quinta-feira, 31 de maio de 2007

GACHACHA


Apanhei ontem na 2 parte de um documentário sobre os Gacaca, julgamentos regionais praticados no Ruanda. No caso, pretendia-se encontrar eventuais cúmplices no fatídico genocídio perpetrado no país durante o ano de 1994. Há um filme recente, Hotel Rwanda, que aborda este momento sinistro da história da humanidade, só mais um dos muitos que tingiram todo o século XX e ameaçam voltar a matizar o XXI. Os Gacaca são tribunais comunitários inspirados em tradições ancestrais do povo ruandês. Consistem numa tentativa de apuramento da verdade através do confronto oral, perante toda a comunidade, entre testemunhas, vítimas e acusados. Toda a gente tem direito a manifestar-se. Há uma espécie de júri que vai mantendo a ordem, dando voz a quem deseje dizer de sua justiça. No final, perante as provas apresentadas, que, basicamente, consistem na força da verdade dos argumentos utilizados, é o povo quem decide da culpabilidade ou inocência dos suspeitos. Este tipo de prática exige uma crença na verdade que, aos nossos olhos, parece absurda. Dificilmente alguém do nosso mundo acredita que um réu diga a verdade, caso esta implique a sua condenação. Naquele caso, segundo entendi, a esperança do réu é a de que dizendo a verdade possa ser perdoado. Estava a ver o documentário e, ao mesmo tempo, pensava num texto que Nietzsche escreveu em 1873: Acerca da verdade e da mentira no sentido extramoral. Nesse texto extraordinário, o filósofo alemão começa por afirmar que «o intelecto, como meio para a conservação do indivíduo, desenvolve as suas forças dominantes na dissimulação», acrescentando que «no homem, esta arte da dissimulação atinge o seu ponto mais alto». Vale a pena, pelo que de fotográfico possui, continuar a citação: «nele [homem] a ilusão, a lisonja, a mentira e a fraude, o falar nas costas dos outros, o representar, o viver no brilho emprestado, o usar uma máscara, a convenção que oculta, o jogo de cena diante dos outros e de si próprio, numa palavra, o esvoaçar constante em torno dessa chama única, a vaidade, são de tal modo a regra e a lei que não há quase nada mais inconcebível do que o aparecimento nos homens de um impulso honesto e puro para a verdade». Termo-nos habituado a estes retratos, que tanto nos inventam quanto nos exprimem, levou-nos a ver na arte um momento de revelação da verdade, porque nessa esfera todos os julgamentos são inócuos. O artista, enquanto criador, deve poder dizer tudo sem que nisso se constate um crime – esta lei dita que a obra passe a ser vista como um depósito da verdade. O que é curioso é que, ao mesmo tempo, o próprio artista não evite, muitas vezes, de ver na arte mais um exercício de dissimulação. Deste modo, o que é a verdade? Para Nietzsche é, numa das mais belas definições de verdade que alguma vez li, «um exercício móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal» (sublinhado meu). Não nos deixemos, no entanto, embalar pela extraordinária verve do filósofo. Não deveremos nós considerar também esta uma dessas verdades ilusórias? Talvez. O que sei é que há verdades que nos parecem inquestionáveis, como, por exemplo, a verdade de alguém estar, neste momento, a ler este texto. E há verdades que valem mais do que outras, como, por exemplo, a verdade de um médico, perante um corpo constipado, em confronto com a verdade de um padre. Na nossa vida habituamo-nos desde muito cedo a classificar as coisas, entre as quais a verdade se inclui como um dos exemplos mais trágicos. A classificação da verdade, assim como a da mentira, em mais verdade ou menos verdade, tem levado a que a própria verdade perca verdade. A verdade deixou de ser verdade, isto é, deixou de ser algo que existe para passar a ser algo que se almeja para se transformar em algo improvável para não existir de todo. Não sei como funcionaria um Gacaca entre nós, mas temo que ficasse longe dos objectivos pretendidos. Mesmo que em vez de falar, fosse dada ao réu a possibilidade de dizer a verdade num poema, numa pintura, numa partitura, a dançar.

VIAGEM IMAGINÁRIA

A Daniela quer ir a África para conhecer Macau. Eu quero ir com ela.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

GREVE

Em dia de greve geral, o Unha-de-fome foi trabalhar. Ainda assim, para não ficar de mal com os camaradas, quando passou pelo Modelo comprou uma greve.

