terça-feira, 18 de maio de 2021

MINOR IMPULSE (1961)

 


A cabeça dividida entre um turista bêbado e um emigrante do Causse. «Ando na minha terra como um estrangeiro», diz o segundo. E não custa dar-lhe corpo, é como se fosse eu a falar. Perdido, exilado, estrangeiro na minha própria terra, na minha própria respiração, desenraizado, a esmo. Já ninguém diz a esmo. O turista é número, gag, enrola palavras, ronca. Penso nos ingleses distribuídos pelas ruas algarvias, nos holandeses aterrados no oeste, como aqueles com quem convivi na adolescência e não deixaram saudades. É claro que preferia fazer de músico de jazz. A ter de representar um papel que não o meu, que me atribuíssem qualquer coisa ao estilo o que gostavas de ter sido se chegasses a ser grande. Gostava de ter sido Ike Quebec, viciado em heroína, morto aos 44 com cancro na língua, era o que gostava de ter sido. Já vivi mais 3 anos do que devia. Em boa verdade, acho que levo 20 de desperdício. Agora não há nada a fazer, o mal está feito, a quebra aos cinco minutos de Don’t Take Your Love From Me, posso entrar pelo palco adentro aos berros, fingir que sou feliz e amado, posso imitar um quadrúpede, andar de quatro, ganir como um cão desesperado, posso arrancar a carne com as unhas e vomitar desespero pelo poros que ninguém dará por isso. Fingir-me sereno, feliz, está tudo bem, não se passa nada. O que é que se passa? Nada. Serei apenas mais um a fazer número na peça ensaiada pelo destino, a sala vazia, luzes baças, projectores desligados, acção imóvel. Ike Quebec e Grant Greene no estúdio a gravarem Blue and Sentimental, eu à escuta, ouvido encostado à parede, do lado de fora, ainda antes de ter nascido. Do lado de fora.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

TERRA NATAL

 


(Mais informações: aqui)

Admito o preconceito, mas certos aspectos na biografia de um autor contribuem para reforçar ou atenuar o interesse gerado pela obra. Seduz-me a tentação de supor uma existência por detrás das palavras, imaginar que são o sangue vertido por um corpo a cicatrizar. Não sinto qualquer desconforto quando o anonimato quebra a corrente, mas como negar o fascínio exercido pelo desvio e pela errância? Já não tenho idade para me deslumbrar com ideias feitas acerca da grande aventura que é estar vivo, sendo-me facilmente perceptível quão misteriosa, angustiante e tremendamente dolorosa pode ser a existência de um gorila no interior de uma jaula. Esta clausura da natureza, o selvagem domesticado, é porventura a mais repisada das formas de viver na contemporaneidade, a qual tem as suas contradições e os seus paradoxos como qualquer outra, mas precisamente por me parecer tão vulgar e nela me encontrar tão imerso é que me espanta quem a contraria aventurando-se no interior de florestas desconhecidas, atravessando o deserto, experimentando adversidades, superando contrariedades, para tombar exausto no cume da montanha acabada de escalar. Ou quedando simplesmente a meio caminho, ainda assim caminhando. Quanto ao tédio e à monotonia do ramerrão doméstico vejo-os como ao desafio colocado a alguém atirado para dentro de um labirinto, convencendo-me de que em muitos casos aquele a quem fosse dado o mérito de encontrar a saída sentir-se-ia tão perdido do lado de fora que desejaria regressar imediatamente ao interior de onde saiu.

Há pormenores na biografia do dramaturgo Daniel Keene (Melbourne, Austrália, 1955) que permitem compreender quanto destas duas dimensões terá contribuído para a arquitectura de uma obra onde vislumbramos tanto o quotidiano trágico da vida doméstica como a errância daquele que parte à aventura. É um autor, como se costuma dizer, que terá passado as passas do Algarve antes de obter reconhecimento. Sabemos que chegou a quase mendigar na Nova Iorque dos anos 80, a dos yuppies capturados pelo grande sonho americano. Familiarizado com os movimentos de contracultura preponderantes no núcleo de resistência à massificação uniformizada do espectáculo, Keene optou por um teatro ao mesmo tempo realista e estranhamente poético no modo como aborda a história. As duas pequenas peças montadas pelo encenador Luís Varela no Teatro da Rainha ajudam-nos a equacionar mais esses mecanismos de aproximação à realidade do que a formular ideias feitas e generalizações sobre a forma como o quotidiano e a experiência vivida se imiscuem na linguagem poética e teatral. Desde logo, são duas peças muito diferentes uma da outra. A Chuva foi escrita como um monólogo, Terra Natal é um encadeamento de sketches fugazes. A primeira desloca-nos para o campo indefinido da memória, a segunda confronta-nos como um reflexo num espelho. O que ambas liga é do domínio da subjectividade, embora possamos encontrar nos dois textos a força de um passado que vem à tona através de memórias e de recordações que são também um questionamento sobre as raízes das personagens.

