É inédito. Nunca antes tinha iniciado e terminado o meu ano de leituras com um livro de contos de um autor português. O género, inexplicavelmente pouco querido pelas editoras portuguesas, tem vindo nos últimos anos, muito lentamente, a ganhar adeptos. Mais tarde ou mais cedo, creio, as editoras vão ter de encarar o fenómeno de uma outra maneira. Hoje, ainda é frequente olhar-se de soslaio para o conto, como se este fosse um género literário menor. Na verdade, o que será um género literário maior? O facto é que algumas experiências provam existir um público atraído pela pequena história, o que justificaria uma outra atenção editorial. Exemplos? Deixemos de lado o culto em torno dos Contos do Gin-Tonic, de Mário-Henrique Leiria. Gonçalo M. Tavares e Pedro Paixão são exemplos claros de sucesso dentro do género. Este ano, como dizia, calharam-me na rifa dois livros de contos, por sinal bem diferentes – o que prova a inesgotabilidade, em termos de estilo, da narrativa breve.
Comecemos pelas 1001 pequenas histórias – volume I, de Luís Ene. Autor de um romance premiado (A Justa Medida, Porto Editora, 2003), Luís Ene é também uma das vozes mais valiosas no universo blogger português. As mil e uma pequenas histórias publicadas em livro no início deste ano dão disso conta, pois consistem na recolha literal dum labor diário levado a cabo no weblog com o mesmo nome. Temos para já, reunidos em livro, 9 meses de gestação de histórias (entre Agosto de 2002 e Abril de 2003) que, arrisco, podem ser lidas como uma espécie de diário fictício ou, pelo menos, como uma forma de reconstituição ficcionada da vida. Muitas das histórias de Luís Ene apontam precisamente para essa necessidade de busca de sentido que constitui a vida de quem não se contenta apenas com a quotidianeidade absurda da existência. Por vezes epigramáticas, são histórias estigmatizadas pelo sentimento de um absurdo existencial que se manifesta na forma de crime, vingança, fábula, nonsense. Há, no entanto, algumas variantes: as histórias que focadas sobre elas mesmas, ou seja, sobre a sua condição de história, sobre a arte de escrever histórias, ainda que, quando tal acontece, sejamos tentados a entender nisso um processo irónico que consiste em metamorfosear o homem com a história. É como se cada homem fosse uma história e cada história fosse, na sua essência, um fragmento de humanidade. O que encontramos de melhor nas histórias de Luís Ene é justamente essa ironia que arrasta consigo uma componente política, nada moralizante, repleta de humor. Um pequeno exemplo, para não me alongar demasiado: «Um homem matou outro sem qualquer motivo. Tinha uma arma. A arma estava carregada. A vítima estava parada do outro lado da rua. Era um bom alvo. Disparou. Matou-o. A ocasião faz o ladrão, o assassino e o escritor. Os resultados, claro está, nem sempre são bons. Dito e escrito» (p. 129).
Bem diferentes das histórias de Luís Ene, são as estórias de Paulo Kellerman. Não sendo rigorosamente uma estreia, Gastar Palavras (Deriva, Novembro de 2005) quase pode ser encarado como tal. Paulo Kellerman, nativo de Leiria no ano de 1974, escreveu muito mas publicou pouco (pelo menos em edição menos restrita). Destaca-se da sua obra em curso o livro Miniaturas, honrado com o Prémio Manuel Teixeira Gomes, no ano de 2000, e editado pela Colibri. No entanto, Paulo Kellerman é autor de imensas pequenas histórias, contos e minicontos publicados em edições artesanais e distribuídos de porta em porta, assim como de alguns fascículos, distribuídos à mesa do Bar Alinhavar, em Leiria, alguns dos quais constituintes agora do livro aqui em causa. São treze narrativas mais ou menos breves onde a palavra morte parece ser uma constante. As estórias de Paulo Kellerman confundem-se muitas vezes com narrações de estados de alma, quase todos associados ao tédio da vida e ao lado rotineiro da existência. Logo nos primeiros contos deparamo-nos com um conjunto de palavras que decretam o dicionário existencial do autor: preguiça, cansaço, tédio, submissão, o verbo