terça-feira, 29 de maio de 2007

ANTECEDENTES CRIMINAIS

Nos últimos anos tem-se assistido à publicação de vários volumes que reúnem as obras completas dos seus autores. Quando postumamente, justifica-se por si só esse trabalho de reunião. Quando ainda vivos os autores, torna-se lícito supor e esperar, salvo raras excepções, que a obra ainda não esteja completa, pelo que, nesses casos, a reunião outra intenção não terá senão a de atribuir visibilidade e promover uma obra ainda em construção. Há sempre o pretexto de tornar mais acessíveis títulos perdidos no tempo, publicados e distribuídos de forma mais ou menos limitada, edições apenas ao alcance de autênticos ratos de alfarrabista, mas esse é um jogo com o qual o leitor amante de poesia deverá ter uma relação de puro gozo, pois prazer maior não há do que trazer às mãos aquele livro que tanto se ansiou e nunca se encontrava. Como alternativa, poderiam ser reeditados os livros mais difíceis de encontrar. O problema é que, muitas vezes, assim como desaparecem os livros desaparecem as editoras que os tornaram públicos. Note-se como são raríssimas as reedições de poesia em Portugal, ainda mais raras que as reuniões de obras completas onde nem Obra julgaria o leitor mais desatento haver. A par deste fenómeno, temos o da publicação de antologias pessoais. Nestes casos, normalmente, o autor selecciona aqueles que considera serem os poemas mais representativos do seu percurso e agrupa-os num só volume. Confesso não nutrir grande simpatia por este tipo de prática. À vantagem da amostra de um percurso, sobrepõe-se a desvantagem dos cortes e recortes em livros que valiam pelo seu conjunto e que, fragmentados, podem perder parte do seu significado. Talvez por isso Amadeu Baptista (n. 1953) não tenha resistido a republicar na íntegra, nesta sua antologia pessoal, o último dos volumes que a integram: Negrume, excelente livro de poesia publicado pela & etc. no ano transacto. Trata-se de um caso especialmente intrigante, dado sabermos ser a & etc. avessa a reedições. Tendo Negrume saído em 2006, estranho se torna que apareça agora, apenas um ano depois, numa outra editora, reeditado na íntegra. O prefácio de Antecedentes Criminais, um poema inédito dedicado ao editor Vítor Silva Tavares, explica apenas não estarmos na presença de um autor convencional. Começa deste modo: «Estou a cumprir pena perpétua. // Na infância, uns filhos da puta rodearam-me / com triângulos escalenos e não pude / fazer mais que emocionar-me» (p. 9). Termina o poema, intitulado Pena Agravada, assim: «Triângulos escalenos trouxeram-me a este cais / e, tal como na infância, uns filhos da puta me rodeiam. // Não posso fazer mais que emocionar-me» (p. 11). Como disse, certo é apenas não estarmos na presença de um autor convencional. E se esta é uma obra que pretende comemorar as bodas de prata de todo um labor poético, não deixa de ser também uma obra que comemora a inquietude de um autor avesso a conformismos, um autor que parece pretender manter com o mundo (da poesia) uma relação de perplexidade. Além de Negrume, estão representados todos os livros dados à estampa por Amadeu Baptista desde As Passagens Secretas (1982). Feitas as contas, estabelecemos uma relação de 5 livros publicados na década de 1980, apenas 3 na de 1990 e 8 já nos anos 2000. Sendo pelo menos metade desta obra relativamente recente, o resultado final sai especialmente valorizado nos poemas mais antigos e na inclusão de um conjunto alargado de dispersos, onde se destaca a edição integral de Rosto Soberano (p. 242) e um outro inédito, a fechar, desta feita dedicado a Fiama Hasse Pais Brandão. Ficamos com a ideia de um autor que pratica com extraordinária desenvoltura o poema de maior fôlego. Excelente exemplo é Balada da Neve (p. 216), saído originalmente na Hífen, 11, em 1998. Mais uma vez a perplexidade embaraça a leitura, prosa e verso confundem-se, uma densidade metafórica multirreferencial imiscui-se com invocações quotidianas, familiares, num campo que parece ser tanto o da memória como o da imaginação. Este poema é especialmente representativo do que de melhor tem a obra de Amadeu Baptista, por nele confluir todo um trabalho de imagens, símbolos, metáforas, provenientes de várias tradições. Neste sentido, eu diria que na poesia do autor de A Noite Ismaelita como que se subvertem certos sinais das tradições judaico-cristã e islâmica, mas também da helénica, num processo de recriação e deslocamento metafórico que tanto resulta num erotismo desabrigado (Signo de Vénus, p. 88), num hermetismo de tipo iniciático (Salmo, p. 149) como num lirismo com contornos tão idealistas quão humanistas: «Tudo o que é humano me atinge, / porque tudo o que é humano é divino» (p. 130). Lugar de confronto, esta é uma poesia marcada pela presença da ruína (civilizacional?) e por essa imagem recorrente da praia, encontro do mar com a terra, que tanto pode ser «uma praia de colmo» (p. 22) como «uma praia de consolação» (p.27) – evocação de Ruy Belo -, uma «praia amena» (p. 64) ou a «praia onde a fogueira cresce» (p. 192). De certa forma, podemos dizer que a praia é aqui o lugar simbólico da paz ausente e do abrigo, do refúgio, como das transformações e da dinâmica da vida tem sido símbolo o mar: «Algum velho pescador há-de encontrar / entre as ondas as ondas do meu peito, / também por uma praia me perdi, / eu sou agora o marinheiro / que te procura no mar, / porque dizendo mar eu digo vida, / e quando se diz vida há um caminho / que conduz ao amor, / palavra feminina onde o mar está oculto / eis a verdade, / o mar o amor» (p. 246-247). Ora, neste tempo de naufrágios diversos que é o nosso, o poeta surge então como um criminoso, na medida em que vive a poesia numa ânsia de sobrevivência ao desmoronamento do tempo. O primeiro de todos os crimes do poeta é entregar-se ao amor, à palavra, à subversão da linguagem, à busca de uma eternidade cuja ausência o inquieta e abala como um mar revoltoso. Título pertinente como outro não poderia ser, estes Antecedentes Criminais, numa excelente capa a fazer lembrar alguns trabalhos de Robert Rauschenberg.

sábado, 26 de maio de 2007

CORRESPONDÊNCIA

Abriu um posto dos Correios no supermercado. Não vendem correspondência.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

DROGA

Sobre o filho que andava metido na droga, um pai dizia a outro a quem tinha morrido um filho com uma overdose:
- Você teve uma dor de morte, eu tenho uma dor de vida.