A Chuva remete-nos para o holocausto nazi, mas fá-lo a partir de um conjunto de alusões e não propriamente de enunciações claras e inequívocas. A velha interpretada pela actriz Isabel Lopes desdobra-se na voz manipulada e na presença física de duas outras actrizes, oferecendo ao discurso a profundidade e o intimismo de uma história enraizada em memórias particulares de um acontecimento universal. Olha-se aqui para a História tendo como ponto de partida uma experiência singular. Onerosas são as memórias que advêm ao rosto de Isabel Lopes e se prolongam nas vozes de Lavínia Moreira e Sara Delgado, elegia pelas vítimas de um extermínio que o tempo parece querer apagar como o faz à matéria transformada em pó ao longo dos anos. É também a esta transformação operada pelo tempo que assistimos, uma transformação projectada do eco fantasmagórico da infância ao rosto envelhecido à boca de cena. Já em Terra Natal este elemento ameaçador do esquecimento surge, precisamente, na personagem igualmente interpretada por Isabel Lopes, uma divertida mas ao mesmo tempo angustiada avó empenhada em transmitir ao neto o conhecimento das suas raízes. É uma peça social, se assim podemos dizê-lo, de forte consciência cívica e com a clara intenção de dar voz aos desafortunados, gente dilacerada pela rotina, pela monotonia, pela tal domesticação do selvagem no início deste texto aludida. A ameaça de desemprego que recai sobre o pai, vigorosa interpretação de Nuno Machado, produz efeitos nefastos no seio de uma família em crise. E essa pode ser uma das temáticas do texto, ou seja, o modo como a vida íntima acaba por ser afectada, condicionada, para não dizer determinada por golpes exteriores, pelo ambiente social e cultural em que o indivíduo se encontra. De sublinhar, porém, que o princípio e o fim da peça estão marcados pelo aniversário do filho adolescente, interpretado por Carlos Batista, o qual se vê no contexto muito mais ambíguo e ambivalente de entrada na vida adulta, até porque nesse contexto repercute a tragédia dos adultos em cena — como se ao vermos o jovem casal estivéssemos a ver o que o pai e a mãe foram, como se ao olharmos para o pai e a mãe estivéssemos a assistir ao que o futuro reserva para o jovem casal. Há uma espécie de herança processada entre as personagens que estabelece um jogo de intercâmbios: a solidão da avó, a ausência de perspectivas da mãe, a frustração do pai, parecem estar a ser transferidos para um casal de adolescentes em alegre vertigem passional mas prestes a descobrir, em bom português, o que a vida custa. E essa é a verdadeira tragédia, perceber que não há saída. Ou, em havendo, regressar ao labirinto.

domingo, 16 de maio de 2021

DISCURSO DO MÉTODO

 (...) Talvez seja essa a ordem hierárquica da disposição humana. As crianças são coagidas a mentir para proteger o orgulho dos pais. Os pais são coagidos a mentir para proteger o orgulho da família. A família é coagida a mentir para proteger o orgulho da nação. A nação é coagida a mentir para proteger o orgulho dos filhos. (...)
Marina Tadeu, aqui.

sábado, 15 de maio de 2021

LIMEHOUSE BLUES (1921)

 


