domingo, 15 de novembro de 2020

FESTA DE NATAL

Um país que é um circo, com um palhaço na presidência da República, um equilibrista como primeiro-ministro, uma comunicação social reduzida à condição de caniches amestrados, uma oposição de ilusionistas. Não há paciência para este circo, é uma tristeza assistir, de dia para dia, ao afundar da democracia. Ontem, ao passar os olhos pelo telejornal da SIC, lá veio a bucha do congresso do PCP. Será a Festa do Avante de Inverno, preparem-se. Está tudo encenado para a nova retórica dos favorecimentos, uma narrativa que só favorece, publicita e propagandeia os grunhidos daqueles que ainda ontem, em pleno Rossio, entre "caralhadas" diversas, falavam de uma "pseudo-pandemia ó qu' é". Tudo isto é muito triste, perceber que quem mais tem o dever de defender a democracia é quem está menos preparado para o fazer. Do berço dado por Passos Coelho ao discurso xenófobo até à coligação açoriana recentemente subscrita pelos paladinos do liberalismo, passando pela contabilidade de vergonhas na AR, é uma passadeira estendida à passagem de um Portugal burgesso como há muito não se via.

sábado, 14 de novembro de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #30

Não nos queixemos do tempo que faz, minhas filhas, e afastemos de uma vez por todas o tempo que é, nem que para tal nos vejamos compelidos a mastigar em solidão as nossas próprias dores. Há uma alegria no mundo que lhe traz mistério, é a da fonte no meio do deserto, uma nuvem com a forma de um animal, o gesto de abraçar alguém e dizer-lhe: estou contigo. A par desta alegria há uma tristeza que parece infinita porque é natural nos homens ampliar o sofrimento. Reparai como é tão mais fácil chegar a um coração pela tragédia quão difícil se torna sensibilizá-lo pelo gozo de viver. O riso envergonha-nos, as lágrimas seduzem-nos, e, no entanto, a sensação de que tudo é uma comédia persiste.

   Há uns anos, como sabeis, dediquei um livro aos que se matam. Confesso-vos que nunca me interessou o porquê de se matarem, pelo menos nunca me interessou tanto quanto continua a interessar-me o porquê de não se matarem outros. Será o suplício de nos mantermos vivos menos poético do que a decisão de nos termos mortos? Quantos serão os modos de se estar morto em vida? O que para mim sempre esteve em causa resumiu-o Ruy Belo: «Suicido-me nas palavras. (…) Ao escrever, mato-me e mato». Ninguém percebe as forças que animam tal decisão, muito menos a percepção anterior à de que tudo é em vão. Ainda assim, a gente mata-se a escrever como quem se mata a esgaravatar no deserto esperando que à superfície surja água com que saciar a sede.

   O meu desprezo é, sempre foi, pela exibição da tristeza, pelo exibicionismo da melancolia, pela sublimação da morte quando, vai-se a ver, e a vida gira como um carrossel grotesco de hipócritas lambuzando-se em algodão doce. Este mundo, minhas filhas, está atolado de pierrots a plagiarem meninos da lágrima. Daí que na introdução a um livro anterior aos meus suicidados eu haja proposto a esses pierrots que se matassem, abdicassem ou se dedicassem à criação de galinhas em vez de perderem tempo a cacarejar desesperos e desassossegos de pacotilha. «O poeta é um ser condenado»? Sim, mas não menos que um ladrilhador ou a dona Ilda das limpezas.

   Tão distintas são as razões que levam alguém a pôr termo à vida que considerar o suicídio «o manifesto de coerência do poeta» só pode significar uma de duas coisas: ou nada se percebe da vida ou nada se entende de poesia. Terá Thomas Chatterton pretendido matar-se, aos 17 anos, para manifestar uma putativa coerência que o Nobel Yasunari Kawabata só vislumbrou aos 72? O que haverá de comum entre o suicídio de Antonin Artaud e a desesperança de Antero de Quental? Acerca do tema, de resto, escreveu o primeiro:  «A matar-me não será no intuito de destruir-me, mas sim para me reconstituir, o suicídio será para mim unicamente um meio de me reconquistar pela violência, de fazer uma irrupção à bruta no meu ser, de ganhar a pouco segura vantagem de Deus». A fé dos homens tem contornos inimagináveis.

