Dois filmes recentes de David Cronenberg: A History of Violence (2005) e Eastern Promises (2007). No primeiro, Viggo Mortensen é um ex-criminoso a tentar levar uma vida normal; no segundo, Viggo Mortensen é um agente infiltrado na criminosa máfia russa. Os dois filmes ligam-se pela temática da violência e do segredo. Em ambos os casos temos dois homens, curiosamente interpretados pelo mesmo actor, tentando sobreviver sob falsas identidades. O tema da identidade é talvez o mais central em toda a cinematografia de Cronenberg. Encontramo-lo igualmente em filmes como Spider, eXistenZ, Crash, M. Butterfly, Naked Lunch, The Fly, etc, etc, etc… O que há de interessante nestes dois filmes mais recentes é que esse problema coloca-se sob uma perspectiva realista, já não tão fantástica como em filmes anteriores, evitando subterfúgios simplificadores do problema, sejam eles de carácter psicológico ou de índole sexual. Mortensen, em ambos os filmes, é um homem à procura de si próprio em direcções diversas, é um homem sob disfarce, é um homem delimitado pelos seus segredos, é um homem tatuado pelo passado, um homem inexoravelmente disperso. Como os personagens ali interpretados, também nós jamais saberemos quem somos. A nossa vida é um disfarce permanente, mesmo quando dizemos que não temos segredos, que é tudo claro, como se alguma coisa pudesse ser clara. Só os estúpidos pensam que é tudo claro, só os ignorantes julgam estar livres de segredos. Nunca a intimidade se expõe, mesmo quando se procura expor a intimidade. É um paradoxo com o qual vivemos e do qual não nos libertamos. Não é por acaso que sábio é aquele que se conhece a si próprio, pois nada mais difícil, nada mais árduo, nada mais exigente, do que esse saber. Passamos pela vida sem nos apercebermos de que somos sombras de nós próprios, involuntariamente convencidos de vícios e virtudes que mais não são do que desculpas, simplificações, resumos de um retrato que nos escapa a toda a hora. Pudéssemos saber quem realmente somos e, provavelmente, nem de casa sairíamos, tanta seria a vergonha que sentiríamos de nós próprios. Estes dois últimos filmes de Cronenberg enfatizam bem essa dimensão do disfarce, do artifício, da dissimulação, do embuste, esse particular humano que é o da falsificação da nossa própria natureza.
sábado, 29 de março de 2008
UM PREFÁCIO PARA ONTEM
Amadeu Baptista
Outros Domínios
(Clamor por Florbela Espanca)
Prémio Literário Florbela Espanca 2007
Câmara Municipal de Vila Viçosa
Março de 2008
Prefácio: Um Prefácio para Ontem
terça-feira, 25 de março de 2008
CARAVANA
sexta-feira, 21 de março de 2008
A NEO-PENÉLOPE
quarta-feira, 19 de março de 2008
A LENTA VOLÚPIA DE CAIR
sábado, 15 de março de 2008
ÚLTIMA HORA
ASAE prepara departamento especializado na fiscalização de órgãos sexuais humanos. Prevê-se que, dentro de um ano, todos os portugueses e todas as portuguesas sejam obrigadas a um exame no departamento em causa para averiguação de possíveis atentados contra os órgãos reprodutores. Nomeadamente: estraçalhamento dos testículos com anéis, perfuração da vulva com brincos e rompimento do prepúcio à base de agulhas, alfinetes e afins. Tatuagens nesses inocentes lugares do corpo humano serão consideradas violações graves da beleza natural da coisa pública e atentados ao pudor da imaculada concepção. Estuda-se igualmente a hipótese de alargar a inspecção ao ânus de todos os portugueses, de modo a garantir condições que permitam o usufruto do mesmo pelo Governo sem danos para a saúde de enrabados e enrabadores, respectivamente, cidadãos e políticos.
terça-feira, 11 de março de 2008
BIG ODE #4
Big Ode n.º4
Tema: Urbe
Edição e Design: Rodrigo Miragaia
Design de conceito: Rodrigo Miragaia e Sara Rocio
Coordenação editorial: Maria João Lopes Fernandes
CRÓNICAS EUROPEIAS: Atenas: Pensão Afrodite, Barcelona: Matalás, Budapeste: ?, Lisboa: Clandestino, Paris: Caveau de La Huchette, Porto: Maus Hábitos, Praga: Jazz & Blues Café, Roma: Vodka Seven.
quinta-feira, 6 de março de 2008
A MINHA VIDA
A caminho da escola, a minha filha faz-me estremecer o corpo todo, mais a alminha que anda lá por dentro, com uma questão que eu diria fracturante se estivesse a falar de política (no contexto de uma conversa entre pai e filha direi antes tratar-se de uma das questões mais fodidas que uma filha pode colocar a um pai). E a questão foi: «Papá, gostava de saber por que não tens tanta sorte como o avô?» Como não sou de fugir às questões, mesmo quando elas implicam dolorosas verdades, lá lhe fui explicando que a vida está difícil, que o avô, quando tinha a idade do pai, estava bem pior, ganhava menos dinheiro, tinha um carripana velha, uma casa mais pequena, uma televisão a preto e branco, não tinha DVD, leitor de CDs, computador, jogos, que trabalhava muito mais e passeava muito menos, não comia tantos doces nem ia ao teatro e ao cinema. Enfim, tentei explicar-lhe que, apesar da minha pouca sorte, apesar da vida inútil que levo, não me posso queixar muito quando comparo a minha vida com a vida do meu pai há 30 anos. Pensei ainda, mas isso não lhe disse, que há 30 anos a vida do meu pai seria bem mais difícil do que a minha neste momento pelo simples facto de ele já ter então três filhos. Imagino o que seria viver com três filhos há 30 anos, ainda mais sendo eu um deles. Devia ser bem mais difícil do que viver com dois hoje em dia. A minha filha escutou-me atentamente, parou, olhou-me com espanto e disse-me: «Papá, não é isso, o que eu quero saber é por que é que o avô te ganha sempre às cartas?»
sábado, 1 de março de 2008
PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA
BALUERNA 29
Baluerna - Cuadernos del Viajero
Nº 29
Estación de Autobuses de Cáceres, S.A.
2008
Dois poemas traduzidos para espanhol por Antonio Sáez Delgado
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