ENFORCADO

Foi obrigado a cometer um crime, mas não teve como provar que o obrigaram. Enforcou-se de angústia.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

A DIVINA COMÉDIA


Há uma dimensão de perversidade no cinema de Manoel de Oliveira que muito me agrada. Não é uma perversidade óbvia e directa, ao estilo de um cinema mais surrealista, nem tanto uma perversidade com intentos de ruptura social e política ou necessidades de escândalo moral. É antes uma perversidade que se esconde por detrás de uma subtil cortina metafórica, sobretudo irónica, com a lucidez de quem olha a humanidade com desconfiança, tanta desconfiança quanto a que merece um olhar lúcido sobre a presença do homem no mundo. Esse olhar é especialmente evidente em A Divina Comédia, filme estreado em 1991. O título, remetendo para a obra magna de Dante Alighieri, é já de si suficientemente sugestivo. Mais ainda se torna quando constatamos pouco ter o filme que ver com a obra em causa, não nos sendo legítimo, porém, negar entre ambos correlações difíceis mas não impossíveis de explicar. Também no filme há como que uma jornada espiritual pelos grandes conflitos configuradores das dicotomias fundadoras da civilização ocidental: sagrado/profano, santidade/pecado, bem/mal, entre outros. Para levar a cabo o empreendimento, Manoel de Oliveira recorre a personagens – históricas e ficcionadas - representativas, em termos emblemáticos, desses mesmos conflitos. Um filósofo (que aparenta ser Nietzsche, magistralmente interpretado por Mário Viegas) discute com um profeta (o grande Luís Miguel Cintra), supostamente autor de um V Evangelho que não passa de um livro de páginas em branco, a oposição da vontade humana à vontade divina, a beleza da mulher e da arte em confronto com o belo interpretado à luz das revelações sagradas. Por outro lado, Adão, perdido de amores por uma Eva arrependida, procura ajuda nos argumentos do filósofo com a intenção de reconquistar a sua amada, acabando o filósofo por se “atirar” descaradamente à Eva arrependida. Há ainda Jesus, o Fariseu e Lázaro, Maria e Marta (esta última recriada por uma Maria João Pires a fazer de si própria, loucamente entregue à sua arte), personagens de Crime e Castigo e Irmãos Karamazov, romances de Dostoiévski que são, para todos os efeitos, súmulas literárias dos conflitos morais inerentes à própria condição humana. Toda esta teia de relações só é possível porque o cenário da acção é uma casa de alienados cujos internos (re)encarnam obsessivamente as personagens em causa. Ora, é difícil não ver nesta casa de alienados uma parábola do mundo em que vivemos, tornando-se a mesma um microcosmo feito à imagem e semelhança da cosmogonia dantesca. A perversidade do filme reside precisamente na confusão que acaba estabelecendo entre o metafórico e o literal. Ao deslocar metáforas clássicas para um campo metafórico novo, o autor como que faz reviver o sentido clássico da metáfora, dando-lhe nova vida e vigor. Não se trata de entender aqui a metáfora no seu sentido mais pobre de ambiguidade, mas antes como uma transferência de sentido que não nega o sentido original. Ou, como recentemente li em Nelson Goodman, «a metáfora, ao que parece, é uma questão de ensinar a uma palavra velha artimanhas novas». Em A Divina Comédia, a palavra velha à qual se procura ensinar artimanhas novas é a palavra do pecado original. Cabe aqui lembrar João Bénard da Costa: «Este filme que começa com a serpente e acaba com uma pomba, é um filme que faz depender todos os conflitos do pecado original». No fundo, este pecado de estar vivo que é também o pecado de ir morrendo, poder-se-ia resumir a um paradoxo sem solução, alicerce de toda a alienação que perspectiva o mundo lucidamente: não acreditar em Deus obriga-nos a, pelo menos, desconfiarmos dos homens. Tragicamente, é esta a nossa derradeira comédia.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

UM POEMA PARA FIAMA


Um Poema para Fiama
Coordenação de Maria Teresa Dias Furtado e Maria do Sameiro Barroso
Labirinto
Maio de 2007

[A dor é o que há de mais humano], p. 36.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

HERÓIS

Super-homem: Dá muito jeito não ter rosto.
Homem invisível: Não preciso de me disfarçar.
Super-homem: Mas, por outro lado, é muito triste.
Homem invisível: Porquê?
Super-homem: Quem é que, não te vendo, te poderá amar?

domingo, 13 de maio de 2007

CRÍTICO

Ao dissertar sobre a última obra de Michel Houellebecq, a mão do crítico esbarrou-lhe nas sucessivas camadas de cremes e foi-lhe embater contra o nariz… partindo-o. Ali ficou, prostrada, esvaindo-se em sangue. Houellebecq, que passeava nas redondezas, sentiu o cheiro a sangue e, como que não resistindo a um agradável cocktail, foi molhar o bico na mão do crítico. Morreu envenenado.

OBRIGAÇÃO

O homem que se abrigava nas obrigações morreu desobrigado. O sem abrigo foi condenado ao Inferno. «Agradecido.» - disse.