   Minhas filhas, a nós, que estamos vivos, não resta senão respeitar a decisão de quem quer morrer, aceitando que por detrás da mesma pouco ou nada nos é dado compreender. Ridículo seria reduzir a «manifesto de coerência» a depressão, a doença mental, a raiva, a fúria, o desespero, o desejo, a fuga ao sofrimento, o acidente, a honra, a vergonha, o amor, a frustração, que de tantas e de tão variadas formas podem impelir alguém ao precipício da morte. Há quem se mate por paixão, há quem se mate por vazio. Yves Le Bonniec e Claude Guillon encararam o suicídio como uma arma para denunciar misérias, enquanto Marx interpretou-o como resultado de uma opressão social assassina. Durkheim estudou-o do ponto de vista sociológico, Hume abordou-o a partir do prisma da culpabilidade moral, Camus dedicou-lhe algumas das suas melhores páginas, mas poucos como René Crevel terão sabido expressá-lo no que tem de essencial e individualmente humano. Por humano entendo frágil. Talvez André Gorz, com o seu exemplo, tenha conseguido expressá-lo de modo igualmente esclarecedor.

   É deste último que pretendo falar-vos. Sabeis da admiração que tenho pela sua carta derradeira, dirigida ao amor da sua vida, a actriz Doreen Keir. Casaram em 1949, tiveram uma vida rica e feliz: «Há cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca». Consolidaram o amor discutindo o mundo, cúmplices numa guerra contra os males que o ameaçam. As viagens e as percepções divergentes estimularam-lhes um pensamento que só resulta inteiro quando não está só, quando evolui do confronto de ideias e recusa o autismo castrador da opinião sem contraditório. A tristeza bateu à porta pela visita da doença. Aracnoidite, cancro do endométrio. «Cada um escutava a respiração do outro», até terem ambos deixado de respirar em conjunto num dia de Setembro de 2007. Foram encontrados dois dias depois, deitados um ao lado do outro, com as palavras de André ressumando razões: «Não me posso imaginar a continuar a escrever se tu já não estiveres». É mais comum do que se julga, esta impossibilidade gerada pela ausência.

  Crevel era uma criança quando viu o pai pendurado pelo pescoço, razão pela qual fez do suicídio uma obsessão «como a melhor e a pior garantia contra o suicídio». Palavras do próprio. Gorz encarou-o como uma espécie de eutanásia, partindo com a sua companheira por não aguentar mais viver no sofrimento da perda acelerada pela doença. Semelhantes são os casos de Arthur Koestler e Heinrich von Kleist. Gilles Deleuze decidiu tratar do cancro nos pulmões pondo fim à vida, Camilo estava cego. Emilio Salgari não aguentou a loucura da mulher e a miséria em que vivia. O suicídio entre os mais jovens é muitas vezes acompanhado de diagnósticos de depressão, esquizofrenia, transtornos vários, existências excessivas, autodestrutivas, consumo de drogas, descompensações. Até que ponto temos mão nas doenças que nos assaltam? O ambiente social, a pressão, fazem estragos, estejamos a falar de artistas ou de taberneiros. Conheci dois que se enforcaram, nenhum deles escrevia poemas.

   Isto para dizer que se «o poeta que se mata cumpre-se», resta saber se o poeta que fica por se matar não se cumpre. Fernando Pessoa cumpriu-se? Herberto Helder cumpriu-se? E o que será isso de um poeta se cumprir? Uma vida cumpre-se entre a concepção e a morte, o poeta não se cumpre senão nos poemas que o fazem cumprir-se. O suicídio é um poema? Todos os suicidas são poetas? Estará o poeta português valter hugo mãe, que recentemente assinou o prefácio de um livro da actual coqueluche do entretenimento televisivo nacional, ciente da incoerência em que incorre mantendo-se vivo? Diz ele que «escrevem-se poemas para protelar», propósito, cremos, do qual não resultarão senão maus poemas. Ao contrário, na senda de Ruy Belo, creio eu que um artista deve criar como vive, amando, destruindo-se naquilo que cria, como por fusão nos destruímos naquilo que amamos. A violência vem da ordem que se altera, não do fim que se impõe.

   Minhas filhas, o poema não recusa a vida como a morte o faz, o poema aceita a vida tal como ela é: contraditória, paradoxal, absurda, bela e horrível na mesma proporção. Talvez a falácia surja dessa tendência para substituir deus pela poesia, ou para fazer da poesia um avatar do sagrado, como se tudo não se passasse num corpo, o nosso, que é o princípio e o fim de tudo quanto nos acontece. Não julgueis, minhas queridas, que por dar termo a esse corpo alguém manifesta ou deixa de manifestar poesia. Poético é o acaso de sermos minúsculos grãos de poeira neste vastíssimo universo que, por medo ou necessidade, procuramos reduzir ao significado que atribuímos a nós mesmos e não temos, assim disfarçando a terrível evidência de que tudo não passa de um equívoco. Um mal-entendido, esta importância que nos damos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

