstâncias ela apenas se fundamenta na imaginação da biógrafa: «Imagino que, para os pais, também não fosse fácil lidar com uma criança assim inteligente» (p. 49). Mas o mais inquietante são os processos de identificação, anunciados logo, e de que maneira, no primeiro capítulo: «Respirei Agustina; digo-o sem medo e sem rebuços» (p. 20). Podia ter ficado por aqui, mas não ficou: «Digamos que não me foi difícil compreender Agustina. Também eu, na minha pequena infância, cresci longe de outras crianças, recolhida por longos períodos numa aldeia minhota» (p. 50). Numa viagem que fez à Régua, teve «a impressão de seguir Agustina e de conhecer a paisagem com que conviveu» (p. 109), brindando o leitor com verdes e ocres, «manchas vermelhas e amarelas, papoilas e malmequeres, as flores que me provocam sempre uma alegria infantil» (p. 109). A ela, à biógrafa. Os processos de identificação sucedem-se, acrescentados de suposições, considerações subjectivas, conjecturas e presunções que nada acrescentam de substancial ao que já sabemos dos documentários e das entrevistas mencionados em rodapé. 
   Tal como a Agustina biógrafa conseguia apontar na vida do biografado um momento que lhe credita a existência, também Isabel Rio Novo o consegue relativamente a Agustina: «a premiação e a publicação de A Sibila» (p. 183). E conhece bem a paisagem física e humana que Agustina evoca nos pequenos textos e nos romances, percorre os mesmos sítios e quase consegue ver as mulheres de outros séculos, e, numa espécie de êxtase místico, quase consegue ver «Agustina, espraiando a vista sobre os telhados de Miragaia, colhendo aquela sensação de que, no Porto, todas as ruas acabam por descer ao rio» (p. 218). Este tipo de identificações repete-se ao longo de capítulos que procuram seguir o rastro da biografada até ao casamento com Albeto Luís, daqui à consagração como escritora, evocando viagens, tomadas de posição públicas, relações com amigos (Vieira da Silva, Sophia, Eugénio…), incursões pelo mundo da política, a relação com o cinema de Manoel de Oliveira, os prémios. O momento do encontro absoluto dá-se a páginas 368: «Nesse dia, vencendo a timidez, pude acercar-me de Agustina e estender-lhe um exemplar da minha novela de estreia. Agustina agradeceu o livrinho. Não sei se chegou a folheá-lo. Tenho uma certa pena de não o saber, mas, mais ainda, de não me lembrar das palavras exatas da dedicatória que assinei, não porque fossem bonitas ou interessantes, mas porque havia nelas sinceridade e enleio» (pp. 638-369). Enfim, digamos que faltou aqui algum labor de edição. 
   O trabalho de Isabel Rio Novo é extenso e exaustivo, mas o estilo peca pela falta de distanciamento de um observador que se comove ao rever a sua biografada receber, ao som do Hino da Alegria, o Globo de Ouro de Mérito e Excelência da estação de televisão SIC. A admiração favorece os traços de carácter, sublinhando o humor chistoso e a tendência para a provocação, a vaidade, a absoluta dedicação ao trabalho literário, mas aflorando apenas o lado dos afectos, não correndo o risco de penetrar no lado obscuro de uma personalidade que obviamente o tem. Se a relação com o marido parece a de um patrão com a secretária, se a família surge relegada para segundo plano, por vezes com considerações cruéis sobre os talentos, ou falta deles, de filha e neta, como avaliar a ausência de um trabalho crítico mais profundo sobre o modo como os sentimentos e as emoções surgem ao longo da obra publicada? O suicídio do irmão, referido a propósito da biografia dedicada a Florbela Espanca, teria sido bom ponto de partida para algo que fica por fazer, optando-se por uma espécie de beatificação de Agustina. Se os apoios a Freitas do Amaral, Cavaco e Santana Lopes foram opções individuais, a desastrosa passagem pela direcção do Teatro Nacional D. Maria II não devia ter sido apenas tratada como mero “acidente” no percurso dos cargos públicos. Para mais desagravado pela facturação à conta de um Teatro Nacional hipotecado meses a fio a um musical de La Féria. Vítima de velhos preconceitos? Que todas as vítimas mereçam o chofer que Agustina mereceu, mais tempo do que lhe era devido.

