sábado, 29 de março de 2008

FINGIR

Dois filmes recentes de David Cronenberg: A History of Violence (2005) e Eastern Promises (2007). No primeiro, Viggo Mortensen é um ex-criminoso a tentar levar uma vida normal; no segundo, Viggo Mortensen é um agente infiltrado na criminosa máfia russa. Os dois filmes ligam-se pela temática da violência e do segredo. Em ambos os casos temos dois homens, curiosamente interpretados pelo mesmo actor, tentando sobreviver sob falsas identidades. O tema da identidade é talvez o mais central em toda a cinematografia de Cronenberg. Encontramo-lo igualmente em filmes como Spider, eXistenZ, Crash, M. Butterfly, Naked Lunch, The Fly, etc, etc, etc… O que há de interessante nestes dois filmes mais recentes é que esse problema coloca-se sob uma perspectiva realista, já não tão fantástica como em filmes anteriores, evitando subterfúgios simplificadores do problema, sejam eles de carácter psicológico ou de índole sexual. Mortensen, em ambos os filmes, é um homem à procura de si próprio em direcções diversas, é um homem sob disfarce, é um homem delimitado pelos seus segredos, é um homem tatuado pelo passado, um homem inexoravelmente disperso. Como os personagens ali interpretados, também nós jamais saberemos quem somos. A nossa vida é um disfarce permanente, mesmo quando dizemos que não temos segredos, que é tudo claro, como se alguma coisa pudesse ser clara. Só os estúpidos pensam que é tudo claro, só os ignorantes julgam estar livres de segredos. Nunca a intimidade se expõe, mesmo quando se procura expor a intimidade. É um paradoxo com o qual vivemos e do qual não nos libertamos. Não é por acaso que sábio é aquele que se conhece a si próprio, pois nada mais difícil, nada mais árduo, nada mais exigente, do que esse saber. Passamos pela vida sem nos apercebermos de que somos sombras de nós próprios, involuntariamente convencidos de vícios e virtudes que mais não são do que desculpas, simplificações, resumos de um retrato que nos escapa a toda a hora. Pudéssemos saber quem realmente somos e, provavelmente, nem de casa sairíamos, tanta seria a vergonha que sentiríamos de nós próprios. Estes dois últimos filmes de Cronenberg enfatizam bem essa dimensão do disfarce, do artifício, da dissimulação, do embuste, esse particular humano que é o da falsificação da nossa própria natureza.

UM PREFÁCIO PARA ONTEM


Amadeu Baptista
Outros Domínios 
(Clamor por Florbela Espanca)
Prémio Literário Florbela Espanca 2007
Câmara Municipal de Vila Viçosa
Março de 2008