CREMATÓRIO

 Quitéria propõe um campo de extermínio para livros com a palavra Auschwitz no título.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

AUTUMN LEAVES (1958)

 


Não me recordo de alguma vez lhe haver avistado uma lágrima no rosto, chão de outono atapetado de folhas caídas como lágrimas secas. Até que ponto tal lacuna me instruiu a chorar para dentro, não sei. A certa altura qualquer coisa implodiu, derribando os açudes com o estrondo de um grito não mais suportável. As faces foram fertilizadas pelo choro, as raízes irromperam vigorosas deixando sobre a pele uma sombra de frutos maduros. Claro que preferia não ser sentimental, conter as emoções de acordo com as mais básicas regras da literatura contemporânea, sabotar o sofrimento com um pouco de auto-ironia ou até mesmo certo cinismo. Preferia não ser eu, na esperança de que não fosses tu em mim, eu em ti, os dois empenhados um no outro.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

UM POEMA DE RITA TABORDA DUARTE


 

AGRICULTURA

Sempre se estranha   a agricultura   na cidade

trabalho árduo   pertence às velhas           :
de um negro oculto   pelo cedo vizinho
                                                   da manhã.
semeiam milho
mais sementes esboroadas  ;
pão                      e               broa
pousam por terra
na herança estreita e última
entre as inférteis pedras do calcário.

na tarde regada a sombra e sol
nascem pombos   arvorados
roucos no bico
   ...penas nas asas.



Rita Taborda Duarte, in Poética Breve, Black Sun Editores, Julho de 1998, p. 24

terça-feira, 10 de novembro de 2020

FLEURETTE AFRICAINE (1962)


 

A meu pai.

 

O perfume a roupa lavada liberta-se dos estendais, voluteando no ar até sossegar sobre a terra como um manto de sementes. O aroma enraíza-se, então, frágil e persistente, obedecendo ao ritmo das estações que, de ano para ano, nos brindam com papoilas passageiras. Minha mãe está fechada num quarto de hospital, sonhando sabe-se lá com quê durante as intermediáveis vinte e quatros horas do dia. Levaram-lhe uma orquídea ao quarto para que pudesse reconfortar-se com vida contemplando as pétalas, omitindo que, pouco depois, a flor se despediu do mundo entre sacos de lixo com gaze manchado de sangue, máscaras cirúrgicas, fraldas. Meu pai está preocupado que ela não venha a saber de uma flor nova desabrochada no quintal. Talvez seja africana, aqui trazida pelo vento.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS (1920-2020)


O Questionário de Proust

O principal atributo do seu carácter?
A ingenuidade, mantida a todo o custo.

Que qualidades mais aprecia no homem?
A inteligência e a sensibilidade, que o conduzirão à Liberdade.

Que qualidades prefere na mulher?
Que seja boa mãe, sendo inteligente, sensível e livre.

Que mais valoriza nos amigos?
Que sejam de facto amigos; entre amigos deve haver lealdade e não hipocrisia.

O seu principal defeito?
Não ser facilmente sociável.

A sua ocupação favorita?
Olhar; é pelos olhos que quasi tudo penetra em mim.

O seu sonho de felicidade?
Acabar com as guerras, como algumas a que tenho assistido, que afinal não justificam os sacrifícios humanos.

Qual seria a sua maior infelicidade?
Que o mundo não saísse rapidamente deste terrível impasse.

Quem gostaria de ter sido?
Não invejo ninguém, e vivo apaixonadamente.

Onde gostaria de viver?
Num sítio isolado junto ao mar.

Que cor prefere?
Todas, puras e impuras.

A sua flor preferida?
As flores do campo.

O seu pássaro preferido?
Todos.

Os seus prosadores favoritos?
No espaço deste questionário prefiro Dostoievski, e o nosso Camilo Castelo Branco.

Os seus poetas favoritos?
No espaço deste questionário apenas refiro Rimbaud, Lautréamont, Cesário Verde, Mário Cesariny, Herberto Helder...

Os seus heróis da ficção?

As suas heroínas da ficção?

Os seus compositores favoritos?
Bach.

Os pintores?
Muito resumidamente, Piero Della Francesca, Grunewald, Bosch, Patinir, Blake, Goya, Cesanne, Kandinsky, Simbolistas, Picasso, Miró, Amadeu de Souza Cardoso, António Quadros, Mário Eloy, etc.

Os heróis da vida real?
Os loucos que não sejam fingidos.

As heroínas da história?

Quais os seus nomes favoritos?
António, João, Victor, Manuel...

A sua aversão de estimação?
A cobardia perante a vida, o calculista, a ânsia do dinheiro.

Acontecimentos históricos que mais o desagradam?
As escravaturas que ainda existem.

