domingo, 3 de maio de 2020

A ORIGEM DO MAL


O mal é dos chineses, ninguém os manda comer morcegos.
O mal é dos americanos, não tinham nada que invadir o Iraque.
O mal é da União Europeia, que deixam entrar toda a escumalha.
O mal é dos russos, que são russos.
O mal é da Internet e das notícias falsas e das redes sociais, que só servem para manipular os homens.
O mal é do ser humano, especialmente dos russos, que só sabe destruir o planeta.
O mal é dos árabes, que são uns fanáticos.
O mal é dos ciganos, que não fazem a ponta de um corno (excepto quando é para fazer mal).
O mal é dos pretos, que não querem trabalhar.
O mal é dos judeus, que têm a mania que são bons.
O mal é da Igreja, que anda a prometer paraísos no céu e se alia ao diabo na terra.
O mal é dos índios, que não querem ser civilizados.
O mal é do socialismo, que não quer trabalhar (tal como os pretos).
O mal é dos fascistas, que são fascistas.
O mal é dos liberais, que com tanta liberdade acabam por abrir caminho para os fascistas.
O mal é do 5G, que eu ainda não percebi bem o que é mas de certeza que não é coisa boa.
O mal é dos ambientalistas, sobretudo daquela gaiata desaparecida em combate a quem roubaram o futuro.
O mal é da ganância dos homens, sobretudo se forem chineses.
O mal é dos políticos, que são todos uma cambada de corruptos (quer factura?).
O mal é dos abstencionistas, que não querem saber disto para nada e só sabem queixar-se.
O mal é da indústria farmacêutica, que anda a contaminar as pessoas para que fiquem doentes e tenham de comprar medicamentos.
O mal é da indústria militar, que mete toda a gente em guerra (especialmente os pretos e os árabes).
O mal é dos jornalistas, que são uns vendidos.
O mal é do capitalismo, que explora os pobres para engordar os ricos.
O mal é dos bancos, que só sabem roubar.
O mal é dos ladrões, que estão todos nos bancos.
O mal é do álcool, que deixa as pessoas assim.
O mal é da droga, que deixa as pessoas assado.
O mal é da prostituição, que dá cabo das famílias.
O mal é dos padres, cambada de pedófilos.
O mal é dos paneleiros, que o cu é deles.
O mal é dos filósofos, que andam a desviar a juventude há 2500 anos (pelo menos).
O mal é dos poetas, que são piores que ciganos.
O mal é dos doutores e engenheiros, que a educação já não é o que era.
O mal é dos professores, que não sabem ensinar.
O mal é da poluição atmosférica, é dos aviões que andam no ar a pulverizar o planeta, é das gasolineiras e da companhia do gás e da EDP e das telecomunicações e dos carteiros...
Eu? Eu não faço mal a ninguém. Nem a uma mosca.
Esqueci-me de que o mal também é das moscas. Ah pois é.

