segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

ODES

Acalmadas as hostes, as palavras desbravam com determinação o seu caminho. Poucos dão por elas, ainda que muitos fiquem atentos, assobiando para o lado, à erecção sanguinária das hostes. Vivemos em tempos assim. Perdido o espanto, subsumido nas certezas da ciência, procuram os olhos dos homens agora o sensacionalismo dos escândalos. Certo é que continuamos a ter sede de espanto. Por mim, prefiro o espanto da boa poesia. É esse espanto que aqui me traz mais uma vez. Ana Salomé estreou-se em livro há dois anos, com um singelo, mas prometedor, livro. Anáfora, era esse o título, juntava a poesia à arte de narrar. Os textos assumiram, na sua maioria, a forma da prosa. Relativamente a esse primeiro livro, ocorre nestas Odes mais recentes uma inflexão que não surpreende quem ande minimamente atento ao que de melhor se vai encontrando na densa floresta blogosférica. A autora do weblog O Cicio de Salomé reuniu agora em livro cinco conjuntos de poemas acidentalmente “qualificados” de odes. Num epílogo que deveria ser lido com a máxima atenção a quem interesse a matéria poética, a autora explica a opção: «nunca se poderia chamar odes aos textos deste livro mediante certas normas de versificação. Porém, não considero que só por isso, por não se seguir um procedimento formal, não se esteja perante um poema de determinado tipo». Prescindir do formalismo tradicionalista nada traz de novo, mas fica sempre bem sublinhar as pistas lançadas por quem apenas ousa improvisar depois de ter aprendido a ler a pauta. Geralmente sucede o inverso, com resultados confrangedores e medíocres. Não é o caso. Esta declaração de liberdade vem na senda de uma vontade de experimentar à qual não é alheio todo um saber literário, todo um conhecimento que alicerça a capacidade de gerar novas formas de cantar, renovadas danças, ao ritmo de uma respiração apenas coincidente com a vontade de quem escreve. Neste caso específico, poderíamos dizer antes com a vontade de quem ama, já que entre o escrever e o amar encontramos uma forte coincidência nos textos de Ana Salomé. Este amor à escrita não prescinde um amor à leitura. Talvez por isso sejam tantas as epígrafes, as evocações, as paráfrases, as intertextualidades. Mas para lá das vozes evocadas há a singularidade de uma voz. Uma voz realizada na escrita, acontecida nesse gesto de cartografar sob a forma de poemas as emoções, os sentires, decorrentes de se estar vivo. Pelas cinco partes que compõem as OdesNa Estante (10 poemas), Na Escrivaninha (11 poemas), No Parapeito (15 poemas), No Gira-Discos (30 poemas), No Envelope com Cerejas (8 poemas) – foram meticulosamente distribuídos poemas cuja unidade se nota para lá da diversidade formal e temática. Essa unidade manifesta-se, antes de mais, numa atenção extrema a pormenores que tingem os poemas, descomplexadamente metafóricos, de elementos descritivos com efeitos de tipo cinematográfico. É frequente, por exemplo, a chamada de atenção para elementos quotidianos que, de alguma forma, configuram um estilo de viver, um tom de se estar no mundo: «cheirinho a colónia de bebé» (p. 13), «tarte de morangos» (p. 14), «o JL no braço» (p. 20), «uma pulseira branca de plástico» (p. 53), «casacão vermelho» (p. 68), «vestido de veludo vermelho» (p. 72), «o urso em cima do guarda-roupa» (p. 82), «casacos de lã» (p. 104), «par de calças amarelas» (p. 105), etc. Esta atenção aos pormenores, aos gestos como o dos primeiros versos da Ode Pavese - «prendo o cabelo com dois lápis de carvão / ponho-me atenta ao ofício de viver» (p. 24) – não procuram distrair a poesia do mundo, remetendo-a para as pequenas coisas belas dos dias, mas tentam elevar as pequenas coisas belas aos grandes lugares do mundo. Até porque não há nenhuma distracção nestes poemas, poemas que logram oscilar entre uma espantosa ironia - «não há quem me parta o coração / é péssimo para a qualidade literária» (p. 31) – e uma «cruel melancolia» (p. 56) que tanto declara a «falência do amor» (p. 22) e «os escombros dos sorrisos» (p. 23) como anuncia um futuro de sonhos numa capital de amor, rompido pela velocidade alucinante da paixão. Vislumbramos ainda, nesta teia complexa de sentimentos, desabafos sobre a condição feminina - «não sou homem e a uma mulher é mais difícil / viver só com as palavras» (p. 20), «consta ainda que toda a poeta deveria saber dar o nó / em gravatas de poetas, e costurar buracos de meias / e até mesmo fazer os poemas por eles / em caso de emergência» (p. 31) -, modos de declarar que entre a condição de género e as possibilidades da existência um muro se ergue e determina a ansiada e ansiosa liberdade dos sonhos. As Odes de Ana Salomé são arrumos, são a arca de um passado pessoal, íntimo, que aqui e assim se resolve, e as sementes de um futuro anunciado na esperança, na vontade de continuar a sonhar. Mesmo quando confessam um cansaço definitivo, elas deixam a porta por fechar para que o quarto escuro se inunde das palavras que povoam os sonhos. O lirismo desta escrita intimista não está fechado sobre si próprio, não é o lirismo ensimesmado de outras escritas. Sabe rir. É bom de se gostar.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