O dom da natureza que mais gostaria de ter?
Voar, e ter a força suficiente para levar comigo mais alguém.

Como gostaria de morrer?
Diluído na atmosfera.

Qual o seu actual estado de espírito?
A desejar e temer a morte.

Que falhas lhe inspiram maior tolerância?
A ignorância, que pode ser uma forma de saber.

A sua divisa?
Liberdade para todos.


In Apeadeiro, revista de atitudes literárias, números 4 e 5, Inverno de 2004, direcção de valter hugo mãe e Jorge Reis-Sá, Quasi Edições, Janeiro de 2004, pp. 57-61. No mesmo dossier constam conteúdos diversos, entre os quais uma entrevista por Maria Augusta Silva. A dado momento, isto:

Enquanto artista, sente-se maltratado pelo seu país?
Imenso. Neste país é preciso andar atrás dos ministros e isso não faço; é preciso darmo-nos com gente importante e não me dou nem a procuro, e muito menos políticos. Ao longo da vida conheci pessoas importantes, algumas amáveis, com quem tive ou tenho uma relação civilizada.

Marginalizado?
De certo modo, mas nem será por mal. Um elefante põe a pata em cima de uma formiga e nem sabe que está a pisar a formiga.

É na página 26.


domingo, 8 de novembro de 2020

CLAVICÓRDIO

Clavicórdio (Língua Morta, Fevereiro de 2020) é o primeiro livro em prosa de Andreia C. Faria (n. 1984), poeta que viu a reunião da sua obra ser distinguida com o Prémio Literário Fundação Inês de Castro em 2019. Por reunião da obra entendam-se quatro livros publicados entre 2008 e 2017. Não se estranhe que em tão pouco tempo alguém vislumbre razões que justifiquem a reunião de “uma obra”, já que vem tornando-se habitual este tipo de prática no maior grupo editorial português. Depois de, em 2010, ter vaticinado dez anos de vida à publicação de poesia, Vasco Teixeira, da Porto Editora, não só meteu ao bolso a Assírio & Alvim, como expôs Herberto Helder ao lado de Sveva Casati Modignani e recrutou uma das estrelas da casa para arquitectar uma colecção de poesia. Túmulos de lázaros agónicos, as pequenas editoras assistem, assim, a uma elevação dos seus autores ao reino dos céus, a bem de, à beira do Senhor, estes conseguirem mais leitores. É esta a conversa, chegar a mais leitores.
   Tomara que tamanha multidão dê conta de Clavicórdio, compilação de textos dispersos que, a despeito da disparidade no estilo e de algumas deficiências que uma revisão mais atenta ajudaria a corrigir, prenunciam algo de valoroso. Embora nada o indique, alguns destes textos já haviam sido tornados públicos. Pavões, Pequena Arte de Amar e Peixe-Lua foram outrora publicados na revista on-line Enfermaria 6. O último em 2014, os dois primeiros em 2015. Ao conto intitulado Quando o Milho Alto foi atribuída, em 2009, uma menção honrosa no Prémio Literário José Luís Peixoto. Curiosamente é esta narrativa a que mais deixa a desejar, pelo que denota de convencional e porventura iniciático. É um texto que resulta algo isolado no resto do conjunto, o qual nada tem que ver com o tom folclórico e lendário da aldeia onde Armanda olha «o céu à cata de estrelas» (p. 71).
   Mais estimulantes são os três textos anteriormente publicados na Enfermaria 6, desde logo por resistirem a qualquer tipo de classificação em matéria de género. São textos onde ficção, poesia e até ensaio se misturam e equilibram, numa prosa escorreita e sensível que permite identificar uma vocação para a erotização do pensamento. A beleza, o amor, os jogos de sedução, o desejo, a relação do humano com a natureza, sugerem meditações breves que têm tanto de introspectivo como de expansivo. Isto é especialmente evidente numa tendência para a reflexão que o texto Pequena Arte de Amar sublinha do seguinte modo: «Penso no desejo como um homem incapacitado contemplando girassóis. Penso no desejo como um homem prostrado na sua cadeira de rodas um animal mitológico contemplando girassóis» (p. 44). Algumas páginas depois: «Pensava nos dedos ásperos do meu amante, nas varizes da minha mãe, no suor enegrecido pela fuligem das fábricas nas camisas do meu pai. Pensava nos operários de todo o mundo regressando a casa de camioneta ao fim do dia. Pensava no hálito forte deste homem, na verruga no rosto daquela mulher, na fácil e traiçoeira compaixão que se sente às vezes por um desconhecido» (p. 50).
   Privilegiando a expressão poética do pensamento, em detrimento da interacção entre personagens, estes textos aproximam-se de uma prosa que não busca no relato de acontecimentos o sentido da sua existência. O pensamento é o acontecimento em si, como no Caderno, Clavicórdio que ofereceu título ao livro e se lê tal como um caderno de apontamentos, exercício quase de tipo automático e psicanalítico que se apropria livremente de material onírico sem preocupações de coerência. Se na página 8 «Já não há nada para amar», a páginas 17 «Ainda estou entre os que amo» (p. 17). Memórias difusas articulam-se com imagens de proveniências diversas, reminiscências cinematográficas, numa espécie de glossolalia que justapõe os planos do sonho e da realidade.
   Dos textos coligidos neste pequeno volume de 91 páginas, aqueles que mais me chamaram a atenção foram, contudo, dois onde o sujeito poético (evitarei chamar-lhe narrador por me parecer que não estamos no domínio exclusivo da ficção narrativa) se abre ao outro. Eva e O Nosso Melhor Ouvido colocam em cena personagens marcantes, com características diferenciadoras que apelam a uma construção imagética desafiante. Eva e David, nomes com ressonâncias bíblicas evidentes, têm em comum dois corpos macerados pela realidade. O de Eva, mutilado pela guerra: «Eva tinha perdido a mão esquerda e a perna do mesmo lado, até à raiz da coxa» (p. 51). O de David, sovado por um mundo sem Deus: «Quando pela primeira vez o vi nu o que mais me impressionou foi o estômago. Parecia ter sido sovado até ficar côncavo, colado às costelas. E as mãos, que revelavam o seu peso num corpo tão magro, morenas, contorcidas de veias numa inusitada proximidade com a lua» (p. 83).
   Se o primeiro destes dois contos traz à memória O Nervo Ótico, da argentina María Gainza (n. 1975), não só pela contiguidade operada entre o espaço museológico e uma memória deformadora dos acontecimentos, mas também pela ambiguidade gerada entre aquele que narra e o que observa, já a frase inicial de O Nosso Melhor Ouvido enviou-me directamente para Os Passos em Volta, de Herberto Helder (n. 1930 – m. 2015), livro com o qual este Clavicórdio parece suportar algumas afinidades. Não obstante, a Eva de Andreia C. Faria coloca o feminino no centro da reflexão, questionando o que historicamente sobre ele pesa beleza, gentileza, sedução —,a partir da imagem de um corpo amputado, inspirador como uma Vénus de Milo, do sofrimento, da maldade e da crueldade que são, a par do amor, da amizade, o magma de uma humanidade sujeita à tirania do tempo e em continuada transformação:  
 