UMA IMAGEM PARA O DIA


quarta-feira, 3 de abril de 2019

CIDADE PROIBIDA


   Talvez seja mais lógico supor que os extraterrestres cheguem de fora, por isso lhes chamamos “extra-terrestres”. Ouvimos por vezes dizer: “se um marciano aterrasse agora aqui”… Mas e se os marcianos fossem gerados pela Terra? E se a própria Terra tivesse capacidade de gerar os seus anticorpos? E se os extraterrestres fossem terráqueos? Pode parecer ilógico, mas apenas porque os limites da linguagem diferem das fronteiras do pensamento. E o pensamento fica sempre muito aquém da realidade. Se não, vejamos: no ano de 2019, o sultão do Brunei, país membro da ONU, aplica a Sharia a adúlteros e homossexuais, o que prevê chibatadas a doer e apedrejamento até à morte; de seu nome Hassanal (ó santa ironia), o tal sultão é um dos homens mais ricos do universo, proprietário de vários hotéis luxuosíssimos espalhados pelo “mundo civilizado”, nos quartos dos quais, presumo, algum adultério e alguma homossexualidade serão levados à prática. Algures em viajem por Israel, o troglodita que os brasileiros elegeram para os representar, depois de se rebelar contra um folião a meter o dedo no cu, foi apregoar ao muro das lamentações que o nazismo consistiu num movimento de esquerda. Em si mesma, a afirmação não é tão grave quanto possa parecer. Afinal quem leva Bolsonaro a sério? Só mesmo os brasileiros e os amigos-de-seu-amigo (alô Trump, alô Netanyahu) que pretendam servir-se das riquezas que os brasileiros têm para esbanjar. Por cá, andamos entaramelados com as ligações familiares no governo. Este é o bom governo de Portugal, advertiu Tomás Pinto Brandão no séc. XVIII. Salvo diferenças de pormenor, continua tudo na mesma.
   Comovidos com o resultado da passagem do ciclone Idai pela Beira, pegamos num livro e procuramos distrair-nos do mundo. Mas o mundo persegue-nos, e o livro lá está a meter-nos ainda mais dentro do mundo. São diversas as contingências que tornam pertinente a leitura de Cidade Proibida (QuidNovi, Maio de 2007), romance de Eduardo Pitta (n. 1949). A personagem principal é um menino de bem, homossexual, cuja família tem ligações à Beira. O inglês com quem vive, marcado por alguns preconceitos de classe (chamemos-lhe assim), fará o seu brexit, depois de concluir, com frieza e racionalidade, que nada tem que ver com a hipocrisia reinante no mundo conservador tuga que lhe exige certo esforço de movimentos: «Rupert ainda não tinha ouvido ninguém comentar os temas do dia, assuntos que mobilizavam as pessoas como ele e faziam manchete nos jornais. À sua volta todos pareciam imunes ao quotidiano. A selva das estradas? Trapalhadas da Justiça? Abuso de menores? Custo de vida? Ameaças da Al Qaeda? Ocupação do Iraque? Bagatelas. O tema eram eles. E gente como eles. Contava o nome. E depois o cargo, sua visibilidade e solidez. Entre os muito íntimos, a revelação do acesso iminente (pressentido ou real) a um patamar mais alto, de preferência transnacional» (pp. 64-65).
   O despudor na descrição de cenas sexuais atiraria o livro para a fogueira dos padres na Polónia, sendo certo que o próprio Hassanal do Brunei não perdoaria a leitura sem pelo menos trinta calhaus arremessados contra a cabeça do leitor. Ler um livro assim tão “naturalisticamente” escrito é como fazer sexo com as personagens, algo que não merece perdão nem no Brunei nem, presumo, na Polónia dos padres. Pitta descreve tudo como se andasse por dentro, desmontando com cáustica ironia a fachada luminosa e luxuosa de uma família por detrás da qual se encobre um cenário de ruínas. Descompensadas emocionalmente, intimamente, estas personagens exprimem o desastre da mentira que as corrói. Aparte paixões e ligações amorosas, há uma sequência que dá bem conta do clima. Nora, a matriarca, administradora de uma importante fundação, reúne com o presidente à mesa do Bem Disposto. Este tenta influenciar, isto é, pressionar a cunha, a possível admissão de uma afilhada do engenheiro António, chefe de governo com o qual a Fundação mantém boas relações. Nora escuta, «Porém, antes de desligar, lembrou que a Fundação não era depósito de filhos-família». O resto é fácil de imaginar:

   «Em menos de vinte e quatro horas soube que o engenheiro ficara incomodado.
   Ela não se importava. Tinha bem presente o que sucedera em 2000, logo a seguir à presidência portuguesa da União, quando magotes de meninos e meninas, de facto mais meninas do que meninos, contratados a termo certo para acudir ao forcing daquele semestre, foram, uma vez libertos dos ministérios, expeditamente encaminhados para representações diplomáticas, fundações privadas, institutos e empresas públicas, holdings com participação do Estado, importantes firmas de advocacia, etc. Alguns até foram parar a Bruxelas. Um deles, recém-licenciado da Católica, passara pela Fundação. Não obstante o assédio do INA, preferiu a REPER. A pouca idade não o fez hesitar entre o palácio dos Marqueses de Pombal e o cosmopolitismo da Avenue Cortenbergh. O rapaz era realmente brilhante, Oeiras não estava na sua linha de tiro. Na Fundação sentiram a falta dele. Antes da partida Nora tinha feito uma proposta irrecusável. Ele declinou com elegância. Não era dinheiro o que lhe interessava. Era poder. Podia esperar desde que estivesse no sítio certo. Mas como ele havia poucos. A grande maioria distinguia-se pela mediocridade mais rasteira. Vaguíssimas licenciaturas obtidas quase sempre em universidades de segunda linha, mestrados esotéricos, um que outro doutoramento a tender para o virtual. Nora guardava cópia de um C.V. que referia licenciatura em Relações Internacionais, seguida de mestrado. Guardou-o por causa do título da dissertação: A apropriação desapropriante do português no espaço dos PALOP. Ascensão e queda do mito colonial e afirmação das identidades nacionais. Era obra!»

   Disse fácil de imaginar? Talvez devesse ter dito que bastará estar a tento, observar com cautelosa distância as vias onde circulam os chacais do poder. O que não falta no quotidiano português é matéria onde buscar exemplo. Cidade Proibida está publicado na Planeta de 2014.

terça-feira, 2 de abril de 2019

DA MARGARIDA ARAÚJO


O livro é este.

ANDAMOS NISTO #2


   Como é que Mega Ferreira explica o autocopianço? Intertextualidade, querem ver? Essa é, talvez, a explicação menos convincente. Desde logo, ignora (mas não devemos discutir com a ignorância pretensiosa) o significado do termo inventado por Julia Kristeva, que inclui o recurso a figuras discursivas como alusão, pastiche, paródia, citação, até plágio ou imitação, mas com objectivos literários bem definidos, onde não se inclui o enchimento de chouriços: aprofundar as correlações entre textos e acrescentar-lhes níveis de interpretação, fornecendo sempre pistas aos leitores para que possam reconstituir o sentido da técnica intertextual. Ora, aqui, no caso do Mega, a conversa é outra. Trata-se de impingir gato por lebre.
   A alguém é difícil compreender isto? Reparem: não estamos a falar de niquices, alguns destes livros são recomendados pelo Plano Nacional de Leitura e foram publicados na editora do Estado, a qual terá contratado o tio do director da sua Unidade de Publicações para os escrever. Perguntarão vocês: quanto é que, por contrato, ganham os autores das colecções «O Essencial sobre» e «Observadores»? Pois o mesmo pergunto eu: quanto dinheiro público anda a esbanjar a INCM com Mega Ferreira?

João Pedro George, aqui.