TOM

Tinha saltos altos e só isso justificava que falasse lá do alto com uma voz tonitruante a tentar dobrar as esquinas do medo de quem, cá em baixo, arrasado, a ouvia. Porque há quem pense serem a verdade e a razão resultado do tom de voz com que se proferem as maiores barbaridades. E cá em baixo, arrasados, os pequenos insectos ouviam-na trovejar as suas razões, tão incoerentes aos olhos de quem não tem costas largas, tão sitiadas dum sono angelical, uma canção tristemente pobre cantada no palco hipócrita das angariações de fundos. Contem-te escritor, não deixes a pena fugir para o automatismo. Tem tento nos dedos, comanda a mão, regula os acidentes como quem regula o som de uma voz firmemente colada à verdade de uma razão justificável pelo volume. Ela estava bem vestida, composta. As pessoas bem vestidas, compostas, são geralmente as mais feias. Porque o facto de estarem compostas torna-as facilmente expostas à descompostura. E logo hoje, quando ainda ecoava em mim a imagem do provocador de acidentes e da criação como uma consequência desses mesmos acidentes provocados por capricho, vontade, desrazão divina. E logo hoje.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

CONTOS, FÁBULAS & OUTRAS FICÇÕES

Se a memória não me falha, foi mais ou menos aquando dos meus primeiros passos na faculdade que me ofereceram um CD-Rom sobre Fernando Pessoa onde vi, pela primeira vez, um vídeo que haveria de mudar muita coisa na minha maneira de sentir a obra do autor de Mensagem. Para trás tinha ficado a construção de um mito. O Pessoa de que nos falam na escola é um individuo soturno, fechado sobre si próprio, a viver num mundo inventado, é um genial esquizofrénico, uma criança precoce, muito cedo mergulhada na imaginação e no sonho, alheado do real e imbuído nas suas próprias ficções. Ora, no vídeo em causa o barbeiro de Fernando Pessoa falava do poeta como um homem gentil, bem-humorado, que até gostava de contar umas anedotas enquanto lhe aparavam o bigode. Este Pessoa humanizado não nega o outro Pessoa, o mitológico, o poeta das mil e uma personalidades. No entanto, é um Pessoa muito pouco divulgado. Desde que a famigerada arca se abriu, os tesouros não têm cessado de parecer. Só este ano recordo-me de dois que merecem atenção. Contra Salazar, publicado pela Angelus Novus, reúne, como o próprio título indica, textos de carácter político de oposição à então emergente ditadura salazarista. O outro volume a ter muito em conta, curiosamente com relações possíveis ao primeiro, é este magnífico Contos, Fábulas & Outras Ficções. Organizado por Zetho Cunha Gonçalves, este pequeno livro junta textos em prosa saídos da pena pessoana. Tem o mérito de nos mostrar um Pessoa mordaz, irónico, por vezes humorístico, cínico à maneira dos melhores escritores americanos e precursor de uma literatura do absurdo que veio a impor-se durante todo o século XX. À sua maneira, também estes são textos políticos. São justíssimas as palavras de Cunha Gonçalves no prefácio: «tem o leitor em suas mãos um livro irreverente e indisciplinador, um hino à liberdade, e um libelo contra toda e qualquer forma de censura, de prepotência, de submissão e de conformismo» (p. 26). A primeira parte do hino compõe-se de um conjunto de seis contos, nos quais se incluiu a obra-prima intitulada O Banqueiro Anarquista, onde o cinismo é a palavra-chave. A confusão exercida entre os planos da realidade e do sonho/ficção apresentam-se como uma constante geradora do contexto ideal para a prática de uma perversidade narrativa sem limites. Nas duas “crónicas decorativas” são alvo dessa perversidade o academismo e o espírito científico que tudo pretendem esgotar convertendo as coisas imaginadas a um realismo usurpador da beleza que o imaginário lhes confere: «Nada é sagrado para os demagogos de hoje. Que mais pretendem? quanto mais vão ousar? Só lhes falta provar que Cristo foi uma realidade, que existiu o Império Romano, que as lutas políticas da Grécia tiveram lugar realmente. Que mais querem, os novos bárbaros?» (p. 38) Fernando Pessoa subverte os planos, atira o leitor para a confusão, a fábula transforma-se num exercício descritivo da realidade, a realidade não é senão o exercício de ser fabulada. É neste labirinto da Realidade que emergem figuras como a do picaresco Manuel Peres Vigário, o ribatejano a quem devemos a expressão “conto do vigário”, ou todas aquelas das Fábulas Para as Nações Jovens. Situações cómicas que nos remetem permanentemente para esse território aquém das fronteiras que separam o real do sonho: «Na vida social, somos o que os outros nos julgam, e não o que até fingidamente somos» (p. 99). As coincidências com algumas linhas gerais da poética pessoana são evidentes, nomeadamente no que essa poética tem de subversiva. A estética modernista foi a única que se erigiu verdadeiramente no crepúsculo, no interlúdio, deixa de existir uma dicotomia entre o material e o ideal, tornando-se a existência numa experiência de tensões e de conflitos apenas superáveis esteticamente. Os três contos de O. Henry traduzidos por Pessoa e incluídos nesta colectânea seguem uma linha similar, reflectem o Real de um modo que lhe permite conferir mais realidade ficcionando-o. Mas o cúmulo desta “filosofia” é o drama estático que encerra este Contos, Fábulas & Outras Ficções. O Marinheiro é um drama sobre a passagem do tempo, sobre o tempo entendido como uma linha contínua onde o passado já não é, o presente já foi e o futuro ainda não é. Na obra pessoana tudo parece envolvido num manto onírico, um manto que repercute a experiência possível da realidade. É a experiência de um homem que olha para as paredes e sente-se observado, porque tudo se confunde com tudo quando, dentro de nós, o tudo é pensado.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