«Deve-se saber sofrer sem resignação, mas também sem revolta, era o que dizia a mim mesma. Também sem espanto. Sofrer como se o sofrimento não se me dirigisse. E, no entanto, a quem mais poderia estar ele destinado, o meu sofrimento? Eu não sofria por amor do mundo. Não encontrava na empatia o bem electrizante, a hipótese de subversão dentro do mal. Mas agora Eva é o amor do mundo. Ela é todo o sofrimento e a sua recusa. É a beleza de tudo o que é cruel. O deleite perante a injustiça. Não perdeu o interesse pela vida, Eva.»

sábado, 7 de novembro de 2020

UM SONETO DE JOSÉ EMÍLIO-NELSON

 


SONETO VII

Da esquina das avenidas, nas tintas,
A escumalha e as raparigas esfumadas.
Os cães, dia de raça, empilham-se nas latas
E derrubam as tralhas enlameadas, indigentes.

Estrambólicos, cadáveres com saia curta, praguejam
Aos peões que cruzam a berma, fatigados,
E lhes deitam a vianda rosada, denteada.
E ainda assim os tilintam, moedeiros falsos.

Saúdo os que vigiam, à paisana, esfalfados,
E nos garantem a bonança, céu lilás, a forçá-los,
E os varrem para escoadouro das águas.

Infectam a cidade com as serapilheiras.
Por isso dêem-lhes, na doçura do clima,
Um chafariz camarário de creolina.