Prefácio: Um Prefácio para Ontem

terça-feira, 25 de março de 2008

CARAVANA

Quando, em Julho do ano passado, me questionaram sobre dez weblogs que gostaria de folhear, referi, entre outros, as traduções de Daniil Harms aparecidas n’O Vermelho e o Negro e as short stories que Rui Manuel Amaral foi "ensaiando" no Dias Felizes. Era quase certo que as traduções de Harms, levadas a cabo por Nina Guerra e Filipe Guerra, viessem a ser publicadas - o que sucedeu no excelente volume A Velha e Outras Histórias (Assírio & Alvim). Quanto às estórias de Rui Manuel Amaral, não havia senão a convicção de que dariam um excelente livro. Aí está ele. É um livro desejado, que me deixa feliz, ainda mais por ser um livro bonito, equilibradamente ilustrado por Francisco Costa, com algumas surpresas gráficas no interior. Como diria um velho amigo editor, é um livro de bom toque. Vem à luz numa colecção de nos deixar a boca aguada, uma nova colecção de microcontos, a Microcosmos, da não tão nova editora Angelus Novus. Na mesma colecção já foi editado um outro título: A Ovelha Negra e Outras Fábulas, do mestre Augusto Monterroso. Fiquemos atentos. Para já, ladremos um pouco a esta Caravana. A pergunta impõe-se-me: o que há nas estórias de Rui Manuel Amaral que me faz gostar tanto delas? Não sei o que têm de especial, sei apenas que gosto delas, que as acho bonitas, gosto delas sem qualquer tipo de interesse que não seja o de gostar de ler estórias e de por elas me sentir atraído. São estórias que me deixam intrigadamente bem disposto. Dispenso qualquer tipo de teoria acerca das mesmas. Limito-me a inventariar alguns apontamentos ocasionais: a) há uma destreza rara na forma como Rui Manuel Amaral trabalha o nonsense, fazendo uso de uma ironia deveras subtil mas subversiva; b) influências do humor de Gógol e do absurdo harmsiano são óbvias, sem que se sobreponham à singularidade do autor; c) alguns textos, como A Conspiração dos relojoeiros, remetem-me para a poesia de Jorge Sousa Braga, outros - penso, nomeadamente, em Maçã - dialogam bem com a Teoria das Cores, de Herberto Helder; d) a literatura é assunto recorrente, embora apareça como pretexto para uma espécie de atentado contra os lugares comuns e as ideias feitas que delimitam esse território da criação humana; e) algumas estórias aproximam-se da vulgar anedota, casos de Amor platónico (meticulosamente deixado na p. 69) e O meteorologista; f) o autor socorre-se frequentemente do trocadilho, aproveitando-se dos duplos significados de uma mesma palavra, como na História de uma beata, ou adulterando certas expressões dúbias do uso quotidiano: «a hora da morte anda ligeiramente adiantada» (p. 13), «possuía uma mente absolutamente iluminada, capaz de assegurar o fornecimento de luz a uma cidade de 100.000 habitantes» (p. 40), «A qualidade da voz da sua consciência ultrapassava largamente a dos melhores cantores líricos do seu tempo» (p. 53), «sonhou tão alto que bateu com a cabeça no teto e morreu» (p. 55), «a esperança, que costuma ser a última a morrer, há muito que se tinha posto a mexer para o outro mundo» (p. 83), etc.; g) o melhor destes microcontos (e esta é apenas uma forma de nos referirmos a estes textos) é o modo perverso e invulgar como dão lógica a um mundo que, sem disso se dar conta, é radicalmente ilógico. Sobre este último ponto quero apenas reforçar a ideia de que um olhar atento ao mundo descobre nesse mesmo mundo regras que escapam à maioria dos olhares. Tais regras, creio, são o que nos faz acreditar, por vezes, na realidade como uma imitação da ficção. Nas estórias de Rui Manuel Amaral, nem uma coisa nem outra. Estas reflectem antes uma realidade que apenas nos parece extraordinária por estarmos tão embrenhados nela que nos escapam os seus absurdos, os seus disparates e as suas contradições. O paradoxo nunca foi o oposto da verdade ou da realidade, ele é apenas uma realidade tão verdadeira quanto outra qualquer. Se o evitamos, é apenas para que possamos seguir caminho escondidos da nossa própria natureza. Não é outra a história da caravana humana: dissimular a sua própria natureza. Tudo isto enquanto os cães ladram e os gatos miam.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A NEO-PENÉLOPE