URBANO

Era uma vez um rapaz do campo que foi viver para a cidade, levando consigo uma vontade imensa de trabalhar. Com o passar dos anos o rapaz do campo urbanizou-se, mantendo porém o sotaque saloio. A malta da cidade continuou a ser a malta da cidade, caniches aprumados a verem a caravana passar. De vez em quando ladram, mas já só eles se ouvem a si próprios.

MARX

Muita da história do mundo ainda está por esclarecer. Karl Marx, por exemplo, não morreu em Londres no dia 14 de Março de 1883. Na verdade ele descobriu o elixir da eterna juventude, rapou as barbas e cortou o cabelo, instalou-se em Portugal. É ele o autêntico autor do Livro do Desassossego, obra geralmente atribuída a um dos 10000000000000000000000000000 heterónimos de Fernando Pessoa. Apesar de podre de velho, parece um jovem. E ainda arranja forças para tentar justificar que a Coreia do Norte, último reduto dos ideais comunistas, é uma democracia.

HERMAN

Ao contrário de Karl Marx, Herman José não descobriu o elixir da eterna juventude. Comprou rolexes, jaguares, iates, roupas pirosas. Pintou o cabelo de várias cores. Queria desesperadamente rir de si próprio, mas as rugas não deixavam. Quem muito ri dos outros nem sempre acaba a conseguir rir de si próprio.

sábado, 12 de maio de 2007

VIDA PRÓPRIA

Ao homem a quem acusavam de não ter vida própria, apetecia-lhe sempre mudar de vida.

OLHAR

A - Você estava a olhar para mim?
B – Estava, não. Estou. Mas como sabe?
A – Porque eu estava a olhar para você.
B – O quê?! Você estava a olhar para mim?

OS MUNDOS SEPARADOS QUE PARTILHAMOS

Vivemos num tempo estranho, um tempo de arrastadas saturações, um tempo sem respostas para perguntas outrora respondidas. Depois da morte de Deus, também o homem parece estar a morrer, muito lentamente, no colo das suas dúvidas eternas. O que havia de esperançoso na religião e, posteriormente, na ciência, deu azo a uma espécie de desertificação das ideias, dos ideais, dos dogmas, tornando-nos joguetes nas mãos do tempo. E o pior é que já nem em si próprio o homem ousa acreditar, tantos são os paradoxos por si gerados, tanta é a angústia promovida pela inexorabilidade desses mesmos paradoxos. Fala-se do fim da história e de pós-humanidade, relativiza-se a verdade ao mesmo tempo que se tropeça na objectivação dessa mesma relatividade, promovem-se valores adquiridos como se fossem fachos de luz ameaçados por ditaduras sub-reptícias, sejam elas a do consumo ou a da opinião, a do corpo ou a de uma democracia sem alternativas. Vivemos nesse tempo estranho de ir vivendo, de ir aguardando o fim, sem grandes programas, planos ou projectos que não sejam os de ir vivendo apenas, entre o comando da televisão e o volante do automóvel. A concentração da vida nas metrópoles desafia a humanidade nos limites da sua própria sobrevivência. O efeito é o de uma espécie de nova humanidade, mecanizada em função das dinâmicas do consumo. Utilizando a linguagem de Paulo Kellerman, direi que «limitamo-nos a esperar que o tempo vá passando, procuramos desesperadamente distracções» (p. 9), «os dias passam, iguais; e a nossa partilha silenciosa torna-se uma rotina» (p. 12), «conversamos freneticamente, com medo que o tempo passe, sem notarmos a sua passagem» (p. 22). O que disto resulta é uma constante monotonia, uma rotina, a impressão de que «viver é, apenas, repetir» (p. 31), um tédio sem saída, um tempo que se limita a passar sem nada trazer, um tempo vagaroso, enfadonho, sem qualquer entusiasmo, com «os gestos rotineiros» (p. 44), uma «doentia passividade» (p. 45) que tudo torna precário, inclusive os afectos. À literatura, como sabemos, não cabe tanto dar respostas como pintar retratos, ela é apenas um depositário de memórias, observações e experiências que esperamos possa servir de testemunho a quem se interesse, num futuro mais ou menos distante, pelo presente, pelo agora. E é esse agora que Paulo Kellerman retrata na sua mais recente colectânea de contos, intitulada Os Mundos Separados que Partilhamos, publicada em Fevereiro passado pela Deriva. Depois de Gastar Palavras, com o qual venceu o Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2005, Kellerman regressa com um conjunto de estórias escritas a partir da observação de quadros de Munch, Degas, Chagall, Eric Fischl, entre outros. Estes diálogos, apenas implícitos, não são tão evidentes quanto é a vontade de, quase sempre em pouco mais que três páginas, condensar um mal du siècle actualizado, partindo de perspectivações que mostram, de forma directa e limpa, as relações humanas na contemporaneidade. O narrador, que alterna entre o feminino e o masculino, mais do que contar uma estória, narra situações, momentos, reflexões contaminadas pelas sensações e pelas emoções mais íntimas. Daí que o tom seja intimista, por vezes repetitivo, como na música minimal repetitiva, sombreado pela melancolia, pelo tédio, pela solidão, pela frugalidade, pela rotina, pela monotonia. A dada altura, estes textos correm o risco de também eles resvalarem numa certa rotina, quebrada aqui e acolá por remates mais inesperados ou estruturas pouco usuais – como a de dividir as estórias em dois lados, à maneira de um velho disco de vinil. Num dos contos, um neto recorda a avó durante o seu funeral. Termina assim: «Não sei para que estou a escrever tudo isto. A minha avó não sabia ler» (p. 72). A mais recente proposta literária de Paulo Kellerman é feita destas hesitações, de dúvidas adensadas pelo cansaço que a monotonia da vida imprime a cada momento, é uma literatura sem riso, perdida nas ressonadas das personagens, é como um suspiro diante do vazio e da indiferença que contorna o olhar que o autor tem da actualidade. Importa porém lembrar que sendo um tédio, uma monotonia, uma repetição, a rotina da vida é ainda a única que temos como alternativa ao tédio, à monotonia e à repetição que a morte há-de ser. Se a literatura não consegue transcender essa condenação, outros meios haverá que a tornem menos lenta.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