Figurante em dois documentários, entretanto promovido a actor, estou capaz de digerir as palavras dos outros sem necessidade de as vomitar imediatamente noutras que sejam minhas. Papéis fugazes desempenhados com gozo, o das experiências raras. Talvez tenha actuado em palcos de falas espontâneas, falsas falas espontâneas, e finja agora não me recordar de quão actor hei sido de mim mesmo. Talvez. Isto agora é diferente. Eu, que nunca me senti confortável a fazer sala, sou pago para organizar folhas de sala em peças onde é audível a respiração dos mortos. Talvez um dia venha a fazer de general curvado pelo peso das condecorações. Que esbanjamento, essa coisa de distinguir a alegria de viver quando nem às solas dos ídolos chegámos. Philip Braham, por exemplo, e Douglas Furber, por exemplo, terão sido condecorados pela homenagem que fizeram à chinatown londrina? Quem homenageia o trabalho nos bordéis? Quem distingue aquelas que entre as demais foram as melhores putas? E os melhores chulos? Quanto a mim, mereciam outra consideração no dia da cidade: «Rings on your fingers / And tears for your crown / That is the story / Of old Chinatown». Hoje queria ser Sidney Bechet, calcorrear as ruas de New Orleans a assobiar 2:19 Blues, andar de cidade em cidade espargindo a saliva do improviso, queria atravessar oceanos transportado pelo silvo de uma melancolia que ri, não me importaria sequer de ter alvejado aquela mulher no lugar errado, alegadamente por não ter sido disparada na sua direcção a bala fatídica, mas na do músico rival com o desplante de acusar um acorde ao lado, uma nota desacertada, uma bala falhada. Dançar Big Butter and Egg Man agarrado aos braços de Lil Armstrong, sim, isso eu queria de verdade, não estas manhãs, tardes, noites simulando que sou quem sou.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

MILES RUNS THE VOODOO DOWN (1969)

 


Até quando aguentar esta violência? Cansaço, can-sa-ço, dito assim, repetidamente, sílaba a sílaba, cuspido para o ar como se nada fosse ou significasse, can-sa-ço. Tinha escutado a palavra no fim do amor, depois em viagem, entretanto à refeição, ricocheteando repetidamente como uma bola no interior da cabeça, disparada por uma força qualquer que a leva de uma parede à outra do cérebro, formando uma teia de sangue no interior do cérebro, do corpo caloso ao cerebelo, deste às circunvalações, daqui ao telencéfalo, na ponte, medula, oblonga, espinal, uma bola de can-sa-ço disparada de um lado ao outro com a velocidade dos neurónios. E depois um sorriso actor fingindo nada haver que perturbe, alegria dissimulada em horas passadas ao telefone falando de tudo quanto não interessa, este can-sa-ço às voltas na cabeça, dito assim, de rompante, após o orgasmo, à sobremesa, do acordar ao deitar, arrastando-se como um bêbado sozinho no meio da estrada. Que violência maior pode alguém aguentar? O preliminar cansaço, o liminar cansaço, o cansaço absoluto das alianças esquecidas nos cinzeiros, nos bolsos, nas gavetas, junto a meias e cuecas, cansaço. Um rótulo estampado no peito, a bula na caixa de medicamentos, uma etiqueta: agora sorri, como as hospedeiras da Francisca, não, sorri antes como a Lillian dos lírios quebrados, agora enfeita, agora finge, agora representa, agora levanta as patas, agora rebola, agora dança cansaço.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

PARA UMA ESTÉTICA DO CIVISMO

Ontem, várias televisões insistiram em comparar o civismo dos peregrinos em Fátima com o barbarismo dos adeptos de futebol. Ao mesmo tempo, na Faixa de Gaza, o civismo da fé e da política fazia mais vítimas. O mundo é complexo. Eu também gosto muito de comparações parvas, mas tenho cada vez menos paciência para cursos de padreco por correspondência. A paixão pelo futebol é, como qualquer paixão, irracional. Por isso é que é paixão. Pela parte que me toca, sinto-me deveras confortável no papel de adepto apaixonado. Como não gosto de touradas, de caça, do festival da canção, de feiras medievais com tasquinhas para bêbados finos, nem de raves psicadélicas em Fátima, ainda há esperança para mim. Também não frequento a feira do livro de Lisboa. Equilibro a balança com leituras de Walter Benjamin em praias selvagens, poupo em ansiolíticos e comprimidos contra a depressão. Experimentem a alegria de viver e a felicidade momentânea que faz bem. Que a dos outros não vos impeça de amar o próximo como a um semelhante.