Em entrevista recentemente publicada no Diário de Notícias, Ana Hatherly (n. 1929) afirma que «o poeta, como emblema do criador, persegue todos os símbolos, todos os vestígios, ou seja, toda a memória que corre no seu sangue, e para além do espelho inventa o inaudito». No seu livro mais recente, a esposa de Ulisses, enquanto símbolo de uma certa condição feminina, é perseguida e reinventada. Talvez mais que reinventada, seja esta fiel e extremosa esposa desconstruída: «Não tece a tela / Não fia o fio / Não espera / Por nenhum Ulisses» (p. 15). Hatherly, nome que ficará inevitavelmente na história da literatura portuguesa, mais que não seja pelo pioneirismo na exploração de linguagens poéticas menos comuns, da poesia experimental ao barroco, passando pelas formas poéticas enraizadas nas filosofia e cultura orientais, propõe-nos em A Neo-Penélope uma revisão dos códigos que ainda hoje delimitam o modo como a feminilidade é perspectivada. Três conjuntos de poemas compõem a obra: Poemas Femininos, Alice no País dos Anões, Epigramas e Sátiras. A ligá-los encontramos essa intenção de repensar o feminino, quer a partir de simbologias instituídas – do mito de Penélope à fantasia de Alice -, quer através de um olhar minuciosamente irónico e satírico sobre a actualidade. Talvez não seja descuidado, provavelmente contra a vontade da autora, falarmos de um certo tipo de feminismo que sobressai nestes poemas, embora mais correcto seja falarmos antes de um olhar lúcido e consciente sobre a condição das mulheres ao longo dos tempos. Até porque mais do que reivindicarem uma aproximação entre os géneros, os poemas de A Neo-Penélope sublinham a especificidade de ser(-se) mulher: «A mulher é e não é / A campeã das gatas: / Pode encolher as unhas (ou não) / Mas o seu arco-íris da invenção / Exige mais do que / Um tapete de peluche / Para o ron-ron» (p. 13). O tom, geralmente irónico, permite à poetisa colocar-se no papel de uma Penélope que espera por algo que nos escapa. Não sabemos por quem espera ou por que espera, sabemos apenas que espera um outro, um TU ou, na sua forma mais paradoxal, um TU-EU, anunciados precisamente em maiúsculas. Este TU, dificilmente alcançável, impedido por uma espécie de reclusão interior, intimamente conflituosa e aparentemente insanável, surge-nos também como objecto amoroso. Deste modo, o amor é, no tempo e no espaço da neo-Penélope, uma força do desejo que o corpo indaga, uma aposta nem sempre ganha mas absolutamente fundamental. Leia-se, a título de exemplo, este perturbante Sem Amor: «Viver sem amor / É como não ter para onde ir / Em nenhum lugar / Encontrar casa ou mundo // É contemplar o não-acontecer / O lugar onde tudo já não é / Onde tudo se transforma / No recinto / De onde tudo se mudou // Sem amor andamos errantes / De nós mesmos desconhecidos // Descobrimos que nunca se tem ninguém / Além de nós próprios / E nem isso se tem» (p. 26). O que de algum modo é recusado é a subversão do papel do amor. O amor não implica uma entrega incondicional e passiva, ele não admite a atitude submissa que, para mal dos nossos pecados, foi desde sempre incutida na mulher que espera (ou deve esperar), na mulher que se entrega (porque é seu dever entregar-se), na mulher educada para prescindir de si própria em função do homem que ama. Ao longo da história da humanidade, o papel atribuído à mulher foi, quase sempre, o de uma inaceitável submissão. Por vezes, essa submissão aconteceu em nome do amor, como se o amor pudesse ser uma força que escraviza ao contrário de uma força que liberta. Urge subverter tais paradigmas, quebrar as regras já não num mundo de sonho, como sucede com Alice, mas na própria realidade. Alice é um pretexto, um protótipo do feminino que encerra uma invenção, uma felicidade onírica, improvável, a mulher que não existe num país inexistente, o país das maravilhas. Alice é o feminino projectado a partir das aspirações masculinas numa sociedade erigida sobre princípios arcaicamente machistas, Alice é, mais que uma mulher a sonhar, o sonho de um homem.

