Um país que é um circo, com um palhaço na presidência da República, um equilibrista como primeiro-ministro, uma comunicação social reduzida à condição de caniches amestrados, uma oposição de ilusionistas. Não há paciência para este circo, é uma tristeza assistir, de dia para dia, ao afundar da democracia. Ontem, ao passar os olhos pelo telejornal da SIC, lá veio a bucha do congresso do PCP. Será a Festa do Avante de Inverno, preparem-se. Está tudo encenado para a nova retórica dos favorecimentos, uma narrativa que só favorece, publicita e propagandeia os grunhidos daqueles que ainda ontem, em pleno Rossio, entre "caralhadas" diversas, falavam de uma "pseudo-pandemia ó qu' é". Tudo isto é muito triste, perceber que quem mais tem o dever de defender a democracia é quem está menos preparado para o fazer. Do berço dado por Passos Coelho ao discurso xenófobo até à coligação açoriana recentemente subscrita pelos paladinos do liberalismo, passando pela contabilidade de vergonhas na AR, é uma passadeira estendida à passagem de um Portugal burgesso como há muito não se via.
domingo, 15 de novembro de 2020
sábado, 14 de novembro de 2020
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #30
Há uns anos, como sabeis, dediquei um livro
aos que se matam. Confesso-vos que nunca me interessou o porquê de se matarem,
pelo menos nunca me interessou tanto quanto continua a interessar-me o porquê
de não se matarem outros. Será o suplício de nos mantermos vivos menos poético
do que a decisão de nos termos mortos? Quantos serão os modos de se estar morto
em vida? O que para mim sempre esteve em causa resumiu-o Ruy Belo: «Suicido-me
nas palavras. (…) Ao escrever, mato-me e mato». Ninguém percebe as forças que
animam tal decisão, muito menos a percepção anterior à de que tudo é em vão.
Ainda assim, a gente mata-se a escrever como quem se mata a esgaravatar no deserto
esperando que à superfície surja água com que saciar a sede.
O meu desprezo é, sempre foi, pela exibição
da tristeza, pelo exibicionismo da melancolia, pela sublimação da morte quando,
vai-se a ver, e a vida gira como um carrossel grotesco de hipócritas
lambuzando-se em algodão doce. Este mundo, minhas filhas, está atolado de
pierrots a plagiarem meninos da lágrima. Daí que na introdução a um livro
anterior aos meus suicidados eu haja proposto a esses pierrots que se matassem,
abdicassem ou se dedicassem à criação de galinhas em vez de perderem tempo a
cacarejar desesperos e desassossegos de pacotilha. «O poeta é um ser condenado»?
Sim, mas não menos que um ladrilhador ou a dona Ilda das limpezas.
Tão distintas são as razões que levam alguém
a pôr termo à vida que considerar o suicídio «o manifesto de coerência do
poeta» só pode significar uma de duas coisas: ou nada se percebe da vida ou
nada se entende de poesia. Terá Thomas Chatterton pretendido matar-se, aos 17
anos, para manifestar uma putativa coerência que o Nobel Yasunari Kawabata só
vislumbrou aos 72? O que haverá de comum entre o suicídio de Antonin Artaud e a
desesperança de Antero de Quental? Acerca do tema, de resto, escreveu o
primeiro: «A matar-me não será no intuito de destruir-me, mas sim para me
reconstituir, o suicídio será para mim unicamente um meio de me reconquistar
pela violência, de fazer uma irrupção à bruta no meu ser, de ganhar a pouco
segura vantagem de Deus». A fé dos homens tem contornos inimagináveis.
Minhas filhas, a nós, que estamos vivos, não
resta senão respeitar a decisão de quem quer morrer, aceitando que por detrás
da mesma pouco ou nada nos é dado compreender. Ridículo seria reduzir a «manifesto
de coerência» a depressão, a doença mental, a raiva, a fúria, o desespero, o
desejo, a fuga ao sofrimento, o acidente, a honra, a vergonha, o amor, a
frustração, que de tantas e de tão variadas formas podem impelir alguém ao
precipício da morte. Há quem se mate por paixão, há quem se mate por vazio. Yves
Le Bonniec e Claude Guillon encararam o suicídio como uma arma para denunciar
misérias, enquanto Marx interpretou-o como resultado de uma opressão social assassina.
