sexta-feira, 29 de setembro de 2006
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quarta-feira, 27 de setembro de 2006
LIVRO DE MALDIÇÕES
sábado, 23 de setembro de 2006
UM HOMEM SEM PÁTRIA
terça-feira, 19 de setembro de 2006
A ANOMALIA POÉTICA
quarta-feira, 13 de setembro de 2006
O SABOR DA CEREJA
de Abbas Kiarostami
Sabemos que muitas vidas davam filmes, mas pode um filme mudar uma vida? Mudar inclusive no sentido de dar uma vida nova? Não tenho dúvidas que pode. Tentarei explicar como. Imaginem um homem muito triste dentro de uma sala de cinema. A sala está repleta de gente que ele desconhece, gente com quem terá de partilhar, durante alguns quartos de hora, os suspiros da intimidade. É gente cujos rostos ele não vê, pois a sala está escura. Supõe, por isso, que essa gente não lhe veja o rosto, o que lhe deveria trazer um certo conforto não fosse o receio involuntário e indisfarçável de ser visto. O homem está triste, profundamente triste, e sente-se só, profundamente só. Não vale a pena reforçar a medida da sua solidão lembrando que está numa sala repleta de pessoas, entre pessoas, pessoas que sabe estarem ali, a seu lado, à sua frente, atrás de si, rodeando-o como se fosse uma ilha à volta do qual outras ilhas transpiram, tremem, bocejam, lacrimejam. O homem pensa em tudo isto e chora, chora não só por pensar em tudo isto mas porque com tudo isto que pensa se misturam as imagens projectadas na tela. Também há um homem nessas imagens, um homem triste que não chora. Um homem ansioso, nervoso até. Esse homem, ainda mais só do que o homem-espectador, passeia de carro pelas ruas de Teerão, conduz dentro de paisagens áridas e lúgubres o rosto do seu desespero. É um homem sem esperança, parece perdido. Quase tão perdido e desesperançado quanto o homem-espectador sentado na sala de cinema. O homem-espectador sabe que o homem-imagem é apenas um actor, embora isso não lhe chegue para negar a frieza, o realismo, a plausibilidade das imagens projectadas, do movimento dessas imagens, acompanhando estaleiros de obras, trabalhadores e maquinaria dando andamento ao mundo nos arredores de Teerão. O mundo segue o seu caminho, obedece à velocidade da sua história, o mundo não pára. Mas, naquele instante de quartos de hora, quer o homem-espectador quer o homem-imagem desejam parar. Parar, mais que não seja, por breves instantes, como quem desatarraxa a cabeça e a coloca em descanso. Processa-se ali, entre o homem-espectador-físico e o homem-imagem, uma estranha identificação. O olhar perturbado de um parece o reflexo perturbado do outro. O homem-imagem, personagem, quer suicidar-se. O outro sobrevive de negar essa vontade. Quer pôr termo à vida, evitando todo o tipo de sofrimento que é também a hora da morte daqueles que se cansam de esperar. Para garantir o sucesso do gesto derradeiro, procura alguém que lhe garanta certificar-se da sua morte após o acto. Aborda um jovem soldado, desses que são talhados para a implacabilidade com o inimigo, do qual não obtém mais do que desconfiança e medo. Depois fala com um estudante de teologia, desses que são talhados para espalhar a esperança entre os homens, mas pouco mais lhe consegue do que alguns ecos vazios do Alcorão. Conduz as pessoas à campa aberta, fá-las ver o leito da morte, premedita o fim. O homem-espectador assiste a toda aquela digressão e pensa que outra coisa não é a vida senão uma premeditação do fim, uma antecipação dos encargos que a morte deixa aos vivos. Pensa em Kirilov: «Aqueles que se matam por loucura ou desespero, não pensam no sofrimento. Mas os que se matam por raciocínio, pensam demasiadamente nele.» Temos pois alguém que pensa no sofrimento, alguém que se quer matar por raciocínio. Que raciocínio poderá levar alguém a querer matar-se? Há uma última pessoa que o homem-imagem aborda. Trata-se de um guarda de um museu, local onde se conserva a memória da vida. Surpreendentemente, o diálogo acontece. Nem exército nem Alcorão, as palavras mais simples. Após algumas tentativas de suicídio frustradas, as mãos do guarda do museu tropeçaram em amoras. Levadas à boca, as amoras retribuíram-lhe o gosto de viver, avivando-lhe na memória os prazeres da vida, os prazeres pelos quais se justifica viver. Matar a sede num dia de Verão, o sorriso extasiado das crianças, ver o sol a nascer no deserto, o sabor das cerejas. Um filme. Um filme assim, pensou o homem-espectador, pode justificar uma vida. Um filme assim, cujo fim é não ter fim, não apaga a ruína, a catástrofe e o desespero, a miséria, a exploração e a tortura, mas recorda-nos tudo aquilo que, opondo-se a isso, equilibra dentro de nós o quadro do mundo. Obrigado a Abbas Kiarostami, iraniano, por me ter dado um filme assim.