sábado, 2 de maio de 2020

5G


O estado de emergência foi declarado a 18 de Março, vindo a ser renovado até à sua cessação a 2 de Maio. Fui, desde o início, contra o uso desta figura de “estado de excepção”, por razões que é escusado continuar a discutir. Já foi. Espero que o que foi não volte a ser. Entretanto, apanhámos com as comemorações do 25 de Abril e do 1 de Maio pelo meio. Mereceram desde a primeira hora a contestação de uma franja da sociedade que, em boa verdade, nunca comemorou o 25 de Abril na vida, levando de arrasto toda uma série de ingénuos que gostam de ser mais papistas do que o Papa. Havia aquela coisa do ir além da troika, passámos a ter uma outra: ir além do que o estado de emergência decreta. A verdade é que em nenhuma das celebrações foram desrespeitados os preceitos decretados por políticos democraticamente eleitos. Se isto ficou mais ou menos patente no 25 de Abril, parece que no 1 de Maio nem por isso. Por um lado, critica-se a manifestação em si (havendo até quem fale numa enchente na Alameda, provavelmente por nunca a ter visto cheia); por outro lado, critica-se o aparato à laia de parada militar, garantindo o respeito pelas regras vigentes. É o mesmo aparato que encontrei das poucas vezes que saí de casa nos dois últimos meses, fosse na fila dos CTT ou à entrada do supermercado… Se calhar estamos todos transformados em soldadinhos de chumbo, pelo que não estranharia uma proposta que viesse a marcar com ferro em brasa todos os participantes do 1 de Maio na Alameda que venham a ser diagnosticados com covid-19. Parece-me haver uma contradição nos termos das críticas, já que para soldadinhos de sofá servimos todos, mas para celebradores da liberdade e do trabalho nem por isso. Assim sendo, deixem-me dizer que tenho apreciado muito a preocupação da generalidade das pessoas com o bem-estar comum. Há na sociedade portuguesa, neste momento, uma emotividade gregária que me comove. O partido único da máscara e das luvas e do gel desinfectante aí está para nos unir em torno de uma causa: a higienização de uma sociedade disposta a abdicar de todos os seus direitos se for esse o preço cobrado pelo “vírus chinês”. Tem piada que os mais críticos do regime de Xi Jinping se estejam a transformar, talvez até sem darem por isso, em “badarós” obedientes ao lema “fica em casa”, com um arco-íris de esperança (ia dizer utópico) a brilhar no horizonte. Foram mais papistas do que o Papa, talvez queiram agora ser mais chineses do que os chineses. Hosanas a este liberalismo higienista, a esta reverência democrática, a esta perspectivação de uma sociedade servil porque quer, não porque a obriguem a ser, que por certo não hesitará em fornecer todos os dados pessoais que o Estado lhe vier a cobrar como garantia de boa, moderada e “yes sir” cidadania. Agora que a emergência está nas últimas, esperemos que num futuro próximo continuem todos a fazer respeitosamente o seu percurso diário de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Usem as redes sociais para comunicar, optem pelo teletrabalho, forniquem à distância e, pelo amor à santa asséptica, sem despirem luvas nem máscara. Nada de praia, nada de shoppings, nada de nada, a bem de todos em geral e deste que vos fala em particular. O país carece do vosso empenho, especialmente do vosso, que tão preocupados estais com um viva à liberdade e um vivam os trabalhadores (socialmente distanciados por dois metros e um nariz de proteccionismo social, claro).

sexta-feira, 1 de maio de 2020

ANEMOSCÓPIO


Acho um piadão aos indignados (de sofá) que estão em acção de protesto (nas redes sociais) contra a celebração do 1º de Maio na Alameda. São exactamente os mesmos que há dias não hesitavam entre Haddad e Bolsonaro. Que viesse Bolsonaro. Gente boa, preocupada com o próximo, mas a modos que volúvel como anemoscópio.

LORNA BREEN



Esta é Lorna Breen. Foi, até há pouco, directora médica do departamento de emergência do Hospital Presbiteriano de Nova Iorque. Cuidava de doentes com covid-19. Suicidou-se. De que estarão à espera para condenar o gangster Trump no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos? Do negacionismo inicial (eram fake news) ao vírus chinês, passando por sugestões de injecções com desinfectante, há toda uma história para contar sobre este gangster que chegou a presidente da mais poderosa nação do mundo. Ele continuará a dizer que a culpa é da OMS, que nas suas próprias palavras, aliás, trabalhava lindamente há 2 meses. Dirá que a culpa é da China, dos emigrantes, é de todos menos da incúria com que tratou o problema desde o início. Como não tem consciência moral, atribuirá eternamente a outrem a responsabilidade e as consequências das suas próprias decisões. Inimputável? Não. Um gangster como qualquer outro qualquer, só que não está numa prisão de El Salvador.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

ESTANTE


Já há vencedor no campeonato das estantes. Assim está bem, calendários com moçoilas e um arsenal de garrafões. Marques Mendes, aprende. E tu também, ó Nuno Rogeiro.