José Emílio-Nelson, in Sonetos Glaucos, Debout Sur l'Oeuf, Agosto de 2020, p. 11.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

INDECENTE

Um amigo fez-me chegar por Messenger um daqueles arrotos que o João Miguel Tavares publica no Público convencido de que são crónicas. Não fui ler, já dei para o peditório do João Miguel. De resto, o que a chamada revelava não acrescenta nada à bazófia exibida semanalmente no Governo Sombra. A tese agora é que não há diferenças substanciais entre o que defendem Chega e BE ou PCP. São todos igualmente perigosíssimos. Isto podia não merecer comentário, mas não podemos esquecer o convite que Marcelo (cada vez mais senil) fez a este palerma para discursar no dia de Camões. A coisa até saiu em livro, para desgraça da literatura em geral e de algumas árvores em particular. Quando assistimos à celebração generalizada do afastamento do trampa, quando aguardamos ansiosamente por outras descargas de autoclismo a bem da higiene mental dos povos e de uma réstia de decência no debate político, vem este tonteco com tais comparações. É mais um da direita portuguesa que faz questão de não perceber nada, de assobiar para o lado, varrer para debaixo do tapete. Vão todos ficar com os pés a cheirar a merda queixando-se de quem leva os cães a passear. Decência, bastaria esta palavra para que o João Távarrres não metesse tudo no mesmo saco confundindo alhos com bugalhos. Meter tudo no mesmo saco é o primeiro passo para que a escumalha se fortaleça. É claro que quando o mal estiver feito os "genuinamente liberais" deste mundo vão dizer que não foi nada com eles. Pois claro, como pode ser amigo do ambiente quem nunca fez a separação do lixo? Eu faço. Por exemplo, não meto no mesmo saco o Chega e a IL. É uma questão de decência, higiene mental, profilaxia que o palermóide do Governo Sombra parece estar interessado em negligenciar. Não viria mal ao mundo, não fosse o palco que lhe dão.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

PALADAR

 


 
I
 
Estás indisponível,
sou o último nome
esboçado a lápis na tua agenda.

 
II
 
Abrir o sexo,
masturbar a tua ausência,
escolher um pesadelo
e adormecer.

 
III
 
Procurar-me-ás no outono
quando no coração houver
ferrugem.
 
No texto,
o paladar da época:
sangue e metal.

 
 
Nuno F. Silva (n. 1993), in Epilepsy Dance (DSO, Agosto de 2020). Publicou o primeiro livro, Flor de espinhos, com apenas 18 anos, mantendo uma inusitada regularidade desde então. Epilepsy Dance, na editora Debout Sur l’Oeuf, é o mais recente de 7 livros editados. Nos poemas deste livro a melancolia é um substância maligna que circula no sangue e corrói o corpo, diferente do estatuto de estado de alma mais ou menos momentâneo que geralmente encontramos na poesia de inclinação elegíaca. Uma pontuação desconexa acompanha os ritmos de um corpo em estado de dança epiléptica, evocação do modo de estar em palco de Ian Curtis, malogrado vocalista da banda britânica Joy Division. A morte e o suicídio são temas transversais, a par da solidão e de um erotismo sombrio mais evidente na segunda parte do livro. Hóspede Ausente e O Canibal de Memórias são dois conjuntos de poemas que se interligam, precisamente, por uma sensação de mal-estar que, ao invés do que é habitual, parte de uma noção de “corpo avariado” para a alma e não desta para aquele.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

ROMANCE INTERROMPIDO


 

Ao Manuel Ferreira
e ao Alexandre Cabral

Lá fora,
para além das grades que cerram os olhos dos sitiados,
a vida não pára de oferecer o amanhã dos dias futuros
e o progresso irrompe das próprias injustiças.
Pombas brancas, azuis, cinzentas, negras,
pombas de todas as cores,
constroem seus ninhos nos telhados
e transmitem aos homens mensagens de Paz,
num esvoaçar de esperanças...
Lá fora,
as tempestades agitam o Mundo;
o sangue dos mutilados mistura-se nas águas dos rios:
os corações despertam para a longa caminhada.
Eh!... vagabundos de todos os caminhos:
acordai!
A noite terminou. Desponta a madrugada.
Vinde!
Não fiqueis fechados
nos destroços disfarçados
da curva da estrada. 

Domingos Carvalho, in Charneca do Monte Agreste, capa e vinhetas de Figueiredo Sobral, Edição da Empresa de Publicidade «Seara Nova», Março de 1959, pp. 58-59.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

POETAS-VELHAS


 

A abjecção promovida por condições sócio-políticas será a única a explicar a vagabundagem do poeta? Sabemos que não. Artaud fugiu espavorido da democracia francesa dos anos trinta, Mayakovsky suicidou-se em plena gesta do comunismo russo. A estes dificilmente se poderá contar o conto do abjeccionismo nos termos em que, sempre ao contrário do surrealismo, faz ditosa carreira em Portugal. Precisamente: entre os «abjeccionistas» portugueses ninguém abandona o local de trabalho, ninguém descura mostrar ao vizinho o abjecto comum, ninguém mata, ninguém se mata, ninguém enlouquece entre os taraumaras. «São poetas-velhas, homens velhos dum mundo que se esfacela e se degrada».