NON

Frequentava o 11.º ano de escolaridade quando vi, no contexto de uma aula de Filosofia, Non ou a Vã Glória de Mandar (1990). Vi-o numa sala de cinema que, se bem sei, já não funciona, isto numa terra que, se bem sei, neste momento nem cinema tem. A imagem mais forte que guardo deste filme de Manoel de Oliveira é o travelling inicial em torno de uma árvore enorme. Há razões estéticas para que essa imagem seja tão forte, mas há outras, relacionadas com o próprio argumento, que justificam tal facto. Nomeadamente o ser o próprio filme um travelling pela genealogia de um país. Essa viagem que o cineasta português propõe tem algumas particularidades, sendo a mais interessante de todas, quanto a mim, a da recusa de uma visão épica da história de Portugal, optando-se antes por uma perspectiva ambivalente onde a conquista e a desgraça pontuam a dinâmica do tempo histórico, dinâmica essa que, no nosso caso específico, como que tende a ser interpretada ou pelo monóculo do heroísmo ou pela viseira pessimista. Neste filme, em momento algum há a tentação de restringir a História a uma das perspectivas possíveis que sobre ela se possa construir. A opção de um confronto entre as glórias conquistadas, os legados deixados ao cuidado da humanidade, e o sangue derramado nas vãs conquistas, as batalhas perdidas, está perfeitamente reflectida na própria ideia de um itinerário histórico realizado através de algumas das principais batalhas portuguesas – de Viriato à Guerra Ultramarina, passando pela batalha de Alcácer Quibir, entre outras. Qual o destino de Portugal? – parece ser a pergunta aludida em cada sequência. Mas esta pergunta é uma pergunta sem resposta, pois o destino, tal como a verdade, é algo secreto e inexplicável, é o sentido último, não lógico, que tudo explica. Ainda assim, um ano depois do desmoronamento do Muro de Berlim, Manoel de Oliveira logra uma pertinentíssima reflexão cinematográfica sobre os impérios que não se mantêm à força, porque esses, mesmo quando mais longos, serão sempre efémeros à luz das grandes heranças humanitárias. O que fica para a humanidade? O que se dá, não o que se tira. As conquistas territoriais de nada valem. É óbvio que uma grande obra nunca é uma coisa só, assim como também óbvia é a impossibilidade de definição do sentido dessa mesma obra, mas custa-me aceitar que se chame a este um filme meramente filosófico e épico, um exercício moralista sobre a história de Portugal filmada em flashbacks sucessivos, um quase documentário – seja lá o que isso for – acerca da nossa História, porque mais que tudo isso este é um filme eminentemente político, talvez o filme mais político que Manoel de Oliveira alguma vez realizou. E a sua política não é senão aquela que posso perfilhar, isto é, a política de quem olha a política como um motor de circunstâncias que tendem para um fim indecifrável, a política de quem olha o poder político como uma vã glória de mandar. Nada do que de crítico existe neste filme pode confinar-se à nossa história, porque esta é uma obra que, debruçando-se sobre aspectos particulares da história de um povo, extravasa essa mesma história, conquistando, desse modo, aquela universalidade indispensável a qualquer obra que se queira grande. Termina o filme com a morte do seu personagem principal no dia 25 de Abril de 1974, o dia da liberdade. Terrível é o destino dos homens, livres apenas na hora da morte. Terrível palavra é o Non, de qualquer lado por onde se pegue, é sempre Non. O Non tira a esperança, que é a última coisa que a natureza deixou ao homem. Terrivelmente belo, porque verdadeiro, ou seja, misterioso e indecifrável. Na terra onde eu nasci já não há cinema, foi lá que vi Non ou a Vã Glória de Mandar pela primeira vez.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

OSSO

Na medida em que o cão era o melhor amigo do homem, o osso foi o seu arqui-inimigo.

LINGUAGEM

«Aquele cão é um gato!»

FADO

Convidou todos os seus amigos poetas para um jantar de aniversário. À volta da mesa, declamaram-se poemas e lembraram-se canções. Entre elas, este celebérrimo fado: «Ão ão Caim / Caim caim ão / Ão caim ão / Caim ão Caim».

terça-feira, 8 de maio de 2007

NATUREZA

O meu melhor amigo, com o tempo, ganhou um profundo apreço pela Natureza. Levou tão a sério os seus ideais ecologistas que foi para África pregar junto dos animais que fossem amigos uns dos outros, que respeitassem os direitos uns dos outros, que, enfim, se civilizassem e adquirissem uma certa humanidade. Morreu comido por um leão. Humano, demasiado humano.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