PAÍS DE PADRES

 


Se o ponto de partida for Fátima, nem quero saber qual será a meta. Talvez mais uma comissão de inquérito parlamentar.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

SÓ NÓS SABEMOS

 


Pai & Filha


Só nós sabemos porque.. esperamos 19 anos e vamos das Caldas para o Marquês ver passar um autocarro às 4 da manhã.

terça-feira, 11 de maio de 2021

UM POEMA DE FRANCISCA CAMELO

 


o último estudo das gaivotas
 
as gaivotas
são o meu medo escatológico
 
fizeram ninhos mesmo em cima
do meu quarto rosa
 
quando me acordam pelas quatro da manhã
imagino-me a esgrimir um bastão de basebol
esmagando as cabecinhas
das gaivotas bebés
que guincham agudas sob o sol que nasce
mas são espécie protegida
e nunca matei bicho nenhum
maior que um mosquito
não sei se ia gostar
imagino que não
 
de dia berro com elas
suplico que se calem
a verdade é que param
por uns segundos, como os
gatos em época de cio
quando são interrompidos
odeio-as e quero-as mortas
passou-me contudo pela cabeça
a ideia de adoptar uma
preferia um gato
mas uma gaivota que não mordesse
assim pousada no meu ombro
nem seria mau demais
 
loucura
gaivotas
solidão
 
teorizar sobre as últimas coisas
implica sempre decidir
qual delas nasceu primeiro.
 

Francisca Camelo, in O Quarto Rosa, Exclamação, Agosto de 2019, pp. 27-28.
 

segunda-feira, 10 de maio de 2021

MELANCHOLY MOOD (1958)

 


No spam misturam-se convites para páginas de livros, sites de pornografia, pedidos de amizade, a mesma farinha. «Eu sou uma mulher que precisa de satisfação», assina o bot Mia. Eu sou um homem desapaixonado, respondo-lhe. Perdi o que em mim havia de paixão ao aprender que o amor implica — medo de ser traído, abandonado, deixado sozinho com botões de punho esfarelados. Ser amado sem medo, a incumbência de uma vida. Ou arranjar 15 pseudónimos, como Germain Nouveau, que se amem uns aos outros. O segredo para a felicidade está em não atribuirmos importância ao amor, negá-lo como a sapos feitos príncipes, foder como bestas que satisfazem necessidades muito básicas. Puta que pariu o amor mais as manhãs de Maio a ouvir Horace Silver. Maio invernoso de tardes cinzentas, manhãs de luz esboroada à passagem das horas, céu carregado de nuvens atravessadas por relâmpagos silenciosos, mês de primaveras tristes, funeral de andorinhas enlutadas, as janelas das casas escancaradas para uma chuva estéril, o soalho carente, enegrecido pelos passos amestrados de quem se levanta para ver morrer a alegria de um dia ainda por nascer. Pela manhã, as ruas enchem-se de gente estúpida que parece não perceber estar já morta. Depois regressam a casa fingindo-se vivos. Comentam as notícias com os olhos saturados de realidade, respondem ao spam crendo poder ser essa uma aventura desviante na unissonância dos carris que levam ao tédio. «Ir depressa é morrer mais cedo.» Quem dizia isto? Um francês esquecido, se bem me lembro.

domingo, 9 de maio de 2021

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #32

 