Durkheim estudou-o do ponto de vista sociológico, Hume abordou-o a partir do
prisma da culpabilidade moral, Camus dedicou-lhe algumas das suas melhores
páginas, mas poucos como René Crevel terão sabido expressá-lo no que tem de
essencial e individualmente humano. Por humano entendo frágil. Talvez André
Gorz, com o seu exemplo, tenha conseguido expressá-lo de modo igualmente
esclarecedor.
É deste último que pretendo falar-vos.
Sabeis da admiração que tenho pela sua carta derradeira, dirigida ao amor da
sua vida, a actriz Doreen Keir. Casaram em 1949, tiveram uma vida rica e feliz:
«Há cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca». Consolidaram
o amor discutindo o mundo, cúmplices numa guerra contra os males que o ameaçam.
As viagens e as percepções divergentes estimularam-lhes um pensamento que só resulta
inteiro quando não está só, quando evolui do confronto de ideias e recusa o
autismo castrador da opinião sem contraditório. A tristeza bateu à porta pela
visita da doença. Aracnoidite, cancro do endométrio. «Cada um escutava a
respiração do outro», até terem ambos deixado de respirar em conjunto num dia
de Setembro de 2007. Foram encontrados dois dias depois, deitados um ao lado do
outro, com as palavras de André ressumando razões: «Não me posso imaginar a
continuar a escrever se tu já não estiveres». É mais comum do que se julga,
esta impossibilidade gerada pela ausência.
Crevel era uma criança quando viu o pai
pendurado pelo pescoço, razão pela qual fez do suicídio uma obsessão «como a
melhor e a pior garantia contra o suicídio». Palavras do próprio. Gorz
encarou-o como uma espécie de eutanásia, partindo com a sua companheira por não
aguentar mais viver no sofrimento da perda acelerada pela doença. Semelhantes são
os casos de Arthur Koestler e Heinrich von Kleist. Gilles Deleuze decidiu tratar
do cancro nos pulmões pondo fim à vida, Camilo estava cego. Emilio Salgari não
aguentou a loucura da mulher e a miséria em que vivia. O suicídio entre os mais
jovens é muitas vezes acompanhado de diagnósticos de depressão, esquizofrenia,
transtornos vários, existências excessivas, autodestrutivas, consumo de drogas,
descompensações. Até que ponto temos mão nas doenças que nos assaltam? O
ambiente social, a pressão, fazem estragos, estejamos a falar de artistas ou de
taberneiros. Conheci dois que se enforcaram, nenhum deles escrevia poemas.
Isto para dizer que se «o poeta que se mata
cumpre-se», resta saber se o poeta que fica por se matar não se cumpre. Fernando Pessoa cumpriu-se? Herberto
Helder cumpriu-se? E o que será isso de um poeta se cumprir? Uma vida cumpre-se
entre a concepção e a morte, o poeta não se cumpre senão nos poemas que o fazem
cumprir-se. O suicídio é um poema? Todos os suicidas são poetas? Estará o poeta
português valter hugo mãe, que recentemente assinou o prefácio de um livro da
actual coqueluche do entretenimento televisivo nacional, ciente da incoerência
em que incorre mantendo-se vivo? Diz ele que «escrevem-se poemas para protelar»,
propósito, cremos, do qual não resultarão senão maus poemas. Ao contrário, na
senda de Ruy Belo, creio eu que um artista deve criar como vive, amando,
destruindo-se naquilo que cria, como por fusão nos destruímos naquilo que
amamos. A violência vem da ordem que se altera, não do fim que se impõe.
Minhas filhas, o poema não recusa a vida como a morte o faz, o poema aceita a vida tal como ela é: contraditória, paradoxal, absurda, bela e horrível na mesma proporção. Talvez a falácia surja dessa tendência para substituir deus pela poesia, ou para fazer da poesia um avatar do sagrado, como se tudo não se passasse num corpo, o nosso, que é o princípio e o fim de tudo quanto nos acontece. Não julgueis, minhas queridas, que por dar termo a esse corpo alguém manifesta ou deixa de manifestar poesia. Poético é o acaso de sermos minúsculos grãos de poeira neste vastíssimo universo que, por medo ou necessidade, procuramos reduzir ao significado que atribuímos a nós mesmos e não temos, assim disfarçando a terrível evidência de que tudo não passa de um equívoco. Um mal-entendido, esta importância que nos damos.