FECHAR

Papá, fecha-me.
Beatriz (2 anos)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

ANTÍGONA

O primeiro livro desta série foi publicado por uma editora que pediu o nome emprestado a uma figura trágica da mitologia Grega. Ora, tornou-se convencional afirmar o nascimento da filosofia naquelas bandas ― algo sempre discutível, mais que não seja, de um ponto de vista filosófico. Mas mais discutível ainda é afirmar o aparecimento da filosofia na sequência de um esforço de reflexão organizada sobre a realidade, esforço esse notado em alguns pré-socráticos e já evidente em Sócrates. Porque não estou interessado em debater os pormenores da questão, creio que o drama popularizado por Sófocles é um exemplo bastante aceitável de como a filosofia pode extravasar as fronteiras do silogismo e revelar-se como uma dança sobre o palco da tragédia. Todos os conflitos de uma suposta moral ocidental estão contidos em duas peças trágicas fundamentais e fundadoras: a Antígona, de Sófocles, e o Prometeu Agrilhoado, de Ésquilo. Começo pela primeira por ser nela que encontramos esse tão velho quão humano conflito entre o ser e o dever ser, entre a afirmação da individualidade e a obediência passiva à lei. No fundo, é a própria essência do pensamento filosófico que aqui está em causa, já que sem desobediência à lei não há pensamento filosófico. Este nasce do espanto e da ruptura. Do espanto perante tudo o que se revela para lá de um olhar superficial sobre a realidade e da ruptura com essa superficialidade, a mesma que as escolas propagam com programas onde mais do que questionar convém mecanizar. Ao resolver agir segundo a sua consciência, Antígona não afirma apenas a sua liberdade individual contra a tirania de Creonte. Ela não personifica a arrogância de uma desobediência imponderada e inconsequente, nem representa tão-somente a coragem dos que optam por caminhos adversos. Ser condenada a não mais ver a luz do Sol e optar por agir no sentido da condenação é, antes de mais, uma declaração do ser, a força de uma afirmação que a poucos toca durante a existência. A luz do desengano prescinde da luz do Sol. Felizes os pobres de espírito, os que vivem enganados?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