quarta-feira, 19 de março de 2008

A LENTA VOLÚPIA DE CAIR

Em A Lenta Volúpia de Cair, publicado pelas Quasi há um ano, Pedro Eiras (n. 1975) reuniu ensaios sobre poesia saídos anteriormente em revistas tais como Relâmpago, Textos e Pretextos, Colóquio Letras, A Phala, entre outras. À excepção do ensaio inicial, centrado numa reflexão sobre a natureza da poesia, todos os textos focam autores e obras respectivas, não negligenciando, também aí, a interrogação acerca da essência da poesia, do lugar do poeta, da natureza do poema. Num desses textos, Eiras junta três recensões a obras distintas cujo elo de ligação é a poesia de Herberto Helder. Outros autores abordados são Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos de Oliveira, Fernando Echevarría, António Ramos Rosa, Fiama Hasse Pais Brandão, Armando Silva Carvalho, Manuel António Pina, António Manuel Pires Cabral, António Franco Alexandre, Luís Miguel Nava, Adília Lopes e Luís Quintais. São quase sempre abordados isoladamente, embora noutras ocasiões o sejam também comparativamente ou em diálogo com obras alheias. Este último processo de análise verifica-se em Faca partilhada (um diálogo entre as poesias de Sophia e de João Cabral de Melo Neto) e Viver o tempo (onde a poesia de Luís Quintais é interpretada à luz do cinema de Tarkovsky). Há ainda um curiosíssimo exercício, A «Litania» reescrita, dedicado às revisões do célebre poema de Eugénio de Andrade pelas vozes de Gastão Cruz e Manuel Gusmão. Pedro Eiras denota minúcia e inteligência na interpretação, agradando, mais ainda, por um certo risco no modo experimental como se coloca frente aos objectos de análise. Talvez essa experimentação seja o que mais encanta neste volume, não porque aligeire o carácter ensaístico da escrita – antes pelo contrário -, mas por cativar a leitura com uma clara capacidade de renovação dos métodos de análise. O mais evidente nestes ensaios é o gosto pelo paradoxo, a exclusão de qualquer chave interpretativa do poema, o que seria, aliás, contraditório com a própria natureza da poesia, a opção permanente por um esforço de desbravamento de novos territórios, novas hipóteses, novos caminhos. Não há, nos ensaios de A Lenta Volúpia de Cair, a presunção de uma certeza. Há antes uma disposição indagadora que desafia permanentemente o leitor do ensaio, ao mesmo tempo que o centra no desafio que o ensaísta estabelece com a obra ou as obras em discussão. Neste sentido, é especialmente relevante o ensaio de abertura. Ele funciona como uma espécie de pórtico para uma aventura, a aventura de quem ousa, mais que ler poesia, escrever sobre a poesia que lê. Essa aventura apenas resultará em algo profícuo se ficarem previamente definidas as regras do jogo. São essas regras, esses pressupostos, que Pedro Eiras estabelece no ensaio justamente intitulado O que é a poesia? Questão recorrente, como é sabido, e sempre sem resposta ou passível de múltiplas respostas, respostas que nos aparecem invariavelmente sob a forma de interrogações. Daí que o ensaísta deva, desde logo, resolver a possibilidade de alguns equívocos, assumindo que: «Perante o poema, perante o mundo, a ciência só é uma resposta adequada para certas perguntas. Partir do princípio de que o poema deve ser explicado, interpretado, perguntado é enganador. A verdade é apenas uma consequência longínqua, acidental, acessória do poema» (p. 16). Muito haveria a dizer acerca do que se segue, não é este o local mais indicado. Não posso, no entanto, deixar de evocar três ideias que ressaltam neste ensaio, ideias essas com as quais não concordo necessariamente mas que talvez sirvam para futuras discussões: 1. a poesia nasce no sagrado; 2. o regresso à ideia de inspiração; 3. a poesia é uma Queda, assim mesmo, com maiúscula. Em jeito de provocação, levantarei, a contraponto, outras três hipóteses: 1. a de que o sagrado nasce do profano; 2. a de que o regresso à inspiração pressupõe um abandono nunca consumado (aliás, partindo do princípio que a poesia seja uma respiração, ela deverá ser tanto inspiração como expiração); 3. a de que mais que uma Queda ou uma Elevação (ou uma Salvação), a poesia é um caminho na direcção de um horizonte indefinível.