FLORIAN SCHNEIDER (1947-2020)


Membro fundador dos Kraftwerk, banda pioneira no domínio da música electrónica. Sobre um álbum dos Kraftwerk: aqui.

terça-feira, 28 de abril de 2020

PÉS DE BARRO

   (...) Pensem, por um momento, como seria um mundo em que não usássemos combustíveis fósseis. Antes de mais nada, não poderíamos ter um carro pessoal, nem nós nem ninguém. A vida nas cidades como as nossas, dependente do consumo de muita energia e de produtos que vêm de muito longe através dos sistemas de transporte, não poderia ser mantida.  (...) 
   Sem combustíveis fósseis, devemos dizer adeus à ideia de viajar de avião quando nos apetece. O que faremos então, se não pudermos ter acesso aos alimentos produzidos noutros continentes e embalados em plástico em grandes fábricas que chegam a nossa casa, nas cidades, através de supermercados? (...) 
   E que me dizem do enorme consumo de electricidade de que hoje dependem o nosso lazer e o nosso trabalho? Telemóveis, computadores, televisores, internet... Tudo isso consome enormes quantidades de electricidade, que é, sim senhor, produzida principalmente a partir do petróleo (quando não é das coisas piores, como o urânio das fábricas nucleares. Imagino que todas se lembram de Fukushima...).
   Por conseguinte, para enfrentar a crise ecológica e social, do que nós precisamos é de mudar por completo a nossa vida, a nossa economia, os nossos desejos, a nossa forma de habitar, de comer... E isso não depende duma lei ou dum imposto, duma proibição pontual ou dum decreto. Mesmo que uma lei proibisse o uso de combustíveis fósseis da noite para o dia, todos os problemas a que me refiro iriam continuar. O drama de o nosso mundo precisar de se autodestruir para funcionar, significa que parar a destruição implica voltar a pensar como fazer quase tudo.

Adrián Almazán, in Carta-aberta aos jovens em luta pelo clima, revista Flauta de Luz, n.º 7, Abril de 2020, pp. 60-61.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

UM POEMA DE JORGE GOMES MIRANDA

DE UM SÓ TRAGO

De todas as maneiras que a solidão
escolhe para nos derrotar
nenhuma tão lenta e cruel
como a que nos faz acreditar
de novo no amor, ao mesmo tempo
que nos retira as forças para injuriá-lo
quando as promessas se revelam vãs
e percebemos que a chama que nos alenta
é a mesma que nos extingue.

E de nada serve pelos restantes dias
mostrarmo-nos compassivos
de nós mesmos, com a certeza de que
em todas as praças há um corpo apedrejado,
em todas as casas uma janela opaca,
em todos os quartos uma boca sem voz,
em todas as palavras a lembrança de outras
mais amadas e que um dia nos pertencerão.

A dor deve ser bebida em silêncio
de um só trago, ao balcão de um bar,
depois de todos haverem já partido.


Jorge Gomes Miranda, in Este Mundo, Sem Abrigo, Relógio D'Água, Novembro de 2003, p. 44.

domingo, 26 de abril de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA #11



Dei com uma senhora muito bem penteada na fila do Staples. Equilibrava-se invejavelmente sobre uns saltos que eu desaconselharia a qualquer ser humano, até porque sofro de vertigens. Fiquei a pensar onde teria arranjado o cabelo. Atrás dela estava outra senhora, não tão produzida, mas com uma máscara que me deixou cismático. Quando era miúdo tinha dificuldade com os atacadores. Já mais crescido, meu pai perdeu horas a tentar educar-me em nós de gravatas. Em vão as perdeu. Imagino que deva ser necessária muita destreza para usar uma máscara com o aparato da que vemos na imagem. Eu continuo em pânico com as máscaras. Já experimentei uma viseira e senti-me como uma personagem do filme "Massacre no Texas". Se me vir obrigado a andar com uma coisa destas, acho que vou prolongar a quarenta para lá da quarentena. Só sairei de casa quando houver vacina. E me medicarem contra a agarofobia.