MANOEL DE OLIVEIRA


Num tempo de leituras políticas e de revisionismos para todos os gostos, quase sempre tingidos de particularismos que não atam nem desatam, opiniões pretensiosamente influentes ficam-se pelo jogo do pensamento a retalho. Os intelectuais, dizia-se ontem num programa de cultura, assemelham-se hoje a estrelas da música pop, com agendas preenchidíssimas. Que disponibilidade terão, estes intelectuais de agenda preenchidíssima, que disponibilidade terão para pensar? Mais tecnologia, menos tecnologia, certo é que sem ócio jamais haverá pensamento que nos valha. E se assim é com os intelectuais de primeira linha, que dizer dos opinantes dos campeonatos distritais? Penso nisto um dia depois do dia em que todas as mães são maravilhosas. Dia da mãe maravilha, porque as outras - por exemplo, aquela belga que matou os cinco filhos à facada - não têm direito a celebrações no dia da mãe. Dia da mãe? Mas de que mãe? Há dias um amigo dizia-me que assim como há um dia do livro também deveria haver um dia das telas, das tintas e dos pincéis. Coisas de amigo plástico. Eu digo mesmo que, por mim, deveria haver um dia do «há dias». A verdade é que andamos nesta roda de opiniões zarolhas e festejos inconsequentes, andamos nisto muito entretidos, baixamos as orelhas à altura dos ombros e cá vamos indo, haja saúde. A pergunta é: estamos contentes com o mundo que temos, podemos mudá-lo ou cruzamos os braços e enfiamos a carapuça da nossa sabedoria? Quem quiser que responda, de preferência as mães. Não me recordo de ter dado pelas mães em Aniki-Bóbó (1942), o primeiro filme de Manoel de Oliveira (n. 1908) que vi. Quando vi este filme ainda não sabia quem era Manoel de Oliveira, cineasta cuja gravidade se revela logo no facto de em muito o cinema português com ele se confundir. Não é raro as pessoas falarem de “cinema português”, assim como quem fala de “filosofia portuguesa”, circunscrevendo o conceito no campo dos aspectos estéticos que dão forma ao cinema de Manoel de Oliveira. Ora aí está mais um que tanta polémica tem gerado, tanta página de jornal tem preenchido, tanta sábia opinião tem inspirado. Enquanto tal, o homem lá vai na candura dos seus quase 100 a filmar que nem uma criança. Ou que nem uma mãe. À volta de homens assim há-de haver sempre aqueles que falam, falam, mas a gente não os vê a fazer nada… de jeito. Os que não gostam dizem que é lento, chato, longo; os que gostam aplaudem-lhe a poesia, a persistência, o domínio da voz. Há ainda aqueles que, sem declararem inclinações de gosto, apontam-lhe privilégios injustos num país que é costume apelidar de “subsidiodependente”. É importante perceber, meus amigos, que em alguns casos os privilégios conquistam-se e são mais que justos. Há quem não o entenda, mas mesmo esses dificilmente discordarão que o que torna o cinema de Manoel de Oliveira polémico é pois um leque de reacções que apenas em parte têm que ver com o cinema em si. A sua primeira longa-metragem é paradigmática da grandeza do seu cinema. Uma história aparentemente simples rapidamente se transforma numa complexa teia de situações, mais ou menos metafóricas, que transfiguram um tempo na exacta medida em que o testemunham e representam, sempre do ponto de vista de quem procura no presente as angústias do homem de sempre. Em plena segunda guerra mundial, de Oliveira filmou um drama infantil com claras projecções dos vícios adultos. Aniki-Bóbó tem, como numa tragédia grega, o dom de exemplificar os mais profundos dramas morais da humanidade, aqueles dramas universais, sem tempo nem lugar, que fazem de uma obra de arte uma obra sem tempo. A arte, creio, discutir-se-á sempre entre as balizas da perenidade e da efemeridade. O cinema de Manoel de Oliveira é perene. Na sua primeira ficção vislumbramos logo os mais íntimos paradoxos da consciência moral, o arrependimento e a culpa, a facilidade da condenação, a injustiça e a ingratidão, a coragem e a cobardia, a forma como cada um deles se interliga mostrando-nos que, tantas e tantas vezes, o que nos parece evidente é, afinal, tão obscuro quanto as águas turvas da psique humana. Uma cena: Pistarim chega atrasado à escola e é posto de castigo com umas orelhas de burro, distrai-se com um gato que aparece numa das janelas da sala de aula e é punido severamente. O gato foge, assustado, e é impossível não ver naquele gato uma metáfora da liberdade num tempo em que a mesma era severamente reprimida. Outra: Carlitos, o rapazito tímido que vive apaixonado por Teresinha, tenta fugir escondido num barco ancorado no cais. Quando é descoberto diz qualquer coisa como isto: «Era só para fugir daqui, para longe». Conclua cada um o que mais lhe aprouver. Há em Aniki-Bóbó uma dimensão de crítica social que não pode ser diminuída pelo final feliz, pela aparente ingenuidade que atravessa o argumento. O Estado Novo é ali retratado na máxima inscrita na sacola escolar - «segue sempre o bom caminho» (?) -, nas roupas remendadas, na pobreza, na repressão social, no medo que as próprias crianças sentiam dos guardas («Parece um guarda, sempre a desconfiar». – diz Eduardinho ao simpático dono da Loja das Tentações), nas noites escuras e sombrias… Não me recordo de por lá ter visto mães. Se aparecem, é sempre em plano secundário, a repreenderem os filhos. Mas isso não há-de querer dizer nada. Termino com uma confissão. Sábado passado, enquanto aguardava consulta, entretive-me a observar uma mãe adolescente no átrio do Hospital. Sentou o filho no parapeito de uma janela e acendeu um cigarro. Depois, enquanto fumava o cigarro, escrevia mensagens no telemóvel. A criança chorava, queria vir para o chão. A mãe, com as mãos ocupadas no cigarro e no telemóvel, mandou um berro para a criança: «Cala-te!» Há muitas mães assim no meu bairro, entretidas no cigarro e no SMS enquanto os putos se iniciam na vida com adolescentes que, provavelmente, também tiveram mães como elas. Ontem foi o dia da mãe, espero que de todas. Eu vou rever o Aniki-Bóbó / Passarinho Tótó / Berimbau, Cavaquinho / Salomão, Sacristão / Tu és Polícia, Tu és Ladrão.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

