sexta-feira, 27 de maio de 2005
FIGURAS DO MUITO OBSCURO
terça-feira, 24 de maio de 2005
RESISTÊNCIA DA POESIA
quinta-feira, 19 de maio de 2005
SOL A SOL
domingo, 15 de maio de 2005
A MINHA VOZ NO TEU NOME
Com um ano de atraso chega-me, por correio tradicional, este A Minha Voz No Teu Nome (Ausência, Maio de 2004) de André Sebastião (n. 1980). Duvido que me pudesse chegar de outra forma. Não me lembro de ter lido qualquer referência a este livro nas páginas da imprensa especializada, tão-pouco me lembro de o ver à venda nas lojas onde costumo comprar livros. Talvez isso se deva ao facto de se tratar de uma primeira obra de um “novíssimo autor”, talvez se deva antes à dificuldade que as colecções de poesia das pequenas editoras têm em impor-se no mercado editorial português. Da pouca poesia portuguesa que se lê em Portugal, aquela que se lê ou é de autores já consagrados (excepção feita a um ou outro dos novos mais facilmente mediatizáveis), ou vem de colecções que, pela tradição, lograram um certo estatuto de qualidade indubitável (o que, diga-se de passagem, muitas vezes fica aquém da realidade). A Minha Voz No Teu Nome divide-se em quatro partes autónomas: O Crepúsculo do Amor ou O Caos da Sensação (a maior de todas elas), Sete Memórias da Solidão, Ponto de Fuga e A Despedida de Coimbra. Pelos próprios títulos não será difícil imaginar o pendor biográfico desta poesia. No entanto, esse pendor biográfico não é aqui sinónimo de "biografismo" ou de "confessionalismo". A poesia de André Sebastião é bastante rica em imagens e metáforas, não se deixando ficar por um real reduzido à noção de coisa exacta ou meramente física. No real, esta poesia incorpora a imaginação, o desejo e, sobretudo, a ausência. Aquilo que está ausente aparece como sendo existente na sua própria natureza de coisa ausente. Daí que, na primeira das quatro partes deste livro, o tom claramente erótico se erga numa permanente confusão entre memória e imaginação: «Escreveria a minha voz no teu nome / se soubesse que / um momento / existirias // ou se alguém nesta gente que procuro / conhecesse / de perto / o perfil da tua boca / Quero ver-te nos meus passos / em cada minuto / que me atravesso / Quero sossegar / quero pousar-me na curva líquida / de uns olhos que desconheço // quero o mesmo apreço / que toda a gente» (p. 34). A voluptuosidade destes versos anda de mão dada com uma inquietude que aparece frequentemente na figura daquele que procura algo que perdeu ou ainda não teve. Em congruência com a primeira parte, as Sete Memórias da Solidão adensam precisamente esse aspecto daquele que, embora memorando a solidão, permanece escravo da mesma como se esta fosse uma condição de existir. De certa forma, podemos dizer que nestes poemas a solidão é uma espécie de sensação que a memória e a saudade provocam naquele que, escrevendo, lembra: «todas as memórias residem nas veias com um nome / e com as vestes de chapa do confronto / permanecem latentes num círculo de pedras apuradas / à espera / das sensações que transmites / quando concedes umas horas uns anos / ao passado» (p. 52). O mesmo tom povoa as duas últimas partes de A Minha Voz No Teu Nome. A melancolia percorre os versos daquele que inventa «uma existência da sua matéria íntima», pois escrever, ainda para mais escrever poesia, é dar existência a essa mesma matéria íntima. É assim que, em Ponto de Fuga, o próprio acto de escrever se converte em matéria de poesia: escrever como inventar, escrever como tornar presente, escrever como rememorar e quebrar as fronteiras que dividem os tempos passado-presente-futuro. A família é retratada, os espaços geográficos da existência quotidiana também, episódios passados/presentes que são matéria do íntimo, porque «a memória esconde a ponte / entre os sons do passado / e os ecos do / futuro» (p. 76). Por mim, A Minha Voz No Teu Nome terminaria aqui. Mas André Sebastião resolveu acrescentar uma última parte que, a meu ver, só vem empobrecer o conjunto final. A Despedida de Coimbra aparece um pouco desfocada, embora não retire brilho ao que ficou para trás. É tudo muito mais óbvio nesta despedida, o que pode ser exemplificado com este breve O último cortejo: «Hei-de estar / felizmente / bêbado para apreciar / a transição do cortejo // acaba amanhã uma viagem / que começou / há quatro séculos atrás // lágrimas só pela oportunidade / que o futuro / tem / para celebrar um caos» (p. 83). Ainda assim, este livro merecia outra atenção.
quarta-feira, 4 de maio de 2005
p a l a v r a s
Não digas alma, diz corpo. Não digas morte, diz vida. Não digas memória, diz esquecimento. Não digas coração, diz pulmão. Não digas amor, diz ódio. Não digas ideia, diz afecto. Não digas boca, diz mão. Não digas vento, diz respiração. Não digas luz, diz sombra. Não digas noite, diz crepúsculo. Não digas palavra, diz imagem. Não digas casa, diz rua. Não digas outro, diz eu. Não digas heroísmo, diz medo. Não digas mãe, diz poesia. Não digas céu, diz chão. Não digas flor, diz fruto. Não digas silêncio, diz ruído. Não digas ruído, diz eco. Não digas nada, diz tudo.