sábado, 25 de abril de 2020

25 DE ABRIL SEMPRE


FASCISMO NUNCA MAIS!

sexta-feira, 24 de abril de 2020

PANDEMIA




   A propaganda fascista está a ganhar à História. Porquê? Basta fazer pesquisas no Google sobre o antes e o depois de 25 de Abril de 1974. Onde andam os documentários que expliquem com clareza as diferenças? E os memes? E os vídeos simples, directos, objectivos e claros? Em todo o lado tropeço com montagens truncadas de propaganda fascista e antidemocrática. Há uma incompetência atroz nos zeladores da democracia e da memória de Abril, uma incapacidade de chegar às pessoas com retratos, imagens, factos, que pagará um preço muito elevado num futuro próximo.
   Há um ano que reactivei a página de Facebook e, desde então, não me deixo de chocar todos os dias com tamanha incúria. Não pára de crescer o desfile de frases feitas, chavões, absolutas mentiras propagandeadas como se fossem verdades. As mesmas pessoas que dizem odiar a Coreia do Norte manifestam empatia pelo regime do Tarrafal, da PIDE, da censura prévia. Porquê? Que leva essas pessoas a dizerem tão mal da democracia ao mesmo tempo que dizem odiar ditadores?
   Um dos equívocos mais correntes é a falácia da corrupção. Crê-se que não havia corrupção antes da democracia, como se esta tivesse o exclusivo de políticos corruptos. Não há quem faça um vídeo simples, directo, claro, a demonstrar que a ditadura era a corrupção em si mesma? Qual o papel da Associação 25 de Abril? Que função desempenha nesta era de comunicação em rede?
   Encontrei no perfil de um ex-aluno uma montagem com o Dr. Soares a dizer, durante o período da troika, que nem nos tempos de Salazar viu tanta fome em Portugal. Em que falhámos? Aquelas afirmações, descontextualizadas e truncadas, servem para tudo, até para porem um homem que combateu a ditadura a elogiar o ditador. Há nisto uma amoralidade terrível. É preciso agir sobre isto com ferramentas comunicacionais igualmente eficazes. Eu não tenho os meios, mas deve haver quem tenha. Por amor à democracia e à liberdade, acordem e mexam-se. É que estão a perder a guerra. E o mais grave é parecer que nem estão a dar por isso.

A imagem ao alto reproduz um trecho de "A República" de Platão, que também vem sendo utilizado, imagine-se, como "elogio do Estado Novo". 