IMAGEM

Sou daquele tipo de pessoas que veste o que tem mais à mão. Faço a barba semanalmente e há anos que o meu cabelo não vê um pente. Nunca passo a roupa a ferro, calço frequentemente meias rotas e não me nego a uns boxers de elástico relaxado. Muito raramente engraxo sapatos. Só faço questão de usar roupa escura, embora já me vá rendendo a t-shirts mais coloridas e, no verão, a calças de algodão doce. Em suma, sou muito cuidadoso com a minha imagem.

BRINCAR

Certo dia a Belinha quis brincar aos pais e às mães. Baixou as cuecas dela e eu baixei as minhas. Depois encostei a minha pilinha ao pipi dela, ao que ela exclamou: «Oh, tão pequenininha!» Eu achei que era um miminho.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

MELANCÓMICO

Não sei se é moda, mas pela segunda vez, num espaço de pouco mais que uma semana, calha-me ler um livro onde aparece um texto repetido. Entre os dois casos há uma coincidência: são livros que arrumam matéria inicialmente publicada em weblogs. Neste Melancómico acontece com uma Sinopse para um filme que, à excepção do nome da personagem, aparece integralmente repetida nas páginas 55 e 72. A gralha, chamemos-lhe assim, não pode passar despercebida, pois também ela é exemplificativa deste «tempo distraído» que Nuno Costa Santos (n. 1974) afirma ter pretendido reproduzir nos seus aforismos de pastelaria. Acaba por funcionar como uma metáfora, suponho que involuntária, desse mesmo tempo, um tempo de melancólicos humores e cómicas situações. Chamar a este um livro de aforismos é algo simplificador da profusão de conteúdos, menos superficiais do que possa parecer, nele impressos. O weblog que está na origem desta aventura, já o dissemos, deixa saudades, saudades essas que o livro apenas apazigua. Não porque seja mau – muito longe disso -, não porque esteja mal organizado - não está -, não porque não. É que o weblog mantinha um elo à actualidade que num livro sai sempre, inevitavelmente, traído. Acaba sendo esse o seu único "defeito", o de não ter resistido a uma série de textos que, por circunstâncias várias, deixarão de fazer qualquer sentido dentro em breve. O tempo é impiedoso e a sua impiedade revela-se sobretudo no sentido que usurpa ao que, tendo em tempos sido actual, é agora (será agora!) pouco mais que um fogaréu indistinto do passado. Imagino a minha filha de quatro anos a ler, daqui a uns seis anos, «O dia em que a Marta meteu baixa (e outras histórias) / Ok, Tele-seguro, fala o Tó Carlos das fotocópias» (p. 58). No mais, o Melancómico, de Nuno Costa Santos, é um muito curioso retrato da vida moderna, da vida urbana e do que nela há de mais picaresco, assim como desta «impotência mundial» que é o país em que vivemos. Destacam-se duas personagens das demais. Dona Bina e Márcio, com suas confissões, pensamentos e dúvidas existenciais, como que dão corpo, um corpo irónico, aos tormentos da contemporaneidade, às hipocrisias, isso mesmo, que nos arrumam a vidinha quotidianamente camuflada. Já as inquietações de Nuno Costa Santos revelam-se em aspectos fortemente simbólicos dos tempos hodiernos: as preocupações com o físico, o livro de recibos verdes, a filosofia do zapping, a sinusite e a praga dos inquéritos de rua, não definem, por si só, o que é a vida, mas dizem, por eles mesmos, muito do que é viver. E Portugal? Portugal sai perfeito no retrato, desde logo porque vem contornado numa profusão de neologismos em especial consonância com estes dias de “choque-tecnológico-identitário”. Já falámos do zapping, falemos do messenger, do gmail, da loja Select, da playstation, do action man e do man of the match, do light, do happening, do download e dos cocktails, do personal trainer ou, só para dar mais um exemplo, deste «Slogan para empresa dedicada ao desmancho de casamentos / Disconnecting People» (p. 38). Depois há também os media, a TVI, a SIC Mulher, a Sport TV, ou esse lugar de dar voz a um país que é o Fórum TSF. É o Portugal opinativo, o Portugal consumista invadido pelas montras do consumo internacional: IKEA, FNAC, Carrefour e, claro, o Lidl. Seja na forma de diálogo ou ao estilo de uma micronarrativa, o que ficará deste Melancómico é esse retrato (tendencioso) das tendências actuais, mesmo quando regista os modos de ser à laia de cúmulos: «Boas maneiras / Era tão bem educado que, sempre que um condutor lhe dava passagem na rua, mandava um cartão a agradecer» (p. 71). Referências a O’Neill, Celan, Ramón Gomes de la Serna, Goethe, Albert Cossery ou Raymond Carver, disfarçadas pela inclinação humorística, não permitem esquecer que este é um exercício limite desse balanceamento que é possível estabelecer entre o humor e a poesia. É literatura. Pois que outra coisa pode ser senão poesia este apontamento de Márcio?: «O que eu gostava era de ver um avião de papel a aterrar num porta-aviões» (p. 47). A edição é das Produções Fictícias e da Guerra e Paz. Se não me tivesse sido oferecido, eu tê-lo-ia comprado.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

