quinta-feira, 14 de abril de 2005

«Gostava que os poetas fossem menos vaidosos e menos preconceituosos»

Aos 33 anos, este portuense publica o seu primeiro livro de poemas. Antes, estudou Direito em Coimbra, foi advogado em Lisboa e em Londres e terminou recentemente um mestrado em Saúde Pública, em Leeds, na Inglaterra. Diz que gostava de trabalhar em África, mas para já o seu futuro enquanto escritor passa por Portugal. Rui Costa, vencedor do Prémio Daniel Faria, falou ao MUITA LETRA sobre A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, seu livro de estreia, da poesia e do panorama poético nacional.

«Perfeição? Não, obrigado»
A Nuvem Prateada das Pessoas Graves vai ser lançado em Maio. Apresente-nos o livro.
É um livro feito entre emoção e pensamento. Esse estado de energia que podemos designar por emoção é o impulso inicial do poema. Mas o poema não se faz com a "grande" emoção ou o sentimento "nobre", faz-se com trabalho de linguagem. Isto implica um distanciamento em relação ao vivido, e aqui intervém a inteligência: a busca das palavras é uma re-(a)presentação do que motivou o que se tenta escrever. E quando o poema está acabado, e se for um bom poema, estará para além do ponto de partida e para além do próprio poeta.
Foi um livro lento, que espero possa ser lido devagar e muitas vezes. Gostava que dois versos do livro ficassem na memória do leitor.
Este é um livro conceptual ou cada poema conta a sua história, vale por si mesmo?
O livro é conceptual na medida em que representa (imperfeitamente) aquilo que eu tento fazer com a poesia (e com a vida). O poema "Faca de incêndio", constituído por onze fragmentos, talvez seja um bom exemplo da integração que eu procuro fazer da tradição lírica (tradição mais ou menos no sentido que Eliot lhe dá, como o que já foi feito e nós vamos transformar) com uma escrita mais porosa e aberta que surge num contexto de pós-modernidade. Refiro-me à pós-modernidade sobretudo enquanto crítica construtiva da modernidade, mas não há uma distinção clara. Aliás, o próprio modernismo (estou a usar indistintamente "modernismo" e "modernidade", embora não sejam coincidentes) tem pelo menos duas vertentes: uma, em que o eu aparece sempre como outro, em contínua vertigem (Rimbaud); outra, herdeira da separação de mundos platónica e do racionalismo cartesiano, com a sua crença na possibilidade de explicar e sistematizar o universo e de atingir o progresso pelo uso iluminado da razão. Esta segunda vertente origina uma visão dualista do mundo (razão/emoção, corpo/espírito, humano/animal, homem/mulher, etc.) que privilegia sempre um dos pólos em detrimento do outro e representa, como se perceberá, a exclusão de uma grande parte do que existe do campo da arte (incluindo a literatura) e do campo da vida. Exemplificando, os arautos desta segunda vertente modernista são os que, lamentavelmente, ainda hoje nos falam de "afinação da voz poética", de "identidade do sujeito" ou de "coerência", como se o bom poeta fosse a Personalidade Suprema que se eleva da escuridão para revelar a luz (e esta luz fosse sempre brilhante e todos os dias igualmente bem-disposta- ou melancólica). Para terminar: coerência, mas só a que resulta da qualidade e exigência; afinação, mas sem excluir a desafinação (e ritmo sem arritmia não é ritmo, ao menos como eu o entendo); perfeição? não, obrigado. Não somos um céu azul.

«O prémio não substitui a apreciação do leitor»
Vencer o Prémio Daniel Faria abriu-lhe as portas de uma editora. Para além do prestígio, o galardão tem para si um valor simbólico, afectivo? É admirador da obra de Daniel Faria?
O Daniel Faria era um poeta com muito, muito talento. O facto de o meu pensamento ser diferente do dele (por exemplo, não me considero uma pessoa religiosa) não me impede, felizmente, de apreciar a enorme qualidade da sua obra poética.
Depois de se saber que o Rui era o vencedor do prémio, abriram-se-lhe outras portas?
Espero que todas as portas vão dar a leitores do livro. Esse seria o verdadeiro prémio.
A poesia é um dos géneros literários mais prolíferos em Portugal. Todos os anos há centenas de novos autores a serem lançadas no mercado. Como espera que o seu livro vingue? O galardão pode fazer a diferença na visibilidade do seu livro?
O prémio, embora dê maior visibilidade, não substitui a apreciação individual de cada leitor.
O que está a fazer a sua editora no sentido de promover o seu livro?
A reputação da editora é um dos elementos na origem da instituição deste prémio de poesia e da atenção que a atribuição do prémio recebeu por parte de alguns jornais e blogs. Se a Quasi Edições continuar a apostar na qualidade daquilo que publica, já estará a fazer muito pelo meu livro. Acredito que a distribuição do livro vá ser boa e que ele possa chegar às pessoas.