sexta-feira, 13 de novembro de 2020
quinta-feira, 12 de novembro de 2020
AUTUMN LEAVES (1958)
Não me recordo de alguma vez lhe haver avistado uma lágrima no rosto, chão de outono atapetado de folhas caídas como lágrimas secas. Até que ponto tal lacuna me instruiu a chorar para dentro, não sei. A certa altura qualquer coisa implodiu, derribando os açudes com o estrondo de um grito não mais suportável. As faces foram fertilizadas pelo choro, as raízes irromperam vigorosas deixando sobre a pele uma sombra de frutos maduros. Claro que preferia não ser sentimental, conter as emoções de acordo com as mais básicas regras da literatura contemporânea, sabotar o sofrimento com um pouco de auto-ironia ou até mesmo certo cinismo. Preferia não ser eu, na esperança de que não fosses tu em mim, eu em ti, os dois empenhados um no outro.
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
UM POEMA DE RITA TABORDA DUARTE
terça-feira, 10 de novembro de 2020
FLEURETTE AFRICAINE (1962)
A meu pai.
O perfume a roupa lavada liberta-se
dos estendais, voluteando no ar até sossegar sobre a terra como um manto de
sementes. O aroma enraíza-se, então, frágil e persistente, obedecendo ao ritmo
das estações que, de ano para ano, nos brindam com papoilas passageiras. Minha
mãe está fechada num quarto de hospital, sonhando sabe-se lá com quê durante as
intermediáveis vinte e quatros horas do dia. Levaram-lhe uma orquídea ao quarto
para que pudesse reconfortar-se com vida contemplando as pétalas, omitindo que,
pouco depois, a flor se despediu do mundo entre sacos de lixo com gaze manchado
de sangue, máscaras cirúrgicas, fraldas. Meu pai está preocupado que ela
não venha a saber de uma flor nova desabrochada no quintal. Talvez seja
africana, aqui trazida pelo vento.
segunda-feira, 9 de novembro de 2020
ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS (1920-2020)
domingo, 8 de novembro de 2020
CLAVICÓRDIO
Tomara que tamanha multidão dê conta de Clavicórdio, compilação de textos dispersos que, a despeito da disparidade no estilo e de algumas deficiências que uma revisão mais atenta ajudaria a corrigir, prenunciam algo de valoroso. Embora nada o indique, alguns destes textos já haviam sido tornados públicos. Pavões, Pequena Arte de Amar e Peixe-Lua foram outrora publicados na revista on-line Enfermaria 6. O último em 2014, os dois primeiros em 2015. Ao conto intitulado Quando o Milho Alto foi atribuída, em 2009, uma menção honrosa no Prémio Literário José Luís Peixoto. Curiosamente é esta narrativa a que mais deixa a desejar, pelo que denota de convencional e porventura iniciático. É um texto que resulta algo isolado no resto do conjunto, o qual nada tem que ver com o tom folclórico e lendário da aldeia onde Armanda olha «o céu à cata de estrelas» (p. 71).
Mais estimulantes são os três textos anteriormente publicados na Enfermaria 6, desde logo por resistirem a qualquer tipo de classificação em matéria de género. São textos onde ficção, poesia e até ensaio se misturam e equilibram, numa prosa escorreita e sensível que permite identificar uma vocação para a erotização do pensamento. A beleza, o amor, os jogos de sedução, o desejo, a relação do humano com a natureza, sugerem meditações breves que têm tanto de introspectivo como de expansivo. Isto é especialmente evidente numa tendência para a reflexão que o texto Pequena Arte de Amar sublinha do seguinte modo: «Penso no desejo como um homem incapacitado contemplando girassóis. Penso no desejo como um homem prostrado na sua cadeira de rodas — um animal mitológico contemplando girassóis» (p. 44). Algumas páginas depois: «Pensava nos dedos ásperos do meu amante, nas varizes da minha mãe, no suor enegrecido pela fuligem das fábricas nas camisas do meu pai. Pensava nos operários de todo o mundo regressando a casa de camioneta ao fim do dia. Pensava no hálito forte deste homem, na verruga no rosto daquela mulher, na fácil e traiçoeira compaixão que se sente às vezes por um desconhecido» (p. 50).