sábado, 15 de março de 2008

ÚLTIMA HORA

ASAE prepara departamento especializado na fiscalização de órgãos sexuais humanos. Prevê-se que, dentro de um ano, todos os portugueses e todas as portuguesas sejam obrigadas a um exame no departamento em causa para averiguação de possíveis atentados contra os órgãos reprodutores. Nomeadamente: estraçalhamento dos testículos com anéis, perfuração da vulva com brincos e rompimento do prepúcio à base de agulhas, alfinetes e afins. Tatuagens nesses inocentes lugares do corpo humano serão consideradas violações graves da beleza natural da coisa pública e atentados ao pudor da imaculada concepção. Estuda-se igualmente a hipótese de alargar a inspecção ao ânus de todos os portugueses, de modo a garantir condições que permitam o usufruto do mesmo pelo Governo sem danos para a saúde de enrabados e enrabadores, respectivamente, cidadãos e políticos.

terça-feira, 11 de março de 2008

BIG ODE #4


Big Ode n.º4
Tema: Urbe
Edição e Design: Rodrigo Miragaia
Design de conceito: Rodrigo Miragaia e Sara Rocio
Coordenação editorial: Maria João Lopes Fernandes


CRÓNICAS EUROPEIAS: Atenas: Pensão AfroditeBarcelona: MatalásBudapeste: ?Lisboa: ClandestinoParis: Caveau de La HuchettePorto: Maus HábitosPraga: Jazz & Blues Café, Roma: Vodka Seven.

quinta-feira, 6 de março de 2008

A MINHA VIDA

A caminho da escola, a minha filha faz-me estremecer o corpo todo, mais a alminha que anda lá por dentro, com uma questão que eu diria fracturante se estivesse a falar de política (no contexto de uma conversa entre pai e filha direi antes tratar-se de uma das questões mais fodidas que uma filha pode colocar a um pai). E a questão foi: «Papá, gostava de saber por que não tens tanta sorte como o avô?» Como não sou de fugir às questões, mesmo quando elas implicam dolorosas verdades, lá lhe fui explicando que a vida está difícil, que o avô, quando tinha a idade do pai, estava bem pior, ganhava menos dinheiro, tinha um carripana velha, uma casa mais pequena, uma televisão a preto e branco, não tinha DVD, leitor de CDs, computador, jogos, que trabalhava muito mais e passeava muito menos, não comia tantos doces nem ia ao teatro e ao cinema. Enfim, tentei explicar-lhe que, apesar da minha pouca sorte, apesar da vida inútil que levo, não me posso queixar muito quando comparo a minha vida com a vida do meu pai há 30 anos. Pensei ainda, mas isso não lhe disse, que há 30 anos a vida do meu pai seria bem mais difícil do que a minha neste momento pelo simples facto de ele já ter então três filhos. Imagino o que seria viver com três filhos há 30 anos, ainda mais sendo eu um deles. Devia ser bem mais difícil do que viver com dois hoje em dia. A minha filha escutou-me atentamente, parou, olhou-me com espanto e disse-me: «Papá, não é isso, o que eu quero saber é por que é que o avô te ganha sempre às cartas?»

