Dada a impossibilidade do autor estar presente no
convívio que teve ontem lugar no Museu Dr. Joaquim Manso – Sítio da Nazaré,
foi-me solicitado pelos editores/amigos da Volta d’Mar que apresentasse Fragmentos
Tunisinos (Fevereiro de 2014). Deixo abaixo reproduzido, de modo um pouco menos
improvisado, o que disse ou pretendia dizer no decorrer de um encontro onde se
estabeleceram pontes muito interessantes entre o desconhecido mundo dos fanzines
(vide Geraldes Lino) e o menos conhecido do que por vezes se julga mundo da
poesia.
Há quem diga que o título de um livro é aquilo que o
encerra, devendo o mesmo ser a página derradeira da obra publicada. Mas
tomemos de princípio o título da mais recente recolha de Amadeu Baptista (n.
1953), autor de uma das mais vastas obras da poesia portuguesa contemporânea
com reconhecimento comprovado nos múltiplos prémios de que vem sendo objecto. É
certo que no universo algo complexo da poesia portuguesa os prémios são, por
vezes, vistos com desinteresse e até algum desprezo, não sendo, porém, de
menosprezar a necessidade que impele o autor ao juízo dos júris. É assunto
sobre o qual teríamos muito a dizer, embora seja mais importante sublinhar
neste momento que, por ainda não terem sido premiados, estes Fragmentos
Tunisinos ocupam um lugar especial na extensa produção de Amadeu Baptista.
O
título aponta para um espaço geográfico concreto, a Tunísia, outrora um dos
mais importantes centros comerciais do Mediterrâneo a partir da mítica cidade
de Cartago. Desses tempos, restam ruínas e vestígios. Ou seja, fragmentos. Que
a este conjunto de poemas se tenha dado o nome de fragmentos é uma feliz
decisão, pois assim interpretados os poemas surgem também como testemunho do contacto
com uma herança cultural da qual nos restam meros resquícios.
A poesia de
Amadeu Baptista mantém desde sempre um diálogo muito profícuo com a história e
com a cultura, estando pejada de interlocuções onde o legado civilizacional se
vai compreendendo a partir dos seus elementos mais consistentes: textos
sagrados, obras de arte, ruínas. No entanto, estas interlocuções não se
processam com uma intenção epopeica. São, antes de mais, sublinhados de um
tempo que passou e nos ajuda a contextualizar a negra miséria em que nos
encontramos. É imaginando o grande edifício a partir das ruínas que dele restam
que melhor compreendemos o tempo e, com ele, a história, a nossa enquanto povo
mas também enquanto indivíduos.
De resto, esta compreensão estende-se à percepção
que temos dos efeitos do tempo no nosso próprio corpo. Elemento essencial nesta
poesia, o corpo aparece emoldurado em ambientes contrastantes.
Se, por um lado, ele suscita a expressão de um forte erotismo, por outro lado arrasta o verso para reflexões onde o que parece estar em causa é a ameaça
de uma vitalidade que o corpo, por múltiplas razões, já não exibe. Sucede assim
em livros anteriores, embora nos poemas deste Fragmentos Tunisinos tal
contraste não esteja tão presente. A segunda pessoa a que frequentemente se
dirigem surge tanto presente como ausente, não sendo clara a sua definição.
E
aqui cabe destacar a dedicatória que abre o conjunto: memória para al-Mu’tamid
Ibn’ Abbâd. Poeta luso-árabe, al-Mu’tamid (Beja, 1040) personifica pela sua biografia a ruína de um homem, tanto pela trágica e histórica amizade
com Ibn ‘Ammar como pelos últimos anos de desterro, presídio e miséria. Cito
Adalberto Alves: «Entre a memória de um passado auspicioso e um amargurado
presente vive al-Mu’tamid o seu drama pessoal, que exprime em versos de
excepcional força lírica. Da adversidade faz uma elegia. Das tristezas do
quotidiano extrai poesia: um bando de aves entrevisto das grades da cela; a
grilheta que lhe rói o tornozelo…» (in O Meu Coração é Árabe). Creio que os
Fragmentos Tunisinos de Amadeu Baptista, asseguradas as devidas distâncias, reflectem
um sentimento similar.
Ao lermos os 19 poemas, com títulos que convocam locais diversos da Tunísia (cidades, oásis, ilhas…), acompanhamos uma viagem que não ressoa
apenas o deleite do turista embevecido com a paisagem — «Levo na Nikon os teus
pés descalços / - os caminhos do sagrado / são insondáveis» (p. 25) —,
sublinhando antes o sentimento ambivalente do nómada cuja errância é também uma
profunda experiência de solidão, pela ausência e pela distância que experimenta
face ao passado revisitado e ao presente vislumbrado. O léxico de alusões árabes disseminado pelos poemas apela à nossa imaginação, na mesma medida em que
reconstrói paisagens das quais nos restam apenas fragmentos. Porque a viagem é
também a experiência onde o imaginário desce à realidade:
MEDENINE
Deito a cabeça na terra ocre sem fim
e sou um gigante,
troglodita.
Para que lhos compremos, as crianças atiram-nos aos pés
pequenos colares feitos de miolo de pão
- os passos da civilização jamais reconheceram os
pequenos troféus.
Entre as embalagens de película fotográfica
e o par de camaleões que a rapariga patenteia
passamos nós, como cordeiros degolados.
Nem para a turista alemã
a fascinação cessa
- contém o palmar a floresta negra.
Trinta dinares pediu Mohammed
à turista inglesa
- e ninguém regateou.
São ainda mais vastos
os grandes perigos do deserto
sem a tua presença.
Em nenhuma medina vi à venda
o azul
dos teus olhos.
Amadeu Baptista, Fragmentos Tunisinos, Volta d’Mar,
Fevereiro de 2014.
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