Privilegiando a expressão poética do pensamento, em detrimento da interacção entre personagens, estes textos aproximam-se de uma prosa que não busca no relato de acontecimentos o sentido da sua existência. O pensamento é o acontecimento em si, como no Caderno, Clavicórdio que ofereceu título ao livro e se lê tal como um caderno de apontamentos, exercício quase de tipo automático e psicanalítico que se apropria livremente de material onírico sem preocupações de coerência. Se na página 8 «Já não há nada para amar», a páginas 17 «Ainda estou entre os que amo» (p. 17). Memórias difusas articulam-se com imagens de proveniências diversas, reminiscências cinematográficas, numa espécie de glossolalia que justapõe os planos do sonho e da realidade.
Dos textos coligidos neste pequeno volume de 91 páginas, aqueles que mais me chamaram a atenção foram, contudo, dois onde o sujeito poético (evitarei chamar-lhe narrador por me parecer que não estamos no domínio exclusivo da ficção narrativa) se abre ao outro. Eva e O Nosso Melhor Ouvido colocam em cena personagens marcantes, com características diferenciadoras que apelam a uma construção imagética desafiante. Eva e David, nomes com ressonâncias bíblicas evidentes, têm em comum dois corpos macerados pela realidade. O de Eva, mutilado pela guerra: «Eva tinha perdido a mão esquerda e a perna do mesmo lado, até à raiz da coxa» (p. 51). O de David, sovado por um mundo sem Deus: «Quando pela primeira vez o vi nu o que mais me impressionou foi o estômago. Parecia ter sido sovado até ficar côncavo, colado às costelas. E as mãos, que revelavam o seu peso num corpo tão magro, morenas, contorcidas de veias numa inusitada proximidade com a lua» (p. 83).
Se o primeiro destes dois contos traz à memória O Nervo Ótico, da argentina María Gainza (n. 1975), não só pela contiguidade operada entre o espaço museológico e uma memória deformadora dos acontecimentos, mas também pela ambiguidade gerada entre aquele que narra e o que observa, já a frase inicial de O Nosso Melhor Ouvido enviou-me directamente para Os Passos em Volta, de Herberto Helder (n. 1930 – m. 2015), livro com o qual este Clavicórdio parece suportar algumas afinidades. Não obstante, a Eva de Andreia C. Faria coloca o feminino no centro da reflexão, questionando o que historicamente sobre ele pesa — beleza, gentileza, sedução —,a partir da imagem de um corpo amputado, inspirador como uma Vénus de Milo, do sofrimento, da maldade e da crueldade que são, a par do amor, da amizade, o magma de uma humanidade sujeita à tirania do tempo e em continuada transformação:
sábado, 7 de novembro de 2020
UM SONETO DE JOSÉ EMÍLIO-NELSON
sexta-feira, 6 de novembro de 2020
INDECENTE
Um amigo fez-me chegar por Messenger um daqueles arrotos que o João Miguel Tavares publica no Público convencido de que são crónicas. Não fui ler, já dei para o peditório do João Miguel. De resto, o que a chamada revelava não acrescenta nada à bazófia exibida semanalmente no Governo Sombra. A tese agora é que não há diferenças substanciais entre o que defendem Chega e BE ou PCP. São todos igualmente perigosíssimos. Isto podia não merecer comentário, mas não podemos esquecer o convite que Marcelo (cada vez mais senil) fez a este palerma para discursar no dia de Camões. A coisa até saiu em livro, para desgraça da literatura em geral e de algumas árvores em particular. Quando assistimos à celebração generalizada do afastamento do trampa, quando aguardamos ansiosamente por outras descargas de autoclismo a bem da higiene mental dos povos e de uma réstia de decência no debate político, vem este tonteco com tais comparações. É mais um da direita portuguesa que faz questão de não perceber nada, de assobiar para o lado, varrer para debaixo do tapete. Vão todos ficar com os pés a cheirar a merda queixando-se de quem leva os cães a passear. Decência, bastaria esta palavra para que o João Távarrres não metesse tudo no mesmo saco confundindo alhos com bugalhos. Meter tudo no mesmo saco é o primeiro passo para que a escumalha se fortaleça. É claro que quando o mal estiver feito os "genuinamente liberais" deste mundo vão dizer que não foi nada com eles. Pois claro, como pode ser amigo do ambiente quem nunca fez a separação do lixo? Eu faço. Por exemplo, não meto no mesmo saco o Chega e a IL. É uma questão de decência, higiene mental, profilaxia que o palermóide do Governo Sombra parece estar interessado em negligenciar. Não viria mal ao mundo, não fosse o palco que lhe dão.