sábado, 1 de março de 2008

PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA

Está pronta a Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa (Exodus), com selecção e organização de Rui Costa e de André Sebastião. O prefácio é meu. A primeira impressão é de que se trata de um volume, o segundo da colecção Anti-Matéria, graficamente cuidado (detectei uma gralha) e bem organizado. Para primeira antologia, pode-se dizer que apresenta um leque diversificado de autores. Diversificado nas propostas e no matiz geracional. Nascidos entre 1942 e 1984, marcam presença: Alcides, Alexandre Au-Yong Oliveira, Fernando Dinis, Fernando Esteves Pinto, Fernando Gomes, Filipe Guerra, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, João Carlos Silva, Luís Ene, Maria João Lopes Fernandes, Paulo Rodrigues Ferreira, Paulo Kellerman, Pedro Afonso, Pedro Amaral, Rafael Mota Miranda, Rui Almeida, Rui Costa, Rui Manuel Amaral, Rute Mota, sara Monteiro e Sónia Duarte. Objectos deste género obrigam a opções sempre discutíveis. Importa salientar que o propósito final, explícito no título, não seria o de fazer uma antologia da micro-ficção portuguesa, mas apenas uma antologia de micro-ficção portuguesa. Os autores seleccionados não configurarão o panorama da micro-ficção em Portugal, mas complementam, certamente, uma paisagem agradável com muitos caminhos ainda por explorar. Seria fastidioso falar detalhadamente sobre cada um deles, pelo que limitar-me-ei a apontar algumas pistas de leitura. Agradou-me o erotismo heterodoxo de Alcides, mais pelo trabalho de linguagem que o texto propõe do que especialmente pelo texto em si. Os policiais de Alexandre Au-Yong Oliveira são uma boa surpresa, denotando também um certo gosto pela experimentação dentro de um género que, reduzido à escala da microficção, é deveras problemático. Fernando Dinis divide-se entre o poema em prosa e o miniconto de carácter mais convencional. Fernando Esteves Pinto opta pelo registo aforístico e por diálogos arrancados ao quotidiano pessoal. O humor, em múltiplas modalidades, é a marca mais óbvia dos textos de Fernando Gomes. Gostei especialmente de Os malefícios do spam, por arriscar no malfadado território da pornografia (alguns chamam-lhe brejeirice, eu chamo-lhe devassidão). Filipe Guerra, mais conhecido como tradutor, é outra boa surpresa. Oferece-nos alguns exercícios de tipo harmsiano (de Daniil Harms, para os desprevenidos). Sobre mim, por enquanto, ainda não falarei. Inês Lourenço é outra presença surpreendente, pelo simples facto de estarmos mais habituados a lê-la em verso. Pequenas prosas marcadas pela ironia e, num caso, pela mensagem de cariz feminista. João Carlos Silva é um caso sério de humor negro, optando por remates tão filosóficos quão sarcásticos. Muito bom. Luís Ene opta igualmente por um registo aforístico, embora de tempero zen. Horas Felizes é um bonito texto. Depois há a prosa diarística, tantas vezes em registo micro, aqui representada por Maria João Lopes Fernandes. Paulo Rodrigues Ferreira, que acabou de publicar um e-book na Minguante, domina razoavelmente o humor de tonalidades mais escuras. Já Paulo Kellerman dá continuidade à inclinação melancólica que lhe conhecemos de outras paragens. A colaboração de Pedro Afonso transporta-nos para o lado crepuscular da microficção, esse lado onde a poesia e a narrativa se confundem. Excelente surpresa, são os textos de Pedro Amaral: ficções onde o absurdo serve mais para falsificar a realidade do que para caracterizá-la. Excelente. Rafael Mota Miranda é proporcionalmente poético (assim a modos que o'neilliano) e picaresco. As ficções de Rui Almeida também não enjeitam o poético, ainda que disfarçado por um tom que justapõe uma certa moral ao cómico. Rui Costa lança-nos a imaginação para o domínio da fábula e Rui Manuel Amaral domina como nenhum outro o absurdo característico das short stories de Daniil Harms. Seguem-se Rute Mota, com narrativas balouçando entre a comoção e o irónico, Sara Monteiro, com textos alicerçados na metáfora e, talvez por isso, remetendo-nos para o universo do poema em prosa, e, por fim, Sónia Duarte, com três ficções onde alguns sinais da actualidade são subtilmente satirizados. Dito isto, resta parabenizar os organizadores pela iniciativa e sugerir aos eventuais interessados a busca do objecto.

BALUERNA 29


Baluerna - Cuadernos del Viajero
Nº 29
Estación de Autobuses de Cáceres, S.A.
2008

Dois poemas traduzidos para espanhol por Antonio Sáez Delgado