Apresento-vos Lázaro de Tormes, filho de Tomé e de Antona, naturais de Tejares, aldeia de Salamanca. Dele sabemos o que autor anónimo do século XVI legou à posteridade. Lazarillo de Tormes, suas poucas venturas e incontáveis desventuras, há muito vem merecendo por cá atenções de tradutores distintos. A versão de Aníbal Fernandes encontra-se disponível na Sistema Solar, a de José Bento na Assírio & Alvim, mas outras foram sendo dadas à estampa ao longo dos tempos. O que houve de especial na vida de Lazarinho, minhas filhas, é o que de mais essencial vislumbramos na vida de todos quantos à face da Terra podem ser chamados de homens: fome. Nenhuma necessidade motiva a acção como a fome, deslocando-nos tanto à condição de animais selvagens como à de artistas. Vós, que graças à fortuna do meio em que nascestes nunca tivestes de passar fome, ficai sabendo quanto de indigno há na virtude quando a fome ataca alguém. Perseguido, preso e torturado, o pai de Lázaro partiu deste mundo 'inda ele era criança. Teve a mãe de se prostituir com um negro para sobreviver, até descobrir-se que os bens que este lhe trazia eram furtados ao patrão. Com pai, mãe e padrasto condenados, foi o nosso desgraçado herói encontrar desenrascanço em patrões sucessivos, qual deles pior que o outro, exploradores da miséria alheia. Um mal nunca vem só, diz o povo e não temos razões para discordar, particularmente quando calha o mal recair sobre quem já desventurado é. Eis algo que podeis conservar entre os axiomas desta vida, a miséria atrai miséria. Assim é, desde logo, porque os miseráveis tendem a ser inimigos de si mesmos, voltando-se mais facilmente uns contra os outros do que contra quem os explora. Assim é, também, por haver sempre gente disponível para colher ganhos e proveitos da fome alheia, fazendo-se patrão de quem nada tem acenando com promessas retardadas e paraísos ilusórios. Desesperando por vida melhor, os Lazarinhos deste mundo tornam-se servos sem ingenuidade nem inocência, antes com a manhosice e a esperteza que leva a patinar na avareza dos Senhores. Para chegarem a algum lado não saem do mesmo sítio, roem unhas na vã esperança de assim conseguirem matar a fome, aceitam a indigência como salário duma pobreza ainda mais funda. Tudo quanto façam para escapar dos fojos será tomado como aldrabice de trapaceiros desprevenidos, os quais se denunciam tanto por não reconhecerem o seu lugar no mundo como por desperdiçarem tempo a sonhar com lugares reservados aos outros. Estarei a ser demasiado fatalista, minhas filhas? Vede como salivam por esmolas os imigrantes que ao redor de nós chegam para apanhar pêras, matar frangos, amassar pão, colher framboesas, vede como no campo, curvados, eles são as vítimas de um chicote invisível que os açoita diariamente sob o silêncio astuto de quem com eles lucra. Quem com eles lucra? Todos nós, sim, todos quantos entre nós se calam à vileza desta economia do desamparo. A isto leva tanto a fome de uns como a ganância de outros, mas igualmente a indiferença da maioria que assobia para o lado enquanto puder aproveitar-se das fraquezas de uns e das malfeitorias dos outros. Lázaro chorou a sua desgraçada vida passada e as suas próximas mortes futuras ao serviço de cegos trapaceiros, clérigos oportunistas, escudeiros violentos, frades sovinas, buleiros intrujões, capelões hipócritas e aguazis pretensiosos. Naquele tempo eram estes os poderes que exploravam. Passados cinco séculos, não é diferente se por uns substituirdes banqueiros e por outros directores executivos, administradores e gestores, agiotas, usurários. Assim é, minhas filhas, que a lição a retirar desta Vida de Lazarinho Tormes se preserva actual como ao longo dos séculos os rochedos não perdem validade. Mais do que um destino que determina as aflições é o lucro que delas obtêm os Senhores aquilo que as perpetua entre os desgraçados. Se quiserdes livrar-vos disto, deixai de dar lucro. Eis o conselho que tenho para vos oferecer.

sábado, 8 de maio de 2021

UM POEMA DE FRANCISCA CAMELO

 


photoautomat

dizem-te que a vida
não tem tamanho
que também não tem
preço mas pedem
que a registes
num espaço concentricamente
isolado dos outros: inscrevem-te
numa cidade com regras
estranhas pedir desculpa
muitas vezes não sorrir
demasiado falar
alto em transportes
públicos nem pensar
quem decide que posso morar
aqui não sou eu
são algoritmos de leis
incompreensíveis quem
escolhe onde arquivar
o meu corpo quem
define onde cabe o meu
tamanho em que casa
fico com o quarto mais
pequeno ocupar o canto
que incomoda menos
pagar para não ser
notada, sim
eu já assinei contractos
que não tinha como ler
e com honestidade,
é mais ou menos isso
estar viva: assinar
acordos nunca
traduzíveis, corpos impossíveis
de cumprir gente desfigurada
porque a solidão fez 
de todos
o que quis e
um dia entendemos
quando obrigados a
beijar fronteiras que
há um peso, sim, para
todas as medidas:
a minha vida
por exemplo
pesa setenta e um quilos
distribuídos por cinco
caixotes tamanho L
roupas sapatos livros e o que sobra
- photoautomats
um caderno algum dinheiro -
carego comigo como quem
dá a volta ao mundo
ou atravessa a rua para
tomar um café. a minha vida
custa cento e quarenta e cinco
euros e noventa e cinco cêntimos
para ser transladada
dois mil e oitenta e quatro
quilómetros, talvez mais,
nunca medi o valor exacto
do desapego. quanto custará
um caixão para um metro e
cinquenta e oito centímetros
sem sapatos? imagino que seja
apesar de tudo
mais barato existir
e como no ringue de boxe
(flash)
alimento a antecipação
de mais um murro
(flash)
bem no fundo do estômago
(flash)
o branco
violento
e imponderável
(flash)
daquela
photoautomat
no primeiro dia de neve do ano
às duas da manhã
em kottbusser tor.