Mário Cesariny, in Jornal do Gato - Contribuição ao saneamento do livro pacheco versus cesariny edição pirata da editorial estampa colecção direcções velhíssimas, Editado por Raul Vitorino Rodrigues, 1974, pp. 20-21.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

STRANGE FRUIT (1939)


 

Talvez devêssemos dar o nome de jardineiro àquele que abre a cova onde a nossa carne desaparecerá para sempre, deixando desamparados os ossos com que um dia fomos gente. Imagino árvores frondosas crescendo dos ossos como de uma semente brota o fruto, os vivos a regarem os mortos esperando que da terra irrompam raízes de memórias fortificantes. Fazemos tudo ao contrário quando estamos acordados. A dormir é que os relógios do mundo se acertam e os sonhos corrigem desencantos. Talvez devêssemos chamar coveiro ao jardineiro que se agarra ao cabo da enxada cantando, como naquela peça de Shakespeare muito anterior à invenção dos microfones.

domingo, 1 de novembro de 2020

HAMLET

 


HAMLET
Ser ou não ser, eis a questão. Qual será o partido mais nobre? Suportar as pedradas e as frechadas da fortuna cruel ou pegar em armas contra um mundo de dores e acabar com elas, resistindo? Morrer, dormir, nada mais; dizer que pelo sono poderemos curar um mal do coração e os mil acidentes naturais a que a nossa carne está sujeita é, na verdade, um desenlace que todos nós fervorosamente podemos desejar. Morrer! dormir; dormir, sonhar talvez? Sim, aqui está o ponto de interrogação; quais são os sonhos que teremos no sono da morte, quando escaparmos a esta tormenta da vida? Isto obriga-nos a reflectir. É tal reflexão que prolonga por tão largo tempo a vida do miserável; quem quereria suportar, na realidade, as chicotadas e os desprezos dos tempos que vão correndo, as injustiças do déspota, as afrontas do orgulhoso, as torturas do amor incompreendido, os vagares da justiça, a indolência dos poderosos, os pontapés que o mérito paciente recebe dos indignos, quando para si mesmo podia alcançar a paz com a simples ponta dum punhal? Quem quereria gemer, suar sob o peso duma vida de canseiras, sem receio de alguma coisa depois da morte, essa região desconhecida de onde nenhum viajante volta? Eis o que embaraça a vontade e nos decide a suportar os males de que sofremos, com medo de irmos encontrar outros que não conhecemos. É assim que a consciência faz cobardes de nós todos; é assim que as cores naturais da nossa resolução mais firme empalidecem perante o frouxo clarão do pensamento doentio e os projectos de grande alcance e de grande importância, graças a esta consideração, mudam de rumo e voltam ao nada da imaginação. Mas... silêncio! Ofélia! Bela Ofélia! Ninfa, lembra-te dos meus pecados nas tuas orações!

OFÉLIA
Meu bom senhor, como passa Vossa Honra? Há quanto tempo não vos vejo!


William Shakespeare, in Hamlet, trad. Dr. Domingos Ramos, MEL Editores, Junho de 2009, p. 120.

sábado, 31 de outubro de 2020

TÉDIO

O PM foi claro. Fastidiosamente claro e objectivo. O que chamar aos jornalistas que falam em confusão? Serão burros? Asnos? Ou estarão interessados em confundir? Subitamente, parece que voltei a estar numa reunião de professores. Todos a discordarem uns dos outros dizendo as mesmíssimas coisas. Que tédio.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

MUNDO DA TRETA

Se os negacionistas são uma espécie esquisita, os que acreditam em tudo não o são menos. Tenho-me lembrado de alguns posts do Pedro Mexia sobre leitores que acreditavam em tudo quanto ele publicava nos weblogs, como se aquele registo de desabafos quotidianos fosse um confessionário. Eram posts divertidos. O fenómeno das fake news veio tornar tudo menos divertido. A verdade é que os incrédulos são meia dúzia de tontos, perfeitamente identificados, cuja capacidade de influenciar comportamentos é diminuta, mas os crédulos sem espírito crítico são em maior número e, sem dúvida, mais perigosos. Este mundo da treta é deles. Onde pretendo chegar? Aqui: desconfiem, estudem. E sejam humildes em matéria de conhecimento. Há sempre algo que nos escapa.

JURAMENTO DE HIPÓCRITAS

Então como estamos de Fórmula 1? A JSD foi colar cartazes? O Ferrão pronunciou-se? A SIC fez 1001 reportagens com 1002 indignados? E como estamos em matéria de ondas gigantes na Nazaré? Marcelo quis planos de contingência tornados públicos? É só para saber.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A QUEM PERTENCE A LINHA DO HORIZONTE?