adiar, rotina, resignação, banalidade, ódio, vazio, hábito, etc. É nesta confluência de emoções bem doseadas que as personagens se apresentam praticamente sempre como gente à procura de qualquer coisa que as mantenha vivas, uma ilusão que lhes restitua a ilusão de estarem vivas. Partilha de solidões, estas estórias são todas elas sobre «a inexistência de existência» com que o sentimento de finitude nos brinda a cada hora dos nossos dias. O existencialismo está vivo: «Gostava de ser uma pessoa normal, fazer o que faz uma pessoa normal: olhar pela janela, por exemplo. E ver. Olhar lá para fora, ver a paisagem desfilar; e não pensar, não pensar em nada. Olhar, simplesmente: porque olhar e ver é fugir; e eu estou preso em mim, a mim, dentro de mim. Condenado a mim» (p. 12). Saltam à vista um trabalho de pontuação original, que confere à leitura dinâmicas diversas, por vezes pouco funcionais, e o uso de itálicos, uma constante em todos os contos que nos remete tanto para uma intertextualidade assumida como para a necessidade de demarcar certas palavras ou expressões. Disso sobrevivem os contos de Kellerman, de palavras que se destacam no discorrer dos dias. Gastar palavras? Sim. Tal como se gastam os dias, tal como se gasta a vida.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2005
quarta-feira, 28 de dezembro de 2005
REQUIEM
sábado, 24 de dezembro de 2005
20 POEMAS A ANTON WEBERN
sexta-feira, 23 de dezembro de 2005
A FLOR DOS TERRAMOTOS
quinta-feira, 15 de dezembro de 2005
A ORDEM DO MUNDO
domingo, 11 de dezembro de 2005
A FORMIGA ARGENTINA
sexta-feira, 9 de dezembro de 2005
POEMAS
sábado, 3 de dezembro de 2005
MALVA 62
sexta-feira, 2 de dezembro de 2005
CONTRABANDO
quinta-feira, 1 de dezembro de 2005
UMA LIÇÃO DE AMOR
Por falar em comboios: Uma lição de Amor (1954), de Ingmar Bergman. Neste filme o comboio aparece como o espaço privilegiado para o início de uma reconciliação conjugal. David encarna o homem infiel, arrependido, por saturação da amante ou por nostalgia familiar, da aventura com uma das suas pacientes. Ginecologista de profissão, David tentará reconquistar a sua mulher, Marianne, no comboio onde esta se apronta para partir rumo aos braços do grotesco artista Carl-Adam. O lado cómico deste romance está patente do início ao fim do filme, com algumas situações caricatas. Uma delas, durante a viagem de comboio: David aposta com um dos passageiros em como este não é capaz de conquistar a senhora que com eles partilhava o camarote; desconhece o passageiro que essa senhora era Marianne, a mulher de David; perdida a aposta, com o passageiro a desculpar-se pela sua impertinente ousadia, David volta à carga, desta feita apostando em como seria ele a conseguir beijar Marianne antes de terminada a viagem. Dito e feito. Mas aquele beijo, gesto lúdico já desmascarado junto de Marianne, se pronuncia o retomar duma relação não a efectiva. Durante a viagem, David e Marianne recordam o dia em que se conheceram, algumas cenas familiares, os filhos, etc. Tudo muito ligeiro, sóbrio e aburguesado. Contudo, qualquer intento mordaz se esconde no interior daqueles cenários. Bergman brinca com o conceito de família, com a emancipação da mulher, com a rodilha dos costumes a que é hábito dar o nome de sexualidade. E se este não é por muitos consagrado como um dos melhores filmes do autor de Mónica e o Desejo, dificilmente não lhe será reconhecido o mérito da lição a que se presta. No final, o amor vence. Poderia outra coisa vencer? Após algumas tropelias, David e Marianne voltam a ficar juntos num quarto de hotel previamente preparado. A facadinha no matrimónio passa à história como acto que se justifica por si mesmo. Tendo havido pecado, não deixou de haver confissão. Tendo havido confissão, outra coisa não se podia esperar que não fosse o perdão. A história (das nossas vidas) é toda ela assim: um comboio que vai seguindo num sentido inconclusivo, onde o passado se rememora com o intuito de sopesar o futuro. Não é para rir, nem para chorar. É apenas para viver.
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