DEBAIXO DO VULCÃO
sábado, 9 de setembro de 2006
DÚVIDA METÓDICA
Deito-me no chão a ler o Diário de Notícias. A Matilde olha uma fotografia de George W. Bush, logo nas primeiras páginas, e pergunta-me quem é. Respondo-lhe que é um homem mau. Ela quer saber porquê. Explico-lhe que é mentiroso e que todos os mentirosos são maus. Mais à frente detenho-me numa página sobre algumas alterações a levar a cabo na débil justiça portuguesa. Num dos cantos da página, uma fotografia de Souto Moura. A Matilde volta a interrogar-me sobre a identidade do misterioso senhor. Respondo-lhe que é alguém que não sei se é mentiroso ou apenas palerma. Não fosse ela pensar que se tratava de mais um homem mau como o que anteriormente lhe tinha sido apresentado, disse-lhe logo que se tratava de alguém assim-assim. Papá, de quem tu gostas? A Matilde quer saber de quem eu gosto. Gosto de ti. Não papá, aí no jornal. Viro as páginas lentamente, uma a seguir à outra, uma e mais outra, sinto-me atrapalhado, o papá não gosta de ninguém, o papá é chato, terrivelmente chato, um macambúzio insuportável, um pessimista, uma desgraça, um triste misantropo. Até que vejo um rosto amável, de uma tal Maria de Jesus, nascida em 1893, apresentada como a mulher mais velha da Europa. Gosto desta, gosto desta aqui. Sinto um enorme alívio, a minha filha sorri. Finalmente alguém de quem gosto aparece no jornal que leio. Mas a Matilde, com um faro genético para a complicação do mundo, não é de ficar pela facilidade dos sorrisos simpáticos: Por que gostas dessa, papá? Não é mentirosa?
quinta-feira, 7 de setembro de 2006
FALÉSIAS
terça-feira, 5 de setembro de 2006
HISTÓRIA ABREVIADA DA LITERATURA PORTÁTIL
sexta-feira, 1 de setembro de 2006
A CORDA
A Corda
de Alfred Hitchcock
É das boas memórias que guardo da infância, as horas que passei, na companhia de minha mãe, a ver episódios da série de Alfred Hitchcock que passava na televisão. Julgo pouco provável que entendesse grande coisa do que via, mas a música e o contorno do perfil do realizador ficaram para sempre como marcas de uma coisa que mais tarde vim a saber ter o nome de «suspense». Quando revelo aos amigos a minha fobia a tudo o que seja ave, surge logo a associação a Os Pássaros (1963). É um dos meus filmes preferidos de Hitchcock, mas não é o preferido. Esse surgiu bem mais cedo, em 1948, e intitula-se Rope (A Corda). Possuo-o em DVD, numa caixinha negra com mais meia dúzia de obras-primas: Sabotagem (1942), Mentira (1942), Janela Indiscreta (1954), O Terceiro Tiro (1955), O Homem Que Sabia Demais (1955) e Psico (1960). Todos geniais exemplos de um cinema que, como terá notado François Truffaut, primava por conciliar o comercial com o experimental. Poucos realizadores terão conseguido esse doseamento como Alfred Hitchcock conseguiu. No entanto, este Rope, primeiro filme a cores de Hitchcock, não mereceu grande sucesso quando estreou. Adaptado de uma peça de Patrick Hamilton com contornos homossexuais (praticamente despercebidos durante o filme), o argumento centra-se em temáticas filosóficas pouco dadas a consensos. Dois jovens amigos resolvem cometer um crime só pelo prazer de o cometer. Escondem o cadáver da vítima numa arca, sobre a qual oferecem um jantar a alguns convidados. Entre os convidados estão a noiva e o pai da vítima, assim como um antigo professor que, supostamente influenciado pela filosofia de Nietzsche, acredita que matar alguém pode ser tão artístico como criar algo. Resolvidos a levar à letra as teorias do professor, os dois jovens estudantes resolvem tirar a vida a um colega. Mostrado o crime logo no início, o «suspense» residirá na dúvida acerca da frieza dos criminosos na omissão do crime. Até onde levarão a farsa? Serão descobertos no final? É neste jogo com o espectador que melhor se revela o génio de Hitchcock. Sabemos que houve um crime, sabemos quem o cometeu, não sabemos se quem o cometeu será apanhado, embora cedo comecemos a desconfiar que sim. A questão é quando e como será o crime desvendado? A acção, que decorre toda no interior de um apartamento, mantém o ritmo de uma peça. Impressiona o «timing», a meia dúzia de planos que dão a ideia do filme ter sido filmado num só «take», o desempenho dos actores (acima de todos o grande James Stewart, interpretando o professor Rupert Cadell), o humor contornado a malvadez e aquela sensação permanente de que há um segundo significado e uma segunda intenção em tudo o que nos é dado observar. Mais do que a teoria do «super-homem» de Nietzsche, é Thomas de Quincey, autor de «Do assassínio considerado como sendo uma das belas-artes», quem apetece associar ao enredo. Diz assim: «Na verdade, o objectivo final do assassínio considerado como sendo uma arte é precisamente o mesmo que o da tragédia segundo Aristóteles, isto é, «através da piedade ou do terror purificar o coração». A moral acaba por ser outra, é certo, mas o humor é deveras similar. No caso de Rope, a moral parece ser a da facilidade com que as ideias, mesmo as aparentemente mais obscenas, são facilmente pervertidas pelos homens que as interpretam e aplicam à medida das suas frustrações mais íntimas. Porque, como dizia Raduan Nassar em entrevista lida há anos na «Ícon»: «Obsceno é toda a mitificação. Obsceno é dar um tamanho às chamadas grandes individualidades que reduz o homem comum a um insecto. Obsceno é não fazer uma reflexão a valer sobre o conceito de mérito, dividindo tão mal o respeito humano. Obsceno é prostrar-se de joelhos diante de mitos que são usados até como instrumento de cominação. Obsceno é abrir mão do exercício crítico e mentir tanto.»
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