Não é a primeira vez que o escritor João Pedro Mésseder (n. 1957) e a ilustradora Ana Biscaia (n. 1978) reúnem talentos num mesmo livro. Há seis anos publicaram na editora Xerefé a plaquete Que Luz Estarias a Ler?. Já então o tema de fundo fora o conflito armado em Gaza, a partir da história de uma menino, Aysha, que teria tentado resgatar dentre destroços os livros de uma escola bombardeada. Nada que não estivéssemos habituados a ouvir. Nesse mesmo ano de 2014 os jornais falavam de clima tenso após ataque a uma escola da ONU no norte do enclave, os noticiários referiam a morte de 15 pessoas e 200 feridos após o bombardeamento de uma escola na Faixa de Gaza. Com maior ou menor precisão no relato dos factos, certo é que por cá se tornou vulgar ouvir falar de “mais uma escola bombardeada em Gaza”. As aspas servem para reforçar o tom de banalidade do mal, expressão usada por Hannah Arendt para se referir ao holocausto nazi. Arendt era de origem judaica. Também o filósofo Yeshayahu Leibowitz sentiu, a certa altura da sua vida, o desconforto de ter que conviver com o mal, acusando o exército israelita de ter uma mentalidade “judaico-nazi”. 
   É para nós difícil de imaginar as consequências de nascer e crescer no Estado da Palestina, ou seja, num território sob a permanente ameaça de uma superpotência mundial que, entre outras coisas, considera justo, equilibrado e legítimo bombardear escolas. Lembro-me da violência na música de Meira Asher, outra israelita que não tem poupado esforços na denúncia das atrocidades cometidas pelas autoridades de Israel. O tema mais recente é a greve de fome de Maher Al-Akhras, preso sem acusação nem julgamento desde 27 de Julho. Os números são avassaladores: 4400 presos políticos palestinianos, entre os quais 39 mulheres e 155 menores. Nada que incomode particularmente os arautos dos Direitos Humanos disseminados um pouco por todo o mundo.
   A Quem Pertence a Linha do Horizonte? retoma o tema, ou seja, insiste na sensibilização para um dos mais graves e ancestrais conflitos armados de que temos memória, o qual diariamente, quotidianamente, insistentemente vem à liça pelas consequências do terror numa Europa que insiste em varrer para debaixo do tapete as questões de fundo, a origem do problema. Neste caso, a questão de fundo é o direito a uma pátria. Por esta mesma razão a pergunta elaborada no título deste livro é poeticamente pungente, levando-nos a pensar num espaço para lá da propriedade. É o espaço da humanidade, ou do humanismo, se quisermos ser utópicos como utópica é a linha do horizonte.
   Dos poemas de Mésseder coligidos nesta obra, escritos entre 2002 e 2019, colhemos um olhar sensível a questões complexas, como sejam as do desenraizamento, do desterro provocado pela ocupação e subsequente expropriação da identidade. Mas colhemos também o nojo de certa indolência ocidental, que, como sugere o poema O ecrã, em 2002, vê a guerra servir-se fria à hora de jantar. Como quem assiste a um filme repetido, obviamente.
   O traço grosso dos desenhos de Ana Biscaia acompanha, na sua rudeza de carvão, o negrume dos escombros, das explosões, cinza que resta da ruína em cenário de morte. Desenhos como a fisga da página 19 ou as mãos onde pedras florescem, nas páginas 9, 21, 33 e 34, etc, são, na sua simplicidade, ilustrações eloquentes de um quotidiano de resistência. Pode uma pedra dar em flor como a flor dá em fruto? Símbolo de resistência, é disso que se trata, estas pedras não se esgotam na sua função bélica. Que conseguem elas contra balas disparadas por armas de alta precisão? São, ao mesmo tempo, e na mesma paradoxal realidade, a primeira pedra de um edifício futuro e o que sobra se um edifício em destroços.
   Poemas tais como Memórias, logo a abrir, e Uma menina, quase no fim, inscrevem igualmente este livro da Página a Página num horizonte de esperança para lá da desolação, com um equilíbrio poético difícil de circunscrever a qualquer faixa etária. Deixo um poema minimalista, por assim dizer, ao estilo de outros que já conhecíamos do mesmo autor:
 
Perguntas de zoologia
 
Ser pássaro em Gaza
como é?
Ser peixe e abelha
como é?
E como é
ser homem?

 
Junho, 2017

EM RESUMO

A minha verdade é simples. Em morrendo, lamentaria apenas, se é que um morto pode lamentar alguma coisa, os livros que queria ler e não li, as viagens que não fiz e devia ter feito, o concerto do Tom Waits a que não assisti. O resto é resto.