THE SHINING (1980)


Morreremos enregelados no labirinto das nossas próprias obsessões, acossados por fantasmas injustificáveis à luz da ciência mas tão vivos dentro de nós como cada memória que a nós chegou pelos atalhos da experiência. Ver também é sentir esses fantasmas, afirmar-lhes uma certa forma de existência, mesmo que apenas dentro do nosso corpo, receptáculo de estranhas anatomias, ponto cardial de um cruzamento com múltiplas ramificações. Como a família Torrance, em The Shining (1980), enclausurada numa instância turística erigida por cima de um cemitério índio – é preciso respeitar os mortos – seremos um dia vítimas da claustrofobia que o isolamento e a solidão activam. Bastava aguentar até Maio. Não é preciso chegar a uma casa abandonada, diálogos de pacotilha sobre espíritos maus também são completamente desnecessários, basta imaginarmo-nos sós, incomunicáveis, num qualquer lugar invernoso. Escuto o vento assobiar as suas melodias enquanto lavo a louça, ouço-o deslizando por entre os pilares das obras inacabadas quando vou bazar o lixo à rua, regresso a casa com ele a bater contra os vidros, a empurrar janelas e portas, chegando ao estrondo dos medos, das aflições. Não há qualquer imaginário terrorífico por detrás destes medos, destas aflições, não há um historial, uma qualquer explicação assente em vivências passadas – afinal, até somos fãs do suspense, quando não também do terror -, há apenas um corpo reagindo espontaneamente e involuntariamente aos reflexos mais imediatos, aos receios mais antigos. E daí o que provém? A loucura, a espaços a perturbação de quem se desorienta e depois a loucura, a perda em mãos das coordenadas que nos guiam num mundo constantemente ameaçador. O medo está em nos sentirmos ameaçados. No pior dos casos, a loucura está em não sabermos responder conscientemente às ameaças. Socorremo-nos, então, de mesinhas, orações, quando necessário das armas físicas que preencherão a lacuna agora evidenciada das outras. Em The Shining o papel da criança, como n’A Palavra de Dreyer, é o mais fundamental, porque é na criança que ainda se vislumbra a razão de uma resposta autêntica, ou, dito de outra forma, a única resposta possível perante o medo e a perturbação: a resposta do bem, do bem entendido não como contraponto ao mal ou ausência do mal, mas do bem que é o coração chamando a si o desnorte da razão. W. Somerset Maugham, nesse livro exemplar chamado Exame de Consciência, definiu o mal como «uma decepção dos nossos sentidos, e nada mais». Gostaria de aqui citar um longo parágrafo do autor de Servidão Humana, mas como não quero ser fastidioso, lembro apenas Jack Torrance, em The Shining, transfigurando-se no isolamento das suas obsessões, perseguido por fantasmas para os quais ainda não encontrou uma saída de emergência, batendo nas teclas a mesma frase repetida, saltando em câmara lenta do isolamento físico ao isolamento metafísico, conquanto vejamos neste último a dimensão alucinada do primeiro, efectuando esse percurso que vai da sobriedade de um gesto, da sobriedade de um desejo, à loucura das acções. Porque ele foi um pesadelo tornado realidade, fazendo-nos lembrar o essencial: morreremos todos enregelados no labirinto das nossas obsessões.

ACIDENTE

Não fosse o acidente, o último dia do meu pai teria sido um dia como outro qualquer. Bebeu as sopas de café com pão, despediu-se dos filhos e da mulher, foi para o trabalho. Não fosse o acidente, na Nacional 1, e tudo teria corrido normal. As suas últimas palavras, já em avançada agonia, foram: «Digam… digam à minha mulher… e aos meus filhos… que... que... que eu... que eu... que eu os odeio».

CÃO

O cão tinha um resto de porcaria entalado no rabo. Ao tentar ajudá-lo, o bicho voltou-se contra o dono e, num gesto instintivo, mordeu-lhe. O dono pediu-lhe desculpa, não fosse o cão lembrar-se de fazer queixa à sociedade protectora dos animais.

terça-feira, 1 de maio de 2007

POLÉMICOS

Todos os livros que editava eram anunciados como sendo polémicos. Porém, a posteriori, polémica nenhuma sucedia. Tantos foram os livros que editou nestas condições que, já no final da sua carreira, a polémica finalmente se instalou: afinal, por que nunca gerou polémica alguma o autor repetidamente anunciado como polémico?

CARTÃO VIRTUAL

Alguém lhe enviou um cartão virtual: «Tens os mais lindos olhos de que há memória. E não és cega de todo».

LER

Organizava os livros pela cor da lombada. Da esquerda para a direita, o arco-íris de lombadas começava nas cores quentes, seguia pelas neutras e terminava nas frias. Era um regalo ler-lhe as estantes.