Camarada Van
Zeller, tenho uma meta para 2013: viver com a Andresa Salgueiro. Não, camarada,
não há aqui nenhum equívoco. Eu quero mesmo dizer viver com a Andresa. Não é
como, é com. Para tal, conto ir até Marrocos dar a minha mulher para troca. Basta-me
um camelo para a viagem de regresso. Pelo caminho, deixo as filhas numa
qualquer instituição católica. Estou certo de que carecem de criancinhas
frescas como o estômago do Passos Coelho carece de vegetais. Depois,
juntar-me-ei à Andresa no projecto Believe. Podia ser Acreditar, mas em inglês a
coisa fica mais internacional. Com sorte, chegaremos à Serra Leoa com estas
ideias fantásticas. Se não chegarmos à Serra Leoa, talvez cheguemos a Marrocos (onde a minha mulher estará, rodeada de camelos).
Quem diz Believe diz Croire. O que
interessa é chegarmos lá fora, patentearmos a ideia, faremos do terceiro mundo
o nosso porto de abrigo. Descobri neste início de ano que há em mim um profundo
desejo de mudança. Já deixei de fumar, comecei a correr e comprei o livro de
receitas do Pedro Passos Coelho. O Jamie Oliver que se amanhe, com as receitas
do Passos Coelho e uma alimentação saudável, à base de sementes, a felicidade
sorrir-nos-á a cada segundo das nossas vidas. Desde há muito que, tal como a
Andresa, eu quero ser eu próprio, seguir a minha missão de elo entre várias
pessoas e grupos. Pensei em orgias, sanduíches e outras variantes, meti-me no
facebook, licenciei-me em Messianismo e Profecias na Universidade do Relvas,
mas agora a Andresa desbravou-me o caminho e iluminou-me o futuro. Eu hei-de
sobreviver trocando aquilo de que preciso pelo que de melhor posso dar. A
Andresa espera não ter de gastar 1111 euros durante um ano, eu tenho a certeza
de que não gastarei um tostão. Só se for para comprar palha para o camelo. As
despesas mais formais estão garantidas pela frugalidade do consumo. Não preciso
de água porque não tomarei banho, excepto se a Andresa me o exigir quando
vivermos juntos. Beberei o que o céu me oferecer e a terra me proporcionar.
Tenho um livro que explica como se fazem estas coisas. E como já o li, bem que
o posso trocar, sei lá, por uma dúzia de suculentas tangerinas. A minha luz
será a Andresa, de nenhuma outra luz carecerei para ser feliz. De gases estou
bem servido e o seguro e o selo do carro deixarão de ser necessários, pois
venderei o carro para poder ir até Marrocos trocar a minha mulher pelo camelo
com o qual começarei a deslocar-me para todo o lado. Para pagar a Internet, farei uma
troca com a Andresa: ela dar-me-á a sua palavra passe e eu dar-lhe-ei muitos
beijinhos e palmadinhas no rabo. Como em Fevereiro ou Março estaremos a
partilhar casa, ela disponibilizar-me-á o quarto em troca do meu entusiasmo. Nenhuma
adversidade me fará baixar os braços neste objectivo. Depois de recentemente me
terem assaltado o carro, levando-me os telemóveis (tinha um para cada orelha,
como os brincos), as chaves de casa, os cartões de identificação, incluindo o
de aderente FNAC, e até a placa dentária e a máquina de enrolar charros,
mantive o espírito positivo e recorri a trocas para resolver quase tudo.
