domingo, 20 de agosto de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #16


   O maior desafio que o mal nos coloca é sermos bons. Não se trata de responder ao mal recorrendo aos chavões religiosos da outra face oferecida ou da pena de talião, mas sim de oferecer à razão o tempo de um juízo moral ponderado. É cada vez mais tentador responder instantaneamente a todo o tipo de problemas. A alucinante prática do zapping produz os seus efeitos nefastos em campos inimagináveis. Termos roubado ócio à sensibilidade, mais do que à razão, foi um dos maiores erros a serem futuramente atribuídos a esta nova era tecnológica. Não é preciso ser-se pitonisa para o adivinhar.
   Evitando colocar tudo no mesmo saco, como responder às investidas da extrema-direita neonazi nos EUA? Como responder ao fundamentalismo islâmico do Daesh? Como responder até à insanidade dos pirómanos que vêm transformando o Verão de 2017 num dos mais nefastos da história da democracia portuguesa? Talvez seja imaginoso exigir que amemos essa gente, mas não deixa de ser um contra-senso odiá-los como eles odeiam o mundo. E o que essa gente, nos seus respectivos domínios, odeia é, precisamente, o valor maior de qualquer espécie de humanismo: a solidariedade. Mais do que a tolerância, tão facilmente confundível com bananice, ser-se solidário é um bem imenso que devemos à doutrina humanista.
   Cantava há anos o José Mário Branco, «Ser solidário assim pr’além da vida / Por dentro da distância percorrida / Fazer de cada perda uma raiz / E improvavelmente ser feliz». A quadra é de uma inteligência atroz, muito por culpa do advérbio. A felicidade não é uma probabilidade na vida de quem opte pela solidariedade, mas o ódio também não é. E, por consequência, o mal fica arredado. Constrói-se, cria-se, gera-se. Exactamente o oposto da ruína abraçada pelos paranóicos do Apocalipse. Ao contrário do que atabalhoadamente afirmava o actual presidente da mais poderosa nação do mundo, não há dois lados nesta história nem gente boa de um lado e do outro. A boa intenção conciliadora redunda num maniqueísmo insuportável, pois coloca do lado do mal aqueles que são bons, o que será sempre mais grave do que colocar do lado dos bons aqueles que são maus.
   Mas ser solidário como? Com quem? Com os energúmenos do Daesh? Com os neonazis? Com os pirómanos? Obviamente não. Recorrendo mais uma vez ao poema, «Ser solidário sim, por sobre a morte / Que depois dela só o tempo é forte / E a morte nunca o tempo a redime / Mas sim o amor dos homens que se exprime». O amor penetra então as nossas contas, o amor que surge da oferta ao outro, da entrega ao outro, daquele simples abraço que um rapaz muçulmano andou a oferecer em Manchester após os atentados nessa cidade. O terror é uma merda, o ódio que o fundamenta e estruma tem a sua origem nessa incapacidade de abraçar e amar o diferente, de nos apaixonarmos pelo diverso. É sobre estas coisas que José Mário Branco canta no álbum de 1982, sobre estas e outras porventura mais datadas. Mas estas ficarão para sempre, perdurarão no tempo, vencerão a morte e o esquecimento. O ódio não. Ainda que seja inextinguível, ele não vencerá nada. Porque ele é tão-somente morte.


2 comentários:

maria disse...

a espiritualidade a passar por aqui. :)

um beijinho, Henrique.

hmbf disse...

Outro para ti.