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
PALADAR
sou o último nome
esboçado a lápis na tua agenda.
masturbar a tua ausência,
escolher um pesadelo
e adormecer.
quando no coração houver
ferrugem.
o paladar da época:
sangue e metal.
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
ROMANCE INTERROMPIDO
terça-feira, 3 de novembro de 2020
POETAS-VELHAS
A abjecção promovida por condições sócio-políticas será a única a explicar a vagabundagem do poeta? Sabemos que não. Artaud fugiu espavorido da democracia francesa dos anos trinta, Mayakovsky suicidou-se em plena gesta do comunismo russo. A estes dificilmente se poderá contar o conto do abjeccionismo nos termos em que, sempre ao contrário do surrealismo, faz ditosa carreira em Portugal. Precisamente: entre os «abjeccionistas» portugueses ninguém abandona o local de trabalho, ninguém descura mostrar ao vizinho o abjecto comum, ninguém mata, ninguém se mata, ninguém enlouquece entre os taraumaras. «São poetas-velhas, homens velhos dum mundo que se esfacela e se degrada».
Mário Cesariny, in Jornal do Gato - Contribuição ao saneamento do livro pacheco versus cesariny edição pirata da editorial estampa colecção direcções velhíssimas, Editado por Raul Vitorino Rodrigues, 1974, pp. 20-21.
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
STRANGE FRUIT (1939)
Talvez devêssemos dar o nome de jardineiro àquele que abre a cova onde a nossa carne desaparecerá para sempre, deixando desamparados os ossos com que um dia fomos gente. Imagino árvores frondosas crescendo dos ossos como de uma semente brota o fruto, os vivos a regarem os mortos esperando que da terra irrompam raízes de memórias fortificantes. Fazemos tudo ao contrário quando estamos acordados. A dormir é que os relógios do mundo se acertam e os sonhos corrigem desencantos. Talvez devêssemos chamar coveiro ao jardineiro que se agarra ao cabo da enxada cantando, como naquela peça de Shakespeare muito anterior à invenção dos microfones.
domingo, 1 de novembro de 2020
HAMLET
sábado, 31 de outubro de 2020
TÉDIO
O PM foi claro. Fastidiosamente claro e objectivo. O que chamar aos jornalistas que falam em confusão? Serão burros? Asnos? Ou estarão interessados em confundir? Subitamente, parece que voltei a estar numa reunião de professores. Todos a discordarem uns dos outros dizendo as mesmíssimas coisas. Que tédio.
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
MUNDO DA TRETA
Se os negacionistas são uma espécie esquisita, os que acreditam em tudo não o são menos. Tenho-me lembrado de alguns posts do Pedro Mexia sobre leitores que acreditavam em tudo quanto ele publicava nos weblogs, como se aquele registo de desabafos quotidianos fosse um confessionário. Eram posts divertidos. O fenómeno das fake news veio tornar tudo menos divertido. A verdade é que os incrédulos são meia dúzia de tontos, perfeitamente identificados, cuja capacidade de influenciar comportamentos é diminuta, mas os crédulos sem espírito crítico são em maior número e, sem dúvida, mais perigosos. Este mundo da treta é deles. Onde pretendo chegar? Aqui: desconfiem, estudem. E sejam humildes em matéria de conhecimento. Há sempre algo que nos escapa.
JURAMENTO DE HIPÓCRITAS
Então como estamos de Fórmula 1? A JSD foi colar
cartazes? O Ferrão pronunciou-se? A SIC fez 1001 reportagens com 1002
indignados? E como estamos em matéria de ondas gigantes na Nazaré? Marcelo quis
planos de contingência tornados públicos? É só para saber.
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
A QUEM PERTENCE A LINHA DO HORIZONTE?
como é?
Ser peixe e abelha
como é?
E como é
ser homem?
EM RESUMO
A minha verdade é simples. Em morrendo, lamentaria apenas, se é que um morto pode lamentar alguma coisa, os livros que queria ler e não li, as viagens que não fiz e devia ter feito, o concerto do Tom Waits a que não assisti. O resto é resto.