«Gostava que os poetas fossem menos vaidosos e menos preconceituosos»
Tem uma definição de poesia?
Nem as sardinhas se definem. Sobretudo, não pertenço a nenhuma "escola". Seja mais metafórica ou mais "da experiência", o que deve importar é a qualidade (que também não se define). Mas digo ainda: gostava que houvesse menos vaidade entre os poetas. Mais capacidade de gostar das coisas que os outros fazem, ainda que "diferentes". Os preconceitos tendem a vir de pessoas incapazes de vibrar fora do bafo da sua própria respiração.
Quais os seus projectos para o futuro? Tem material na gaveta para outro livro de poemas? Pensa aventurar-se noutros géneros literários?
Gostava de poder dedicar mais tempo à escrita. À poesia, e também à prosa.
De Portugal, diz-se que é um país de poetas. Parece que é verdade, a julgar pela variedade e quantidade de publicações. Pensa que esse é um fenómeno benéfico à poesia e à sua qualidade ou, pelo contrário, faz com que os trabalhos de qualidade se percam na “maré” dos trabalhos maus?
A escassez não é garantia de qualidade assim como a abundância não é sinónimo de falta dela. O mais benéfico para a poesia seria que se perdessem certos preconceitos que ainda a ligam a um formalismo e temática rígidos e afastados da condição de liberdade em movimento que ela pode ter (se nós fizermos por isso).
Quem são os seus autores de referência?
Tento ler um pouco de tudo. Nas últimas semanas li bastante à volta de pintura (incluindo um excelente livro de John McEwen sobra a Paula Rego, publicado pela Phaidon).

quarta-feira, 6 de abril de 2005

MAR ADENTRO


Mar Adentro, o filme de Alejandro Amenábar, deixa-me com alguns nós na garganta. Tento desatá-los e não consigo. Nascido na Coruña em 1943, Ramón Sampedro ficou tetraplégico na sequência de um mergulho mal calculado. Preso a uma cama desde os 25 anos, ocupou-se a olhar o mundo por uma janela, a escrever poemas (outra forma de olhar o mundo por uma janela) e a lutar pelo direito a pôr um termo ao seu sofrimento. Lutou pelo direito à morte, a única esperança par uma vida digna. Só com uma grande dose de cinismo, chamemos-lhe assim, poderemos pôr em causa os objectivos daquele homem. O problema da eutanásia é um problema demasiado complexo se o pretendermos pensar como um problema moral, ético, religioso, político. Mas para quem pretende apenas uma "vida digna" (aceite-se a subjectividade do conceito), como Ramón pretendia e julgava não ter nem conseguir conquistar, o problema da eutanásia deixa de ser um problema. Passa a ser uma forma de esperança. Repare-se que Ramón, para qualquer um de nós, jamais poderia ser considerado um inválido, sem outra capacidade que não fosse a de respirar e estar vivo. Ele não tinha apenas um coração a bater-lhe no peito. Tinha um cérebro de onde saíam frases inteligentes, sóbrias, escritos libertadores - Cartas Desde el Infierno, Planeta, 1996 - e poemas, alguns deles extraordinários, reunidos em Cando eu Caia, Editorial Xerais:

Su mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras:
más adentro, más adentro,
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto
para seguir con mi boca
enredada en sus cabellos.

Decidiu levar a cabo uma luta que ninguém senão o próprio poderá saber se lhe vinha mais do coração ou do cérebro. Era uma luta por aquilo que ele tinha como sendo um direito essencial: o direito a morrer. Para Ramón Sampedro o direito a morrer não era muito diferente do que é para qualquer um de nós o direito a viver, ou seja, o direito à felicidade. Não é a felicidade o objectivo último dos homens, ainda que por felicidade os homens possam entender as mais variadíssimas coisas? Pois bem, aquele homem não tinha como ser feliz estando vivo. Por isso queria morrer. Conseguiu alcançar o seu objectivo no dia 12 de Janeiro de 1998. Hoje fazem-se filmes sobre ele, tecem-se os mais diversos comentários acerca dos seus escritos, do seu testemunho, inflamam-se as mais elevadas discussões em torno da uma vida e de uma decisão, a de pôr termo a essa vida. Alejandro Amenábar achou que isto era suficiente para transformar uma vida num filme, talvez imbuído das mais louváveis intenções. É, sem dúvida, um filme perturbador. Consegue levar às lágrimas qualquer um. Só não sei se gosto disso. Ou se gosto disso assim. É que no fim, parece-me, devíamos todos ficar muito felizes por aquele homem ter, finalmente, logrado os seus objectivos. E ficámos? Eu, confesso, o mais que consegui foi ficar perplexo comigo mesmo.