Francisca Camelo, in Photoautomat, Enfermaria 6, Agosto de 2019, pp. 50-52.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

DEPOIS ACORDEI

   Esta noite sonhei que estava sentado numa pedra à beira-rio quando avistei, na outra margem, duas pessoas aflitas que o tentavam atravessar a vau. A corrente era forte e eu fiquei sem saber o que fazer. O casal de aflitos esbracejava, gritava, eu não percebia o que diziam. Seriam estrangeiros? Forasteiros? Imigrantes? 
   São portugueses? 
   Expulsei a dúvida num berro, na esperança de que algum deles se fizesse entender. Não entendi nada do que disseram, não percebia o que diziam, estavam em pânico, bramiam como animais desesperados.
   Ajudo primeiro aquele de entre vós que for português, disse. Parece-me justo estabelecer prioridades. Se forem ambos portugueses, darei prioridade ao que for sportinguista, continuei. Se ambos forem sportinguistas, pois que terei de optar por aquele que preferir a cor preta. É a minha cor preferida, declarei.
   Os indivíduos aproximavam-se lentamente, era-me impossível descortinar o que quer que fosse acerca das suas características. Se eram homens ou mulheres, brancos ou pretos, tementes a Deus ou hereges.
   Ajudem-me, por favor, para poder tomar uma decisão, supliquei.
   Queria mesmo ajudá-los, mas começar por onde? E por qual?
   Entretanto, as duas criaturas arribaram esfalfadas na margem onde eu me encontrava. Acorri explicando-me, que não podia ter ajudar um deles prejudicando o outro sem saber por qual começar.
   Eis que se ergueram desvelando o rosto, eram os dois iguaizinhos a mim, tal e qual como se fôssemos irmãos gémeos, da mesma altura, a mesma compleição, os mesmos olhos e cabelos, o mesmo sinal na testa, a mesma cicatriz no sobrolho esquerdo. Fiquei tão perplexo que quedei boquiaberto sem saber o que dizer. Tão pasmado me encontrava, que nem dei por eles se me dirigindo. Um agarrou-me pelas pernas, o outro pelos braços, e num balanço atiraram-me ao rio.
   Enquanto era levado pela corrente, tentei pedir ajuda gritando mas faltava-me a voz. Tinha perdido a voz.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

UM POEMA EM PROSA DE JULES LEFÈVRE-DEUMIER

 


OS CAMINHOS DE FERRO

É impossível olhar sem uma espécie de tristeza esses caminhos maravilhosos aos quais a nossa indústria parece dar asas. Não sei se é um progresso poder-se rasgar assim o espaço como uma flecha; mas o que é certo é que isso me torna mais sensível à rapidez da vida que, antes da nossa invenção, o era já suficientemente célere. As ranhuras de ferro sobre as quais somos forçados a correr sem nos desviarmos nem uma linha, levados por uma potência tão cega, quase tão indomável como o relâmpago, não serão uma imagem do destino implacável que nos arrasta, e do qual somos escravos quando julgamos dominá-las? Pensamos ganhar tempo porque aceleramos a passagem do tempo. Mas essas viagens estonteantes apenas abreviam a existência que, já de si, não passa de uma travessia. Não permitem a memória, que é o único meio de que o homem dispõe para prolongar e duplicar os seus dias. A única lembrança que nos deixam é a de que vamos depressa. Ir depressa é morrer mais cedo.