terça-feira, 21 de abril de 2020

#ESTUDOEMCASA


A iniciativa #EstudoEmCasa arrancou ontem, acompanhada de um chorrilho de críticas para todos os gostos. Era previsível que assim fosse. Qualquer iniciativa do Ministério da Educação está sujeita, à partida, a ser crucificada na praça pública. Há duas razões para que assim seja: temos os mais inúteis experts do mundo em matéria de educação. Segundo: os professores adoram dizer mal dos professores, excepto quando são atacados por quem não está dentro da classe. Nada de novo, portanto. Sucede que os tempos são, de facto, novos, obrigam a experiências inovadoras, a uma certa ousadia em matéria de experimentalismo, até a algum voluntarismo. E nisto, como em tudo, há os que se chegam à frente e os que se sentam na fila de trás, com um semblante perscrutador, para poderem dizer mal e criticarem. Ambas as atitudes são legítimas, sobretudo se quem ficar na fila de trás tiver uma atitude proactiva que contribua para o aperfeiçoamento do que está mal. Mas não quero ser chato nem moralista. Perante os comentários que vi à indumentária dos professores, aos penteados, a uma ou outra calamidade congénere, ponho-me a pensar no assunto e fico com sensações ambivalentes acerca do tema. Qualquer que fosse a decisão do Ministério, ela seria objecto de crítica. É de lei. Tendo sido esta a opção, quanto a mim bem, porque do mal, o menos, talvez a atitude correcta fosse uma certa condescendência, ou, pelo menos, alguma paciência. Eu admiro honestamente o esforço e a dedicação de todos quantos se empenham para manter a máquina funcional, admitindo haver muita coisa a ser corrigida. Depressa e bem não há quem, diz o povo e com razão. Ainda assim, vi excertos de uma aula com a minha filha Beatriz e não desgostei do que vi. Por outro lado, compreendo as críticas daqueles que se focam na indumentária dos professores, no tipo de calçado que levam para as salas-estúdio, nos penteados e numa ou noutra calinada. Faz-me pensar no risco que é, até para os professores, uma medida destas. Um simples frame de uma postura menos ortodoxa, um lapsus linguae inadvertido, podem arruinar a reputação de quem ousou chegar-se à frente, dado ser agora tão fácil pôr em prática a uma escala universal os comportamentos do fanfarrão da turma. Não deixa de ser curioso verificar quão democrática se tornou a fanfarronice neste novo mundo em rede. Qualquer pessoa fica exposta ao ridículo quando assume publicamente a sua maneira de ser e de estar. Em televisão, e sem qualquer preparação prévia, seja pelo tom de voz ou pelo penteado ou pela gralha inevitável, essa exposição ao ridículo pode assumir uma escala inimaginável. Mas se as aulas nas escolas fossem filmadas, ideia que espero não vir a passar pela cabeça de ninguém, seria diferente? Não estariam todos sujeitos à gozação geral. Muito pode ser corrigido nesta iniciativa do Ministério da Educação, mas nada que possa resolver a falta de humildade daqueles que, estando em casa, pouco mais conseguirão fazer do que dizer mal. Quantos de nós estariam dispostos a cumprir o papel que estes professores estão a cumprir? Cheguem-se à frente, candidatem-se, enviem currículos, participem. Eu prefiro ficar em casa.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

PANO PRETO


Ou eu estou a viver um pesadelo ou as pessoas enlouqueceram de vez. Agora querem um pano preto na janela, contra a celebração do 25 de Abril. Para estas pessoas, celebrar, na actual conjuntura, o fim da ditadura e o retomar da democracia é uma afronta aos portugueses, ao SNS, ao Papa e ao Espírito Santo.

O SNS, que por acaso foi só uma das mais relevantes conquistas da democracia, fica exposto com a celebração contida do 25 de Abril?

Pessoas, se estão verdadeiramente preocupadas com o SNS, deixem de fumar e de beber, pratiquem exercício físico e cortem nos doces, emagreçam, controlem peso e tensão, durmam bem. Pelas vítimas de enfarte: deixai de ingerir sal. Pelas vítimas da fome: deixai de comer. Pelas vítimas de SIDA: deixai de foder. Deixai mesmo de viver, por amor à santa e respeito a todos quantos morrem diariamente das mais diversas maneiras. Mas tende o paninho preto na varanda, que o país não pode parar. Excepto no dia da liberdade.

domingo, 19 de abril de 2020

NA LINHA DA FRENTE


Na linha da frente. Eis uma expressão que sempre me irritou. Na livraria, a linha da frente dividia-se entre best-sellers e campanhas merdosas. A guerra mete na linha da frente os que são para morrer primeiro. Chamavam-se vanguardas, coisa que tem a sua piada até a vanguarda se desfazer em húmus. Ultimamente a expressão é usada para nos referirmos a médicos e enfermeiros, sempre num tom tão respeitoso que lembra os samurais diante do imperador. Ninguém nega a relevância do trabalho, nem sequer se põe em causa essa relevância. Importa acrescentar que para esse trabalho poder ser feito os materiais têm que chegar onde são precisos, pelo que os transportadores também estão na linha da frente; os produtos têm de ser fabricados, pelo que os operários estão na linha da frente. E por aí em diante, pelo que a linha da frente tem muitas camadas, tal e qual um mil folhas, as coisas ligam-se umas às outras. Um simples gesto tão básico e necessário como beber água obriga a que imensa gente permaneça na linha da frente. Respeito de igual modo toda esse massa anónima que, independentemente da sua função, a desempenha discreta e eficientemente. Não receberão medalhas, ninguém se lembrará deles, porque na expressão linha da frente só cabe o pico da pirâmide. A base fica sem rosto.

sábado, 18 de abril de 2020

AO QUE A AMÉRICA CHEGOU


(clicar na imagem para ver melhor)

sexta-feira, 17 de abril de 2020

O DIREITO À POESIA



E aqui leio um poema meu. Foi publicado originalmente acolá.