HISTÓRIAS DE AMOR

2008 ficará na memória dos adeptos da ficção curta como um dos anos mais marcantes na edição portuguesa. Ainda mal o ano tinha começado, já a OVNI dava continuidade às suas leituras à velocidade da luz com a edição de O Espelho Atormentado, de Russell Edson; a Angelus Novus inaugurou a colecção Microcosmos com colectâneas de Augusto Monterroso e de Rui Manuel Amaral; foi lançada a Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, pela Exodus; o termo micronarrativa apareceu finalmente nas páginas da imprensa escrita e muitos livros do género foram sendo publicados ao longo do ano. Entre eles, alguns clássicos. É o caso de Histórias de Amor, onde foram coligidas cerca de oitenta narrativas curtas saídas do génio de Robert Walser (1878–1956). Na contracapa somos informados de que o autor terá escrito cerca de mil, devendo-se esta selecção ao trabalho de Volker Michels. Comecei a ouvir falar de Walser, tal como a maioria dos portugueses interessados no assunto, depois do realizador João César Monteiro ter adaptado para cinema a versão que o escritor suíço fez de Branca de Neve. O texto foi publicado pela &etc no ano de estreia do polémico filme, juntamente com mais duas "versões de clássicos infanto-juvenis": a Gata Borralheira e a Bela Adormecida. Posteriormente apareceram em língua portuguesa os seguintes livros do mesmo autor: O Passeio e Outras Histórias (Granito, 2001); O Salteador (Relógio d’Água, 2003); A Rosa (Relógio d’Água, 2004); Jakob von Gunten − Um Diário (Relógio d’Água, 2005); O Ajudante (Relógio d’Água, 2006). Fala-se da influência de Walser em escritores tais como Hermann Hesse, Franz Kafka e Robert Musil, o que é apenas uma forma de justificar a importância de uma obra estigmatizada pelo alheamento público. Walser, assim como Kafka, um dos seus mais importantes apreciadores, foi redescoberto postumamente. É a sina de muitos escritores que parecem escrever para lá das fronteiras do tempo em que lhes calhou existirem. Não exagero se disser que as narrativas de Walser são geniais e este o mais belo livro publicado em Portugal durante o ano ainda corrente. Logo no primeiro conto, simplesmente intitulado Simão, ressalta a excentricidade de uma escrita repleta de observações marginais à situação narrada. O autor interpela-se, trata a história como um organismo com vontade própria, permite que o seu estado de espírito se intrometa e conduza a fluência do discurso, interpela o leitor directamente, brinca com as palavras − «As minhas palavras são como crianças e eu brinco com elas», dir-nos-á no conto A Fraqueza Pode Ser Força (pp. 169-170) −, remata o texto abruptamente: «Como tal aconteceu, será mais tarde contado pela história que, neste momento, tentando a custo recuperar o fôlego, precisa absolutamente de descansar» (p. 11). Walser é de um cinismo implacável quando aborda a tradição romântica, mostra um humor assaz sofisticado e uma ironia nada autocomplacente, desconfia dos grandes romances dedicados a matérias que podem ser sintetizadas em meia dúzia de frases, chega a ser mordaz para com a ingenuidade com que o tema é frequentemente tratado literariamente. E em contos que raramente ultrapassam as duas páginas, muitos nem meia página preenchendo, logra desenhar os traços essenciais das suas personagens sem fugir à ambivalência, ao caricato, ao paradoxo, hesitando e fazendo da hesitação uma espécie de jogo plástico que tudo justifica em matéria amorosa: «Não era uma mulher bonita e, no entanto, sim, era bonita» (p. 15). O erotismo destas pequenas histórias parece cómico quando é trágico e torna-se trágico quando é cómico. O próprio autor faz questão de o declarar, seja quando a história aparece sob as formas de carta, recensão ou relato. Entrar nestes textos faz-nos sentir perdidos numa floresta encantada onde a melancolia da paisagem contrasta com os percursos resvaladiços das paixões assolapadas. Há uma volúpia que emerge de cada frase como da terra emergem altas árvores, e o leitor perde-se entre as árvores, debate-se com contradições várias, procura orientar-se sem qualquer tipo de bússola que não seja uma desarticulação clara entre as situações narradas e as conclusões manifestadas pelo próprio autor: «Acho que a história que aqui escrevi é uma história cómica» (p. 186), «Este burlesco texto em prosa deixou-me muito sério» (p. 190). No entanto, este jogo não apaga a ternura com que muitas situações são relatadas, o enternecimento geralmente votado ao amor dos “homens simples” − leia-se o desarmante conto intitulado O Moço de Recados, sobre um “moço de recados ao serviço de um padeiro” que roubava farinha ao patrão “para a levar à mulher amada” −, a denúncia da hipocrisia dos costumes, os conflitos familiares resultantes de moralismos castradores, a ausência absoluta de uma matemática amorosa, a preferência pela discrição em matéria de aforismos sobre o amor e reflexões profundas sobre o carácter dos homens e das mulheres. O que também não nos priva de uma antologia muito pessoal a ser reflectida com mais tempo e mais espaço. Para já, fica apenas a sugestão de um livro ESSENCIAL.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

PERSPECTIVA


José Medeiros Ferreira aparece na televisão. Comentário da Matilde: este senhor está sempre a olhar para o céu.