Jules Lefèvre-Deumier, in Embriagai-vos - Antologia de Poemas em Prosa de Autores Franceses, selecção e tradução de Regina Guimarães, prefácio e notas biográficas de Saguenail, FLOP, Outubro de 2020, p. 106.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

JOSÉ PASCOAL (1953-2021)

 


Natural de Torres Vedras, reuniu numa quadrologia, da qual fazem parte os livros Sob Este Título, Antídotos, Excertos Incertos, Ponto Infinito, poemas escritos entre 1970 e 2017. Mais recentemente, coligiu no volume intitulado Branza poemas escritos entre 2018 e 2019. Manteve durante anos a Gazeta de Poesia Inédita.
 
EPÍLOGO
 
O poeta só precisa
De mar,
De terra,
De fogo,
De ar,
Dormir de vez em quando,
Passar,
Este, o verbo que mais uso
Para tentar ignorar
A imobilidade,
A inutilidade
De tudo.
 
José Pascoal, in Branza, Editorial Minerva, Agosto de 2019, p. 156.

«TERNURINHAS.»

 


Um santo, sobretudo entre meninos e meninas analfabetos. 

terça-feira, 4 de maio de 2021

PHARAOH’S DANCE (1970)

 


Deveras amado depois de ameaçar partir, a chave largada sobre o tampo da mesa redonda, fechaduras de corações aflitos, abertos como se não houvesse ladrões. Olhou-os com pena, direi compaixão, porventura misericórdia, não, respeito, olhou-os mortificados de angústia, palpitações de medo, olhou-os com mágoa, ternura, olhou-os com pranto e estancou inerte na cadeira onde para sempre. Não para sempre, provisoriamente, até quando, para provisoriamente sempre, olhou-os com pranto e estancou inerte na cadeira onde até hoje permanece sentado com os olhos colados nas chaves que abriram corações que eram prisões. Felizmente, o santuário ficou em repeat. Se há vozes que não se cansa de ouvir, essas vozes são as de Bitches Brew.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

UM POEMA EM PROSA DE MARCEL SCHWOB

 


MIMÉTICO XIII

As figueiras deixaram cair os seus figos e as oliveiras as suas azeitonas; pois aconteceu uma estranha coisa na ilha de Skyra. Uma moça fugia, perseguida por um rapaz. Tinha levantado uma aba da sua túnica e via-se o rebordo das ceroulas de gaze. Ao correr, deixou cair um pequeno espelho de prata. O rapaz apanhou o espelho e nele se mirou; contemplou os seus olhos cheios de sagacidade, amou a razão que exprimiam, parou a sua perseguição e sentou-se na areia. A moça começou de novo a fugir, perseguida por um homem de idade madura. Tinha levantado a bainha da túnica e as suas coxas pareciam polpa de algum fruto. Na sua corrida, uma maçã de ouro tombou do seu regaço. E aquele que a perseguia apanhou a maçã de ouro, escondeu-a na sua túnica, adorou-a, parou a sua perseguição e sentou-se na areia. E a moça mais uma vez se pôs em fuga, mas os seus passos eram menos rápidos. Pois era perseguida por um velhote cambaleante. Tinha baixado a túnica e os seus tornozelos estavam envoltos num tecido iriado. Mas enquanto corria, uma estranha coisa aconteceu: um após o outro, os seus seios desprenderam-se do tórax e caíram ao chão como nêsperas maduras. O velhote aspirou profundamente o cheiro de ambos. E a moça, antes de se precipitar para o rio que atravessa a ilha de Skyra, soltou dois gritos de horror e pesar.


Marcel Schwob, in Embriagai-vos - Antologia de Poemas em Prosa de Autores Franceses, selecção e tradução de Regina Guimarães, prefácio e notas biográficas de Saguenail, FLOP, Outubro de 2020, p. 296.

BONS EXEMPLOS

Germain Nouveau (1851-1920) conheceu Charles Cros, Verlaine e Rimbaud, que ajudou a passar a limpo as Iluminações. Diz Saguenail, na antologia Embriagai-vos (FLOP, 2020), que Nouveau escreveu sob mais de 15 pseudónimos e nunca aceitou ser publicado. 

*

Em 1887 será publicada a primeira edição do seu Álbum de Versos e de Prosa, numa tiragem de quarenta exemplares. 40. Stéphane Mallarmé, 40.


Bons exemplos difíceis de copiar.


APERTO DE MÃO

Estranho mundo este, em que estender a mão para um cumprimento passou a ser ou um atentado grosseiro à civilidade ou um gesto de rebeldia.