DIÁRIO DA QUARENTENA #10


Espero pela Ana à porta da praça improvisada no pavilhão da Expoeste. Não entro porque não consigo usar máscara, julgo preferível manter-me distante a arriscar um ataque de pânico. Vejo pessoas com máscaras no queixo. Outras, mais originais, penduram as mascarilhas nas orelhas como se fossem brincos. Suponho que algumas senhoras aproveitem para comentar as máscaras umas das outras como antes comentavam adereços e indumentária. Não entendo por que não enfiam luvas no nariz.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

LUIS SEPÚLVEDA (1949-2020)


(...)
   Sonho, e não me importo que uma visão do lucro como única orientação do homem estigmatize os sonhos e os sonhadores. Considero-me um sonhador, paguei um preço bastante duro pelos meus sonhos, mas são tão belos, tão plenos e tão intensos que voltaria a pagá-lo uma e outra vez.
(...)
   Primeiro, sou cidadão e homem livre, depois sou escritor. Tenho para mim que se é homem antes de se ser artista ou escritor, creio que se é responsável antes de se ser célebre, creio que se é justo antes de famoso, pois, caso contrário, a arte, a celebridade e a fama não seriam mais do que desculpas para não cumprir os deveres de homem e de cidadão.
(...)
   As minhas histórias, escreve-as um homem que sonha com um mundo melhor, mais justo, mais limpo e generoso. As minhas histórias, escreve-as um chileno que sonha que este país cumpra o mais belo dos sonhos: sentarmo-nos todos à mesma mesa com confiança e sem a vergonha de saber que os assassinos daqueles que nos faltam não recebem o justo castigo.
   E esse sonho será materializado no dia em que soubermos onde estão os que nos faltam, porque, ao sabê-lo, a nossa memória não terá abertas as feridas da incerteza, o bálsamo da justiça encarregar-se-á de fechá-las e poderemos continuar a sonhar, porque só sonhadores e fiéis ao sonhos é que conseguiremos ser melhores, e, se formos melhores, o mundo será melhor.
(...)

Palavras da alocução "Ainda Acreditamos nos Sonhos", proferida no lançamento da Editorial Aún Creemos En Los Sueños, na Biblioteca Nacional de Santiago do Chile, em 16 de Abril de 2002. In "O Poder dos Sonhos", tradução de Henrique Tavares e Castro, ASA Editores, Setembro de 2006, pp. 10-24.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

LEE KONITZ (1927-2020)



Isto não está fácil. Lee Konitz também se foi. Nascido em Chicago no dia 13 de Outubro de 1927, começou por tocar acordeão, passou para o clarinete e acabou por se transformar num dos mais relevantes saxofonistas de todos os tempos. Decidiu-se pelo saxo contralto depois de assinar contrato com a orquestra de Jerry Wald. O pianista Lennie Tristano viria a ser a sua maior influência, a par de Gil Evans e Miles Davis. Foi com este que gravou um álbum emblemático intitulado “Birth of the Cool” (1957), ao lado de outros músicos que ficaram conhecidos como a Tuba Band de Miles Davis. Esteve no início do free jazz com a gravação de “Intuition”, ainda que nunca tenha abandonado um timbre onde a tradição era fortemente respeitada. Estive para vê-lo ao vivo em 1999, no Seixal Jazz. Cheguei a comprar bilhete. Discussões passionais de última hora retiveram-me em casa, provavelmente a ouvir repetidamente a versão do tema “The Shadow of Your Smile” contida no CD que se vê na foto. Faz parte de uma colecção de quiosque que consegui completar na íntegra. Foi por ali que entrei no universo de Konitz, muito antes de ter ouvido “The Lee Konitz Duets” (1968) — que é hoje um dos meus álbuns de jazz preferidos. E depois temos isto:


DIÁRIO DA QUARENTENA #9


As gaivotas andam loucas, de dia para dia ameaçam tomar conta do bairro. Detesto gaivotas, a sorte delas é ninguém as querer comer. Mas elas atacam os pombos. Não tivesse eu fobia a pássaros, importaria bandos de águias para darem cabo das gaivotas. Sou como os gatos que assomam às varandas para contemplarem suas presas. Mesmo enclausurado, não deixo de contemplar as minhas presas. É exercício que me oferece a ilusão de uma certa liberdade. Passa-se exactamente o mesmo na vida em rede. Somos reclusos a cumprir pena por crimes de que nos julgamos injustamente condenados, mas nem por um segundo deixamos de espreitar inimigos através das assépticas janelas virtuais que nos conservam obedientes e cumpridores garantindo... distanciamento social. Infelizmente, não temos a inteligência dos gatos. Guerreamos sem garras nem dentes, apenas palavras domésticas, esbatidas, cansadas, dolentes. Que digo eu? As palavras parecem-me todas iguais por estes dias, tudo me parece repetido e entediante, monótono, fastioso, aborrecido. Sem a vida das ruas, é como se as palavras começassem a patinar na sua própria história perdendo sentido e significado. A experiência atribuí-lhes um travo a selvajaria, reforça-as e reanima-as de crueldade, matiza-as de duplos e triplos e brutos sentidos. Domesticadas, redundam anódinas como gatos ronronantes em varandas mil e uma vezes varridas ao longo de um dia, outro dia, mais um dia. Como se não bastasse frecharem-nos em casa, querem-nos agora de máscara no rosto. Odeio tanto as máscaras como detesto gaivotas. Quando criança, minha mãe mascarava-me por alturas do carnaval e exigia-me que eu fosse feliz. Sofria com as gargalhadas burlescas do entrudo como uma criança sofre quando é castigada no meio da sala de aula. Gerou-se dentro de mim um nojo a máscaras e um medo de mascarados do qual nunca mais me refiz. Agora querem que me mascare, dizem que é para meu bem. Tento distrair-me desta paranóia sanitária, que mete todos a cuidarem de todos, refugiando-me entre o pó dos livros, mas não consigo ler, a concentração resvala amiúde da página para o necrológio em que o mundo se transformou. Pego na guitarra e improviso melodias ao som de trovoadas, os relâmpagos iluminam-me as noites, saio para caminhar 4000 passos, imiscuo-me no vazio das ruas da cidade vislumbrando em plena noite um indivíduo com óculos escuros a caminhar aos esses, regresso a casa ao som de “Peer Gynt” e com a preocupação antecipada de higienizar as mãos antes de voltar a tocar nas minhas filhas. Há dias aproveitámos o dia mundial do beijo para rever “Cinema Paraíso”, do Giuseppe Tornatore. Quem se recorde da sequência final perceberá o vínculo, quem a tiver olvidado poderá procurá-la onde tudo se encontra com a maior das facilidades: na Internet. Só duas coisas não se encontram na Internet, aromas e texturas com que entreter os mais sacrificados dos sentidos. Além da sequência dos beijos, há aquela cena do filme em que Alfredo, já cego, pede a Toto que o leve a passear até ao mar. Tornatore enquadra o diálogo entre os dois amigos com imagens de âncoras espalhadas pelo cais. Não são meros adereços, são uma espécie de coro com a função dramática de nos anunciarem o afastamento de Toto das suas raízes, a necessidade de se libertar partindo, saindo, deslocando-se na direcção de um futuro que não obrigue a olhar para trás, sem nostalgia nem a melancolia arrastada de um saudade tão nossa. Nunca desesperei tanto por momento igual.