Troquei o vidro partido do carro por um saco plástico do Modelo, deixei de usar
orelhas, pelo que já não precisarei de telemóveis, tenho a porta cá de casa
sempre aberta, estou à espera do meu novo passaporte russo e marquei consulta
com um curandeiro de Djemaa el-Fna para dentes novos a troco de muito
amor e carinho. Desistir está, portanto, fora de questão. Deixei-me seduzir
pelo conceito Believe a ponto de estar seriamente empenhado em seduzir o
conceito Andresa Salgueiro. Sinto neste momento uma energia nova a obsidiar a
minha vida, sinto isto desde que o projecto da Andresa deixou de ser o meu
projecto para passar a ser o meu projecto a própria Andresa. Tem sido uma
experiência hipergratificante e a minha vida deu uma volta de 360 graus e mais
alguns centímetros. Há pessoas que me deixam sacos com comida à porta (acho que é comida, a fome não regateia), a Quitéria
trocou comigo 21Kg de batatas por um par de estalos (eu dei as batatas) e no
bairro pressente-se já todo um futuro mais ecológico, saudável e feliz. Os
ciganos vão à lenha, ateiam o lume, eu contribuo com os gases. Os meus consumos
são muito baixos, estão mais ou menos ao nível das solas, o que faz com que me
comece a alimentar de forma mais saudável com alimentos da terra. Dantes só
comia porcarias caídas do céu. Também não compro coisas desnecessárias, tais como
brincos e lenços de pescoço Jonet ou mesmo roupa. Prefiro andar roto e nu,
apesar do frio, mas muito dignamente roto e nu. A roupa só me servia para
encher o ego, não a alma. A alma, eu encho-a de Andresa. Acho que num futuro a
médio longo prazo deixarei de usar dinheiro e serei sustentável, ecológico,
saudável e feliz. Sempre que visito os meus avós no cemitério verifico que será
essa a minha realidade. Por enquanto, camarada Van Zeller, quero apenas deixar
uma mensagem para quem ambicionar seguir-me o exemplo: estamos sempre a tempo
de mudar as nossas vidas, de mudar a nossa família, de mudar a nossa cidade, de
mudar o nosso país, de mudar o nosso mundo… Qualquer cidadão da Eritreia sabe
que isto é verdade. Mas tudo começa apenas e só quando começamos a acreditar em
nós. Eu comecei a acreditar muito em mim desde que comecei a acreditar muito na
Andresa. Não tenho dúvidas de que vale a pena acreditar na Andresa, no Pai
Natal, nas fadas e nos querubins.

:)))
ResponderEliminaramén! e que deus te abençoe o caminho!
ResponderEliminarobrigada, Henrique, obrigada :)
ResponderEliminaresta gente leva-te ao céu. :)))
ResponderEliminarbeijinhos e um Bom Ano, sem a Andresa ;)
O que estes Passos e Relvas e Gaspares e outros gostam destas Andresas e Jonets e quejandas! Que nojo! É nestas alturas que me apetece ... baixar o nível e chegar ao vernáculo!
ResponderEliminarAi eu não sei....gosto, pois, gosto, das Andresas troicadas, do Pai Natal, do Peter Pan, da fadinha Sininho....e agora do hmbf!! :)))
ResponderEliminarhmbf: Adorei o seu texto... adorei adorei adorei... ou não fosse eu a Andresa que tem como projecto!!! :) Está super bem escrito e vê-se que lê o meu blog de fio a pavio porque sabe tudinho (ou quase tudo) da minha vida!!! :)
ResponderEliminarAté acho que está tão giro, que se me desse autorização poderia pôr o texto numa página no meu livro à troca, que em breve editarei... se não aceitar a minha oferta, podemos sempre combinar um cafézinho quando eu passar pelas Caldas da Rainha antes que troque a sua esposa pelo camelo... porque ela também será bem vinda à cafezada!!!
A sério... adoreiiiiiiiiiiiiii!
Besito para si e grata... muito... fartei-me de rir!!! :D
Esta ideia foi desvirtuada ao ser tornada pública, massificada, descontextualizada. Se percebessemos que a Terra tem tudo em quantidade e qualidade não só para alimentar todos os seus habitantes mas para permitir a evolução da ciencia e da tecnologia; se percebessemos que isso só nao acontece porque o mundo gira à velocidade do dinheiro que temos...
ResponderEliminarPara mim a mensagem, seja a da Andresa ou do Gandhi, é essa: de que o dinheiro é útil na medida em que nós enquanto espécie aceitamos que é o que permite aceder ao que existe.
Na minha opinião, nao pretende, DE TODO, mostrar que somos uns ambiciosos em relação ao dinheiro que gastamos num ano, pelo contrário.