terça-feira, 3 de maio de 2005
LAOCOONTE
Laocoonte, rimas várias, andamentos graves (Quetzal, 2005), de Vasco Graça Moura (n. 1942), é um dos melhores livros de poesia portuguesa publicados no primeiro trimestre de 2005. Se começo por afirmá-lo, não é apenas por ser um adepto indefectível de livros de poesia longos (este estende-se às quase 200 páginas) e heterogéneos, isto é, livros que reúnam poemas em formato diversificado sob um mesmo tecto temático ou uma mesma ambiência emocional. Afirmo-o, sobretudo, porque este livro oferece-nos um poeta no perfeito domínio da sua arte. Vasco Graça Moura, é de todos sabido, ocupa nas letras portuguesas o lugar do homem dos sete instrumentos: romancista, ensaísta, excelente tradutor, cronista, organizador de antologias e colecções diversas, poeta, actividades às quais se acrescenta a de político militante. É curioso que os poemas deste livro ecoem, de forma mais ou menos subtil, todas essas actividades. Por isso devemos afirmar que esta poesia é essencialmente quotidiana, uma poesia que se faz num diálogo permanente com o vivido e com o revivido.
Reunindo, segundo informação contida nas notas finais, conjuntos de poemas já anteriormente publicados em antologias, revistas, «plaquettes», suplementos literários e weblogs (no caso, a extraordinária sequência aretnap a pantera, um divertimento em ressonâncias sobre o trabalho de tradução de Der Panther, de Rainer Maria Rilke, aparecida, pela primeira vez, no weblog Abrupto), entre outros tantos inéditos, compreende-se a divisão da obra em várias partes: laocoonte, cinco sonetos íntimos, la malinconia, a consistência das sombras, oito canções de outono, termos técnicos, aretnap a pantera mais dois subprodutos e suite horaciana. Formalmente, estes poemas alternam entre o preciosismo métrico e a inclinação narrativa. O tom é quase sempre sombrio e melancólico, mas também irónico, desassossegado, inquietante (em permanente diálogo com outros autores, outras obras, outras artes, com a própria história).
Laocoonte, o conjunto de poemas que abre o volume, inicia-se com uma ars poética onde se pode ler o seguinte: «a poesia revela inesperados / desencontros e neles poderás modular-te, / falar das tuas ilusões, do que te falta até ao osso» (p. 9). Talvez fosse mais convencional falar da poesia como um lugar de encontro, o que releva, desde logo, nesta poesia uma espantosa fuga ao convencional. Esse é, sem dúvida, um dos aspectos a destacar nos poemas de Vasco Graça Moura, poeta a quem dificilmente seria reconhecido qualquer tipo de “heterodoxia”. No entanto, essa “heterodoxia” de carácter íntimo ressalta à vista no tom desassossegado e aparentemente contraditório da relação que estabelece com a história, com o passado, com a memória das coisas vividas e das coisas da vida. Porque é da vida que o poeta escreve, «das suas flores contidas, / do seu rumor nas veias / e dos perfumes leves / do tempo em combustão / que nela se incorpora / depois dos sobressaltos» (p. 12). Mais uma vez o tempo, essa consciência amargurada e desolada da agonia das coisas, do mundo, partindo de um olhar sobre o passar dos séculos, de um olhar que amplia e dá conta do sofrimento humano.
Outro aspecto inquietante nestes poemas é, precisamente, o seu sentido da história, a interrogação sobre os desígnios da humanidade, sobre os sacrifícios e o sofrimento infligidos em nome das ideias e de uma suposta felicidade, sobre a própria essência contraditória do homem (criador/destruidor): «se tudo é bric-à-brac e excesso, exercício de solidão e penitência, / se os tigres nas florestas da noite são apenas / simetrias em brasa, coruscantes e verbais, filmes do esquecimento / atraiçoando o equilíbrio, a ordem que simulamos para o caos, // depois dos ventos da destruição, das catástrofes da ignomínia, / os vencidos não podem ser sacerdotes de apolo, / mesmo que, uma vez desenterrados, / de plínio a lessing sirvam para se falar das artes» (p. 41). Depois há o erotismo dos cinco sonetos íntimos, os episódios e os amigos recordados, as evocações, as «memórias aflitas, arranhadas, indizíveis», em la malinconia e a consistência das sombras, o virtuosismo formal das oito canções de outono - «tanta ilusão a que o real embala, / tanto rumor de súbito se cala / sempre que amor se torna corpo e alma / e disso se constrói» (p. 119) -, a arte de traduzir e escrever poesia transformada, ela mesma, em matéria de poesia: «o decassílabo menos ouvido / na quarta e sétima leva o acento: / possível é, todavia é fodido / em português ir-lhe dando andamento. / com solidão, natural sentimento, / fica erodido, doído, delido: / entre silêncio e ruído é roído / e um solavanco lhe dá o sustento» (p. 129). Por tudo isto, a mais recente recolha poética de Vasco Graça Moura é impreterível.
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